Judith krantz Luxúria



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O heterossexuado inspirado, o dedicado amante de mulheres, o homem cuja vida é uma comemoração do fato de existirem mulheres no mundo, desperta muito pouco interesse psicológico. Volumes inteiros foram dedicados ao homossexualismo e ao complexo de Don Juan, porém o homem que aprecia as mulheres profundamente, com avidez, apaixonada e persistentemente, em todas as suas características, e não apenas sexualmente, é tão raro quão reconhecido.

Um exame da história da vida de Spider Elliott poderia, ou talvez não dar ao psicólogo uma informação para uma hipótese viável.

Harry Elliott, pai de Spider, era um oficial da Marinha que passava no mar o dobro do tempo que passava em terra, por preferência, segundo a opinião de Spider, pois que ele e a mulher, Helen Helstrom Elliott, simpática diplomada de Westridge, nascida em Pasadena, brigavam com uma truculência militar sempre que ele estava em terra. Essas batalhas tiveram poucos resultados satisfatórios, a não ser os tratados de paz que produziram Spider, o primogênito e único varão, nascido em 1946, e três pares de gêmeas..

Holly e Heather, as mais velhas, eram dois anos mais moças do que Spider. As duas seguintes, Pansy e Petunia, nasceram depois de outro intervalo de dois anos. As duas últimas, aparecendo pontualmente num programa já conhecido, chamaram-se June e January. Spider nem chegou a achar ruim, nem mesmo sendo adolescente. Amava demais a mãe para querer tentar refrear seus caprichos, e, em todo caso, estava tudo resolvido antes dele ter idade para poder opinar sobre os nomes das irmãs.

Todas as seis irmãs na família Elliott giravam em torno de Spider como girassóis pequeninos e adoradores. Desde as suas primeiras recordações, sempre existira um menino grande e maravilhoso, que pertencia a elas, forte, louro e que lhes ensinava todo tipo de coisas mágicas e tinham tempo de ler as revistas de quadrinhos para elas antes delas saberem ler por si, e que lhes dizia como elas eram lindas e era seu herói adorado e apreciado, a ser partilhado livremente por todas, pois tinha amor de sobra para distribuir.

Quanto a Helen Helstrom Elliott, seu filho Peter, infelizmente chamado de Spider pelas irmãs, era a luz de sua vida. Aos olhos da mãe, nada do que Peter fizesse podia ser errado, se bem que ela às vezes ficasse ridiculamente irritada pela dedicação dele para com as irmãs. Peter, Helen notou com satisfação, herdara a beleza do lado da família dela. Talvez a altura fosse do pai, mas os cabelos de um louro vivo e os olhos bem azuis eram de puro Viking sueco. Toda a família dela, de ambos os lados, era escandinava, louros até chegarem à idade de ficarem grisalhos. O fato de que não existiam Vikings de verdade desde o século X — e nunca nenhum na Califórnia — era um simples detalhe para aquela mulher romântica.

Spider teve essa experiência americana pouco literária, uma infância muito feliz. O Comandante Elliott, homem lamentavelmente jovial, cuja maior glória era de ter-se diplomado na Academia Naval um ano antes de Jimmy Carter, voltava-se para Spider em busca de companhia masculina, quando estava de serviço em terra. Ensinou ao filho a velejar e esquiar, ajudava-o com os deveres de casa e, desde que o menino tinha três anos, levava-o em excursões, pescarias de trutas, acampamentos, enfim, fins-de-semana bem masculinos, o mais frequentemente possível. Gostava bastante da mulher, mas se eles continuassem brigando, ele tinha medo de acabar com mais um par de gêmeas.

Os Elliotts moravam numa casa confortável em Pasadena. A mãe de Spider tinha dinheiro, de sua família, numa quantidade elegante, o suficiente para ter importância, e o período escolar de Spider foi passado ali, naquele subúrbio burguês de Los Angeles que parece a parte melhor de Westchester. Ele criou-se na década de 1940, uma década confortavelmente conformista para os jovens californianos do sul, é entrou para a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) em 1964. Durante os quatro anos seguintes, enquanto seus colegas protestavam e se amotinavam em Berkeley e Columbia, o mais que ele fez em matéria de reação contra o establishment foi puxar um fumo de vez em quando.

Na verdade só havia duas coisas em Spider Elliott que o tornavam distinta e permanentemente diferente daquele príncipe do mundo, o homem americano sadio, da alta classe média. Primeiro, ele adorava as mulheres. Tinha paixão por tudo e qualquer coisa que fizesse parte do elemento feminino no mundo. E segundo, ele tinha muito gosto visual. Seu senso gráfico era inato e sem constrangimento. Manifestava-se, para as poucas pessoas que o notavam, na maneira dele arrumar o grande painel de cortiça em seu quarto, no qual pregava uma galeria sempre variada de fotos de revistas e jornais, e no modo dele utilizar suas estantes para exibir "objetos encontrados" muito antes de se ouvir falar no conceito de objetos encontrados: uma fileira de vidros de geléia, placas de rua abandonadas, e um par de patins de gelo de criança, formando um conjunto que agradava, à vista de um modo difícil de explicar. Ele até usava os jeans e camisetas de um modo sutilmente diferente de qualquer outro garoto.

Quando fez treze anos os avós maternos lhe deram sua primeira máquina fotográfica, uma pequena Kodak. Embora o Comandante Elliott tivesse feito tentativas esporádicas de fotografar a família, nunca conseguira reunir todas as meninas numa foto sem usar de ameaças, e invariavelmente uma delas fazia uma careta e estragava a foto. Porém o que não queriam fazer pelo pai, faziam questão de fazer por Elliott, concorrendo umas com as outras nessa nova brincadeira, fantasiando-se com os velhos chapéus de jardinagem e sapatos de saltos altos da Sra. Elliott, dependurando-se de galhos de árvores, posando num círculo em volta da estátua de uma ninfa .grega no fundo do jardim espaçoso, um friso de feminilidade brotando.

Aos dezesseis anos, Spider comprara já uma Leica de segunda mão numa loja de penhores. Tinha o obturador quebrado, de modo que foi barata, e depois que ele a limpou, poliu, substituiu a lente e consertou o obturador, passou a ser uma boa câmara. Spider pagou tudo isso trabalhando durante o verão numa loja, onde revelava fotos de passaporte de um dia para outro. A câmara era seu passatempo; as irmãs então não eram tanto uma inspiração quanto um encargo, pois, de repente, passaram a "precisar" de fotos delas com as melhores amigas e, no caso, de Holly e Heather, para dar aos garotos. Spider transformou seu banheiro num quarto escuro, comprando um ampliador e bandejas usadas de seu patrão de verão e aprendeu sozinho as minúcias de revelar e copiar por processos empíricos. Muitas vezes, inspirado por fotos na revista Life, ele saía e tirava rolos e rolos de fotos de árvores, montanhas e prédios industriais, ou então ia ao centro de Los Angeles para tentar captar o sentimento das ruas. Mas invariavelmente ficava mais feliz quando trabalhava com as irmãs, que estavam ficando mais bonitas e mais constrangidas em frente da câmara. Ele aprendeu a fazê-las se descontraírem e cooperar. Quando se diplomou no ginásio, ganhou uma nova Nikon dos mesmos avós orgulhosos que lhe haviam dado sua Kodak e então, na UCLA, suas oportunidades para fotografar as mulheres tornaram-se ilimitadas.

Spider entrou para o Clube da fotografia, mas seu verdadeiro interesse consistia em captar imagens das pequenas da Califórnia, fazendo todas as coisas maravilhosas que as pequenas da Califórnia têm fama de fazer tão bem. Quando Spider se diplomou com especialização em ciências políticas, viu que tinha escolhido o setor de estudos errado. Seu passatempo aos poucos se tornara algo que ele pretendia fazer profissionalmente. Estava resolvido a tornar-se fotógrafo de modas, e para isso teria de trabalhar em Nova York, que é para a fotografia de modas o mesmo que Amsterdam é para os negociantes de diamantes.

Isso era um objetivo sensato para um homem que ama as mulheres, um homem com um sentido gráfico muito aguçado e que tem uma Nikon, mas era uma ambição tão fácil de realizar, para um garoto recém-formado, quanto conseguir um emprego de repórter novato na redação do Washington Post.

No entanto, Spider Elliott chegou em Nova York no outono de 1969, armado com as economias que acumulara em vinte e três anos de cheques de aniversários, de Natal e empregos de verão, ao todo uns dois mil e setecentos dólares, e foi logo procurar um lugar barato para morar. Logo encontrou um sótão na suja rua Trinta, perto do bairro de venda de peles por atacado da" Oitava Avenida. Era um quarto enorme, comprido e estreito, que parecia ceder no meio, mas tinha uma vista para o Rio Hudson — e o teto tinha cinco metros de altura e sete clarabóias. Continha* um banheiro horroroso, que também poderia servir de quarto escuro, se necessário, uma mesa de cozinha e uma pia. Um inquilino anterior tinha instalado um fogão velho e uma geladeira mais velha ainda. Spider comprou um mínimo de móveis, construiu um estrado com espuma de borracha para servir de cama, e gastou dinheiro em alguns travesseiros, lençóis, duas panelas e uma frigideira. Depois pintou os pisos velhos de uma cor-de-areia-dourada, as paredes de quatro tons ligeiramente diferentes de azul-celeste e o teto de branco gelo. Instalou três palmeiras Quência que comprou por preço de atacado em Kind's iluminou-as por baixo com refletores e em breve, de noite, deitado em seu estrado de colchão, olhando para as nuvens da cidade pelas sete clarabóias, as sombras das palmeiras fazendo um jogo tropical nas paredes, um disquinho de Nat King Cole ou Ella Fitzgerald tocando em seu velho toca-discos, ele se sentiu livre e feliz como um vagabundo de praia.

O prédio em que estava localizado o sótão de Spider era um edifício comercial velho e bolorento, legalmente não destinado à moradia. Tinha um elevador antigo, com portas como portões de ferro de dobrar e os andares inferiores ocupados por uma misturada de firmas de reembolso postal, fabricantes de botões semifalidos, comerciantes decrépitos de tecidos a metro e duas firmas de contadores cujos escritórios tinham atingido uma miséria positivamente digna de um romance de Dickens. No andar superior, onde morava Spider, havia vários outros inquilinos com horários misteriosos e estranhos, que raramente cruzavam com ele no corredor.

Depois de dois meses e meio passados procurando emprega, sem resultado, o talento, a persistência, a paciência e a sorte por fim venceram, como acontece com bastante raridade, e Spider conseguiu um lugar como assistente de quarto escuro no estúdio de Mel Sakowitz. Sakowitz, fotógrafo de terceira, ou talvez quarta categoria, tinha muito trabalho de catálogos de picaretagem e alguns trabalhos para as seções de compras de revistas secundárias.

Numa manhã de sábado, nos fins do outono de 1972, Spider, como Robinson Crusoé encontrando uma pegada na areia, descobriu sua nova vizinha do andar de cima, em pessoa. Ele estava voltando dos mereados italianos na Nona Avenida, com um saco cheio de compras, subindo a velha escada correndo, de propósito, e pensando, como sempre, se a vida sem jogar tênis o ia invalidar. Ao chegar ao topo do terceiro andar, correndo à toda, ele fez a curva do patamar e parou, derrapando. Somente os seus reflexos excelentes o impediram de derrubar uma mulher que estava andando com dificuldade e resmungando sozinha em francês, carregada com um embrulho de roupa lavada, dois sacos de compras cheios, um ramo de crisântemos amarelos embrulhados em jornal, duas garrafas de vinho, cada uma enfiada e apertada debaixo de cada braço.

— Ei! Desculpe! Não pensei que havia alguém nessa escada... aqui... deixe ajudar.

Ela estava de pé, de costas para Spider, sem poder se virar, enquanto as garrafas aos poucos iam escorregando de seus braços.

— Idiota! Pegue a garrafa! Vai cair!

— Qual delas?

— Ambas!


— Peguei!

— E não é sem tempo. "Qual delas?" Não podia ver quê as duas estavam escorregando? "Qual delas?", realmente

— Bom, não é muito inteligente carregar o vinho debaixo dos braços, assim — disse Spider, com calma. — Uma sacola seria mais acertado.

— E como é que eu ia carregar mais uma sacola? Meus dedos já parecem que vão cair, com isso tudo. Aquele monstro de proprietário — aos sábados não há luz no corredor, nem elevador — é realmente nojento, atroz.

Ela virou-se para olhar para ele e, na penumbra do poço da escada, só iluminado pela clarabóia, ele viu que ela era jovem, a despeito de seu gênio péssimo.

— Vou até lá em cima com você e lhe dou uma mão com tudo isso — ofereceu-se ele, polidamente.

Ela concordou com a cabeça e largou tudo nos braços dele, a não ser as flores e o vinho, e correu calada os três andares, até ao andar de cima, sem nem olhar para trás. Parou junto à porta, a uns seis metros da de Spider, e pegou uma chave da bolsa.

— Então afinal encontrei um vizinho, em carne e osso — disse Spider, sorrindo para ela com simpatia.

— É o que parece. — Ela não se virou, nem sorriu, nem abriu a porta.

— Quer que leve isso tudo para dentro, para você? — Spider indicou o monte de sacos e embrulhos que estava carregando.

— Ponha tudo no chão. Depois trato disso. — A mulher pôs a chave na fechadura, abriu a porta, entrou, virou-se depressa e fechou a porta na cara de Spider. Contrastando com o corredor escuro, o sol estava iluminando o quarto dela, e ele viu de relance cabelos encacheados como uma louca renda vermelha, um narizinho adoravelmente arrebitado e olhos verdes, surpreendentes como um aguaceiro de verão.

Ele ficou ali parado um instante, abismado com a grosseria dela, olhando para a porta fechada, a imagem daquele rosto ainda gravada em sua mente. Depois virou-se e desceu as escadas, correndo consciente de estar com uma sensação estranha, que não podia identificar direito. Era como a desorientação, o silêncio súbito e rápido em um restaurante barulhento logo depois que um garçom deixa cair uma bandeja de copos e talheres. Todos param de falar durante menos de um segundo e depois, reconhecendo o que aconteceu, retornam a conversa do ponto em que a interromperam. Só que naquele dia, para Spider, a pausa foi mais demorada. Ao contrário de uma bandeja que cai, o que acabava de lhe acontecer estava sucedendo pela primeira vez. Durante os primeiros vinte e dois anos de sua vida na Califórnia e os quase três anos e meio em que trabalhava em Nova York, nenhuma mulher jamais o tratará com uma falta de interesse tão total. Ele conhecera mulheres que antipatizavam com ele ativamente, por um ou outro motivo, mas se elas não pertencessem a essa categoria, reagiam a ele com certo calor e, frequentemente, ardor. Uma mulher que em absoluto não tomava conhecimento dele — Spider deu de ombros, resolveu que era problema dela, e seguiu para Madison Avenue, para a sua volta semanal pelas galerias de arte.

Voltou no fim da tarde. Ali, junto à sua porta, estava o saco de papel com suas próprias compras, que ele esquecera totalmente. Junto a ele havia uma garrafa de vinho e um papel dobrado, em que estavam rabiscadas as palavras: "com os meus cumprimentos". Nem mesmo um nome, notou ele, divertido. Seguiu pelo corredor, segurando a. garrafa, e bateu à porta dela. Quando ela abriu, Spider ficou do lado de fora sem fazer qualquer menção de entrar.

— Minha mãe me fez prometer nunca aceitar bebidas de estranhos — disse ele, com ar solene.

Ela estendeu a mão para ele apertar — Esqueci de me apresentar quando nos encontramos antes. Sou Valentine O'Neill. Por favor, entre e deixe que eu me desculpe. Acho que fui uma peste, não fui?

— Eu diria que essa é uma descrição razoável, um pouco bondosa, talvez.

— Uma peste mal-humorada e ingrata?

— Mais ou menos isso. Spider passou os olhos pela sala, observando sua meia-luz, com abajures de cúpolas rosadas. Havia um sofá gordo de veludo vermelho, com debruns velhos de grelô, várias poltronas de toile de Jouy com babados, um tapete florido e cortinas vermelhas com franja, e, como fundo, Spider ouviu Piaf cantando alguma coisa sobre a tristeza infalivelmente poética do amor. Todas as mesinhas da sala pareciam estar cheias: porta-retratos, samambaias, flores, livros encapados de papel, discos e revistas. Era uma salinha pequena, apenas com duas clarabóias, e havia nela algo de vigorosamente evocativo, conhecido de Spider, embora ele soubesse que nunca tinha visto um interior como aquele em lugar algum.

— Gosto da sua sala — disse ele.

— São os meus móveis velhos — respondeu ela, desaparecendo atrás de um biombo também coberto com o tecido desbotado. — Acho que é demais para esta sala, mas tenho de deixar o outro quarto livre para o meu trabalho.

Ela tornou a aparecer, com uma bandeja em que havia uma garrafa de vinho branco gelado, dois copos, uma bisnaga de pão francês, uma tigela de patê e meio queijo Camembert no ponto, num prato de cerâmica. Colocou a bandeja no chão em frente do sofá.

— Vamos fazer um brinde? Ou talvez seja melhor primeiro você me dizer o seu nome.

Spider levantou-se de um salto.

— Desculpe — sou Spider Elliott.

Absurdamente, eles tornaram a se apertar as mãos. Ele deu um segundo olhar rápido à pessoa dela. O único detalhe que observou foi que os cabelos dela, dois tons mais escuros do que a cor-de-cenoura, cobriam-lhe a cabeça num maço de cachos revoltos que caíam por cima de um rostinho branco e bonito. Tudo entrou nos eixos — a sala, a bandeja com a comida, a voz dela, o disco de Piaf.

— Escute, acabei de entender, você é francesa. Esta sala é como estar em Paris. Nunca estive em Paris mas tenho certeza.

Ela interrompeu.

— Acontece que sou americana, nascida em Nova York, ainda por cima.

— Como é que você pode olhar para mim com essa cara francesa e esse sotaquezinho, mais o jeito de dizer as palavras meio erradas e afirmar que é americana?

Valentine propositadamente ignorou a pergunta. Agressivamente, perguntou:

— Que tipo de nome maluco é Spider?

— É o meu apelido, por causa do Spider Man (Homem Aranha) das histórias em quadrinhos.

Ela pareceu ficar na mesma.

— Ora, um minuto, você não sabe quem é Spider Man, e diz que é americana! Isso mostra logo.

— Recuso-me a ter um vizinho chamado Spider — disse ela, zangada. — Sou alérgica a aranhas, fico cheia de brotoejas, só de pensar. Que nome. É demais mesmo! Vou chamá-lo de "Elliott".

— Está bem. Como quiser — ele sorriu. O que é que havia com essa biruta engraçadinha? A pergunta mais inofensiva parecia eriçá-la toda. De jeito nenhum ela era americana, e ele também não acreditava que fosse alérgica a aranhas.

Reagindo à pronta aceitação dele, Valentine por fim dignou-se satisfazer a sua curiosidade.

— Nasci em Nova York, mas quando era pequena fui morar em Paris, e lá morei até o mês passado. Agora, vamos beber?

— A quê?

— Ao emprego que eu vou arranjar — respondeu Valentine prontamente. — Estou precisando.

— Ao seu novo emprego e a um melhor para mim.

E então eles tocaram os copos, enquanto Valentine pensava como era tipicamente americano, tão intocado, tão descuidado, tão... satisfeito por estar vivo. Ele era o primeiro americano com quem ela falava socialmente, em sua vida. Sentia-se desequilibrada, quase como uma adolescente. Ele era excessivamente sem cerimônia, desconcertantemente franco, de modo que ela mal sabia como falar com ele, a não ser na defensiva. Valentine não estava acostumada a se atrapalhar.

— O que é que você' faz? — perguntou ela, lembrando-se de um artigo do Elle, em que diziam que todos os americanos se faziam essa pergunta assim que eram apresentados.

— Sou fotógrafo de modas; no momento, apenas assistente de fotógrafo. E você?

— Venha, vou-lhe mostrar. — Ela o levou para o outro quarto, menor do que o primeiro. Junto à janela, havia uma cadeira e uma mesa com uma máquina de costura em cima. Peças de fazendas estavam empilhadas bem arrumadas sobre uma mesa comprida. Um manequim de costureira, envolto em nuvens de tecido, estava no meio do quarto e havia alguns desenhos pregados na parede. E era só isso.

— Você é costureira? Não posso acreditar.

— Sou figurinista. Não faz mal nenhum saber costurar, ou será que você não sabia disso?

— Nunca pensei nisso — respondeu Spider. — Foi você quem desenhou essa sua roupa? — Ela estava com um vestido comprido, blusado, aberto no pescoço, confortável e de uma lã pesada, cor-de-pêssego, e, se bem que não fosse nada de espantoso ou impressionante, quanto aos detalhes, de algum modo Valentine dava um ar de luxo, uma nota de originalidade displicente e no entanto bem específica, que ele nunca esperaria encontrar numa companheira de sótão.

— Desenhei e costurei todos os pontinhos, mas vamos para a outra sala. O queijo está no ponto. Temos de comê-lo antes que "derrame do prato.

Ao dar um pedaço de pão com Camembert a Spider, Valentine deu-lhe também o sorriso mais apetitoso mas não provocador que ele se lembrava de jamais ter recebido de uma mulher. Percebeu que ela não estava flertando com ele, nem um pouquinho. Como ela podia ser meio francesa? Ou mesmo meio irlandesa? Ou mesmo mulher, até?

Spider Elliott perdera sua virgindade no último ano do ginásio, para uma sacana de uma treinadora de basquete feminino, de peitos grandes, que lhe admirava menos o jogo do que a figura no calção de ginástica, que uma de suas irmãs tinha feito encolher três números de tanto lavar, numa tentativa dedicada de torná-lo branquíssimo. Durante o resto da vida Spider ficava excitado quando sentia o cheiro de um vestiário, coisa constrangedora quando queria excitar-se num ginásio. Passou a dedicar-se ao tênis e à corrida a pé.

A UCLA era tão cheia de oportunidades sexuais quanto de sol com smog, mas Spider logo descobriu que os estúdios dos fotógrafos de modas são o centro do sexo verbal. Se bem que grande parte dos fotógrafos sejam homossexuais, a fim de trabalharem bem, precisam criar uma aura de sensualidade. Uma modelo é encorajada em seu trabalho pela aplicação generosa de um jorro de instruções, quase do mesmo modo que um piloto nervoso de um teco-teco pode ser levado a aterrissar direito pelas palavras de um controlador de tráfego aéreo. As palavras de instrução, quase sempre lisonjeiras mesmo quando pronunciadas com os dentes cerrados, são quase sempre acentuadas por música subliminarmente erótica tocada como fundo. O campo de força sexual formado num estúdio de fotógrafo de moda às vezes é sincero, mas é muito mais frequente transparecer que aquilo é basicamente sintético, uma simulação, com um subtom nervoso e áspero que apresenta um quê da hostilidade oculta do fotógrafo pela modelo que-não chega a ser perfeita.

Quando Spider foi contratado por Mel Sakowitz, entrou na cena da moda com algo do impacto provocado nas cortes decadentes da Europa, há centenas de anos, quando os capitães dos mares chegavam para exibir seus "nobres selvagens". Spider, de roupa de trabalho, velhos "jeans" brancos e velha camiseta da UCLA, era uma prova concreta de que ainda existiam os homens de verdade, pagãos, viris e amorosos, mesmo dentro da estufa da moda.

Dentro de algumas semanas, as modelos que não distinguiam pós de revelação de sais de banho começaram a demonstrar um interesse desusado pelos negativos e ampliações, o que as obrigava a entrar no quarto escuro de Sakowitz e agarrarem o braço musculoso de Spider. "Do tênis? Que fenômeno". Em breve Spider descobriu que o cheiro do quarto escuro também estava começando a excitá-lo. Mas ele podia tomar providências a respeito disso, e de fato tomou-as. Chegou a esconder ali umas almofadas para conforto das pequenas, pois não podia suportar a idéia de machucar seus delicados ossinhos no chão. A maior parte dos modelos de Spider insistiam no sexo oral executado por ele, porque não estragava os cabelos nem as roupas. Bastava-lhes tirar a meia-calça. Não eram favoráveis devolver tais carinhos, pois isto sempre lhes estragava a maquilagem e elas tinham de ter cuidado com as unhas, mas Spider era um camarada rigorosamente olho por olho, como elas logo aprenderam. Em todo caso, não houve queixas, e o pessoal das agências de modelos verificou que era cada vez mais fácil conseguir que as pequenas aceitassem trabalhos com Sakowitz, geralmente último recurso.

Spider prevenia todas as pequenas sobre o que deviam esperar, antes de agir.

— Só estou prometendo um conto curto, filhinha. Comigo há um princípio e um meio, mas nenhum fim, positivamente. Não estou interessado em compromissos, relacionamentos duradouros ou responsabilidades. E não faço promessas, nem mesmo para amanhã à noite.

— Spider, meu bem, e se eu lhe dissesse que sempre há uma vez que é a primeira

— Só estaria dizendo uma coisa que já ouvi muitas vezes. A única coisa que não compreendo nas mulheres é por que elas se recusam a acreditar quando a gente lhe diz francamente que não há futuro em alguma coisa. Mas como se pode dizer alguma coisa mais claramente do que isso? — A esperança é a última que morre e tudo o mais. Por que você não cala a boca, Spider, e me fode... bem devagarinho. Eu arrisco.

Quando Spider conheceu Valentine, tinha progredido do quarto escuro passando por dois empregos, sucessivamente melhores, como assistente de fotógrafos estabelecidos. Em três anos se tornara uma instituição no mundo da moda. O caso é que ele gostava muito de suas pequenas, a seu modo sincero, sensual e generoso, e elas sabiam disso. Elas já tinham sido possuídas por muitos homens que falavam do amor e na verdade não gostavam das mulheres. .Quando uma pequena fazia amor com Spider era como se lhe estivessem dando uma maravilhosa festa de aniversário de surpresa — ela se sentia tão bem consigo mesma, por muito tempo depois. Como uma pequena de verdade.

Spider descobrira, em um momento em seus primeiros meses em Nova York, que a maioria dos modelos não pensam em si como pequenas "de verdade". Quase nenhuma delas tinha tido namorado para a formatura do ginásio. Até que os meninos começassem a desabrochar, no fim da adolescência, as pequenas eram sempre as mais altas, mais magras e mais desajeitadas da turma, alvo de milhões de piadas, a decepção das mães, por mais que elas escondessem isso. Quando chegavam a descobrir o que fazer com seus rostos e que seus troncos ultralongos e a ausência de seios e quadris as tornavam perfeitos cabides ambulantes, suas imagens de si mesmas já estavam estabelecidas quase no zero. Naturalmente, algumas tinham tido a sorte de serem suficientemente bonitinhas, de um modo convencional, no princípio da vida, de modo que podiam competir em coisas como o Concurso da Senhorita Adolescente Americana, mas as modelos mais interessantes, as de primeira categoria, ainda achavam que uma pequena de verdade não tinha mais de l,65m, usava sutiã manequim 44, sabia conversar com os meninos desde o dia em que nascia e nunca praticava nenhum esporte.

Enquanto elas estavam crescendo, quase todas teriam dado tudo para serem acariciáveis. Spider as fazia sentirem-se acariciáveis, beijáveis, abraçáveis, lambíveis, beliscáveis, completamente adoráveis. Ele gostava de todas elas — as magricelas do Texas, ainda com aparelhos nos dentes, que usavam religiosamente entre uma pose e outra; as duronas, que adoravam dizer palavrões, embora aquilo não chocasse a ninguém, só a elas; as que estavam sempre perdendo as lentes de contato nos tapetes felpudos; as tristonhas, de vinte e quatro anos, que consideravam o próximo aniversário, dos vinte e cinco anos, o fim do mundo; as solitárias que tinham sido descobertas na Europa, muito antes de estarem realmente.em idade de sair de casa; gostava até das que passavam o dia todo sem comer, estragando os nervos, e depois esperavam que ele lhes pagasse os bifes mais magros, para o jantar. Proteína de alta qualidade para mulheres esfaimadas era a maior despesa de Spider.

Os dias improvisados de confusão erótica no chão do quarto escuro de Sakowitz estavam esquecidos, agora que Spider descobrira que o que ele realmente mais apreciava era trepar na cama, na cama de uma pequena, no quarto de uma pequena, com cheiro de garota. Embora ele estivesse progredindo bastante, profissionalmente, ainda sentia falta do ambiente de uma casa de mulher, e o máximo que conseguia era cheirar o apartamento de uma modelo, observando todos os detalhes evocativos. Feliz, ele aspirava o cheiro de talco e laquê e ferros de encrespar cabelo se aquecendo. Eles gostava especialmente de garotas bagunceiras, que largavam as coisas pela casa, roupa de baixo pelo chão, toalhas molhadas por cima da banheira, sapatos esquecidos em lugares em que ele tropeçava neles, velhos e queridos roupões de banho, cestas de papel transbordando de lenços de papel, tampos de pias cheios de batons pelo meio e pincéis de sombras de olhos, todos esses artefatos de menina-moça davam um prazer profundo a Spider. As irmãs, pensou ele com saudade, eram uma turminha tão maravilhosa de desmazeladinhas. Como ele gostava do apetite delas, fosse pelas roupas novas das outras, ou por três bolas de sorvete de chocolate. Para Spider, o apetite era um sinal certo do princípio feminino.

O único lugar que Spider nunca pensava em usar para sexo era o seu próprio apartamento. Ele teria levado para lá uma pequena se estivesse apaixonado por ela. Mas Spider sabia que nunca amara. Seu coração doce-amargo e sensível era obstinadamente seu. Tornara-se um homem inteligente e de sentimentos e compreendia perfeitamente que amava as mulheres em termos genéricos, como um grupo, uma espécie. A sua própria disponibilidade era um sinal de ser profundamente inacessível a uma especial entre elas. Um dia, ele tinha esperanças, se apaixonaria por uma mulher, mas esse dia ainda não chegara.

Enquanto isso, tinha suas namoradinhas e a amiga, Valentine, cujo cenário aconchegante e biruta de sótão de Paris se tornara um refúgio especial para ele, o lugar em que gostava de ficar quando estava se sentindo especialmente bem ou, como acontecia de vez em quando, abatido e rabugento. A mistura especial de Valentine, de comida, compreensão e conversa sempre o endireitava.

Uma noite, vários meses depois de se conhecerem, depois de muitas garrafas de vinho, muitos ensopados gostosos de Valentine, muitas. conversas compridas, Spider entrou de repente no quarto dela, sem bater.

— Vai, onde você se meteu? — gritou ele, e depois parou, confuso, ao vê-la quase escondida numa de suas poltronas de babados. Ela estava- segurando a ponta de um cigarro Gauloise Bleu a um palmo do nariz, e de olhos fechados, aspirava a fumaça com gosto.

— Então é isso que você faz! Eu não sabia por que aqui sempre tinha cheiro de cigarros franceses e você não fuma, você os queima como incenso. Ai, que amor.

Ele a abraçou. Ela piscou para ele, assustada no seu devaneio e encabulada por ter sido pilhada em seu segredo sentimental.

— Ah, eles não têm o cheiro de "Paris, na verdade, nada têm, mas é o mais perto que consigo chegar. E por que, Elliott, você não bate antes de entrar?

— Estou entusiasmado demais. Escute, tenho aqui uma coisa para você com o gosto de Paris: Bollinger Brut! — ele puxou a garrafa de champanha de trás das costas.

— Mas isso é tão caro, Elliott. Aconteceu alguma coisa boa?

— Se aconteceu. Na semana que vem começo a trabalhar como assistente principal de Hank Levy. Ele está a anos-luz de distância na frente dos caras para quem tenho trabalhado. Sakowitz, Miller, Browne, nenhum desses já fez tantos trabalhos de alta moda quanto Levy. O estúdio dele tem um movimento danado, muito trabalho de anúncios. Ele não está sendo tão procurado como era para as revistas, mas ainda assim é da primeira fila; não é o máximo, nunca foi, mas é um passo gigantesco para mim. Ouvi dizer que Joe Verona, assistente dele, ia voltar para Roma, alguma pequena me disse hoje de manhã, e fui procurar Levy assim que consegui sair do estúdio. Por sorte era um dia de pouco movimento — em todo caso, começo na semana que vem.

Exultante, sentou-se no tapete, aos pés dela.

— Ah, Elliott, estou tão contente! Que notícia maravilhosa. Estou com um bom palpite para isso e você sabe que os meus sentimentos nunca se enganam.

Embora fosse uma mulher eminentemente prática em muitas coisas, Valentine tinha muita fé em seus "palpites" ocasionais. Spider, implicando, dizia que era seu sangue celta selvagem tentando abafar as vozes do realismo francês. Olhando para Spider agarrado com sua garrafa de champanha, Valentine felicitou-se por ele não ser o tipo dela. Ele era um devasso, mulherengo e destruidor de corações e qualquer mulher que se apaixonasse por ele estava destinada ao sofrimento. Ela estava contente por tê-lo como amigo, mas nunca passaria disso, ela era basicamente sensata demais para pensar num homem tão promíscuo como qualquer outra coisa que não o seu bom vizinho. Graças a Deus que ela era francesa e sabia proteger-se contra aquele tipo de homem.

— Você está com uma cara de fome, Elliott. Acontece que fiz uma blanquette de veau, que é demais para uma pessoa só. E vai bem com champanha.

Hank Levy era um camarada quase simpático, mais ou menos. Tinha muito encanto básico do Brooklyn, um Huckleberry Finn envelhecido, uma versão alta e magra de Norman Mailer, com mais sardas e menos rugas, e uma calva incipiente, em vez de uma fronte nobre. Vestia-se à moda padronizada de diretor de Hollywood: calça Lee francesa, camisas de trabalho desabotoadas cuidadosamente quase até a cintura, sob as quais usava apenas uma corrente de ouro, mas muito pesada e de Bulgari. Sua marca especial era em cardigan estilo Professor Higgins feito de cachmira quatro fios, que lhe custara 55 libras no Harrod's. Ele tinha uma dúzia deles, em cores diversas e gostava de amarrá-los em volta da cintura ou jogá-los sobre os ombros, com as mangas caídas retas, à la Balanchine. Se, ao contratar Spider, ele soubesse que no inverno Spider usava camisa de malha e suéteres irresistivelmente autênticas e afrodisiacamente surradas da coleção de Anápolis do pai, poderia não desejar esse tipo de concorrência no estúdio, real demais para a sua tranquilidade.

Os pesos gêmeos do bissexualismo e do sentimento de culpa dos judeus assoberbavam Hank. Ele achava que tinha sido ludibriado. Merda, um dia ele estava brincando com uma coordenadorazinha de modas engraçadinha e lourinha que topava tudo e, dentro do que lhe pareceram apenas 48 horas, descobriu que ela não só estava grávida, indiscutivelmente dele como ainda era uma Pequena Judia Direta, com várias dúzias de parentes em Brooklyn, alguns dos quais pertenciam ao ramo de Hadassah da mãe dele.

De modo que Hank acabou casado e pai antes de descobrir ao certo se seria mais divertido ser só bicha, não que ele jamais deixasse de tentar certificar-se.

No entanto, estava longe de ser uma perda total. A pequena era muito mais esperta do que ele. Também era mais agressiva e ambiciosa. Usou chapéus de marta antes de alguém sequer ver um desses, a não ser no filme Arma Karenina. Usou maquilagem sem batom antes de ser inventada, ou talvez ela é que a tenha inventado; usou o primeiro terninho e a primeira minissaia e o primeiro midi e aparecia na revista Women's Wear Daily pelo menos cinco vezes por ano. Ela aperfeiçoou o trabalho de Hank, dando jantarezinhos sabidos espertos aos quais conseguia atrair celebridades impossivelmente grosseiras em número suficiente para fazer com que todos os outros convidados achassem que se estavam dando com o mundo cintilante da alta moda. E isso fazia com que os serviços afluíssem constantemente ao imenso estúdio de Levy, onde se tocava o dia todo os discos mais novos obrigatórios na aparelhagem de som obrigatoriamente fabulosa e a mesa de açougueiro obrigatória estava sempre posta com o festim obrigatório de queijos franceses, salsichões italianos e alemães, pães escuros e torcidos da seção de gourmeá de Bloomingdale's e picles "Kosher". Ao todo, uma combinação esplêndida, e Spider aprendeu muito durante o ano em que foi assistente de Levy.

Um assistente de fotógrafo passa nove décimos do tempo entregando ao patrão uma câmara que acabou de carregar com um filme novo, puxando rolos de papel para fundos, verificando a luz, empurrando os tripés de um lugar para outro, remexendo com luzes estroboscópicas temperamentais e arrumando em acessórios do cenário. A outra décima parte do tempo é dedicada a mudar as fitas da aparelhagem do som. Porém Hank Levy era preguiçoso e estava muito envolvido na vida social, de modo que deixava que Spider tirasse uma porção das fotos. O que significava que Spider estava fazendo todas as coisas que o tinham levado a querer ser fotógrafo de modas, desde o início, como resolver as poses dos modelos, e os ângulos e inventar sua própria iluminação e focalização da câmara e apertar os botões e fazer disparar a câmara. Era ainda melhor do, que parece no cinema, em filmes sobre fotógrafos de moda, pois Spider revelou-se um gênio em matéria de falar com os modelos.

No entanto, Hank Levy não era assim tão tolo nem tão ocupado a ponto de deixar que Spider tirasse alguma foto para as revistas. Se era preciso alguém ir para as Ilhas Virgens fotografar três manequins nos monoquínis do ano seguinte, e fazendo a coisa na praia com muita onda, era Hank. Não que ele tivesse muitos serviços desses. Ele quase chegara a ser astro de fotografia, uma ocasião em sua carreira, mas ultimamente lhe pediam para fotografar malhas na Barca de Staten Island ou conjuntos esportivos no Clube de Tênis West Side. Não obstante, era para a revista Vogue e era aí que o fotógrafo tinha o nome sob a foto. O dinheiro era uma droga mas o prestígio era essencial. Hank só dava liberdade a Spider nos pequenos anúncios de relógios e sapatos e cremes para clarear os pêlos, e assim mesmo não eram muitos. Só quando se tratava das agências de publicidade menores e ele tinha certeza de que os clientes não pretendiam mandar seu pessoal do departamento de arte para observar as coisas. Spider trabalhava somente na parte menor do negócio de Hank, a parte que pagava quase todo o aluguel.

O anúncio que projetou Spider foi o de um novo tipo de fortificante de unhas, lançado por uma companhia de cordões de sapatos. A modelo, que devia personificar a essência do sul romântico, era jovem, inexperiente e estava rígida, em sua saia-balão e cintura apertada. Spider examinou a pequena desajeitada com uma admiração franca.

— Perfeito! Meu bem, você está perfeita! Por fim conseguimos contratar alguém que vive o papel. Estou te manjando, garota, você é igual àquelas pequenas orgulhosas e provocantes que levavam os sujeitos à bebida, na antiga Virgínia. Uma pena que você não tivesse nascido a tempo de representar o papel de Scarlett O'Hara no filme. Meu Deus, mas que pequena irresistível; um pouco mais para a direita, meu bem, aposto que todo homem que te conhece quer ir mordiscando por baixo dessa saia-balão. Agora procure parecer distante, benzinho, lembre-se de que você é a beldade da fazenda, por quem eles foram lutar na guerra. Ótimo! Vai ficar ótimo, incline-se um pouco para a direita. Não, isso é à esquerda, amor. Deus, é divertido trabalhar com uma cara nova. Ah, você é espertinha, isso é melhor do que a máquina do tempo, pode me chamar de Ashley ou Rhett, como quiser, pois quando a pequena é linda como você, sempre consegue o que quer. Vamos, Scarlett, benzinho, vamos experimentar sentar nesse balanço de jardim, lindo!

E a pequena, já rindo, que tinha passado a vida toda em New Jersey, acreditou em tudo o que ele disse, pois bastava notar a tensão que Spider demonstrava quando fotografava, e era impossível não notar, para saber que ela era realmente divina. E essa idéia a tornava realmente divina mais depressa do que Spider podia dizer "passe a língua nos lábios, bonequinha, e dê-me esse sorriso de novo".

A diferença entre o aspecto de uma modelo quando um fotógrafo viado lhe dizia, um "fabuloso, positivamente fabuloso, querida!" com indiferença, e seu aspecto quando Spider estava em sua frente batendo as chapas, com o volume de seu pau maciço claramente delineado nas calças brancas e justa, e ela sentia aquela excitação, meu Deus, chegava a ficar molhada debaixo daquela maluca saia-balão. Era a diferença entre uma boa foto de moda e uma grande foto de modas.

Harriet Toppingham, redatora de modas que descobriu Spider, era o máximo, em seu ramo. No entanto, todos os editores de modas, por mais importantes que sejam, não se limitam a respirar o ar perfumado e eletrizado da alta moda ou bater papo e fofocar em almoços caros. Trabalham feito cavalos. Um dos encargos dela era examinar todos os anúncios em todas as revistas, e não somente revistas de modas, pois os anúncios são o sangue vital do negócio de revistas. O preço do papel é da impressão e distribuição de cada exemplar de uma revista geralmente é maior do que seu preço na banca ou de assinatura. Sem a renda dos anúncios, não existiriam as revistas, nem um motivo para existir o cargo de um redator de modas.

Só existe um punhado de grandes redatores de modas de revistas nos Estados Unidos. Cada uma das revistas exclusivamente de modas tem um redator-chefe, geralmente ajudado por dois ou três redatores de modas subordinados. Também existem redatores especiais para sapatos, lingerie, acessórios e tecidos, e cada qual tem um assistente, pois as firmas nesses ramos anunciam muito e têm de merecer uma atenção especial. Numa revista feminina de caráter geral, como Good Housekeeping, o departamento de modas pode ter em seu pessoal uma redatora de modas, sua assistente, um redator de sapatos e um para os acessórios, mas eles só ocupam seis páginas editoriais por mês, se tanto; na revista Vogue existem cerca de 21 redatores, de vários graus de importância, inclusive os que têm cargos em Paris, Roma e Madri, que são, em primeiro lugar, figuras da sociedade, e depois redatores.

Somente os maiorais entre os redatores de modas em qualquer revista ganham muito dinheiro. Os outros não ganham mais do que uma boa secretária, mas de bom grado se escravizam pelo status, o movimento, e o prestígio da posição. Esses redatores secundários têm de ter não só talento, como também ambição. Quando vêm de um meio em que a mulher que trabalha não precisa do ordenado para pagar seus sabonetes de luxo e uma depilação ocasional, isso ajuda.

Quando uma redatora de modas, como Harriet Toppingham, está no auge, ou perto disso, é tão cortejada pelos que desejam obter favores quanto o era Madame de Pompadour quando gozava dos favores de Luís XV. Ela almoça nos melhores restaurantes franceses às custas de fabricantes de vestidos e figurinistas e pessoal de relações públicas; suas roupas, se não são de graça, custam bastante menos do que o preço de custo; e no Natal ela tem de alugar um carro e chofer para levar os presentes do escritório duas vezes por dia. Naturalmente, todas as suas viagens são de graça. A reprodução discreta de uma parte sequer do logotipo de uma companhia de aviação, ou a imagem de um canto de piscina de hotel numa foto de modas, com várias palavras de reconhecimento no texto, assegura o transporte e hospedagem para a redatora, fotógrafo, modelos e assistentes.

Harriet Toppingham chegara ao topo da carreira por seu mérito pessoal, e não por poder pagar para subir, embora sua renda particular, do pai, que fabricara milhares e milhares de banheiras, fosse considerável. Ela era uma mulher de uma elegância tão dura e aguçada que chegava a parecer cortante. Sua sensação de autoridade era tão sincera que inspirava um medo igualmente sincero em todo o seu pessoal, e sua imaginação criadora tinha tão poucos limites quanto a de Fellini. Suas inovações a princípio eram detestadas e depois imitadas e por fim se tornavam clássicas. Quando notou o trabalho de Spider pela primeira vez, estava- com seus 40 e poucos anos e muita gente a considerava feia. Ela nunca se tornou o que os franceses chamam de jolie laide porque não via motivo para fazer a tentativa de exagerar os traços positivos que poderia ter. Preferia ser aquela outra coisa que os franceses sabem admirar, um monstro sagrado. Ela pegava o que tinha e apresentava sem rodeios, de cara; cabelos lisos, castanhos e ralos puxados para trás severamente, um nariz grande e masculino, proeminente, lábios finos cobertos por um batom vermelho vivo, e olhos castanhos comuns, pequenos e rasos, como os de uma tartaruga, absorvendo todos os detalhes e desprezando todos menos os mais delicados, os mais complicados, os mais importantes e rebuscados. Tinha unia altura pouco mais que média, parecia um varapau, e usava sempre roupas maravilhosa e impressionantemente chiques, pois nada que ela vestisse poderia prejudicar algum traço bonito, que ela não possuía. Não fazia concessão alguma para o que estivesse na moda no momento. Se fosse a temporada do "ar esportivo americano", ou "a volta à suavidade", ou "vestir-se em cores límpidas", podia-se ter certeza de que Harriet se vestiria num estilo que não poderia ser característico de algum ano, ou mesmo um decênio, um estilo que faria com que qualquer outra mulher, por mais que se esmerasse, parecesse apenas mais um carneirinho no rebanho. Nunca se casara e morava sozinha num grande apartamento em Madison Avenue, que enchia com suas coleções, tesouros trazidos de suas inúmeras viagens à Europa e ao Oriente, a maioria deles muito estranhos e pouco harmoniosos, grotescos até, para se encaixarem em qualquer outra parte tão bem quanto em seus interiores castanhos e apinhados.

Pelo menos uma vez por ano Harriet Toppingham gostava de "descobrir" um fotógrafo desconhecido, para poder abandonar, pelo menos temporariamente, um de seus costumeiros. De que adiantava ter poder se às pessoas não soubessem que você não hesitaria em utilizá-lo? Depois que ela estabelecesse um novo fotógrafo, ele, ou ela, ficava-lhe devendo um favor pelo resto da vida, e mesmo depois que seus favores se dirigiam em outro sentido, eles conservavam o cachê que ela lhes concedera. Pensava nos fotógrafos que descobrira como sendo criaturas suas, tanto sua propriedade quanto os objetos de suas coleções. Na qualidade de redatora-chefe de modas da revista Fashion and Interiors (Moda e Interiores) podia passar por cima do seu inimigo, o diretor de arte, e entrevistar os próprios fotógrafos (pois ela se recusava a tratar com os agentes dos fotógrafos), em seu escritório, conhecido no ramo como o Buraco Marrom de Calcutá.

Quando ela viu o anúncio do produto endurecedor de unhas, escondido nos fundos da revista Redbook, investigou com a agência para saber quem tinha tirado a foto.

— Dizem que foi Hank Levy — disse ela à secretária —, mas acho impossível acreditar nisso. Ele não faz nada de tão original desde os anos 60. Telefone para Eileen ou uma das outras agências e descubra quem posou para aquela foto. Depois peça à pequena para me ligar para cá.

Dois dias depois ela chamou Spider para uma entrevista. Ele levou seu portfólio, uma grande pasta de couro preta, com pregas e amarrada por uma tira de grossa trança preta. Continha as melhores cópias das melhores fotos que ele jamais tirara, algumas resultado de seu trabalho para Levy, mas a maior parte tirada para seu próprio prazer, nos fins de semana. Spider tinha sua Nikon F-2 à mão e com filme em todas as ocasiões, pois sua paixão-era captar as mulheres nos momentos em que não estavam posando, em passagens de uma comunicação breve e íntima consigo mesmas. Spider celebrava a mulher quando ela mais se sentia senhora de si, quer estivesse cozinhando ovos, quer num devaneio diante de um copo de vinho, ou, cansada, se despindo ou acordando ou bocejando ou escovando os dentes.

Com displicência, Harriet Toppingham folheou as fotos, disfarçando com facilidade sua incredulidade ao reconhecer pequenas que cobravam 500 dólares por hora para posar vestindo velhos roupões, ou embrulhadas com naturalidade numa toalha.

— Hmmmm — interessante, muito bom. Diga-me, Sr. Elliott, quem é o seu artista preferido, Avedon ou Penn?

Spider sorriu para ela.

— Degas, quando não pinta bailarinas.

— Puxa. Ainda assim, melhor Degas do que Renoir, tão previsivelmente rosa e branco. Diga-me, ouvi dizer que o senhor é um garanhão famoso. Verdade ou boato?

Harriet gostava de atacar o mais inesperadamente possível.

— Verdade.

Spider lançou-lhe um olhar amigo. Ela lhe lembrava sua professora de matemática da quinta série.

— Então por que é que nunca trabalhou para Playboy ou Penthouse? — Harriet não estava disposta a abandonar a arena.

— Uma pequena enrolando um colar de pérolas em seus pêlos púbicos, ou toda enfeitada numa cintinha de ligas de. Frederick's de Hollywood, brincando enquanto se olha no espelho, em geral parece meio solitária. A masturbação não é uma grande atração na minha vida — respondeu Spider, educadamente. — Depois, quando fotografam duas pequenas juntas, o negócio fica tão artístico e fora de foco que nem parece sexo. Aliás, isso me deprime, e parece um desperdício tão grande.

— Sim. Talvez. Hmmm. — Ela acendeu um cigarro e fumou como se estivesse sozinha, olhando de vez em quando para as fotos que espalhara pela mesa a esmo. De repente, falou.

— Pode fazer umas páginas de lingerie para nós, para o número de abril? Vamos precisar delas até a semana que vem, no máximo. I

— Sta. Toppingham, eu daria tudo para trabalhar para vocês, mas tenho um emprego de tempo integral com Hank Levy...

— Largue Levy — ordenou ela. — Você certamente não precisa trabalhar para ele a vida inteira, não é? Abra um estúdio seu. Comece aos poucos. Eu lhe darei trabalho suficiente para você se aguentar até sair o número de abril. Se você conseguir fazer o serviço que estou querendo, não terá de se preocupar com o aluguel.

Harriet deu a Spider o olhar mais encorajador de que era capaz. Aquele momento, aquele uso concreto do poder, aquela capacidade de alterar a vida das pessoas do jeito que ela entendia, era a coisa mais importante pelas quais ela vivia. Sentia-se aquecida, poderosa, suprema. As fotos que acabara de pedir a Spider já estavam programadas para Joko, pelo diretor de arte. Joko estava-se tornando meio maçante, ultimamente — calmo e sem fantasia. Estava precisando de um pontapé na bunda. E o diretor de arte sempre precisava de um pontapé na bunda. Além disso, aquele Spider Elliot tirara as fotos das mulheres mais sexy que ela jamais vira. Aquelas pequenas que eram pagas para parecerem de uma beleza tão do outro mundo nos anúncios de cosméticos pareciam mais atraentes do que ela jamais sonhara que pudessem ser e, de certo modo, mais abordáveis, mais reais.

Ultimamente, ela sabia, havia um problema com as fotos de lingerie na revista Fashion and Interiors. As páginas se haviam tornado tão insinuantes que o tiro estava saindo pela culatra. Alguns dos maiores anunciantes, gente com importantes contas de sutiãs e cintas, haviam telefonado dizendo que, embora apreciassem os créditos de redação, os clientes estavam ficando desanimados porque nem mesmo os modelos da Sétima Avenida exibiam a décima parte da beleza das pequenas que apareciam nos anúncios da Fashion. Isso, por, sua vez, preocupava os compradores das lojas de departamentos, pois as mulheres comuns podiam esperar parecer-se com as fotos e depois, quando se vissem usando o artigo, haviam de culpar as roupas, e não os seus físicos. As fotos, simplesmente, eram uma tapeação. Quando os anunciantes não ficavam satisfeitos com notícias grátis das páginas editoriais, é que havia alguma coisa errada e quando havia alguma coisa errada,

Harriet Toppingham sempre seguia os seus palpites. Naquele dia ela estava com um forte palpite de que Spider Elliott poderia ser importante para ela.

Spider encontrou um estúdio num velho prédio perto da Segunda Avenida que ainda não tinha sido transformado em restaurante ou bar. O prédio era por demais decrépito para tentar qualquer inquilino, salvo os mais desesperados. Havia vinte anos que o proprietário não consertava nada, esperando o dia em que um rei dos agentes de imóveis surgisse do nada e lhe oferece uma fortuna pela propriedade. No entanto, havia água para o quarto escuro, e no andar de cima, onde Spider alugou duas salas grandes, os tetos eram altos. O apartamento dele daria um estúdio melhor, mas ele sabia que a localização não era boa.

Para aquele primeiro serviço, Spider resolveu não utilizar as costumeiras manequins de lingerie, pequenas cujos corpos eram tão perfeitos que ninguém em seu juízo perfeito acreditaria que por uma vez sequer, em seus dezoito anos, elas sonhariam em usar uma cinta-calça ou um sutiã. E ele não usou as poses convencionais: alunas de dança apanhadas de improviso, praticando as posições de distensão, de roupa de baixo; ou lânguidas fotos de praia, em que a modelo cheia de areia parece ter confundido a roupa de baixo com o biquíni; ou fotos com uma história, era que a mão de um homem, com uma pulseira de brilhantes pendurada, ou um pé de homem, num sapato engraxado, por algum motivo aparece num canto da foto.

Em vez disso, ele contratou manequins de seus trinta e poucos anos, ainda bonitas, mas com rostos e corpos que estavam inegavelmente longe da juventude. Construiu um cenário desenhado exatamente como uma sala de provas numa grande loja. Montes de lingerie recusada empilhavam-se sobre uma única cadeira e por cima da prateleirinha existente nesses cubículos tão inconfortáveis. As modelos olhavam-se, desconfiadas, nos espelhos de três faces; sentavam-se na borda da única cadeira, vestidas apenas de anágua, e acendiam cigarros muito necessários; lutavam para sair de cintas apertadas; procuravam em bolsas a tiracolo cheias demais um batom que pudessem melhorar as coisas; aliás, faziam, nas fotos de Spider, todas as coisas que todas as mulheres fazem quando têm decair para comprar roupa de baixo. As fotos eram engraçadas e carinhosas e embora, as modelos sem dúvida precisassem de toda a ajuda que obtinham da lingerie que estavam usando, continuavam a parecer mulheres de corpos bonitos, apetitosas, e ainda com muita quilometragem pela frente.

Os homens que viram aquele número de Fashion and Interior? sentiram-se como se estivessem tendo a oportunidade de olhar bem para uma coisa que normalmente nunca era permitido ver, relances de mistérios femininos muito mais íntimos do que uma fenda aberta tinha a oferecer. As mulheres se comparavam com as modelos, como fazem sempre, por mais que isso as entristeça, e não achavam os resultados tão arrasadores quanto de costume. Aliás, aqueles sutiãs pareciam até capazes mesmo de conseguir sustentar uns peitos normais, coisa estranha. E tranquilizadora.

O diretor de arte da Fashion ameaçara demitir-se quando viu as folhas das provas, gritando em algum baixo dialeto húngaro. Em geral ele gritava em francês. Harriet chegou a rir alto, ao ouvi-lo.

Quando o número de abril chegou às bancas de jornais, Spider já fizera mais três serviços para Fashion: páginas de fotos de novos perfumes escandalosamente sentimentais e romanticamente vitorianas; uma série de fotos de sapatos que os fetichistas de pés guardaram como dignas de um colecionador; e uma série inteiramente adorável em matéria de camisolas e pijamas de crianças, que levou mais de uma mulher a parar de tomar a pílula para ver o que acontecia. No entanto, durante os quatro últimos meses ele passara a depender exclusivamente de Harriet Toppingham, que lhe dava esses serviços como uma anfitriã sovina que foi obrigada a servir caviar fresco. Em todo caso, as pequenas importâncias que um fotógrafo recebe por trabalho de modas em revistas, comparadas com o muito que recebe por fotos de anúncios, mal chegam para ele pagar seus filmes, creme de barbear e o café da manhã. Spider estava reduzido à situação de permitir que suas namoradas do momento pagassem seus jantares, embora contra a opinião dos agentes delas.

O aparecimento das fotos da lingerie ainda não lhe havia rendido qualquer trabalho comercial. Se bem que as lojas de departamentos que negociavam com os artigos ficassem encantadas com os resultados, os .diretores de arte das agências, apesar de seu grande respeito por Harriet, achavam que ela afinal talvez se tivesse excedido. No entanto, as fotos para os perfumes eram uma coisa que eles podiam entender, e dentro de alguns meses, em fins de 1975, Spider pôde considerar-se seguramente um sucesso modesto, com muito boas perspectivas. Quase aos trinta anos, ele era enfim um fotógrafo de modas em Nova York, com o seu próprio estúdio, sua própria Hasselblad, suas próprias luzes estroboscópicas. Isso levara quase seis anos, desde sua formatura.

Melanie Adams entrou no estúdio de Spider um dia em princípios de maio de 1976. Ela chegara em Nova York exatamente três dias antes, vinha de Louisville, Kentucky, e, com a inocência enlouquecedora da ignorância, simplesmente se dirigia para a sala de espera da Agência Ford, para esperar. Tanto Eileen quanto Jerry Ford, que sabem mais a respeito de modelos fotográficos do que qualquer pessoa viva, por acaso estavam fora, naquele dia, mas, para uma pequena com a cara de Melanie Adams, realmente não havia melhor lugar onde esperar. Os Fords não tinham treinado seu pessoal para desprezar milagres. Aliás, todo o negócio deles se baseava na premissa de que existe o milagre da beleza verdadeira. Claro, eles sabem que quase toda a beleza tem de ser explorada e polida como um diamante; inventaram o sistema das modelos em perspectiva fazerem dieta, serem levadas aos melhores cabeleireiros, maquiladas por especialistas, aprenderem a sentar-se e levantar-se e mover-se, sendo depois mandadas para o maior número de fotógrafos possível, na esperança de que algum deles descubra o potencial da pequena.

Assim que uma das assistentes de Eileen avistou Melanie, resolveu passar por cima de todos esses preparativos e descobrir imediatamente como aquela pequena estupendamente bela ficava nas fotografias. Ela telefonou para Spider e pediu que ele tirasse umas fotos de teste, já que as fotos que Melanie levara eram um caso perdido. A pequena nunca fora modelo profissional e só tinha uns instantâneos de álbum de família, antiquados, e a foto de formatura do ginásio.

Melanie postou-se do lado de dentro da porta do estúdio de Spider, até que ele a notasse.

— Olá — disse ela, encabulada, afastando para trás a pesada cortina de cabelos com uma das mãos. — O pessoal da Ford me disse para vir aqui para uns testes...

Spider pensou que seu coração fosse parar de verdade. Ficou parado ali, olhando para ela. Era como se todas as outras pequenas da vida dele tivessem sido parte de uma montagem de imagens aparecendo sob os títulos de um filme. Agora a câmara finalmente se focalizara sobre a estrela, e o filme ia começar. Começara.

— Certo. Eles me avisaram. Eu a estava esperando. — Ele falou maquinalmente, por força de hábito. — Vamos começar. Primeiro quero tirar umas fotos à luz natural — largue o casaco numa cadeira e vá ficar junto àquela janela, olhando para fora. — Jesus, pensou ele, deve haver 30 tonalidades diferentes nos cabelos dela, tudo entre curil até melado — nem há nomes para algumas delas. — Agora, chegue um pouco mais perto da janela e debruce-se no peitoril com o cotovelo direito, o perfil para mim. Queixo para cima. Sorria um pouquinho. Mais um pouco. Agora, vire para mim, abaixe a mão. Bom. Queixo para baixo. Descanse: — Ele sabia que felizmente não era possível retratar aquela pequem de um mau ângulo. Do jeito que sua mão tremia, ele teria sorte se as fotos estivessem focalizadas. — O.K. Agora venha aqui e sente-se naquela cadeira, onde as luzes estão preparadas. Olhe em volta do estúdio quando quiser e não dê atenção à câmara.

Enquanto ela virava a cabeça de um lado para outro, Spider, examinando-a, ficou quase idiotamente estarrecido diante da violência de suas emoções. Estava deslumbrado. Seu cérebro lutava em vão para tirar alguma conclusão lógica de suas emoções. Ele se considerava o último homem do mundo a ser afetado pela simples beleza de uma pequena. Ele esperava a beleza e olhava além dela, em busca da pessoa. Mas naquele momento achou que podia passar o resto da vida tentando compreender o que tornara aquele rosto tão significativo. Por que os olhos dela estavam colocados em sua carne de modo a parecer ocultarem tanto sentimento? Por que a forma daqueles lábios o fazia ansiar por traçá-los com o dedo, como se um toque lhes explicasse o mistério? O sorriso dela era malicioso, delicadamente malicioso, e no entanto cheio de um retraimento oculto. Algo no modo como os ossos dela se delineavam sob sua pele lhe dizia que ele nunca a possuiria. Ela estava tão perfeitamente ali, e no entanto a sua realidade fugia dele de algum modo enlouquecedor e incompreensível.

— Já tenho tudo de que preciso — disse ele, apagando as luzes. — Aqui... venha sentar-se aqui. — Ele a levou a um sofá e sentou-se ao lado dela. — Escute, quantos anos você tem? Gosta dos seus pais? Eles a compreendem? Alguém algum dia te maltratou? O que gosta mais de comer? Quem foi o primeiro garoto que você beijou na vida? Você o amava? Você sonha muito?...

— Escute, pare! — A voz dela era bem sulina, com a doçura exata, o gelo quente do arquétipo da beldade sulina. — Ninguém lá na Ford me disse que você era maluco! Por que está-me perguntando tudo isso?

— Olhe, eu... acho que estou apaixonado por você. Não, por favor, não sorria assim. Ah, Deus! Palavra! Não estou brincando. É uma coisa que tenho de lhe dizer desde o princípio porque quero que você comece a pensar nisso. Não fique com esse ar tão desconfiado. Nunca disse a uma mulher que eu a amava antes, até você entrar nesta sala. Por favor! Não a culpo por ficar assim, mas procure acreditar em mim. — Spider pegou a mão dela e a colocou no seu peito. Ela levantou as sobrancelhas, em reconhecimento, por fim olhando diretamente para ele. As suas íris eram da cor límpida e quente de um cálice xerez rico e doce, erguido contra a luz, e seu olhar parecia estar procurando alguma verdade final com uma angústia ansiosa e no entanto delicada.

— Diga-me o que está pensando, nesse minuto — implorou Spider.

— Detesto quando as pessoas me perguntam isso — respondeu Melanie, com doçura.

— E eu também. Nunca fiz isso. Mas prometa que não vai se casar com alguém em seguida, dê-me uma oportunidade.

— Nunca faço promessas — riu-se Melanie. Ela aprendera a não se comprometer havia anos. Sempre evitava muitos aborrecimentos, mais cedo ou mais tarde. — Em todo caso, como é que você pode dizer essas coisas? Não me conhece em absoluto. — Ela não estava realmente empenhada nessa jogada, mas estava gostando, como gostara das dúzias de declarações que lhe foram feitas desde os onze anos. Suas primeiras recordações eram de pessoas lhe dizendo como ela era bonita. Alguma coisa nela nunca acreditava nas palavras, nunca se satisfazia. Não era modéstia; era um desejo de mais provas do que alguém jamais lhe dera. A cabeça dela trabalhava constantemente tentando compreender por si exatamente o que as outras pessoas viam quando olhavam para ela. Ela nunca entendia aquilo integralmente. Sua fantasia mais completa era sair de sua pele e olhar para si e descobrir de que as pessoas estavam falando. Ela passava a vida experimentando com as pessoas, para ver como as podia fazer reagir, como se, na reação delas, ela se pudesse descobrir. — Nunca faço promessas — repetiu ela, pois ele não parecia tê-la ouvido — nem respondo a perguntas.

A pose dela era quase vitoriana, as costas retas, atenta, como uma menina comportada e acanhada. Mas o convite vago e inconfundível de seu sorriso era fixo numa quietude secular, como se tivesse certeza da vitória. Ela começou a levantar-se.

— Não! Espere! Aonde você vai? — perguntou Spider, frenético.

— Estou faminta e está na hora do almoço.

Spider sentiu um alívio enorme. A comida era um terreno conhecido. Se ela sentia fome, tinha de ser humana.

— Tenho uma geladeira cheia de comida. Espere um minuto c eu lhe preparo a melhor salsicha com queijo suíço e pão preto que você já comeu na vida. — Enquanto fazia os sanduíches, Spider pensou que ele pudesse ao menos trancar a porta, jogar fora a chave e prendê-la ali, seria a coisa mais esplêndida que o mundo lhe poderia oferecer. Queria descobrir tudo a respeito daquela pequena, desde o dia em que ela nascera. Cem perguntas lhe passaram pela cabeça e foram recusadas. Se ao menos ela lhe contasse tudo, pensou, no fim ele talvez pudesse fazer sentido de que lhe estava acontecendo.

Spider nunca fora introspectivo. Crescera apenas vivendo sua vida muito aprazível, sem qualquer auto-analise. Não percebia que, basicamente, era um homem que se mantinha escondido de si . mesmo, em parte porque gostava de tantas outras pessoas e se dedicava tanto a elas. Ele se apaixonou assim como alguém pode cair por um buraco no chão, num lugar que na véspera fora sólido. Estava tão despreparado para a paixão quanto um colegial.

Eles comeram sem brincadeiras. Tudo quanto Spider queria dizer parecia, mesmo antes de dizê-lo, contrariar o regulamento dela. Ela não ficou nada aborrecida com o silêncio entre eles. Melanie sempre fora quieta, serenamente, evasivamente. Sua absorção cm si era tal que lhe deixava pouca curiosidade para descobrir as coisas sobre as outras pessoas. Estas sempre acabavam contando mais do que lhe interessava. Mas ela olhou bem para Spider, procurando captar um vislumbre de si nos olhos dele. A imagem seria distorcida, mas poderia contar-lhe algo que ela precisava saber. Às vezes, sozinha, ela sentia uma sensação de ser uma certa pessoa, de possuir uma certa cara, de ter certa imagem delineada, mas era sempre a imagem de uma atriz que vira num filme. Ela sorria como aquela mulher e sentia aquela outra cara cair como uma máscara sobre a sua. Naquele momento ela sentia o que era estar no mundo real, e depois o momento passava e ela ficava com a sua busca eterna.

A luz no estúdio mudou, enquanto o sol da tarde saía da vila. Spider olhou para o relógio.

— Cristo! Dentro de cinco minutos três meninas e as mães estarão aqui. Estou fotografando vestidos de festa, e não arrumei nada. — Deu um salto e dirigiu-se para a outra extremidade do estúdio, enquanto Melanie vestia o casaco. Ele parou e virou-se, nem poder acreditar.

— Ei, como é mesmo o seu nome?

Duas semanas depois, defronte de um espelho comprido na sala de provas de Scavullo, uma das ex-pequenas de Spider perguntou à outra:

— Já soube da novidade?

— O que quer dizer, a novidade? Há muita novidade por aí.

— O nosso divino e mútuo Spider foi agarrado afinal, está frito.

— De que está falando?

— Amor, aquele coitadinho do idiota querido está apaixonado pela nova Garbo. Você sabe de quem estou falando, a última de Eileen, "La Mysteriosa Flor de Magnolia".

— Quem lhe disse? Não posso acreditar.

— Foi ele quem me disse, senão eu também não acreditaria. Mas Spider não consegue parar de falar nela. Parece até que foi ele quem inventou o amor. Do jeito que fala, é hora de tocar Cole Porter com ritmo do sul. Acho isso positivamente repugnante, especialmente quando a gente se lembra de que ele nunca... nunca queria...

— Sei exatamente o que você quer dizer.

— Imaginei que sim.

— Ah, a putinha do sul!

— Um brinde a isso.



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