Ladislau Dowbor



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Ladislau Dowbor

O mosaico partido
( a economia além das equações)


São Paulo, 26 de novembro de 2007

PARTE I - MOSAICOS DO PASSADO 4

Inícios 4

Estudos 8

Tempo de luta 13

Polônia 19

Rumo ao Sul 22

A volta 26

Nicarágua, Nicaraguita 29

Gerações 32

Poder local 33

A era da globalização 36

Ciência, vivência, consciência 42

PARTE II - O MOSAICO DO FUTURO 44

Novas dinâmicas, outros conceitos 44

Do grande relógio à sociedade complexa 48

Da grande visão às alternativas viáveis 49

A articulação dos objetivos econômicos, sociais e ambientais 49

A articulação do Estado, empresas e sociedade civil 50

Objetivos sociais e direitos democráticos: da assistência à participação 50

O controle empresarial: do poder difuso ao poder hierarquizado 51

A fragilização do Estado 51

O contrapeso da sociedade civil 52

Do tripé estatal ao tripé social 53

Da sociedade manipulada à sociedade informada 53

Da filosofia da pirâmide à filosofia da rede 54

A diversidade das soluções institucionais 54

A urbanização e a dimensão espacial dos objetivos sociais 55

A desintermediação do Estado 56

Das classes redentoras à visão de atores sociais e de cidadania 57

"Nós" e "eles": a nova importância do corte ético 57

Do corte ético à cultura do poder 59

Projeto político e mecanismos econômicos 61

Entre o capitalismo global e a legitimidade interna 61

Da exploração do trabalho à miséria global 62

Do crescimento ilimitado aos recursos finitos 63

Das relações de produção ao conteúdo da produção 63

Da qualidade total à hierarquização do trabalho 64

Da fábrica à produção de intangíveis 65

Da produção fabril aos serviços sociais 66

Da fábrica à economia do conhecimento 66

Do espaço global aos espaços locais 68

Poder empresarial e poder do cidadão 69

A nova dimensão do tempo social 69

O foco de ação: construir a inserção dos excluídos 70

PARTE III - O MOSAICO RECONSTRUIDO 75

A esquizofrenia institucionalizada 76

Identidades 78

EUA: A atração do poder 80

Governança corporativa 84

Governança global 86

Identidade e cultura 89

Ventos de mudança 91

Epílogo 95

Sugestões de leitura 96



PARTE I - MOSAICOS DO PASSADO



E o homem da universidade imagina que tem

de reprimir a emoção para produzir…

Milton Santos

A economia ajuda a formar a nossa visão de mundo, mas não pode constituí-la. Porque as dimensões econômicas representam apenas um segmento do que somos. A riqueza explicativa, por outro lado, vem do fato que o poder e a dinâmica de transformação da sociedade se estruturam em torno de interesses econômicos. Quem não entende os processos econômicos, acaba não entendendo coisas tão elementares como porque somos capazes de façanhas fenomenais como as viagens no espaço, mas somos incapazes de reduzir a tragédia de 11 milhões de crianças que morrem anualmente de fome e outras causas absurdas, ou ainda de conter o ritmo de destruição ambiental do planeta. Já estamos tentando brincar de criadores clonando a vida, mas não somos capazes de resolver o problema do carrapato.
A compreensão da economia, por sua vez, é apenas parcialmente um processo técnico. Conjugam-se e articulam raízes emocionais, história vivida, meio social e também instrumentos técnicos e visões teóricas. Os processos de elaboração intelectual não flutuam no ar, não são isolados. O que é realmente interessante, não é a caminhada científica em sí, e sim como esta caminhada se cruza com os dilemas simples que cada ser humano enfrenta. Che Guevara escreveu em algum lugar que um político que não sabe parar para amarrar o sapato de uma criança, não entendeu grande coisa. Muita gente entendeu mais do mundo vendo O Diário de uma Motocicleta, do que lendo compêndios de economia. No centro mesmo da nossa estranha aventura humana, estão os valores, a nossa fragilidade ou generosidade individual, a nossa capacidade ou impotência em termos de organizar uma sociedade que funcione.

A visão da economia que apresentamos a seguir, aparece como a reconstrução de uma biografia. Seria, digamos assim, o retrato de uma vivência, de uma pessoa que não optou por ser economista por gostar particularmente de economia, mas que entendeu que sem entender de economia deixaria de entender muitas outras coisas.



Fazer um tipo de economia autobiográfica pode parecer um exercício narcisista. Somos todos um pouco propensos a achar que a nossa vida é interessante. A motivação real resulta aqui da convicção de que a economia vivida pode ser mais real do que teoria econômica sobre uma sociedade hipotética.


Inícios


Nasci na França, em 1941, de pais poloneses, numa casa de jogos na fronteira espanhola. É provavelmente difícil um brasileiro imaginar o que era nascer na Europa em 1941, no meio de um conflito que ceifou 60 milhões de pessoas. Nascia-se onde se podia. Como a Espanha era de moralidade elevada, as pessoas ricas iam jogar e se divertir na França, e assim o regime de Franco semeou os Pireneus de cassinos. Os meus pais, que tinham participado da I Guerra Mundial, e na Segunda já não se entusiasmavam com os hinos patrióticos, fugiram dos alemães pelo sul da Polônia, foram parar na França, e continuaram fugindo para o sul à medida que os alemães avançavam. Assim fui nascer nos Pireneus, na fronteira espanhola, numa casa de jogos. Tudo tem as suas razões.
Nascer no estrangeiro é marcante, porque já se nasce fora de lugar. Ou seja, a criança já é obrigada a tomar consciência de como é, pois as crianças, que reagem agudamente a qualquer diferença, de roupa, sotaque ou cultura, têm com uma criança estrangeira um prato cheio. Assim, desde os primeiros anos, vão se confrontando culturas: nada é realmente espontâneo, natural, óbvio, pois cada coisa é vista de uma forma em casa, e de outra forma na rua. Em casa era pai e mãe, a Polônia, a religião, os valores. Na rua e na escola, outra cultura, outros valores. Não havia um sistema “natural” de valores, e sim a possibilidade de diversas valorações para cada coisa. Desde pequeno, a necessidade da escolha. Dificulta, mas também enriquece. Somos todos entulhados de visões simplificadas, que aceitamos porque todos aceitam, mas que quando submetidas a um pouco de reflexão se mostram sem sentido. Voltaremos a isto.
A guerra é outro fator. Todo europeu é marcado por ela. Marcado em particular pela profunda convicção de que qualquer homem, rico ou pobre, educado ou não, em determinadas circunstâncias pode se tornar herói, e em outras vira bicho. De ver as aberrações de que o ser humano é capaz em certas circunstâncias, perde-se a visão do “homem bom” e do “homem mau” como determinantes do comportamento. Podemos, e seria normalmente mais fácil, ou confortável, simplesmente optar. Podemos achar que os israelenses são bons, e os árabes maus, no conflito da palestina. Ou tomar partido contra ou a favor dos sérvios, na ex-Iugoslávia. Ou ainda apoiar o Iraque contra Bush. Visto desta forma, e por mais que utilizemos argumentos científicos, o mundo acaba sendo uma versão sofisticada dos filmes de mocinho e bandido. Na realidade, não se trata simplesmente de gente boa e má. Segundo o ditado, o homem é as suas circunstâncias. Mais importante do que glorificar o bom ou perseguir o mau, é pensar nas circunstâncias, no contexto que constrói ou destrói as relações sociais. Presenciar a guerra, desde pequeno, e viver as suas conseqüências, marca profundamente.
Em 1951 chegamos ao Brasil, pois meu pai, um engenheiro metalúrgico, tinha sido contratado pela siderúrgica Belgo-Mineira, em João Monlevade. Ficamos ali na Vila dos Engenheiros, e era um choque para mim, o primeiro choque no Brasil, de ver um universo tão profundamente dividido entre os de cima e os de baixo, entre a Vila dos Engenheiros e a Vila Tanque, onde viviam os trabalhadores. A grande impressão de quem chega da Europa, realmente, é de que a divisão em Casa Grande e Senzala continua intacta, por mais tecnologia moderna que se introduza. De certa forma, sedimenta-se outra idéia, que se tornaria consciente mais tarde, de que modernidade é uma forma digna de relações humanas, e não abundância de máquina ou automóvel. Os residentes de Alfaville, condomínio chique de São Paulo, gostam talvez da sua ilha. Uns acham que chegaram a algum lugar, outros são conscientes do absurdo. Os que vivem em volta do condomínio já chamam os seus bairros de "Alfavela". Este tipo de modernização leva a algum lugar?
Meu pai nunca gostou do autoritarismo dos luxemburgueses, proprietários da imensa usina de Monlevade. Expôs-me um dia um plano simples de melhoria da produtividade da laminação, corrigindo um erro estrutural da fábrica. Perguntei-lhe o que acharam na diretoria: olhou-me surpreso, pois não iria comunicá-lo à diretoria, não era do seu interesse. Marcou-me muito a atitude, pois me parecia óbvio que uma pessoa que vê uma forma de melhorar algo tomaria providências para fazê-lo. Na visão do meu pai, obviamente, a fábrica era “eles”, o outro lado da cerca, outro mundo. Assim um engenheiro numa empresa estava ao mesmo tempo dentro e fora, cumpria a sua obrigação e recebia o seu salário, mas não ia além. Cada lado cumpria apenas a sua obrigação. Um dia solidarizou-se com um trabalhador contra um engenheiro alemão. Pouco tempo depois procurava emprego em São Paulo. A fábrica também dividia o mundo em “nós” e “eles”. As divisões não foram inventadas por Karl Marx.
Enquanto o meu pai abria espaço em São Paulo, ficamos em Belo Horizonte, onde estudei no Colégio Loyola, morando na Gameleira. Minha mãe era médica. Em plena avenida Afonso Pena, uma mendiga, com um bebê evidentemente subnutrido nos braços, veio lhe pedir esmola. Minha mãe viu a criança, armou um escândalo, não arredou o pé enquanto não chamaram médico, ambulância, o diabo. Eu, com 11 anos, puxava a minha mãe pelo braço, morrendo de vergonha. Mas ela era assim, não tolerava o intolerável, e não tinha nenhum medo de escândalo. Certas coisas simplesmente não se aceitam. Ainda hoje, vinte anos após a sua morte, sinto como que a presença da sua solidez. É preciso dizer que já para se formar médica nos anos vinte, uma mulher tinha de ser um bocado mulher.
A solidez da minha mãe não foi suficiente para ela se adaptar ao cotidiano do Brasil. Ou talvez a sua capacidade de se indignar fosse demasiada. Com a morte de Stálin, decidiu voltar para a Polônia, preparando o retorno da família. O retorno não aconteceria. Efeito indireto da guerra, enquanto o segmento brasileiro da família engrenava na realidade local, ela foi sendo reabsorvida pela família na Polônia. Como o meu pai trabalhava em empresas do interior, eu e meu irmão, ambos adolescentes e já instalados em São Paulo, passamos a viver a ampla liberdade da vida nas pensões da cidade, gozando intensamente as esquinas, os bares, os jogos de futebol nas várzeas, toda uma dimensão de vida e uma riqueza de convívio que compensavam amplamente a perda da vida familiar organizada. Era a riqueza cultural brasileira digerindo rapidamente as heranças européias, como tinha feito com tantas gerações de imigrantes. E pessoas são simplesmente pessoas, seja qual for a sua origem.
As emoções andam por caminhos desconhecidos. Apaixonei-me desesperadamente por uma moça judia, de origem polonesa como eu. O pai, ao descobrir que a filha andava com um goi, mandou-a sumariamente para Israel, para que conhecesse rapazes sérios. A Europa e os seus ódios continuavam ativos no Brasil, e nos colhiam, a mim e à Pauline, com toda força. O pai tinha perdido a família na Polônia, e não perdoava que a filha não herdasse os seus ódios. Trabalhei um ano inteiro, era 1963, tentando juntar dinheiro para encontrá-la em Israel, numa época em que viajar para a Europa era um acontecimento. Como meu pai trabalhava na Açonorte, em Pernambuco, fui trabalhar no Recife, onde me tornei repórter do Diário da Noite e do Jornal do Comércio.
Escrevia bem, e com pouco tempo o jornal me nomeou para acompanhar o setor dos usineiros. Quando me apresentei para colher material, a associação dos usineiros ofereceu-me em dinheiro o dobro do que eu ganhava no jornal. Explicaram que era normal, o jornal tinha me feito um favor, e os jornalistas que cobriam a área recebiam esta ajuda. Recusei a ajuda, e o chefe de redação comentava rindo que um dia na imprensa brasileira ainda haveria espaço para este tipo de recusas. Na realidade, não era apenas a corrupção institucionalizada que me chocava. O impacto da miséria do Recife era violento, e o fervilhar de idéias do governo de Miguel Arraes gerara na cidade uma nova dinâmica cultural. Como repórter, apesar da pouca idade, encontrava Paulo Freire, Celso Furtado, Gilberto Freire, Ariano Suassuna e outros personagens que, de diversas formas, alimentavam reflexões sobre a realidade nordestina e brasileira. Encontrei no Movimento de Cultura Popular gente da minha idade, muito mais politizada, se dedicando intensamente a transformações sociais. Girara o caleidoscópio na minha cabeça, apareceu um conjunto de novos pontos de referência, meu gosto pela filosofia e pela linguística foi substituído pelo da economia. Queria entender as coisas, os porquês, os mecanismos, e já estava convencido que nas dinâmicas econômicas estariam as raízes dos problemas sociais.
Uma noite o meu pai, que morava junto da Açonorte, veio ao Recife e me convidou para jantar. Fomos comer uma lagosta. Na porta do restaurante uma criança visivelmente passando fome. Jantei para não chatear o meu pai, mas o dilema ético tornou-se cristalino na minha cabeça: uma pessoa que janta uma lagosta e deixa uma criança com fome só tem dois caminhos, ou muda os seus valores e acha normal o consumo de luxo frente à fome de uma criança, ou tenta mudar a situação que gera estes absurdos. Com o tempo viria a conhecer complexas montagens teóricas que tentam mostrar que a pessoa que consome dinamiza a economia, passes de mágica que permitem transformar o egoísmo em altruísmo e passam um pano quente na consciência. Mas na época não conhecia as teorias, e a juventude tem a hipocrisia social pouco desenvolvida. Nem sempre, aliás.
Pouco depois deste evento li um livro simples e bom, que demonstrava que a caridade de uma moeda na rua é boa, mas melhor é gerar organizações que apóiem os pobres, e melhor ainda criar instituições justas que impeçam a pobreza de surgir. São diferentes níveis de caridade. Para mim, o “norte” ético estava definido, sem nenhuma leitura de Marx, por simples raízes cristãs e valores herdados da minha mãe: a pobreza é o escândalo maior, e as medidas individuais não bastam.
O convívio com a dura realidade nordestina me deixou claro também outro fato, a impotência dos pobres: a partir de um certo nível de destituição, os pobres perdem a autonomia de construção do seu espaço na sociedade, tornam-se excluídas. No jogo da vida, é compreensível haver gente com mais ou menos sucesso. Mas para jogar, é preciso pelo menos ter uma ficha, o capital inicial, sob forma de saúde, de educação, de dinheiro ou o que seja. Não se trata realmente de caridade. Trata-se do simples direito, enquanto ser humano, de participar do jogo social, de aceder ao ponto de partida. A economia trata dos mecanismos que regem o comportamento dos agentes econômicos. E quem não é agente econômico? Na época, é claro, esta visão era confusa. Gradualmente, no entanto, amadureceria a compreensão de que um economista no seu gabinete raciocina sobre como a pessoa otimiza o uso do seu dinheiro, escolhe entre a bolsa ou o dólar e assim por diante, mas dificilmente colocará nas suas teorias a situação particular dos milhões de destituídos que estão fora do jogo.



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