Judith krantz Luxúria



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E se soubesse, o jantar que ela acabara de comer permanecia em sua recordação como um dos mais lautos que teria em casa de Lilianne de Vertdulac. A sopa de legumes e a fatia de presunto tinham sido notas festivas e inusitadas para receber a nova hóspede.

Billy descobriu logo o menu habitual da casa. O café da manhã consistia de duas tartines, fatias de pão francês cortado de través e coberto por uma fina camada de manteiga e geléia, acompanhadas de uma tigela, funda como um prato de sopa, sem asa, contendo metade café, metade leite quente. Ao almoço, havia sempre um prato de sopa feito de um purê dos legumes que sobravam da véspera, com algumas colheradas de leite acrescentadas pouco antes de ser servida; em seguida, uma fatia razoável, às vezes duas, de carne assada, de vaca, vitela ou carneiro, tudo magro, gostoso, tipos de carne baratas que Billy nunca vira na vida. A carne era acompanhada de um punhadinho de batata palha e um raminho de salsa. Em seguida vinha um prato separado e farto de legumes quentes, maravilhosamente frescos, cozidos no vapor, com um leve brilho de manteiga às vezes visível. Depois o queijinho, sendo que cada um devia durar dois dias, uma grande salada de alface e um prato de frutas. O jantar em geral era um ovo, de algum modo, queijo, salada e fruta. Billy estava comendo cerca de 1.100 calorias por dia, a maior parte em proteína magra e frutas e legumes frescos.

Depois de dois dias dessas refeições lindamente preparadas, elegantemente apresentadas e desesperadoramente insatisfatórias, Billy começou a pensar seriamente em como poderia sobreviver. Fez uma incursão aterradora, de pesadelo, à cozinha, passando pelos quartos na ponta dos pés, como um ladrão, para descobrir que o garde-manger estava destrancado por estar vazio. Até que Louise fosse fazer compras no dia seguinte, não havia na casa realmente nem uma fatia de pão. Ela pensou em fazer amizade com Louise, mas como não sabia falar francês, isso era impossível. Pensou em ir a um café ou restaurante para comer decentemente, mas o bairro de Paris em que estava morando era inteiramente residencial. De qualquer forma, Billy sabia perfeitamente que não teria a coragem de sentar-se sozinha num café e pedir alguma coisa em francês. Como poderia fazer isso? Pensou em ir à rue de la Pompe, comprar comida e guardá-la no quarto. Podia apontar para o que quisesse e pagar o preço marcado. Mas tinha medo de que alguém a pilhasse e fizesse perguntas. Aquilo era incrivelmente constrangedor. Chegou a planejar comprar comida e comê-la na rua, mas também isso estava fora de cogitação, misteriosamente. Ela nunca vira os franceses comendo na rua, em sua vizinhança luxuosa, cercada pela Avenue Foch e Avenue Henri Martin, as duas avenidas onde estavam as mais belas residências particulares em Paris, se bem que de vez em quando ela visse um colegial correndo para casa e furtivamente mordendo a ponta de uma bisnaga de pão, uma baguette.

As tentativas de Billy para resolver suas necessidades alimentares foram complicadas pela intuição que ela desenvolvera em seus 18 anos de vida, intuição sobre ter e não ter.

Sem ter a menor noção de valor de dinheiro, ainda assim ela sabia com bastante precisão a quantidade de dinheiro que uma pessoa tinha com relação à quantidade de dinheiro que outras pessoas tinham em seu círculo. Ela era capaz de saber quais de seus primos eram mais ricos, menos ricos, os mais ricos de todos; quais as meninas em Emery que eram realmente ricas, quais as que eram apenas ricas e as que quase nem chegavam a ser ricas. Toda a sua vida fora passada lidando cem os problemas de habilitação. Ela, Billy, não era uma pessoa habilitada nem nunca fora. Algumas pessoas eram habilitadas, sem dúvida alguma, a terem tudo o que quisessem. Outras tinham uma habilitação parcial — até certo ponto, não mais. Ela absorvera isso em seu sistema de valores. Durante muitos anos Billy pensara sobre o problema, por que algumas pessoas eram habilitadas e outras não, sem chegar a uma conclusão satisfatória. Era revoltante e injusto. Mas era assim.

Portanto ela sentiu, com toda a força, o tabu em matéria de comida que existia em casa de Lilianne de Vertdulac. A quantidade de comida existente, isso foi comunicado a Billy de alguma fonte que ela reconheceu imediatamente, era toda a comida que Madame tinha meios de servir. Era toda a comida que havia ou que haveria. Também estava perfeitamente compreendido, sem palavras, que seria rude e grosseiramente mal-educado indicar que essa quantidade de comida deixava Billy vazia e com dor no estômago, de tanta fome. A única ocasião em que ela achou que podia pedir mais carne foi quando a parte cuidadosamente cortada pela Comtesse, que indicava às outras quanto poderiam comer, era menos de um quarto da comida na travessa. Nessas ocasiões, a carne que sobrava era igualmente distribuída entre as três pequenas.

Todas as noites Billy adormecia chorando. Seus dias eram uma agonia. E ela estava emagrecendo quase meio quilo por dia. Estava vivendo com quase três mil calorias menos do que absorvera desde os dias de sua infância. Se ela estivesse em colégios como Maine Chance ou Golden Door, não a prenderiam lá nem que lhe apontassem, uma arma, mas o fato é que seu interesse crescente pela Comtesse, encantadoramente misteriosa, e pela língua francesa, a cativava. Em todo caso, não tinha outro lugar para onde ir. Depois do primeiro mês, Billy começou a entender o significado das frases soltas nas conversas em sua volta. Timidamente, começou a apontar para as coisas e a perguntar como se pronunciava os nomes em francês. Procurava responder as perguntas que lhe faziam à mesa e gravava as correções de sua pronúncia em sua memória excelente. Como não tinha experiência alguma de conversação em francês, não tinha sotaque errado a desaprender. Seu francês falado era terrível, quase de analfabeto, mas o sotaque e a entonação eram de Lilianne de Vertdulac.

Uma noite, na quinta semana da estada de Billy, Danielle e Solange tiveram a primeira discussão por causa dela. Elas se haviam tornado tão indiferentes com relação às pensionistas da mãe, que raramente as mencionavam em suas conversas.

