Judith krantz Luxúria



Baixar 1.85 Mb.
Página4/22
Encontro05.12.2017
Tamanho1.85 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22

Cornélia soube vencer com elegância. Mal podia esperar o almoço semanal com as irmãs no Chilton Club. Com um triunfo retumbante, ela vencera aquele urso trapalhão, Joe Winthrop, demonstrara uma grande generosidade e tranquilizara a sua consciência, que ultimamente a vinha atormentando, sempre que via a coitada da Honey ser excluída das corridas de natação e concursos de salto nos pôneis em sua propriedade de Chestnut Hill.

Naquele outono, equipada com tudo o que a prima Liza tinha, Honey partiu para Emery, onde passaria os seis anos seguintes, anos solitários, horrivelmente solitários, afrontosamente solitários, mais intrusa do que jamais fora.

Entre todos os tipos de esnobismo que tornam a juventude, um inferno tão grande para tanta gente, um esnobismo totalmente cruel nunca mais igualado entre os adultos, talvez não exista uma hierarquia mais rigorosa do que a reinante num internato de meninas realmente selecionado. Ele faz com que as permutas de privilégios na corte de Luís XIV pareçam altamente democráticas. Em cada turma há uma clique dominante e depois uma de segunda categoria, e de terceira, de quarta e até de quinta categoria. E depois há as aberrações. Honey, naturalmente, foi uma aberração desde o dia em que chegou. Não há lei alguma que diga que um membro de uma clique não possa ser gorda, nem que não possa ser pobre, (embora se encontrem poucas meninas pobres nesses colégios), más existe uma lei que diz que toda turma tem de ter a sua aberração e que essa aberração se identifica logo no primeiro dia de aula e continua a sê-lo até o dia da formatura.

Havia certas compensações. Honey estudava muito, pois não tinha convites para perder tempo com conversas ou bridge. Descobriu vários professores que apreciavam sua inteligência e teve ótimas notas em francês, que era ensinado rigorosamente como idioma a ser lido e escrito. Mesmo em Emery os professores logo desistiam de qualquer esforço no sentido de conversação em francês. Honey tentou fazer amizade com algumas das outras aberrações, mas esses relacionamentos eram sempre prejudicados pelo fato de saberem que se não fossem aberrações, nunca chegariam a conversar umas com as outras. O seu contato humano mais íntimo era com Gertrude, uma das cozinheiras do colégio, moça gorda que tinha um ressentimento profundo contra todas as pequenas magrinhas que ela era paga para alimentar. Honey era quase tão gorda quanto Gertrude. A cozinheira compreendia perfeitamente que Honey não pudesse subsistir comendo a comida simples da escola. Todas as noites Gertrude, tanto por maldade quanto por pena, deixava uma grande bandeja de sobras de comida, tapada, na despensa do refeitório, junto com os bolos comprados na aldeia vizinha com o dinheiro que a pequena Winthrop lhe entregava, dinheiro que Tia Cornélia tinha dado a Honey para seus gastos extraordinários.

No último ano Honey estava com sua altura máxima, de l,77m, e pesava 99 quilos. Teria pesado mais, mas Emery orgulhava-se de sua dieta sadia, de baixo teor de amidos e muita proteína. Ela fora aceita tanto em Wellesley como em Smith. Tia Cornélia pretendia custear o curso universitário da sobrinha no mesmo estilo de primeira classe adotado no internato. Mas Honey tinha outros planos, concebidos no meio da dor e da raiva. Em sua última visita à tia-avó Wilhelmina, que era mantida pela família numa casa de repouso, a velha lhe dera um cheque visado de dez mil dólares.

— São as minhas economias — disse ela. — Não deixe que saibam que você tem isso, senão George o tira de você para administrar, o dinheiro e você não verá nem os juros. Use-os enquanto é jovem, faça alguma loucura. Nunca fiz loucura nenhuma em minha vida e, Honey, como me arrependo hoje! Não espere até que seja tarde, prometa que vai gastar isso consigo.

Uma semana depois, Honey enfrentou a Tia Cornélia. Tremendo, ela. declarou:

— Não quero ir para a universidade. Não suporto a idéia de passar mais quatro anos numa escola de moças. Tenho dez mil dólares meus e pretendo, pretendo ir para Paris e morar lá enquanto puder.

— Como... onde é que você arranjou dez mil dólares?

