Judith krantz Luxúria



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Quando Billy Winthrop voltou para Boston três meses antes do prazo previsto para terminar seu ano em Paris, disse à Tia Cornélia que tinha ficado com saudades de casa. Explicou que tinha sentido um desejo repentino de passar o verão com a família em Chestnut Hill antes de ter de partir para Nova York, para começar a estudar no curso de Katie Gibbs. De maneira convincente, Cornélia aceitou a mentira, que poderia ser admitida pela maioria de bostonianos, cujo amor por sua cidade e o campo em volta faz desaparecerem até os encantos de Paris. Mas Cornélia não se iludiu. A última carta de Lady Molly lhe contara toda a história do fora desprezível que aquele Comte de Grace dera na sobrinha. Seu bondoso coração maternal ansiava por dizer a Honey (Billy), como se sentia triste por ela, mas a dignidade total da moça proibia qualquer conversa íntima.



E o aspecto dela! Boston inteiro, a parte que interessava, não falava de outra coisa. As mamães arrogantes, olhando para suas próprias filhas pouco inspiradoras, que perdoavam a Billy, o seu corpo comprido e esguio, seus bastos cabelos escuros, seu andar perfeito, sua pele imaculada, mas faziam isso lentamente, detalhe por detalhe, e mesmo assim porque, afinal, ela era uma Winthrop. Depois de pensarem nela como aquela pobre Honey, gorda e sem esperança, por tanto tempo, era difícil até para a mulher mais bondosa aceitar o fato de que Honey voltara da França uma beleza deslumbrante. Se ela tivesse nascido uma beleza — mas agora, essa transformação era quase injusta. Era preciso um reajustamento mental exagerado. Era como se uma estranha total tivesse chegado na cidade, uma estranha linda e encantadora, que não se parecia com ninguém que eles conhecessem e não se vestia como as moças de Boston devem vestir-se, mas que os tratava a todos com a familiaridade desassombrada de um membro da família. O que de fato ela era. Muito perturbador.

As moças da idade de Billy acharam a modificação ainda mais irritante. O patinho feio transformar-se no cisne estava muito bem para os Irmãos Grimm, mas em Boston era quase teatral, podia-se dizer até, bem, francamente, espetacular. Até mesmo um pouquinho... vulgar ?

Cornélia meteu-se na embrulhada.

— Amanda, que vergonha a sua filha Pee-Wee, parece que as uvas estão azedas. Por acaso ouvi o que ela estava dizendo sobre a minha Billy ontem na Myopia. Então é "absurdo" trocar de nome de batismo na idade dela, é? Mais vale você se lembrar que ela recebeu o nome da sua própria prima em segundo lugar, Wilhelmina. Ela não "trocou" de nome, apenas o abreviou. E então Billy "não sabe o que usar para assistir ao pólo". Se Pee-Wee algum dia tirasse as culotes de montaria, poderíamos descobrir se ela sabe vestir-se para mais alguma coisa. E será que ela pretende ser chamada de Pee-Wee até ser avó? Se eu fosse você, Amanda, escreveria para Lilianne de Vertdulc perguntando se ela tem lugar para a sua filha no ano que vem. Não faria mal nenhum àquela pequena descobrir que .existe uma vida fora das cocheiras.

Com Billy, Cornélia mostrou-se muito franca e muito bondosa.

— Billy, tenho a impressão de que o seu ano em Paris lhe pode ter custado mais do que você esperava.

— Acho que sim, tia Cornélia. Eu me empolguei...

— Tolice. Toda moça que tenha um aspecto tão maravilhoso quanto você merece aproveitar Paris ao máximo. Não a culpo nem um instante por comprar essas roupas. Você sabe usá-las e, afinal, o dinheiro era seu. Eu mesma teria insistido em lhe mandar um bom cheque para comprar um novo guarda-roupa, mas já que você estava tão gorducha, não parecia valer a pena.

— Gorducha. Que amor você é, tia Cornélia. Eu estava uma vaca nojenta de gorda. Confesse.

— Não vamos discutir por picuinhas como palavras. Você era outra pessoa, completamente. O problema não é esse — é o futuro. Você não gostaria de ficar em Boston e ir para Wellesley, afinal? — perguntou Cornélia, esperançosa. Essa nova Billy poderia casar-se com. quem bem entendesse. Não havia necessidade de ir estudar com Katie Gibbs para ser uma pobre secretária.

Meu Deus, não! No outono terei vinte anos, muito velha para recomeçar a estudar.

Cornélia deu um suspiro.

— Nem pensei nisso. Mas ainda assim, certamente não há necessidade de sair de casa? Você sabe como o seu tio e eu adoramos ter você aqui conosco.

— Sei, e fico comovida, tia Cornélia. Mas tenho de sair de Boston, pelo menos por algum tempo. Conheço todo o mundo aqui desde que nasci e não tenho uma amiga íntima, só você e tio George. Papai está afundado nas pesquisas dele — olhou para mim uma vez, e disse: "sempre soube que você tinha ossos dos Minot", e voltou para o trabalho. Ah, diabo, é difícil explicar, mas assim que voltei, comecei de novo a me sentir como um fenômeno, não como antes, mas ainda deslocada. Os franceses diriam que não estou à vontade em minha pele, aqui. Quero ir para algum lugar em que ninguém se aproxime de mim e diga "Meu Deus, o que é que lhe aconteceu? Quantos quilos você emagreceu? Não posso acreditar. A gorda Honey Winthrop!"

Cornélia mostrou compreensão. Já escutara as mesmas palavras.

— Tia Cornélia, lembra-se de que me fez prometer que iria para, Katie Gibbs quando voltasse de Paris?

— Mas meu bem, eu não a prenderia a essa promessa agora. Quero dizer, você tem tantas outras escolhas, tantos rapazes simpáticos te procurando.

— Tantos garotos simpáticos. Eu me sinto dez anos mais velha do que eles. Não posso ficar sentada aqui, fazendo obras de caridade, Vivendo às custas de você e tio George, e esperando para casar , com alguém que não seja totalmente juvenil. Mas não sirvo para outra coisa, se pararmos para pensar. — Bem, meu bem, é só isso que a maioria de nós já fez.

— Ah, você sabe o que quero dizer.

— Para falar francamente, sei, sim. Acho que você tem toda a razão, e, embora não goste nada de vê-la partir, não consigo vê-la num Círculo de Costura.

Cornélia sentiu uma sensação de perda, mas nunca recuara diante dos fatos.

— Bom. Então será Katie Gibbs!

Ela voltou-se para o consolo conhecido de organizar a vida de outra pessoa com sua eficiência de sempre. Afinal, o Curso Katherine Gibbs, fundado em 1911, era a única escola de secretariado no país que as famílias de jovens de boa posição social achavam inteiramente aceitável. As alunas ainda eram obrigadas a usar chapéu e luvas, a escola era frequentada por outras moças "direitas" e suas credenciais sociais só eram igualadas por sua reputação como escola que formava secretárias de primeira categoria.

Dentro de uma semana Cornélia desencavara uma boa companheira de quarto para Billy. Uma de suas velhas amigas, de seus tempos de universidade, tinha uma filha que trabalhava em Nova York e morava num endereço muito respeitável. No apartamento dela havia um quarto a mais, que a mãe estava querendo alugar. Cornélia também tomou a providência de pagar um ano de mensalidade adiantada na escola, agindo na suposição correta de que, depois das compras em Paris, Billy devia estar com pouco dinheiro para os estudos e as despesas. A pretexto de "aproveitar" as liquidações de peles em agosto, ela levou Billy a Roberts-Neustadter, em Newbury Street, e deu-lhe um presente do aniversário de vinte anos adiantado: um casaco ajustado de pele de foca negra, com cinto atrás, de saia evasé, debruado nos punhos e gola de vison escuro.

— Guarde o velho para os dias de chuva — disse ela, livrando-se dos abraços de agradecimentos de Billy. A generosidade de Cornélia não tinha limites. O que ela não suportava era o reconhecimento.

Billy estava sentada em sua poltrona Pullman no trem, viajando de Back Bay Station para Grand Central Station, num dia quente 'e abafado na primeira semana de setembro de 1962. Seu estômago se embrulhava cada vez que ela pensava no próximo encontro com sua futura companheira de quarto, Jessica Thorpe. Que nome orgulhoso aquele lhe parecia, tão emproado, tão seco e completo em si. Pior ainda, ela tinha 23 anos, diplomada com distinção por Vassar, e trabalhava no departamento editorial da revista McCalls. Que modelo assustador ela devia ser, pensou Billy. Até mesmo o meio dela era impecável. Os pais descendiam ambos das mais antigas famílias de Providence, Rhode Island. Não era o mesmo que ser de Boston, disse tia Cornélia, mas felizmente não tão comum quanto ser de Nova York. E o apartamento dela ficava na rua 82, entre Park e Madison. Só esses detalhes bastavam para convencer Billy de que essa companheira de quarto inevitável, inelutável, seria sofisticada, convencida e uma moça de carreira, completamente senhora de sua vida. Talvez, ó horror, uma intelectual.

Enquanto isso, Jessica Thorpe estava tendo uma manhã extremamente desagradável. Começara quando Natalie Jenkins "copy-desk" da revista, destroçara a última redação que Jessica fizera sobre o perfil de Sinatra. O artigo, originariamente escrito por um conhecido ranconteur, fora entregue a Jessica para uma "limpeza" e ela trabalhara nele durante algumas semanas, tentando dar a suas histórias confusas e sintaxe atrapalhada o toque suave adequado a uma revista feminina. A Sra. Jenkins, conhecida por ser a primeira mulher no meio editorial capaz de sobreviver a um almoço de quatro martinis, diariamente, detestara a primeira tentativa com o artigo, não gostara da segunda e naquele dia mesmo ela pegara a terceira tentativa e reescrevera o artigo ela mesma, em três quartos de hora, estripando-o e destruindo todas as partes que tinham algum significado. Agora era apenas mais uma água morna, negócio antiquado, sentimental, mas a Sra. Jenkins, sentada triunfante à sua máquina de escrever, por fim estava satisfeita. Provara mais uma vez que ninguém podia trabalhar direito naquele escritório sem sua ajuda. E como se não bastasse isso, naquele dia chegaria a Pequena de Boston. Wilhelmina Hunnenwell Winthrop. Só de pensar, as nuvens de cabelos de bebê pré-Rafaeli no de Jessica murcharam. Jessica era muito dada a murchar, a curvar-se quais fossem as circunstâncias. Suas saias sempre se curvavam porque seus quadris eram muito finos para as sustentarem devidamente, e nunca lhe ocorrera consertar as bainhas. As blusas curvavam-se por que ela esquecia de metê-las para, dentro das saias. Seu corpo era curvo porque ela só tinha l,57m de altura e nunca se lembrava de ficar bem reta. Mas até mesmo quando seu ânimo estava curvo, além de tudo o mais, ela era irresistível. Os homens, ao verem Jessica curva, achavam a idéia de unia mulher ereta completamente masculina. Ela tinha um narizinho pequeno e um queixinho pequeno e olhos enormes e tristes, cor-de-alfazema, e uma linda testa larga. Quando sua boquinha adorável se curvava os homens eram assaltados por um impulso de beijá-la. Quando não se curvava, eles sentiam exatamente a mesma coisa.

Os homens eram a coisa de que Jessica mais gostava. Ela pensava ter conseguido esconder essa tendência perigosa da mãe, mas evidentemente não tinha conseguido, senão a mãe não teria insistido para ela ter uma companheira de quarto, ou então mudar-se para Barbizon Hotel para Mulheres, aquela Ilha do Diabo da Castidade. A castidade era a coisa de que Jessica menos gostava.

A Pequena de Boston com certeza era espia da mãe, refletiu Jessica voltando para casa, curvada e encantadora, estragando a noite de pelo menos uma dúzia de homens no ônibus de Madison Avenue, pois nem olhou para eles. Normalmente, Jessica olhava de cara para todos os homens que encontrava por uma fração de segundo, classificando-os segundo uma escala de um a dez, sendo seu único critério o item "Que tal ele seria na cama?" Um homem teria de ser agressivamente antipático para merecer menos de quatro, pois Jessica era muito míope e detestava usar óculos em público. Havia dúzias de seis e sete, na semana média de Jessica. Ela nunca podia ser positiva com relação a eles por causa da vista, mas dava notas generosas, para ser justa.

Billy teve dificuldade em arranjar um táxi, na hora de movimento, e já eram mais de seis e meia quando chegou ao apartamento de Jessica, muito nervosa. O porteiro telefonou do hall para anunciá-la no momento em que Jessica acabava de esconder cinco meias de homens, desencontradas, um cinto Brooks Brothers e, na pressa da última hora, a ducha vaginal. Será que uma virgem usaria uma ducha vaginal? Jessica estava por demais apavorada para decidir isso. Postou-se junto à porta aberta do apartamento e ficou olhando enquanto uma pilha de malas impressionantemente boas era levada para lá, num carrinho. Por trás da bagagem estava o segundo porteiro e atrás dele marchava.aos olhos míopes de Jessica, uma amazona. Ela trocou cumprimentos atrapalhados com o vulto alto e borrado, enquanto o porteiro levava as malas, esperando, infeliz, o momento em que ficariam sozinhas. A amazona ficou calada e insegura no meio da sala. Embora Billy se sentisse relativamente à vontade, quando falava em francês, a idéia de morar na intimidade de uma moça superior, de seu próprio meio, uma moça três anos mais velha do que ela, lhe trouxe de volta cada uma das dúzias de incertezas que a haviam perseguido durante os seus primeiros dezoito anos. E a presença de Jessica, tão franzina, quase frágil, teve o estranho efeito de fazer com que Billy tornasse a sentir-se enorme, como se ainda fosse gorda.

O porteiro saiu e Jessica lembrou-se de ser educada.

— Ah... vamos sentar? — disse ela, com timidez. — Você deve estar completamente exausta... está tão quente lá fora. — Ela fez um gesto vacilante para uma cadeira e o vulto alto sentou-se com um suspiro de alívio e fadiga. Jessica procurou algum assunto comum, alguma coisa para fazer a estranha falar. — Já sei — aventurou ela — por que não tomamos alguma coisa... estou tão nervosa... — Diante dessas palavras simpáticas, a amazona rompeu em prantos. E, para lhe fazer companhia, Jessica também. Romper em prantos era outra coisa de que ela gostava muito na verdade, em sua opinião, era mais útil do que qualquer outra coisa nos momentos difíceis.

Dentro de cinco minutos Jessica tinha posto os óculos e examinado Billy detalhadamente. Toda a vida ela desejara ser como Billy, e disse isso a ela. Billy respondeu que sempre tinha sonhado em ser como Jessica. Ambas estavam dizendo toda a verdade e inibas compreenderam isso. Dentro de duas horas Billy tinha contado tudo a respeito de Edouard e Jessica tinha contado a Billy a respeito dos três notas nove com quem ela estava tendo casos no momento. Daí em diante a amizade delas progrediu em proporção geométrica. Nenhuma das duas podia imaginar como teriam tempo para se contarem tudo o que tinham a contar. Antes de se recolherem finalmente para seus respectivos quartos de dormir, às quatro da madrugada, depois de retirarem cerimoniosamente a ducha vaginal de Jessica de seu esconderijo, as duas, com muita gravidade, fizeram um pacto de nunca contar a ninguém em Providence ou Nova York ou Boston qualquer coisa a mais sobre a outra a não ser o nome, seguido da fórmula sagrada "muito boa moça". E mantiveram o pacto a vida inteira.

Quando Billy saiu do elevador na entrada da Escola Katharine Gibbs, a primeira coisa que viu foi o olhar da falecida Sra. Gibbs, conservado com toda a sua presença severa e implacável no retrato pendurado sobre a mesa da recepcionista. Ela não tinha um olhar malvado, pensou Billy, mas apenas como se já soubesse de tudo sobre você e ainda não tivesse resolvido se devia desaprovar ativamente, por enquanto. Pelo canto do olho ela sentiu que havia alguém postado junto à porta do elevador examinando cada moça quanto às luvas, chapéu, roupas e maquilagem, que não podia ser exagerada. Isso, pelo menos, não era problema para uma pequena que se lembrava bem demais das manias de Boston.

Por outro lado, o sistema Gregg de taquigrafia era um problema. Billy amaldiçoou Gregg e Pitman, fossem quem fossem. Por que ás pessoas tinham tido a crueldade de inventar a taquigrafia, pensou ela, enquanto as sinetas infernais, eternas e de hora em hora soavam e ela passava apressada, mas com a precisão exigida, da sala de taquigrafia para a de datilografia e depois de volta à de taquigrafia. Muitas de suas colegas tinham algumas noções de datilografia antes de entrarem para Katie Gibbs, mas mesmo as que achavam que levavam alguma vantagem logo se desiludiram quanto a suas habilidades. Ser "Material Gibbs" significava que se esperava que a pessoa atingisse certos níveis de eficiência que pareciam absurdos a Billy. Será que esperavam mesmo que ela tomasse cem palavras por minuto em taquigrafia e datilografasse impecavelmente um mínimo de sessenta palavras por minuto quando completasse o curso? Esperavam mesmo.

Dentro de uma semana Billy chegou à conclusão de que era perda de tempo revoltar-se contra Gregg e Pitman. Como as leis da gravidade, eles não pretendiam ir-se embora. Era a mesma coisa que emagrecer. Ela sofrerá, quase mais do que se podia lembrar, mas no fim valera a pena. Todo mundo na escola tinha a sua história a contar, de uma diplomada por Gibbs que começara como secretária de um importante senador ou conhecido homem de negócios e depois passara para trabalhos mais importantes. Billy sentia seus fortes impulsos obsessivos finalmente acorrendo em sua ajuda, ajudando-a a abraçar o trabalho com a confiança de que o dominaria, o faria seu.

Jessica, por outro lado, estava preocupada com a ausência do que ela eufemisticamente chamava de "namorados" para Billy.

— Mas, Jessie, não conheço ninguém em Nova York, e vim para cá para trabalhar. Você sabe o que penso em matéria de ser independente e ganhar o meu dinheiro.

— Para quantos homens você olhou hoje, Billy? — perguntou Jessica, pondo de lado a ambição da amiga.

— Como vou saber? Talvez uns dez ou quinze, coisa assim.

— Que notas eram?

— Ora, veja! Eu não estava fazendo essa brincadeira; isso é com você.

— Era o que eu pensava. Se você não olhar e der notas a eles, como é que vai ter uma base para poder saber, quando conhecer um oito, ou mesmo um nove?

— E que diferença faz?

— Billy, estive pensando a seu respeito. Você parece um cavaleiro que cai do cavalo e não monta logo em seguida. Você está é com medo dos homens por causa do que aconteceu, não é? — Jessica disse tudo isso baixinho, com sua vozinha, mas Billy a conhecia o suficiente para saber que por baixo daquele murmúrio adorável havia uma inteligência feroz, que era inútil contradizer. Jessica via através das paredes e em volta das esquinas.

— Você provavelmente tem razão — confessou Billy, cansada. — Mas mesmo que eu quisesse conhecer algum homem, encare a realidade. Eu não posso simplesmente pegar um nota nove na rua, posso? Não, Jessie, não me olhe assim, nem você faria isso, creio eu. Ora, a alternativa é escrever um bilhete para a tia Cornélia e deixar que ela mobilizasse os amigos que tem em Nova York. Ela arranjaria um "rapaz direito" aqui que fosse ligado a Boston pelo cordão umbilical. O que acontecesse conosco se espalharia pelo Vincent Club em uma semana. Você nem imagina como fofocam! Não quero que o pessoal de lá saiba o que estou fazendo da minha vida. Vou diplomar-me na Gibbs, arranjar um emprego formidável e trabalhar até ser um grande sucesso e nunca mais voltarei pára Boston!

— Bom, e quem é que falou em se meter com gente do seu meio, sua boba? — disse Jessica, indignada. — Eu nunca faria isso. Todos os meus noivos maravilhosos não têm a menor idéia de quem seja a minha família. Nem se importam com o lugar de onde vim. Eu nunca sonharia em ter nada a ver com alguém que possa conhecer o homem com quem eu um dia me casarei, seja quem for esse idiota sortudo. O negócio é atacar por fora.

— Fora?


— Boba — gemeu Jessica, sorrindo diante da percepção limitada que Billy tinha da vida. — Fora do seu mundo. Você nem tem idéia de como esse mundo pequenino é limitado. Só porque eles todos se conhecem, só porque as pessoas que as suas tias conhecem em Boston, Providence, Baltimore e Filadélfia são todas ligadas às pessoas que você poderia conhecer por meio delas em Nova York, não significa que, depois que der um passo, só um passinho afastando-se dos conhecidos, você não possa desaparecer completamente.

— É só que não vejo como — reclamou Billy. À vezes os mistérios de Jessica eram de enlouquecer.

— Judeus. — Jessica lançou a Billy o sorriso do gato mais sabido do quarteirão, o gato que acabou de descobrir o lugar do leite e das sardinhas. — Os judeus são perfeitos. Eles também não querem ter nada a ver com as judias direitas, porque são todos relacionados, como nós somos, e como nós não querem que as coisas se espalhem. Portanto, todos os meus noves são judeus.

— E se você conhecesse um judeu nota dez?

— Eu correria como um ladrão, espero. Mas pare de querer mudar de assunto. Quantos judeus você conhece?

Billy não mudou de expressão.

— Bem, deve conhecer alguns — disse Jessica.

— Acho que não, a não ser aquele simpático vendedor de sapatos na Jordan Marsh. — Billy parecia intrigada.

— Não adianta. Era o que eu pensava. E eles são os melhores, também — murmurou Jessica para si mesma, seus olhos alfazema vidrados, sem-foco, seu cérebro diplomado com distinção escolhendo e separando e verificando possibilidades.

— Os melhores? — perguntou Billy. Nunca tinha ouvido dizer que os judeus fossem os melhores, a não ser talvez para o violino ou xadrez e, claro, havia Albert Einstein e, bom, a gente não podia contar Jesus. Ele se convertera. Para trepar, claro — respondeu Jessica, distraída.

Billy entregou-se a trepar com judeus com um entusiasmo que nem mesmo Jessica podia ter igualado. Os judeus eram como Paris, pensou ela. Um mundo novo, um mundo livre, um mundo estranho ainda mais excitante por ser proibido. Naquele mundo desconhecido, secreto, ela não tinha segredos a guardar. Uma Winthrop? De Boston? Talvez historicamente interessante, mas essencialmente sem importância. Se eles tivessem estudado em Harvard era muito pouco provável que conhecessem algum dos primos de Billy, pois não teriam sido convidados a entrar para qualquer clube seleto. Mas, como precaução, Billy nunca saía mais de uma vez com um diplomado em Harvard, e nunca deixava sequer beijá-la. Mesmo que ele fosse um nove. Parecia que havia tantos noves. Era um mundo grande e maravilhoso de judeus nota nove, se a pessoa soubesse procurar, e Billy em breve tornou-se especialista. A NBC, CBS, ABC, Doyle-Dane-Bernbach, Grey Advertising, Newsweek, Viking Press, The New York Times, WNEW, Doubleday, os programas de treinamento de executivos em Saks e Macy's — a lista era sortida e infindável.

Billy tornou-se perita em evitar os judeus alemães, especialmente aqueles cujas famílias estavam nos Estados Unidos havia muitas gerações. Eles tinham uma mania desconcertante de produzirem mães nascidas na Igreja Episcopal, de famílias que bem poderiam conhecer o clã dos Winthrop. Billy avisou a Jessica para ficar com os judeus russos, se possível só de segunda ou terceira geração de americanos. De qualquer maneira, eram mais divertidos.

Foi com os judeus que Billy descobriu o que nunca nem suspeitara: como era profundamente sensual. Aos poucos aprendeu a se afundar em si mesma e deixar-se ir com a corrente. Permitindo-se alimentar seus apetites, esses apetites foram crescendo. Ela tornou-se ávida, ávida pela sensação de poder absoluto que tinha quando sentia a dureza de um pênis intumescido através de calças caras, e sabia que num instante ela o podia descobrir, segurá-lo, liso e latejante e quente em sua mão. Tornou-se ávida pelo momento eletrizante em que a mão de um homem, lentamente explorando, por fim se fixava em seu clitóris, encontrando-o intumescido e molhado, oferecendo-se a suas carícias repetidas e ardentes. Tornou-se ávida pela hora extasiante da expectativa, que ela prolongava até tornar-se quase dolorosa, antes que um novo amante separasse os lábios de seu sexo com o pau e ela afinal sentisse como ele era, todo enfiado dentro dela.

Ela tornou-se tão excitável que às vezes, entre as aulas em Katie Gibbs, tinha de fugir para o banheiro, trancar-se numa privada, enfiar um dedo entre as coxas e, esfregando depressa, ter um orgasmo rápido, mudo, necessário. O seu Gregg melhorava cada vez mais.

Billy recebeu sete pedidos de casamento de noves a quem ela não amava, e, com relutância, teve de substituí-los. Não seria justo continuar a iludi-los depois deles declararem suas intenções honradas. Jessica teve doze pedidos no mesmo espaço de tempo, mas elas chegaram à conclusão de que vinha a dar na mesma, pois somente homens de mais de 1,80 pediam Billy em casamento, enquanto que a pequenina Jessica tinha um campo de ação muito maior.

De um modo geral, ela e Jessica chegaram à conclusão no final da primavera, quando Billy estava quase se diplomando no curso de um ano na Katie Gibbs, que aquele fora um ano muito bom. Um ano especial. Era a primavera de 1963, John Kennedy era Presidente dos Estados Unidos, e Billy, prestes a começar as entrevistas para arranjar emprego, foi ao salão de chapéus por encomenda, em Bergdorf Goodman, a pedido de tia Cornélia, a fim de que Halston, então o chapeleiro favorito de Jackie Kennedy, lhe fizesse um chapeuzinho perfeito.

— Quero parecer inteligente, eficiente, capaz e chique, mas não chique demais — disse ela, com energia.

O ano passado em Katie Gibbs, com sua disciplina rigorosa e altos padrões, junto com a revelação das possibilidades de seu corpo e seus usos infinitos, dera um verniz final à transformação que começara em Paris. Embora ainda faltassem cinco meses para Billy completar vinte e um anos, ela parecia ter vinte e cinco, magnificamente equilibrados. Talvez fosse sua altura; talvez seu porte, pousada como uma bailarina esperando sua deixa nos bastidores; talvez seu sotaque de Boston, inconscientemente aristocrático, suavizado mas não completamente oculto por uma combinação da Academia Emery, Paris e Nova York; talvez o jeito dela usar as roupas, de modo que se destacava em qualquer grupo, tão imediatamente quanto um flamingo .no meio de um bando de pombos de Nova York. Ao todo, uma pequena formidável.

— Linda Force? Quer dizer que vai trabalhar para uma mulher? — exclamou Jessica, incrédula. — Depois de tudo o que contei sobre Natalie Jenkins, como pode?

— Em primeiro lugar, há o dinheiro. É o máximo. Oferecem 150 dólares por semana, que são 25 dólares mais do que qualquer outro. Segundo, é uma firma imensa, com muito lugar onde se mexer, sempre para cima! E a minha chefe está muito ligada aos majorais. É assistente-executiva do próprio misterioso Ikehorn. Em todo caso, quando fui entrevistada, gostei dela e ela gostou de mim.

— Às vezes a gente tem de seguir o instinto.

— Bom, não vá dizer que não te avisei — comentou Jessica, curvando-se lúgubre.

Durante as primeiras semanas do novo emprego de Billy, o vasto escritório ao lado do da Sra. Force ficou vazio. A sede das Empresas Ikehorn em Nova York ocupava três andares do Edifício da Pan Am, e do escritório do presidente, 39 andares acima da rua, toda a Park Avenue se estendia até a distância apagada do Harlem. Ellis Ikehorn estava fazendo uma inspeção mundial de suas várias subsidiárias. Sua companhia, que Billy estava apenas começando a compreender, estendia-se num círculo de esferas sobrepostas: terras, indústria, madeira, seguros, transportes, revistas e firmas de construção e financiamento. Linda Force falava com ele no telefone várias vezes por dia, às vezes até durante uma hora, e depois de cada conversa ditava uma porção de cartas a Billy. Não obstante, havia nos escritórios uma sensação de calma de verão, a despeito das centenas de funcionários tratando de seus afazeres.

Billy ficou encantada quando a Sra. Force convidou-a para almoçar num dia em que ela não tinha de comer junto à sua mesa, esperando pacientemente por um dos telefonemas internacionais diários. Ela sentia certa curiosidade por sua superiora, mulher grisalha, redonda, de seus cinquenta e poucos anos, que não demonstrava nenhuma excentricidade em sua personalidade ou maneira de vestir, mas cuja força calma era evidente no minuto em que a pessoa a conhecia. A Sra. Force era dominadora, de um modo lindamente não-agressivo, conforme Billy observara. Ela manejava os negócios vastos e complicados das Empresas Ikehorn com as pontas dos dedos; tratava pelo primeiro nome, e de bom humor, os presidentes de todas as companhias Ikehorn; sua palavra, na ausência do próprio Ikehorn, era tão decisiva quanto a dele, e igualmente indiscutível. Aquela certamente era uma mulher que atingira o topo da carreira.

— Eu também estudei em Katie Gibbs — disse-lhe Linda Force, depois que elas escolheram, o prato, sorrindo ao lembrar-se. — Um inferno, não foi?

— Um inferno mesmo — disse Billy, suspirando, encantada ao ver comprovadas as suas teorias de como vencer nos negócios. — Mas valeu a pena, não acha?

— Sem dúvida. Naturalmente, eles não merecem todo o crédito. Só podem ajudar até certo ponto.

— É verdade. Concordou Billy, com ardor.

A Sra. Force continuou, pensativa.

— Quando penso que durante todo o curso universitário eu não pude aprender taquigrafia, um crime, na verdade.

— Em que se especializou na universidade? — arriscou Billy.

— Pré de direito em Barnard, com muita ênfase sobre o direito comercial, e consegui ainda uns cursos de administração de empresas na CCNY, nos verões — respondeu a Sra. Force, tomando o seu chá gelado. — Depois cursei um ano na Faculdade de Direito de Columbia, antes do dinheiro acabar. Felizmente eu tinha estudado contabilidade no verão, de modo que pude trabalhar como contadora, sem perder muito tempo. Aliás, foi nesse último ano que frequentei Katie Gibbs, como reforço. — Ela atacou a salada de galinha com vontade.

Billy estava boquiaberta. Ela fora reprovada em álgebra e geometria em Emery e era fraca em dízima periódica. "Direito, contabilidade, administração de empresas!"

— Ah, agora parece meio complicado, mas quando a gente tem de ganhar a vida... — continuou a Sra. Force, olhando para Billy, animadoradamente. — Ora, há vinte e cinco anos eu comecei onde você está hoje, como secretária da secretária do Sr. Ikehorn.

— Mas a senhora é assistente executiva dele! — protestou Billy.

— Ah, isso, isso é o meu título, como uma espécie de estímulo, imagino. Mas na verdade sou apenas secretária dele. Claro, sou uma supersecretária executiva. Não nego isso. E é um trabalho maravilhoso, mas não há possibilidade num negócio desses para uma mulher progredir mais do que isso. Afinal, pensando bem, o que eu poderia ser? Gerente de fábrica? Membro do conselho? Conselheira chefe? Não tenho o treinamento devido nem ambição para isso, francamente. Naturalmente, sem o meu treino de direito e contabilidade, eu não teria chegado até aqui.

— Não está sendo muito modesta? — disse Billy, sem muitas esperanças.

— Nada disso, meu bem, apenas realista — respondeu a Sra. Force, bruscamente. — Ah, é mesmo, o Sr. Ikehorn vai voltar segunda-feira e vou escolher mais duas moças para me ajudar, além de você. Quando ele está aqui, o trabalho triplica. Você poderá não b ver muito, mas saberá que ele está aqui.

— Tenho certeza de que sim — disse Billy, numa voz desanimada. Então ela era uma de três secretárias da secretária do patrão, e presa. Seria fatal para a sua ficha de empregada se ela não ficasse no primeiro emprego pelo menos durante um ano, especialmente numa companhia de tal prestígio. Billy Winthrop, fazendo carreira em Nova York, pensou ela, com tristeza. Bem, pelo menos estava ganhando para viver.

Quando Ellis Ikehoni entrou em seus domínios na manhã de segunda-feira, foi, como observou Billy, uma coisa como Napoleão regressando triunfalmente de alguma campanha bem-sucedida. A população do escritório só faltou levantar-se e dar vivas, ele estava acompanhado por uma procissão de marechais de campo carregando pastas pesadas, cheias, com certeza, de produtos do saque, e o grande escritório do canto imediatamente assumiu a atividade de um posto de comando. Billy imaginou, secamente, que quase podia ouvir o som das trombetas.

Ela foi apresentada rapidamente a Ellis Ikehorn pela Sra. Force, quando ele saiu para o almoço, e, ao levantar-se para cumprimentá-lo, ela teve a impressão de estar falando com um homem do oeste, não de Nova York, um homem alto, muito bronzeado, de cabelos brancos e espessos cortados rente, que parecia um pouco um índio americano por causa dos olhos velados, o nariz de águia e as rugas profundas que iam até a boca larga e tensa.

Mais tarde, naquele dia, Ellis Ikehorn perguntou à Sra. Force, com naturalidade:

— Quem é a nova moça?

— Wilhelmina Hunnenwell Winthrop. Katie Gibbs.

— Winthrop? Que Winthrop?

— Os de Boston, Plymouth Roch, Massachussets, Bay Colony. O pai dela é o Dr. Josias Winthrop.

— Cristo. O que é que uma pequena dessas está fazendo como datilografa, Lindy? O pai dela é um dos maiores na pesquisa de antibióticos do país. Não financiamos as pesquisas dele? Tenho certeza de que sim.

— Entre muitos outros, sim. A filha dele está aqui pelo mesmo motivo que nós outras estamos: tem de ganhar a vida. A família não tem dinheiro, é o que me disse, e o senhor devia saber que mesmo que o pai dela tenha um cargo de pesquisa, não deve ganhar mais de vinte, talvez vinte e dois mil dólares por ano. O dinheiro que o senhor dá vai para as despesas de equipamentos e laboratório, não para ordenados.

Ikehorn olhou para ela de um modo enigmático. Ela ganhava trinta e cinco mil dólares por ano, com algumas opções para compra de ações, e valia tudo isso. Lindy obviamente sabia dos ordenados de todo mundo.

— Você marcou hora com o meu médico?

— Amanhã de manhã, às sete e meia. — Ele não ficou satisfeito com a hora.

— Azar.


— Ellis, você é uma porra de um milagre médico — disse o Dr. Dan Dorman, o mais eminente especialista em medicina interna a leste de Hong-Kong.

— Como assim?

— Não é frequente eu ter a oportunidade de ver um homem de quase 60 anos com um físico de um de 40 e o cérebro de urna-criança de dois anos de idade.

— Como assim?

— Verificamos tudo duas vezes, desde que você esteve aqui, no outro dia. Fizemos todos os testes de laboratório e raios X conhecidos pela ciência, mais alguns que fui inventando pelo caminho. Nem um poro dilatado escaparia ao meu exame. Não há motiva algum para você se sentir mal.

— É. Mas sinto.

— Acredito. Há cinco anos que você não faz um exame geral, a despeito de minha insistência. Se você não se sentisse mal, não estaria aqui.

— Então o que é que está errado? Você acha que estou senil?

— Eu disse o cérebro de um garoto de dois anos de idade porque você se trata com uma falta imensa de bondade. Chamam a essa idade "os dois terríveis".

— É mesmo?

— Aos dois anos a criança faz manha quando não consegue o que quer; exerce atividade física em todas as horas do dia, mexendo em tudo o que vê; só dorme quando cai de exaustão; só come quando está morrendo de fome e leva todos os que a rodeiam à loucura.

— Mais alguma coisa?

— Durante vários meses de sua vida ela não se diverte muito, pois está por demais ocupada em bater com a cabeça nos obstáculos. Felizmente para a raça humana, lá pelos dois anos e meio ela começa a criar um pouco de juízo.

— Pare com os preparativos, Dan. Vá dizendo logo.

— Ellis, você tem de parar de se tratar dessa maneira. Você está bem fisicamente, mas mentalmente está procurando um enfarte..

— Você quer dizer que devo diminuir o ritmo de trabalho?

— Isso é óbvio demais, Ellis. Não venha brincar de médico comigo. Eu te conheço de longa data. Há quanto tempo você não se diverte?

— Sempre me divirto.

— Imagino que seja por isso que você esteja se sentindo mal.. E: os divertimentos?

— Divertimentos? Isso é coisa para garoto, Dan. Deixe de ser bobo. O que está querendo me dizer? Golfe? Uma bosta! Coleções de arte? Bosta! Gamão? Duas vezes bosta! Política, pilotar o meu avião particular, pesca de mergulho, criar cavalos puro-sangue, olhar a natureza, patrocinar o bale? Deixe disso, doutor. Não estou velho demais para fazer o que me der na telha, mas a cultura e os esportes não figuram entre as minhas aspirações.

— E xoxotas?

— Estou escandalizado, Dan.

— Uma ova. Só há duas coisas que você aprecia, Ellis, desde que tenho a honra de ser seu médico: negócios e xoxotas. Quanto tempo você dedica às mulheres hoje em dia, Ellis?

— O suficiente.

— Quanto, exatamente?

— Você parece até um cafetão. Desde que Doris morreu, acho que umas duas, talvez três vezes por semana, quando é fácil. Menos, se não for disponível com facilidade. Talvez uma vez por semana, talvez nada por uma semana ou duas, quando estou realmente fazendo coisas. Eu queria ver quanto tempo você teria para as mulheres com um dia de trabalho de dezoito horas, Dan.

— Você acabou de provar que tenho razão. Ellis, é bom você começar a ter juízo. Arranje uma mulher regular que não lhe dê azia. Comece a tratar-se como um ser humano. Seja bom para si mesmo, uma vez na vida. Você tem todo o dinheiro no mundo, mas não tem todo o tempo do mundo. Ê perder tempo mandar você levar as coisas na flauta, porém posso dizer para você satisfazer os seus caprichos.

— Meus caprichos?

— Olhe, Ellis, que diabo, como vou saber o que é que você quer? Talvez você gostasse de comprar o Taj Mahal e passar o tempo polindo o mármore. Talvez queira morrer o mais depressa possível. Neste caso, dê a volta ao mundo mais uma dúzia de vezes e esqueça como é a gente pegar num seio de mulher. Quem sabe lá o que você realmente quer fazer- da última parte de sua vida? Mas, seja o que for, é bom começar a pensar a respeito.

— Já entendi, Dan. Vou pensar a respeito. O físico de um homem de quarenta anos, você disse?

— É apenas uma opinião médica.

— E foi para isso que vim consultá-lo. Não pelo resto, seu psicanalista de araque. Dentro de uns seis anos terei direito à assistência médica pelo estado e aí me livro de você. Você fala demais.

Os dois se levantaram e foram para a porta do consultório, o braço de um carinhosamente passado por cima do ombro do outro. Dan Dorman era um dos poucos homens no mundo em quem Ellis confiava cegamente.

Billy e Jessica tinham criado um ritual: uma vez por semana jantavam juntas, acontecesse o que acontecesse.. Do contrario, arriscavam-se a não se verem de todo durante várias semanas,, devido a suas complicadas atividades sociais.

— Que tal é o Ikehorn, Billy?

— Para dizer a verdade, só o vi por alguns minutos de cada vez; é difícil garantir, mas eu acho, tenho quase certeza de que ele deve ter sido um dez.

— Deve ter sido?

— Jessie, o homem tem quase 60 anos. Não é nenhum garoto.

— Hmmm, Judeu, não é?

— O Wall Street Journal acha que sim. Fortune não. O Journal também acha que ele vale cerca de 200 milhões de dólares e Fortune acha que devem ser apenas 150 milhões. Ninguém sabe ao certo. Há vinte anos que ele não dá uma entrevista e tem seis funcionários ocupados em horário integral em nosso departamento de RP para manter o nome dele fora dos jornais, recusando solicitações para falar, esse tipo de coisa.

— Mas o que é que você acha?

— Ele é um pouco como um Robert Oppenheimer católico.

— Ah-ha!

— Ou então como um Nelson Rockefeller judeu, só que mais alto.

— Cruzes!

— Talvez um Lew Wasserman não-judeu.

— Meu Deus!

— Por outro lado...

— Não, pare!

— Bem parecido, não se ria, Jessie!, com um Gary Cooper judeu.

Jessica ficou olhando para ela, os olhos espocando. Era a melhor combinação que podia imaginar, nem que vivesse até os cem anos.

— De modo geral, é de arrasar. Deus, Jessie, você está toda nervosa! Controle-se, pequena.

— Conte tudo o que você sabe. De onde ele é? De que jeito começou? Conte!

— Andei investigando um pouco, disfarçadamente. Só o que sabem é que ele começou numa velha fábrica em Nebraska, com uma companhia à beira da falência. De onde ele era, o que estava fazendo em Nebraska, é um mistério. Ele endireitou a companhia e comprou outra fábrica falida. Quando esta se endireitou, ele comprou outra, e dessa vez não tão falida. Por fim, chegou ao ponto em que a firma de enlatamento comprou a firma de engarrafar, que comprou a firma de caminhões, que comprou a companhia de seguros, e a companhia de seguros comprou a companhia de revistas porque possuía a companhia de madeiras que fornecia o papel para as máquinas de impressão, que ele também comprou. Ou talvez fosse o contrário. Isso é só o começo. Você sabe.

— Eu não sabia, mas agora sei. Muito obrigada.

— Bom, você perguntou, não foi?

Ellis Ikehorn, achando graça, pilhou-se levando a sério o conselho de Dan Dorman. De vez em quando, no meio de uma reunião ou um telefonema, uma entre as muitas frases que o médico dissera lhe voltava à cabeça: "a última parte de sua vida". Não era uma das frases que Dan frisara mais, e no entanto, mais do que qualquer coisa que ele dissera, aquilo iluminava a realidade. Ikehorn nunca tivera interesse pelos aniversários, mas, com quase sessenta anos, refletiu, eles pareciam começar a avultar-se, que lhe interessassem ou não. Em princípio, ele não tinha nada contra a idéia de se mimar. É só que não sabia por onde começar. A mulher dele, Doris, falecida havia dez anos, aprendera a se mimar assim que ele começara a ganhar dinheiro de verdade, se é que se pode chamar de mimar a pessoa criar 40 gatos persas raros num luxo fabuloso. Pessoalmente, Ikehorn achava aquilo patético e nojento, e uma triste substituição para os filhos que não tiveram. Mas ela ficava feliz e ocupada o dia todo com as travessuras e doenças e às vezes partos das gatas, que ela mesma insistia em tratar, assistida por dois veterinários, "por via das dúvidas". Ellis resolveu ficar de olho nas oportunidades para se mimar. Era como encontrar uma nova companhia para comprar: primeiro, era preciso saber o que se estava procurando e, depois, a coisa aparecia na certa.

Uma vez, no meio da noite, Billy foi subitamente despertada por Jessica, que se lançou sobre sua cama como uma trouxa, acordando-a às sacudidelas.

— Billy, Billy, aconteceu. Encontrei um dez e ele é o homem mais divino do mundo e vamos nos casar?

— Quem é ele? Quando você o conheceu? Ah, pare de chorar, Jessie, pare já e me conte tudo.

— Mas você já sabe de tudo, Billy. É David% claro. Quem mais poderia ser tão maravilhoso?

— Jessie, David é judeu.

— Bem, claro que ele é judeu, não durmo com. outros homens.

— Mas você disse...

— Eu era uma idiota. Pensava que conseguiria, controlar tudo. Há! Mas é que então eu não conhecia David. .Estou tão feliz, Billy, nem posso acreditar.

— E sua mãe. O que é que ela vai dizer?

— Ela não vai ligar nem a metade do que a mãe dele vai. Não te contei que o pai de David é o sócio principal da segunda firma de investimentos bancários de Nova York? Nem sempre eu dei atenção aos seus conselhos de me afastar dos judeus alemães, graças a Deus. Minha mãe vai resistir muito bem, obrigada, e o meu pai será o homem mais indecentemente aliviado de Rhode Island. Afinal, já estou com vinte e quatro anos, Billy, e papai encasquetou essa idéia de que estou levando uma vida pecaminosa.

— Ele deve ser muito malicioso. Uma pequena direita como você! — Enquanto Jessica, feliz, abanava a cabeça por causa do pai desconfiado, Billy lembrou-se de uma coisa. — Mas como é que você vai criar os seus filhos? Como judeus, ou na Igreja Episcopal?

— Eles que resolvam. Quando tiverem idade suficiente, provavelmente vai haver outro jeito.

— Ah, Jessie, o que vou fazer sem você?

Ellis Ikehorn estava esperando por Linda Force, impaciente. Ela não aparecia para trabalhar naquele dia e eles estavam atrasados pra partirem para Barbados onde ele ia encontrar-se com os chefes de duas de suas companhias de madeira brasileiras. Que diabo, passava das nove horas e ele já tinha dado três telefonemas.

Billy bateu timidamente à porta da sala dele. Ela nunca tinha entrado lá, desde que ele voltara. Quando ele ditava, era diretamente à Sra. Force, que depois passava o serviço às três moças na sala pegada à sua..

— Com licença, Sr. Ikehorn. A Sra. Force acabou de ligar para mim no meu telefone porque os seus estavam todos ocupados.

Diz que acha que está com gripe. Acordou hoje sentindo-se tão mal que nem conseguia levantar da cama. Disse para o senhor não se preocupar, a empregada está lá para cuidar dela, e ela sente muito desapontá-lo.

— Jesus, vou mandar Dorman lá imediatamente. Lindy não conseguiu levantar da cama? Deve estar com pneumonia dupla. OK, pegue o seu casaco e chapéu, enquanto eu ligo para Dorman. E Tião se esqueça do bloco. Você precisa telefonar para alguém para avisar que vai a Barbados?

— O quê, ir com o senhor? Assim?

— Claro. Pode comprar o que precisar quando chegarmos a Barbados. — O homem alto e bronzeado, com os cabelos curtos e brancos, virou-se impaciente para o telefone. — Ah, chame uma das outras moças quando sair. Ela tem de' ficar à mesa de Lindy para tomar os recados. Vou telefonar assim que chegarmos. Vamos, estamos atrasados.

Enquanto eles disparavam para o aeroporto em que os esperava o Learjet das Empresas Ikehorn, Billy, sentada nervosamente ao lado do patrão, tomava nota de cartas e mais cartas. Em seu coração começava a nascer o seu afeto pela falecida Katherine Gibbs.

Billy nunca estivera ao sul da Filadélfia. Quando ela saltou do avião refrigerado e sentiu o ar úmido, voluptuoso e fragrante de Barbados, entrou numa nova dimensão dos sentidos. O vento furtivo era insinuante; o cheiro maduro e desconhecido da terra era docemente estimulante e tentador, dando a Billy a sensação de respirar coisas que ela compreendia logo mas nunca poderia saber completamente. Ela estava desorientada pela própria ilha, o carro correndo rápido pelo lado errado de estradas estreitas e sinuosas, cercadas de barracos em tons pastel e um mato verde-escuro, terminando na elegância das arcadas e pilastras dos velhos tijolos de Shady Lane. A suíte dela dava diretamente para a praia larga, sombreada de árvores. Parecia-lhe que podia ver um horizonte de 180 graus, com montes de nuvens amarelas e arroxeadas voando ao longe, logo acima do sol poente.

O Sr. Ikehorn lhe disse que ela dispunha justo do tempo suficiente para comprar tudo de que precisasse para uma estada de dois dias na galeria de lojas do hotel e, encarolada em seu costume de lã, rapidamente escolheu vários vestidos simples de seda, sandálias, roupa de baixo, um biquíni, uma saída de praia e artigos de toalete na farmácia. Pôs tudo na conta do seu quarto e voltou depressa, a tempo de ver o sol se pôr num esplendor assustador de beleza, antes da noite cair de repente e milhões de insetos nativos começarem imediatamente uma combinação enervante de pios e zumbidos. Ficou aliviada ao encontrar debaixo da porta um recado do Sr. Ikehorn, dizendo que pedisse o jantar no quarto e fosse dormir cedo. Começariam a reunião logo depois do café da manhã, no dia seguinte. Ela deveria estar pronta às sete horas em ponto.

Durante os dois dias seguintes, enquanto Ikehorn e seus dois chefes de divisão sul-americanos se reuniam e falavam, horas a fio, ela e uma secretária brasileira tomavam notas rapidamente, davam telefonemas, e, enquanto os homens almoçavam juntos, conseguiam dar uns mergulhos rápidos na água morna e sedutora da praia, onde os corais afiados se escondiam por baixo da areia límpida. Nina, a brasileira, falava um inglês perfeito e ela e Billy comiam juntas numa mesinha colocada a alguma distância dos três homens. Jantavam todos na grande curva do terraço externo sobre o mar, só iluminado por centenas de velas. O hotel estava meio vazio e assim ficaria até a temporada das festas de Natal, quando se encheria de famílias que teriam feito suas reservas com pelo menos um ano de antecedência.

Na terceira manhã os sul-americanos partiram de avião bem cedo, e Ikehorn avisou a Billy para estar pronta para partir ao meio-dia. Quando o pilito-chefe telefonou, no meio da manhã, para avisar que o tempo tinha mudado e que haviam recebido avisos de furacão, a informação não era propriamente necessária. Um lençol de chuva, sem espaço visível entre as gotas, já estava caindo entre suas janelas e a praia. Os ramos das árvores batidos pelo vento estavam quase se arrastando na areia.

— Mais vale você descansar um pouco, Wilhelmina — disse Ellis Ikehorn, afinal. — Isso não vai passar tão cedo. É o tempo de furacões em todo o Mar das Antilhas, essa época do ano, e é por isso que o hotel está tão vazio. Pensei em partirmos a tempo, mas agora já é tarde.

— Para dizer a verdade, Sr. Ikehorn, é Billy que costumam me chamar. Ninguém me chama de Wilhelmina. É o meu nome, mas não o uso. Não achei que devesse dizer isso enquanto o Sr. Valdez e Sr. de Heiro estavam aqui.

— Devia ter pensado nisso antes. Para mim você é Wilhelmina. Ou detesta o nome?

— Não, senhor, em absoluto. É só que parece esquisito.

— Sei. Bom, vou-lhe dizer, pode me chamar de Ellis. É um nome esquisito também.

Billy ficou calada. Na escola Katie Gibbs nada ensinavam sobre isso. O que faria Jessie? O que faria Madame de Vertdulac? O que faria a tia Cornélia? Jessie, pensou ela, num piscar de olhos, novavelmente murcharia tanto que se derreteria, a Comtesse daria o seu sorriso mais enigmático, e tia Cornélia o chamaria de Ellis, sem mais formalidades. Billy pilhou-se combinando as três reações.

— Ellis, por que não vamos passear na chuva? Seria perigoso?

— Não sei. Vamos ver. Tem uma capa de chuva? Não, claro que não. Não importa, ponha o seu maio.

A idéia que Billy fazia de um passeio na chuva baseava-se num chuvisco no Parque de Boston. Mas aquilo era como estar debaixo de uma cachoeira morna. Eles tinham de abaixar a cabeça para não se engasgarem com a água que caía e ambos correram instintivamente para o mar e mergulharam, como se o mar os protegesse da chuva. Três garçons, apanhados pela chuva, se encolhiam sob o bar da praia e riam dos turistas malucos que espadanaram na água rasa uns minutos, até desistirem e correrem pela areia pegajosa, desaparecendo em seus respectivos quartos.

Quando se encontraram para o almoço, Billy disse impetuosamente:

— Meu Deus, Ellis, desculpe. Que idéia mais boba! Eu quase me afoguei e a sua capa ficou ensopada.

— Eu não me divertia tanto há... há muito tempo. E você estragou o penteado.

Os cabelos de Billy, compridos e espessos, num penteado cuidadosamente bufante e cheios de laquê, no estilo antigo de Jackie Kennedy, agora estavam apenas enxutos pela toalha e lhe caíam pesadamente até os ombros. Ela usava um vestido chemisier rosa-forte e sua pele estava ligeiramente bronzeada dos banhos de mar na hora do almoço. Ela nunca estivera tão linda e sábia disso.

Ellis Ikehorn sentia fortemente o peso da distância irônica que ele mantinha entre si e as outras pessoas. Mas esta parecia estar-se dissolvendo ou desaparecendo no ar da sala de jantar refrigerada. Dan, pensou ele, com ironia, lhe dissera para se mimar, mas nem mesmo aquele sujeito com fixação em mulher podia estar pensando numa pequena de vinte e poucos anos, uma Winthrop de Boston, filha do Dr. Josiah Winthrop.

Conversando com naturalidade e prazer durante um almoço calmo, tanto Billy quanto Ellis Ikehorn entraram e saíram devaneando de cinco estados de espírito diferentes, nenhum tomando conhecimento dos pensamentos do outro. Em um plano eles estavam fazendo o inventário básico de qualquer tipo de novo conhecimento, fazendo e respondendo perguntas cuidadosamente superficiais sobre a vida um do outro. Em outro plano, como fazem todas as pessoas, sem nem pensar a respeito, estavam notando o aspecto físico um do outro: detalhes da estrutura da pele, músculos, olhar, movimentos dos lábios sobre os dentes, brilho dos cabelos, trejeitos, gestos, tudo quanto o olho guloso e constantemente- avaliador pode gravar. Num terceiro plano, cada um estava pensando em levar o outro para a cama. Não em termos de levar ou não. Apenas como e quando. Num quarto plano, cada um estava pensando em todos os motivos excelentes e persuasivos pelos quais não podiam nem deviam considerar esse ato seriamente. E no quinto, plano, fundamental, ambos estavam cheios da noção estranha, clara e emocionante, de que aquilo simplesmente ia acontecer. Alguma coisa tinha sido deflagrada, e enquanto eles corriam juntos no meio daquela chuva quente e pesada, surgira uma ligação sensual que anos de um conhecimento mútuo poderiam nunca ter provocado. Tinham saltado por cima de todos os preparativos normais e, enquanto almoçavam civilizadamente, o grande homem desdobrando-se para deixar a jovem secretária à vontade, a secretária comportando-se com a devida educação e compostura, aliadas a um devido respeito pelo grande homem, ambos estavam tão no cio quanto podem estar um macho e uma fêmea.

Esse estado, por mais que seja encoberto pelas convenções e proibições, raramente deixou de ser tornar evidente, se é que algum dia deixou. As palavras não são necessárias. Os seres humanos ainda conservam uma percepção animal suficiente para perceberem quando desejam e são desejados. Depois do almoço Ikehorn sugeriu que Billy fosse descansar um pouco, enquanto ele fazia os exames preliminares de suas reuniões com os brasileiros. O sistema telefônico estava enguiçado e ele não tinha mais cartas para ela. Na verdade, ele estava ganhando tempo. Tinha de pôr uma certa distância entre si e aquela mulher. Ele era um homem cujos instintos aquisitivos haviam condicionado a sua vida desde que tinha lembrança. Seu sucesso baseava-se tanto no fato de seguir o seu ímpeto de aquisição quanto no seu gênio para os negócios. Aperfeiçoara ao máximo uma filosofia que tratava do quanto ele realmente desejava alguma coisa neste mundo. Para Ellis Ikehorn, algumas coisas não valiam mais do que um investimento de tempo de 58%, mais um investimento de energia de 45%. Outras valiam um investimento de tempo de 70%, mas somente um investimento de energia de 20%. Quando ele empreendia um novo negócio, tinha de ser um que, deixando de lado todas as considerações puramente financeiras, o levasse a querer dedicar 80% de seu tempo e energia disponíveis. Do contrário, como ele provara a si mesmo, a iniciativa seria errada, por mais promissora que parecesse ser.

Wilhelmina Winthrop? Ele não sabia se se sentia um velho tolo, ou um moço tolo, mas o fato é que ele a desejava 100%. Nem se lembrava mais da última vez em que achara que alguma coisa valesse 100%. Certamente nada depois dos primeiros cinco, talvez dez milhões de dólares. Ficou andando de um lado para outro na sala de sua suíte, maldizendo Dan Dorman, maldizendo Lindy Torce, maldizendo o furacão, mais feliz do que se sentia havia dezenas de anos, e sem saber o que fazer.

Billy estava sentada à penteadeira, escovando os cabelos. Tinha resolvido que possuiria Ellis Ikehorn. Os cálculos não figuravam em sua decisão; esta partia diretamente de seu coração e seu sexo. Ela o desejava, e por mais inimaginável que fosse, ia tê-lo e tê-lo agora, antes que acontecesse alguma coisa para modificar a oportunidade que o tempo lhe dera. Suas pupilas se apertaram, em concentração, e seus lábios, sem batom, como sempre, estavam de um rosado mais forte do que o normal, e ela os mordeu, para pedir que tremessem. Movendo-se com precisão, como que seguindo um roteiro predeterminado, vestiu sua saída de praia de cambraia fina e transparente sobre o corpo completamente despido e avançou ousadamente, uma caçadora descalça, pelo corredor vazio até a porta da suíte dele.

Antes de abrir a porta ele já sabia quem seria. Ela ficou ali parada, calada, sem sorrir, muito alto. Ele a puxou para dentro do quarto, trancou a porta e abraçou-a sem dizer uma palavra. Ficaram agarrados muito tempo, sem se beijar, só se apertando com força, em toda a superfície de seus corpos firmes, como duas pessoas que se encontram depois de uma ausência longa, demais para ser interrompida por simples palavras. Depois ela o levou pela mão para o quarto dele, em que as cortinas estavam cerradas para tapar a tempestade. Duas lâmpadas de cabeceira já estavam acesas. De repente eles caíram sobre a cama, arrancando as poucas roupas que usavam, consumidos por um desejo que não conhecia barreiras, nem vacilações, nem orgulho, nem idade, nem limites. O tempo desaparecera.

O furacão durou mais dois dias. Billy trouxe do seu quarto a bolsa, a escova de cabelos e a escova de dentes. De vez em quando eles se levantavam da cama, pediam alguma coisa para comer no quarto e olhavam para a praia varrida pelo vento e pela chuva, ambos temendo o momento em que passasse a tempestade. Enquanto o casulo do furacão os envolvesse, não existiria um outro mundo. Nem uma vez, no fluxo interminável e intenso da conversa, eles se referiram ao futuro. Na terceira manhã Billy acordou sabendo que o sol devia estar brilhando lá fora. Eles ouviam dúzias de homens varrendo a praia, vários carpinteiros já trabalhando, cães latindo, perseguindo-se na areia.

Ellis fez um gesto para Billy não abrir as cortinas e pegou o telefone, dizendo à telefonista para não completar nenhuma ligação para lá.

— Por quanto tempo podemos brincar de furacão, meu querido? — perguntou ela com tristeza.

— É precisamente sobre isso que estou meditando desde as cinco horas da manhã. Acordei a essa hora e vi que a chuva tinha parado. Vamos conversar a respeito.

— Antes de tomar café?

— Antes que qualquer coisa ou qualquer pessoa do mundo exterior possa entrar neste quarto. No minuto em que isso acontecer, vamos parar de pensar direito. A única coisa que interessa é o que você e eu resolvermos. Agora, hoje, podemos fazer a nossa escolha.

— Isso será realmente possível?

— É uma das coisas que o dinheiro não pode comprar. Nunca compreendi isso plenamente, até agora. Temos a liberdade de escolha.

— O que é que você escolhe? — Ela abraçou os joelhos com os cotovelos, muito curiosa. Mesmo no meio de uma reunião de negócios ela nunca o vira tão concentrado, tão poderoso.

— Você. Eu escolho você.

— Mas você já me tem, não sabe disso? O sol não vai mudar nada. Eu não me derreto.

— Não estou falando de um caso, Wilhelmina. Quero casar com você. Quero você para o resto de minha vida.

Ela meneou a cabeça, aturdida, incapaz de falar, todo o seu ser instantaneamente assentindo a uma idéia que não aparecera de forma evidente em sua mente até aquele momento. Embora eles tivessem passado os dois últimos dias na igualdade perfeita da nudez e da paixão, no íntimo ela sempre procurava esquecer o futuro. Havia uma distância demasiada a separá-los, anos demais, dinheiro demais. Ela aceitara a desigualdade das posições deles porque se criara acostumada a conviver com a desigualdade. Não ousara esperar além do presente porque aprendera que a esperança é um perigo. Entregam-se livremente, sem expectativas, porque queria aquele homem. E agora o amava.

— O que isso quer dizer? Sim ou não? — o movimento de cabeça dela podia significar qualquer dos dois, pensou ele, ansioso tomo um garoto

Sim, sim, sim, sim, sim! — Ela atirou-se a ele e puxou-o para baixo da cama, batendo nele com os punhos para frisar o que dizia.

— Ah, minha querida! Minha querida, querida! Não vamos sair desta ilha antes de nos casarmos. Tenho medo de que você mude de idéia. Vamos guardar todo o segredo possível. Podemos ficar aqui para passar a lua-de-mel, ou para sempre, se você quiser. Só tenho de dar um telefonema para a coitada da Lindy. Ela há de saber o que fazer.

— Quer dizer que não posso ter um casamento na igreja, de vestido de noiva, com oito primas como damas de honra, de Lindy como sua madrinha? — implicou ela. — Seria um dos acontecimentos do ano em Boston. Tia Cornélia se encarregaria disso.

— Boston! Quando isso se espalhar, estará em todos os jornais do país: "Milionário idoso casa-se com noiva criança." Teremos de estar preparados para isso. Que idade você tem, querida, vinte e seis, sete?

— Que dia é hoje?

— Dois de novembro. Por quê?

— Tenho vinte e um anos, desde ontem — disse ela, com orgulho.

— Ah, Jesus — gemeu ele, enterrando a cabeça nas mãos. Depois de um minuto começou a rir, sem poder parar, exclamando "parabéns" de vez em quando, o que só o fazia rir mais ainda. Por fim Billy teve de rir com ele. Ele estava um espetáculo, assim encolhido. Ela só não entendia o que era tão engraçado.

Durante os sete anos seguintes, nenhum, departamento de relações públicas do mundo poderia ter impedido que Billy e Ellis Ikehorn aparecessem aos olhos do público. Para os milhões de pessoas que liam a respeito deles e viam as frequentes fotos em jornais e revistas da jovem beldade aristocrática e magnificamente bem vestida e do homem magro e alto, de cabelos brancos, o nariz aquilino, os Ikehorn pareciam a essência do que significa estar no grande mundo da fortuna e do poder. A diferença de 38 anos em suas idades e o ambiente de Billy, de Boston, patrício e histórico, dava um toque romântico e romanesco que não existia em casais mais bem equilibrados da alta sociedade.

Nunca se deixou de conjecturar se Billy se casara com Ellis por causa do dinheiro dele. Obviamente, conhecendo os círculos em que viviam, ambos sabiam que essa pergunta deliciosamente vil tinha de estar na cabeça de todos que eles conheciam e que a maioria das pessoas havia de supor que o dinheiro fora a força motivadora. Mas só duas ou três pessoas sabiam o quanto Billy amava Ellis, como dependia totalmente dele.

Mas será que ela se teria casado com Ellis se ele fosse pobre? Essa conjectura era basicamente sem sentido. Ellis era o homem que era porque era imensamente rico. Ou talvez ele fosse imensamente rico por ser o homem que era. Sem dinheiro ele teria sido outro homem completamente diferente. Era uma pergunta tão inútil como perguntar se Robert Redford ainda seria Robert Redford se fosse feio, ou Woody Allen o mesmo Woody Allen sem um senso de humor.

Seis meses depois de seu casamento em Barbados os Ikehorns foram à Europa, no que foi a primeira de suas muitas viagens; A primeira parada foi em Paris, para onde Billy quis voltar em triunfo, e em triunfo voltou. Uma suíte de quatro quartos no Ritz, dando para a nobre simetria da Place Vendôme, tornou-se sua base durante um mês. Os quartos tinham tetos altos, as paredes pintadas nos tons "château" mais delicados de azul e cinza e verde, com molduras complicadas folheadas a ouro, e as camas mais confortáveis do continente. Até mesmo Ellis Ikehorn, apesar de todo o seu preconceito contra os franceses, teve de confessar que não era um mau lugar onde se hospedar.

Lilianne de Vertdulac se despedira de Billy no trem para tomar o navio de volta aos Estados Unidos dois anos antes. Ela agora ficou abismada ao ver as modificações que se haviam operado na moça, riu tão pouco tempo. Parecia, pensou ela, a pessoa ver as fotos da jovem Farah Diba, a estudante linda, quase desengonçada, encabulada e tímida, logo depois de se transformar na consorte absoluta e indubitável do Xá do Irã. O mesmo rosto, o mesmo corpo, mas um ar totalmente diferente, algo de comoventemente novo no jeito de se mover e olhar para as pessoas em volta, algo de inesperadamente esplêndido, quase imperial, mas inteiramente natural.

Billy então, por seu lado, viu surgir um lado da Comtesse que era uma novidade total, em sua experiência com aquela senhora. Lilianne flertou com Ellis, como se os dois não tivessem mais de vinte e três anos, achou encantadoras as tentativas incertas que ele fez para falar algumas palavras de francês, chamava-o frequentemente e em quase todas as circunstâncias de "coitado do queridinho" e exibia frequentemente o seu domínio de inglês com sotaque de Oxford. Ela aceitou Billy como mulher adulta, chamava-a de Wilhelmina, como Ellis, e insistia em ser chamada pelo seu nome de batismo, o que Billy, a princípio, achou estranhamente difícil.

Ellis acompanhou as duas a todas as coleções de alta costura. Fias pediram ao concierge do Ritz que providenciasse por telefone seus convites para os desfiles, como é o costume quando os turistas visitam Paris, mas seu lugar na sala de desfiles não era um detalhe que o concierge pudesse garantir. As mesmas diretoras orgulhosas que, alguns anos antes, concediam entradas para a Comtesse, na quinta ou sexta semana dos desfiles, e assim mesmo lugares não necessariamente bons, davam um olhar para Ellis, grande magnata bronzeado em seu terno de Savile Row, mal se davam ao trabalha de gravar Billy e Lilianne com um olhar de periferia, e imediatamente os conduziam aos melhores lugares da casa. Uma diretora de casa de alta costura sabe distinguir um homem rico e generoso quase antes dele atravessar a porta; há quem diga que ela deve saber sentir o cheiro dele a cem passos, de olhos vendados, para poder realmente merecer o seu cargo.

Foram primeiro a Chanel, cujos costumes de dois mil dólares estavam sendo usados como uniforme por todas as mulheres chiques de Paris. "Era uma época em que as mulheres, almoçando juntas no pelais do Plaza Athenée, o "snack bar" mais elegante de Paris, invariavelmente dedicavam a primeira hora da refeição a resolverem quais das outras mulheres presentes estavam com "une vraie" e quais usavam "une fausse" Chanel. As copiadoras habilidosas eram capazes de reproduzir tudo, até mesmo a corrente dourada que fazia pesar na barra do forro do casaco, dando-lhe uma queda perfeita, mas havia alguma coisa que sempre denotava une fausse: um botão ligeiramente menor do que o autêntico, uma franja no bolso dois milímetros mais comprida ou um milímetro mais curta, o tecido certo na cor errada.

Na casa Chanel, Billy encomendou seis costumes, ainda em parte orientada pelos conselhos de Lilianne. Ellis, para surpresa de Billy, parecia estar tomando notas nos bloquinhos que lhes entregaram na entrada, usando sua velha caneta tinteiro Parker, em vez dos lapizinhos dourados distribuídos aos outros. Enquanto os três voltavam a pé pela Rua Cambon para tomar chá no Ritz, ele disse:

— Lilianne, a sua primeira prova será daqui a dez dias.

— Pobre queridinho, você está completamente louco — disse a Comtesse.

— Não. Encomendei três costumes para você, números 5, 15 e 25. Vocês não queriam que eu aturasse aquilo tudo sem me divertir um pouco, não é?

— Está completamente fora de cogitação — disse Lilianne, profundamente chocada. — Eu não poderia deixá-lo fazer isso. Nunca. Positivamente nunca. Você é bom demais, Ellis, mas não, simplesmente não.

Ellis sorriu com indulgência para a francesa aturdida.

— Você não tem escolha. A diretora me deu a palavra de honra que ia responsabilizar-se pessoalmente para que começassem a trabalhar nos costumes neste minuto.

— Impossível! Não me tiraram as medidas e eles nunca fariam nada sem as medidas.

— Isto é uma exceção. A diretora me prometeu que podia adivinhar perfeitamente. Ela é quase o seu manequim. Não, eles têm ordens para executar o trabalho, aconteça o que acontecer. Se você não os usar, terei de dá-los à diretora.

— Isso é ridículo — disse Lilianne, protestando violentamente. — Eu lhe disse ao almoço que há anos que antipatizo com aquela mulher. Ellis, eu o acuso de estar fazendo chantagem.

— Sei. Pode chamar do que quiser, pobre queridinha.

— Oh. Oh! — Pela primeira vez na vida a Comtesse não conseguiu encontrar as palavras certas, e as palavras certas para uma francesa vêm no leite da maman. Ellis tinha escolhido exatamente os costumes que ela teria escolhido para si. Ela faria tudo, menos matar, para possuir ou o número 5, ou o 15, ou o 25. Mas todos três!

— Pense assim, Lilianne, ou você faz as coisas a meu jeito, ou terá muitos problemas comigo. Não vai querer isso, vai? Eu a estou forçando, pobre queridinha, com o meu jeito bruto da americano, e não há nada que você possa fazer. — Ellis procurou parecer o mais ameaçador possível, mas só conseguiu parecer encantador.

— Está bem — disse a Comtesse, mais calma. — Afinal, estou completamente desamparada, não estou? Quando a gente gosta de um homem maluco, não se pode correr o risco de ofendê-lo.

— Bom, está resolvido — disse Ellis.

— Ah, mas espere. Amanhã vamos a Dior e lá você tem de prometer que não vai me pregar essas peças.

— Não encomendo mais nada sem deixar que primeiro lhe tirem as medidas — garantiu-lhe Ellis. — Mas aqueles costumes de Chanel eram todos para usar de dia, não eram, Wilhelmina, meu amor?

Billy concordou, sorrindo e com lágrimas nos olhos. Poder dar alguma coisa a alguém que lhe dera tanto era uma alegria que ela nunca soubera que existisse.

— E então, Lilianne, você ainda tem de ter umas coisas para a noite, certo, Wilhelmina? Faz sentido.

— Não, não irei com vocês nessas condições.

— Oh, Lilianne, por favor — pediu Billy. — Ellis está se divertindo tanto. E eu não apreciaria se você não estivesse presente. Preciso dos seus conselhos. Você tem de ir, por favor.

— Bem — concedeu a Comtesse, cheia de felicidade. — Neste caso, eu os acompanharei, mas Ellis só pode escolher um, um modelo para mim.

— Três — retrucou Ellis. — É o meu número de sorte. — Dois, e está acabado.

— Combinado. — Ellis parou no meio do corredor comprido "e deslumbrante, com as vitrinas que mostram o que Paris tem de melhor a oferecer, e que liga os fundos à frente do Ritz. — Vamos apertar as mãos para fechar o trato, pobre queridinha.

A imprensa logo ficou especialmente fascinada com o guarda-roupa de Billy. Em geral a mulher rica, em matéria de moda, só descobre o seu estilo depois de estar casada vários anos, se é que algum dia descobre o estilo que lhe convém. Mas Billy tivera aquele aprendizado intensivo com Lilianne de Vertdulac, educando-a no potencial ilimitado da elegância e agora, com Ellis apoiando-a, insistindo para que ela se vestisse tão esplendidamente quanto ela jamais sonhara, para agradar a ele tanto quanto a ela, tomou-se uma das principais clientes do mundo da moda.

Billy era capaz de vestir qualquer, vestido que jamais foi feito. A carta branca que ela recebeu aos vinte e um anos poderia ter tornado ridícula uma mulher com menos gosto e menos altura, mas Billy nunca exagerava na vestimenta. O sentido rigoroso de perfeição de Lilianne, bem como seu olho natural, a impediam dos excessos. Não obstante, quando era preciso exibir grandeza, ela não se poupava. Num banquete de estado na Casa Branca, ela era a figura mais resplandecente, tendo apenas vinte e dois anos de idade, com um vestido de cetim lilás-pálido de Dior e esmeraldas que pertenceram à Imperatriz Josefina. Aos vinte e três anos, quando ela e Ellis foram fotografados a cavalo em sua fazenda de 12 mil hectares no Brasil, Billy estava de culotes simples, botas e uma camisa de algodão aberta, mas na apresentação de uma nova coleção de Yves Saint Lourent, duas semanas depois, ela estava com o costume marcante da sua coleção anterior, enquanto Ellis, que se estava tornando velho habitue de Paris, lhe murmurava os números dos modelos que ele achava que ela devia encomendar. As pessoas que levavam a moda a sério lembraram-se então do desfile de primavera de roupas de gala de Jacques Fath, em 1949, 16 anos antes, em que o falecido Aly Khan, sentado ao lado de uma Rita Hayworth jovem e maravilhosa, decretara "o branco para os teus rubis, o negro para os teus brilhantes, o verde-claro para as tuas esmeraldas".

Billy também tinha um tesouro de jóias preciosas, mas suas favoritas sempre foram os Gêmeos Kimberley, incomparáveis, os brincos de brilhante de nove quilates, perfeitamente iguais,, que, segundo Harry Winston, eram das mais belas pedras que ele jamais vendera. Sem ligar para as convenções, ela os usava de manhã, de tarde e de noite, sem nunca parecer deselegante. Aos vinte e três anos, Billy gastou mais de 300 mil dólares em roupas, sem contar as peles e jóias. Grande parte do dinheiro era gasto em Nova York, pois Billy, perfeito manequim número oito nas roupas dos figurinistas americanos, queria evitar os excessos de provas em Paris, que tomavam tanto tempo e a afastava de Ellis e de seus passeios pela cidade. Foi nesse ano que ela apareceu pela primeira vez na lista das mulheres mais elegantes.

Pouco depois de voltarem a Nova York, os Ikehorns alugaram e redecoraram todo um andar no alto da torre do Hotel Sherri-Netherland, na Quinta Avenida, que se tornou sua residência permanente. De suas janelas tinham uma visão global da cidade: todo o Central Park espalhava-se como um rio verde a seus pés. Ellis Ikehorn ainda dominava as grandes empresas, das quais tinha maioria como voto nas ações, e eles passavam muito tempo em Manhattan. Como as Empresas Ikehorn eram uma companhia aberta, seu conselho diretor e funcionários executivos tinham sido constantemente e brilhantemente escolhidos por ele, para continuarem a gerir os negócios depois de sua morte. Todos possuíam suficientes ações para assegurarem sua lealdade. Então cada vez mais ele via que podia passar tempos com Billy em lugares distantes. Quando Billy fez vinte e quatro anos, compraram uma villa em Cap-Ferrat, com jardins de fábula e terraços gramados que desciam para o Mediterrâneo um vasto Matisse; mantinham uma suíte de seis quartos permanente no Claridge's, para suas frequentes viagens a Londres, onde Billy colecionava prata dos períodos Georgiano e da Rainha Ana, enquanto Ellis passava parte do dia em reuniões de negócios. Compraram uma casa de praia numa enseada escondida em Barbados, para onde voavam muitas vezes, em fins de semana; viajaram muito pelo oriente; mas de todas as suas residências, ambos preferiam a mansão vitoriana no Napa Valley, onde podiam ver o cultivo de suas uvas para seus vinhos Château Silverado, num ambiente campestre tão pastoril, tão confortador para o espírito quanto o da Provence.

Sempre que Billy e Ellis estavam em Nova York, a tia Cornélia, que enviuvara pouco depois do casamento de Billy, ia passar uma ou duas semanas com eles. Uma amizade profunda surgira entre Cornélia e Ellis, e ele ficou quase tão desconsolado quanto Billy quando Cornélia morreu de repente, uns três anos depois do casamento deles. Cornélia, para quem a doença era uma coisa que simplesmente não podia existir, teve um ataque cardíaco, primeiro e único, fatal, morrendo como queria, sem confusão, de maneira eficiente e organizada, sem nem acordar os empregados. Billy não quisera voltar a Boston depois de seu casamento, porque a cidade trazia recordações tão penosas para ela, mas aí, naturalmente, ela e Ellis foram lá para o sepultamento de tia Cornélia.

Hospedaram-se no Ritz-Carlton, parente pobre do desfile de outros Ritzes que eles conheciam tão bem, o Ritz de Lisboa, o Ritz de Madri, e, melhor de todos, o Ritz de Paris. Não obstante, o hotel tinha o pulso de um Ritz, a despeito de seu sabor abafado de Boston.

Antes de partir para a igreja em Chestnut Hill, onde seriam realizados os ofícios e onde tia Cornélia devia ser sepultada junto do tio George, Billy olhou-se no espelho pela última vez. Estava com um sóbrio vestido e casaco de Givenchy, de lã preta, com um chapéu preto que pedira que Adolfo lhe enviasse assim que soube da notícia da morte de Cornélia pela prima Liza. Ellis ficou olhando enquanto ela tirava os brilhantes das orelhas e os guardava na bolsa.

— Não vai de brincos, Wilhelmina? — perguntou ele.

— Estamos em Boston, Ellis. Acho que não fica bem.

— Cornélia sempre disse que você era a única mulher que ela conhecia que podia parecer natural usando-os na banheira. Parece uma pena.

— Eu tinha esquecido, meu bem, é verdade. E por que estou me preocupando com Boston, também? Pobre tia Cornélia. Ela passou tantos anos querendo transformar esse patinho feio num cisne, você tem razão, devo fazer-lhe justiça. Ela gostaria disso. — Billy tornou a pôr os brincos, e quando eles refletiram o brilho do sol de inverno no espelho, num resplendor nada fúnebre, ela disse baixinho: — Supinamente vulgar para a igreja, especialmente no campo. Será que alguém terá o topete de me dizer isso?

Se alguém sequer pensou nisso na versão bostoniana de velório que se seguiu ao sepultamento, na sala de visitas de uma grande casa em Wellesley Farms, pertencente a uma das irmãs de tia Cornélia, nunca foi mencionado em voz alta. Como sempre, depois de um enterro, todo mundo bebe, ou muito, ou pelo menos um pouco mais do que o habitual, e a troca de cumprimentos discreta da primeira meia hora logo se seguiu um burburinho surpreendentemente animado de conversas. Em breve Billy percebeu que ela e Ellis estavam no centro de um grupo de parentes que pareciam sincera e francamente contentes por renovarem as relações com ela, alguns até alegando uma intimidade que nunca existira. Ela se preparara para ouvir comentários como "que nome é esse, Ikehorn, Billy? Nunca ouvi nada de parecido. Onde é que ele nasceu, meu bem? Como é mesmo o nome de solteira da mãe dele?" Mas esses comentários e perguntas não apareceram.

— Não entendo bem, Ellis — disse ela, quando afinal voltaram para o hotel. — Não sei por que, imaginei que eles fossem educados comigo mas meio frios com você. Mas lá estavam os tios a tratá-lo como se você tivesse nascido aqui, e minhas tias e primos todos me adulando. Até mesmo o meu pai, que há anos não fala com ninguém a não ser os micróbios, estava conversando com você com o que só posso qualificar de animação. Certamente nunca o vi assim em minha vida. Se não se tratasse de Boston e eu não os conhecesse tão bem, diria que estão impressionados com o seu dinheiro.

Não, pensou Ellis consigo mesmo, não se impressionam com dinheiro, a não ser dinheiro dado em nome de Ellis e Wilhelmina Winthrop Ikehorn aos seus hospitais e centros de pesquisa e universidades e museus. Ele estava muito satisfeito por ter contribuído discretamente com tanto dinheiro para as várias instituições filantrópicas de Boston desde que se casara com Billy, na expectativa certa de que um dia ela voltaria àquela cidade.

O protecionismo dele com relação à mulher era completo e se estendia a todos os detalhes de sua vida em comum. Com o passar dos anos ela passou a viver inteiramente dentro desse círculo mágico, esquecendo-se cada vez mais até dos mais insignificantes problemas da vida comum, acostumando-se de tal modo a ver todos os seus desejos satisfeitos que se tornou delicada mas totalmente autocrática, sem que nenhum dos dois o percebesse. Com uma limusine c chofer à sua disposição às 24 horas do dia, logo se tornou inimaginável que algum dia ela tivesse possuído um guarda-chuva. Pés molhados tornaram-se uma possibilidade tão remota quanto lençóis que não fossem trocados todos os dias. Uma sala que não fosse cheia de flores frescas era tão estranha a Billy quanto à idéia de preparar o seu próprio banho. Quando os Ikehorn viajavam para alguma de suas residências, levavam o cozinheiro, a criada pessoal de Billy e a governanta para reforçar o pessoal doméstico permanente no local. O cozinheiro, que conhecia perfeitamente os gostos deles em matéria de comida, apresentava os menus de cada dia para aprovação de Hilly, e a empregada também era massagista treinada e cabeleireira. Ela passou a ser mimada de um modo que só algumas centenas de mulheres no mundo podiam começar a compreender. Esse tipo especial de mimos, mesmo aceito com elegância, tem o poder de modificar sutilmente o caráter da mulher, dando-lhe uma sede de controle que vem tão naturalmente quanto a sede de água.

Ninguém que lesse sobre os Ikehorns nos jornais ou revistas, compreendia que embora Billy e Ellis parecessem ser parte do mundo da sociedade e dos privilégios, sempre se mantinham um pouco à parte, nunca nele ingressando totalmente. Estavam numa cápsula, num mundo só deles, que tornava um relacionamento íntimo com as outras pessoas não apenas desnecessário, mas impossível. Eles nunca se identificaram, como casal, com qualquer grupo ou turma ou clique ou bando. Jessica Thorpe Strauss e o marido eram seus únicos amigos íntimos, por mais que recebessem ou frequentassem outras relações. Quando tinham de passar horas com os sócios de negócios de Ellis e as mulheres deles, Billy de repente se sentia dessincronizada com o mundo. Por que ela estava sentada naquela mesa com homens de sessenta anos e suas mulheres com cara de avós, enquanto em volta deles havia mesas de gente jovem, gente da idade dela?. Ela não devia parecer filha ou neta de alguém, levada porque não tinha programa para aquela noite? No entanto, assim que ela c Ellis ficavam a sós, pareciam ter a mesma idade, sem tempo, dois solitários, viajando juntos como uma equipe fechada. Quando Billy completou 27 anos, foi com uma pontada de medo especial que ela percebeu no aniversário de Ellis, que ele agora podia ter Medicare insistência médica do estado).

No mundo daquela turma de nova-iorquinos ou parisienses ou londrinos que são fotografados no Prix Diane, em Marbella, em A&pt ou nas festas de estréia na Broadway, Billy sentia-se muito mais à vontade. Havia muitas jovens da idade dela espalhadas entre as mulheres de sociedade de meia-idade. Em certo plano da sociedade, as herdeiras são tratadas com a mesma consideração que as mulheres realizadoras, assim como a Princesa Carolina de Mônaco ou uma Princesa Yasmin Khan assumiam seus lugares nos grandes acontecimentos ainda adolescentes. Ali, nesse meio de fama e luxo, Billy e Ellis Ikehorn eram um casal fascinante e enigmático porque nunca se permitiam ser classificados e catalogados e, em certo sentido, possuídos pelos que fazem a coreografia daquele determinado redemoinho social. Eles se divertiam com o espetáculo passageiro, mas nenhum dos dois o levava a sério. Era como se tivessem feito um pacto mudo, no dia em que resolveram casar-se, no sentido de que nenhuma das convenções da ambição e posição social os atingiria.

Em dezembro de 1970, quando ele tinha 66 anos e Billy mal completara 28, Ellis Ikehorn teve o primeiro derrame, não muito grave. Durante dez dias ele pareceu estar-se recuperando rapidamente, mas um segundo derrame, bem mais grave, desfez essas esperanças para sempre.

— O cérebro dele está ativo, mas não podemos afirmar até que ponto — disse Dan Dorman a Billy. — É o lobo esquerdo que está afetado. Isso é uma grande lástima porque o centro da fala está localizado no lobo esquerdo do cérebro. Ele perdeu a faculdade de falar, bem como o uso de todo seu lado direito. — Ele olhou para ela, sentada rigidamente à sua frente, o pescoço forte muito branco e descoberto, e pareceu-lhe estar passando uma faca por aquela pele esticada. Ele sabia que tinha de dizer-lhe como a doença poderia agravar-se naquele momento, enquanto ela ainda estava em choque.

— Ele poderá comunicar-se com você com a mão direita, Billy, mas não posso prever quanto esforço será capaz de fazer. No momento, vou mantê-lo de cama, mas dentro de algumas semanas, se não acontecer mais nada, ele poderá sentar-se numa cadeira de rodas, num conforto relativo. Já mandei virem três enfermeiros, para as 24 horas do dia. Eles serão necessários enquanto ele viver. Já começamos a fisioterapia para manter em funcionamento os músculos do lado esquerdo de Ellis.

Billy meneou a cabeça, calada, as mãos dobrando e desdobrando um clipe de papéis que ela parecia não conseguir largar.

— Billy, uma de minhas principais preocupações é que Ellis fique horrivelmente agitado, com claustrofobia, se vocês continuarem aqui em Nova York. Depois que ele puder movimentar-se numa cadeira de rodas, vocês deviam ir morar num lugar em que ele possa sentir-se ao ar livre, ser movido, sentir-se em contato com a natureza, ver as coisas crescerem.

Billy pensou nos velhos por quem ela passara nas ruas de Nova York, sendo conduzidos nas cadeiras de rodas ao Central Park por um acompanhante, os joelhos fracos cobertos por uma manta grossa, vestidos em sobretudos, caros, com cachecóis de cachemira, os olhos vazios.

— Para onde devemos ir? — perguntou ela, baixinho.

— San Diego provavelmente tem o melhor clima de todas as cidades dos Estados Unidos — respondeu Dan —, mas você poderá aborrecer-se mortalmente lá. Você não pode se iludir, pensando que vai ficar sentada ao lado de Ellis todos os minutos de todos os dias o resto da sua vida. Ele detestaria isso muito mais do que você. Está-me ouvindo, Billy? Seria o máximo da crueldade e ele não lhe poderia dizer o que estaria sentindo.

Billy concordou. Ouvira o que ele dissera, e sabia que ele tinha razão, mas aquilo não parecia ter importância.

— Compreendo, Dan.

— Acho melhor você mudar-se para Los Angeles. Você há de conhecer muita gente lá. Mas terá de morar acima do cinturão do smog. Ellis não pode suportar o smog no estado dele, pois só um dos pulmões está realmente funcionando. Arranje uma casa no alto de Bel-Air, e eu irei lá pelo menos uma vez por mês. O pessoal médico de lá é formidável. Eu a recomendarei aos melhores. Naturalmente, irei com você para instalá-lo.

O Dr. Dorman não conseguia olhar para Billy, sentada ali, reta e quieta como uma rainha, perdida como uma criança. Teria sido muito melhor para ambos se Ellis tivesse morrido. Ele temera uma coisa dessas desde o dia em que soubera do casamento deles. Supunha que também Ellis tivesse seus receios. Isso explicaria o modo de vida deles, que, como Dan Dorman sabia, nunca fora costume de seu velho amigo, e o modo pouco característico pelo qual Ellis se lançara a um mundo que ele desprezara no passado, como se estivesse vivendo para fazer Billy levar uma vida maravilhosa enquanto podia.

— Tem certeza de que não podemos morar na casa de Silverado, Dan? Ellis gostaria muito mais disso do que de um lugar estranho.

— Não, não aconselharia isso. Podem ir lá para a vindima, claro, mas devem ficar perto de um grande centro médico o maior tempo possível.

— Amanhã mesmo vou mandar Lindy para lá, comprar uma casa. Provavelmente ela conseguirá arrumá-la para nós assim que Ellis possa ser removido.

— Acho que você pode fazer planos para se mudar em meados de janeiro — disse Dorman, levantando-se para sair. Acompanhando-o até a porta, Billy notou-lhe o pesar na voz, que ele procurava conservar natural. Na verdade, ele conhecera Ellis melhor que qualquer outra pessoa no mundo, a não ser ela. Mas em seu papel profissional, supunha-se que ele devesse conservar-se não emotivo, só lidando com os fatos, um apoio, e não lamentando. Ela achou que tinha de lhe oferecer algum consolo, embora a situação não fosse nada animadora. Pôs as mãos nos ombros do médico depois que ele vestiu o sobretudo, e dirigiu-lhe um leve sorriso, o primeiro sorriso desde que Ellis tivera o segundo derrame.

— Sabe o que vou fazer amanhã, Dan? Vou sair para comprar umas roupas. Não tenho roupa nenhuma para usar na Califórnia.



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