Kasey michaels



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PROTAGONISTA DE UM CORAÇÃO

This Can't Be Love

KASEY MICHAELS



Super Sabrina Nova 09

Ela não queria compromissos. Ele a detestou à primeira vista!

Molly Applegate sempre dançou em um ritmo diferente... descompassado. Linda, leve e solta, ela curte a vida: isto quando não está trabalhando - o que faz no mínimo dez meses por ano. Mas administrar a escolinha da prima por uma semana pode levar a algo permanente com o cliente mais atraente que apareceu por ali naqueles dias...

Aproveitando as "férias" de verão, o produtor Dominic reúne um elenco em sua propriedade para ensaiarem o próximo musical. Tendo prometido tomar conta dos sobrinhos, procura por uma creche local. Só que o estabelecimento fecha quando mais precisa dele... e Dominic tem de discutir com a bela e irritante Molly para que ela aceite cuidar de seus sobrinhos. Entretanto, Dominic não consegue mais parar de pensar naquela mulher, a mais improvável das musas que imaginara fazer parte de sua vida, mas talvez a protagonista mais perfeita para seu coração...

Doação do livro Valeria

Digitalização: Joyce

Revisão: Alice Akeru

Kasey Michaels, com mais de 65 livros publicados, figura na lista de autores de best-sellers dos jornais The New York Times e USA Today. Já vendeu milhões de exemplares no mundo inteiro. Quando lhe perguntam sobre o porquê de ser tão prolífica, Kasey responde, "É impressionante até que ponto alguém pode chegar para evitar os serviços domésticos"

Capítulo I

Dominic Longstreet não ouvia o tema de amor de seu musical Marie a fluir do toca CD, nem reparava no potente ronronar do motor de seu luxuoso automóvel preto importado da Itália. A luxuriante e quase inigualável paisagem da Virgínia também lhe passava despercebida.

Ele não notava nada porque era um homem em missão. Tinha um objetivo, um destino definido e um motivo danado de bom.

Ia matar uma pessoa.

Não qualquer pessoa. Não era louco. Tratava-se de alguém específico.

Molly Applegate.

Molly Applegate? Mas que raio de nome era esse? Parecia coisa de segundo papel principal: a garota vizinha, meio atarracada, espirituosa, nunca beijada, mas com pelo menos uma boa canção a lhe chamar um pouco de atenção.

Pois essa Molly Applegate ia ter uma música só para ela. O canto do cisne. Um pouquinho antes de ele encaixar as mãos em seu pescoço logo abaixo do queixo duplo e apertar até...

Não. Precisava se acalmar. Não podia simplesmente entrar lá e estrangula-la. Primeiro, tinha de se apresentar, explicar o problema mais uma vez.

Então, a estrangularia.

Segurando o volante com a mão esquerda, procurou no painel a carteia de antiácidos e colocou dois na boca.

Obrigado a reduzir a marcha no congestionado subúrbio de Fairfax, aproveitou para telefonar de novo para a mulher de seus pensamentos. Dono de excelente memória, recordava cada conversa que já tinham tido:

Preston Kiddie Kare, Molly Applegate falando, em que posso ajudar?

Bela voz. Sonora, quase sexy. E o tom parecia solícito.

Como as aparências enganavam!

Rapidamente, apresentara-se e explicara seu problema. Era tio de Toninho e Lizzie Longstreet, matriculados naquela creche.

— Oh, Toninho, é um amor de menino.

Ela não falara de Lizzie. Ao menos, não tentara enganá-lo. Porque todos que conheciam Elizabeth Packer Longstreet sabiam que ela não era flor que se cheirasse.

Dominic explicara então que seu irmão, Anthony, e a cunhada lhe haviam confiado os filhos por três semanas.

Podia tomar conta dos sobrinhos por três semanas, droga. Qualquer um podia tomar conta de duas crianças por três semanas. Desde que contasse com uma creche em período integral nas proximidades e empregada que dormisse no emprego para as horas restantes.

Atento ao tráfego, procurou mais antiácidos.

Explicara que Toninho e Lizzie deveriam frequentar a Preston Kiddie Kare durante aquelas três semanas. Pagara adiantado. Mas agora descobrira que a maldita escolinha... ou melhor, que o estabelecimento estaria fechado nas duas semanas seguintes.

— Oh, é isso mesmo, sr. Longstreet — confirmara, quase cantarolara Molly Applegate. — Hoje é o último dia e então só reabriremos na segunda-feira, vinte e dois de julho. Estamos todos muito ansiosos pelo intervalo.

Intervalo. Pois sim!

Cerrando os dentes, mantivera a cabeça fria. Esclarecera a Molly Applegate que ele não estava ansioso pelo intervalo de duas semanas e esperava que os sobrinhos fossem permanecer na Preston Kiddie Kare das oito da manhã às cinco da tarde, de segunda a sexta-feira, nas duas semanas em questão.

— Imagino — ela respondera, rindo.

Ela rira. Quase a estrangulara pelo telefone.

Desligando na cara dela, pegara as chaves do carro. Preferia estrangulá-la pessoalmente.

Mascava os antiácidos, detestando o gosto de banana. Mas quem tivera a brilhante ideia de colocar essência de banana nos antiácidos? Só podia ser um sádico. Só podia ser mulher, uma mulher como Molly Applegate.

Tinha planos, maldição. Todo aquele contratempo era culpa de Tony, seu irmão. Fora ele quem se apaixonara, se casara e tivera dois filhos. Mas agora o casal queria passar três semanas nas ilhas gregas. Ora, quem viu uma estátua sem braço já viu todas. Como aquela viagem podia durar três semanas?

Com todo o cuidado, Dominic estacionou seu carrão na vaga recém-liberada por um minifurgão verde-escuro com três assentos infantis. Não era de admirar que o mundo estivesse superpovoado. Algumas pessoas se reproduziam como coelhos. Podiam se conter um pouco.

Saltou do automóvel a tempo de ver cerca de um milhão de crianças de todos os tamanhos e formas serem encaminhadas a minifurgões. Tinham três coisas em comum. Todas faziam muito barulho. Todas tinham cachecol vermelho, azul e branco enrolado na cabeça. E todas olhavam para seu importado italiano como se fosse um novo brinquedo da escolinha. Protetor, quase se atirou de braços e pernas abertos sobre seu "bebê".

As mães nem o notavam, deixando claro quais eram as prioridades de uma mulher depois que ela dava à luz. Dondocas que ele cobrira de diamantes resolveram se casar e produzir crianças como aquelas, ao que se transformaram! Brilhantes? Para quê?

— Veja, trouxe quarenta fotos do meu Timothy. Ele não é uma gracinha? Você também deveria se casar, Dom. Sério, vai mudar sua vida...

Ele não disfarçava o desinteresse. Como se não gostasse da vida que levava.

Trinta e oito anos, tão rico que nem seu contador conseguia acreditar. Quatro prêmios Tony, um para cada musical seu levado à Broadway, todos sendo encenados em algum lugar do mundo, o último ainda em cartaz.

Em Fairfax, mantinha sua propriedade rural, completa com mansão, cavalos, piscinas interna e externa, teatro e casa de hóspedes. Em Manhattan, o apartamento no Edifício Dakota. Na Suíça, um chalé. Em Vail, a cabana de esqui. Negociava a compra de um solar na Inglaterra. Na Califórnia, já tinha uma fazenda.

Trabalhava com afinco. Por isso, distraía-se com afinco.

Mulher e filhos, pois sim! Precisava disso tanto quanto a televisão precisava de outro reality show.

— Ei, belas rodas!

Dominic voltou-se esperando ver mais uma mãe esgotada arrastando uma criança pegajosa. Mas viu só pernas.

E que pernas!

Mais retas e compridas, impossível. Lisinhas e com as curvas perfeitas. Começavam em pés desnudos em sandálias de tiras com sola de cortiça e terminavam na barra de um short branco que, mais curto, chamaria a atenção da turma da repressão.

Pois as tais pernas se ligavam a um corpo que, além do short branco, exibia uma camisa listrada em azul, vermelho e branco atada com um nó na altura do abdome sarado.

— Eu disse "belo carro". Belo traseiro também, mas você já deve saber disso.

Pois bem, olharia para a cara dela. Veria o todo.

Rapaz...

Cabeleira ruiva a contrastar com uma pele branca de leite. Olhos azuis enormes, mas não redondos. Curvavam-se para cima nas extremidades, meio feiticeira. Sem dúvida, encantavam. A boca carnuda e larga o bastante atiçaria até um eunuco.

Juntando tudo... bem, Dominic já quase não recordava o que tinha ido fazer ali.

— Tio Dom! Tio Dom! — Marchando garboso, Toninho martelava ruidosamente um tambor. — Veja o que vou tocar na banda!

Um momento... começava a se lembrar. Estava ali para matar Molly Applegate.

— Perdão, senhorita — desculpou-se, confiscando as baquetas do moleque. — Mas sabe onde fica o escritório da srta. Applegate?

— Não — declarou a ruiva, sorridente. Dentes perfeitos e alvos, para completar!

— Mas... ela é a dona, não?

— Não, a dona é Janie Preston. Por isso, a escolinha se chama Preston Kiddie Kare. Não dava para deduzir, não?

Dominic absteve-se de rebater, pois tinha a impressão de que aquela mulher sempre teria resposta à altura.

— Pois bem. Sabe onde fica o escritório da srta. Preston, então?

— Sei — declarou a ruiva. — Acontece que ela não está lá. Viajou.

Dominic suspirou.

— Você... trabalha aqui?

— Eu? Está brincando...

— Trabalha aqui, sim, srta. Molly! — entregou Toninho, pulando para reaver as baquetas. — Ela é minha professora, tio Dom. Ontem, ela me ensinou a cuspir sem lambuzar o queixo.

Ignorando sobre a aula de cuspe, Dominic analisou somente as revelações que lhe interessavam.

— Srta. Molly? — Apreciou novamente aquelas pernas, sem fôlego. — Você é Molly Applegate?

Tecnicamente, sim — admitiu a ruiva, exibindo os dentes outra vez. — Acontece que você quer falar com a srta. Applegate, temporariamente no comando da Preston Kiddie Kare, mas ela deixou a função há dez minutos. Espiritualmente, ela já está a meio caminho de Washington, DC, onde um maravilhoso banho de espuma a aguarda.

Dominic passou a mão nos cabelos, mas só para se certificar de que sua cabeça continuava no lugar.

— Escute aqui, srta. Applegate...

— Molly — corrigiu a ruiva. — A partir das cinco e meia, sou Molly. A srta. Applegate já foi embora.

— Pare com essa palhaçada! É a encarregada aqui e vai ter de resolver o meu problema. Paguei adiantado por três semanas e ainda faltam duas. Aliás, não prestaram o serviço nem por uma semana, porque não abriram no Quatro de Julho.

Feriado nacional, que eu saiba.

O estacionamento estava deserto agora, exceto pelo importado italiano e por um importado alemão novinho em folha.

— Seu? — indagou Dominic, tentando descobrir mais sobre a ruiva.

— Meu — confirmou ela. — Já lotado de bagagens até o teto e pronto para a estrada. Agora que entendeu que a Preston Kiddie Kare vai mesmo fechar por duas semanas, só falta arrancarmos Lizzie do computador para podermos ir todos embora.

— Acontece que paguei três semanas adiantado — Dominic rosnou.

— Tenho certeza de que Jane o ressarcirá, senhor... Espere aí! É o tio das crianças, certo? Não estava prestando atenção. O banho de espuma, entende? Mas seu sobrenome também é Longstreet?

— É, mas isso não tem nada a ver...

— E Toninho o chamou de tio Dom. Dom Longstreet. Dominic Longstreet, certo? — A ruiva deu-se um tapinha no rosto e volveu os olhos de feiticeira. — Claro! Onde estava com a cabeça! É Dominic Longstreet!

— Não, não sou — negou ele. — Sou tio Dom. Agora, de volta à questão de quem vai tomar conta das crianças.

— Você é Dominic Longstreet, sim, com quatro espetáculos de grande sucesso na Broadway. Assisti a todos pelo menos duas vezes. Está trabalhando em algo novo?

— Não... Ou melhor, sim! Estou trabalhando e não posso tomar conta dos meus sobrinhos.

— Em que está trabalhando?

— No que você acha? Preciso escalar o elenco, falar com o compositor. Não posso cuidar de crianças.

Molly ergueu as mãos.

— Calma. Vou lá dentro buscar Lizzie e, então, vamos pensar em uma solução.

— Está bem, mas... — Dominic não completou, porque a ruiva já se afastava em cima daqueles saltos de dez centímetros rebolando de um jeito enlouquecedor. Talvez devesse tapar os olhos do sobrinho. Aos oito anos, ele ainda era jovem demais para ver coisas desse tipo e poderia se afetar pelo resto da vida.

Cinco minutos depois, Molly retornava com Lizzie a reboque.

— Oi, tio Dom — cumprimentou a menina, com andar, trejeitos e pose idênticos aos da professora. Quando completasse dezoito anos, seus pais provavelmente teriam de se internar em alguma casa de repouso.

— Tudo resolvido — anunciou Molly, afagando os cabelos loiros da aluna. — Estou pronta para viajar, mas não tenho de ir para Washington, DC. Quero dizer, posso tomar meu banho de espuma em qualquer lugar, e conheço um bom cabeleireiro aqui mesmo.

— Ela telefonou para o jornal e pediu a conta — explicou Lizzie, solícita. — Ficaram desolados, não é mesmo, Molly?

— Ah, ficaram — confirmou a ruiva, volvendo novamente os magníficos olhos azuis. — Pensavam que eu já tinha pedido a conta na semana passada.

— Pois bem, entrem no carro — ordenou Dominic aos sobrinhos.

— Os dois no seu carro? — questionou Molly. — Mas tem só duas poltronas.

Dominic esfregou o peito em queimação. Se arrotasse, arrotaria banana. Era fim de sexta-feira. Onde encontraria uma creche aberta antes de segunda-feira de manhã?

— Pois bem, srta. Applegate... Molly. O que sugere?

— Sugiro, Dominic... posso chamá-lo assim? Bem, não pode socar duas crianças no único assento disponível do seu carro. Acho que precisa da assistência de um profissional especializado.

Ele fingiu espanto.

— Não me diga!

— Então, vamos fazer assim: Toninho vai com você, Lizzie vai comigo. Ela disse que sabe o caminho.

— Não vai ser o máximo, tio Dom? — A menina apoiava a mão direita no quadril, imitando a professora. Era quase uma visão dupla.

— Ah, pela cara do seu tio, ele está exultante, Lizzie! — Molly tirou a chave do bolso. — Até perdeu a fala. Vamos.

Dominic observou as duas seguirem ao importado alemão, incapaz de elaborar uma boa tirada. Sua pequena sobrinha Lizzie tinha jeito para a coisa. Talvez devesse ser um bom tio e analisar o rebolado de Molly Applegate naquelas duas semanas, só para ajudá-la.

Capítulo II

Jamais tentar extrair das crianças informações pessoais sobre os pais, sobre a família.

Aquela era apenas uma dos dois milhões e tantas recomendações que Janie compilara para Molly na esperança de que a prima as lesse. Molly lera algumas, e até guardara a lista na bagagem pela manhã, ao perceber que era mais eficaz do que pílulas para dormir.

Fora ideia de Molly que Janie a substituísse naquele retiro intelectual, na função de acompanhante remunerada, do tipo platônico, claro, para aqueles gênios capazes de fragmentar um átomo, mas não de arranjar um encontro, e conseguisse o furo jornalístico acerca da possível candidatura do senador Aubrey Harrison à presidência da república.

Molly deveria ser a acompanhante remunerada, mas então descobrira que um de seus ex-namorados, que agora a odiava por motivos obscuros, era sobrinho de Harrison e estaria no retiro.

Não obstante, precisava conseguir a história. Estava em período de experiência no jornal de Washington, DC, e o furo jornalístico lhe garantiria o emprego.

Foi essa a explicação, verdadeira, que deu a Janie, assim convencendo-a. O fato de ter acabado de se demitir era só detalhe. Tinha certeza de que a prima estava se divertindo, tendo finalmente saído da concha. Até desligara o celular, certa de que Janie já era capaz de cuidar de si mesma, sem necessidade de lhe telefonar diariamente.

A prima estava acompanhando John Romanowski, um professor universitário esquisitão. Gente importante integrava o retiro, incluindo um astro de Hollywood. E Janie já conseguira aparecer com Harrison em jornal televisivo! A garota saía-se bem.

Sol, areia, pencas de gente interessante, lindos reflexos nos cabelos. Não se comparava isso a tomar conta de um bando de crianças de três anos. Pensando bem, fizera a Janie um grande favor!

Molly aprontara e despachara a prima prometendo administrar a Preston Kiddie Kare nos últimos dias que faltavam para as férias de verão.

Agora, abandonava-a sozinha em Cape May, mas Janie não era totalmente incapaz. Ficaria bem. Até porque a prima Molly cumprira a promessa e tocara a escolinha. Na volta, Janie ficaria feliz por ver que o negócio não falira.

Janie só errara feio ao se confundir quanto ao período em que Longstreet precisaria deixar os sobrinhos na creche. Não, aquilo não fora falha de Molly. Não obstante, ela iria se sacrificar e bancar a babá durante as duas semanas seguintes.

Isso que era prima!

O fato de ela não saber nada sobre cuidar de crianças não tinha a menor importância. Muito menos para Dominic Longstreet.

E, como aquele bico de babá podia ser considerado um trabalho, Molly estava satisfeita. Porque o desfrute de sua herança, um fundo com mais zeros do que a maioria dos roqueiros tinha tatuagens, dependia de sua capacidade de se manter empregada por no mínimo dez meses ao ano. Ou trabalhava, ou se casava, o que certamente não estava em seus planos. Queria mais era se divertir.

Tendo negligenciado a filha a vida toda, os pais de Molly haviam colocado aquelas restrições no testamento para lhe "dar uma lição", mas a garota avoada simplesmente encarara o desafio como mais uma aventura.

Ela deveria trabalhar pelo menos dez meses por ano, porém nada a obrigava a se manter no mesmo emprego durante esse período. Sendo assim, o mercado de trabalho se transformara no novo playground de Molly Applegate.

Vinha mantendo uma média de seis a oito empregos diferentes por ano. Nos últimos doze meses, já fora modelo de lingerie, porta-voz de um fabricante de pneus na televisão, acompanhante de uma anciã a escrever suas memórias, babá de uma casa em Mônaco, cantora-patinadora em restaurante retro, garçonete em um cassino de Las Vegas, cachorreira profissional em Manhattan, e acabara de se livrar daquele emprego no jornal, onde fora mais mensageira honrosa do que repórter.

Poderiam alguns considerá-la fútil, mas ela chamava de diversidade. E era tão divertido!

Agora, parada diante de um semáforo, recordava a recomendação da prima Janie quanto a não tentar extrair das crianças informações pessoais sobre seus pais, sua família. Ora, para que existiam as regras, se não para serem violadas?

— Mas... fale-me de seu tio Dom, Lizzie — pediu à menina sob seus cuidados, persuasiva. — Quero detalhes, hein?

— Já entendi. O que quer saber, Molly?

— Para começar, o estado civil. Casado? Divorciado? Solteirão convicto?

— Ele nunca se casou — contou Lizzie. — Mamãe e papai dizem que é porque ele é muito egocêntrico, egoísta...

— Já entendi — cortou Molly, satisfeita. — Solteirão convicto, então. Mas tem namorada?

A menina se afundou na poltrona.

— Um monte. Elas vêm e vão. Mamãe diz que é porque ele se acha uma dádiva divina...

— Vamos fazer um trato, Lizzie. Atenha-se aos fatos, e deixe de lado os comentários editoriais de sua mãe, está bem? Tenho certeza de que posso chegar às mesmas conclusões por mim mesma, e assim é muito mais divertido. A gente mesma adivinhar.

A menina deu de ombros.

— Está bem. Quer dizer que não quer saber de Cynara?

— Cynara? A estrela da Broadway? Ao contrário, ma chérie. Desembuche.

— Bom, mamãe disse que... desculpe-me. É que Cynara está na propriedade. A gente mora do lado, entende? Temos quarenta hectares. Tio Dom tem milhares.

— Mas o que é que sua mãe disse?

— Pensei que não estava interessada nos comentários da mamãe.

— As regras existem para serem quebradas, meu anjo, algo que acabo de recordar. Inclusive as minhas. Além disso, está louquinha para fofocar.

Lizzie volveu os travessos olhos verdes.

Ela diz que ele compensa, ou seja, põe uma coisa no lugar de outra, que não pode ter. Coitadinho do tio Dom... Sabe, ele tem casas em tudo quanto é lugar, mas eu gosto mais desta aqui.

— Certo. Agora, fale da propriedade. Ela tem nome?

— Papai chama de propriedade mesmo. Tio Dom chama de propriedade na Virgínia. Ele não dá nome às coisas. Mamãe chama a parte dele de Playground. Quer saber como ela chama o carrão italiano?

Molly sorriu.

— Não, acho que posso imaginar. Mas fale mais da propriedade. O que tem lá?

— Uma mansão. Celeiros. Estábulos. Cavalos. Trilhas. Duas piscinas, uma dentro, outra fora. Uma grande casa de hóspedes. Teatro. E o lugar proibido.

Molly olhou-a de soslaio.

— O quê?


— É o estúdio particular do tio Dom... um escritório. Só ele, papai e tio Taylor têm a chave. A gente não pode entrar, de jeito nenhum.

— Seu pai trabalha com seu tio, não é isso?

— Papai compõe, tio Dom produz.

— Nunca leio a ficha técnica dos shows a que assisto. Seu pai compõe letra e música?

— Não, ele compõe só a letra. Tio Taylor é que compõe a música.

— Oh, sim, você o citou também. É outro irmão?

— Não, boba, é Taylor Carlisle. Acontece que ele quer que a gente o chame de tio Taylor. Ele também está na propriedade agora. Junto com Cynara.

— Interessante. Mais alguém?

— O sr. Cambridge. É Derek Cambridge. Parece que vai ser o protagonista desse novo espetáculo, adversário de Cynara. Estão todos lá, ensaiando pelas costas do meu pai.

— Sei. — Molly conduziu o automóvel através dos portões indicados pela menina. Percorriam uma estreita estrada asfaltada isolada por cercas brancas de três grades. — Tudo isto é a propriedade de seu tio?

— Quase tudo. Quarenta hectares são nossos, lembra-se? Mas não tem cerca separando. Oh, não falei de Bethany White? — A menina expressou desgosto. — Uma tonta. Só porque já tem treze anos e os peitinhos começam a nascer. Grande coisa.

— Uma perdedora?

— Ela não acha. A mãe diz que ela já é uma estrela. Que dupla!

— Quer dizer que Bethany faz parte do espetáculo?

— Ela se acha o máximo. — Lizzie cruzou os braços por cima do cinto de segurança. — Olhem para mim, não sou maravilhosa? — reproduziu, imitando a voz e os trejeitos da outra. — Ah, dá um tempo!

— Parece que não vai mesmo com a cara dela—replicou Molly, reduzindo a velocidade quando as construções da propriedade surgiram no alto de uma colina. — Uau, que beleza! Lizzie, seu tio Dom sabe mesmo compensar.

A mansão era imensa. Três andares, toda de tijolos brancos, com varanda e pilares na frente. A cerca de duzentos metros, uma versão menor, a casa de hóspedes. Garagens, estábulos e demais anexos ficavam meio ocultos por árvores, porém interligados por caminhos de tijolos. Havia dois carrinhos de golfe estacionados diante da moradia principal.

— Nossa casa é mais bonita — informou Lizzie, destravando o cinto de segurança, enquanto Molly freava seu importado alemão atrás do importado italiano. — Também é de tijolos, mas não toda pintada de branco. Podemos ver de fora, mas não entrar, enquanto mamãe e papai estiverem viajando. Tenho de ficar aqui.

— Deve ser mesmo horrível ficar num pardieiro destes — ironizou Molly, saltando. Com a bolsa pendurada no ombro, apreciou a mansão. — Aposto como eles a mantêm a pão e água, também. Vamos logo achar seu tio Dom, antes que ele se esconda.

Estavam no terceiro dos cinco degraus que levavam à varanda e à porta maciça quando Toninho apareceu correndo da lateral da casa.

— Elas chegaram, elas chegaram!

— Ele é meio redundante — desculpou-se Lizzie, incrivelmente adulta para seus onze anos.

Molly, que também passara boa parte da vida fingindo ser mais velha, demonstrou compreensão.

— Outro fardo seu.

— Ele simplesmente me segue, aonde quer que eu vá. Pode haver desgosto maior?

— É porque ele a admira, vê como modelo. Devia se sentir lisonjeada.

— Boa tentativa, Molly. — Lizzie esticou os braços para não ser derrubada pelo irmão. — Mas Toninho é um mexeriqueiro, isso, sim! Conta ao tio Dom tudo o que faço, não conta, seu rato?

— Eu conto! — O menino lhes sorriu com toda a falsa inocência de seus oito anos. — Ele me dá moedas...

Dois cães aproximaram-se, o menor latindo feito louco. Molly mordiscou o lábio.

— Oh, cachorros! Já fui cachorreira em Manhattan.

— Por quê? — indagou Toninho.

— Era meu trabalho — explicou Molly. — Mas foi só por uma semana. Têm ideia do tamanho do saco que precisava levar para recolher a sujeira de seis cachorros? Oi, lindinhos! — cumprimentou, abaixando-se para afagar o animal maior.

Não precisou se curvar muito, porque tratava-se de um são-bernardo, ainda em fase de crescimento, pesando cerca de meia tonelada.

— Este é Rufus — apresentou Toninho. — É meu. Ganhei no Natal. E aquele é Dufus. É da Lizzie. Ela também ganhou no Natal.

— Oi, Dufus! — Molly afagou igualmente o poodle preto que saltara graciosamente sobre as costas fortes de Rufus. — Mas os dois podiam trabalhar no circo!

— Dufus ao menos conhece alguns truques e late para estranhos, servindo de cão de guarda — retrucou Lizzie, orgulhosa, pegando seu animalzinho no colo. — Já o Rufus só sabe comer, abanar o rabo e babar em cima de tudo. Tio Dom nem o deixa entrar em casa.

— Mas deixa o Dufus entrar? — questionou Molly, solidária ao cão maior que, de fato, babava muito. — Que injustiça.

— Rufus gosta mesmo é de colo — resumiu Dominic Longstreet, surgido do nada. Era mesmo bonitão, do tipo insuportável. — Já pegou um são-bernardo no colo, srta. Applegate?

— Molly — pediu ela. — Não, nunca peguei um cachorro desses no colo, mas já fui derrubada mais de uma vez por monstros semelhantes. Descobri que basta pisar com força nas patas traseiras deles, para nos deixarem em paz. Então, Dominic, onde vai colocar minha bagagem? Quero um quarto no qual bata bastante sol de manhã.



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