A Tia-avó Wilhelmina me deu o dinheiro. Vocês nem sabem onde o depositei. Não vou deixar que ninguém, nem mesmo o Tio George, faça algum investimento por mim.

A menina gorda tremia num desafio inesperado, agora que afinal tinha começado a falar.

— Se eu quiser, posso fugir e estar em Paris antes mesmo que vocês saibam que fui, e não me encontrarão.

— É absolutamente impossível. Nem se cogita, minha filha. Você vai adorar Wellesley. Adorei todos os minutos dos quatro anos que...

Cornélia começou a olhar bem para Honey pela primeira vez durante aquela conversa incrível. O que viu não a tranquilizou. A pequena evidentemente estava falando sério mesmo. Aliás, se quisesse fantasiar, poderia quase dizer que era uma questão de vida ou morte. E a velha Wilhelmina certamente agira de um modo muito excêntrico. Dar dinheiro a uma criança! Nunca se viu coisa assim, a velha devia estar caduca. Mas talvez ainda se pudesse salvar alguma coisa nesse contratempo. Não seria propriamente possível obrigar Honey a ir para a universidade. Havia muito tempo que Cornélia se perguntava o que a pequena faria da vida depois da universidade. Um curso de aperfeiçoamento qualquer, provavelmente, e talvez uma carreira no magistério. Afinal, ela era a primeira da turma em francês. Parecia uma pena, a filha de Matilda tornar-se outra professora solteirona.

— Honey, venha sentar-se aqui. "Vamos, prometo pensar no seu plano, mas sob duas condições. Primeiro, teremos de encontrar uma boa família francesa com quem você possa se hospedar e onde a tratem direito. Não posso admitir que você vá morar num hotel ou numa daquelas sinistras repúblicas de estudantes. Segundo, você só pode ficar um ano — um ano basta para Paris — e quando voltar, vai prometer que vai fazer o programa de um ano em Katie Gibbs. Se fizer isso, terá a garantia de um excelente emprego como secretária executiva, pois obviamente terá de começar a pensar em ganhar a vida.

Honey ficou calada um pouco, pensando. Depois de estar em Paris, não seria fácil obrigá-la a voltar para casa. E seu dinheiro renderia mais se ela fosse morar como pensionista com uma família. Em Emery ela ouvira dizer que as famílias francesas não ligam para o que as pensionistas fazem, contanto que paguem a pensão pontualmente. E ela daria um jeito de se livrar de Katie Gibbsi Quem poderia encarar a vida como secretária? Ou frequentar aquela escola rigorosa e sufocante?

— Combinado!

Ela teve um sorriso raro para a tia. A pequena tinha mesmo um sorriso encantador, mesmo com as bochechas gordas e a papada, pensou Cornélia, vagamente. Mas era tão raro ver esse sorriso.

Naquela noite Cornélia escreveu para Lady Molly Berkeley, Lowell de solteira e um dos principais meios de comunicação de Boston com as "pessoas conhecidas" na Europa.

Querida Prima Molly,

Tenho notícias um tanto empolgantes. Honey Winthrop, filha de Joe, pretende passar um ano em Paris, aperfeiçoando o sotaque, antes de seguir para Katie Gibbs. É uma boa menina, com um bom coração embora não muito sedutora, lamento dizer. Eu gostaria de saber se, entre seus muitos amigos franceses, você conhece alguma família realmente boa, com a qual Honey pudesse ficar como pensionista. Infelizmente, ela não tem muitos recursos, de modo que terá de trabalhar para ganhar a vida, no futuro, mas dispõe de uma pequena quantia que, bem dirigida, deve ser mais que suficiente para sustentá-la nos próximos anos. Espero notícias suas, querida Molly, antes de chegarmos. Em junho estaremos no Claridge, como sempre, e estamos ambos ansiosos por vê-la então.

Saudades,

Nelie


Lady Molly Emlen Lowell Lloyd Berkeley, que tinha então 77 anos mas era bem sacudida, adorava tomar esse tipo de providência. Dentro de três semanas, chegou sua resposta.

Nelie, minha querida.

Fiquei encantada com a sua carta e tenho boas notícias para você! Andei bisbilhotando e descobri que Lilianne de Vertdulac tem acomodações para Honey. Você deve lembrar-se do marido dela, o Conde Henfi um homem tão bom. Morreu na guerra, infelizmente, e o negócio da família arruinou-se. Lilianne só aceita uma moça por ano e estamos com muita sorte porque ela é extremamente conveniente, em todos os sentidos, e é uma mulher notável e muito encantadora. Tem duas filhas, mais moças do que Honey, mas certamente serão boa companhia jovem para Honey.