— É curioso — disse Danielle, com sua voz clara e pura — já tivemos uma porção de pequenas magras que engordaram, bebendo vinho e indo aos restaurantes toda noite com os namorados, mas nunca tivemos uma gorda.

— Basta uma — disse Solange, com rispidez.

— Não seja malvada. Talvez não seja culpa dela, talvez seja um problema de glândula — sugeriu Daniele, mais meiga.

— Talvez seja um problema de americanos gulosos que comem tudo o que vêem.

— Solange, acho que ela está emagrecendo. De verdade.

— Isso seria difícil. Não reparou que ela sempre come três tartines no café da manhã, e comeria quatro, se possível, e tenho certeza de que ela rouba açúcar. Quando levei a bandeja do café para a cozinha ontem à noite, o açucareiro estava quase vazio e Maman sempre toma café sem açúcar.

— Mesmo assim, repare como a saia dela está larga. E a blusa também.

— Já eram malfeitas, de saída.

— Idiota! Estou-lhe dizendo que ela está ficando mais magra. Olhe por si.

— Ah, não, obrigada! Vá trabalhar, sua débil mental, você está-me atrapalhando com o meu Racine.

Durante a ocupação da França e os anos difíceis que se seguiam à guerra, Lilianne formou o hábito de ver coisas que a entristeciam e imediatamente isolá-los da cabeça. Desde aquele primeiro dia, ela não olhara diretamente para a sua nova pensionista, da qual conservava uma impressão imensamente grotesca, verdadeiramente além dos limites: muito cabelo escuro esvoaçando despenteado em volta de um rosto inchado, olhos escuros e ávidos, roupas impossíveis, sapatos surpreendentemente bons, e um bom relógio de pulso. Embora ela cumprisse seus deveres como guia provisória de

Paris, levando Billy a todos os locais históricos obrigatórios, fazia isso de maneira displicente, sem observar as reações de Billy. Não tinha a menor intenção de tornar esses passeios um hábito. Suas outras pensionistas logo aprendiam a se defender e ela sempre esperava ansiosamente pelo dia inevitável em que elas não voltavam ao Boulevard Lannes para as refeições, porque tinham coisas mais divertidas a fazer. Mas aquele hipopótomode Boston, refletiu Lilianne, parecia ter-se agarrado à família pedindo-lhe emprestado o exemplar do Figaro todas as manhãs depois que ela acabava de ler o jornal, lendo Colletts no quarto a tarde toda, ficando no salão antes do almoço e do jantar, nunca perdendo o chá da tarde, dando passeios no Bois de vez em quando mas nunca se aventurando tão longe que perdesse uma única refeição. E agora Danielle vinha com a idéia de que essa Billy estava emagrecendo.

Naquela noite Lilianne pela segunda vez olhou bem para Billy. Acreditou no que viu. Uma francesa sempre acredita no que vê, seja um frango que esteja examinando, seja a nova coleção de Yves Saint Laurent. Lilianne viu uma moça muito gorda, muito pesada, alta demais, mas uma moça com algumas ligeiras possibilidades. A outra moça, a que chegara enviada por Lady Molly, não tinha possibilidade alguma. Nenhuma.

Uma francesa gosta de possibilidades quase mais do que da perfeição. Dão-lhe a oportunidade de arranjar as coisas, e os arranjos, de todo tipo, são uma obsessão gaulesa.



Arranger, s'arranger, verbos usados em francês para incluir a solução de tudo, desde um complexo problema legal até um caso de amor desgastado, desde a resolução de uma mudança no governo até a escolha do botão certo.. "Ça va s'arranger", "Je vai m'arranger", "L'affaire est arrangée", "On s' arrangera", as frases chaves na França, a promessa cumprida, as garantias dadas, as obrigações levadas a efeito. Povo nenhum no mundo, com exceção talvez dos japoneses, arranja as coisas tão bem. Circunstâncias difíceis são apenas uma questão de arranjos mais complexos.

Lillianne resolveu que o assunto Billy Winthrop devia ser arranjado devidamente. Parecia-lhe que a pequena tinha perdido até nove quilos, talvez mais, se bem que se tratando de uma pessoa tão gorda fosse difícil saber ao certo. Se ela conseguira isso em cinco semanas, dentro de mais dois ou três meses poderia tornar-se quase apresentável, e se ela ficasse apresentável, quem sabe o que se arranjaria então? Enquanto isso, havia o problema das roupas. Ela não podia mais usar aquela saia de algodão marrom que, como Lilianne, notou então, estava presa por um grande alfinete de segurança desajeitadamente colocado por dentro do cós. E aquela blusa! Um horror. Tipicamente de Boston, com certeza.

— Acho essa combinação muito chique, você não? — perguntou Lilianne a Billy. Estavam numa loja na Avenue Victor Hugo, onde as mulheres elegantes do XVIe arrondissement compravam grande parte de suas roupas de preço módico, de artigos prêt-à-por-ter. Billy ficou perplexa. Não sabia o que era chique. Chique não era uma palavra que ela jamais tivesse suposto poder aplicar-se a algum vestido. Prático e próprio eram palavras que ela compreendia. Como podia saber se algum vestido era chique?

— Sim, Madame, muito chique — pois viu pela expressão da outra que ela já se decidira. Billy, ao que se lembrasse, sempre evitara olhar-se no espelho de uma cabine de prova. Ela era perita em ficar ali num devaneio total, dócil e sem resistir, enquanto a vendedora e uma das tias escolhiam as roupas. Não tinha opinião a respeito. Não havia motivação para se interessar.

Seu tom de voz, procurando mostrar entusiasmo mas sem b conseguir, levou Lilianne a notar, pela primeira vez, como Billy era criança. Era mesmo uma criança, apenas um ano mais velha do que Solange, que ainda era uma colegial. Seus impulsos de Pigmaleão, decepcionados por pensionistas confiantes em si, que haviam rejeitado suas sugestões ou conselhos, nunca se haviam murchado totalmente. Ela sentiu um impulso de sua antiga bondade.

