Jung e o taro



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SALLIE NICHOLS

JUNG E O TARO

Uma jornada arquetípica

LAURENS VAN DER POST

 




digital_source@yahoogrupos.com.br
Para

Culver Nichols



Meus agradecimentos aos seguintes amigos que ajudaram a dar início a esta Jornada do Taro, e sem cujos incentivos e conselhos o nosso navio nunca teria chegado ao porto: Janet Dallett, Rhoda Head, Ferne Jensen, James Kirsch, Rita Knipe, Claire Oksner, Win Sternlicht, William Walcott e Lore Zeller.

Agradecimentos

A autora faz os seguintes agradecimentos pela permissão para usar material de Copyright:

À Chatto and Windus Ltd. pela autorização para fazer citações de The Savage and Beautiful Country de Alan McGlashan.

À Wesleyan University Press pela autorização para fazer citações de Thresholds oflnitiation de Joseph L. Henderson.

À Spring Publications, Box 1, University of Dallas, Irving, Texas, pela licença para fazer citações de An Introduction to the Psychology of Fairy Tales de Marie-Louise von Franz; de Lectures on Jung's Typology de Marie-Louise von Franz e James Hillman; de "The Influence of Alchemy on the Work of C. G. Jung" de Aniela Jaffé, publicado por Spring, 1967; de Anima and Animas de Emma Jung; de "The Spirit Mercury as Related to the Individuation Process" de Alma Paulsen, estampado em Spring, 1966; de The Problem of the Puer Aeternus de Marie-Louise von Franz; de "Interpretation of Visions" de C. G. Jung, estampado em Spring, 1962; de "The Shadow of Death" de Kristine Mann, estampado em Spring, 1962; de "Angels as Archetype and Symbol" de Amy I. Allenby, estampado em Spring, 1963.

À Princeton University Press pela permissão para reproduzir trechos de The Collected Works ofC. G.Jung. Bollingen Series XX, Vol. 7: Two Essays on Analytical Psychology, tradução de R. F.C. Hull, Copyright 1953, 1966; Vol. 9, I: The Archetypes and the Collective Unconscious, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1959, 1969; Vol. 10: Civilization in Transition, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1964, 1970; Vol. 11: Psychology and Religion: West and East, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1953, 1968; Vol. 13: Alchemical Studies, tradução de R. F.C. Hull, Copyright 1967; Vol. 14: Mysterium Coniunctionis, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1965, 1970; Vol. 15: The Practice of Psychotherapy, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1954, 1966: Vol. 17: The Development of Personality, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1954; Vol. 18: The Symbolic Life, tradução de R. F. C. Hull, Copyright 1950, 1953, 1955, 1958, 1959, 1963,1968, 1969, 1970,1976; Vol. 19: General Bibliography ofC. G. Jung's Writings, compilada por Lisa Ress, com a assistência de colaboradores, Copyright 1979; Psychological Reflections de C. G. Jung; A New Anthology of His Writings, organizada por Jolande Jacobi e R. F. C. Hull, Bollingen Series XXXI, Copyright 1953, 1970; de The Mythic Image de Joseph Campbell, Bollingen Series C, Copyright 1974; de The Great Mother de Erich Neumann, tradução de Ralph Manheim, Bollingen Series XLVII, Copyright 1955.

À Macmillan Publishing Co. pela autorização para fazer citações de Mythologies de W. B. Yeats, Copyright 1959, e de Collected Poems, Copyright 1961.

À C. G. Jung Foundation pela permissão para fazer citações de The Myth of Mearúng de Aniela Jaffé, traduzido para o inglês pela C. G. Jung Foundation; de Ego and Archetype de Edward F. Edinger, Copyright 1972; de Psyche and Death de Edgar Herzog, publicado por G. P. Putnam's Sons, Nova Iorque, para a C. G. Jung Foundation for Analytical Psychology; de CG:Jung, His Myth in OUT Time de Marie-Louise von Franz, Copyright 1975.

À William Morris Agency pela licença para fazer citações de The DeviVs Picture Book, de Paul Huson, Copyright 1971.

À Random House, Inc. pela permissão para fazer citações de The Age of Anxiety de W. H. Auden, Copyright 1947.

À University of Chicago Press pela autorização para fazer citações de The Forge and the Crucible de Mircea Eliade, Copyright 1978 pela autora.

À VDcing Press, Inc. pela permissão para fazer citações de The Portable Blake (William Blake), Copyright 1946.

À Prentice-Hall, Inc. pela licença para fazer citações de The Far Side ofMadness de John Weir Perry.

A Oxford University Press pela autorização para fazer citações de The Poems of Gerard Manley Hopkins (organizado por W. H. Gardner e N. H. MacKenzie).

À Harcourt Brace Jovanovich, Inc. pela permissão para fazer citações dos T. 5. Elliot Collected Poems 1909-1962, Copyright 1963, 1964 pelo autor.

À W. W. Norton & Company pela autorização para fazer citações de A divina comédia, tradução de John Ciardi, edição de 1977; de Duino Elegies de Rainer Maria Rilke, tradução de J. B. Leishman e Stephen Spender, Copyright 1939.

À Routledge & Kegan Paul Ltd. pela autorização para fazer citações de The Tavistok Lectures de C. G. Jung (agora C. W., Vol. 18, Princeton University Press).

A Cambridge University Press pela permissão para fazer citações de My View of the World de Erwin Shrõdinger, Copyright 1964.

À Doubleday & Company pela licença para fazer citações de "Symbolism in the Visual Arts" de Aniela Jaffé em Man and his Symbob de C. G. Jung, Copyright 1964, Aldus Books Londres. Taro de Marselha impresso por J. M. Simon/Grimaud, França.

Às Cartas do Baralho Suíço de Taro IJJ (Copyright 1974), ao baralho de Taro Rider-Waite (Copyright 1971) e ao Tarocchi Visconti-Sforza (Copyright 1975) reimpressos com licença do U. S. Games Systems, Inc., Nova Iorque e de AGMuller, Suíça.

Ao Taro Aquariano pintado por David Palladini, impresso por Morgan Press, Dobbs Ferry, Nova Iorque, reimpresso com autorização.

A Tate Gallery, Coleção Particular, Londres, pela autorização para reimprimir o Satan Exulting Over Eve de William Blake.

Ao Museu de Cluny, França, pela licença para reimprimir A Mão de Deus de Auguste Rodin.

A Princeton University Press pela autorização para reproduzir Psychology and Alchemy, de C. W. 12, Figuras 36, 60, 91, 213, 226.

Envidaram-se esforços para entrar em contato com os detentores do Copyright do material citado neste livro. Entretanto, se mesmo assim infringimos algum Copyright, apresentamos nossas sinceras escusas e prazerosamente agradeceremos em futuras edições.

SUMÁRIO

Introdução

1. Introdução ao Taro

2. Mapa da Jornada

3. O Louco no Taro e em Nós

4. O Mago: Criador e Embusteiro

5. A Papisa: Suma Sacerdotisa do Taro

6. A Imperatriz: Madona, Grande Mãe, Rainha do Céu e da Terra

7. O Imperador: Pai da Civilização

8. O Papa: A Face Visível de Deus

9. O Enamorado: Vítima do Erro Dourado de Cupido

10. O Carro: Leva-nos Para Casa

11. Justiça: Há Alguma?

12. O Eremita: Há Alguém Aí?

13. A Roda da Fortuna: Socorro!

14. A Força: De Quem?

15. O Enforcado: Suspense

16. Morte: A Inimiga

17. Temperança: Alquimista Celeste

18. O Diabo: Anjo Negro

19. A Torre da Destruição: O Golpe da Libertação

20. A Estrela: Raio de Esperança

21. A Lua: Donzela ou Ameaça?

22. O Sol: Centro Brilhante

23. Julgamento: Uma Vocação

24. O Mundo: Uma Janela Para a Eternidade

25. Ao Deitar as Cartas

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Fig. 1 Cavaleiro de Ouros

Fig. 2 O Carro (Taro Sforza)

Fig. 3 Mapa da Jornada

Fig. 4 O Louco (Baralho de Marselha)

Fig. 5 O Louco (Baralho Suíço)

Fig. 6 O Louco (Baralho Waite)

Fig. 7 O Louco (Baralho Aquariano)

Fig. 8 O Louco (Antigo Taro Francês)

Fig. 9 Rei e Bufão

Fig. 10 Squeaky Fromme como O Louco

Fig. 11 Deus Criando o Universo

Fig. 12 O Mago (Baralho de Marselha)

Fig. 13 Moisés Tirando Água da Rocha

Fig. 14 A Separação dos Elementos

Fig. 15 A Mão de Deus

Fig. 16 O Mago (Baralho Waite)

Fig. 17 A Papisa (Baralho de Marselha)

Fig. 18 Astarte

Fig. 19 A Suma Sacerdotisa (Baralho Waite)

Fig. 20 "A Fêmea Surgiu da Escuridão Dele"

Fig. 21 Deus Criando as Duas Grandes Luzes

Fig. 22 A Imperatriz (Baralho de Marselha)

Fig. 23 Vierge Ouvrante (Fechada)

Fig. 24 Vierge Ouvrante (Aberta)

Fig. 25 A Imperatriz (Baralho Waite)

Fig. 26 Peggy Guggenheim como A Imperatriz

Fig. 27 Figura reclinada

Fig. 28 Kali, a Terrível

Fig. 29 O Rei está Morto, Viva a Rainha!

Fig. 30 A Condessa Castiglione segurando uma moldura como máscara

Fig. 31 O Imperador (Baralho de Marselha)

Fig. 32 Águia esquimó

Fig. 33 O Papa (Baralho de Marselha)

Fig. 34 O sinal da Excomunhão

Fig. 35 O Enamorado (Baralho de Marselha)

Fig. 36 O Carro (Baralho de Marselha)

Fig. 37 O Carro (Antigo Baralho Florentino)

Fig. 38 Três Heróis

Fig. 39 A Justiça (Baralho de Marselha)

Fig. 40 Maat, a deusa egípcia

Fig. 41 A Justiça (Baralho do século XV)

Fig. 42 O Eremita (Baralho de Marselha)

Fig. 43 Eremitas Zen executando jocosamente tarefas caseiras

Fig. 44 A Roda da Fortuna (Baralho de Marselha)

Fig. 45 Edipo e a Esfinge

Fig. 46 A Roda da Fortuna (Taro Sforza)

Fig. 47 A Força (Baralho de Marselha)

Fig. 48 Sansão e o Leão

Fig. 49 Leda e o Cisne

Fig. 50 O Rapto de Europa

Fig. 51 Ártemis, Senhora das Feras

Fig. 52 A Cigana Adormecida

Fig. 53 O Enforcado (Baralho de Marselha)

Fig. 54 A Morte (Baralho de Marselha)

Fig. 55 O Buda arrependido

Fig. 56 A Ilha dos Mortos

Fig. 57 Crânio humano adornado

Fig. 58 Deus mexicano da Morte

Fig. 59 Morte: Soldado Abraçando Moça

Fig. 60 Calavera do Dândi Feminino

Fig. 61 Temperança (Baralho de Marselha)

Fig. 62 O Diabo (Baralho de Marselha)

Fig. 63 Satanás Exultando Sobre Eva

Fig. 64 O Diabo (Baralho de Waite)

Fig. 65 A Tentação de Cristo na Montanha

Fig. 66 Mefistófeles

Fig. 67 O Diabo (Taro Italiano)

Fig. 68 Uma Menina Possuída

Fig. 69 O Diabo com Garras

Fig. 70 A Casa de Deus (Baralho de Marselha)

Fig. 71 Fotografia de um raio

Fig. 72 A Estrela (Baralho de Marselha)

Fig. 73 A Noite Estrelada

Fig. 74 A Lua (Baralho de Marselha)

Fig. 75 Lagosta de Ouro

Fig. 76 A Lua (Baralho de Manley P. Hall)

Fig. 77 A Lua (Baralho do século XV)

Fig. 78 A Terra

Fig. 79 O Sol (Baralho de Marselha)

Fig. 80 Gêmeos alquímicos num vaso

Fig. 81 O Julgamento (Baralho de Marselha)

Fig. 82 O Mundo (Baralho de Marselha)

Fig. 83 O Mundo (Taro Sforza)

Fig. 84 Anima Mundi

Fig. 85 Quadrando o círculo

Fig. 86 O Mundo (Antigo Taro Francês)

Fig. 87 Adoração na Manjedoura



Introdução

Uma das principais fontes de incompreensão da natureza e da magnitude da contribuição de Jung para a vida do nosso tempo deve-se à presunção de que o seu interesse maior se concentrava no que ele veio a chamar ''inconsciente coletivo" no homem. É verdade que ele foi o primeiro a descobrir e explorar o inconsciente coletivo e a dar-lhe uma importância e um significado realmente contemporâneos. Posteriormente não foi o mistério desse desconhecido universal na mente do homem, mas um mistério muito maior, que lhe obcecou o espírito e conduziu toda a sua investigação, a saber, o mistério da consciência e da sua relação com o grande inconsciente.

Não é de admirar que fosse ele o primeiro a estabelecer a existência do maior e do mais significativo de todos os paradoxos: o inconsciente e o consciente existem num estado profundo de interdependência recíproca e o bem-estar de um é impossível sem o bem-estar do outro. Se alguma vez a conexão entre esses dois grandes estados de ser for diminuída ou danificada, o homem ficará doente e despojado de significação; se o fluxo entre um e outro for interrompido por muito tempo, o espírito e a vida humana na Terra serão remergulhados no caos e na velha noite. Para ele, por conseguinte, a consciência não é, como acreditam, por exemplo, os positivistas lógicos do nosso tempo, um simples estado de mente e espírito intelectual e racional. Não é alguma coisa que dependa exclusivamente da capacidade do homem para a articulação, como sustentam algumas escolas de filosofia moderna, a ponto de afirmar que o que não puder ser articulado verbal e racionalmente não tem sentido e não é digno de expressão. Pelo contrário, ele provou empiricamente que a consciência não é apenas um processo racional e que o homem moderno, precisamente, está doente e destituído de significação porque, por séculos desde a Renascença, perseguiu cada vez mais um desenvolvimento enviesado no pressuposto de que a consciência e os poderes da razão são a mesmíssima coisa. E se alguém achar que isso é exagero, é só lembrar do "Penso, logo existo!" de Descartes e logo identificará a arrogância européia que ocasionou a Revolução Francesa, gerou uma prole monstruosa na Rússia Soviética e está produzindo a subversão do espírito criador do homem no que foram outrora cidadelas de significado vivo como igrejas, universidades e escolas em todo o mundo.

Jung apresentou provas, extraídas do seu trabalho entre os chamados "loucos" e as centenas de pessoas "neuróticas" que lhe pediam uma resposta para os seus problemas, de que a maior parte das formas de insanidade e desorientação mental eram causadas por um estreitamento da consciência e de que, quanto mais estreita e mais racionalmente focalizada fosse a consciência do homem, tanto maior seria o perigo de hostilização das forças universais do inconsciente coletivo, a tal ponto que elas se levantariam, por assim dizer, em rebelião e esmagariam os últimos vestígios de uma consciência penosamente adquirida pelo homem. Não, a resposta, para ele, era clara: apenas mediante um trabalho continuado para o aumento da consciência o homem encontrava o seu maior significado e a realização dos seus valores mais altos. Ele estabeleceu, para recolocá-lo em seu paradoxo nativo, que a consciência é o sonho permanente e mais profundo do inconsciente, e que até onde se pode traçar a história do espírito do homem, até onde ele se desfaz do mito e da lenda, o inconsciente lutou incessantemente para lograr uma consciência cada vez maior; uma consciência que Jung preferia chamar de "percepção". Essa "percepção" para ele, e para mim, incluía toda a sorte de formas não-racionais de percepção e conhecimento, tanto mais preciosas porque são as pontes no meio da riqueza inexaurível do significado ainda não compreendido do inconsciente coletivo, sempre pronto para carrear reforços destinados a expandir e fortalecer a consciência do homem, empenhado numa campanha sem fim contra as exigências da vida no aqui e agora.

Esta talvez seja uma das suas mais importantes contribuições para uma nova e mais significativa compreensão da natureza da consciência: Só poderia ser renovada e ampliada, na medida em que a vida exigisse que ela fosse renovada e ampliada, pela manutenção de suas linhas não-racionais de comunicação com o inconsciente coletivo. Por esse motivo Jung dava grande valor a todos os caminhos não-racionais ao longo dos quais o homem tentara, no passado, explorar o mistério da vida e estimular o seu conhecimento consciente do universo que se expandia à sua volta em novas áreas de ser e conhecer. Essa é a explicação do seu interesse, por exemplo, pela astrologia, e é também a explicação da significação do Taro.

Ele reconheceu de pronto, como o fez em muitos outros jogos e tentativas primordiais de adivinhação do invisível e do futuro, que o Taro tinha sua origem e antecipação nos padrões profundos do inconsciente coletivo, com acesso a potenciais de maior percepção à disposição desses padrões. Era outra ponte não-racional sobre o aparente divisor de águas entre o inconsciente e a consciência, para carrear noite e dia o que deve ser o crescente fluxo de movimento entre a escuridão e a luz.

Em sua profunda investigação do Taro e em sua iluminada exegese de seu padrão como tentativa autêntica de ampliação das possibilidades das percepções humanas, Sallie Nichols, numa forma que me é preciso descrever de maneira tão sucinta, prestou imenso serviço à psicologia analítica. O livro dela nos enriquece e ajuda a compreender as terríveis responsabilidades que nos são impostas pela consciência. Além disso, ela fez em seu livro alguma coisa que as pessoas que professam reconhecer a grande obra levada a cabo por Jung, tantas vezes deixam de fazer. Jung, como pessoa profundamente intuitiva, foi compelido por sua visão demoníaca a não se demorar por muito tempo em nenhum aspecto particular de sua visão. Foram-lhe precisos tudo o que ele tinha de razão e o método de cientista devoto que ele era, para dar-lhe a vontade de permanecer o tempo suficiente com determinada fase do seu trabalho a fim de estabelecer-lhe empiricamente a validade. Mas, feito isso, ela tinha, por assim dizer, de levantar acampamento e mandar a caravana de sua mente dirigir-se ao posto seguinte da jornada interminável. O seu espírito, como não podia deixar de ser numa época tão exposta ao perigo quanto a nossa (uma alma intuitiva exortou-o), era um espírito desesperadamente apressado. Em conseqüência disso, tudo o que fez necessita de ampliação. E Sallie Nichols, neste livro, prestou à psicologia junguiana e a quantos tentam servi-la, imenso serviço pelo modo com que ampliou a história e a nossa compreensão do papel de importante fonte não-racional da consciência. E o mais importante de tudo isso é que não o fez de forma árida e acadêmica, mas como um ato de conhecimento derivado de sua própria experiência do Taro e das suas luzes estranhamente translúcidas. Em resultado do que seu livro não apenas vive mas acelera a vida em quantos venha a tocar.

Laurens van der Post


1. Introdução ao Taro

O Taro é um baralho de cartas misterioso de origem desconhecida. Tendo, pelo menos, seis séculos de existência, é o antepassado direto das nossas modernas cartas de jogar. No correr das gerações, as figuras pintadas nessas cartas desfrutaram de muitas encarnações. Testemunho da vitalidade e da sabedoria do antigo Taro é o fato de que, embora tenha gerado um filho tão ativo quanto as cartas de jogar que usamos hoje em dia, o baralho-mãe não se aposentou. Na Europa Central, as estranhas cartas do Taro têm permanecido em uso constante em jogos e na cartomancia. Agora, na América, o Taro veio repentinamente à tona da consciência pública. Como as figuras enigmáticas que surgem de repente, inesperadamente, em nossos sonhos, os personagens do Taro parecem estar gritando para nos chamar a atenção.

Erupções dramáticas desse gênero usualmente significam que aspectos negligenciados de nós mesmos buscam reconhecimento. Como as figuras dos nossos sonhos, sem dúvida, as personalidades do Taro introduziram-se em nossa auto-satisfação a fim de trazer-nos mensagens de grande importância; mas o homem moderno, imerso como está numa cultura verbal, acha a linguagem pictórica não-verbal do Taro difícil de decifrar. Nos capítulos seguintes, estudaremos as maneiras de aproximar-nos dessas misteriosas figuras e captar centelhas de compreensão.

Uma viagem pelas cartas do Taro, primeiro que tudo, é uma viagem às nossas próprias profundezas. O que quer que encontremos ao longo do caminho é, au fond, um aspecto do nosso mais profundo e elevado eu. Pois as cartas do Taro, que nasceram num tempo em que o misterioso e o irracional tinham mais realidade do que hoje, trazem-nos uma ponte efetiva para a sabedoria ancestral do nosso eu mais íntimo. E uma nova sabedoria é a grande necessidade do nosso tempo - sabedoria para resolver nossos problemas pessoais e sabedoria para encontrar respostas criativas às perguntas universais que a todos nos confrontam.

Como as nossas cartas modernas, o baralho do Taro tem quatro naipes com dez "pintas" ou cartas numeradas em cada um deles. Os quatro naipes do Taro são chamados bastões, taças, espadas e moedas, que evoluíram para dar os nossos naipes atuais de paus, copas, espadas e ouros. No baralho do Taro, cada naipe tem quatro cartas "da corte": o Rei, a Rainha, o Valete e o Cavaleiro. Este último, jovem e ousado ginete montado num cavalo fogoso, desapareceu misteriosamente das cartas de baralho atuais. O belo Cavaleiro aqui representado (Fig. 1) é tirado de um baralho austríaco de transição - o que quer dizer um desenho que se situa, historicamente, em algum lugar entre as cartas originais do Taro e o nosso baralho. Como vemos, a vitalidade do Cavaleiro era de tal ordem que ele persistiu no baralho depois que o seu naipe já havia mudado de moedas para ouros.



Fig. 1 Cavaleiro de Ouros

O haver este símbolo de propósito sincero, de cortesia e de coragem desaparecido das nossas cartas de jogar atuais pode indicar uma falta dessas qualidades em nossa psicologia atual. O Cavaleiro é importante porque precisaremos da sua coragem e do seu espírito de indagação se quisermos que a nossa jornada seja bem sucedida.

Igualmente significativa e, decerto, igualmente misteriosa, é a ausência, em nosso baralho moderno, dos Trunfos do Taro, a saber, as cartas que serão os marcos da nossa viagem. Esses Trunfos - às vezes denominados Atouts - compreendem um conjunto de vinte e duas cartas que não pertencem a nenhum dos quatro naipes. Cada uma delas tem um nome intrigante (O MAGO, A IMPERATRIZ, O ENAMORADO, A JUSTIÇA, O ENFORCADO, A LUA, e assim por diante), e as cartas são numeradas. Arrumados em seqüência, os Trunfos parecem contar uma história pela imagem. Será o ponto central do livro examinar os vinte e dois Trunfos em seqüência e decifrar a história que eles contam.

Como o alquímico Mutus Liber (que, a propósito, apareceu depois), os Trunfos podem ser encarados como um texto pictórico mudo, que representa as experiências típicas encontradas ao longo do caminho antiqüíssimo da autocompreensão. Como e por que esse assunto encontrou o seu caminho até o Taro, que era e ainda é essencialmente um baralho de cartas de jogar, é um mistério que intrigou gerações de estudiosos. Um único vestígio dos Trunfos subsiste em nossas cartas de jogar modernas: o Coringa. Esse sujeito esquisito, que leva uma vida tão indefinível em todo baralho de cartas é descendente direto de um Trunfo do Taro chamado O LOUCO, com o qual logo travaremos conhecimento.

As teorias acerca da origem do Louco e dos seus vinte e um companheiros (os outros Trunfos) são várias e fantasiosas. Imaginam alguns que essas cartas representam as fases secretas de iniciação num culto egípcio esotérico; outros sustentam, e com maior probabilidade histórica, que os Trunfos são de origem européia ocidental. Diversos eruditos bem-conceituados, entre os quais. A. E. Waite e Heinrich Zimmer, sugerem que os Trunfos foram forjados pelos albigenses, seita gnóstica que floresceu na Provença no século XII. Acredita-se que eles tenham sido provavelmente contrabandeados para o Taro como velada comunicação de idéias em desarmonia com a igreja estabelecida. Um escritor contemporâneo, Paul Huson, encara a origem do Taro como um artifício mnemônico utilizado principalmente em necromancia e feitiçaria. Outra escritora contemporânea, Gertrude Moakley, foi a primeira a aventar a engenhosa teoria de que os Trunfos são de origem exotérica, simples adaptações de ilustrações de um livro dos sonetos de Petrarca a Laura. A esse livro foi dado o nome de Trionfi, o qual tanto pode traduzir-se por "Os Triunfos" quanto por "Os Trunfos".

Nos sonetos de Petrarca cada uma de uma série de personagens alegóricos combate e vence o seu predecessor. Esse tema, popular na Itália renascentista, foi o assunto de muitas pinturas do período. Era também dramatizado em representações teatrais, em que as figuras alegóricas, primorosamente vestidas, desfilavam, exibindo-se, em torno dos pátios do castelo em carros decorativos, acompanhadas de cavaleiros a cavalo com todas as suas insígnias. Tais desfiles, verdadeiros carroceis, são a origem dos nossos modernos carrosséis, nos quais, enquanto as crianças brincam fazendo o papel de valentes cavaleiros montados em formosos corcéis, os avós gozam de um passeio mais tranqüilo acomodados num carro dourado.

Eis o Taro número sete, O CARRO (Fig. 2) tal como foi pintado num baralho comemorativo do século XV, desenhado e executado pelo artista Bonifácio Bembo, para a família Sforza de Milão. Essas cartas elegantes, algumas das quais podem ser vistas na Biblioteca Pierpont Morgan em Nova Iorque, são pintadas e iluminadas em cores brilhantes sobre um fundo de losangos de ouro sobre vermelho com toques de prata. É bom lembrar que esses carros triunfais como o que está pintado aqui constituem ainda uma característica importante dos festivais italianos, e que o delicioso espírito de cavalo de balanço dos seus cavalos permanece, como sempre, em exibição em nossos carrosséis modernos.

Com efeito, pouquíssimo se sabe a respeito da história das cartas do Taro ou a respeito da origem e da evolução das designações de naipe e do simbolismo dos vinte e dois Trunfos. Mas as muitas hipóteses imaginativas que se referem ao advento das cartas e às numerosas visões e revisões inspiradas pela sua simbologia pictórica constituem uma prova da sua atração universal e demonstram o seu poder de ativar a imaginação humana. Para as finalidades do nosso estudo, pouco importa se os Trunfos do Taro provêm do amor a Deus dos albigenses ou da paixão de Petrarca por Laura. A essência da sua importância para nós é que uma emoção humana muito real e transformadora deve ter dado origem a elas. Parece evidente que essas velhas cartas foram concebidas no mais profundo das entranhas da experiência humana, no nível mais profundo da psique humana. É para esse nível em nós mesmos que elas falarão.







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