A pensão, com todas as refeições, naturalmente, custará 75 dólares por semana, o que considero um preço bem razoável, levando em conta o que custa a comida no continente hoje em dia. Confirmarei as. combinações assim que tiver notícias suas. Abraços a George.

Afetuosamente,

Molly


A verdadeira aristocracia francesa, não aquela de títulos novos concedidos por Napoleão, mas a antiga aristocracia real, cujos antepassados remontam às Cruzadas e até antes, é duas vezes mais interessada em dinheiro do que o francês médio. Isso quer dizer que a velha aristocracia francesa tem quatro vezes mais interesse em dinheiro do que o ser humano normal. Para eles, todo dinheiro é dinheiro novo, a não ser que seja seu dinheiro de família ou se torne seu dinheiro. Se um de seus filhos se casa com a filha de um rico comerciante de vinhos, cujos bisavós foram camponeses, ocorre uma transubstanciação imediata e o dote dela imediatamente passa a brilhar com toda a graça de uma herança da própria Madame de Sévigné.

A aristocracia francesa tem demonstrado um vivo interesse pela boa gente de Boston desde os tempos da Revolução Francesa, quando um bostoniano, o Coronel Thomas Handasyd Perkins — cuja filha se casara com um Cabot —, pessoalmente salvou o filho do Marquês de Lafayette, levando o rapaz para o Novo Mundo. Naturalmente, era preciso reconhecer que os bostonianos eram todos comerciantes ou marinheiros, para começar, e geralmente de origem inglesa não titulada, se se insistia em pesquisar a linhagem até antes do Mayflower (como faziam muitos); no entanto, não se podia deixar de admirar sua capacidade para fazer e ampliar grandes fortunas, enquanto a cada geração se distinguiam cada vez mais. De fato, muitas de suas filhas se distinguiram de tal modo no decorrer da história, que hoje usavam alguns dos mais gloriosos títulos de França. E esses bostonianos, embora raramente possuíssem aqueles venerandos alqueires de família adornados por um château, a única coisa que realmente satisfazia a deificação do imóvel para cada francês, ainda assim possuíam uma quantidade satisfatória de moinhos, fábricas, bancos e firmas de corretagem. Além disso, tinham o ton. Nunca eram vulgares. Viviam com suas fortunas num estilo discreto, o que era simpático às muitas grandes famílias francesas obrigadas a renunciar à ostentação e grandeza ofensivas, e até fatais de seus antepassados depois da Revolução.

Sempre ficou entendido que um jovem aristocrata francês, sem fortuna de família, tinha de casar-se com uma moça rica. É uma obrigação sagrada para com os pais, consigo mesmo e com o futuro de sua família. E é o único meio de se conservar a terra. Uma aristocrata francesa sem dinheiro, e que não o obtém pelo casamento, tem igualmente a obrigação de conservar certo estilo, certas maneiras de lidar com o mundo, até chegar a morrer de fome, se bem que se espere que não se chegue a isso.

La Comtesse Lilianne de Vertdulac perdera tudo na Segunda Guerra Mundial menos o seu senso de estilo, sua coragem, sua classe e bondade. Sua classe era um misto de um gosto inato reduzido a sua expressão mais simples e um esquivamento pessoal, uma qualidade de se manter retraída, sugerindo a intimidade, que lhe dava o fascínio jamais inspirado pelas pessoas oferecidas. Até mesmo a sua bondade básica chegara a ser quase extinta pela procissão anual de pensionistas, jovens e geralmente americanas, que constituíam o seu principal meio de vida. Ela ficou mais que satisfeita por poder abrigar, durante o ano seguinte, a Sta. Honey Winthrop, sobre quem Lady Molly escrevera em termos tão carinhosos. Era óbvio que a moça só tinha as melhores relações; aliás, ela parecia ser parenta da maior parte da velha Boston, assim como Lilianne era aparentada com a maior parte do Faubourg St-Germain.

