Judith krantz Luxúria



Baixar 1.85 Mb.
Página9/22
Encontro05.12.2017
Tamanho1.85 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   22

Uma semana depois Valentine foi à embaixada americana, na place de Ia Concorde, com sua certidão de nascimento, que' a mãe sempre guardara com os documentos de seu casamento e os papéis militares do marido. Ela não falara a ninguém sobre a sua decisão de pedir um passaporte americano, nem com a família sensata e sem imaginação da mãe, nem com alguém de chez Balmain. Agora, vendo-se sozinha, ela estava agindo por puro instinto, permitindo que os impulsos emocionais que sempre a haviam orientado no passado a dirigissem totalmente.

Ela ainda não completara 22 anos, mas tinha cinco anos de experiência em Balmain, fora primeira mão por um ano e sabia, sem nem pensar duas vezes, que seria primeira mão durante pelo menos mais cinco anos e depois, certamente, passaria às provas, se permanecesse em Paris. Aí o seu progresso teria de parar. A não ser, claro, que ela se casasse e se aposentasse da couture. Mas a idéia de virar dona-de-casa, mais interessada no preço do quilo da carne do que nas transas do grande mundo ao qual fora exposta traiçoeiramente no ambiente rarefeito da couture de Paris, ah, não! Ela sempre achara maçante suas primas bobinhas de classe média, que tanto admiravam suas roupas de domingo, mas pouco mais tinham a conversar com ela. De qualquer modo, a última vez que se apaixonara fora aos 16 anos, pelo jovem cura de Versalhes, que ajudava na missa de domingo, e mesmo essa paixão deliciosamente impossível só durara seis meses. Não, não, Paris acabara para ela, pensou Valentine, chorando pela mãe. Ela ia empacotar tudo o que havia no apartamento e mandar para Nova York. Depois de dar seu aviso prévio de um mês no emprego e retirar suas economias e as da mãe do Crédit Lyonnais, ela acompanharia sua mobília e procuraria sua fortuna nos Estados Unidos. Afinal, não era isso uma coisa tradicional?

A Cidade de Nova York mudara durante os quinze anos de sua ausência, e positivamente para pior, pensou Valentine, caminhando incomodamente pelas ruas vizinhas da Terceira Avenida, em que brincara em criança. Ela agora mal conseguia abrir caminho no meio da multidão da Geração de Sábado, feliz, esperando em fila para entrar num cinema, como se o ato, ou talvez a arte, de esperar na fila fosse o acontecimento principal, e não o filme. Ela passara uma semana procurando nas ruas de que vagamente se lembrava um apartamento barato, mas Bloomingdale's, aquela fabulosa flor da cultura americana, e a profusão de cinemas de arte tinham tornado a vizinhança tão em moda que os aluguéis eram absurdamente altos.

Valentine tinha uma boa quantia de suas economias e sua herança para se sustentar, enquanto procurava trabalho como figurinista. Se as coisas ficassem pretas, ela sabia que com a sua capacidade técnica seria contratada como segunda costureira em qualquer ateliê da Sétima Avenida, mas não tinha nenhuma intenção de jamais tornar a costurar para ganhar a vida. Não era para isso que ela largara toda a família, seus parentes, e, muito mais duro, sua carinhosa coleção de mães e tias postiças de Balmain, que fizeram de seu último mês lá uma sucessão de cenas lacrimosas, o que atrasou uma porção de provas, para consternação do próprio Monsieur Balmain. As coisas tinham chegado a uma tal situação que não uma, mas duas Baronesas de Rothschild tiveram de esperar enquanto a chefe do ateliê tentava conseguir a influência da própria Madame

Spanier para convencer Valentine a não partir da França. Mas Madame la Directrice, aquela quintessência de negociante francesa, tinha um coração completamente ousado e britânico. Ela nascera e fora educada na Inglaterra, embora a mãe fosse francesa de nascimento, e aquela parisiense em essência era 85% inglesa, por inclinação, enquanto os outros 15% de seu coração pertenciam a Nova York. Quando ela olhou bem para o rosto lindo e vivo de Valentine e soube que ela falava um inglês perfeito, o seu próprio sangue de aventureira ferveu de entusiasmo diante do desafio e da oportunidade que viu para a outra. Ela não podia imaginar nada de mais absolutamente divino, entusiasmante e empolgante dó que Valentine tomar-se um grande, grande sucesso em Nova York, informou à moça abismada. Nem tampouco podia sequer admitir passar a vida numa oficina, pois ela, Jenny Spanier, não começara vendendo presentes no andar térreo de Fortnum e Mason's, em Londres, tornando-se rapidamente a vendedora especial do Príncipe de Gales quando ele ia lá comprar seus presentes de Natal? Claro que Valentine tinha de partir! E quando voltasse, seria como cliente, e lhe fariam um preço especial!

Lembrando-se de sua entrevista inspiradora com Madame Spanier, Valentine tomou coragem e resolveu seguir a sugestão do porteiro do hotel barato em que estava hospedada enquanto procurava um apartamento. Havia velhos prédios comerciais, de escritórios, por toda a cidade, dissera ele, mas não eram anunciados, não era bem legal, ou coisa parecida, em que se podia alugar sótãos. Os pisos eram já muitos velhos para aguentarem maquinaria pesada, mas os sótãos podiam tornar-se habitáveis, se ela não fosse muito exigente.

Valentine recusou quatro sótãos diferentes, cada qual mais decrépito e duvidoso do que o outro. O quinto sótão que ela viu ficava em um prédio na rua 30. O zelador lhe disse que havia mais três sótãos habitados no andar, um por um casal que trabalhava de noite, um por um velho tranquilo que havia dez anos estava escrevendo um livro e outro por um fotógrafo. As duas peças que ela examinou não pareciam ter buracos no chão, e alguma coisa ali, talvez as janelas dando para o rio Hudson, talvez as duas clarabóias, lhe lembravam Paris. Valentine alugou-o imediatamente. Será que sempre sentiria saudades?, pensou ela. Em Paris ela gastava todo o seu dinheiro miúdo em discos e filmes americanos. Agora, em Nova York, sentia-se atraída por um lugar que recordava Paris em sua forma e iluminação. Dentro de duas semanas tirou toda sua mobília do depósito, arrumando-a de modo bem parecido com o que era em Paris. Seu apartamento só hão tinha uma despensa cheia para que ela se sentisse bem à vontade, resolveu ela, e saiu numa orgia de compras que terminou quando suas duas garrafas de vinho foram salvas por Spider.

Esse Elliott, refletiu ela, depois dele partir, tinha uma conversa fácil, que a ajudou a vencer a timidez de receber um homem, e além de tudo americano, sozinha no apartamento pela primeira vez na vida. Ainda mais, o apetite dele justificara plenamente a quantidade de patê c queijo que ela comprara. Seus primos franceses a apresentaram a pretensos namorados desde que ela fizera 16 anos, mas nenhum deles se assemelhava nem vagamente com sua idéia do que devia ser um homem. Ela torcera o nariz sardento até mesmo para os bons partidos cujos sólidos empregos burocráticos na fábrica Renault ou qualquer outra das indústrias em redor de Paris lhes permitiam comprar seus carrinhos Simcas. Eles ou pareciam avós prematuros, tão emproados e maçantes e previsíveis que ela os podia imaginar presidindo uma mesa cheia de descendentes antes mesmo de terem uma mulher. Valentine não sabia, mas sua idéia do que devia ser um homem fora formada pelos anos de filmes americanos que ela vira nas tardes de sábado. Ela assistira Butch Kassidy e Sundance Kid nada menos de nove vezes Bullitt seis vezes, Bonnie e Clyde oito vezes. Seu homem ideal era uma mistura amorfa de Red-Jord, Beatty, Newman e McQueen. Não admira que não o tivesse encontrado num francês de classe média.

Comparada com qualquer pequena americana de sua idade, Valentine era sexualmente muito pouco sofisticada. Aos vinte e um anos e sete oitavos, ainda era virgem. Suas noites tinham sido todas ocupadas com deveres escolares, até completar 16 anos. Dos 16 em diante trabalhara no equivalente de luxo de cavar valas nove horas por dia e passara as noites com a mãe, desenhando e costurando roupas. Suas poucas horas de folga, passadas sozinha nos cinemas ou com a família aos domingos, em Versalhes, não eram propícias às aventuras sexuais. Quem podia deixar de ser virgem nessas circunstâncias, perguntava-se indignada. Com relutância ela permitira que alguns a beijassem, mas bem poucos, daqueles rapazes desinteressantes a quem fora apresentada. A sua natureza era franca e brusca, e nunca tivera a necessidade nem, pensava ela, a tendência para flertar. Não era dessas mulheres em quem isso é natural. A única vez em que Valentine ardera de paixão, fora por um padre que nem sequer era aquele com quem ela se confessava. Isso, pelo menos, teria sido uma experiência, pensou ela, com ironia. E todo mundo tinha a idéia de que as moças francesas eram tão sexy, tão farristas, tão "o-la-la", como se não se tivessem modificado desde os tipos chavões de Mademoiselle de Armentières na Primeira Guerra Mundial. "Hinky-dinky parlez-vous, realmente!", disse ela consigo mesma, com altivez, virando-se para a sua pilha querida dos números de Womeris Wear Daily das três últimas semanas.

