Judith krantz Luxúria



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De sua coleção de lembranças sentimentais, havia uma que Valentine gostava mais entre todas. Não era nenhuma foto de família, mas apenas uma foto de jornal, amarelada, uma das centenas tiradas no dia 24 de agosto de 1944, dia em que os exércitos aliados tinham libertado Paris. Mostrava os soldados americanos, rindo e acenando, subindo triunfalmente os Champs-Clysées em seus tanques. As francesas, quase delirantes, se içavam para os tanques, com buquês de flores e beijos indiscriminados para os vitoriosos jubilantes e tão esperados. Um desses soldados, não presente naquela determinada foto que ela prezava, mas em algum lugar naquele desfile glorioso lendário, era o pai dela, Kevin O'Neill, e uma daquelas mulheres felizes é chorosas era sua mãe, Helène Maillot. De algum modo, na alucinação daquele dia, eles tinham conseguido estar juntos o tempo suficiente para que o comandante de tanques, muito ruivo, anotasse o nome e endereço da pequena midinette de grandes olhos verdes. A unidade de tanques dele estava estacionada junto de Vincennes, e antes de ser mandada de volta para os Estados Unidos, quando terminou a guerra na Europa, ele tinha uma esposa francesa.

Kevin O'Neill mandou buscar Hélène assim que pôde, e foram morar num apartamento num prédio sem elevador na Terceira Avenida na Cidade de Nova York, onde o irlandês espirituoso e impulsivo rapidamente aprendia todas as técnicas de um mestre em tipografia. Até Valentine nascer, em 1951, a mãe trabalhava para Hattie Carnegie. Embora fosse bem mais moça do que muitas das outras costureiras especializadas naquela famosa casa de modas, sua técnica parisiense era impecável. Dentro de três anos ela passara à sala de provas, especializando-se nos tecidos mais difíceis de costurar, como gaze, crepe da China e veludo de seda.

Depois que Valentine nasceu, Hélène O'Neill parou de trabalhar e instalou-se satisfeita na vida doméstica, entregando-se plenamente à sua outra grande habilidade, a culinária. Com Valentine, mesmo antes da menina ter idade para compreender uma palavra de qualquer língua, ela sempre falava francês. Quando Kevin estava em casa, todos falavam inglês, e que barulho alegre, provocador e carinhoso eles faziam, pensou Valentine. Ela não tinha muitas recordações específicas daqueles primeiros anos, mas ainda sentia, e sentiria a vida toda, o calor, a alegria e o otimismo em que vivia a pequena família, como se habitassem uma ilha pequena e segura de graça e felicidade. A música daqueles tempos incluía as canções da França: Charles Trenet, Jean Sablon, Maurice Chevalier, Jacqueline François, Yves Montand, Edith Piaf. O único momento em que a mãe dela demonstrava sua saudade ocasional de casa era ao ouvir esses discos, e ao cantar a canção que estava sempre em seus lábios, e que começava "J'ai denx amours, mon pays et Paris. .."

Em 1957, quando Valentine tinha seis anos, no verão antes de preparar-se para entrar para o primeiro grau, Kevin O'Neill morreu, em coisa de dias, de uma pneumonia a vírus. Em uma semana a viúva resolveu voltar para Paris e morar lá. Hélène O'Neill tinha de ganhar a vida, e Valentine precisava de uma família para amar, agora que elas estavam sozinhas. Toda a grande família Maillot morava nos arredores de Versalhes; se Hélène e Valentine ficassem em Nova York, ficariam sozinhas.

Os empregos acima do cargo de simples costureirinha, na alta costura, ou são quase impossíveis de se obter ou de acesso imediato, devido a algum golpe de sorte. Em Paris, em fins da década de 1950, as mulheres que trabalhavam nas grandes casas de modas eram quase tão dedicadas a seu trabalho como se tivessem feito voto de freira. As chefes de provas, em particular, responsáveis por todo um ateliê, composto de 30 a 50 costureiras, viviam para a glória da firma. Às vezes chegava a parecer que não tinham uma vida particular fora da histerismo febril e controlado de sua maison de couture especial, e muitas vezes envelheciam a serviço dela, e lá suas habilidades eram apreciadas e suas idiossincrasias tornavam-se uma tradição.

No princípio do outono de 1957 no pior momento do ano, logo após a apresentação da coleção do outono, aconteceu o incrível: uma chefe de provas, da maior confiança, da casa de Pierre Balmain, fugiu para casar-se. Seu candidato persistente, homem vigoroso, de meia-idade, proprietário de um restaurante em Marselha, lhe dissera que, depois de quatro anos de coleções de primavera, e coleções de outono serem usadas como desculpa para adiar o casamento, era então ou nunca. A costureira, já quase quarentona, olhou-se no espelho e viu que ele tinha razão. Inteligentemente, deu o fora sem avisar a ninguém. No dia seguinte, quando se descobriu a imensidão de seu crime, a fúria de toda a casa de Balmain quase ateou fogo ao número 44 da rue François Premier.

Na tarde daquele mesmo dia, Hélène O'Neill candidatou-se a um emprego em Balmain. Normalmente, ela não teria oportunidade de começar como qualquer coisa mais importante do que primeira ou segunda "mão", nível de uma costureira altamente qualificada, mas Balmain, diante de um dilúvio de encomendas para a estação mais lucrativa do ano; não teve escolha senão contratá-la imediatamente para a sala de provas. Na tarde do primeiro dia, o savoyard corpulento viu a sorte que tivera. As mãos esguias de Hélène tratavam a gaze chiffon com a autoridade e paciência que o tecido merecia. O teste foi quando ela teve de experimentar um vestido em Madame Marlene Dietrich, que conhece tanto sobre a técnica de se fazer um vestido quanto qualquer outra pessoa no mundo, e é duas vezes mais difícil e exigente do que parece possível alguém no mundo ser. Todos em Balmain respiraram aliviados e incrédulos, quando a prova correu sem uma palavra. Quando Dietrich não dizia nada, isso significava que o trabalho estava perfeito. A reputação de Madame O'Neill como milagrosa estava estabelecida e seu lugar garantido.

O horário da sala de provas é puxado. Numa casa como a de Balmain, que veste não só as mulheres ricas do mundo, como ainda n trizes ocupadas, há muitas provas marcadas para de manhã cedinho ou no fim da tarde. Se uma freguesa sequer se atrasa, e todos os dias há pelo menos uma atrasada, o horário apertado torna-se uma enervante corrida contra o relógio. A costureira fica de pé ou de joelhos o dia inteiro, a não ser durante a hora do almoço, e no fim da tarde ela muitas vezes está à beira de um colapso físico e nervoso. Antes de uma coleção, ela muitas vezes trabalha até quatro ou cinco horas da manhã, experimentando os novos modelos em manequins que muitas vezes desmaiam de cansaço. Nos anos 50 e 60, o importante na couture francesa não era a sucessão interminável de "new looks" sobre os quais a imprensa de modas escrevia tão entusiasmada, e sim o caimento do vestido ou costume ou casaco. Sem boas costureiras de provas, qualquer casa de modas, tivesse ou não um figurinista inspirado, estaria falida dentro de um ano (hoje em dia, quando apenas três mil mulheres no mundo compram regularmente suas roupas na couture de Paris, as casas de modas ficam abertas, a fim de venderem seu prêt-à-porter e seus perfumes. A alta costura em geral dá prejuízo às grandes casas, mas serve para garantir o prestígio de sua linha de meia-confecção).

Pouco depois de começar a trabalhar em Balmain, Hélène O'Neill viu que não poderia continuar a morar junto da família em Versalhes. Com o esforço a mais que era viajar ida e volta todos os dias no trenzinho apinhado, ela não conseguiria conservar a energia para seu trabalho difícil. Arranjou um apartamento pequeno para si e Valentine, num prédio velho na rede de ruas próximas de Balmain (ia a pé) e matriculou a filha numa escola das' redondezas. Aos domingos e feriados as duas iam visitar um ou outro dos irmãos e irmãs de Hélène, que moravam o mais perto possível uns dos outros e se disputavam o direito de mimar a irmã viúva e a sobrinha sem pai.

A maior parte das crianças francesas em idade escolar vai almoçar em casa. A casa de Valentine passou a ser a casa de Balmain. Aos seis anos e meio, ela acostumou-se a passar calmamente pela entrada dos funcionários, sendo cumprimentada pelo guarda com um aperto de mão, sério. Subindo quietinha pelos corredores desertos na hora do almoço, encontrava a mãe sentada à sua espera num canto do ateliê, um dos onze de Balmain. Havia sempre alguma coisa quente, nutritiva e deliciosa no cesto coberto de Hélène para elas partilharem. Muitas das outras funcionárias também levavam o almoço, e em breve Valentine foi adotada por quarenta mulheres, muitas das quais não se falavam o ano inteiro, mas tinham todas uma palavra carinhosa para a filhinha órfã de pai e bem comportada de Madame O'Neill.

Depois do colégio, Valentine recusava-se a voltar para casa, para um apartamento vazio. Em vez disso, pegava sua pasta pesada e voltava para o seu cantinho do ateliê, às vezes fazendo os trabalhos de casa numa concentração rápida, outras vezes observarão atentamente as idas e vindas mais importantes na sala. Ela procurava ter cuidado para nunca se meter no caminho de ninguém, e- depois de alguns meses passou a ser uma figurinha tão comum, ali em seu cantinho, que as empregadas robustas e muitas vezes irreverentes conversavam livremente entre si como se ela nem estivesse presente. Ela ouvia histórias maravilhosas dos choques de temperamentos que ocorriam nas salas de provas, das qualidades e defeitos de clientes chamadas Bardot, Loren e Duquesa de Windsor, das lutas quase mortais entre uma première vendeuse e outra quanto à distribuição de lugares para as coleções ou a posse de um novo cliente, e as cenas de ciúmes na cabina em que se vestiam os manequins, pequenas maravilhosas e dramáticas, com maquilagem de olhos teatralmente pesada e nomes como Bronwen, Lina e Marie Thérèse. Mas, de modo geral, quando Valentine tinha tempo de folga de seus deveres, ficava fascinada não pela conversa, e sim pelo trabalho que via todos os dias: o modo como um vestido, que ela via começar como várias partes pouco promissoras de algodão branco e duro, cortadas num molde, depois de várias semanas e pelo menos 150 horas de trabalho manual e três ou mais provas, era confeccionado, ponto por ponto, transformando-se num vestido de baile destinado à Duquesa de La Rochefoucauld, com um preto, mesmo naqueles dias, que variava entre dois e três mil dólares.

Não é preciso dizer que o escalão superior de chez Balmain não sabia que uma criança estava sendo praticamente criada em uma de suas oficinas. Pierre Balmain, apesar de toda sua bondade e Madame Ginette Spanier, a poderosa diretora, que dirigia a casa de sua mesa no alto da escadaria principal, veriam com maus olhos um lapso desses. Várias vezes, nas raras ocasiões em que Madame Spanier de cabelos negros, explosiva, soberbamente exuberante e inteiramente irreprimível, irrompia pelo ateliê para intervir com sucesso numa revolução iminente, Valentine sempre se escondia por trás de um cubide de vestidos de baile prontos, colocado junto de seu banquinho exatamente para esta finalidade.

Quando terminava a última prova de Hélène e sua cliente partia para a noite de Paris, em sua limusine à espera — pois, naqueles dias, de 30 a 40 mil mulheres iam a Paris todas as temporadas para fazerem um verdadeiro enxoval de grandes roupas sob medida —, mãe e filha regressavam para casa, para sua ceia simples. Quando terminavam, Valentine sempre tinha mais deveres de casa a fazer, mas quase nunca se passava uma noite em que ela não indagasse da mãe sobre os acontecimentos em Balmain. Os detalhes do trabalho a fascinavam. Ela queria saber o porquê de cada costura e casa. Por que Monsieur Balmain sempre usava um número (topar de botões, nunca par? Por que Madame Dietrich devolveu um forro de saia seis vezes, para modificarem as costuras? Não era um forro apenas, afinal, e não um vestido? Por que todos os ateliês alfaiate eram completamente separados dos de vestidos? Por que um ateliê era encarregado do casaco e saia de um costume, e outro trabalhava na blusa e écharpe pertencente a esse costume, já que eram para serem usados juntos? Qual a diferença imensa, aparentemente intransponível, entre saber cortar lã e cortar seda? Por que os homens trabalhavam nas provas de tudo o que fosse de alfaiate, e as mulheres nos figurinos mais macios?

A maioria das perguntas Hélène respondia com facilidade, mas a pergunta que mais interessava a Valentine era uma que ela não podia responder.

— Como é que Monsieur Balmain tem todas as suas idéias?

Por fim ela disse à menina insistente:

— Se eu soubesse isso, filhinha, eu seria Monsieur Balmain. — ou talvez Mademoiselle Chanel ou Madame Grès. E as duas se riam dessa idéia.

Valentine nunca parava de se assombrar. Um dia, quando tinha 13 anos, começou a desenhar suas próprias idéias para vestidos e descobriu a solução. As idéias surgiam, só isso. Você as imaginava e elas lhe ocorriam e você tentava desenhá-las e se não parecessem certas, você pensava por que e depois desenhava de novo, e de novo, e de novo.

Mas isso não bastava, claro. Era preciso saber se os desenhos que você fazia funcionariam num corpo humano. Ela, Valentine, sabia costurar muito bem. Havia seis anos que aprendia com a mãe. Mas só saber costurar podia levar, no máximo, a um emprego como o da mãe dela, que a cada ano parecia tornar-se mais exaustivo. Ou talvez tornar-se uma pequena couturière de bairro, que roubava as idéias das grandes coleções e as reproduzia como podia para as freguesas de classe média. Mesmo então Valentine sabia que esse futuro não lhe bastaria.

Valentine nunca fora apenas mais uma colegial francesa. Ao chegar a Paris, aos seis anos, ela era uma criança americana levada, ruiva, pronta a se adaptar facilmente na escola — em Nova York. Da noite para o dia ela teve de transformar-se numa colegial francesa, uma legião de criaturinhas sobrecarregadas, bem-comportadas e pálidas, cujas vidas infantis devem ser dedicadas ao aprendizado. Até mesmo a menor escola de aldeia francesa dá às crianças uma instrução que envergonharia qualquer escola pública americana. Ela suportou bem a transição, e aos dez anos Valentine estava estudando latim, bem como travando conhecimento com Molière e Corneille, aperfeiçoando sua caligrafia perfeita e passando longas horas no terrível labirinto da gramática francesa, que só se aprende por meio de anos de interminável repetição e análise.

Ela se tornara uma pequena de aspecto impressionante. Suas feições, marcadas, delicadas e cheias de uma inteligência rápida, eram classicamente gaulesas. Mas seu colorido, os cabelos furiosamente ruivos, os olhinhos verde-claro, brilhantes e maliciosos, as três sardas no nariz, a pele maravilhosamente branca, tudo era classicamente celta. Mesmo com o uniforme da escola pública francesa, um avental feio, sempre um pouco curto, sobre uma blusa de manga curta ou comprida, de acordo com a estação, ela conseguia sobressair entre todas as outras. Talvez fosse o seu modo especial de prender para trás, com fitas de xadrez alegre, as trancas grossas, das quais os cachos teimavam em escapulir. Talvez fosse sua vitalidade, que não podia ser contida dentro dos limites estritamente exigidos da docilidade de uma colegial. Valentine era sempre uma criatura dos extremos. Era a primeira da turma em inglês e desenho. Era a última em matemática, e quanto ao comportamento, melhor nem falar.

Quando Valentine chegou à adolescência, era a única menina na escola que colecionava discos dos Beach Boys; todas as outras adoravam Johnny Halliday. Com um sentido de dedicação, ela ia ver filmes americanos todos os sábados à tarde, preferindo ir sozinha, para que ninguém a distraísse. Embora raciocinasse em francês, nunca permitiu que seu inglês ficasse esquecido, nem enferrujado, como acontece normalmente com tantas línguas que se aprende em criança. Ela sempre se lembrava de que era meio americana, mas nunca falava sobre isso nem com a mãe. Sua dupla nacionalidade era como um talismã mágico para Valentine, muito precioso e muito remoto, para ser exposto.

Ao se aproximar dos dezesseis anos, Valentine chegou à conclusão de que não adiantava mais continuar a estudar. Depois dos dezesseis anos poderia facilmente deixar a escola e arranjar um emprego. De que lhe adiantava saber de cor quantidades enormes de literatura e poesia francesa, sem falar em mais matemática, se pretendia ser figurinista? Pois ia ser figurinista, embora só ela soubesse disso.

Mesmo que houvesse em Paris uma Escola de Desenho Parsons ou um Instituto de Tecnologia da Moda, como há nos Estados Unidos, naquela época Valentine não teria dinheiro para pagar anos de estudos. O único caminho aberto a ela era tornar-se aprendiz. Uma aprendiz não deve ser criadora. Nem mesmo as grandes encarregadas de provas e cortadoras da couture devem ser criadoras. A criatividade fica a cargo do mestre couturier, e cada um aprendeu o seu ofício trabalhando para outras casas de couture, muitas vezes começando como artista de esboços. Mesmo Chanel não tinha conhecimentos técnicos quando começou, instalada numa chapelaria pelo seu amante do momento. É raro um figurinista saber costurar e cortar, como sabem Monsieur Balmain e Madame Grès.

Mas muito poucos figurinistas, ou nenhum mesmo, começaram numa situação tão modesta quanto Valentine. Em 1967 ela tornou-se midinette, uma das escravas da couture. A situação da mãe que lhe valeu o emprego, mas daí em diante ela ficou por sua conta. Uma midinette pode estragar um metro de brocado no valor de 200 dólares, e isso será o fim para ela. Uma midinette pode demorar demais a fazer uma bainha, e isso é o fim para ela. Todos os vestidos da coleção têm um preço que inclui cada ponto, cada colchete, cada centímetro de debrum, cada botão, até mesmo o número de folhas de papel de seda necessárias para embalá-los na grande caixa branca de Balmain. Uma midinette descuidada pode custar à casa o seu lucro num vestido ou um costume.

Durante cinco anos, de 1967 a 1972, Valentine foi progredindo constantemente, de midinette a segunda mão e primeira mão, dando em pouco tempo um salto que geralmente leva vinte anos, quando é conseguido. Ela começara levando uma grande vantagem sobre as outras, em habilidade e técnica, graças ao treinamento intensivo que a mãe lhe dera na máquina de costura em casa, e ela agora absorvia a parte do negócio que se passava fora do ateliê. Depois dos dois primeiros anos, muitas vezes a chamavam à sala de provas, onde princesas e estrelas de cinema e as mulheres dos homens mais ricos da América do Sul ficavam de lingerie durante horas, às vezes com o suor escorrendo-lhes pelo rosto, no ambiente perfumado e abafado, muitas com lágrimas de raiva e decepção diante do aspecto de suas roupas novas em seu corpo. Valentine aprendeu a prever, com uma precisão de segundos, o momento em que a mulher começaria a querer culpar a casa de Balmain pelo fato de não poder usar uma roupa com o mesmo encanto que um manequim mais alta dez centímetros e mais magra 25 quilos do que ela. Também absorveu as técnicas usadas para lidar com esse fato comum, técnicas criadas durante anos de vendas pelas vendedoras chefes duras, espertas e cínicas. Com as mulheres que provavam as roupas, muitas vezes com dores devidas ao incômodo de ficarem de pé, inteiramente imóveis, em seus belos sapatos de salto alto feitos à mão, ela aprendeu o poder da vaidade e a obstinação da determinação de possuir o vestido rigorosamente certo, sem considerar a agonia necessária. Ela aprendeu mais sobre as mulheres, especialmente mulheres ricas, do que qualquer moça da idade dela devia saber.

Valentine então já podia assistir aos ensaios das novas coleções, realizados só para o pessoal da casa, onde via os vestidos em que ela mesma trabalhara, e centenas de outros modelos que nunca vira, desfilarem sobre as manequins nervosas, de passinhos rápidos. Então ela podia ver Balmain e seus assistentes conferenciarem sobre as jóias, luvas, chapéu, e pele necessárias para completar cada conjunto com perfeição. Valentine tinha um gosto inato. Agora, diariamente, este se aprimorava no jardim de Balmain. Ela viu que conseguia adivinhar corretamente, ao ver o ensaio de uma coleção, quais os vestidos e costumes que seriam mais vendidos, e quais os modelos originais que nunca seriam comprados, nem mesmo quando terminassem na estante da liquidação, depois de completada aquela determinada coleção. Esses vestidos são comprados por mulheres que esperam como abutres por essa ocasião, comprando vestidos que foram usados todos os dias durante quatro ou cinco meses pelas manequins, todas suando como cavalos passando pela fita de chegada, enquanto calculavam se sugestionaram ou não a cliente a encomendar o vestido que mostraram, assim ganhando uma pequena comissão.

Valentine, pessoalmente, nunca se dignaria a comprar alguma coisa en solde, mesmo que tivesse o dinheiro para isso. Ela fazia todas as suas roupas, e era muito imaginosa. Não ficaria bem ela comparecer ao trabalho usando outra coisa que não as tradicionais saia e suéter pretas e blusa branca, e no entanto até mesmo essas roupas sérias, destinadas a indicar o vasto abismo social que separa as funcionários da couture das clientes, pareciam especiais em Valentine, mas não tão especiais que as pessoas chegassem a reparar muito. Ela cortara seus cabelos acentuadamente crespos o mais curto possível, largando as fitas de xadrez numa gaveta, de modo que agora parecia quase uma moça séria e trabalhadora, se a pessoa nunca olhasse acima do seu pescoço ou dentro de seus olhos, e as clientes da casa, totalmente absortas em suas próprias imagens, raramente o faziam.

A despeito de seu gênio forte, Valentine nunca se irritava por ter de se disfarçar dessa maneira. Até mesmo Madame Spanier, que se vestia inteiramente em Balmain, sempre usava um costume severo, de flanela preta ou cinza, destacado por seu inevitável colar de pérolas de três voltas. Mas as fofocas assombradas do ateliê contavam que ela possuía roupas maravilhosas para noite, e as usava quando ia com o marido a todas as estréias importantes em Paris com seus amigos íntimos, astros como Noel Coward, Laurence Olivier, Danny Kaye e a aterradora Madame Dietrich em pessoa.

Mas aos domingos e feriados Valentine podia vestir-se à vontade, com seus próprios figurinos. Desde os quatorze anos, ela era seu próprio manequim, a mãe ajudando as provas. Depois de passar o dia alfinetando e realfinetando as roupas de estranhos, Hélène de boa vontade consumia horas trabalhando nas criações da sua filha extraordinária. Essa era a opinião particular da mãe, talvez favorável demais, pois ela não se queria prosar, mas aquela pequena esguia, ágil e esperta, com os estados de espírito imprevisíveis e súbitos do pai irlandês, certamente não era ordinaire, disso Hélène O'Neill tinha certeza, embora se tratasse de sua filha.

Valentine sabia, desde o dia em que começou a desenhar, que mesmo que conseguisse fazer Monsieur Balmain ver suas criações, seria em vão. Fosse qual fosse a opinião dele sobre o talento dela, seu estilo não se coadunava com o tom dominante na casa, que era o de roupas ricas para mulheres ricas. Valentine não desenhava para mulheres de multimilionários de meia-idade, que passavam a vida em bailes de caridade ou almoçando no Ritz. Não tinha em mente a imponente Begum Aga Khan nem a excessivamente dura e digna Princesa Grace quando desenhava um vestido. Em sua imaginação, ela estava desenhando para outro tipo de cliente, totalmente diferente. Mas quem, além dela mesma? Ela sabia, com toda a certeza, que suas clientes existiam. Mas onde? E como as encontraria? Não importa, disse ela consigo mesma com o vasto otimismo que existia ao lado de sua vasta impaciência, tudo se reuniria, tinha de ser. E correu alegremente atravessando a rua François Premier à La Belle Féfé para buscar um bule de chá forte para uma corpulenta condessa inglesa que acabava de anunciar que ia desmaiar, e o vestido para o casamento da filha ainda não estava nem no meio da prova.

Hélène O'Neill estava ficando cada vez mais magra. Suas mãos trabalhavam nos tecidos com a mesma habilidade de sempre, mas como tinha de alfinetar e tornar a alfinetar cada vez mais vezes até se dar por satisfeita, as freguesas começaram a ficar impacientes. Ela ensinara Valentine a cozinhar tão bem quanto ela. Agora, frequentemente, não conseguia terminar de comer o jantar que Valentine lhe preparara. Às vezes, mas não muito frequentemente, dava um gemidinho de dor, quando pensava estar sozinha. Quando Valentine a convenceu a consultar um médico, "o que é que eles sabem?" dizia ela, fungando seu desprezo, só tinha alguns meses de vida. Morrendo aos 48 anos, de um câncer que se alastrou rapidamente, Hélène O'Neill foi pranteada por todo o pessoal da casa de Balmain, que compareceu em peso ao enterro no velho cemitério de Versalhes.



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