A francesa, de 44 anos, miúda e loura, morava num apartamento no Boulevard Lannes, dando para o Bois de Boulogne. Devido a complicações no congelamento dos aluguéis durante a guerra, que ainda não haviam sido resolvidas, ela e duas filhas adolescentes conseguiam morar naquele bairro muito elegante de Paris, embora não tivessem podido gastar dinheiro algum no apartamento desde 1939. Era meio imponente, embora muito estragado, e tinha tetos altos, banhados de sol. O apartamento apresentava um aconchego intensamente feminino só encontrado em casas onde não mora homem algum.

Foi a própria Madame la Comtesse quem atendeu à porta, quando Honey chegou. Em geral era a cozinheira, Louise, que ocupava o quarto no sótão da casa, quem atendia à porta quando elas esperavam visitas, permanecendo Lilianne enroscada nas almofadas fundas e gastas do sofá do salão até as visitas serem apresentadas, só se levantando para cumprimentar uma senhora mais velha, mas naquele dia ela queria demonstrar o máximo de hospitalidade. Seu sorriso de boas vindas ficou fixo, mas seus olhos se arregalaram num espanto escandalizado e uma repugnância imediata, ao apertar a mão de Honey. Nunca, nunca mesmo, ela vira uma moça tão imensa. Era um filhote de hipopótamo, era incrível, uma vergonha. Como isso podia ter acontecido? E o que ela faria com a pequena? Onde a esconderia? Ao levar Honey para o salão, onde as esperava o chá, ela tentou compreender aquele horror inesperado. Se bem que Lilianne nunca imaginasse ter de passar a vida alugando quartos a pensionistas, não obstante se orgulhava do fato de que toda moça que passasse um ano em sua casa saía de lá apresentando progressos em dois sentidos: primeiro, falando francês tão bem quanto a inteligência e aplicação da moça permitissem, e, o que era ainda mais importante, com um sentido de classe, absorvido do próprio ar de Paris, que ela nunca adquiriria se não tivesse essa oportunidade. Mas aquela moça!

Quando se sentaram defronte da bandeja do chá, a condessa falou com toda a calma, apesar de suas emoções.

— Seja benvinda à minha casa, Honey. Vou chamá-la de Honey, está bem? E você pode chamar-me de Madame.

— Por favor, madame, pode chamar-me pelo meu nome de verdade?

Honey ensaiara aquelas palavras uma porção de vezes, no avião de Nova Iorque a Paris. — Honey é apenas um apelido antigo e infantil, e já passei dessas coisas. Meu nome é Wilhelmina, mas eu gostaria que me chamassem de Billy.

— Por que não?

Certamente era mais adequado, pensou ela, pois aquela gordura tornava a pequena quase sem sexo. — Então, Billy, esta é a última vez que vamos conversar em inglês. Depois que eu lhe mostrar o seu quarto e você tiver guardado suas roupas, já será quase a hora do jantar. Jantamos cedo nesta casa, às sete e meia, porque as minhas filhas têm muitos deveres a fazer todos os dias. Agora, do jantar em diante vamos falar francês com você o tempo todo. Louise, a cozinheira, não sabe falar inglês. Vai ser difícil, eu sei, mas é o único meio possível de você aprender. — Lilianne sempre explicava bem essa condição a todas as moças novas. — A princípio você pode sentir-se tola e constrangida, mas a não ser que se faça isso, você nunca vai aprender a falar francês como deve ser falado. Não vamos caçoar de você, mas vamos corrigi-la constantemente; portanto, não se zangue quando isso acontecer. Se permitirmos que você continue a cometer os mesmos erros, não estaremos cumprindo o nosso dever. — Lilianne sabia que suas palavras não tinham quase possibilidade de penetrarem na cabeça de Billy. A despeito de seus esforços, suas pensionistas passavam os dias e muitas vezes as noites com os estudantes americanos que inundavam Paris, sem nunca se darem a oportunidade de realmente se afundarem na língua. Aparentemente, todas tinham "estudado francês" no colégio. Na opinião dela, todas tinham sido muito mal ensinadas e geralmente se contentavam em continuar ignorantes, aos tropeções.