Valentine, que gostava dos extremos, e combinava a lógica dos gauleses com a fantasia céltica (com resultados por vezes estonteantes) não conseguira compreender a si mesma, como ocorre frequentemente. Sua falta de experiência sexual nada tinha a ver com sua capacidade de sensualidade. Essa capacidade sempre existira, muito controlada pelas exigências imensas sobre a sua concentração e energia pela vida que levara em Paris. No entanto, sua sensualidade encontrara uma válvula de escape que ela ignorava, no único setor de sua vida diária que era só dela, seus figurinos. Estes tinham uma qualidade que geralmente só é expressa por uma mulher, uma qualidade chamada pelos franceses de du chien. Quando uma mulher tem du chien, é que possui algo que não é o chique nem elegância nem mesmo glamour, mas que pertence à mesma categoria desses termos descritivos. O chique está no jeito da mulher usar suas roupas, não nas roupas em si. Elegância está na linha e qualidade das roupas, e a linha do corpo debaixo delas, e a intensidade pessoal de quem as usa quanto à importância dos detalhes perfeitos. Glamour palavra quase impossível de definir, e que não existe em língua alguma a não ser inglês, é uma combinação de sofisticação, mistério, magia e cinema. Chien é apimentado, ousado, divertido, pungente, tentador, e faz o mundo masculino notar que ela não é uma mulher comum. O chique e a elegância nada têm a ver com a qualidade sexy, mas o glamour tem muito e o chien tem tudo a ver com qualidade. Catherine Deneuve tem glamour, mas Cher tem chien. Jacqueline Bisset e Jacqueline Onassis ambas têm glamour, mas Susan Blakely, Brenda Vaccaro, Sara Miles e Barbara Streisand todas têm chien. Como também tinha Becky Sharp e Scarlett O'Hara e assim tinha Valentine O'Neill, tanto em sua pessoa como em seu trabalho. Chien muitas vezes só é reconhecido pelo efeito que tem sobre os outros, e o fato de Valentine desconhecer a sua própria qualidade era normal, considerando-se que estava sempre rodeada de mulheres na escola e no trabalho. Chien é um dos aspectos de uma mulher que tem de ser observado pelos homens. As outras mulheres não lhe dão crédito por isso, pois não provoca nenhuma reação especial nelas.

Valentine começara a comprar Women's Wear Daily desde o dia de sua chegada aos Estados Unidos. Esse jornal da indústria de modas é totalmente indispensável a todos os que sejam ligados de modo criador ou executivo ao negócio tremendamente importante de vender artigos de uso pessoal. Se você for fabricante de botões em Indiana ou de sapatos de tênis no Japão ou desenhista de tecidos em Milão ou comprador de lojas de departamentos em Wisconsin, ou se tem alguma ligação significativa com a quarta maior indústria dos Estados Unidos, será tolo se não ler Women's Wear Dealy. É o jornal comercial diário mais importante do mundo. Além disso tem críticas excelentes sobre todas as artes, uma fascinante cobertura sobre Washington, importantes notícias íntimas do mundo cinematográfico e teatral, e colunistas sempre reveladores. E, enfim, trata de desenho, figurinos, figurinistas e as pessoas que usam as roupas mais bonitas e frequentam as melhores festas no mundo inteiro. Uma mulher de sociedade que tivesse de escolher entre Women's Wear e todas as revistas de modas e colunistas sociais juntos sempre preferiria o jornal.

Valentine conseguira ter uma ótima idéia de onde ir procurar emprego só de absorver todas as informações obtidas em Women's Wear, e ha segunda-feira seguinte ao seu piquenique inesperado com Spider, ela saiu, vestida com capricho com seu vestido e casaco mais originais e de sucesso, com acessórios perfeitos, e a pasta de figurinos debaixo do braço. Ela sabia exatamente o que queria ser: assistente de figurinista.

Qualquer figurinista de alguma importância tinha de ter um assistente para traduzir os figurinos para a dura realidade, para servir de intermediário entre o desenhista e a oficina, fornecer um meio onde experimentar novas idéias, às vezes fornecer as próprias idéias. Quando Anne Klein morreu, Donna Karan, sua assistente, até então desconhecida, tornou-se heroína da noite para o dia, produzindo uma perfeita coleção "Anne Klein". Ela agora tem suas próprias assistentes e o negócio está mais importante do que nunca.

Do Wotreris Wear, Valentine tinha feito uma relação comprida de figurinistas cujo trabalho ela admirava, localizando-os por intermédio da lista telefônica. O centro de figurinistas dos Estados Unidos está localizado em apenas alguns arranha-céus na Sétima Avenida. Valentine ficou ofegante só de ler a lista dos inquilinos nos saguões, tirando-lhe o pouco fôlego que lhe sobrava depois de abrir caminho no meio da multidão nas ruas, a multidão nos halls, tudo isso era café pequeno comparado com as multidões dentro dos elevadores. O coração da Sétima Avenida é o pesadelo de quem tem claustrofobia, tão agitada quanto todos os becos de Hong-Kong Juntos dentro de vários edifícios completamente desprovidos de Qualquer graça.

Toda sala de mostruário de atacadista tem uma recepcionista de olhar duro que olha para o redator-chefe do Harper's Bazaar exatamente com a mesma desconfiança com que encara um rabino pedindo dinheiro para a sua sinagoga. Mas Valentine tinha jeito para lidar com mulheres desconfiadas: qualquer vendedora da couture francesa pode passar por uma supervisora de prisão, quando lida com os inferiores. Valentine sabia que só se podia valer de um descaramento total.

— Sou Valentine O'Neill — anunciava ela, falando com precisão, com aquele, ar de arrogância tranquila, considerada natural, e o mesmo sorriso ligeiro e condescendente que notara em tantas clientes realmente seguras -ao se anunciarem em Balmain.

Valentine exagerava seu sotaque francês.

— Gostaria de falar com Monsieur Bill Blass.

— Qual o assunto?

— Por favor diga a Monsieur Blass que Valentine O'Neill, assistente de Monsieur Pierre Balmain, gostaria de falar com ele.

— Qual o assunto?

— Negócios. Acabei de chegar de Paris e não tenho tempo a perder, portanto tenha a bondade de ligar para Monsieur Blass.

Às vezes não dava certo; às vezes diziam a Valentine para voltar mais tarde, mas quase sempre seu tom tinha suficiente autoridade, suas roupas suficiente luxo e sua pose suficiente autoconfiança, para ela conseguir entrar no escritório do desenhista, ou, com mais frequência, no seu assistente. Sua história de ter sido assistente de Balmain não era muito investigada. Ela representava tão bem o papel, a despeito de ser tão jovem, que em geral tinha a possibilidade de mostrar sua pasta. Os figurinistas da Sétima Avenida não gostam de perder alguma possibilidade de sangue novo. Todos já tinham sido também principiantes esperançosos com suas pastas e sabiam que em qualquer pasta há sempre a possibilidade de encontrar algo de bom.

Mas 1972 foi um ano muito mau para começar a procurar emprego na Sétima Avenida, com uma pasta cheia de figurinos totalmente fora do comum. A indústria de roupas tinha acabado de emergir do massacre dos midis, e as vendas nas lojas de departamentos nunca tinham estado piores, pois as mulheres americanas se recusavam a comprar roupas novas, desafiadoramente agarrando-se a seus velhos "slackes" por mais alguns anos. Ninguém sabia ao certo qual a direção a tomar, mas qualquer coisa que parecesse novo e fresco tinha de estar errado.

— Elliott, fui recusada friamente por 29 figurinistas em três semanas. Se você me disser para não perder o ânimo, eu lhe atiro este frango morto na cara.

Spider tinha adquirido o hábito de acompanhar Valentine em suas excursões de compras aos sábados, às feiras na Nona Avenida. Sua desculpa era que ela não poderia carregar os montes de provisões que comprava, mas ele também se interessava muito em saber o que ela pretendia cozinhar, para ter uma idéia do que podia esperar. A modelo com quem ele tinha um caso no momento só guardava loção para a pele, na geladeira. Nas noites em que ele não levava a pequena para jantar fora, subia as escadas ao seu apartamento fazendo todo o barulho possível. Valentine, que se queixava de que não tem graça cozinhar para uma pessoa só, esperava até ouvir a vitrola dele tocando A Foggy Day in London Town, por Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, e então passava um bilhetinho debaixo da porta dele. "Pot-au-feu", ou "Choucroute Alsacienne". EHíott era a única pessoa que conhecia em Nova York e ela não via motivo para comer sozinha. Era razoável.

— Não se trata de desanimar — respondeu ele. — Só acho é que você está fazendo as coisas erradamente. Você quer que a contratem baseando-se em figurinos que os apavoram. Acho os seus desenhos muito empolgantes, mas não ganho a vida fabricando roupas, e não preciso me preocupar com o que as mulheres em Oshkosh vão querer usar. Você está muito avançada para a época e no país errado e é teimosa demais para confessar isso. Você não pode enfiar suas idéias pela goela das pessoas, por mais brilhantes que sejam.

— E então o que você sugere? — Ela olhou para ele com raiva, os olhos dela agarrando o rosto dele. — Se eu não arranjar um emprego logo, você poderá morrer de fome!

— Golpe baixo! Sua puta francesa! Quantas vezes já- implorei para você me deixar pagar pela comida? — Ele a abraçou, recusando-se a reagir à fúria dela.

— Hoje, Elliott, você vai pagar. Por tudo. E a lista é comprida.