— Olhe só, Billy, como essa saia de flanela cinza cai bem. É realmente muito bem talhada; ela te emagrece tanto que nem posso acreditar. Vire-se e olhe-se no espelho e você compreenderá. O arranjo das pregas aqui — elas tiram vários quilos! E esses suéteres bordeaux são mesmo uma linda cor para você. Veja como aquecem a sua pele...

Billy virou-se, a contragosto. Esta era a humilhação que ela mais temia, a confrontação com sua imagem, que conseguira evitar em todas as ocasiões, astuciosamente percebendo reflexos em potencial nas vitrinas das lojas à distância. Mas percebeu que Madame não ficaria satisfeita enquanto ela não demonstrasse um interesse aparentemente real pelas saias e suéters. A Comtesse não se satisfazia com qualquer coisa, como as tias. Aliás, Billy nunca a ouvira falar num tom de voz tão tenso, como se naquela loja se estivessem resolvendo assuntos de estado.

Ela arriscou um olhar apressado ao espelho de três faces e virou a cabeça. Intrigada, aventurou-se a olhar de novo. Ficou olhando de frente para a sua imagem no espelho. Depois olhou-se de um lado, virou-se sem jeito e olhou do outro lado. Por fim ajeitou as faces do espelho de modo a poder contemplar-se de trás. As lágrimas encheram-lhe os olhos, turvando aquela vista milagrosa. Ela estava bem. Bem mesmo. Foi a única ocasião em sua vida em que ela achara isso. Estendeu os braços para a frágil Comtesse e abraçou-a pela primeira vez, acabando de vez com a cerimônia entre elas.

Vive la Trancei — exclamou Billy, rindo e chorando ao mesmo tempo. Lilianne de Vertdulac não podia imaginar por que, mas também estava chorando.

O nascimento de uma obsessão pode ser uma coisa maravilhosa — especialmente quando se trata do primeiro amor e esperança. Havia muitos anos que Billy não se amava e, durante esses anos todos, a esperança aos poucos foi-se extinguindo dentro dela. Paris fora o seu último ato de esperança e agora, vendo-se ao espelho da loja na Avenida Victor Hugo, ela sentiu os primeiros lampejos de amor-próprio.

Como se as tivesse usado a vida toda, Billy começou a praticar as características do pai Winthrop: uma dedicação total a uma causa, rígida autodisciplina, vontade de lutar pela realização a todo preço, a determinação de dirigir-se sem descanso para um ideal de perfeição. Todas essas qualidades obsessivo-compulsivas são tão necessárias para um homem tornar-se um grande pesquisador em medicina quanto o são para a transformação de uma moça gorda em uma magra.

Billy sempre fora inteligente, mas sempre fugira de qualquer tendência para a introspecção. Comia para não ter de pensar em si e o motivo por que não era querida. Então, a princípio muito timidamente e depois cada vez com maior liberdade, ela se tornou o seu próprio objeto de amor. Em breve se amou o suficiente para apreciar a fome e descobrir que, para ela; era um sentimento necessário. Em algumas semanas criou um terror obsessivo de levantar-se da mesa sentindo-se confortavelmente cheia, sentimento que duraria toda a sua vida.

Ao voltarem daquela primeira saída para compras, Lilianne apresentou Billy às filhas com uma sensação de triunfo, como se lhes estivesse-dando um gigantesco e inesperado presente de Natal. Danielle dançou em volta dela numa dança de alegria, cheia de cumprimentos, e até mesmo a sarcástica Solange teve de concordar que a pensionista era uma coisa ligeiramente menos constrangedora como companhia com 81 do que com 99 quilos. Lilianne encontrou uma balança de banheiro num armário e instalou-a no seu banheiro. Ali, todas "as semanas, as quatro mulheres tinham uma sessão de pesagem, Billy decorosamente vestida com um roupão de toalha, que pesava em si um quilo. Seguindo a dieta normal da casa, Billy continuou a emagrecer pouco mais de dois quilos e meio por semana, pelo que era premiada, aos domingos, com um pedaço extra de galinha assada magra, sem peles. Quando foi chegando aos 60 quilos, a perda do peso diminuiu, até estabilizar-se em 58 quilos num esqueleto de 1,77 metros.

À medida que sua gordura se dissolvia, Billy descobriu seus ossos. Eram ossos pequenos, como os da família da mãe, e compridos, como os da família do pai. "Ossos pequenos e longos — ossos longos e pequenos", murmurava ela para si, como uma mantra, repetindo aquilo durante horas, "ossos pequenos e longos". Em breve ela descobriu que não tinha músculos, a não ser nas pernas, graças ao hóquei obrigatório e a andar de bicicleta pelas ladeiras de Emery. Entrou para um curso de dança moderna diário, à tarde, na rue de Lille, a vários quilômetros de casa, e nunca faltou a uma aula.

Muitos rituais, todos ligados ao seu corpo, se apoderaram dela. Tinha de ir a pé pelo menos na ida ou na volta do curso, ou, se faltasse um dia, ida e volta no dia seguinte. Nunca podia comer a terceira tartine ao café da manhã. Tomava café sem açúcar. Tinha de escovar os cabelos exatamente 200 vezes por dia. A nova roupa de baixo que comprara tinha de ser lavada todas as noites antes de dormir, por mais cansada que estivesse. Billy anotava os alimentos de cada refeição num caderninho secreto e calculava quantas, gramas de comida consumia cada dia. Abraçou a religião da magreza como se tivesse tido uma conversão espiritual. Se fosse necessário fazer penitência, Billy a cumpriria satisfeita.

A saia cinza nova teve de ser apertada duas vezes pela costureirinha de Lilianne. Em breve os suéteres bordeaux de Billy ficaram largos para ela, mas estava resolvida a não comprar outros até acabar de emagrecer. Desfez-se de todas as roupas velhas, a não ser o manto de inverno, de marta castanho escuro, que Tia Cornélia lhe dera de presente quando completara 18 anos. Enquanto ela ainda estava emagrecendo, Billy e a Comtesse foram ao Hermes, onde Billy comprou um cinto largo para prender o casacão e um estreito para os suéteres. Além disso, comprou sua primeira écharpe do Hermes. Lilianne lhe ensinara que com uma saia bem feita, um bom par de sapatos, um suéter decente e aquela écharpe de Hermes indispensável, qualquer francesa se pode considerar tão bem vestida quanto a Rainha da Inglaterra, a Rainha da Bélgica ou a Comtesse de Paris, esposa do pretendente ao trono da França, pois, foi assim que essas damas reais sempre se vestiram em suas vidas particulares.

Billy tinha um segredo. Estava começando a compreender quase tudo que se dizia à mesa. Não falava muito com as outras, pois há um mundo de diferença entre entender e chegar a aventurar-se em mares perigosos da conversação. Mas tinha certeza, em seu íntimo, de que cada dia estava progredindo mais. Aquilo a enchia de uma sensação de expectativa assustada que procurava afastar. As regras de gramática e listas de palavras de vocabulário, um dia decorados e registrados nos cadernos dos exames, começaram a lhe voltar à mente. Tudo aquilo agora vivia, saltava, cantava e até as terminações dos verbos assumiam um ar de propriedade absoluta, de necessidade. De repente tudo parecia fazer todo o sentido. Billy sentiu que a língua francesa era o seu tesouro de avarento, a pilha secreta que poderia abrir a entrada do reino. Mas ela ainda não estava preparada para provar-se diante de um grupo.

Danielle foi a primeira a notar.

— Maman?

— Sim, chêrie?

— Acho que Billy tem ouvido.

— É mesmo?

— É, tenho certeza. Outro dia estávamos sozinhas, por poucos minutos, e eu a elogiei pelo emagrecimento e ela me respondeu e conversamos um pouco. Ela tem ouvido. A gramática e vocabulário ainda não estão bons, ela não entende nada do subjuntivo, mas o ouvido existe.

Lilianne teve uma sensação de triunfo. O ouvido era tudo. A pessoa pode viver na França vinte anos e falar um francês impecável, de compêndio, mas se não tiver ouvido para a língua, nunca será aceita como francês pelos próprios franceses. Os franceses, ao contrário dos americanos, não acham graça nenhuma em ouvir alguém falar a sua língua adorada com um sotaque estrangeiro encantador. A não ser que essa pessoa seja obviamente nobre e inglesa, e nesse caso é compreensível, e até perdoável, senão agradável. Se "Billy tinha realmente ouvido, e Danielle não podia estar enganada num caso tão sério quanto esse, era porque ela, Lilianne, insistira para que ninguém lhe falasse em inglês. Suas filhas, que eram mandadas para passarem, o verão em casa de amigos ingleses todos os anos, falavam um inglês perfeito, de classe superior. Como todos sabem, uma segunda língua era a base de toda boa educação. Mas Billy nunca suspeitara de que se podia comunicar com elas em sua própria língua e fazer-se entender. Isso teria estragado tudo. De fato, as coisas estavam com cara de se estarem arranjando.

Em fins de dezembro, a Comtesse recebeu um presente de cinco coelhos bonitos e gordos do sobrinho. Comte Edouard de lá Cote de Grace, que os abatera nos campos de sua residência de caça na Île-de-France, á cerca de 60 quilômetros de Paris. Louise, que era famosa por sua cozinha tradicional regional nos dias de fartura de antes da guerra, fez compras especiais nas lojas, um dia de manhã, voltando com todos os ingredientes para um clássico râgout de lapin e sua especialidade, uma torta de maçã aberta, com glacê de xarope. A Comtesse convidou seus ilustres tios, o Marquês e a Marquesa du Tour la Forêt, bem como outro casal de meia-idade e simpático, o Barão e Baronesa Mallarmé du Novembre, que Billy já conhecia de um dos jantarzinhos pouco frequentes que a Comtesse dava, possibilitado pelo presente de uma caça dado por algum amigo caçador.

Lilianne de Vertdulac fora motivada tanto pelo espírito de hospitalidade, pois ela cultivava seu círculo de velhas amizades, como pelo desejo de exibir a sua realização. Billy, pensou ela, faria honra a ela. Com efeito, a pequena ainda não tinha chique. Se bastasse uma écharpe de Hermes, o mundo inteiro poderia ser, chique. Mas ela conseguira uma coisa muito mais importante, na opinião da Comtesse. Tinha classe. A pele dela era maravilhosa, os dentes perfeitos (graças à insistência de Tia Cornélia quanto aos ortodontistas), os cabelos compridos e escuros, escovados e puxados para trás num simples rabo de cavalo eram espessos e bem tratados, e a saia e suéter eram de uma qualidade justamente o suficiente para completarem o conjunto. As maneiras dela eram modestas, a posição do corpo, depois das aulas de dança, excelente, e ela parecia exatamente o que era, une jeune filie américaine de três bonne famille. A Comtesse conhecia bem os amigos: faziam seus juízos segundo os padrões patrícios mais elevados e mais antigos; eles não podiam ser iludidos por uma imitação, nem mesmo a mais esperta. Ela nunca os teria convidado para um jantar íntimo com a pequena do Texas ou a de Nova York, mas essa pequena de Boston era outro caso. Podia passar no exame. Seu mutismo em público poderia passar por reserva e, o mais importante de tudo, ela não era mais gorda, coisa nunca vista em pessoas de classe a não ser que fossem muito velhas ou muito nobres.

De vez em quando, recentemente, Billy dera mostras de algo que a Comtesse acreditava ser a verdadeira beleza, mas ela se dizia que era cedo demais para saber se seriam uma promessa do futuro ou apenas um desejo de sua parte. Bastava que Billy continuasse magra, preveniu-se Lilianne.

O Marquês du Tour la Forêt, que admirava a coragem da sobrinha, em sua situação financeira precária, levou um presente de três garrafas de champanha, para acompanhar o jantar, ç insistiu com galanteria para que Billy bebesse uma taça, cada vez que se abriu uma garrafa, recusando-se positivamente a dar atenção aos protestos dela, no sentido de que não estava nada habituada a beber vinho. A mesa foi aumentada para acomodar os quatro convidados, e enquanto Danielle e Solange serviam as tortas de maçã, a Baronesa Mallarmé du Novembre tentou conversar com a jovem pensionista de Lilianne, tão encabulada, perguntando-lhe se era verdade o antigo ditado sobre Boston: "que os Lowells só falavam com os Cabots e os Cabots só falavam com Deus".

Ora, esta não é uma pergunta que se possa fazer à toa a um Winthrop. Nem mesmo de brincadeira. Billy, antes de ter tempo de sorrir que sim ou que não ou sorrir das várias maneiras que ela inventara para responder às perguntas sem falar, viu-se envolvida no meio de explicações complicadas e detalhadas sobre os méritos relativos dos Gardners, os Perkins, os Santostalls, os Hallowells, os Hunnenwells, os Minots, os Weldss e os Winthrops, em relação aos Lowells e aos Cabots. Tocou de leve nos antepassados dos Walcotts, os Birds, os Lymans e os Codmans antes de terminar o seu voo genealógico, apaixonado e influenciado pelo champanha, quando alguma coisa na expressão incrédula de Madame lhe chamou a atenção e ela percebeu que estava falando, seria demais? Seria muito-alto? Não, estava falando em francês!

A barreira fora derrubada, e nunca mais seria erguida. Uma dessas experiências decisivas numa língua é o suficiente. Abriu todas as portas da mente de Billy, destruiu todas as suas hesitações, venceu a sua timidez.

Falando francês, Billy viu-se uma pessoa diferente do que jamais fora uma prima pobre, nunca fora a última e menos importante dos primos. Nunca, parecia, fora gorda. Nem solitária nem pouco amada. Ela viu que as lições que aprendera de cor, e das quais rapidamente se esquecera, lhe voltavam inundando a mente, cheias de uma realidade tão óbvia e lógica que ela exclamava com pesar diante da ignorância de seu significado com que as decorara ura ano antes. Ela falava e falava e falava. Com os motoristas de ônibus, com Louise, com Danielle, e Solange, com as crianças no parque, com todas as meninas da aula de dança, com os vendedores de bilhetes do Metrô, e especialmente com Lilianne.

Todos os dias ela se distendia em francês e distendia seu corpo na aula de dança. Gulosamente, ela acumulava as minúcias da vida francesa. Era perfeitamente correto dirigir-se a uma duquesa apenas como "Madame", depois lhe ser apresentada, mas era preciso ter o cuidado de se dirigir à concierge dizendo seu nome todo, "Madame Blanc", cada vez que a visse; a pessoa não poderia viver feliz na França se não soubesse acender a um bom fogo na lareira, pois a lei só exigia que o proprietário aquecesse o prédio quando a água estivesse a ponto de congelar nos canos; uma moça solteira nunca devia esperar que lhe beijassem a mão, mas, se isso acontecesse, nunca devia mostrar ter notado a irregularidade; num jantar de bufê (americano) as mulheres da casa servem os pratos dos homens antes de se servirem — pelo menos chez Madame; e, coisa surpreendente, a Comtesse se considerava boa católica, embora só fosse à missa na Páscoa. Mais, mandar um arranjo de flores é um insulto, pois sugere que você acha que a destinatária não é capaz de arrumar as flores, mas não é tão grave quanto escrever uma carta pessoal numa máquina de escrever.

Ela então comprou roupas novas, com o que a Comtesse achou ser um cuidado típico de Boston. Alguns suéteres e saias, várias blusas de seda, um casaco de lã de corte masculino e um vestido preto simples, que usava com o colar de pérolas muito bom que a Tia Cornélia lhe dera quando ela se diplomara em Emery. Todas as compras foram feitas na loja da Avenue Victor Hugo, com os conselhos de Lilianne, que iniciou Billy de uma vez por todas no pequeno grupo de mulheres que compreendem perfeitamente o imenso abismo que há entre roupas que servem e as que não servem. Lentamente ela foi explorando os mistérios e a significação do corte e qualidade. Juntas elas foram às coleções de Dior, onde a diretora, moça esguia, de voz rouca, chamada Suzanne Luling, amiga de Lilianne, lhes arranjou lugares excelentes, na segunda fila, apenas cinco semanas depois de aberta a coleção, logo que os compradores sérios acabaram de comparecer e fazer suas encomendas, dando lugar aos simples observadores. Foram a outras coleções, chez Saint Laurent e Lanvin e Nina Ricci e Balmain e Givenchy e Chanel, os lugares menos bons, às vezes bem maus, pois as comtesses sem dinheiro não são tratadas com muito respeito nas casas de alta costura; no entanto, os comentários em voz baixa que Lilianne despejava nos ouvidos de Billy eram tão observadores e de tanta finura quanto seriam se elas estivessem olhando com toda a intenção de comprar,

— Aquele modelo nunca serviria para você, é sofisticado de mais para uma pessoa de menos de 30 anos; aquele vestido é exagerado demais — estará démodé na próxima primavera; mas esse servirá durante três anos; aquele costume é feito de uma lã pesada demais — vai se deformar; aquele casaco deixa a gente deselegante; aquela cor abate; esse vestido é uma perfeição. Se você só pudesse comprar um artigo, seria esse. — Intimamente, ela se perguntava por que Billy não comprava pelo menos um costume Chanel. Até mesmo a conhecida mania dos bostonianos, de viverem da renda tia renda de suas rendas certamente poderia, no caso de Billy, ceder a uma tentação tão razoável durante um ano em Paris. Era uma pena ela não aproveitar a ocasião. No entanto, o modo de gastar dinheiro não era um assunto que Lilianne se achasse no direito de debater com suas pensionistas, nem mesmo uma tão querida como aquela.

Aquela mulher infinitamente sofisticada e a moça de dezenove anos muitas vezes passeavam juntas pela rue du Faubourg St. Honoré, analisando e formando opiniões sobre cada objeto em cada vitrina, como se aquilo fosse uma vasta galeria de arte e elas as colecionadoras mais exigentes. Billy observou os padrões de qualidade de Lilianne. Como a Comtesse não tinha meios de satisfazer os seus gostos, podia dar-se ao luxo de só aprovar o que havia de melhor e mesmo isso depois das comparações mais judiciosas.

A Comtesse nunca considerara que fizesse parte de seus deveres para com as pensionistas apresentá-las a rapazes simpáticos e direitos. Primeiro, ela não conhecia muitos rapazes franceses e depois isso traria uma complicação desnecessária à sua vida. Depois, ainda, em breve ela teria de introduzir as filhas na vida social, perspectiva que a. apavorava, pois não tinha o temperamento casamenteiro e elas eram moças sem nada para oferecer a não ser suas pessoas, e seu sangue antigo.

