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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

Curso de Teatro Licenciatura



Trabalho de Conclusão de Curso



Reflexões sobre o processo de (auto)formação de uma Atriz- Licencianda em Teatro

LARA LEIVAS LAGO

Pelotas, 2015



LARA LEIVAS LAGO
Reflexões sobre o processo de (auto)formação de uma Atriz- Licencianda em Teatro

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial para a obtenção do título de professora de Teatro.

Orientadora: Profª. Drª. Fabiane Tejada da Silveira

Pelotas, 2015

Aos meus pais, que me ensinaram a amar a vida. E à vida, que me ensinou a amar a arte.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Profª. Drª. Fabiane Tejada pelo suporte e incentivo nos momentos de incertezas, frustração e criação. Além do grande exemplo de professora ao longo de meus anos acadêmicos. Um imenso agradecimento!

Ao meu diretor e amigo Marlon Britto que foi a ponte que auxiliou meus primeiros e marcantes encontros com o teatro.

Aos meus parceiros de trabalho na Cia Teatral Era Uma Vez: Ludmila, Bruno, Luiza, Keven que me acompanham e me inspiram desde os primeiros passos na companhia.

Aos meus pais Victor Hugo e Eliane, junto com meus irmãos Lívia, Guilherme, Victor, Vivan e Simone pelo incentivo e apoio a minha profissão.

Às minhas amigas Manuela,Camila, Bárbara e Ana Paula que sempre me colocaram pra cima quando os desafios da profissão me botavam para baixo.

E a todos os segundos de arte que tornam a vida do jeito que ela é: única.

Teatro é como balé, só continua quem realmente ama. E vou sempre continuar. É o que escolhi para minha vida; ganhando, perdendo,aprendendo, amando,lutando.

Nina Morena Pêra Motta

Resumo
LAGO, Lara Leivas. Reflexões sobre o processo de (auto)formação de uma Atriz- Licencianda em Teatro. Trabalho de Conclusão do Curso de Teatro Licenciatura / Centro de Artes / Universidade Federal de Pelotas.

Para o trabalho de conclusão de curso apresento minhas experiências pessoais no âmbito artístico e uma análise do meu processo criativo em três peças teatrais produzidas pela Cia Teatral Era Uma Vez de Rio Grande-RS. Esta opção veio com o desejo de refletir sobre como obtive progresso em minhas criações após o estudo de Constantin Stanislavski apresentado na academia e como estas experiências auxiliam na minha formação como atriz e professora de teatro. Por se tratar de uma pesquisa (auto)biográfica trago minhas referências de maneira que ocorra um diálogo com o que está sendo dito sobre o processo e o que os referenciais têm a acrescentar, comentar e justificar certas ações. Dividi meu trabalho em cinco capítulos para a melhor compreensão: o primeiro baseia-se em um discorres sobre o conceito de uma autobiografia, os próximos três capítulos retratam desde meus primeiros anos de vida até as peças teatrais que apresentei durante o período de junho de 2012 a dezembro de 2014, o último capítulo consiste em estabelecer relações entre na relação o que foi aprendido com as práticas teatrais aplicadas na formação como professora. Tenho como objetivo deste trabalho interligar os conceitos de interpretação e pedagogia analisados e como estes, juntos, colaboram em minha formação docente.


Palavras-chave: Experiências; (auto)biografia;reflexão;teatro.

Lista de Figuras

Figura 1: Espetáculo “As aventuras de Super Rafa” no 4º festival de teatro amador na cidade de Três Coroas (RS) em novembro de 2012 13

Figura 2: Espetáculo “Lua de Renda” no 3º festival de teatro de Gravataí (RS) em agosto de 2014 23

Figura 3: Bastidores do espetáculo “As aventuras de Super Rafa” no 14º Festival internacional de teatro de Rosário do Sul (RS) em julho de 2013.......31

Figura 4: Espetáculo “A Flor do Mamulengo” no 21º Festival de teatro da cidade de Rolante (RS) em 2014 50

Sumário


Sumário 8

Apresentação 9

Capítulo 1: O Eu como objeto de reflexão 11

Capítulo 2: O teatro em seus pequenos gestos 14

Capítulo 3: As primeiras cenas 23

Capítulo 4: O ingresso no curso de Teatro: reflexões da atriz- professora em formação 31

Capítulo 5: Os conhecimentos e experiências na formação de uma professora de teatro 50

Considerações finais 53

Referências 55


Apresentação
Com esta pesquisa autobiográfica pretendo refletir sobre meu trabalho de criação dramática junto à Cia Teatral Era Uma Vez e sobre o processo de formação acadêmica que estou vivenciando junto ao Curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas-UFPel. Além de relatar o método e linha de interpretação que segui ao longo de minhas experiências como atriz de teatro, aproprio-me das mesmas para uma reflexão pedagógica sobre minha formação como professora de teatro. Trago aqui as minhas experiências1 não como modelo, mas para demonstrar que uma série de acontecimentos que me levaram até esta pesquisa são pilares que sustentam minha formação e podem servir como inspiração para que outras pessoas identifiquem em suas histórias de vida onde estão as experiências que as mobilizam para sua construção profissional ou pessoal.

A ideia foi refletir sobre experiências vividas com o objetivo de perceber que, por consequência das oportunidades que me foram dadas na infância, fui conduzida para a arte e como esta reflexão auxilia para o meu desenvolvimento como futura docente associada às oportunidades experimentadas no percurso acadêmico.

A pesquisa demonstra como a teoria e a prática artística e pedagógica no desenvolvimento de processos criativos em teatro não se distanciam, pelo contrário, se complementam: onde a teoria é posta em prática e vice-versa. Para tal, tenho como destaque três trabalhos que executei na Cia Teatral Era Uma Vez de Rio Grande/RS no período de agosto de 2012 a dezembro de 2014: “As Aventuras do Super Rafa”, “Lua de Renda” e “A Flor do Mamulengo”. Através deste, será possível relatar e relacionar minha trajetória em processos criativos com o estudo de Constantin Stanislavski em seu livro “A preparação do ator” (2012) e “A construção da personagem” (2014).

Para a coleta de dados utilizarei como fonte os registros de minhas memórias feitas para este estudo, além de leituras relacionadas com o principal referencial teórico estudado, Constantin Stanislavski, assim como outros relacionados à pedagogia teatral, como Flávio Desgranges e Maria Passeggi que sustenta a importância da pesquisa autobiográfica para o desenvolvimento desse estudo.

Com este movimento de pesquisa conseguirei relacionar minhas antigas experiências às novas que estou explorando como professora de arte em formação, ao estudar técnicas aplicadas ao longo dos meus trabalhos como atriz, além de refletir como os estímulos que recebemos em nossa formação auxiliam na formação de nosso caráter, desejo profissional, no modo de perceber e lidar com a vida.

Capítulo 1: O Eu como objeto de reflexão


Nos meus primeiros momentos de pesquisa, só consegui tomar propriedade do processo de autobiografia após compreender e refletir sobre este método de pesquisa que está gradativamente ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas.

Maria da Conceição Passeggi (2010), em seu artigo “Narrar é humano! Autobiografar é um processo civilizatório”, discute que estamos sempre a nos narrar, a autobiografar a vida, portanto, narrar é uma ação humana espontânea. Porém, um espaço diferencia o escrever por espontaneidade e o escrever deliberado sobre escrever a própria vida. Com o avanço tecnológico e a criação de redes sociais, o autobiografar se tornou algo do cotidiano e menos restrito a apenas momentos de importância.