— Está cedendo, afinal? Bom. E já que está mais razoável, que tal mais uma concessãozinha?

— Primeiro diga o que é, não confio em você, Elliott.

— Faça uns desenhos novos. Um raio de uma pasta nova em folha. Jogue fora todas as suas idéias de como as mulheres deveriam vestir-se no melhor dos mundos. Ande pela cidade uns dias e veja p que as mulheres estão usando de fato, não as mulheres muito ricas, nem as pobres, mas as intermediárias, acima de 18 e abaixo de 60 anos.

Valentine deixou cair três tomates de volta numa prateleira, machucando-os sem dó, e olhou para ele horrorizada.

— Você quer dizer copiar! Quer dizer basear os meus figurinos sobre o que as mulheres já estão vestindo? Que idéia nojenta, vulgar. É vil, Elliott, vou-lhe dizer, é...

— Você é mesmo tão boba. Como é que conseguiu crescer? —

Spider gostava de mulheres indignadas. Pelo menos uma de suas irmãs estava sempre indignada com alguma coisa. — Escute. Cale boca e escute. Você vai ver o que as mulheres já estão usando e depois fará figurinos melhores, mas não tão diferentes que elas sejam obrigadas a mudar completamente toda a sua atitude para com as roupas. Na verdade as pessoas detestam, odeiam mudar!

Mas todo o raio de indústria de modas baseia-se na idéia de obrigá-las a mudarem, pois se não mudarem, não precisam de roupas novas. É por isso que você tem de fazer a coisa aos poucos, para as pessoas não terem de se preocupar se alguma coisa é muito esquisita ou bizarra ou onde a poderiam vestir, ou com o que, ou se as vão fazer parecer muito diferentes dos outros. Vá devagar, ninguém gosta de profetas.

Valentine estava calada e emburrada. Estava dividida entre toda a sua concepção de moda como expressão individual de seu espírito criador e sua compreensão imediata de que era certo o que aquele filho da mãe do Elliott estava dizendo. Ela sabia, pelas reações de todos os figurinistas que tinham visto, que não conseguiria um emprego com os desenhos que mostrara. Até mesmo os mais simpáticos e mais francamente impressionados e animadores lhe haviam dito que as idéias dela eram por demais diferentes, e pouco práticas. Mas como ela detestava ceder! Como detestava moldar suas crenças à realidade mundana! Durante cinco minutos ela se concentrou em encontrar a alface perfeita, enquanto fervia por dentro. Spider, interpretando suas emoções pela sua fisionomia, teve pena dela, mas estava resolvido a não ceder em nada.

— Merda burguesa e conservadora! — disse ela, com raiva. Ele riu-se. Isso queria dizer que ele a convencera. — O que o leva a pensar que conhece tão bem as mulheres, Elliott? Veja só! Veste-se como um vagabundo e pretende dizer-me o que se passa na cabeça de uma mulher, seu desmazelado de sapato de tênis! — A confiança dele a enfurecia, especialmente porque sabia que ele tinha razão que ela se mostrava imperdoavelmente cega, não tendo percebido o que ele tão facilmente alcançara.

— A modéstia proíbe... — Spider ia respondendo. Ela pegou um cacho de uvas grande e avançou para ele, ameaçadora. Ele largou a bolsa de compras que estava carregando e levantou-a do chão, segurando-a com facilidade no ar até seus olhos ficarem no mesmo plano.

— Sei que você quer exprimir sua gratidão, mas não posso aceitar essas uvas, Valentine. Pense em César Chavez, que faz a campanha de boicote contra os plantadores de uvas. Mas você pode me beijar, se quiser. — Ele olhou bem nos olhos dela, pensando que eles tinham a cor transparente de uma tela de Dufy.

— Se você não me largar, Elliott, dou-lhe um pontapé nos ovos!

— As francesas não têm senso poético — disse ele, ainda segurando-a apertada. Pensou se devia beijá-la ou não. Certamente estava com muita vontade, e normalmente Spider nunca tinha dúvidas em coisas assim. Qualquer mulher que ele quisesse beijar, beijava. Mas Valentine era como um ouriço, uma coisinha tão engracada e orgulhosa, e ela agora estava humilhada, ele sabia. Um beijo poderia parecer condescendência. Ele a abaixou delicadamente até o chão, tirando as uvas da mão dela. Além disso, dísse ele consigo, ela era sua vizinha e sua amiga, e ele queria conservar esse relacionamento. Não queria trepar com Valentine, pois, se trepasse, mais cedo ou mais tarde o romance ia acabar. Mesmo que depois ele continuasse amigo dela, como quase sempre acontecia com as pequenas dele, não seria o mesmo tipo de amizade que tinham agora.

— Eu lhe perdoo — disse ele — a sua falta de poesia, sem falar em sua falta de romantismo, mas só porque você cozinha tão bem. O que temos para o jantar?

— Eu te conheço muito bem, Elliott. Um homem como você não pode nem ser ofendido porque só pensa na barriga. Só por isso, para o jantar teremos cabeça de vitela em gelatina. — Ela ia entrando no açougueiro italiano onde havia coelhos pelados e cabeças de vitela penduradas medonhamente na vitrina.

— Ah, Valentine. Vamos, isso não é bonito.

— Você vai adorar. Já é tempo de você vencer alguns de seus preconceitos de americano provinciano. Precisa ampliar o seu horizonte, Elliott.

— Valentine. — Ele agarrou a mão dela e a fez parar de repente. — Não suporto chantagem. O que há para jantar?

Assustada, ela parou e olhou bem para a calçada suja, onde se viam cascas de laranja, pimentões esmagados, pedaços de jornal e restos de pão. Que americano típico ele era. Não tinha imaginação gastronômica, as papilas gustativas só meio despertas. No entanto, ela sentiu uma sensação de gratidão curiosamente carinhosa pelo grande bárbaro.

— Desculpe se o ofendi, Elliott. Não percebi que você estava com tanta fome. Se tête de veau lhe é um prato tão desconhecido, teremos uma simples cotê de porc à normandia, cozida em Calvados e um pesado molho de creme, engrossado com cebolinhas e maçã. Isso não é exótico demais para você, é? — Ela sabia que aquele era o prato predileto dele, entre todos os que ela fazia.

— Aceito as suas desculpas — disse Spider, com dignidade. Depois deu-lhe um piparote no traseiro, só para ela saber com quem estava lidando.

Nas duas semanas seguintes Valentine percorreu a cidade desde Grcenwich Village até o norte, o Museu Guggenheim. Andou pelas lojas de departamentos, os melhores mercados, os halls dos grandes prédios de escritórios, e, naturalmente, as ruas, especialmente Madison Avenue, a Quinta Avenida, Terceira Avenida e as ruas 57 e 79 no East Side. Cinco vezes Spider a levou a vários lugares populares mas de preço médio, para comer.e beber. Ela não levou o bloco de desenho, só os olhos e a memória. Queria mergulhar num banho de impressões puras. Depois ela se trancou uma semana sozinha no apartamento, com um terrível resfriado, pés doendo e a mente girando cheia de idéias. Depois de uma semana de trabalho quase constante, Valentine apareceu com uma pasta cheia. Spider folheou as páginas, ávido.

— Santa Maria Mãe de Deus!

— Não sabia que você era católico.

— Não sou, só estou pasmo. É uma expressão que guardo para fatos realmente grandiosos, como quando o time dos Rams vence na prorrogação.

— Hem?


— Não importa, um dia explico, quando tiver mais seis ou sete horas sem nada para fazer. Agora vá para a rua vender o que fez, moça, o seu trabalho é tão bom que nem sei como me expressar.

No dia seguinte Valentine vestiu sua personalidade de ex-assistente de Monsieur Balmain e foi procurar os assistentes de vários figurinistas que ela ainda não visitara. Os dois primeiros assistentes lhe pediram para deixar a pasta, para poderem olhar com calma e talvez, quem sabe, arranjar um lugar par ela. Mas Valentine era muito sabida para isso. Em Balmain havia uma lista de pessoas, inclusive alguns figurinistas americanos, que nunca podiam passar da porta, pois suas memórias fotográficas registravam uma linha inteira, durante uma coleção, reproduzindo-a em detalhe antes da encomenda do primeiro cliente ser entregue em Paris. Em todo caso Valentine desconfiava de que aqueles assistentes com quem ela falou podiam roubar suas idéias sem nem mencionar o nome dela aos chefes.

A terceira firma que tentou foi uma muito nova, chamada apenas Wilton Associates. O figurinista estava fora, mas a recepcionista, milagrosamente, era jovem e nova no emprego. Convidou Valentine para esperar e falar com o próprio Sr. Wilton.

— Não é o figurinista, benzinho, mas é ele quem contrata e despede todo o pessoal, é com ele que deve falar, seja qual for o assunto.

Alan Wilton era um homem imponente. Vestia-se tão bem quanto Cary Grant e seu aspecto não denotava origem alguma. Em qualquer ponto do Mediterrâneo, ele poderia parecer um nativo rico e bem viajado. Na Grécia poderia passar por um pequeno armador de navios, na Itália por um próspero florentino, em Israel por judeu mas nunca por sabra. Mas na Inglaterra, ele pareceria imediatamente ser estrangeiro. Em Nova York, parecia o espírito da cidade encarnado. Tinha olhos castanhos-escuros, impenetráveis como os de um gato selvagem, pele morena e cabelos negros, lisos, muito tratados. Parecia ter seus 35 anos, embora na verdade tivesse oito anos mais, e suas maneiras eram perfeitas. Sua voz grave não indicava nada de sua origem nem seu meio.

