Lara leivas lago



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Figura 2: Foto do espetáculo “Lua de Renda” no 3º festival de teatro de Gravataí (RS) em agosto de 2014. Acervo Pessoal

Capítulo 3: As primeiras cenas


O dia da apresentação do espetáculo do grupo de dança foi outro momento que entrei em contado indireto com o teatro. Cheguei horas antes do horário previsto para o espetáculo começar, inúmeras meninas precisavam estar bem arrumadas para o dia esperado do espetáculo de fim de ano. Chamava-se “O Quebra-nozes”. Tive uma imensa felicidade em apresentar, porém o ponto forte do dia foi passar a tarde toda no ambiente do teatro voltado apenas para o que aconteceria logo à noite. Olhando pelas cochias, vendo a profundidade do palco, os camarins lotados de figurinos, iluminação sendo ajustada, cenário pronto, corredores cheios de conversas altas.

Todo o processo de caracterização e os minutos antes da apresentação, o tempo que se tinha para ficar no palco novamente, com as cortinas fechadas, alongando e conversando com as amigas e falando como o figurino estava coçando. Observava e vivia aqueles momentos com olhos infantis, levando na brincadeira, sem a mínima ideia da imensidão que é o processo de criação do espetáculo até o dia de sua estreia. O máximo que ficava era ansiosa para ver tudo em minha volta acontecendo com perfeita sincronia.

Indiretamente estavam ali brotando detalhes que correspondem as minhas manias, hábitos, particularidades que aprecio e que me construíram como artista. O cuidado e carinho pelo figurino, consciência espacial do palco, o prazer pelo “ritual” existente pré-apresentação: maquiagem, alongamento, aquecimento vocal e corporal, organização para a troca de figurinos, conferir os elementos cênicos, os minutos que fico observando o ambiente em volta e, consequentemente, termino me concentrando para o que virá. Um detalhe importante que compreendi nesta época para a execução de um trabalho em grupo foi a importância de estar presente nos ensaios (sendo um grande espetáculo em um teatro ou uma esquete em uma pequena sala), pois neste determinado momento sou uma peça que ajuda a máquina a funcionar.

Se uma das peças falta ou não está funcionando conforme o necessário, ela prejudica todas as outras e, principalmente, o trabalho final. Quando trabalhamos em grupo temos de levar em conta que o produto final (no caso o espetáculo) é consequência do esforço de todos que estão ali inteiramente juntos. Esta harmonia entre os envolvidos também deve ser levada para a sala de aula. O fluxo e a troca de conhecimento não irão acontecer se a grande maioria não estiver plenamente focada no que está acontecendo no momento. Seria um desperdício de desejo pelo conhecimento se um aluno surgisse com alguma proposta que acrescentaria de forma positiva ao trabalho em grupo e eu como educadora cortasse este entusiasmo para seguir o cronograma que havia pensado. Para que os conhecimentos de ambas as partes sejam compartilhados, é preciso descobrir o equilíbrio entre o que necessita ser dito e aprendido com o modo que isso deve ser levado para que os alunos e o professor saiam ganhando com a experiência.

Os recursos tecnológicos acessíveis uns doze anos atrás eram basicamente televisão, telefone fixo, CD e fita cassete. Um dos programas da semana era assistir à novela no quarto dos meus pais. Em uma dessas noites, abri a porta do quarto e vi minha mãe reagindo às cenas da novela de várias maneiras: rindo, chorando, comentando. Tudo o que estava envolvido encantou-me e logo percebi que desejava fazer a mesma coisa. Transmitir sentimentos para pessoas que nunca me viram na vida, fazer parte de uma história sendo outra pessoa, passando por situações nas quais nunca passaria na vida que tenho. Minha mãe não conhece a atriz pessoalmente e a mesma não tem a mínima ideia que minha mãe a está assistindo. Mas a participação das duas no instante fez surgir sensações, pensamentos, momentos agradáveis. É um ato grandioso proporcionar experiências e sentimentos bons para conhecidos e desconhecidos.

Quando um veículo de informação impacta no cotidiano de grande parte da população, as opiniões e visões sobre o mesmo tornam-se incalculáveis. Há quem diga que a televisão seja apenas uma ferramenta manipuladora, que guia as mentes já “alienadas” a pensar de uma única forma, de ver a história apenas pelo o lado que os controladores desejam que as pessoas vejam. Onde distorcem a realidade e que, se você não tiver sã consciência de que determinada matéria é conduzida para determina visão crítica, você acaba entrando na ideia deles. Um condutor de informações onde o entretenimento é superficial, seguindo a ideia do sistema pão e circo. Realmente, com interesses políticos e financeiros, o que se transmite na mídia é frequentemente duvidoso, certos programas para entreter a população são sim supérfluos e sem um conteúdo inteligente. Porém, nem todo o produto que vem deste devem ser jogados para o lixo, é necessário uma extração minuciosa para retirar aspectos que agregam o conhecimento. Muitas vezes, desejamos que o público consumisse mais arte, fosse a festivais culturais, entrasse em mais teatros, lesse mais livros, tivesse acesso ao conhecimento sem restrições, que conhecesse a história por diferentes perspectivas.

Precisamos lembrar que a maioria das pessoas não têm condições para pagar uma ida ao cinema à família toda, pois o dinheiro gasto é o dinheiro do almoço de uma semana para todos eles. Não tem como ir ao teatro, pois os horários não batem com o pouco tempo disponível, muito menos com o dinheiro que se tem no bolso. A televisão acaba tornando-se um meio da arte chegar à casa de quem não tem condições de ir até ela. Existem programas com nenhum objetivo de transmitir algo, é visível, estes existem apenas para entreter e cumprir este desejo.

Demonstramos nosso desinteresse por programas assim não os dando audiência; e trabalhamos nosso olhar crítico para perceber que existem momentos de grandeza na televisão. Quando algum assunto é tratado com seriedade, com um ponto de vista honesto, ou simplesmente quando uma novela trata de assuntos puros e verdadeiros da vida real, assim também quando se fala de assuntos pesados, em que recebem sua atenção necessária, sem máscaras para disfarçar a realidade. Entendo que é importante extrair o que há de melhor nos meios artísticos e seus modos de comunicação. É o mesmo processo que devemos ter na vida: conservar o que nos é certo, expor nossas opiniões contra ou favorável a algo e respeitar o pensamento dos outros, mesmo que este não seja compartilhado por nós.

A televisão foi transmissora de outra forma de atuação: o cinema. O musical. Um longa-metragem que é provavelmente o grande filme da minha vida. Meu pai o adorava e gravou em uma fita cassete para eu conseguir assistir em outro dia. Assisti uma, duas, cinco, incontáveis vezes. “A Noviça Rebelde” enche-me o coração de lembranças deliciosas. Assistia nos pés da cama dos meus pais, sentada no chão, deitada. As músicas em língua estrangeira nunca foram um problema, eu as compreendia e repetia com felicidade, mesmo sem ter a mínima ideia do que era dito. A casa dos “Von Trapp”, as crianças, o jardim, a freira Maria e todas as músicas com suas danças sempre foram acompanhadas. Espero em um futuro próximo, interpretar algo relacionado ao filme.

Ainda estudava na mesma escola quando certo dia a professora de artes, Juliana, falou que iríamos apresentar “Romeu e Julieta” no palco que estava sendo construído no novo galpão da escola. A maior história de amor de todos os tempos, meu primeiro contato concreto com a dramaturgia. Eu não consigo reformular o que pensei no dia que foi dito em sala de aula, apenas que estava muito feliz. Éramos umas cinco meninas em aula, todas queríamos o papel de Julieta. Para ser justo foi realizado um sorteio para descobrir quem ficaria com o papel. No final das contas foi o meu nome que apareceu. Os ensaios eram feitos no período da aula de artes e o espetáculo não foi grandioso.

Não tínhamos cenário, o figurino era simples, sem iluminações e com cenas cortadas por causa do tempo que devia ser cumprido rigorosamente. O meu figurino era um vestido branco com recortes de tecido para dar movimento. Para sermos escutados, era passado de fala em fala um microfone que decidiu não funcionar na hora em que Julieta encontra Romeu morto em um tapete marrom velho improvisado. A plateia não estava atenta ao que acontecia no palco, mas quando tive de largar o microfone e falar alto o suficiente para todos me ouvirem, o galpão se silenciou. Todos ouviram atentamente minha fala. Senti que todos realmente me olhavam com atenção.

Meus anos vivendo no mesmo bairro desde que nasci estavam acabando e, consequentemente, meus anos na Escola Emanuel também. Meu irmão mais velho precisava ir para um colégio com ensino médio, o mais novo, para primeira série. E eu tinha de estar preparada para esta mudança, junto com tudo que estava mudando dentro de mim. As lembranças boas destes últimos anos eram o grupo de dança da escola, uma peça de marionetes que foi apresentada na escola e as olimpíadas anuais que sempre foram muito divertidas.

Fui pesquisar a respeito do meu novo colégio e recebi uma sequência de informações que me espantava a cada notícia: a estrutura do colégio ocupava espaço de um quarteirão inteiro, com turmas de 40 alunos, auditório, cinco quadras de esporte, sala de cinema, sala de dança, biblioteca, laboratório e sabe-se lá quantas outras salas que não desbravei ao longo dos seis anos de estudo dentro do imenso quarteirão cinza. Estruturalmente pensando, meu novo colégio era dez vezes maior que o antigo. Se isso não assustaria uma pré-adolescente de doze anos, sinceramente não sei o que poderia assustar.

Não julgar o livro pela capa é a frase que se enquadra perfeitamente na nova etapa. Por ser um colégio maior com consequentemente mais alunos, eu já calculava os prováveis prejuízos emocionais e certa rejeição que poderia passar. A quantidade proporcional de bullying a dificuldade de me enturmar novamente, além dos corredores enormes. Meu primeiro dia foi o oposto do que imaginei no ano que antecedia, pois tudo ocorreu melhor do que o esperado. Conheci grandes amigos que levo até hoje na minha vida, passei a gostar dos muros enormes e da quantidade gigante de pequenos mundos feitos por diferentes alunos que estavam no espaço. Fui acolhida com carinho e sem mesmo perceber, não queria lhe dar adeus no final de 2011.

O colégio oferecia atividade extraclasse para todos os gostos. Desde vôlei ao teatro. Pode parecer contraditório, mas não o escolhi. Provavelmente foi uma decisão errada, contudo não me arrependo. Escolhi novamente a dança, pelo fato de não sair da certa zona de conforto. Fiquei três anos dançando, apresentei “A Salamanca do Jarau”, “A Fantástica Cidade dos Doces” e “Forever”, nesta ordem. O palco já era agradável, a dança sempre esteve presente, foi um belo modo de juntar os dois. Tinha as minhas “amigas da dança” e é radiante o modo como levávamos os dias do espetáculo com alegria, descontração e ao mesmo tempo com responsabilidade. Esta energia é frequentemente presente quando todas as engrenagens trabalham fluidas e alegres entre si, e com as outras.

Quando tinha treze anos, uma de minhas irmãs que mora na capital encontrou no jornal um anúncio falando que ocorreria um curso de telenovela em dois finais de semana por lá. Conversou com minha mãe e disse que era importante me dar esta oportunidade, já que eu desejava, mesmo que fosse para perceber que não era isto que seria minha carreira profissional. Recebi a folha do jornal na hora do almoço e fui perguntada se queria participar. Topei. Nesta época os cursos já eram caros, embora a condição financeira da minha família nunca tenha sido precária, ainda era um investimento grande para algo incerto. No último dia das inscrições, minha irmã ligou novamente, convenceu meus pais e algumas semanas depois estava eu pegando um ônibus sozinha em direção a Porto Alegre para o meu primeiro curso. Nas aulas que aconteceram nos sábados e domingos de dois finais de semana, senti-me bem pequena.

Nas cenas gravadas via-me sem expressões, com o texto travado, desconfortável em frente à câmera e só percebia meu cabelo estranho, o aparelho nos dentes e a forma como meus olhos escancaravam meu nervosismo para todo mundo ver. Olhei toda a gravação, a professora falou que fui bem, mas só conseguia pensar em que loucura momentânea entrou na minha cabeça para aceitar que atuar seria algo que eu faria bem. Depois desta aula fui à rodoviária para voltar para a casa e treinar o novo texto da semana seguinte. O pensamento de horas atrás permanecia na cabeça de uma forma que repensei se era esta profissão que queria seguir por alguns instantes. É cômico lembrar que tive esse equivoco por algumas horas e que tentei imaginar uma nova profissão para seguir sem ter a mínima ideia de tudo que estava para vir. Entretanto, logo que cheguei ao meu quarto, respirei fundo e memorizei que não iria largar tão cedo este sonho.

A partir deste curso que a atuação começou a ser levada a sério, e a minha profissão para a família também. Um ano e pouco depois surgiu um “Projeto Passarela” na cidade em busca de novos modelos e atores para participarem de eventos e workshops. Com a seleção de alguns deles, tive o prazer de ser aprovada para um curso de um final de semana em Curitiba, no grupo de arte Cena Hum. Lá fizemos exercícios de improvisação, cenas sem fala, aula de maquiagem e, além disso, assistimos um lindo monólogo de um ator contando uma lenda usando panos e bonecos. Éramos os únicos a presenciar.

O ator conduziu a história e seus elementos cênicos com muita sutileza e cuidado. Fui guiada por ela de uma forma tão precisa que por alguns momentos não lembrava onde eu estava. Praticamos a observação também em um belo espetáculo no meio da praça em um domingo de feira. O ato de observar é uma forma de aprendizado. Com olhos atentos podemos criar uma bagagem recheada de conhecimentos para assimilar o que funciona ou não funciona ao olhar criativo de cada um. Desejo voltar ao Cena Hum, como aluna, como visita, como curiosa. Só pra deixar outro pedaço meu por lá.

Mais uma etapa estava se concluindo. Não tive oportunidade de viajar para estudos artísticos nos últimos dois anos do ensino médio por causa de provas e avaliações. Meus dois últimos anos da mesma rotina com os mesmos amigos na mesma escola que passou a ser uma segunda casa. Era difícil ter uma perspectiva das mudanças que estavam por vir. Estamos acostumados a enfatizar o lado ruim, o defeito, o problema e nos esquecemos de focar em tópicos realmente necessários, importantes. Em uma das manhãs do terceiro ano, um papel branco com várias anotações foi colado pelo primeiro professor que entrou em aula no canto direito do quadro.

Estavam ali as vagas para cada curso da UFPEL ligado ao PAVE.4 O amontoamento de colegas em frente ao papel foi incontrolável, embora minha turma tenha sido “abençoada” por cada um almejar algo diferente. Para o curso de Teatro, eram cinco vagas. Na época, já desejava cursar uma faculdade do Rio de Janeiro, a cidade polo marcada por grandes companhias de teatro com grandiosos espetáculos juntamente com a televisão e suas novelas, séries e minisséries. Mas meus pais pediram para continuar na cidade por mais um tempo, ainda mais que aqui existia o curso que desejava. E tinha apenas dezesseis anos, como deixar praticamente uma criança em uma cidade tão grande como o Rio de Janeiro.

Fiz minha matricula. Em Pelotas. Não tenho palavras para agradecer meus pais por terem pedido para ficar mais. Não me sentia pronta para ir cedo, contudo não idealizava o que me esperava por aqui mesmo.





Figura 3: Foto dos bastidores do espetáculo “As aventuras de Super Rafa” no 14º Festival internacional de teatro de Rosário do Sul (RS) em julho de 2013. Acervo Pessoal

Capítulo 4: O ingresso no curso de Teatro: reflexões da atriz- professora em formação
Meu primeiro dia na faculdade foi marcado pelo teatro do COP5, repleto de calouros, professores e veteranos. Sentei em uma cadeira e ouvi atentamente como funcionariam os quatro anos seguintes. Neste tempo escutei um comentário em algumas conversas calorosas dos universitários veteranos já amigos e parceiros falando que precisavam fazer uma tarefa para a cadeira de crítica ministrada pelo professor Daniel Furtado. Saí do teatro com a sensação de curiosidade e entusiasmo. As aulas começavam com pequenos e significativos passos, a cada encontro ia entrando neste mundo da arte-educação. Éramos um grupo expressivo, portanto fomos divididos em duas turmas para priorizar que todos aproveitassem as disciplinas em sua totalidade. Com aulas que envolvem mais a reflexão teórica, outras práticas, teórico-práticas, comecei a construir o meu conhecimento, comecei a improvisar, a intervir junto com meus colegas na rua do prédio do curso, no centro, no meio da rua, no prédio construído para a prática teatral.

No intervalo das aulas um colega, Marlon Britto, conversou comigo e contou que era diretor de uma companhia de teatro em Rio Grande –Cia Teatral Era Uma vez – e me convidou para participar de um novo espetáculo que estavam montando, já que possuía o perfil que ele procurava para a personagem que faltava. Com uma grande animação para meu primeiro espetáculo teatral, peguei um ônibus em direção à reunião sobre a peça, para conversarmos um pouco, para nos conhecermos e também para fazer uma leitura dramática para melhor compreensão do texto e de nossos personagens. Meu pé direito para entrar no teatro amador foi com este espetáculo “As Aventuras do Super Rafa”, que tem como temática os quadrinhos dos anos oitenta e seus super-heróis.

Conta a história de um menino chamado Rafael que se esqueceu de fazer um trabalho importante pra escola porque ficava o tempo todo lendo gibis e recriando o que lia com a sua imaginação. Não tendo feito o trabalho, Rafa precisa safar-se da entrega custe o que custar. O espetáculo desbrava a imaginação desse menino de nove anos que em sua cabeça fértil de criatividade acredita fielmente que está vivendo em um mundo dominado por vilões, espiões e super-heróis, onde a margarina é do planeta Marte e possui raios capazes de transformar vilões em um mísero pano de chão, gatas que andam pela rua são suas assistentes e escudeiras. Sua irmã embarca na ideia e seus amigos também. Um espetáculo repleto de elementos e novidades a cada cena.

A peça deveria estar pronta em três semanas, pois já tínhamos a data de estreia marcada. Em cada ensaio o esqueleto do espetáculo se tornava real. Em um deles apareceram os figurinos, no outro o cenário, no outro os elementos de cênicos. Com o passar dos encontros, percebia que eram os meus sentimentos e minhas experiências que dariam vida a pequena personagem. O grande desafio é como despertar estes sentimentos e estas lembranças. Tinha que dar a vida a uma personagem com metade de minha idade e fazer com que o público não visse a atriz jovem-adulta, usando trejeitos e clichês para parecer que é uma criança. Não, deveriam ver apenas a criança, e isso deve partir da atriz ou ator por trás dessa personagem.

No instante em que o ator se apropria do personagem, ele naturalmente aparece. Contudo, meu corpo já não é o de uma criança, meu modo de agir e interpretar as coisas é completamente diferente do que era oito, nove anos atrás. Para fazer a personagem presente física e espiritualmente, foi necessário inconscientemente correr a uma ferramenta de presença constante na prática da atuação: a memória emotiva ou memória afetiva.

Assim como sua memória visual é capaz de reconstruir uma imagem interior de alguma coisa, lugar ou pessoa esquecidos, sua memória das emoções também pode evocar sentimentos já experimentados. Tais sentimentos podem parecer estar além da possibilidade de serem evocados mas, subitamente, uma sugestão, um pensamento ou um objeto conhecido fazem com que nos sejam trazidos de volta na plenitude de sua força. (STANISLAVSKI, 1997, p.131)


A utilização da memória emotiva ajuda o ator a despertar seus sentimentos, quanto mais ampla, quanto mais fértil de material, quanto mais rápido o ator conseguir chegar até elas, mais completa e fascinante será sua obra.

Para que o ator tenha material bruto para suas criações é preciso estar em constante observação. Observar o seu modo de andar, falar, pensar. Prestar constante atenção a como seu corpo reage a diferentes situações propostas e em situações rotineiras, sentir os momentos em que está em um completo relaxamento ou em estado de alerta com os músculos tensionados pelo medo. Quando recebemos uma boa notícia ou quando estamos preocupados com alguém. Quando nos livramos de algo ruim, quando entramos em um hospital. Quando estamos assistindo a um show. Quando escovamos os dentes, amarramos os sapatos, colocamos o pijama. Inúmeras situações que devem ser vividas e digamos, avaliadas. É com elas que podemos criar futuramente outros personagens.

Com a entrada de elementos cênicos, minha personagem começava a ficar mais clara ao meu consciente. Nos momentos em que estamos a construir um novo personagem, a presença de elementos exteriores colaboram para estimular a criatividade.

A relação do personagem com os elementos deve ser pulsante para o ator. Vamos supor que a minha personagem encontra uma carta de um antigo amor de sua mãe. Qual a importância do que está escrito para minha personagem? É certo ler o que está escrito nela? É alguma coisa secreta, particular? Qual a importância desta carta para a outra personagem? Qual a importância de encontrar esta carta para a história que está sendo contada? Questões como estas podem ter respostas que não são percebidas aos olhos de quem vê o ator em cena, mas, para que a ação de estar com a carta em mãos seja real, o ator tem de respondê-las inconscientemente quando estuda o personagem, a dramaturgia e a proposta do diretor. Caso contrário, a ação é inútil.

Quando se tem os objetos, para Stanislaski(2012) objeto imaginário é aquilo que resulta um sentimento, ação ou reflexão da personagem, pode ser o ator que está contracenando junto, a lembrança de um objeto ou o próprio objeto – junto com o conhecimento espiritual da personagem, a criação deste se torna orgânica (STANISLAVSKI,2012). Em nossa primeira apresentação, passei por uma situação que relembro toda vez que observo algum objeto ou gesto sem intenção cênica. Em uma das cenas, minha personagem deveria tirar uns óculos de sua mochila e alguns minutos depois colocar os óculos de volta. Quando percebi que eles estavam no chão não fiz nada em relação a isto, deixei-o ali. Parado, sem utilidade, desnecessário.

No palco as ações são amplificadas, os olhos estão atentos para a mínima ação feita em cena. Mesmo que ninguém tivesse solucionado a presença dos óculos, o público ficaria com a pulga atrás da orelha questionando-se do porquê do objeto se este não possuía mais importância. Quando nos apropriamos do personagem de forma que pensamos conscientemente como tal, conseguimos resolver com tranquilidade problemas tais como os óculos que surgem ao longo das apresentações. Isso é questão de ensaios, de conhecer profundamente a personagem e de pensar em como esta agiria em tal situação. Por sorte, um dos outros atores, com mais experiência teatral e mais apropriação do personagem, conseguiu criar uma nova intenção àquele objeto para, enfim, tirá-lo cena.

No dia seguinte pegamos a estrada para Arroio dos Ratos, uma pequena cidade do Estado. Um grande galpão e um alojamento é o que resumiram os quatro dias de imersão no FESTCARBO.6 Nossa apresentação era no último dia, no último horário dos concorrentes. Consegui aproveitar o festival por inteiro, não poderia ter desejado lugar e viagem melhor para começar esta maravilhosa parte que é participar de festivais. Fui presenteada com diferentes vertentes do teatro três vezes ao dia, por quatro dias. Nestes momentos era possível praticar o hábito de observar.

O ator não é uma pessoa que interage com a sua vida cotidiana do mesmo modo que as outras pessoas relacionam-se. O ato de observar enriquece o trabalho do ator; e este recurso deve ser exercitado em seu cotidiano e no cotidiano de quem o rodeia. Com olhos sensíveis e perceptíveis, mesmo que esteja preocupado com outras coisas naquele instante. A observação é uma ação solitária e pessoal. É preciso praticar o hábito como se pratica um exercício físico: diariamente, com os cinco sentidos atentos.

Conforme há a prática de observação, ela cada vez se aperfeiçoa mais, de tal maneira que inconscientemente estamos percebendo a influência do ambiente sob tal pessoa que caminha com pressa pela rua. Imaginando seus hábitos, suas manias, seus desejos. O ator deve estar atento em todos os momentos de seu cotidiano, concentrando todos os seus sentidos naquilo que o atrai, aperfeiçoando o olhar e a atenção no dia-a-dia, praticá-los em cena deixa de ser um desafio para transformar-se em um auxilio na interpretação.

Quem possui um olhar leigo para apresentação teatral não consegue imaginar que este começou há horas, dias, meses ou até anos atrás. Na véspera da apresentação em um inverno rigoroso, antecipávamos o cuidado com a voz e com o corpo. Diferente de outras artes – canto, música, artes plásticas - o nosso corpo é nossa obra. Se este não está bem preparado e cuidado, o resultado final não será positivo. Por isso, dias antes da apresentação não podemos falar alto e comer alimentos que prejudiquem a voz, principalmente porque o espaço era um galpão que não possuía acústica alguma. Sem o recurso do microfone, deveríamos, então, reservar a voz para que esta fosse utilizada em toda sua potência na hora do espetáculo. Sem o luxo de grandes produções, todos os integrantes do grupo tinham de passar seus figurinos e lembrar-se de ter uma boa noite de sono, pois o trabalho começava cedo. Três horas antes da apresentação começar já deveríamos estar organizando tudo: iluminação, revisão de cenário e elementos de cena. Depois partir para a maquiagem e caracterização. Aquecimento. Muito aquecimento. Representamos crianças de 7 a 9 anos no palco, precisamos ter a energia e o prazer da infância e estar sempre em alerta para não cair na criança exagerada, infantilizada.

Antigamente, em minhas primeiras apresentações, não sentia um nervosismo significativo. Acredito que seja a maturidade e sensação de responsabilidade que antes não tinha. Os espetáculos eram pura e simplesmente diversão e com o passar do tempo, com uma maior percepção de tudo o que tem que ser produzido, com consciência da importância do que eu estava produzindo, meu nervosismo cresceu. Além do que participei por todas as etapas da produção: da escolha do figurino a tinta certa para pintar um elemento de cena.

Colaborei para a construção do espetáculo em todos os seus segmentos: o planejamento da escolha adequada para o figurino, composição do cenário para entrar em harmonia com as roupas, os detalhes criativos nos elementos de cena. Meu papel na companhia não era apenas ser a atriz, chegar aos ensaios, repassar minhas falas, cenas e marcações e depois voltar para a casa e descansar. Isso até poderia ocorrer se estivesse envolvida em uma grande produção, onde se tem figurinistas, maquiadores, contra regra, camareiras e todos remunerados.

Quando se participa de uma companhia de teatro onde não se tem uma renda fixa para os atores, com limitadas condições financeiras, sem grandes patrocínios, aprendemos a ser um pouco de tudo em meio à necessidade. Esta interação que criamos em torno dos elementos artísticos fez com que me sentisse presente em todos os extremos da obra. Minhas memórias marcantes na companhia estão pautadas em reuniões fora do horário de ensaio para a confecção de objetos, figurinos, todos participando e criando vínculos fraternos com cada integrante do grupo. Essa unidade e amizade do coletivo refletem o resultado.

Nós entendemos as técnicas de interpretação dos colegas e como estas podem ajudar no nosso jogo em cena. Um espetáculo não se faz com apenas uma pessoa, nem mesmo um monólogo: precisamos praticar e ter confiança com as pessoas que estão envolvidas. Sejam parceiros de cena e/ou parceiros técnicos. Quando a confiança faz-se presente, nos tranquilizamos caso algum empecilho apareça. A percepção de todo este processo me faz sentir um nervosismo maior do que na infância, tenho consciência de todo o processo anterior à prática e sua importância tão relevante quanto o abrir das cortinas. Antes de entrar em cena fiquei extremamente nervosa e tive que me controlar e focar no que precisava ser feito.

Aconteceu de justo, nesta apresentação, a confiança, o improviso e a prática com imprevisto serem postos em jogo. A cena acontecera na sala de aula, onde os dois personagens coadjuvantes deveriam ter levado o trabalho que a professora havia pedido anteriormente e apenas o personagem principal deveria esquecer o trabalho, justamente para continuar a trama conforme a dramaturgia escrita pelo diretor. Contudo, um dos atores esqueceu-se de colocar o trabalho dentro da mochila da escola; então a atriz que interpretava a professora colocou seu improviso em prática e, percebendo que o ator não sabia o que falar e como agir, contorceu o problema comentando que a mãe do menino já havia ligado para a escola avisando que levaria o trabalho do filho.

Neste caso, desejo ressaltar que a atriz soube conduzir a situação, pois esta já tem um período significativo de prática de atuação. Infelizmente, lidar com situações como esta só é possível com a prática, quando já temos um processo no trabalho de atuação; adquirimos mais confiança em cena e assim o personagem apropria-se nosso corpo e consciência. Estas características raramente vêm com o ator como intuição ou instinto: normalmente a prática é a grande professora para aprimorar o jogo de cena do ator. O público adorou a peça, o debate foi positivo, recheado de críticas positivas para adicionarmos à peça, alguns detalhes acerca do figurino, ideias de iluminações, comentários sobre algumas entradas e saídas de cena desnecessárias.

Depois de juntarmos tudo e colocar de volta no alojamento já pronto para a viagem no fim do dia, o pessoal começou a fazer especulações de indicações. “Indicações?” perguntei-me sem lembrar a quantidade de premiações que a Cia Teatral Era Uma Vez havia conquistado anos atrás. Grupos que não ficaram no alojamento voltaram para a noite de premiação, que atraía não só os participantes, mas a população da cidade que apoia e prestigia o festival. Fui indicada e vencedora a melhor atriz na categoria de espetáculo infantil, para começar com o pé direito.

Subir no palco para receber o prêmio, tirar foto, descer de lá e correr para abraçar meu diretor que me esperava em pé foram os segundos mais rápidos de minha vida. Existe um debate constante se é ou não correto ocorrer uma premiação, se é certo ou errado o espírito da competição. Em outras vertentes artísticas existem premiações. Na área das exatas existem nomeados prêmios. A questão é: até que ponto a premiação é importante para quem participa e como lidamos com a competição. Posso dizer que no meu caso foi um reconhecimento de que me superei naquele momento,em que consegui exercer o que precisava ser feito de uma forma que foi reconhecida pelos jurados. Não participei desejando ganhar o prêmio: apresentei-me pelo fato de ter prazer em estar no palco, de ter o desejo de interpretar e assim realizá-lo. O prêmio veio como consequência da boa execução trabalho naquela determinada situação, não com uma certificação de que encontrei meu ponto de chegada, que sou melhor do que as outras atrizes da categoria.

Um pedaço de metal ou madeira não pode tornar-se principal motivo de se fazer teatro. Ele tem de vir como um símbolo do trabalho reconhecido que se recebe de alguém que tem vasto conhecimento no ramo. Ganhar não significa que não existe nada mais para aprender, que alcançamos um patamar limite. Ganhar prêmios me faz ter o desejo de melhorar cada vez mais, para estar em constante superação de meus limites, independente se o prêmio físico chegue as minhas mãos. O essencial é ultrapassar e arriscar-se da melhor maneira possível, para que o alívio após a apresentação seja de plenitude do trabalho feito com carinho e atenção. Acredito que é importante sim premiar os merecedores para incentivar a não desistir de seu trabalho, estimulando-os a nunca abandonar a arte e considerar a premiação uma sutileza, para que este não se transforme em objeto de ambição.

Além das viagens, um dia específico de apresentação em Rio Grande marcou-me de todas as formas possíveis. Não foi apenas uma apresentação no teatro, mas quatro apresentações, uma atrás da outra. Em certo momento meu inconsciente já não cooperava, acreditava que já tinha feito isso ou que pulei aquilo. E, logo após a apresentação, tentava falhamente lembrar o que havia ocorrido especificamente em cada cena. Tentei canalizar minhas lembranças para aqueles instantes, porém tudo era um grande branco: sentia que estava presente e pró-ativa em cada uma delas, mas não absorvi precisamente o que havia sentido nas cenas. É como se eu tivesse e ao mesmo tempo não tivesse passado por aquela situação minutos atrás. Isso tem relação com o consciente e inconsciente quando exercemos a interpretação.

Stanislavski (2012) comenta que o ator, quando representa de forma significativa, não a recorda como um todo e, se por acaso recorda, o que vem é a sensação de conforto que passou ao longo da cena, mantendo a conectividade entre os outros atores, executando assim o principio de “Criatividade inconsciente, por meio de técnica consciente” (STANISLAVSKI,2012). O que me ajuda a tentar idealizar o que se passa em minha mente ao longo das cenas: tenho percepção do que estou fazendo, das técnicas que estou utilizando, das marcações e falas que devo seguir, porém tudo isso de uma forma inconsciente, pensando conscientemente como personagem, vivenciado a situação como o mesmo.

Nas quatro apresentações,centralizei meu ponto de atenção em aproveitar o momento de estar em cena, canalizando meus sentimentos e processos internos na intenção de adaptá-los a personagem que eu estava dando vida. Adaptei minhas qualidades e experiências como ser humano e as moldei como base para as qualidades que surgiriam inconscientemente da personagem conforme as apresentações eram feitas. Por isso a questão de que quando se entra em cena: o pensamento condutor são os pensamentos do personagem, seus dilemas, interesses, objetivos e sentimentos.

A mente “consciente” do ator fica como um segurança para que todos os objetivos sejam concluídos com sucesso (trocas de figurino, saídas de cena, retirada de elementos de cena, ajuda na troca de elementos dos outros atores, etc). O diretor subiu no palco, entrou no camarim e comentou que o dia foi meu, é por este motivo que escolhi esta profissão. Trabalhei com responsabilidade, contudo não deixei de deliciar-me com o momento que estava passando, transmitindo assim a personagem e meu prazer de estar no palco. Quando uma peça não tem a presença ativa e palpitante de seus atores, quando não se ensaia rigorosamente para sair de ações de caráter clichê, a peça torna-se apenas uma leitura em movimento da dramaturgia, sem essência, vazia. É o ator que colore a história, que a torna viva no palco. A trama da história poderia até ser supérflua, mas se os atores estão entregues a ela, o público vai apropriar-se a história e vai entregar-se mesma maneira. Assim como a dramaturgia pode ser o ponto crucial da peça, mas, e os atores não estão com a mesma intensidade, a dramaturgia é apenas literal.

Em outras situações deparei-me com momentos em que a pressão pessoal de fazer bem meu papel dominou meus pensamentos de uma forma tão bruta que acabava indo para o lado oposto do que queria. Para Stanislavski (2012), tudo que acontece no palco deve ter um objetivo determinado, até mesmo o simples ato de sentar. O palco é um espaço rígido onde tudo o que se faz, diz e gesticula acaba ganhando maiores proporções: nenhum gesto é feito sem intenção, não se vai ao centro do palco apenas pelo fato de ir, necessita ter um objetivo por trás de todos os movimentos, reações, pensamentos e sentimentos postos em cena. Se o ator não está com seu consciente controlado para que o personagem flua com naturalidade, o seu “real” ser aparece e impede com que a plateia envolva-se emocionalmente com seu personagem.

“As Aventuras do Super Rafa” foi apresentado trinta e cinco vezes aproximadamente, por todo Rio Grande do Sul, para crianças e adultos embarcarem junto nessa história que me enche de saudade a cada dia. A companhia estava à procura de um novo espetáculo a ser construído, com uma temática mais intensa e com um número menor de atores. Marlon chamou-me para contracenar com ele na peça “Lua de Renda”, livre adaptação do conto “Moça Tecelã”, de Marina Colassanti, em que seríamos apenas nós dois, com o mínimo de elementos. Essa era intenção inicial. Duas novas pessoas ingressaram naquela época na companhia. Um menino que entrou, foi convidado a participar para fazer uma das personagens do Marlon.

Ensaio vai, ensaio vem e a necessidade de mais uma personagem para incrementar e somar somente aumentava. Ludmila, que interpretou a minha mãe no Super Rafa, aceitou participar. A peça conta a história de Elzinha (representei-a), uma costureira que sempre desejou se casar, assim guardando uma linda renda para o tão esperado dia. O vendedor de aviamentos (Lucas) era apaixonado por Elzinha, mas nunca teve coragem de admitir seu amor. Certo dia, Dona Odete (Ludmila), grande amiga da Elzinha, que tem um caso enrolado com o riquíssimo Pantaleão (Thierry), contou a ela que se a lua recebesse um presente, daria outro de agradecimento. Elzinha entrega sua renda para a Lua, que de tão feliz que ficou, entregou para ela a magia de transformar tudo o que costurasse em realidade. Elzinha, então, depois de perceber que conseguia tornar real o que costurava, decidiu costurar um marido do modo que desejava. Maximiliano (Marlon) se demonstrava um noivo exemplar, até o dia em que descobriu que a costureira poderia fazer tudo para ele. Uma história que fala de abuso, de aproveitar-se da bondade dos outros e de amores não resolvidos.

Para uma melhor apropriação e criação de personagem é preciso estudá-la profundamente, identificando todos os seus aspectos e características com perspectiva do que lhe foi entregue pelo diretor e o que está escrito na dramaturgia. Identificando fatores que criam o caráter da personagem, tais como condições de vida, aspectos físicos e todas as suas peculiaridades que ajudam em seu desempenho. Até aí tudo conforme o habitual, já havia praticado isso em outras personagens. A grande pedra no meu caminho foi a situação de abuso na qual a personagem vivia e que não percebia o que estavam fazendo com sua vida. Não conseguiria utilizar de minhas experiências para representá-la, pois felizmente não sofri situações de abuso tão grande ao ponto de me marcarem emocionalmente. Contudo sou mulher e tenho plena consciência de que sofremos ainda nos dias de hoje com o machismo antiquado. Tenho consciência disto, pois percebo os olhares maldosos na rua, os “elogios” que fazem. Consciência também de que existem homens que ainda acreditam ser superiores às mulheres em suas relações apenas por terem o porte físico mais forte, além de saberem que a mulher não vai denunciar abusos morais e físicos por medo. Se eu apenas imaginasse como reagiria em tal maneira, não seria coerente com o decorrer da história, pois com toda certeza me defenderia de maneira bruta e cortaria o abuso logo quando percebesse.

Mas não é esta a característica da personagem. Elzinha é livre de maldades, preconceitos. Não imaginaria que o homem que ela tanto ama e tanto desejou faria isso com ela. Considerava as obrigações impostas por ele como maneiras de agradá-lo, embora nunca recebesse nada em troca. Foi neste trabalho que comecei a praticar um dos elementos do sistema de Stanislavski: o elemento Se. O se ou se imaginário consiste em uma hipótese, sem a formalidade de crer ou descrer em alguma coisa. Ele estimula as ações na interpretação. O se não está preso a referir uma situação real, é suposto uma circunstância na qual o ator se desafia a solucionar (STANISLAVSKI,2012). Por exemplo: como você agiria se tivesse um elefante lhe observando pela janela? Você pode até não acreditar que exista fisicamente o elefante, porém deve sim acreditar no que você sente em torno desta suposição.

O que pratiquei para essa personagem foram a observação e imaginação. Procurei livros, filmes, modos de encontrar estas mulheres que sofriam abusos verbais e psicológicos. E coloquei em prática o se: “e se eu fosse uma mulher apaixonada pelo tão desejado homem, como agiria nos momentos em que ele me pede coisas?”, “e se eu aceitasse este descaso vindo dele?”, “e se eu não me importasse de apenas fazer coisas a quem amo sem receber nada em troca?”. Era um trabalho árduo de luta com meus pensamentos durante os ensaios. Em todos os momentos vinha uma vontade de revidar, de responder às atitudes grosseiras do outro personagem.

Para conseguir que o espírito de Elzinha se tornasse presente em meu consciente e inconsciente, me prendi basicamente em sua inocência, na sua felicidade em agradar os outros. O encantador desta peça é que ela nos fazia refletir sobre as relações das pessoas na vida. Esta ilusória idealização de uma pessoa perfeita quando na verdade o perfeito é uma pessoa imperfeita, porque aceitamos e amamos do jeito que ela é, entendendo que suas imperfeições/limitações também auxiliarão para sua evolução como ser humano. É a reflexão sobre os amores que se encontram e desencontram ao longo da vida. Além de tudo, falava sobre ter amor próprio. Em frequentes debates entre ensaios sobre qual seria o final justo para Elzinha, decidimos em coletivo que a moça vai primeiro cuidar de si e aprender a se amar para assim conseguir amar outra pessoa.

O espetáculo que estava por vir exibia tanto nossa identidade como grupo que seria um insulto não montá-lo. “A Flor do Mamulengo” é uma comédia adulta (que poderia ser vista por crianças tranquilamente, pois não tinha nenhum aspecto obsceno ou cenas inapropriadas para a idade) que entrelaça vários símbolos do folclore nordestino em uma animada história trilhada com música ao vivo de autoria do grupo. Em um dos ensaios da “Lua de Renda”, Marlon comentou-me que queria que eu interpretasse a Flor, personagem principal do enredo, pois ela precisava demonstrar carisma em cena, para que o público se cativasse com a moça e envolvendo-se em sua história e, com isso, abraçar a ideia.

Os meus desejos foram para Catirina, a personagem que entrelaça toda a história, porém é uma decisão na qual o diretor deve impor-me para que o espetáculo tomasse vida conforme seu imaginário. Após uma leitura dramática com o elenco, começamos uma série de oficinas onde trabalhávamos o corpo de cada personagem para que o diretor conseguisse perceber para qual deles estávamos mais próximo. Os exercícios começaram com uma caminhada para encontrar corporalmente a personagem, a partir das ideias propostas pelo diretor. Qual o figurino da personagem, onde ele está, qual seu peso, sua altura, que problema o incomoda, qual o seu grande objetivo, quais suas intenções, suas relações com os outros personagens. Íamos criando conforme as indicações do diretor. A situação da peça, os acontecimentos, o momento, o lugar da ação, todos estes elementos são circunstâncias da peça.

Passamos por todos os personagens da trama, trabalhando uma série de ações e intenções no simples ato de andar pelo espaço interagindo com os outros atores. O colorido deste espetáculo é que os personagens iam do mais magrelo e ligeiro até a gorda e poderosa. Após o primeiro encontro, cantamos a música tema da peça para encontrá-los mais ainda, nos situando um pouco mais no lugar onde estes personagens viviam. Sempre lembrando de observar os outros atores, pois em um terceiro momento faríamos a experimentação com algumas cenas do texto, interpretando a personagem já trabalhada nos primeiros exercícios e as dos outros atores.

Este exercício de fazer o papel do outro ator era repetido novamente após uma série de apresentações. Além de ser uma forma divertida de ensaiar, ver como o parceiro de cena interpreta sua personagem ajuda-lhe a perceber ações e pensamentos que sua personagem pode ter. É observar de outra perspectiva seu personagem e, como isso pode ser produtivo para as futuras apresentações. Uma das atrizes do grupo estava perto do que o diretor idealizava para a Flor, então permaneci com o papel que desejava. A CIA Teatral Era Uma Vez não tem como característica muitos meses de produção, então no fim do mês o espetáculo já estava pronto a caminho do festival de teatro de Santiago. Montamos a estrutura da peça e começamos a passar marcações, ensaiávamos as músicas dos personagens, repassávamos textos aleatoriamente, cada ator encontrando sua concentração.

A parte da produção foi a mais exaustiva, era de costume que o grupo todo participasse das confecções e produções, porém neste espetáculo era um pouco mais delicado. As unidades dos figurinos junto com o cenário eram feitos de fuxicos e flores de tecido. Colocamos a mão na massa para que o custo não saísse excessivo. Quem não sabia costurar, aprendeu. Assim como montar objetos e a passar roupa. O resultado final ficou belíssimo. Esse ato de construir o figurino dos personagens atraiu-me muito, pois faz com que nosso esforço e cuidado estejam em vários cantos do espetáculo.

Cada personagem com sua cartela de cores, a textura que o fuxico em coletes e paletós, babados e mangas, além de um número incontável de flores presas nos tecidos do cenário. O conjunto da obra não ficou pesado ou over demais. Meu figurino era um vestido de Poá roxo com bolas brancas, recheado de enchimento, um tule preto na parte de baixo e outro no decote, ambos com várias flores, luvas pretas e um pequeno chapéu no topo da cabeça.

A importância do figurino para a construção completa de uma personagem é algo que acreditava ter compreendido através das duas últimas peças, mas o meu estudo corporal para a personagem só encontrou um caminho certo após a utilização do figurino, algo que não havia acontecido antes. Os primeiros figurinos não tinham elementos tão relevantes que remetessem a personalidade de minhas personagens, pelo contrário. O curioso é que com eles a minha interpretação adaptou-se e conscientemente surgiram novos movimentos e posturas de ambas.

No caso desta personagem, só consegui resolver questões que estavam ainda sem resposta com a ajuda principal do figurino: ele que me guiou para como o corpo seria conduzido conforme a cena, onde seria o equilíbrio do peso corporal da personagem, quais partes do meu corpo estavam livres para o movimento e quais estavam limitadas a estrutura robusta e de personalidade, meu corpo teve de adaptar-se para encontrar a movimentação da Catirina, quais os desenhos corporais que se enquadravam com a figura, como a sua personalidade refletia em suas ações e intenções. Para a construção da personagem, a caracterização da mesma consegue esconder o indivíduo ator ajudando-o a jogar-se por inteiro em novas experiências com diferentes personalidades sem expor o seu ser, podendo assim, despir-se, de todas as barreiras criativas possíveis. Por isso a importância desta transformação, para que o ator se distancie de sua personalidade para representar outra.

A caracterização, quando acompanhada de uma verdadeira transposição, é uma grande coisa. E como o ator é chamado a criar uma imagem quando está em cena e não simplesmente a pavonear perante o púbico, ela vem a ser uma necessidade para todos nós. Noutras palavras, todos os atores que são artistas, os criadores de imagem, devem servir-se de caracterizações que os tornem aptos a se encarnar nos seus papéis. (STANISLAVSKI, 2014, p.60)
A construção da personagem foi surgindo de forma evolutiva conforme nos apresentávamos e ensaiávamos. A apropriação de como o figurino portava-se em meu corpo vinha ao longo dos ensaios, tentando explorar traços para melhorar a criação corporal da personagem. Como o espetáculo tem como uma das características principais a farsa7, minha maquiagem apresentava elementos que a lembravam: o rosto branco delimitado com um contorno preto, um circulo médio em cada bochecha, as faces bem expressivas (chegando perto de caretas) para usufruir da caracterização facial. Um detalhe que acredito ter tamanha importância é que o Marlon nunca nos limitou, nem teve uma ideia exata de como queria cada uma das personagens. Indicava-nos o que idealizava, o que o personagem precisava transparecer e o resto ficava por conta da criação do ator. O que vinha a ser exagero era alertado, algo que não encaixa no personagem é repensado.

Essa forma de direção era percebida pelo fato de estarmos participando de todas as partes da criação, de uma forma coletiva. E que dificilmente trabalhei com atores egocêntricos na companhia, que não estavam abertos para críticas positivas e construtivas. Pelo contrário, priorizamos a transmissão e troca de conhecimento para o crescimento mútuo de todos os integrantes do grupo.

Na época, viajávamos aos festivais de teatro com as duas peças e o que era imprescindível para os atores que participavam de ambas era apresentar o antônimo entre os dois personagens representados. Visualmente, as minhas já eram propriamente diferentes entre si, porém o espaço entre elas precisava ser essencialmente visto no momento da representação, pois é com este artifício que demonstro minha capacidade em interpretação fazendo com que uma não lembrasse a outra em nenhum aspecto: na forma de andar, falar, pensar, reagir; devidamente como é o desafio do ator de estar com diversas personagens vivas em seu corpo, porém nenhum deles pode apresentar traços de outros. Se o ator não tem propriedade e uma construção forte de como é cada um deles, é bem provável que ações físicas do ator apareçam em ambos os personagens. O figurino, a maquiagem e todo o contexto das histórias colaboravam.

No último festival que participamos com a peça, em agosto de 2014 na cidade de Gravataí, em uma das últimas apresentações da Flor do Mamulengo, fixei ainda mais em meu consciente de que ambas não são nem um pouco parecidas logo após os comentários feitos nos dois debates. A Lua de Renda foi encenada no mesmo dia no turno da tarde, com uma série de mudanças de marcação e quase todas em relação a minha personagem. Entretanto para o grupo foi a melhor apresentação que fizemos com a peça. A confirmação chegou quando começamos o debate da peça adulta. O diretor começou a contar um pouco do processo criativo do espetáculo e interrompeu-se para nos apresentar e mostrar quem era quem da peça de mais cedo. Quando apontou para mim e disse “A Lara, que interpretou a Elzinha” os olhos e a boca de dois dos três (uma já havia nos visto) jurados abriram de uma forma que nunca vou esquecer, junto com os burburinhos de surpresa da plateia que acompanhava a discussão.

Meu objetivo de distanciar as duas foi concluído e fiquei satisfeita com aquele dia de trabalho. Esta pequena observação só despertou ainda mais minha vontade de permanecer nesta frequência de estar sempre representando personagens extremamente diferentes entre si e diferentes da minha personalidade.

A maioria do grupo começou a ter problemas pessoais, uns precisavam morar em outra cidade por um tempo, outros não conseguiam conciliar o teatro com os outros deveres e, assim, uma parte dissolveu-se. Neste tempo, eu e Marlon, na disciplina de encenação da faculdade, precisávamos montar uma esquete ou uma peça para a avaliação. Juntamos o útil ao agradável e assim começamos o processo de criação da “Noiva do Mar” onde me dividia entre encenar e dirigir.

Com essa experiência, posso afirmar: é difícil trabalhar com um ritmo que não coincide com o seu. Atores não decorando textos simples, marcações mudadas que eram esquecidas na semana seguinte, saídas e entradas não compreendidas, aprendizados que ao meu olhar eram o básico. Básicos porque já tenho esta percepção de trabalhar em grupo por conta dos anos de palco que tenho, faz sentido a leve decepção, que levava ao cansaço. Não era por dificuldades de primeiro trabalho dos atores, a grande maioria dentre eles havia feito outros trabalhos sem ser a “Noiva do mar”, incomodava-me porque dava a impressão de que o resto do elenco não depositava o devido valor e responsabilidade ao que estava sendo produzido, prejudicando o espetáculo como um todo.