No entanto, sentiu uma tentação, ao contemplar pensativa a jovem que agora ocupava um lugar especial sob o seu teto; uma moça alta e esguia de classe indiscutível, sim, uma moça bonita, uma moça que falava um francês de que nenhum americano se poderia envergonhar, uma moça que era aparentada com todas as grandes fortunas de Boston, uma moça que lhe chegara recomendada pela veneranda e imensamente rica Lady Molly Berkeley.

Se Boston, disse Lilianne consigo mesma, lhe enviara um filhote de hipopótamo que não sabia nem perguntar as horas em francês, por que ela havia de devolver aquela pequena, que ela transformara, ao que devia certamente, ser um ambiente triste e antipático? Billy, ao contrário das outras moças que acolhera, nunca mostrara o mais leve sintoma de saudade de casa. Se aqueles ricos comerciantes de Boston não sabiam descobrir o que havia de melhor nas sua filhas, mereciam perdê-las.

Afinal, por que não prender Billy na França? Por que não apresentá-la a vários de seus sobrinhos e talvez a um ou dois de seus amigos? Todos tinham uma coisa em comum: as famílias tinham perdido dinheiro com a guerra, uns mais, outros menos, e esses jovens brotos da antiga aristocracia haviam sido obrigados a trabalhar para ganhar a vida, como todo mundo. A Segunda Guerra Mundial concluíra, para grande parte da Velha França, uma decadência que até mesmo a guilhotina fora seletiva demais para conseguir.

De qualquer forma, pensou Lilianne, mesmo que aquilo não desse em nada, certamente não era normal que Billy continuasse a viver como colegial meses depois de completar 19 anos, sem outra companhia que não a de outras mulheres, colegas da aula de dança, e velhos amigos da família (naturalmente, a Comtesse tinha sua vida particular, ainda era jovem, voyons, mas isso era uma coisa muito discreta mesmo e nenhuma pensionistas, por mais íntima que se tornasse, jamais tomaria conhecimento dela.)

Mas quando ela sugeriu a Billy que poderia ser divertido conhecer alguns rapazes, a reação foi violenta.

— Não, Madame! Eu lhe imploro! Estou tão feliz assim, minha vida está perfeita como ela é. Não há nada mais constrangedor do que ter um encontro com um rapaz desconhecido. Sei que fala por bem, mas, sinceramente, não estou interessada em absoluto. A família é mais do que suficiente para mim. Nunca mais me fale nisso, por favor.

Nada que ela dissesse poderia ter consolidado mais os planos ainda nebulosos de Lilianne. Isso não estava nada certo. De que servia uma transformação se não havia ninguém para admirá-la? E se a Gata Borralheira não tivesse ido ao baile? Ela estava certa, ao supor que a situação não era normal. Como Billy podia realmente lhe fazer honra, depois de todos os seus esforços, se a moça não tinha um único admirador masculino? Afinal, ela não a estava preparando para ser freira. Obviamente, essa virgem de Boston tinha de ser manobrada. Era preciso arranjar aquilo — não era mais que sua obrigação.

O Comte Edouard de Ia Cote de Grace era o sobrinho preferido de Lilianne. Ao contrário dos herdeiros de muitos nomes ilustres, fisicamente insignificantes, ele tinha um quê de verdadeira nobreza, um ar de outros tempos. Parecia realmente ser o último dos grands seigneurs, embora Lilianne não pudesse deixar de sorrir diante de algumas de suas pretensões. Edouard era muito alto, tinha um nariz belamente afilado, lábios finos e arrogantes e uma expressão, ao mesmo tempo severa e, quando ele queria, divertida/Aos 26 anos, ainda morava em casa dos pais, pois seu ordenado na L'Air Liquide não era suficiente para permitir-lhe manter uma casa num estilo que ele aceitasse. No entanto, seu futuro na gigantesca companhia estava garantido, devido à influência da família, pois tinha, do lado da mãe, como se dizia na gíria, du pisont.

Uma tarde Billy chegou da aula de dança quase tarde demais para o chá. Ela decidira ficar de pé, do lado de fora na plataforma do ônibus n.° 52, durante meia hora da viagem, a despeito do frio cortante de princípios de fevereiro, pois era uma tarde tão clara e límpida que ela não queria perder um minuto de Paris. Estava com as faces em fogo e os lábios sardento. Em volta do rosto rosado, os cabelos estavam soltos, desfeitos pelo vento, e ela entrou depressa no apartamento do Boulevard Jannes com passos alongados e impetuosos, muito alta, rindo, na expectativa de uma xícara de chá quente. Defronte da lareira acesa, os pés bem afastados, estava Edouard de la Cote de Grace, vestido de modo muito protocolar, de fraque e calças listradas, esquentando o traseiro com toda a pose do Rei Sol.

— Este é meu sobrinho, o Comte Edouard de la Cote de Grace, Billy — disse Lilianne, com displicência. — Edouard, esta é Mademoiselle Billy Winthrop, que mora conosco. Billy, você vai desculpar a figura de Edouard — não é sempre que ele se veste assim a esta hora. Contudo, ele hoje vai ser aceito pelo Jóquei Clube e veio mostrar-se à tia velha antes de ir beber uma garrafa de champanha inteira, sozinho, olhe bem, para então ser considerado oficialmente sócio do clube. Que loucura! Foi gentil de sua parte, Edouard, passar para me ver antes dessa cerimônia curiosa, em vez de depois.

E foi assim que começou. Completamente seduzida, imersa no glamour de Edouard, apaixonada pela primeira vez na vida, Billy mergulhou no romance com uma entrega total, uma impetuosidade que perturbou Lilianne de Vertdulac, a despeito da sua complacência diante do sucesso de seu plano.

Todas as ocupações de Billy passaram a ser novos meios de se tornar digna de Edouard, sua mente e emoções focalizadas completamente nele. Ela não podia acreditar em sua sorte, quando Edouard ia levava para caçar coelhos nos fins de semana ou a convidava para jantar em casa dele com os pais. Uma vez ele chegou a convidá-la para beber alguma coisa no bar do sacrossanto Jóquei Clube, o mais fechado dos clubes masculinos do mundo.

Quanto a Edouard, estava bem satisfeito. Aquela americaninha de Lilianne era muito mais atraente do que ele esperava, considerando-se a qualidade bastante decente de suas origens. Sabia por experiência própria que as outras pequenas de grande fortuna que ele conhecera não eram pequenas que ele considerasse fisicamente aceitáveis, do contrário ele há muito se teria se casado com uma delas. Billy ficaria bastante bem no papel de Comtesse de la Cote de Grace, desde que as combinações estivessem corretas, claro. Ele a achava tanto adequadamente inocente quanto devidamente impressionada com ele. Com o penteado certo, roupas certas e a maquilagem certa, ela poderia tornar-se uma imponente dama da sociedade. Quando o pai e o tio dele morressem, e ela se tornasse Madame la Marquise de la Cote de Grace, estaria preparada para a dignidade do nome. Ele pensou em sua cabana de caça, tão necessitada de reformas estar reduzido a caçar a pé! —, pensou no château da família em Auvergne, esperando ser restaurado à sua primitiva beleza. Era bem evidente que estava na hora de fincar os pés no chão.

Parte do trato que Billy fizera com tia Cornélia era que ela escreveria de Paris todas as semanas. De propósito, falara apenas vagamente sobre o seu peso, pretendendo surpreender e aturdir Boston inteira quando voltasse. Raramente falava em Edouard, a não ser por alto, mas na primavera Cornélia sentiu que havia alguma coisa entre Billy e esse jovem conde, embora tivesse dificuldade em imaginar o que pudesse ser. Um dia, em maio, duas cartas se. cruzaram.



"Querida Prima Molly,

Graças à sua bondade, arranjando um lugar para Honey com Madame de Vertdulac, que tem sido ótima para ela, ela teve um ano maravilhoso! Pelo que escreve, parece que o francês dela melhorou incrivelmente — estou tão contente! Ela até entrou para um curso de dança, o que só lhe poderá fazer bem! Recentemente, ela vem falando com certa frequência em um nome, o Comte Edouard de la Cote de Grace, que parece a estar acompanhando pela cidade. Por acaso sabe de alguma coisa sobre ele ou a família dele? Devo confessar que estou ao mesmo tempo surpreendida e satisfeita por ela ter encontrado um rapaz, pois a querida menina não tinha sucesso em Boston, nesse particular. Sempre tive esperanças de que ela fosse do tipo que desabrocha tarde, ao contrário de você querida Molly! Ficaria agradecida se me pudesse mandar alguma notícia.

Muito afetuosamente,

Nelie"

Nelie, meu bem,

Acabei de receber uma carta muito estranha de Lilianne, de Vertdulac. Parece que a sua jovem sobrinha está com um romance sério com o Comte Edouard de la Cote de Grace, cuja família conheço bastante bem, embora não intimamente, e Lilianne acha que a qualquer momento isso poderá dar em noivado! Tudo muito bem, ele vem lá de cima, como diria a minha empregada, mas, meu bem, não está em melhores condições financeiras do que ela, a não ser pelo emprego. Muitas perspectivas, mas que poderá levar anos para concretizar-se, ao que eu saiba. O extraordinário é que Lilianne aparentemente ignora a situação exata de Honey, pois falou de uma provisão de dote para o casamento. Parece mesmo pensar que o pai de Honey tem advogados!!! que poderiam querer conversar com os advogados de Edouard, se as coisas chegassem a esse ponto.

Lendo entre as linhas, tive a forte impressão de que ela acha que Honey seja uma rica herdeira, apenas por ser uma Winthrop. Como isso é bem francês da parte dela. Existem tantos Winthrop. Mas também, como Lilianne podia saber disso? A família de Edouard é muito orgulhosa e muito pomposa, mesmo para os ingleses. Parecem levar-se muito a sério e tenho certeza de que Edouard tem de casar-se com uma herdeira. Não podia haver hipótese de um casamento só por amor, a não ser que ele estivesse disposto a decepcionar toda a família terrivelmente, é filho único, sabe. O que devo dizer a Lilianne? Estou muito preocupada com esse caso. Será que Honey teria algum fundo a receber no futuro? Lembro-me de que você falou de uma pequena herança, mas havia mais alguma coisa? Ou poderia haver? Ainda sou bastante americana para desaprovar o sistema do dote por princípios, mas quando se está na França... De qualquer forma, escreva-me imediatamente e me diga exatamente como estão as coisas.

Com saudades afetuosas de você, e do querido George também,

Molly"

Cornélia não ficava tão perturbada desde o dia em que a filha se recusara a ir ao Cotilion de Natal ou a entrar para sócia do Vincent Club. Nem mesmo quando o sobrinho Pickles fora reprovado em Harvard. De fato, isso era pior do que a ocasião em que seu filho Henry pareceu estar-se apaixonando por uma judiazinha de Radcliffe — apesar de seus dois bisavós terem lutado na Guerra de Secessão! Ela percebeu que gostava mais de Honey do que pensava.

Três semanas antes de Lilianne receber a carta esclarecedora de Lady Molly em resposta à sua, Edouard resolvera garantir para si a sua preciosa virgem americana. Se Billy fosse francesa, ele poderia bem ter esperado .até depois do casamento, mas já que ela era americana, e não era católica, achou que as coisas poderiam ser precipitadas um pouco. No entanto, a ocasião da iniciação de Billy nos atos de amor foi uma cerimônia ao mesmo tempo solene e dolorosa. Ocorreu na cama dele, em seu quarto meio despido da cabana de caça decrépita, com seus estábulos vazios e jardim abandonado. Billy se lembraria sempre de que o teto do quarto tinha drapeados de um tecido empoeirado listrado de azul-escuro e vermelho, como uma das tendas de campanha de Napoleão, que a mobília era um pesado estilo Império e não estava lustrada, e que a dor que ela sentiu foi tão grande quanto inesperada. Sua principal recordação, no entanto, foi-a de que um pênis duro apontava para cima, em vez de para baixo, horizontalmente; como ela sempre imaginara que fosse. Edouard lhe assegurou que da vez seguinte seria melhor para ela, mas disse-lhe que, mesmo para uma virgem, ela era a mulher mais apertada que ele já tivera. Ela sentiu-se extremamente orgulhosa por isso, por algum motivo que jamais compreendeu.