Fumando cachimbo, pensativo, ele examinou com cuidado os desenhos de Valentine, de vez em quando meneando a cabeça.

— Por que saiu de Balmain, Sta. O'Neill? — Ele era o primeiro a se dar ao trabalho de lhe fazer essa pergunta. Valentine sentiu que estava ficando branca, como sempre acontecia com ela, quando outras pessoas teriam corado.

— Não havia futuro lá.

— Sei. E quantos anos tem?

— Vinte e seis — mentiu ela.

— Vinte e seis anos e já era assistente de Balmain. Hmmm. Eu diria que essa situação era muito promissora, para a sua idade. — Ela percebeu, pelo seu modo de morder o lábio inferior, que ele entendera o jogo dela desde o princípio.

— O problema, Sr. Wilton, não é por que eu saí de Balmain, e sim se o senhor gosta dos meus figurinos. — Valentine recorreu a toda a sua fibra de irlandesa e seu mais exagerado sotaque francês.

— São sensacionais. Perfeitos para o mercado maluco de hoje. Exatamente do que preciso para fazer as mulheres voltarem a comprar. O problema é que já tenho um figurinista e ele tem um assistente com quem trabalha há anos.

— Isso é... uma pena.

— Mas não para a senhorita. O assistente de Sérgio terá de ir embora. Não estou dirigindo este negócio para agradar as pessoas, Sta. O'Neill. Não sou apenas o financiador, sou eu que tomo todas as decisões aquil. Quando pode começar?

— Amanhã?

— Não, não é boa idéia. Tenho de fazer umas mudanças primeiro. Vamos dizer, na próxima segunda-feira de manhã? Aliás, sabe costurar?

— Naturalmente.

— Cortar?

— Claro.


— Fazer amostras?

— É óbvio.

— Provar?

— Por certo.

— Fazer moldes?

— Isso é básico.

— Supervisionar uma oficina?

— Se for preciso.

— Se sabe fazer tudo isso, podia ganhar muito mais do que os 150 dólares por semana que pretendo pagar-lhe.

— Sei disso perfeitamente, Sr. Wilton. Mas não sou costureira que faz amostras ou moldes. Sou figurinista.

— Compreendo. — Ele olhou-a nos olhos, as sobrancelhas espessas erguidas numa expressão divertida e entendida. A experiência técnica da moça era completa demais para lhe ter dado tempo de ser assistente de Balmain, cujos assistentes, em todo caso, eram sempre homens, e não moças.

Valentine pegou sua pasta o mais depressa que pôde, sem perder a dignidade.

— Estarei aqui na segunda-feira — disse ela, saindo do grande gabinete de Wilton com o ar de uma pessoa muito acostumada a ser contratada. Enquanto esperava o elevador, trêmula de gratidão, rezou para que o Sr. Wilton não saísse do escritório atrás dela para lhe fazer mais perguntas.

Nada, na experiência de Valentine, a poderia ter preparado para Sérgio, o figurinista de Wilton Associates. Seu conhecimento do mundo homossexual, em geral, limitava-se em grande parte às últimas semanas, em que passara rondando as firmas de atacadistas. Tudo o que ela realmente sabia sobre os figurinistas bichas é que eram bons em matéria de dar-lhe o fora. Em Balmain, o ambiente era de uma feminilidade intensa e fervilhante. Os cortadores e provadores, homens de meia-idade, tinham tanta definição sexual, para um lado ou para outro, quanto gatos cinzentos e mansos. Sua vida de família não incluíra qualquer contato com o aspecto homossexual de Paris, embora ela soubesse que existia, claro.

Quando Valentine se encontrou com Sérgio na manhã de segunda-feira, ao se apresentar para o trabalho, não encontrou apenas mais uma bicha, e sim uma princesa petulante, muito majestosa, muito grandiosa. Ele era jovem, com um queixo lindamente cinzelado. Os lábios eram salientes e provocantes e tinha um rosto classicamente voluptuoso e cabelos bastante compridos, castanhos e brilhosos. Vestia-se no auge da moda italiana, a camisa de seda pura desabotoada até o umbigo, mostrando um bocado de seu peito liso e bronzeado, a cintura estreita presa por um cinto de corrente de ouro maciço. As calças poderiam não ser justas demais num picadeiro de touradas na Espanha, mas na Sétima Avenida, eram uma declaração positiva.

Sérgio, naquele momento, era uma princesa muito, muito zangada, que voltara de umas férias curtas demais terrivelmente bombardeado para ver que seu burro de carga de assistente tinha sido substituído por uma vigaristazinha qualquer que Alan lhe impusera em sua ausência. Não se podia confiar em ninguém, nesse negócio! Uma pinóia de uma francesa, Que tal essa vigarice?

— Pare de choramingar, Sérgio. A pequena tem talento e você precisa dela. Se está pretendendo sapatear com seus pezinhos mimosos, vá fazer isso em outro lugar. — Alan Wilton olhou para Sérgio com um desprezo maldisfarçado.

— Você vai se arrepender, Alan.

— Não se atreva a me ameaçar, seu putinho. Você sabe bem quem é que manda aqui, sabe? Ou não sabe? Portanto, vá se mandando para o estúdio e comece a trabalhar. E se está pretendendo fazer das suas costumeiras cachorradas com Valentine — eu não tentaria isso, se fosse você.

Sérgio saiu da sala, ligeiramente abrandado pelas palavras de Alan. Em algumas situações ele tinha um fraco por... lhe dizerem o que fazer. Alan às vezes era um filho da puta tão duro. Pois sim que ela ia trabalhar logo, com o pau de repente tão duro que ele tinha de dar um jeito, ou então gozar nas calças. Sérgio subiu dois andares pela escada de incêndio até um banheiro masculino público, conhecido em toda a Sétima Avenida, como vários outros. Olhou depressa para os dois lados, certificou-se de que ninguém que ele conhecesse estava à vista, e entrou. Havia uma dúzia de homens lá, alguns falando em voz baixa, outros rondando nervosos, outros apenas de pé, fumando, os olhos indo de um lado para outro. Sérgio reconheceu um importante comprador de roupas de homem, um rapaz de origem portorriquenha, o vice-presidente de uma importante loja de departamentos, um modelo louro, e um jovem empacotador de um fabricante de vestidos. Não cumprimentou nenhum, nem eles o cumprimentaram. O coração de Sérgio estava disparado, enquanto ele remexi no bolso, como quem procura um cigarro, fazendo com que o contorno de seu pau duro se acentuasse com a manipulação do tecido fino e apertado. Um dos homens, um estranho vestido conservadoramente como um banqueiro, aproximou-se logo dele com um isqueiro estendido.

— Como é que você gosta? — perguntou a Sérgio.

— No cu.

— Você arranjou um lugar sem jeito para isso.

— É, não se pode ter tudo; então, quer chupar?

— Como é que você adivinhou? — Os lábios do estranho estacam abertos de tensão.

— Entre naquele cubículo, o terceiro da ponta, é da altura acerta.

O estranho obedeceu imediatamente, trancando-se lá dentro. Sérgio foi até o cubículo, cuja porta tinha um buraco de uns dez centímetros de diâmetro, forrado confortavelmente por um anel de espuma de borracha. Todas as portas do banheiro tinham disposições semelhantes, os "buracos do prazer" só variando em sua altura do chão. Sérgio postou-se o mais perto possível da porta, de costas para os outros homens, e abriu a braguilha, enfiando o pênis duro pelo buraco até seus ovos se apertarem contra a porta. O homem lá dentro, que se tinha ajoelhado, pegou o pau de Sérgio na boca com um gemido abafado de gozo. Seu próprio pênis, meio endurecido, já estava para fora das calças e enquanto ele com uma das mãos agarrava Sérgio, chupando com ardor, usava a outra mão para masturbar-se com gestos duros e cadenciados. Sérgio ficou perfeitamente imóvel, as mãos caídas dos lados, os olhos fechados, perdido nas deliciosas sensações de puxões e lambidas que sentia, do outro lado da porta. Vagamente, ele sabia que ia decepcionar o sujeito lá dentro. Estava tão excitado, depois daquela espinafração de Alan, que gozou em menos de um minuto, numa série de contorções alucinantemente aliviantes. O estranho no cubículo mal começara a trabalhar mesmo no pau de Sérgio, quando sua boca se encheu de esperma. Ele o engoliu freneticamente, tentando segurar o pau na boca o mais possível. Mas, tendo terminado, Sérgio sem cerimônia afastou-se do "buraco do prazer", fechou o zíper da calça e saiu pela porta, num movimento experiente. O estranho, praguejando baixinho, com cuidado pôs o pênis intumescido, arroxeado e dolorido para dentro das calças e saiu do cubículo. Ia tentar a sorte de novo, pois não se conformava com um rapidinho de nada, assim, depois de ter vindo de Darien para isso.