Os olhos de Billy brilhavam. Em vez da expressão de desânimo que em geral aparecia na fisionomia das pensionistas quando ela fazia aquela declaração, aquela pequena desastrosa pareceu animar-se. Bem, pensou Lilianne, mentalmente dando de ombros, talvez ela se revelasse séria. Certamente era o máximo que se poderia esperar. Em todo caso, não seria como a pequena do Texas, que considerava o apartamento um hotel e pedia lençóis limpos três vezes por semana, ou a pequena de Nova York, que reclamava por não haver chuveiro, pois ela queria lavar a cabeça todos os dias, ou a pequena de Nova Orleans, que engravidou e foi preciso mandarem-na embora, ou a pequena de Londres que levou quatro malas, pediu dúzias de cabides e chegou a ter a idéia de usar o armário de Lilianne.

A organização doméstica em casa de Comtesse de Vertdulac era muito simples. Louise fazia todo o trabalho de casa, a comida, toda a limpeza, toda a lavagem de roupas, e todas as compras. Passara toda a sua vida de trabalho com a sua Comtesse e nem ela nem Lilianne achavam que havia alguma coisa fora do comum naquela combinação, mutuamente satisfatória.

Todas as manhãs, muito antes do café da manhã, Louise ia às lojas da Rue de la Pompe e comprava a comida para aquele dia. Comprava exatamente o que era preciso e nada mais. A cozinha não tinha geladeira. Os alimentos como queijo ou leite que tivessem de ser conservados frescos, eram guardados no garde-manger, uma caixa ventilada construída na janela da cozinha, trancada a chave.

Louise era uma boa administradora, especialista em conseguir pechinchas no mercado, figura conhecida dos donos das lojas que há muito tinham desistido de tentar vender-lhe qualquer coisa que fosse da melhor qualidade e pelos preços mais baixos. Mesmo assim, a alimentação custava pelo menos 35% do orçamento da família. Lilianne de Vertdulac sabia todos os dias exatamente quanto dinheiro Louise gastara porque tirava o dinheiro da bolsa na véspera e guardava todo o troco quando Louise voltava. Não era por falta de confiança na empregada que fazia isso, e sim pelo fato de ser o dinheiro que ela recebia da pensão cobrada à hóspede o dinheiro de que vivia toda a família. O aluguel que ela recebia da casinha de campo em Deuville só dava para pagar suas roupas e o colégio das filhas, mas a comida e o aluguel e todas as outras despesas eram atendidas pelo aluguel do quarto.

Billy guardou suas roupas modestas, a maioria saias e blusas em tons escuros, e postou-se à sacada de seu quarto, inspirando com um êxtase quase beatifico o cheiro de Paris, sobre a qual ela lera descrições tantas vezes sem sentido. Compreendeu então por que é que alguns autores experientes tinham tentado fazer o impossível, transmitir um cheiro por meio de palavras. De sua sacada estreita ela via os castanheiros e os gramados do Bois. O quarto em si tinha decoração simples, com uma cama alta e encaroçada coberta por uma colcha gasta de damasco amarelo desbotado e um almofadão em forma de rolo forrado com o mesmo tecido. No fim do corredor havia uma privada, num cubículo separado, ladrilhado, com uma corrente e papel higiênico fino, marrom-claro.

No quarto dela havia uma pia com um espelhinho por cima. Quando quisesse tomar banho, tinham-lhe dito que teria de informar à Comtesse, que então lhe cederia seu banheiro particular.

A emoção quase a fizera esquecer-se da comida, mas quando bateram à porta do quarto, para anunciar o jantar, ela viu que estava com a mesma fome de sempre. Entrou no salão, onde uma extremidade era ocupada por uma mesinha de jantar oval, e cheirou, em expectativa. Ao contrário das salas de jantar em Boston e Emery, não se sentia o cheiro da comida no ar.

As duas filhas da Comtesse estavam esperando para serem apresentadas a Billy. Cada qual lhe apertou a mão e disse algumas palavras em francês, com uma cortesia séria. Billy nunca tinha visto mocinhas como aquelas. Embora Danielle, a mais moça, tivesse 16 anos, e Solange, a mais velha, 17 anos, ambas pareciam tão crianças como as americanas aos 14. Tinham rostinhos quase idênticos, pálidos, pontudos, sérios, com feições severamente perfeitas, cabelos louros, lisos e compridos repartidos no meio e olhos cinza-pálido. Estavam vestidas de modo idêntico, em seus uniformes de Colégio de freira — saia azul-marinho de pregas e blusa azul-claro; não tinham pintura alguma e emanavam uma aura de dignidade intocada, como colegiais ingleses. Não parecia haver nada francês nelas.

Um barulho de roncos e rangidos, aproximando-se, anunciou que Louise estava trazendo um carrinho de chá antigo de dois andares, de madeira, da cozinha, que estava situada na outra extremidade do apartamento em forma de L. Billy sentou-se ao lado da Comtesse, que, com cuidado, serviu uma sopa de legumes fina e deliciosa, primeiro para si, depois para Billy e depois para cada uma das meninas. Depois da sopa comeram ovos quentes na casca, um para cada. Depois de cada prato Solange ou Danielle tirava os pratos e os arrumava com cuidado no carrinho. Havia uma cestinha de pão sobre a mesa mas Billy viu que ninguém o estava comendo ainda e ela não quis ser a primeira a se servir. Em todo caso, descobriu, apavorada e incrédula, que não tinha certeza de qual a maneira certa de dizer "passe o pão,- por favor" em francês. Seria "Voulez-vous me passer le pain?ou "Passez le pain, s'il vous plait?" Pareceu-lhe importantíssimo não dizer nada, se não o pudesse dizer corretamente. O idioma francês que Billy tinha lido e escrito com tanta confiança em Emery não parecia ter nada a ver com os sons que ela ouvia girando. e mergulhando e borbulhando e sibilando pela mesa, enquanto as pequenas conversavam com a mãe. Uma palavra em cem parecia vagamente conhecida, mas em breve toda compreensão que ela tivesse desapareceu, em seu pânico crescente, sua idéia de que de algum modo, em algum ponto, ela cometera um engano incrível. Se isso era francês, ela não sabia falar. Nada.

Depois de serem tirados os pratos de salada, foram colocados novos pratos na mesa e Madame colocou uma travessinha defronte de seu lugar. Nela estava um queijo pequeno, sobre uma esteirinha e rodeado, elegantemente, de folhas frescas de alface. A Comtesse, com atenção, cortou uma fatia para si e passou a travessa para Billy. Billy cortou para si uma fatia do tamanho exato da de Madame, muito intimidada para tomar mais. Por fim foi passado o pão, e uma manteigueira, muito pequena, embora na manteiga estivesse impresso um desenho bonito. O queijo não foi passado de novo. A sobremesa foi uma bandeja com quatro laranjas, que Madame e as pequenas descascaram habilmente com suas facas, de um modo que Billy nunca vira, mas que ela imitou como pôde. Uma jarra de vinho estava junto do centro da mesa mas só Madame se serviu de um cálice. As moças beberam água e Billy também, aliás, nunca lhe haviam oferecido vinho numa refeição.

Depois do jantar Danielle e Solange levaram embora o carrinho e Louise trouxe uma bandeja com duas xícaras de café e um bule de café-filtre. Ela colocou a bandeja na mesinha defronte do sofá no salão e a Comtesse fez um gesto indicando que Billy devia acompanhá-la, enquanto as pequenas iam continuar a fazer os deveres de casa. Até então, Billy não- pronunciara mais que quatro palavras. Quando uma das meninas lhe fazia uma pergunta, ela dava apenas um vasto sorriso — e, achava ela, feito burra —, sacudia a cabeça e dizia, imitando uma combinação de tristeza e confusão, "Je ne comprends pas". Nenhuma das duas demonstrou a mais leve surpresa. Passavam a vida morando com um desfile de moças estranhas sem voz nem fala e só se davam ao trabalho de falar com ela para mostrarem um interesse educado. Se Billy lhes tivesse respondido, teriam ficado abismadas.

Depois de passar cinco minutos calada, encabulada, tomando um café preto e forte adoçado com um torrão grande e escuro do bendito açúcar, Billy arriscou um tímido bonsoir e retirou-se para o quarto. Estava com uma fome feroz. Aquele torrãozinho de açúcar despertara nela uma ânsia de doce que ela só aliviou em parte com as duas últimas barras de chocolate que tinha na bolsa. No entanto, lembrou-se, antes de chegar ao desespero total, de que a refeição principal dos franceses é o almoço, e não o jantar, de modo que a refeição daquela noite fora o equivalente de um almoço americano. Não obstante, por que ninguém repetia pratos; por que as porções eram tão incrivelmente pequenas, um ovo quente, uma fatia de presunto, pelo amor de Deus! E por que todos se serviam de uma fatia tão pequena de queijo? Meditando sobre isso pensando em tigelas e mais tigelas de cereais com manteiga, açúcar e passas, ela afinal adormeceu.



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal