Judith McNaught Tradução Revisada por Karem orkut



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Tudo Por Amor

Perfect

Judith McNaught



Tradução Revisada por Karem – orkut

Revisão Final e Formatação: Vick

Julie é uma menina que perdeu os pais e vivia num orfanato até que uma família decide adotá-la. Porém ela acredita que não merece, por ser essa uma família de moldes perfeitos, coisa que Julie não acreditava ser. Por isso, durante toda sua vida se esforçou ao máximo para ser perfeita e se encaixar entre eles.

Zack nasceu entre os privilegiados, porém num momento de sua vida, sua avó decide expusá-lo de casa e se esquecer que ele existe. Consegue seguir adiante como ator e diretor de Hollywood, mas a morte de sua mulher durante um estranho acidente durante a rodagem de um filme, o converte em um presidiário. Decide fugir para provar sua inocência e no meio do caminho ele cruza com a doce Julie, tão diferente das falsas atrizes que ele estava acostumado.


Prólogo
1976

Margaret Stanhope estava de pé nas portas que davam ao terraço. Suas feições aristocráticas eram uma máscara gélida enquanto observava ao serviçal que nesse momento passava uma bandeja de bebidas a seus netos, que acabavam de retornar de distintos colégios privados, para passar ali as férias do verão. Além do terraço, no vale, era claramente visível a cidade do Ridgemont, Pennsylvania, com suas ruas serpenteantes flanqueadas de árvores, seu prolixo parque, a agradável zona comercial e, para a direita, o Clube de Campo. Exatamente no centro do Ridgemont havia uma série de edifícios de tijolo; eram as Indústrias Stanhope, a empresa direta ou indiretamente responsável pela prosperidade econômica de quase todas as famílias que viviam no lugar. Como a maioria das cidades pequenas, Ridgemont possuía uma rígida hierarquia social, e a família Stanhope ocupava o pináculo dessa estrutura, assim como a mansão Stanhope se erigia sobre a colina mais alta da zona. Entretanto, esse dia Margaret Stanhope estava longe de pensar na paisagem que se divisava desde seu terraço, nem no elevado nível social que possuía desde seu nascimento e que aumentou com seu casamento; só podia pensar no golpe que se dispunha a atirar a seus três odiosos netos.

Alex, o menor, de dezesseis anos, notou que os olhava e, a contra gosto, tomou uma taça de chá gelado da bandeja que lhe oferecia o serviçal, em lugar da taça de champanha que tivesse preferido. Alex e sua irmã eram idênticos, pensou Margaret com desprezo, enquanto os estudava. Ambos eram malcriados, promíscuos e irresponsáveis; bebiam muito, gastavam muito e jogavam muito; não eram mais que crianças mimadas que ignoravam por completo o que era a autodisciplina. Mas isso estava por chegar a seu fim.

Seu olhar se posou no serviçal, que nesse momento oferecia a bandeja a Elizabeth. Ao ver que sua avó a observava, a menina de dezessete anos lhe dirigiu um olhar desafiante e em um gesto infantil se serve duas taças de champanha. Margaret Stanhope a olhou sem fazer nenhum comentário. Essa garota era a viva imagem de sua mãe, uma mulher superficial, frívola e excessivamente excitada sexualmente, morta oito anos antes quando o automóvel esportivo que conduzia o filho de Margaret patinou e derrubou sobre a rota gelada. Nesse acidente morreram ambos, e ficaram órfãos os quatro filhos. O disforme policial indicava que os dois estavam bêbados e que viajavam a excessiva velocidade.

Seis meses antes, sem fazer caso de sua idade avançada nem do mau tempo reinante, o marido da Margaret morreu em um acidente aéreo, enquanto pilotava seu avião rumo a Cozumel, para ir pescar. A modelo de vinte e cinco anos que viajava com ele no avião devia ser sua isca de peixe, pensou Margaret com pouco habitual crueldade e completo desinteresse. Esses acidentes fatais eram uma prova eloqüente da libertinagem e do descuido que durante gerações caracterizou a vida de todos os homens da família Stanhope. Todos eles, arrumados, arrogantes e temerários, viveram cada dia de suas vidas como se fossem seres indestrutíveis e que não deviam dar conta a ninguém de seus atos.

O resultado foi que Margaret passou toda uma vida agarrando-se a sua maltratada dignidade e a seu autocontrole, enquanto o marido gastava sua fortuna a mãos cheias em seus vícios e ensinava a seus netos a viver exatamente da mesma maneira. No ano anterior, enquanto ela dormia no piso superior, seu marido levou prostitutas a essa casa e as compartilhou com seus netos. Compartilhou-as com todos, com exceção de Justin. Seu querido Justin...

Suave, inteligente e trabalhador, Justin foi o único de seus três netos que se parecia com os homens de sua família, e Margaret o amou com toda a alma. E agora Justin estava morto, enquanto seu irmão Zack seguia vivo e saudável, amargurando-a com sua vitalidade. Margaret voltou à cabeça e o viu subir com agilidade os degraus de pedra que conduziam ao terraço, e a explosão de ódio que a percorreu ao ver esse moço alto e moreno de dezoito anos foi quase insuportável.

Zack Benedict Stanhope III, que levava o nome do marido de Margaret, era idêntico ao que foi seu avô à mesma idade, mas não era por isso que o odiava. Seu motivo era muito mais forte e Zack o conhecia muito bem. Entretanto, faltavam poucos minutos para que por fim pagasse pelo que tinha feito... Embora nenhum castigo seria o bastante. Margaret não se sentia capaz de lhe infligir todo o castigo que merecia e se desprezava por sua debilidade quase tanto como desprezava a seu neto.

Esperou até que o serviçal terminou de lhes servir a champanha, depois avançou para o terraço.

— Sem dúvida devem estar perguntando-se por que organizei esta pequena reunião familiar — disse. Zack a observava em silêncio, apoiado contra a balaustrada, mas Margaret alcançou a interceptar o olhar de aborrecimento que trocaram Alex e Elizabeth, sem dúvida ansiosos por fugir dali e reunir-se com seus amigos, adolescentes idênticos a eles: amorais de caráter frágil que faziam o que lhes dava a vontade porque sabiam que o dinheiro de suas famílias lhes evitaria qualquer conseqüência desagradável. — Vejo que estão impacientem — adicionou a avó, dirigindo-se aos que acabavam de olhar-se—, assim irei ao ponto. Estou segura de que a nenhum dos dois lhes ocorreu pensar em algo tão banal como seu estado financeiro; entretanto, a realidade é que seu avô estava muito ocupado por suas "atividades sociais", e muito convencido de sua imortalidade, para estabelecer recursos financeiros para vocês depois da morte de seus pais. O resultado é que eu tenho o pleno controle da fortuna da família. E se por acaso se perguntam o que significa isso, me apressarei a explicá-lo. — Sorriu satisfeita antes de continuar falando. — Em quanto vocês dois continuem estudando em seus respectivos colégios, e se comportem de uma maneira que eu considere aceitável, seguirei pagando seus estudos e lhes permitirei conservar seus automóveis. Ponto.

A primeira reação da Elizabeth foi mais de curiosidade que de alarme.

— E o que me diz do dinheiro para meus gastos pessoais e do que me fará falta quando ingressar o ano que vem na Universidade?

— Não terá "gastos pessoais". Viverá aqui e assistirá à Universidade do povoado durante os primeiros anos. Se ao longo desse tempo demonstra que merece minha confiança, então, e só então, permitirei que ingresse em outra Universidade.

— A Universidade do povoado! — exclamou Elizabeth, furiosa—. Não é possível que fale a sério!

— Me coloque a prova, Elizabeth. Me desafie e verá que corto todo laço Com você e então ficará sem um só centavo. E te advirto que se chegar a me inteirar de que você tornou a presenciar alguma dessas festas cheias de bêbados, drogados e promíscuos, não voltará a ver um só dólar. — voltou-se a olhar para Alexander. — E, se por acaso tem alguma dúvida, isso também vai por você. Tampouco voltará para Exeter o outono que vem. Terminará seus estúdios pré-universitários aqui mesmo.

— Não pode fazer isso! — explodiu Alex — Avô jamais o teria permitido!

— Não tem direito a nos dizer como devemos viver nossas vidas! — choramingou Elizabeth.

— Se meu oferecimento não parece bem — informou Margaret com voz de aço —, sugiro que consiga trabalho de garçonete em algum restaurante, ou que te procure um negociante de prostitutas, porque essas são as duas carreiras para as que, no momento, está preparada.

Notou que empalideciam e assentiu, satisfeita. De repente, Alex perguntou:

— E quanto a Zack? Ele tem notas estupendas em Yale. Suponho que não o obrigará a viver aqui.

Acabava de chegar o momento tão esperado.

— Não — respondeu—. Não o farei viver aqui, — Voltou-se para Zack para poder lhe ver o rosto e espetou: — Vá embora! Vá embora desta casa e não volte nunca mais! Jamais quero voltar a te ver nem ouvir o seu nome.

A não ser porque notou que o moço apertava os dentes, tivesse acreditado que suas palavras não tinham nenhum efeito sobre ele. Não pediu explicações, porque não às necessitava. Em realidade, desde que a ouviu falar com seus irmãos, ele sem dúvida supunha o que lhe esperava. Ergueu-se em silêncio e estirou uma mão para tomar as chaves do automóvel que tinha arrojado sobre a mesa. Mas antes de que chegasse às tocar, a voz da Margaret o deteve em seco.

— Deixa essas chaves! Além da roupa que tem posta, não te levará nada desta casa.

Zack retirou a mão e olhou a seus irmãos, como se esperasse que dissessem algo, mas eles estavam muito imersos em sua própria desgraça para poder falar, e tinham medo de ver-se obrigados a compartilhar seu destino se desafiavam de algum jeito à avó.

A não ser porque notou que o rapaz apertava os dentes, teria acreditado que suas palavras não tinham nenhum efeito sobre ele. Não pediu explicações, porque não as necessitava. Em realidade, desde que a ouviu falar com seus irmãos, ele sem dúvida supunha o que lhe esperava. Ergueu-se em silêncio e estirou uma mão para tomar as chaves do automóvel que tinha jogado sobre a mesa. Mas antes de que chegasse às tocar, a voz da Margaret o deteve em seco.

— Deixa essas chaves! Além da roupa que tem posta, não levará nada desta casa.

Poncho retirou a mão e olhou a seus irmãos, como se esperasse que dissessem algo, mas eles estavam muito imersos em sua própria desgraça para poder falar, e tinham medo de ver-se obrigados a compartilhar seu destino se desafiavam de algum jeito à avó.

Margaret detestava os dois menores por sua covardia e sua falta de lealdade, mas ao mesmo tempo tratou de que ficasse claro que nenhum deles podia dar a menor amostra de coragem.

— Se algum de vocês dois ficar em contato com ele, ou permitir que ele fique em contato com vocês — advertiu quando Zack começou a baixar os degraus de pedra da terraço— , embora só seja que estejam numa mesma festa que também estiver ele, sofrerão seu mesmo destino, compreenderam? — Para o neto que se afastava, sua advertência foi distinta. — Zack, se está pensando em se refugiar na compaixão de seus amigos, não se incomode. Em Ridgemont, as Indústrias Stanhope são a principal fonte de trabalho, e eu sou sua proprietária absoluta. Ninguém quererá te ajudar a risco de cair em meu desagrado... E na perda de seu trabalho.

A advertência de sua avó o fez voltar-se ao chegar aos pés dos degraus, de onde a olhou com tanto desprezo que logo então Margaret compreendeu que seu neto jamais tivera considerado sequer a possibilidade de refugiar-se na caridade de seus amigos. Mas o que mais lhe interessou foi a expressão que vislumbrou na face de seu neto antes de que ele voltasse a cabeça. Seria angustia o que via? Ou fúria? Ou temor? Esperava de todo coração que fossem as três coisas.

O caminhão se deteve junto ao moço solitário que caminhava pelo encostamento da estrada, com uma mochila sport sobre um ombro e a cabeça inclinada como se lutasse contra o vento.

— Ei! — gritou Charlie Murdock. — Quer que te leve?

Um par de olhos cor âmbar, de expressão aturdida se cravaram em Charlie e durante alguns instantes o moço pareceu desorientado por completo, como se tivesse estado caminhando em estado de sonambulismo. Depois assentiu. Quando subiu à cabine do caminhão, notou o par de calças custosas que levavam seu passageiro, os sapatos perfeitamente lustrados, as meias ao tom, o corte de cabelo perfeito, e supôs que tinha encontrado um estudante que por algum motivo havia se perdido. Confiando em sua intuição e seus poderes de observação, decidiu conversar com o desconhecido.

— Em que universidade estuda?

O moço tragou, como se tivesse um nó na garganta, e voltou a cabeça para o guichê, mas quando falou sua voz era fria e cortante.

— Não vou à universidade.

— Te deixou o automóvel?

— Não.


— Sua família vive pelos arredores?

— Não tenho família.

A pesar do tom brusco de seu passageiro, Charlie, que tinha três filhos adolescentes, teve a sensação de que o moço fazia tremendos esforços por controlar-se e manter a raia suas emoções.

— Por acaso tem nome?

— Zack... — respondeu o jovem, e depois de uma breve vacilação, adicionou: —... Benedict.

— Aonde vai?

— Aonde você vá.

— Eu vou até a Costa Oeste. Los Angeles.

— Perfeito — respondeu o moço em um tom que cortava toda tentativa posterior de conversação—. O lugar não tem importância.

Quatro horas depois, o desconhecido falou pela primeira vez por vontade própria.

— Necessitará ajuda para descarregar o caminhão quando chegar a Los Angeles?

Charlie o olhou de soslaio, analisando suas conclusões iniciais a respeito do Zack Benedict. Estava vestido como um rapaz rico e tinha a dicção dos ricos, mas esse rapaz rico em particular se achava sem dinheiro, afastado de seu ambiente e em um momento de má sorte. Além disso, estava disposto a tragar-se seu orgulho e a fazer trabalhos manuais, coisa que, do ponto de vista do Charlie supunha bastante coragem.

— Por seu aspecto diria que é capaz de levantar coisas pesadas — disse, estudando o corpo alto e musculoso de Benedict—. Esteve trabalhando com pesos ou algo assim?

— Antes lutava boxe em... lutava boxe — se corrigiu. "Na universidade", terminou Charlie mentalmente a frase. Talvez porque Benedict recordava a seus próprios filhos a essa idade, quando decidiam ganhar a vida por sua conta, ou possivelmente porque pressentiu que os problemas de Zack Benedict deviam ser bastante desesperados, Charlie decidiu que lhe daria trabalho. Tendo chegado a essa conclusão, estendeu-lhe a mão.

— Meu nome é Murdock, Charlie Murdock. Não posso te pagar muito, mas pelo menos, quando chegarmos a Los Angeles, terá a oportunidade de ver muito cinema. Este caminhão está carregado de filmes dos Estúdios Empire. Contrataram-me para as transportar e isso estamos fazendo.

A indiferença de Benedict ante essa informação de algum jeito aumentou a convicção do Charlie de que seu passageiro não só estava falido, mas também não tinha a menor idéia a respeito de como solucionar esse problema.

— Se fizer um bom trabalho, talvez possa recomendá-lo ao escritório de pessoal dos Estúdios, quer dizer, sempre que não se incomode empunhar uma vassoura ou quebrar o lombo.

O passageiro voltou novamente a cabeça para o guichê. Justo no momento em que Charlie mudava de idéia e decidia que Zack se considerava muito bom para fazer trabalhos físicos, o jovem voltou a falar com uma voz enrouquecida pelo alívio e a gratidão.

— Obrigado. O agradeço muito.
Capítulo 1
1978
— Sou a senhora Borowski, do serviço público do Lar adotivo LaSalle — anunciou a mulher de média idade, enquanto cruzava o tapete oriental rumo à recepcionista, com uma bolsa de compras no braço. Assinalou à garota de onze anos que ia atrás dela e esclareceu com frieza: — E esta é Julie Smith. veio para ver a doutora Theresa Wilmer. Voltarei a procurá-la quando terminar de fazer minhas compras.

A recepcionista sorriu à pequena.

— A doutora Wilmer estará com você em um momentinho, Julie . Enquanto isso sente-se ali e preencha este cartão. Esqueci-me de lhe dar isso a vez passada, quando veio.

Muito consciente de seus jeans desbotados e da velha jaqueta que levava posta, Julie olhou com expressão inquieta a elegante sala de espera onde frágeis bonequinhos de porcelana repousavam sobre uma antiga mesa e valiosas esculturas de bronze se apoiavam em pés de mármore. Separando-se todo o possível da mesa cheia desses objetos, Julie se encaminhou a uma cadeira junto a um enorme aquário onde exóticos peixes de cores nadavam entre ramos verdes. A suas costas, a senhora Borowski voltou a colocar a cabeça para aconselhar a recepcionista:

— Julie é capaz de roubar algo que não esteja atarraxada. É escorregadia e rápida, assim será melhor que a vigie de perto.

Sufocando sua fúria e sua humilhação, Julie se deixou cair em uma cadeira, estirou as pernas para frente em um esforço consciente de adotar a atitude de pessoa aborrecida e nada afetada pelo horrível comentário da senhora Borowski, mas as cor que tingiam suas bochechas estragaram o efeito, além de que suas pernas não chegavam ao piso.

Instantes depois trocou de postura e olhou aterrorizada o cartão que acabava de lhe entregar a recepcionista para que preenchesse. Embora sabia que não poderia escrever as palavras, não tinha mais remedeio que tentá-lo. Apertando os dentes, concentrou-se nas letras que apareciam no cartão. A primeira palavra começava com uma letra N como a de Não nos pôsteres de Não Estacionar que se alinhavam pela rua. Sabia o que diziam esses pôsteres porque seus amigos o haviam dito. A segunda letra era uma a como a de gato, mas a palavra não era gato. Apertou os dedos ao redor do lápis Amarelo, enquanto lutava contra a familiar sensação de frustração e de furioso desespero que a curvava cada vez que se esperava que lesse algo. Tinha aprendido a palavra gato na primeira série mas ninguém escrevia jamais essa palavra em nenhuma parte! Enquanto observava as palavras incompreensíveis do cartão, perguntou-se com fúria por que seria que as professoras lhes ensinavam a ler palavras tolas como gato quando ninguém escrevia jamais a palavra gato fora dos estúpidos livros da primeira.

Mas os livros não são tolos, recordou-se Julie , e as professoras tampouco. Outros meninos de sua idade teriam lido esse tolo cartão em um abrir e fechar de olhos. Ela era a que não podia lê-la, a tola era ela.

Mas, por outra parte, disse-se que sabia uma quantidade de coisas que os outros meninos ignoravam por completo, porque ela se obrigava a prestar atenção às coisas. E tinha notado que quando entregavam a alguém algo que devia preencher, quase sempre se supunha que teria que começar por escrever seu próprio nome...

Com cuidado, escreveu J-U-L-I-E--S-M-I-T-H ao longo da parte superior do cartão; depois se deteve incapaz de escrever nada mais. Sentiu que começava a zangar-se de novo, e antes de permitir que esse tolo pedaço de papel lhe estragasse o dia, decidiu pensar em algo agradável, como a sensação do vento sobre a face, na primavera. Conjurava a visão de si mesmo sob uma grande árvore cheia de folhas, observando os esquilos que brincavam de correr pelos ramos quando a voz da recepcionista a tirou de seus pensamentos, enchendo-a de alarme e de culpa.

- Tem algum problema com o lápis, Julie ?

Julie cravou a ponta do lápis no seus jeans e a quebrou.

— Tem a ponta quebrada.

— Aqui tem outro... .

— Hoje estou a mão dolorida — mentiu, ficando de pé— Não tenho vontade de escrever. E devo ir ao banho. Onde fica?

— Justo ao lado dos elevadores. A doutora Wilmer te receberá muito em breve, assim que não demore.

— Não demorarei — respondeu respeitosamente Julie . depois de fechar a porta do escritório a suas costas, voltou-se a olhar o que tinha escrito e estudou com cuidado as primeiras letras, para poder as reconhecer à volta. "P", sussurrou em voz alta para não esquecer-se, "S-I", Satisfeita, percorreu o longo corredor de tapetes, dobrou à esquerda ao chegar ao final e à direita ao ver o bebedor de água, mas quando por fim chegou aos elevadores, viu que ali havia duas portas, sem nenhuma letra nelas. Estava quase segura de que deviam ser as portas dos banheiros, porque, entre outra série de conhecimentos armazenados, estava o fato de que pelo geral, nos grandes edifícios, as portas dos banheiros tinham trincos distintos dos escritórios. O problema era que nenhuma dessas portas dizia Homens ou Mulheres, duas palavras que reconhecia, nem tinham essas figurinhas de um homem e uma mulher que indicavam às pessoas como ela que banheiro deviam usar. Com muita calma, Julie apoiou a mão em uma das portas, entreabriu e espiou. Retrocedeu ao ver esses estranhos sanitários de parede, porque havia outras duas coisas que sabia e que duvidava que as demais garotas soubessem: os homens utilizavam sanitários muito esquisitos. E ficavam loucos se alguma garota abria a porta enquanto o faziam. Julie abriu a outra porta e entrou no banheiro correto.

Consciente de que o tempo passava com rapidez saiu do banheiro e se apressou a retroceder seus passos, até chegar à parte do corredor onde devia estar.

o consultório da doutora Wilmer. Ali começou a estudar com dificuldade os nomes das portas. a da doutora Wilmer começava com um P-S-I. Leu a P-E-T da primeira porta e decidiu que devia ter memorizado mal as letras, assim que a abriu. Uma desconhecida, de cabelo grisalho, levantou a vista da máquina de escrever.

— Sim?


— Perdão, errei de porta — murmurou Julie , ficando ruborizada — Sabe onde está o consultório da doutora Wilmer?

— A doutora Wilmer?

— Sim, você sabe... Wilmer... começa com P-S-I!

— P-S-I-... Ah! Deve-te referir a Psiquiatras Associados. Esse é o escritório dois mil quinhentos e dezesseis, no outro extremo do corredor.

Normalmente, Julie teria simulado compreender e continuado a procurar em todos os escritórios até encontrar o que procurava, mas estava muito preocupada com sua demora para atrasar-se mais.

— Pode soletrar isso, por favor?

— Como?

— Os números! — exclamou ela com desespero— . Soletre-os assim: três-e seis-nove-e quatro-dois. Diga-me isso assim.



A mulher a olhou como se se tratasse de uma idiota, coisa que Julie sabia que era, mas lhe parecia odioso que o resto das pessoas se desse conta. depois de lançar um suspiro de irritação, a mulher lhe fez o que pedia.

— O consultório da doutora Wilmer é o dois-cinco-um-seis.

— Dois-cinco-um-seis — repetiu Julie .

— É a quarta porta à esquerda — adicionou a mulher.

— Bom! - exclamou Julie , cheia de frustração — por que não disse isso primeiro?

Ao ouvi-la entrar, a recepcionista da doutora Wilmer levantou a cabeça.

Perdeu-se, Julie ?

— Eu? Como vou me perder? — mentiu a pequena com um enfático movimento da cabeça frisada, enquanto retornava ao seu assento. Sem saber que lhe observavam através de algo que parecia um espelho comum, voltou sua atenção ao aquário. O primeiro que notou foi que um dos formosos peixinhos acabava de morrer e que outros dois nadavam a seu redor como se contemplassem a possibilidade de comer-lo. Automaticamente bateu no vidro com um dedo para afugentá-los, mas aos poucos instantes os viu retornar.

— Aqui há um peixinho morto — comunicou à recepcionista, tratando de não parecer muito preocupada— Se quiser, posso tirar da água.

— Esta noite o tirará o pessoal de limpeza, mas obrigado pelo oferecimento. Julie engoliu o protesto irado pelo que sentia, era uma desnecessária crueldade para o peixe morto. Não estava certo que deixassem ali um ser tão formoso e tão indefeso. Tomou uma revista da mesa e simulou olhá-la, mas pela extremidade do olho seguia vigiando os dois peixes predadores. Cada vez que se aproximavam de incomodar a seu camarada morto, Julie olhava a recepcionista para assegurar-se que não a estivesse vigiando, e com o ar indiferente do mundo, atingia o vidro para afugenta- los.



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