Valentine teria gostado de evitar a presença de Sérgio. Ele não a tratava propriamente mal de um modo direto, ao qual ela pudesse, pelo menos, reagir, mas seu ar indisfarçável de um desdém absoluto parecia encher e solidificar o espaço em volta deles. No entanto, o trabalho os mantinha juntos constantemente, muitas vezes debruçados sobre o mesmo pedaço de papel ou tecido, tendo constantemente de se consultarem sobre um assunto ou outro. Ele tinha gosto, admitia ela, principalmente na especialidade da firma, conjuntos esportes para mulher, feitos de lãs finas e cachemira, couro, linho ê seda pura. Embora a firma Wilton Associates só tivesse seis meses de existência, era solidamente capitalizada por Alan Wilton, que antes fora sócio de um imenso negócio de vestidos. Com o tempo, Valentine soube, por conversas de escritório, que Wilton vendera sua sociedade anterior quando se divorciara da mulher, filha do fundador da firma maior. Ninguém parecia saber de detalhes sobre o passado dele, pois eram todos, como Valentine, empregados bastante recentes. Sérgio era a exceção. Tinha trabalhado com Wilton no outro negócio e o acompanhara quando ele saiu.

Sérgio estava empenhado na preparação da linha de verão de Wilton Associates, mas não tão absorto em seus próprios figurinos que não encontrasse tempo para incorporar uma porção das idéias de Valentine em seus próprios esboços. Muitas vezes ele redesenhava os desenhos dela, sem se dar ao trabalho de fazer qualquer modificação.

Uma tarde, uns dois meses depois de Valentine ser contratada, Alan Wilton pediu que ela fosse ao seu gabinete.

— Você não perguntou, Valentine, mas quero que saiba que eu acho que você contribuiu com alguma coisa muito importante para o aspecto de nossa linha.

— Ah, obrigada! O Sérgio...

— Sérgio não é famoso por partilhar o crédito, não disse nada. É só que por acaso tenho boa memória. — Os olhos de gato selvagem olharam diretamente nos dela. — Quer jantar comigo esta sexta-feira? Eu teria muito prazer... ou você tem de ir a algum lugar no fim de semana?

Valentine sentiu um choque subir-lhe até a raiz dos cabelos. Até aquele momento Alan Wilton a tratara com uma cerimônia simpática nas muitas ocasiões em que ia ao estúdio. Ela o achava intimidador, embora nunca o admitisse a ninguém, nem mesmo a Elliott.

— Não! Isto é, não vou para fora no fim de semana e gostaria muito de ir jantar. — Ela estava muito atrapalhada.

— Ótimo. Então eu a apanho em sua casa?

Valentine teve uma visão daquele homem tão bem vestido subindo seis andares até ao sótão dela, à luz da lâmpada de 40 watts que iluminava a escada.

— Isso pode não ser boa idéia. — "Idiota, disse ela consigo mesma, isso não faz sentido." — Quero dizer, o tráfego, sexta à noite, é sempre tão difícil. Por que não nos encontramos em algum lugar? — Que tráfego, disse ela consigo, apoquentada. Na noite de sexta-feira todo o tráfego era saindo da cidade.

— Como quiser. Venha tomar alguma coisa em minha casa primeiro e depois seguimos para o Lutèce. Você pode me dizer se acha comparável ao Tour d'Argent. — Ele olhou para o avental branco com que ela estava. — Isso lhe dará a oportunidade de usar um de seus vestidos de Balmain. E podemos conversar sobre o querido Pierre. Não tenho conseguido jantar com ele, nesses últimos três anos.

— Acho que Sérgio está precisando de mim — disse ela, apressada.

— Bem, certamente não há duvida quanto a isto. Vamos dizer, oito horas? Moro nos East Sixties, aqui está o endereço. É numa casa velha. É só tocar a campainha do lado de fora e eu abro. É a primeira porta em frente.

— Sim. bem... até sexta, então... — Ela saiu do escritório dele precipitadamente, pensando, tarde demais, que provavelmente ainda veria Wilton uma dúzia de vezes antes de sexta-feira, no trabalho.

Valentine chegou à porta do apartamento de Alan Wilton com um vestido de chiffon preto, curto e delicado, com um casaco aberto combinando, debruado de fitas de cetim preto, seu próprio figurino e confecção própria, que Balmain teria tido orgulho de criar. Ela esperava que a casa dele fosse decorada no mesmo espírito que o escritório, que englobava todos os chavões executivos de paredes de flanela cinza, um tapete David Hicks de padrão geométrico preto e branco, e móveis de aço escovado e vidro, um escritório tão severamente masculino e rigorosamente organizado quanto o homem em si.

Mas quando Wilton atendeu à campainha, levou-a para um dúplex que combinava a fantasia com as belas artes numa profusão estonteante. Uma coleção de raros móveis Art Deco estava colocada sobre brilhantes tapetes persas; cadeiras chinesas do Século XVIII ladeavam um magnífico torso grego, despido, de Alexandre, o Grande; sinuosos dragões do Camboja guardavam um sarcófâgo ptolomaico ereto. As cores eram todas ricas e escuras: vinho, bronze, preto laqueado brilhoso e terracota. Havia espelhos por toda parte, lutando pelo espaço com os livros, antigos reposteiros chineses, fotos emolduradas e pequenos quadros cubistas, dois Braques, um Picasso, vários Légers. Sofás de couro e veludo estavam parcialmente cobertos por mantas de peles e almofadas inesperadas de lamê dourado e prateado. Em todas as mesas havia uma quantidade espantosa de vasos e pequenas esculturas, cristais Lalique e Gallé, cerâmica chinesa, figuras de pedra assírias, peixes de metal flexíveis. Era um apartamento ao mesmo tempo tão absorvente que Valentine imaginou que se tivesse tempo para absorvê-lo e analisá-lo ela conheceria o homem que o havia criado, e por outro lado tão cheio de contrastes e justaposições ambíguas que bem poderia destinar-se a uma camuflagem.

Valentine estava boquiaberta. Aquilo era uma obra de arte tão completa que ela por enquanto não sentia nada senão espanto. Wilton esperou, absorvendo com prazer aquela reação de sua convidada.

— Estou vendo — disse ela, afinal — que você não acredita quê "menos é mais".

Ele deu-lhe o primeiro sorriso completamente aberto que ela jamais vira em sua fisionomia.

— Sempre achei que o velho Corbusier era por demais dogmático nisso — respondeu ele, e começou a mostrar a ela os dois andares e o jardinzinho com um orgulho confesso por seus tesouros. Desde o instante em que ele atendeu à porta, Valentine deixara de se sentir assustada, com a sua presença. Em casa, ele parecia um outro homem, completamente diferente. Não falara nenhuma vez no "querido Pierre" e ela sentia que ele nunca mais pretendia implicar com ela.

Valentine ficara embasbacada quando Wilton falara em jantar no Lutèce. Mesmo depois de passar apenas três ou quatro meses em Nova York, ela conhecia a reputação do restaurante como o mais caro da cidade, supremo, em sua qualidade de haute cuisine. Ela esperava o tipo de grandeza sobre a qual lera nas revistas francesas, ao descreverem as glórias do Maxim's ou Lasserre. Em vez disso, viu que se tratava de uma casa de pedra marrom comum, simpática e estreita, com um barzinho. Eles subiram por uma escada de ferro em caracol para uma salinha rosa e creme, toda iluminada por velas, dando para um jardim cheio de rosas e outras mesas. Não havia um único toque de ostentação, e no entanto a sala dava a impressão de luxo e conforto devido ao uso do material mais fino possível: toalhas e guardanapos de Unho pesado, cor-de-rosa, rosas frescas em jarrinhos, cristais finos e talheres de prata de lei. Até mesmo os garçons, de avental branco comprido, tinham um ar de proteção e aprovação, em vez de emanarem a pompa rígida que Valentine temera antecipadamente. Enquanto bebiam Lillit com gelo cm copos delicados, bojudos e de hastes compridas e finas, Valentine examinou o menu, que, para surpresa sua, não tinha preços marcados. Mais tarde ela descobriu que só o menu do anfitrião é que trazia os preços de seu pedido. O anfitrião que sofresse, ou se se assustasse com os preços, que não comparecesse ali.

Se bem que parte da estranha sensação de timidez de Valentine se tivesse dissipado no apartamento de Wilton, onde os objetos da decoração forneciam um assunto de conversa seguro, depois de terminada a função dos pedidos, ela de repente pensou em que haviam de conversar durante o jantar. Como se pressentindo seu novo acesso de insegurança, Wilton começou a contar a história do restaurante: Ele o frequentava desde a inauguração.

— Eu tinha esperanças de que fosse um sucesso desde o primeiro dia — disse ele — mas tive a certeza absoluta disso no dia em que ouvi o proprietário, André Surmain, recusar-se a servir chá gelado a um cliente com o jantar, se bem que o homem jurasse que se não lhe dessem seu chá gelado nunca mais pisaria ali.

— Não compreendo — disse Valentine, atrapalhada.

— Eu sabia que a casa ainda não tinha começado a dar lucro, mas lá estava André, tão resolvido a manter seus padrões de culinária francesa que preferia perder um bom freguês a fazer o que ele considerava uma barbaridade, uma profanação da boa comida. Com uma coragem dessas, ele devia ser meio doido, como podia fracassar? E o homem nunca mais voltou, mesmo.

Valentine sentiu voltar-lhe um pouco a sua confiança em si. Também ela nunca deixaria alguém tomar chá gelado ali, certamente não com o marreco assado guarnecido com pêssegos escaldados que estava comendo.

Alan Wilton sentiu remoer dentro de si algo que estivera adormecido por muitos anos. Ela era uma criança encantadora, mesmo. Era como ele suspeitara. Tão jovem, tão inocente, a despeito de sua pose, tão assombrosamente pouco estragada, a despeito de sua beleza. Como era repousante, e comovente, mostrar-lhe um pouco do mundo. E como ela sabia realçar bem o seu tipo: esguia como um rapazinho, seios pequeninos, uma touca crespa e curta de cabelos absurdamente ruivos sobre a simplicidade do chiffon preto, muito bem feito mesmo.

Nas cinco semanas seguintes Valentine jantou com Alan Wilton umas quatorze vezes. Ele apresentou-lhe o ambiente autêntico, barulhento, de bistrô de Le Veau d'Or; o chique controlado e mal iluminado de Pearl's, onde a emoção devia-se não tanto à comida chinesa, que ninguém jamais admitiu ser apenas passável, mas à sensação de fazer parte de uma elite privilegiada que fizera daquilo o seu ambiente; e ao encanto muito especial de Patsy's, restaurante italiano do West Side, despretensioso mas caro, onde políticos do Partido Democrático e homens cujos negócios não suportariam muita investigação comiam a melhor comida italiana fora de Milão. Mas a maior parte das vezes jantavam no Lutèce, às vezes embaixo, na sala menos formal, um pouco maior, às vezes no jardim, protegidos por toldos e lampiões altos, que davam calor, nas noites frescas, às vezes na sala em que se sentaram da primeira vez. Aos poucos Valentine veio a conhecer Wilton melhor. Era um homem que tinha o dom de fornecer pequenas informações sobre sua pessoa em momentos esparsos, e ao mesmo tempo conseguia dizer, sem palavras, que as perguntas curiosas não seriam apenas mal recebidas, como estavam fora de cogitação. Ele tinha dois filhos, ambos começando a adolescência; divorciara-se havia cinco anos, depois de um casamento que durara doze anos; a mulher tornara a casar-se e estava vivendo feliz em Locust Valley.

Ele nunca falava de negócios com Valentine. Aliás, seu interesse principal parecia residir na própria pessoa de Valentine, sua vida passada, que ela aos poucos foi-lhe descrevendo detalhadamente. Foi um alívio para ela poder parar de fingir ser o que não era. Agora que era realmente assistente de figurinista, podia confessar a verdade sobre os anos que passara em Balmain. No entanto, por algum motivo não se sentia com a liberdade de ser tão franca com ele quanto era com Elliott. Se bem que ela agora pudesse descontrair-se com Wilton, suas maneiras perfeitas constrangiam sua própria franqueza impulsiva.

Valentine parava de se intrigar com o seu relacionamento com ele. Todos no escritório sabiam que eles estavam saindo juntos, pois ele mandava a secretária fazer todas as reservas. Valentine conseguia fugir das perguntas que sua amiga a recepcionista e algumas das mulheres mais importantes das oficinas tentavam fazer-lhe, maliciosamente. Ela pensava compreender perfeitamente a atitude de Sérgio. Quanto mais ela saía com Alan, mais friamente maldoso se tornava Sérgio. Era mais que natural, considerando-se que ela era uma concorrente em potencial para o cargo dele, além de ter a vantagem injusta de estar envolvida num relacionamento homem-mulher cora o patrão.

Mas estaria mesmo? Era esse o x do problema. Eles tinham criado uma norma para suas noites juntos. Ela ia encontrar-se com Alan, em casa dele para um aperitivo, saíam para jantar, tomavam uns conhaques num bar, depois de caminharem um pouco, e depois ele a levava para casa de,taxi, insistindo em acompanhá-la pelas escadas até sua porta. Ele sempre lhe dava boa-noite com dois beijos nas faces, à moda francesa, mas nunca entrava, muito embora, depois das três primeiras noites, Valentine sempre o convidasse para entrar.

Wilton tinha um encanto sutil e um glamour formidável. Valentine nunca fora cortejada por um homem que ela levasse a sério, e estava cada vez mais dominada pelo encanto dele. Wilton era o primeiro homem de sociedade que ela conhecia, mas ela não tinha uma base de comparação para usar como medida do seu comportamento impecável. Depois de quatorze jantares, ela certamente esperava algo mais que o tipo de beijo que um general francês dá a outro num dia de parada! Cada vez mais, ela se pilhava olhando para aquela boca cheia imaginando como seria senti-la em seus lábios, e de repente, dando-se conta, baixava os olhos. Às vezes ela percebia um lampejo estranho, que parecia de dor, na expressão dele, e ela se apressava a distraí-lo com alguma história da atividade louca na casa de Balmain, porque temia, sem saber por que, alguma coisa que ele pudesse estar a ponto de dizer. No entanto, o que é que ele estava esperando? Haveria alguma coisa que ela devesse fazer? Algum sinal, alguma palavra? Será que ele achava que era velho demais para ela? Será que ela não era o tipo dele? Não, resolveu ela, isso não era possível. Homem nenhum gastaria centenas e centenas de dólares para dar comida a uma mulher que não fosse do seu tipo, o bom senso lhe dizia isso e o bom senso não falhava nunca. Talvez ela não soubesse a maneira certa de flertar, talvez ele fosse terrivelmente encabulado, em seu íntimo, talvez ele tivesse sido tão ferido pelas mulheres que não se quisesse envolver, talvez...

Valentine estava enojada consigo mesma. Todas essas hipóteses e dúvidas fingidas quando tudo o que ela realmente queria saber era quando ela iria para a cama com Alan Wilton? Ela já completara seus vinte e dois anos e ainda era uma virgem tão intacta que se fosse católica praticante, poderia confessar-se sem corar. Ora, nem mesmo aquele pateta do Elliott nunca tentara...

Amargamente, ela se lembrou de uma conversa que tivera havia pouco tempo com uma manequim de passarela que fora a Wilton's, para provar umas roupas da nova coleção para um desfile de modas. Era uma criatura irreverente, com um sotaque cockney tão agressivo quanto seus ossos pélvicos.

— Quer dizer que Spider, o garanhão, é seu vizinho? Mas que sorte fabulosa!

— Perdão!

— Sabe, isso é considerado vulgar na Inglaterra mas muito bem em Nova York. Por que será?

— De que está falando?

— Essa expressão que você acabou de usar, "perdão".

— Pare de divagar — retrucou Valentine, bruscamente — o que foi exatamente que você disse de Elliott?

— Ele é um garanhão danado de famoso, você sabe o que é "garanhão", Valentine? Sem muitos rodeios, ele fode muito e bem. Sempre pronto, o Spider, e se especializa nas criaturas mais deslumbrantes. Nunca o experimentei pessoalmente, azar o meu, mas ouvi dizer que ele é fantástico.

Salope. Conasse!

— De que foi que você me chamou?

— Uma linguaruda — disse Valentine, que usara duas palavras que, numa tradução livre, significavam, respectivamente, "porca de uma puta" e "xoxota imunda".

— Bem, as fofocas são a alma do negócio, é o que digo sempre. Portanto, acredito que você não tenha ido para a cama com o queridinho. Não ligue, benzinho, ele provavelmente a considerou uma irmã. Ouvi dizer que ele adora as irmãs... Ui! Doeu!

— Desculpe — disse Valentine, tirando o alfinete.

E onde é que ela ficava, então? Irmã de Elliott, não que ela o quisesse, de qualquer maneira, pensou com fúria, aquele porco promíscuo e nojento, e um ponto de interrogação para Alan Wilton. Devia haver alguma coisa errada com ela.

Uma semana depois, quando Alan Wilton sugeriu que Valentine voltasse à casa dele para tomar alguma coisa depois do jantar, ela sentiu uma pontada aguda de alívio. Ela já vira filmes suficientes para saber que era a clássica manobra da sedução. Agora que ele afinal dera o primeiro passo, ela estava encantada consigo mesma por ter esperado sem trair sua impaciência.

Quando eles saíram do apartamento, no princípio da noite, ele apagara quase todas as luzes, e agora não acendeu nenhuma delas. Com um nervosismo enternecedor, ele serviu dois conhaques duplo, e, calado, ligeiramente trêmulo, conduziu Valentine pelo cotovelo, com sua mão quente, para o quarto de dormir. Ele desapareceu no banheiro e Valentine engoliu o conhaque depressa, tirou os sapatos e foi postar-se junto à janela, olhando para o jardim escuro. Sua mente recusava-se a funcionar. Ficou olhando para fora, como se pudesse ver alguma coisa vitalmente importante se continuasse a olhar por muito tempo. De repente, percebeu que Alan estava bem atrás dela, completamente nu, beijando sua nuca, desabotoando os botõezinhos nas costas de seu vestido.

— Linda, linda — murmurou ele, tirando-lhe o vestido, desabotoando-lhe o sutiã, abaixando a anágua. Ela quis virar-se para olhar para ele mas ele a conservou de costas para ele, com firmeza, enquanto lhe tirava as calcinhas mínimas. Os dedos dele devagar traçaram a linha da sua espinha e costelas e suas mãos avançaram para pegar rapidamente em seus seios e depois voltaram à glorificação delicada e propositada das suas costas, aos poucos chegando às nádegas pequenas e firmes. Ali ele ficou muito tempo, encaixando as nádegas nas mãos com os dedos quentes e ávidos, apertando-as e depois, alternadamente, acariciando a linha que separava uma da outra, Valentine sentiu o pênis dele subir e endurecer contra suas costas, mas ele só ficou repetindo "linda", uma porção de vezes.