Se nos apropriarmos de que narrar é humano, “o trabalho de biografização é uma ação civilizatória, que exige manuseio de tecnologias, marcadas pela cultura, que arrastam consigo relações de poder e implicam saberes, quereres e deveres” (PASSEGGI,2010,p.104). Com o crescimento de demandas de autobiografias, a necessidade de um “termo correto” para tal pesquisa se tornou presente para explicar seu objetivo. O termo (auto)biografia apareceu com o intuito de ressaltar duas fontes de pesquisa, biográficas e autobiográficas. A autora cita Gusdorf (1991) e a partir da perspectiva deste comenta que:

A pesquisa (auto)biográfica pode incluir, sem discriminação, todas as escritas [...] nas quais o sujeito toma a si mesmo como objeto de reflexão. Se adotarmos essa percepção, é possível dizer que as pesquisas (auto)biográficas inclui em seu domínio a multiplicidade de áreas consideradas canônicas e as propostas emergentes que constituem territórios ainda mais inexplorados. (PASSEGGI,2010,p.110)


A (auto)biografia é a apropriação da escrita colocada em um discurso narrativo expressivo tanto para colocar o sujeito em destaque ou outro como principal, investindo no laço entre a linguagem, pensamento e práxis social. Através desta, o sujeito inicia seu processo de construção de sua dialética relatando o seu espaço social e pessoal, analisando a forma de relatar experiências ou interações com outras pessoas, compreendendo assim como ou em que o sujeito adiciona sentido no percorrer da história de sua vida.

A ideia de se escrever não vem com o intuito de ensinar o que já está codificado, mas sim em um período de descobertas, contando os seus acontecimentos e transformando isto em conhecimento implícito, reelaborando seu processo de aprendizagens. O ideal para a pesquisa é assegurar o retorno que esta fará para quem a redige, revendo seus pensamentos em relação a si e ao mundo para criar uma nova autoconsciência após os relatos. O essencial da pesquisa (auto)biográfica é focar na natureza dos suportes da narrativa, compreendendo o processo de (auto)biografar-se com a ferramenta da linguagem, tal qual com o envolvimento da pessoa que narra.



Figura 1: Foto do espetáculo “As aventuras de Super Rafa” no 4º festival de teatro amador na cidade de Três Coroas (RS) em novembro de 2012. Acervo Pessoal.

Capítulo 2: O teatro em seus pequenos gestos

A cada minuto dezenas de crianças nascem em diversas partes do mundo. Estas crianças nascem em núcleos familiares que alimentam expectativas em torno de seu futuro profissional sem os pequenos terem ao menos ideia da diversidade cultural do Brasil, do aquecimento global, das grandes guerras mundiais ou do teorema de Pitágoras. Famílias que almejam que seus prodígios tornem-se admiráveis médicos, engenheiros, arquitetos, biólogos, dentistas, jogadores de futebol, grandes empreendedores. Vão investir seu tempo em um emprego fixo com salário confortável para viver, viajar e planejar sua própria família. E esta nova família planejará outras crianças, que vão ser seus pequenos potes para depositar inovadoras e antiquadas expectativas já codificadas no inconsciente.

Quem rompe o status quo e escolhe caminhos diferentes para o futuro de seu primogênito e seus irmãos é considerado um revolucionário, altruísta. Meus pais almejavam que eu fosse feliz, independente da minha escolha profissional, fazendo com que eu pudesse livremente decidir como traçaria o caminho da minha vida. Deste modo, prevejo que serei outra revolucionária.

No decorrer de meus primeiros anos de existência, em meio ao turbilhão de descobrimentos e aprendizados da infância, não são claros os momentos em que reparei que estava me tornando algo: alguma pessoa, menina, mulher, alguma atriz. O processo de tornar-se “alguém” é uma extensa e árdua trajetória ao percorrer da vida, não chegaremos a um produto finalizado e perfeito quando encontrarmos o ponto final, separar estas “algumas” seria impossível, pois todas amadureceram igualmente, entrelaçadas, colaborando para um único objetivo em comum: tornar-me um ser pensante. Minha mãe, Eliane, passou por uma gravidez complexa, repleta de dores fortes, frequentes e permanentes. Foi submetida a uma cirurgia que adiou ao máximo para proteger o frágil ser que nela crescia.

A consequência desta luta constante durante os nove meses foi meu nascimento. Os primeiros segundos de vida começaram a ser contados em uma noite perto do fim de março em 1995, depois de tantos anos sendo desejada por meus pais, após idas e vindas que o amor faz. As vagas lembranças que possuo desta fase inicial da vida são pautadas em uma pequena casa amarela de esquina em frente ao corpo de bombeiros do bairro. Ao lado dele, existia um campo onde jogávamos futebol e empinávamos pipa. Para chegar até ele, existia um campo de areia com uma leve subida. Se você observasse por um tempo o desenho da terra, com olhos criativos, poderia supor que aqueles traços foram obras de lavas de vulcão que secaram.

A casa amarela tinha de entrada uma grade enferrujada em um tom de vinho, uma leve rampa e um pátio que, para meus pequenos olhares da época dava a impressão de tão largo quanto uma quadra de basquete. Eu o percorria e no fim chegava à rampa da garagem. Do pátio,dava para ver três janelas: a última delas possuía um atrativo a mais, justamente por pertencer a um modesto quarto onde eu e minha irmã dormíamos. Sabe-se lá como cabia tanta tranqueira de duas meninas. Por ser o espaço no qual teria mais privacidade para minha mente criativa, meu quarto era meu ambiente favorito para brincar.

Como o cômodo era divido, o esconderijo dos meus brinquedos localizava-se embaixo da cama: eu levantava a ponta do cobertor e avistava caixas e caixas uma ao lado da outra, repletas de elementos para brincadeiras novas. Arrastava-me na parte de baixo da cama como um soldado rasteja na lama para seus treinamentos diários. Tudo era robusto, imenso. Empurrava a caixa escolhida usando o braço e a perna mais próxima, me arrastava novamente para fora e sempre batia em algum canto da cabeça na hora de levantar. Tapava o esconderijo e, então, a parte de cima da cama entrava em cena. Era ali mesmo onde tudo acontecia.

De joelhos em frente a ela, retirava os objetos escolhidos para a brincadeira da tarde. Saíam bonecas, ursos, objetos de casa, roupas, escovas de cabelo e outras coisas que julgasse necessárias para que tudo ocorresse do jeito que imaginava. Os enredos eram supérfluos, semelhantes ao que encontramos facilmente em livros e filmes românticos, mas ao mesmo tempo, era adorável a ideia de construir uma história do meu modo, conseguindo modificar inúmeros elementos. Uma, duas, quantas vezes eu desejasse.

Recordo de estar coordenando uma “cena” em certo “canto da história” e ao mesmo tempo pensar que “fulano no outro lado da casa conseguia ouvir o assunto, o que fará parecer neste quarto daqui a pouco com muita raiva”. Dirigia meus clichês com convicção, repletos de reviravoltas que me prendiam tarde a fora. Quando cansava, guardava-os dentro da caixa e colocava exatamente onde havia encontrado. Nestes momentos, em especial, já se destacava uma forma de fazer teatro.

Peter Slade, em seu livro “O jogo dramático infantil” (1978), comenta que as crianças praticam é “o jogo”, este sendo a base do que chamaremos no trabalho com jovens e adultos de jogo dramático na parte de “interpretação”, contudo, para Slade(1978), este não necessita de uma atenção primordial no princípio de vida, devemos, como estimuladores, focar unicamente no ato de jogar, pensando em não impor fortes limites à brincadeira.

Para incentivarmos o jogo dramático infantil devemos dar oportunidades e encorajar os pequenos a experimentar e tentar novos jogos por conta própria com ajuda do laço de confiança e amizade criados com a criança. Estas “experiências teatrais” auxiliam para a moldagem da personalidade, do caráter, do ponto de vista da criança com as pessoas e o mundo que a cerca, independente se esta siga ou não o caminho do teatro. O importante, neste momento, como arte educadora é focar no que se está fazendo e acreditar fielmente e sinceramente, trazendo, assim, a intensidade da realidade, como se é feito na representação.

O jogo dramático infantil está dividido basicamente entre o jogo projetado e o jogo pessoal: O jogo projetado é o drama que se utiliza principalmente da criatividade do pequeno; seu corpo é utilizado, não com a mesma intensidade que o jogo pessoal. No jogo projetado são usados bonecas, carros, bichos de pelúcia, papel, caixas, produtos vazios, qualquer objeto que seja de interesse da criança para a prática do jogo. Para sua execução, geralmente se encontra uma posição confortável (agachado, de joelhos, deitado de lado) para a brincadeira e utiliza-se as mãos para a mesma. A ação está voltada para o que acontece no externo da criança, o que cria vida pela sua mente, podendo ou não se utilizar do artifício da fala. Este jogo é visto frequentemente nas primeiras fases da criança, onde esta ainda não possui o total controle e consciência de seus movimentos, ou ainda não os aprimorou o suficiente.

O jogo projetado colabora com a concentração e absorção de informações da criança, podendo futuramente interessar-se em amplos assuntos como as artes plásticas, a música, leitura e escrita, jogos e esportes que sejam mais estratégicos, estimulando mais o cérebro, colaborando na percepção de detalhes e como as pessoas agem em determinados locais e situações. Já no jogo pessoal, o objeto principal é o corpo e suas funcionalidades. Este jogo tem como característica movimentos diversos, podendo chegar até em passos de dança. Para ser executado é necessário um amplo espaço para a criança poder correr, pular e falar com a responsabilidade de representar um papel, sem a necessidade de controlar seus impulsos. É estimulado o prazer pelo exercício junto com a sinceridade na hora de “interpretar” seus personagens, já que este jogo geralmente se apresenta pela faixa dos cinco anos de idade, onde já se é desenvolvido mental e corporalmente.

Consequentemente, a criança praticante do jogo pessoal terá futuramente interesses em assuntos que movimentem seu corpo, como jogos com bola, atletismo, dança, luta, natação. Vale lembrar também que para estes serem executados, a mente tem de estar em ação, apenas de uma forma diferente de como age no jogo projetado.

Essas duas formas principais de jogo acrescentam qualidades uma a outra e também a pessoa que está jogando. Por toda a sua vida, o ser humano é feliz ou infeliz na medida em que descobre para si mesmo a mistura correta dessas duas maneiras tão distintas de usar a energia. Tanto o tipo de pessoa como a sua ocupação na vida estão ligados ao equilibro do eu e a projeção. Esses dois precoces tipos de jogo exercem uma influência importante na construção do Homem, em todo o seu comportamento e na sua capacidade de se adaptar a sociedade. A oportunidade de jogar, portanto, significa ganho e desenvolvimento. A falta de jogo pode significar uma parte de si mesmo permanentemente perdida. É esta parte desconhecida, não-criada, do próprio eu, esse elo perdido, que pode ser a causa de muitas dificuldades e incertezas nos anos vindouros”. (SLADE,1978, p.20)


A partir do que foi tratado por Slade (1978), percebo que muitos destes jogos, que eram propostos em casa e em sala de aula tornaram-se alicerce para minha formação. Possuo interesses variados em momentos variados, acredito que isto demanda da quantidade de estímulos que recebi ao longo do meu crescimento. Por isto, é importante incentivar o aprendizado em diferentes formas, sem a ideia de que a criança não tem capacidade para tal exercício.

O modo e a proposta que aplicamos deve ser adequada à faixa etária, mas sem o pensamento de que a criança não consegue fazer isto ou aquilo. Nos sabotamos frequentemente em toda vida sem mesmo perceber, sempre acreditando que não vamos conseguir executar uma série de desafios que aparecem na nossa vida. O mesmo acontece com as crianças. Se não existe um incentivo externo, não percebemos até onde somos capazes.

Em uma das aulas na cadeira de Estágio I na faculdade (meu primeiro momento de experiência docente na disciplina), uma de minhas alunas não estava conseguindo desenhar uma roupa em seu boneco, a menina apenas olhava com uma cara triste para seu desenho e observava o dos colegas. Sentei ao lado dela e perguntei o que estava acontecendo, ela explicou-me que desejava desenhar.

Perguntei se ela já havia tentado alguma vez desenhar o que estava desejando rabiscar e rapidamente recebi a resposta negativa. Lembrei, então, que já havia passado por situação parecida, quando não conseguia desenhar uma estrela de cinco pontas e meu irmão mais velho sentou ao meu lado, pegou um papel e uma caneta, foi desenhando, explicando calmamente e no final acabei fazendo uma constelação inteira. Decidi fazer o mesmo que meu irmão e o resultado foi igualmente positivo. A menina não ficou tão satisfeita com seu desenho a princípio, porém justifiquei a ela que estava bem feito, principalmente por ser o seu primeiro boneco desenhado com roupas, e que conforme ela desenhasse outros bonecos novamente, cada vez eles seriam melhores que aquele primeiro, questão de prática. O que importa é que ela fez, embora acreditando que não era capaz e que não gostou muito do que resultou. Se não tivesse ocorrido o estímulo de fora, ela não teria saído de sua zona de conforto.

A Escola de Ensino Fundamental Luterana Emanuel localizava-se a uns dez minutos de distância da casa amarela. Uma escola relativamente pequena, com turmas que não passavam de vinte alunos e a maioria dos mesmos morava na própria rua. Embora sendo particular, o custo não era alto, a estrutura possuía o necessário para um bom aprendizado, éramos tratados com constante atenção por todos os funcionários, era um grande prazer estar no ambiente escolar, sempre estávamos cercados de atividades legais e projetos que uniam os alunos de todos os anos.

Por muitas vezes, permaneci no turno inverso para ajudar a professora do pré-escolar por simplesmente querer e a escola permitir e incentivar estas experiências. Por estes fortes aspectos, por estas iniciativas primeiramente simples que a escola possuía esta característica calorosa, como uma extensão da família. Uma instituição escolar que prioriza e se empenha para o bem estar como um todo dos alunos só tem a ganhar, pois o efeito refletia nas notas de final de ano e muito além de números, no ser humano que estava ali criando seu alicerce para o resto da vida.

Minhas intervenções artísticas começaram cedo, os ambientes que frequentava e as pessoas que me rodeavam não poupavam os estímulos. Uma história em particular se destacou. A única artista da família na época era minha prima, a Débora.

A Débora é uma talentosa bailarina que viajava o mundo inteiro em transatlânticos dançando e animando os turistas. Em suas folgas em terra, sempre trazia uma lembrança do país que estava passando. Trouxe para minha mãe um par de castanholas. Era época de comemoração dos quinhentos anos de “descobrimento” do Brasil e o pré-escolar teria de ir caracterizado com algum país que participou da colonização. Eliane resolveu caracterizar-me representando a Espanha, com uma saia preta e um collant cheio de lantejoulas vermelhas que refletiam o sol da bela tarde que fazia.

Antes de sair de casa, recebi uma caixinha das mãos dela com o recado: cuida bem, isto é um presente que veio de muito longe. Eram as castanholas. Castanholas que dias antes eu tinha aprendido com a Débora alguns movimentos simples por pura curiosidade. A professora Ortenila, minha professora do pré-escolar, perguntou a todos da sala se alguém tinha ensaiado algo sobre o país que representava e prontamente levantei o braço e falei que sabia tocar castanholas. Encantada com a história, “tia” Ortenila conversou com a organização para abrir um espaço no cronograma para eu tocar um pouco. O que recordo deste episódio é de estar esperando na porta da sala de aula com minhas lantejoulas e meus colegas com seus respectivos figurinos esperando para ir assistir ao que os outros alunos tinham preparado.

A lembrança que tenho é de ficar no canto do palco, com alguém segurando um microfone pra repercutir o som que vinha das minhas pequenas mãos. Toquei umas cinco vezes o que tinha aprendido para uma quantidade tão grande de pares de olhos atentos que não imagino como não congelei na hora. Fui aplaudida com tamanha intensidade que não compreendia o porquê. A sensação de estar ali com todos observando-me foi desconfortável, contudo estava achando interessante.

A escola levou-nos para assistir uma peça de teatro pela primeira vez. Fomos levados até um galpão iluminado pela luz do sol, com um palco bem no centro, em frente haviam várias tábuas posicionadas para o público de pequeninos sentarem. Fiquei no meio da plateia, não muito perto do palco. O que não diminuiu o meu encanto por tudo aquilo. O cenário e os elementos de cena eram recicláveis. Garrafas pet, tampas, caixas velhas, jornal, plástico. A história em si não foi de grande importância a meu ver, o que me encantou realmente era os atores estarem representando a história. Fez lembrar as minhas histórias que fazia em casa. A ideia de poder fazer parte de uma história foi uma das coisas mais maravilhosas que percebi na minha infância.

Certo instante da peça aparecia um foguete, um grande foguete conduzido de um lado para outro do palco com grandes efeitos levando o público ao êxtase. Foi um amor à primeira vista, saí de lá arrepiada. Meus colegas não estavam tão animados quanto eu, achei sem sentido estarem tão indiferentes depois do momento mágico que presenciamos.

Os eventos anuais continham a bela característica de tentar trazer sempre algo diferente a ser tratado. Em um deles tínhamos de falar sobre a Amazônia, todos vestidos de um animal diferente para criar uma coreografia para a apresentação. A dança estava continuamente presente na minha vida, participei de grupos de dança dentro e fora da escola. Pensando nisso, a professora me deu o desafio de fazer a coreografia dos animais. Não pensei duas vezes, vesti-me como a apresentadora “Eliana” coordenando os passos dos meus colegas. Posicionando-me como aluna neste episódio, não teria a iniciativa de me propor para montar a partitura dos movimentos pelo fato de não me sentir preparada para criar. A iniciativa da professora de me encarregar para conduzir a apresentação foi um ato de fazer com que eu percebesse que era capaz de executar algo que sequer pensei que seria capaz.

Como futura educadora, enfatizo aqui a importância de proporcionar estas oportunidades ao aluno de conduzir alguma tarefa ou apenas convida-lo a fazer algo que pensam que não estão preparados. Neste caso, se não existisse o estímulo de uma pessoa que me acompanhava e tinha consciência dos meus potenciais, dificilmente tal tarefa seria posta em minhas mãos. É papel do professor encaminhar este quesito para o desenvolvimento do ser humano, colocando os alunos em situações inesperadas com propostas fora do âmbito que estão acostumados, inquietando-os, fazendo-os pensar fora do que acaba ,muitas vezes, tornando rotineiro. Principalmente na fase inicial escolar, em que tudo que aparece é novidade, uma nova descoberta.

A falta de incentivo que meus colegas recebiam era clara. Percebia que nos exercícios relacionados a alguma intervenção artística, na maioria das vezes, era direcionado mais a quem já estava pré-disposto a executar. O que acredito ser equivocado.

O interessante seria trazer propostas em outros meios artísticos como desenho, música, confecção de objetos, figurinos. É de grande importância guiar os alunos que já se identificam e têm o prazer de trabalhar com a arte, tanto quanto encaminhar os que ainda não encontraram esta identificação, cada um em seu tempo, mas não permitir a inexistência de estímulos para todos, e não se limitar aos elementos de costume, como livros e CD’s, principalmente nesta era digital em que vivemos, onde a informação está na palma de nossas mãos com celulares e computadores. Criar um caminho alternativo utilizando-se de elementos que estão presentes no cotidiano do aluno ajuda a trazer o interesse para a proposta e ainda mostra que tudo o que os rodeiam pode colaborar para criações artísticas.

O prazer pelo palco e consequentemente pelo teatro veio pelo caminho da dança. Dancei ballet clássico na escola de dança Dicléia, e por meio desta entrei no Teatro Sete de Abril não para assistir, mas para apresentar. A dança é uma arte que está frequentemente presente ao longo minha vida, desde pequena quando dançava em CTG2 até hoje em aulas complementares na faculdade e até no meu quarto. Danço porque dançar permite ser quem você é independente do estilo musical. E graças às experiências que tive com esta, quando passei a praticar o teatro, a interpretação, estar em cima de um palco na frente do grande público não se tornou a maior preocupação.

Stanislavski3 (2014) comenta sobre o valor da dança, do movimento para a criação artística de um ator. Como ambas as artes relatadas têm como “obra” o corpo humano, a dança ajuda na consciência corporal para que o ator tenha noção de como conduzir seu corpo em variáveis situações. Sabendo assim seus limites corporais, quais movimentos lhe causam tensão, onde o equilíbrio do peso do corpo pode ajudá-lo a formação de um personagem com uma cartela de opções para moldar o mesmo.






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