Foram meses arrastados, com centenas de altos e baixos, horas e horas desperdiçadas para o discurso batido de que o horário estipulado para iniciar o ensaio não é o horário para pensarem em chegar ao ensaio; e sim para estarem lá, preparando-se. Era desgastante, eu tinha que pegar o ônibus horas antes do ensaio para organizar tudo junto com o Marlon e ainda ter tempo para descansar e esperar dez minutos até o inicio do ensaio. Minutos que se transformam em uma hora. Depois de tantos anos já trabalhando em grupo, pensando em grupo, o descaso dos ensaios me desmotivava.

Apesar dos problemas técnicos e pessoais que persistiam em ficar a nossa volta, a dramaturgia da peça encantava-me cada vez que nos encontrávamos para ensaiar. A história de Marina passa-se em meio às ondas do mar na praia do Cassino, litoral gaúcho. A menina foi encontrada na beira do mar por um pescador que a acolheu como filha, crescendo junto com sua mulher e sua outra filha biológica. Marina tem uma conexão intensa com o mar, sempre que tinha dúvidas se aquele era mesmo o lugar que ela pertencia, recorria às ondas salgadas para tentar resolver este dilema.

O aspecto que me conectou com a personagem foi, acima de tudo, minhas experiências na infância e pré-adolescência no mesmo local em que a história se passa. Praticava o ato de observação com os sentidos em alerta sem ao menos imaginar que isto seria um hábito frequente em minha vida: quando entrava no mar, gostava de sentir as ondas batendo no meu corpo, do gosto do sal na boca, como a água dança no espaço entre meus dedos, como meus movimentos são executados embaixo d’água, o barulho do vento, das pessoas aproveitando a praia. Imaginava que eu era parte do mar. Não saía até o sol se pôr e meus dedos murcharem. As lembranças junto com o material emotivo da observação de si e dos outros fez transcender o espírito da personagem. A conexão com o grande objeto (o mar) foi investigada pelo meu consciente, criando assim, um material vivo para a construção nos ensaios. Revivia as situações experimentadas para que elas pudessem dar vida à personagem por meio de meus próprios sentidos, do modo que me apropriei de Marina com meus sentimentos. A trilha sonora adicionava elementos poéticos para a cena que se transformavam em momentos praticamente parados no tempo por tamanha beleza, de arrepiar todas as partes do corpo e de encher os olhos.

Meu apego emocional com a história de Marina e seu amor pelo mar, o seu desejo de encontrar um lugar no mundo, meu encanto por peças poéticas ficou tão presente, tão palpável, que refletiu na estreia do espetáculo. Em uma das cenas, chorei desenfreadamente. Se não tivesse feito a prática de controle emocional, a situação teria saído do controle. Tal cena mostra o momento que Marina encontra uma baleia encalhada na praia e tenta ajuda-la, mas é acolhida e acalmada pela a mesma, contando para a menina que não há mais o que fazer: a mãe do mar chamava-lhe. Com uma iluminação suave azul e um silêncio atento da plateia, a atriz que interpreta a baleia cantava uma linda canção e se vai, deixando a menina dormindo na praia.

A presença do se mágico ajudou-me a conseguir ver através da interpretação da atriz que ela realmente era uma baleia, podendo assim imaginar a praia, a aceitação da partida do animal e o sentimento de impotência diante de uma grande vontade que não pode ser saciada. Entrei de volta para a cochia e comecei a respirar fundo tentando esquecer grande parte dos sentimentos que foram expostos para não se desenfrearem e para não transformar uma ferramenta em uma problemática. Nunca pensei que fosse capaz de ir tão adentro de uma cena tão curta. Não tivemos mais de três apresentações do espetáculo, mas a experiência de ter vivido esta poética ficou estampada em meu espírito.

Após uma viagem de oficinas em fevereiro de 2015, meu diretor voltou com várias ideias borbulhando na cabeça, embora já estivesse refletindo para criação de uma nova peça infantil, estávamos conversando para encenar “A Casa de Bernarda Alba” (LORCA,1988). Contudo, durante as oficinas na companhia, Marlon teve uns de seus segundos de criatividade que não pode ser deixado de lado e a ideia da peça infantil voltou a toda.

Em “A fábrica” é contada a história de dois países que estão em guerra sem nem saber o porquê, de pais que só pensam em trabalhar e do poder revolucionário que as crianças têm. Em arena, sem palco italiano. Minha personagem é a Lua, a amiga do país vizinho de Chuvisco. Entramos no processo criativo com prévia de estreia em maio de 2015. Falar de um assunto como esses para crianças é no mínimo desafiador. Conforme o passar dos ensaios dava a impressão de que o mesmo filme da “Noiva do Mar” estava repetindo-se, exatamente da mesma forma. Enquanto continuávamos a persistir no espetáculo, estávamos com um projeto paralelo, “O Patinho Feio não é Tremendão”.

O trabalho foi montado para apresentarmos com o intuito de pagar a produção de “A Fábrica”. O patinho feio na livre adaptação do Marlon passa na época da Jovem Guarda inundado de suas músicas, cores e alegria. Uma peça leve e de alto astral, para todas as idades assistirem. Vou fazer a Ana Rita, a pata que vê o patinho feio do jeito que ele sempre foi: especial. A construção corporal é o oposto da Fábrica, como somos patos, nosso quadril tem de se empinar e adaptarmos isto em nossa caminhada e em nossos movimentos. Estamos nos ensaios iniciais e pelo modo que está indo, tenho certeza que será uma das peças mais gostosas de interpretar.

Figura 4: Foto do espetáculo “A Flor do Mamulengo” no 21º Festival de teatro da cidade de Rolante (RS) em 2014. Acervo Pessoal.

Capítulo 5: Os conhecimentos e experiências na formação de uma professora de teatro


Os processos criativos que experimentei ao longo dos quatro anos do Curso de Teatro e da participação na “Cia Teatral era uma vez” colaboraram direta e indiretamente para a percepção de como seria traçado meu percurso de formação como professora de teatro, momentos de compreensão que eu mesma não percebia que estavam acontecendo e que foram muito importantes para quando entrasse em uma aula. Entender e refletir, a partir do que a experiência criativa trouxe à tona, auxilia na construção de uma aula de teatro, justamente pelos dois momentos lidarem com aspectos extremamente semelhantes: lidam com pessoas, histórias, necessidades, desejos, vontades, opiniões, pontos de vista, incômodos, incertezas.

Estou gradativamente explorando o campo da pedagogia e um dos desafios que enfrento é qual a maneira de levar o que aprendi em minhas práticas artísticas para meus alunos, de forma que eles criem uma bagagem dos signos teatrais que possam ser levados para sua vida, independente de seguirem nesta profissão ou não. Signos estes que vão além de estudar sobre os conceitos de cenário, figurino, iluminação, improvisação. O tempero do teatro é a conexão criada do ser com o seu mundo pessoal e o mundo no qual habita com todos os objetos vivos ou não que convivem no mesmo ambiente.

Em três semestres de estágio na faculdade compreendi a importância da assimilação dos assuntos antes de serem tratados em sala de aula para obter êxito na troca de conhecimentos. No estágio II, que foi aplicado em uma turma de ensino médio, pelo dever de cumprir as horas estipuladas, eu e meu parceiro de estágio chegamos ao consenso de que seria necessário um projeto extraclasse, convidando, assim, os alunos que estivessem disponíveis e que gostariam de participar da construção de um espetáculo curto, de aproximadamente dez a quinze minutos. Paralelamente, em nossas aulas, no turno normal, apresentávamos as características e peculiaridades do teatro, enquanto quem estivesse no grupo extraclasse as colocava em prática. Sete meninas apareceram no primeiro encontro do turno inverso e com elas a produção foi feita.

Apresentamos dramaturgias com diferentes assuntos a serem tratados e elas, como um grupo, decidiram qual deles seria estudado e executado. No período de criação, especialmente neste caso, minhas práticas teatrais foram de total colaboração. Explicamos a responsabilidade que elas estavam abraçando e que deveriam respeitar quem estava abraçando junto para evitarmos confusões em relação a horários, atrasos e descaso. Meu colega cuidava da parte estética do trabalho e eu cuidava da parte da interpretação das meninas. Por elas interpretarem a mesma personagem em momentos diferentes e nunca terem passado pelo o que a menina passou, indiquei os caminhos que segui para criação da minha personagem Elzinha.

Justifiquei o porquê de procurarem imaginar como se comportariam na situação e que pesquisas sobre histórias parecidas em veículos de comunicação poderiam ajudar na criação de suas personagens, ressaltando que não reforçaríamos personagens estereotipados. No fim das aulas, as meninas apresentaram para a turma seu trabalho e foi o momento em que os alunos foram mais tocados pelo teatro. Eles viram em suas semelhantes tudo o que haviam observado e estudado nas aulas e se identificaram.

O silêncio enquanto as meninas apresentavam era uma mistura de respeito, apreciação, entrega e admiração. Flávio Desgranges (2011) enfatiza o papel do espectador para uma obra de arte. A sensibilidade com que as alunas conduziram a história foi transmitida para quem as assistia. Seus colegas abraçaram a história e refletiram sobre ela após o término da apresentação. Cada um deles identificou-se com diferentes momentos, compreendeu de maneiras variadas a mesma cena, deu importância em graus diferentes para coisas que eram feitas e ditas na ação.


Ou seja, cada contemplador da obra participa do diálogo com o autor, e compreende os signos apresentados na obra artística, de maneira própria, de acordo com a sua experiência pessoal, sua trajetória, sua posição na vida social, seu ponto de vista. Assim sendo, o sentido de uma obra é inesgotável. (DESGRANGES, 2011, p.28).

Os colegas das meninas foram visivelmente contemplados com uma experiência artística em sala de aula a qual tenho certeza que não vão esquecer. Aqueles poucos minutos observando e vivendo o teatro foram de uma importância tão grande quanto a que vivi anos atrás assistindo a minha primeira peça de teatro. Foram instantes ricos de sentimentos vindos de quem estava em cena e de quem assistia. A entrega de ambas as partes era palpável, eles viveram todos os momentos intensos que o teatro proporciona em poucas horas que os mudaram de alguma maneira.

Meu último estágio da universidade deveria ser executado em comunidade. As aulas eram feitas em um centro espírita de um bairro da cidade com crianças e adolescentes que vivem no ambiente. Embora compartilhassem o mesmo espaço – rua, bairro, escolas, casas –, os meninos se dividiam em pequenos grupos entre si, sem uma unidade de grupo, e foram nestes encontros terças e quintas-feiras que este espírito coletivo foi primordialmente praticado. Fizemos (minha colega e eu) daquele pequeno espaço um lugar onde os alunos pudessem expressar-se sem julgamentos, pudessem entender a importância do coletivo para desenvolver principalmente este contato, esta relação com o outro.

O ato de olhar no olho do outro enquanto conversa, focalizar a atenção em alguma coisa, percepção corporal no local onde se pratica as aulas, o modo como as ações e gestos são interpretados por outros colegas, aprender a respeitar o tempo das outras pessoas, entender que cada um tem o seu tempo para fazer, pensar e assimilar. Para focá-los na aula incentivávamos a ensinar os outros, a trabalharem em grupos diferentes, explicar exercícios para novos alunos e sempre aconselhávamos de que o que estivesse incomodando deveria ser dialogado.

No final das contas, o nosso objetivo era de mostrar como pequenas atitudes no cotidiano nos engrandecem como seres humanos e como convivemos com o outro de forma harmônica, respeitando a pessoa na qual estamos nos relacionando, seja um amigo do mesmo bairro, um morador de rua ou até um chefe de empresa.

Os pequenos aprendizados que tive em situações de atuação ajudaram-me pertinentemente na pratica pedagógica. Ideias que foram transmitidas não teriam a mesma intensidade se eu não tivesse presenciado e vivido uma série de experiências. Desde o estímulo de minhas professoras em meus primeiros anos de vida até a alguns anos atrás quando entrei no mundo acadêmico. São mínimos os instantes em que a teoria, a prática e as experiências não se entrelaçam quando estamos no palco ou em sala de aula. Todas as partes se complementam e ao mesmo tempo não existe modo de separá-las: aprendemos a ser professores e professoras de teatro vivendo a experiência pedagógica no coletivo com nossos alunos e consequentemente, vivendo experiências artísticas no coletivo de nossos grupos de teatro.

Considerações finais

Neste percurso de experimentações, troca de informações e conhecimentos, não havia percebido a proporção do que tinha aprendido. No início do curso, a parte da licenciatura não enchia meus olhos, não era algo que eu procurava. O que primeiramente poderia ser considerado uma atitude desnecessária, então, e ingressar ao curso, contudo estava aberta a esta experiência de ser professora, pensando sempre que tudo o que eu poderia viver dentro da universidade traria uma visão que enriqueceria meu mundo, minha vida.

A insegurança que me perseguia era de não conseguir dar aula de maneira alguma, pois nunca havia me colocado em situação parecida. Atuar, apresentar, estar no palco já era um espaço no qual eu estava acostumada, não que isso diminuísse minha curiosidade e interesse, mas o medo de fazer algo “errado” não rondava tanto quanto estar em um ambiente onde eu sou a pessoa que estimula a troca de conhecimentos do professor com o aluno.

Conforme cada dia de aula nos estágios ia passando, o meu desconforto ia diminuindo e o prazer de estar dando aula crescia de maneira que se tornou tão bom quanto estar em cena atuando. A riqueza de um ambiente de troca de experiências é tão pulsante quanto um espetáculo, pelo fato que os dois necessitam da entrega e disponibilidade de todos os envolvidos: dos atores com a plateia e do professor com os alunos. Utilizar a minha vida como instrumento de pesquisa não tem como objetivo mostrar que tudo o que passei e vivi é o correto, que é perfeito. Pelo contrário, a ideia é de apropriar-me destas experiências que vivi e avaliar nelas os pontos relevantes que me conduziram para o teatro e todo o conhecimento que este me trouxe para o processo de formação como professora-atriz ou atriz- professora.

Refletir minhas experiências e os conhecimentos obtidos com ela fez com que o horizonte do que eu compreendia, que ainda precisava ser estudado, crescesse milhares de vezes. Com a visualização do meu progresso, pude perceber o quanto já avancei e o quanto quero avançar, quais objetivos serão idealizados a partir desta pesquisa.

O ser humano está em constante mudança, seja no modo de pensar, agir ou lidar com o mundo em que vive. Meu futuro ainda é incerto. Não sei que experiências me aguardam na vida, não sei de que modo elas vão me afetar. Pretendo me aprofundar na atuação e na pedagogia teatral, mas tudo pode mudar. E não tenho receio sobre isto. Se eu vou ser atriz, tudo bem. Se preferir ser professora de teatro, tudo bem também. O que é realmente valioso é fazer o que nos faz feliz, o que nos inspira a ser pessoas melhores, o que nos estimula a sair do espaço que estamos acostumados a viver.

O que me faz ser completa é o teatro, em todas as suas possibilidades metodológicas, gêneros e perspectivas de atuação. Seguindo ele, independente de qual caminho a vida decida me guiar, e das escolhas que eu faça em diferentes momentos, estarei no lugar certo.

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SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. São Paulo: Summus, 1978.

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1 Vamos adotar aqui o conceito de experiência baseada na compreensão de Jorge Larrosa (2002) onde a experiência é “o que nos passa” e o sujeito desta é considerado um território de passagem, uma superfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo. “O sujeito da experiência é um ponto de chegada, um lugar a que chegam as coisas, como um lugar que recebe o que chega e que, ao receber, lhe dá lugar. E em português, em italiano e em inglês, em que a experiência soa como “aquilo que nos acontece, nos sucede”, ou “happen to us”, o sujeito da experiência é sobretudo um espaço onde têm lugar os acontecimentos”. (p.21) Considerando que a experiência é o que nos acontece e que o sujeito da experiência é um território de passagem, então a experiência, de acordo com Larrosa, é uma paixão. Não se pode captar a experiência a partir de uma ação lógica ou de uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito agente “mas a partir de uma lógica da paixão, uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito passional”. (p.26)

2 Centro de Tradições Gaúchas

3 O russo Constantin Stanislavski era ator, diretor, pedagogo e escritor. Foi o fundador do TAM (Teatro de Arte de Moscou) e ficava na posição de responsável pelas questões artísticos-cênicas e futuramente criaria o “Método Stanislavski” que trata principalmente no trabalho do ator.

4 Programa de Avaliação da Vida Escolar

5 Círculo operário Pelotense

6 Festival de Teatro da região Carbonífera, realizado no Museu do Carvão em Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul.

7 Gênero dramático surgido na Idade Média com teor cômico, com tendência ao burlesco e interesse unicamente focado no humor. Sua grande característica são os personagens e suas situações extravagantes.


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