Ele então ajoelhou-se no chão e delicadamente a fez afastar as pernas. Ela sentiu sua língua quente roçado em seu ânus e a sensação era tão alucinantemente gostosa que ela se encostou contra ele e viu-se girando o pélvis, sem uma idéia consciente. Quando ela já achava que não conseguiria ficar quieta mais nem um minuto, sem se virar, ele á carregou no colo e levou-a para a cama preparada. Não havia luz nenhuma, a não ser uma luzinha de cabeceira, que ele apagou antes de deitá-la nos lençóis e por fim beijá-la repetidamente na boca aberta, ansiosa.

Valentine, sentindo-se cada vez mais molhada, tentou apertá-lo contra si, explorando com as mãos o corpo musculoso e peludo que não podia ver. Ela não ousou tocar no pênis dele. Nunca pegara em um em sua vida e viu que não sabia o que fazer, como tocá-lo. Mas os beijos dele eram tão fortes, tão devoradores que ela parou de se preocupar em saber se estava reagindo devidamente. De repente, inconfundivelmente, ela sentiu que ele estava tentando fazê-la virar de costas. Ela sentiu uma pontada de decepção, queria mais beijos em sua boca, os bicos de seus seios ansiavam por serem tocados, mas ela virou-se obedientemente. Ele começou a beijá-la com brandura pelas costas, mas logo estava lambendo e chupando suas nádegas, quase a machucando com a ferocidade de seus lábios exigentes, os dentes à mostra e as mãos fortes, massageando seu traseiro numa erupção de paixão. Ela estava desorientada, no escuro; não tinha bem certeza de onde ele se encontrava na cama, mas então percebeu que ele estava de joelhos atrás dela, as pernas afastando bem suas covas e as mãos agarrando-lhe os lados da anca de modo que ela estava escancarada. Ela sentiu a ponta firme do pau dele enfiar-se na entrada de sua vagina. Entrou com facilidade por um instante e depois parou, enquanto ela soltava uma exclamação de dor. Ele empurrou de novo, e mais uma vez ela gemeu. Ele puxou para fora e virou-se de repente.

— Você é virgem? — murmurou ele, horrorizado.

— Sou, claro. — Sua virgindade estava tão integrada em sua mente que nunca ocorrera a Valentine que ele não soubesse.

— Ah, merda, não!

— Por favor, por favor, Alan... continue... continue... não se preocupe se doer um pouco... eu quero — disse ela, com urgência, enquanto tentava encontrar o pau dele no escuro, com as mãos, para mostrar que estava falando sério. Ela ouviu que ele cerrava os dentes e de repente, deitada ali de costas, num misto de excitação sexual, dor e o princípio de um constrangimento imenso, ela sentiu que ele a estava penetrando brutalmente com dois dedos, como um esporão que a destroçava. Ela mordeu os lábios mas obrigou-se a não soltar um pio. Quando Wilton teve certeza de que a passagem estava toda aberta ele tornou a virá-la de bruços, e com um pau que parecia menos firme do que alguns minutos antes, penetrou-a. Retrocedendo para em seguida mergulhar cada vez mais fundo nela, Valentine sentiu que ele endurecia e aumentava até que, cedo demais, com um grito de triunfo que parecia uma agonia, ele gozou.

Depois eles ficaram ali deitados, calados, Valentine cheia de palavras não pronunciadas. Ela estava totalmente confusa, quase em prantos. Será que a coisa era assim? Por que ele não se mostrara mais carinhoso? Como podia deixar de saber que ela estava excitada, mas não satisfeita? Mas depois de um minuto ele a abraçou e puxou-a de modo a estarem os dois de frente um para o outro.

— Valentine querida, sei que não foi bom, mas eu não podia acreditar, fiquei tão surpreendido, perdoe-me, deixe-me... — e, com os dedos, ele tocou no clitóris dela com tal perícia que também ela por fim gozou, num espasmo de prazer que lhe fez esquecer suas perguntas. Claro, pensou ela, recuperando seu sentido de lógica, ele não esperava uma virgem, isso explicava tudo.

As semanas seguintes foram das mais intrigantes da vida de Valentine. Ela e Alan Wilton jantavam juntos de dois em dois dias ou de três em três dias e invariavelmente depois iam para a casa dele e faziam amor. Desde aquela primeira vez ele fazia muito mais questão de excitá-la antes de penetrá-la, levando-a a um auge de êxtase sexual com os lábios e dedos, mas insistia em fazer tudo calado e no escuro, o que ela achava muito frustrante. Ela queria ver o corpo dele despido e queria que ele visse o seu. Com uma vaidade inocente Valentine sabia que sua pele perfeita, muito branca, e seu corpo frágil, com os seios bem feitos e levantados e as nádegas apetitosamente firmes e apertadas agradariam a qualquer homem. Mas pior ainda era a relutância evidente que ele mostrava em penetrá-la pela frente, como ela sempre imaginara que faria qualquer homem. Então, ao mesmo tempo em que lhe enfiava o pau, tratava de levantar-lhe a bunda por meio de vários travesseiros, de modo que com os dedos hábeis acariciava seu clitóris na frente enquanto a fodia por trás, mas raramente queria experimentar a posição normal, que ela tanto desejava. Ele explicou que ela não gozaria tanto assim, que era o estímulo manual que a levava ao orgasmo, e não a simples penetração, que, de todo modo, não estimularia seu clitóris diretamente. Mas alguma coisa dentro dela exigia uma confrontação cara-a-cara, que parecia, de um modo simbólico, ser um encontro de iguais no jogo do amor.

E devia ser amor, dizia ela consigo mesma, vendo que não conseguia pensar em mais nada a não ser os sentimentos por Alan Wilton, que se desenvolviam rapidamente. Ela não estava apenas amando; estava obcecada por ele, pois Wilton continuava a ser um enigma para ela. Tratava-a como se trata a uma pessoa amada, demonstrava-lhe uma consideração e admiração extraordinária, e agora gritava o nome dela bem alto, quando gozava, mas ela não sentia que houvesse nada entre eles que estivesse... resolvido? Não, não era essa a palavra carta. Era uma espécie de profunda compreensão que faltava, uma compréhension. Apesar de todos os jantares e conversas, todo o texto, ela ainda esperava para ver o verdadeiro homem que ainda não tinha encontrado nele.

Quando a nova linha de roupas estava sendo completada, Valentine foi obrigada a trabalhar até tarde várias noites nas duas últimas semanas. Normalmente, Wilton saía do escritório às seis horas, deixando Valentine, Sérgio e seus ajudantes técnicos para continuarem sem ele, depois de terminado o seu trabalho do dia. Numa segunda-feira, meio tarde, quando Valentine passou pela porta do escritório dele, a caminho de casa, viu, com surpresa, que a porta estava ligeiramente aberta e que dela vinham vozes, a de Alan e a de Sérgio. Ela já se ia afastando depressa quando ouviu o seu nome. Será que Sérgio estava reclamando dela, pensou, parando para escutar. Dele ela não tinha ilusão alguma.

— ... a sua puta francesa imunda.

— Sérgio, eu lhe proíbo que use esses termos!

— Você me dá vontade de vomitar! Você me proíbe? O Sr. Certinho me proíbe! Se há alguma coisa mais triste do que um viado querendo convencer-se de que pode dar certo com uma mulher...

— Escute, Sérgio, só porque...

— Por que o quê? Por que você consegue ter tesão por ela? Claro que pode, isso não é surpresa nenhuma. Você conseguiu com a Cindy, durante quase dez anos, não foi? O suficiente para ter dois filhos, não foi? Mas por que é que Cindy se divorciou de você, Alan, seu hipócrita nojento? Não foi por que você não conseguia mais nada com ela depois que descobriu o que queria mesmo? Acho que só por que você enfia em mim em vez de eu em você, você é menos viado?

— Sérgio, cale-se! Admito toda essa merda, mas isso é o passado, história antiga. Valentine é diferente, fresca, jovem...

— Cristo! Ouçam só o maior dos viados mentirosos. Até ela aparecer você não se fartava de mim, não é? E onde é que você estava ontem à noite? Parece que me lembro que você enfiou esse seu negócio pelo meu rabo até eu achar que ia arrebentar, e depois, quem estava me chupando e gemendo e grunhindo, Papai Noel? Era você, seu puto, e adorou todos os segundos!

— Foi um lapso. Não vai tornar a acontecer. Isso acabou.

— Acabou! Claro que acabou. Olhe só para mim, Alan, olhe para o meu pau. Não quer metê-lo na boca? Bem suculento? Olhe para o meu rabo. Alan, vou-me debruçar sobre esta cadeira e abri-lo bem, como você gosta. Pode me dizer que não está de pau duro? Pode? Você está morrendo por isso... é a única coisa que você realmente quer... pare de se tapear. Vou trancar essa porta e você vai me enrabar aqui mesmo no chão, de todo jeito, Alan, de todo jeito que você quiser. Ah, as coisas que você vai me fazer. Não vai, Alan? Não vai?

Valentine só o ouviu exclamar. Sim, sim! numa voz de uma entrega feliz e abjeta, antes de poder sair do choque em que estava e fugir pelo corredor.