Voltaram à cabana de caça todos os sábados e domingos, durante três semanas, e de fato a coisa ficou mais fácil, senão mais agradável, se bem que Billy não tivesse padrões pelos quais julgar o prazer sexual, assim como antes não podia julgar o que era chique, Edouard foi o primeiro homem que ela beijou na boca. Ela só se interessava em agradar a ele e foi ficando cada vez mais obcecada com o fato de estar apaixonada. Ela era desajeitadamente ardente e completamente crédula, com os beijos dele, aquecida pelo corpo dele e uma crença inocentemente crescente nas futuras possibilidades de paixão. De vez em quando saía de seu êxtase de assombro para dizer consigo mesma, com um orgulho trêmulo misturado com apenas um leve murmúrio de prudência: "Comtesse Edouard de la Cote de Grace, Billy de Ia Cote de Grace, ah, imagine quando souberem disso lá em Boston!" E depois saía e gastava cada vez mais do dinheiro destinado ao curso de Katie Gibbs em roupas lindas para vestir para Edouard.

Quando Lilianne recebeu a carta de Lady Molly, sem rodeios, trancou-se no quarto e chorou, tanto por si quanto por Billy. Por experiência própria nesses assuntos, ela sabia que Billy se recuperaria, com o tempo, mas ela, Lilianne, nunca se perdoaria. O engano fora normal, em sua concepção; aliás, os fatos a faziam sentir-se vítima de um embuste, embora não proposital. Além disso, disse ela consigo, o desejo de arranjar as coisas para Billy era, em si, perfeitamente razoável. Mas o resultado fora uma crueldade e ela se sentia culpada.

Naquele mesmo dia a Comtesse foi conversar com. Edouard na casa dos pais dele. Disse-lhe que Billy não podia esperar nenhum dote. O pai era um homem muito conceituado, um médico, um sábio, mas pobre. Ela certamente era uma Winthrop, mas não havia dinheiro no seu ramo da família. Mas qualquer ligeira esperança que ela tivesse de que ele ainda assim pudesse casar-se com Billy morreu logo que ela falou.

Edouard de la Cote de Grace mostrou-se extremamente zangado. Ela devia saber, disse ele, furioso. Como é que uma mulher com o bom senso dela, com sua experiência, poderia tê-lo levado a pensar que Billy tinha uma fortuna? O que lhe dera essa certeza? O que acontecera com o seu juízo, sua prudência, seu interesse pelo futuro da família? Como tia dele, como poderia tê-lo levado a cometer um tal engano? Sim, claro, ele concordava que Billy era sem dúvida encantadora, muito mais do, que ela pensava, e perfeitamente conveniente, perfeita, de fato, só que todo o assunto era impossível, e não se falaria mais nisso. Completamente impossível — o que fazer? Quem diria à moça? Ele, Edouard, como cavalheiro, nunca estivera envolvido num caso tão aflitivo. Sua honra...

— Não! Edouard, é seu dever, por favor não banque mais o grand seigneur comigo. Já basta de recriminações! Você lhe dirá e dirá a verdade, do contrário ela vai pensar que é ela que você não deseja desposar, em vez de ser devido às circunstâncias que tornam impossível o casamento. Talvez... talvez ela já tenha vivido em França o tempo suficiente para compreender.

Anos depois, quando Billy já conseguia pensar em Edouard com apenas desprezo por ele e um pouco de pena desdenhosa por sua ingenuidade de mocinha... — ou teria sido burrice? — ela sentiu-se grata pela franqueza dele, que pelo menos não tentara enganá-la e por sua própria pobreza. Se ela possuísse qualquer quantia respeitável de dinheiro, ter-se-ia tornado mais uma das dúzias de jovens comtesses cheias de tédio do rígido Faubourg St-Germain, presa para toda a vida pelo tipo de conformismo emproado que o marido teria exigido dela. Uma versão francesa de Boston — só que a comida e as roupas eram melhores. Ela então ainda estava muito próxima da agonia de seus anos de colegial para ousar rebelar-se. Certamente se teria convertido ao catolicismo para agradar à família do marido, e a essa altura já estaria totalmente prisioneira de uma tradição desbotada que a prenderia com os dedos irresistíveis e ainda fortes de uma classe agonizante que só pode sobreviver agarrando-se a carne nova. Ela teria sufocado antes de ter a oportunidade de viver. Com seus futuros amantes ela aprenderia que Edouard era tão sem imaginação e pomposo na cama quanto era na vida.

Mas todas essas noções, a perspectiva da qual ela poderia formar esses juízos, ainda estavam num futuro distante. Resolveu partir de Paris antes de terminar o seu prazo e voltar para casa de navio, a fim de se permitir um espaço vazio no qual atravessaria de um mundo a outro.

Então não iria viver feliz para sempre, pensou Billy, passeando pelo convés de noite. Por algum motivo, aquilo não a surpreendia. Se fosse uma mocinha típica, acostumada a vida toda a ser mimada, admirada e amada, os atos de Edouard poderiam tê-la arrasado. Mas já tivera tanta confirmação da possibilidade, a probabilidade mesmo de rejeição, que, sem saber, criara uma proteção contra isso. E assim pôde, em poucos dias, aceitar a experiência como mais um exemplo do que pode suceder com alguém que não tem dinheiro, em vez de encará-la como um fato inteiramente pessoal. Havia até algo de satisfatório, por mais doloroso que fosse, em verificar que ela estava certa quanto à vida.

Sou magra e sou linda, disse Billy consigo mesma com paixão. Isso é que era importante. O necessário. O resto ela teria de conseguir por si. Não tinha a menor intenção de morrer de amor por um homem, como uma das mulheres dos livros do século XIX que lera. Não era nenhuma Emma Bovary, nem Anna Karenina, nem a Dama das Camélias — não era uma criatura dócil, adoradora, passiva, que deixava um homem tirar-lhe a razão de viver ao lhe tirar o seu amor.

Da próxima vez que amasse, prometeu-se ela, seria sob suas condições.



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