Depois que chegou em casa, Valentine parou de funcionar. Não conseguiu fazer mais que escovar os dentes e lavar o rosto. Passou dois dias e duas noites encolhida na cama, debaixo dos cobertores e da colcha, com o roupão mais pesado que tinha, mas não conseguiu ter um momento de calor. Só bebeu alguns copos de água e não comeu nada. O tempo parará: Ela sentia como se houvesse dois nós enormes ligados dentro de si, um na cabeça, outro no coração. Se ela ousasse pensar, um dos nós se desataria. Ela não podia imaginar o que lhe aconteceria então. Estava paralisada de medo.

Na manhã do terceiro dia, Spider começou a ficar seriamente preocupado. Tinha notado vagamente que não havia sinais de vida no apartamento dela, mas ele não a via sempre, depois que ela começara a sair com Wilton. Mas ele devia ver alguma luz, pelo menos, pois ela não podia ter ido passar o fim-de-semana fora no meio da semana. Era verdade que nos últimos dois dias ele tinha trabalhado até tarde para Hank Levy, mas de repente, sentiu que havia alguma coisa errada.

Foi até a porta de Valentine e bateu por muito tempo. Não teve resposta, mas tinha a impressão nítida de que Vai ou alguém estava lá dentro. Meses antes eles se tinham dado as chaves dos respectivos apartamentos. Em caso de uma emergência, dissera ele, é sempre boa idéia um vizinho poder entrar ha casa da gente. Certamente nenhum dos outros inquilinos do andar-era digno de confiança — aliás, eles nem conheciam direito os outros. Ele pegou a chave, tornou a bater e, ainda não obtendo resposta, entrou. A princípio pensou que o apartamento, estivesse vazio. Intrigado, olhou em volta, com cuidado. Nada. Nenhum barulho a não ser o zumbido da geladeira. Depois percebeu que o calombo comprido e quase imperceptível debaixo da colcha era um corpo. Aproximou-se na ponta dos pés, apavorado, sabendo que tinha de investigar. Com muito cuidado, afastou a colcha e descobriu a arte de trás da cabeça de Valentine, e viu que o rosto, apertado contra o colchão, lhe permitia justo o espaço para respirar.

— Valentine? Ele deu a volta à cama e abaixou-se para ouvir a respiração dela. Examinou o seu rosto com cuidado. Ela não estava dormindo, ele tinha quase certeza, mas não queria ou não podia abrir os olhos. — Valentine, está doente? Está-me ouvindo? Valentine, amorzinho, tente falar comigo! — Ela continuava deitada, sem reagir, mas a essa altura Spider estava convencido de que ela o ouvia.

— Valentine, está tudo bem. Vou ligar para o hospital e pedir que mandem uma ambulância... seja o que for, vamos cuidar bem de você... não se preocupe... vou telefonar já. — Quando ele se afastou da cama, ela abriu os olhos.

— Não estou doente. Vá embora... — disse ela, em voz rouca.

— Não está doente? Jesus... se você pudesse ver-se... Valentine, vou levá-la já a um médico.

— Por favor... por favor, me deixe em paz. Juro que não estou doente.

— Então o que é que há? Vamos, meu bem.

— Não sei — murmurou ela, e caiu numa forte crise de choro, as primeiras lágrimas que derramava.

Durante mais de uma hora Spider ficou sentado na cama segurando-a com força nos braços, sem poder dizer nem fazer qualquer coisa mais para consolá-la. Ela chorou com uma violência extraordinária, gemendo e uivando, mas não pronunciou uma só palavra inteligível. Ele estava completamente confuso, mas continuou agarrado ao seu embrulhinho molhado e trêmulo e esperou com ternura e paciência, de vez em quando pensando nas irmãs. Quantas meninas, meninas sofredoras e de coração partido, pensou, ele já tivera de consolar?

Quando os soluços dela pareceram descer a um nível em que poderia ouvi-lo, Spider arriscou algumas perguntas vacilantes. Eram más notícias de Paris? Ela tinha perdido o emprego? Havia alguma coisa que ele pudesse fazer?

Ela levantou os olhos, quase fechados de tão inchados, e falou-lhe com uma intensidade que ele nunca ouvira nela.

— Nada de perguntas. Passou. Não aconteceu. Nunca, nunca.

— Mas Valentine... querida... você não pode trancar as coisas...

— Elliott, nem mais uma palavra! — Ele estava petrificado. Alguma coisa temível e terrível na voz dela o fez compreender que se ele fizesse mais uma pergunta, nunca mais a veria.

— Sabe do que é que você precisa, neném? — disse Spider. — Vou-lhe preparar uma sopa de tomate Campbell com bolachas com manteiga.

A mãe de Spider achava que essa combinação era gostosa demais para ser dada a qualquer pessoa a não ser uma criança doente, e todos os seus sete filhos a achavam o máximo em remédios.

A semana seguinte, Valentine subsistiu à base de sopa de tomate, cereais e leite, mais a única outra coisa que Spider sabia preparar, sanduíche de queijo quente. Ela permitiu que ele a convencesse a sair da cama, a tomar um banho de chuveiro e voltar à sua poltrona preferida, mas recusou-se a se vestir. Todos os dias de manhã ele lhe levava um chá quente e cornflackes. Ela ficava o dia todo sentada na poltrona olhando para o vazio, torturada por uma angústia sem fim, um pesar dilacerante pelo modo como tinham abusado dela e uma humilhação medonha e repugnante porque a sua dádiva emocional para Alan Wilton fora transformada num escárnio manchado pelos golpes da realidade, a realidade que ela não conseguia esquecer. Spider voltava correndo para casa toda tarde depois do trabalho, fazia a sopa e um sanduíche de queijo e ficava sentado junto de Valentine até à meia-noite, de vez em quando tocando um disco ou outro, mas a maior parte do tempo apenas lhe fazendo uma companhia muda.

Spider não estava apenas alarmado com esse colapso de Valentine, estava também curioso. Sabia que ela não precisava de cuidados médicos. Diante de tanto silêncio, ele não sabia se era caso de conseguir um apoio psiquiátrico para a amiga. De modo que fez a única coisa que lhe ocorreu: vasculhou o Women's Wear em busca de uma pista, pois era óbvio que ela não estava mais trabalhando para Wilton's. Durante seis dias não encontrou notícia nenhuma que esclarecesse o mistério. Tinham começado a aparecer as reportagens sobre as coleções dos figurinistas americanos para a primavera. Duas vezes por ano, durante várias semanas agitadas, as novas coleções são exibidas aos compradores e à imprensa, espaçadas de modo a todos poderem ter a oportunidade de comparecer à maioria delas. Todos os dias, durante a Semana de Feira, Women's Wear dedicava uma página dupla, às vezes duas, aos esboços e fotos do melhor que havia nas novas linhas. No sexto dia, cobriram a coleção de Wilton Associates com um dilúvio de elogios extremados. Uma página dupla foi dedicada à coleção, inclusive quatro esboços detalhados. Três Spider reconheceu imediatamente como sendo diretamente da pasta de Valentine, embora seu nome não fosse mencionado nenhuma vez. Parecia impossível que fosse aquela a explicação para a crise de Val. Afinal, ele sabia que outros assistentes de figurinistas tinham passado pela mesma decepção, mas ele não tinha nenhuma outra indicação. Spider deu vários telefonemas.

Naquela noite, quando ele e Valentine estavam sentados sozinhos, Spider disse baixinho:

— Você tem um encontro com John Prince amanhã às três horas.

— Ah, claro... Ela não demonstrou nem curiosidade. Mal ouvira.

— Telefonei para ele hoje e marquei a hora.

— De que é que você está falando? — Prince, como Bill Blass ou Halston, era um desses grandes figurinistas cujo nome é tão valioso que podem conseguir licença para usá-lo para tudo, desde perfumes até malas, faturando, em certos casos, até cem milhões de dólares por ano em vendas a varejo, sem contar o dinheiro que ganham com as roupas.

— Liguei para Prince e disse a ele que grande parte da coleção de Wilton é trabalho seu e ele verificou com Wilton, que o confirmou, e ele quer entrevistá-la para o cargo de assistente-chefe, ganhando 20 mil dólares por ano, a começar imediatamente. Ele a espera no escritório amanhã.

— Você está completamente biruta! — Era a primeira vez que ele via algum sinal de animação na cara dela, desde que a encontrara.

— Quer apostar? Eu disse a ele que era seu agente, isso quer dizer que você me deve uma comissão, ainda não sei de quanto. Mas não pense que não vou cobrar.

Nada soa tão certo quanto a verdade. Valentine viu logo que Spider não estava inventando aquilo, embora ela fingisse não acreditar, sem querer lutar para sair do seu abismo de tristeza e depressão.

— Mas meus cabelos! — exclamou ela, de repente de volta ao essencial.

— Pode pensar em lavá-los — disse Spider, ponderamente. —Talvez até pôr um pouco de maquilagem. E vá tirando logo esse roupão. Afinal, não será por falta de roupa que você não vai conseguir esse emprego.

— Ah, Elliott, por que é que você fez isso por mim? — perguntou ela, quase começando a chorar de novo.

— Fiquei farto de fazer sanduíches de queijo quente — riu-se ele. — E se eu ver mais uma lágrima na sua cara nunca mais vou-lhe fazer sopa de tomate, tampouco.

— Pelo amor de Deus — exclamou ela — aconteça o que acontecer, chega de sopa de tomate — e correu para o banheiro para começar a lavar os cabelos.



1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   22


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal