Leandro Okamoto da Silva



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A peia de todos e a peia de cada um

Leandro Okamoto da Silva


O texto a seguir é o quinto capítulo de minha dissertação de mestrado, Marachimbé chegou foi para apurar. Estudo sobre o castigo simbólico, ou peia, no culto do Santo Daime. Inseri no corpo do texto o índice da obra de forma a, por um lado, posicionar o capítulo apresentado em relação aos demais e, por outro, estimular o leitor a conhecer a obra completa. Por isso, não fiz quaisquer alterações no conteúdo ou forma do capítulo apresentado.

É necessário, entretanto, uma breve introdução da “peia”. Entende-se por peia qualquer efeito ou sintoma desagradável sentido pelo sujeito sob o efeito da ayahuasca, ou daime. Ela está mais diretamente relacionada aos efeitos purgativos do chá, como diarréias e vômitos, mas pode tomar contornos bastante amplos dependendo da experiência e do sujeito como, por exemplo, a dificuldade em se cantar durante os rituais, tonturas, confusão mental, ou mesmo quando não é sentido qualquer efeito da bebida.

É importante destacar que a peia não é um fenômeno inerente à bebida. Em outros contextos de consumo da ayahuasca, os efeitos do chá são significados e representados diferentemente. Entendo que embora a peia seja constituinte da própria experiência religiosa com o chá (um contato com o “sagrado”) e, portanto, não apreensível em sua totalidade, essa experiência o ocorre e transcende o ritual, incrementa e modifica a visão de mundo do indivíduo e do grupo com base nos preceitos dos fundadores e principais líderes e se constitui, assim, em um produto cultural.

O capítulo em questão faz a análise da peia a partir da tensão entre as dimensões coletiva e individual do culto. A partir do coletivo, a peia pode ser entendida como uma eficaz ferramenta de coerção que busca, em última instancia, a ordenação simbólica e doutrinação dos fieis em torno dos valores e crenças da religião. Enquanto vivencia pessoal e idiossincrática, a peia participa ativamente no processo de cura na medida em que “desvela” conteúdos inconsciente e auxilia em sua integração. A peia encontra-se na liminaridade dessas duas dimensões, ela surge do choque entre o coletivo e o individual, por um lado reforçando e revalidando a tradição e, por outro, modificando-a na medida em que os processos individuais incrementam o dinamismo simbólico e sincrético, ou eclético, do culto.



ÍNDICE

INTRODUÇÃO pg. 01


PARTE I - As andanças do povo de Juramidam

Capítulo 1. Status Quaestionis - O estado da questão pg. 09

Capítulo 2. Da floresta para a cidade pg. 17

2.1. O processo de ocupação e a religiosidade amazônica até o século XX pg. 18

2.2. A formação do Santo Daime pg. 28

2.3. De Raimundo Irinru Serra à mestre Irineu pg. 43

Capítulo 3. Da cidade para a floresta e sua expansão pg. 57

3.1. O CEFLURIS pg. 57 3.2. Sebastião Mota de Melo, o padrinho Sebastião pg. 62

3.3. O espiritismo daimista pg. 87
PARTE II – A peia veio para apurar
Capítulo 4. A peia e seu imaginário pg. 92

4.1. A peia pg. 92

4.2. A peia no salão pg. 102 4.2.1. O salão pg. 102

4.2.2. A visibilidade e coletividade da peia pg. 103

4.3. As entidades justiceiras pg. 114

Capítulo 5. As funções da peia pg. 123

5.1. Análise do caráter ordenatório do ritual pg. 123

5.2. Alguns tipos de peia recorrentemente relatadas pg. 132

5.2.1. Peia por não se preparar adequadamente para o trabalho pg. 132

5.2.2. Peia de pensamento pg. 138

5.2.3. Peia pela desatenção pg. 141

5.2.4. Peia por falta de firmeza pg. 145

5.2.5. Outros tipos de peia pg. 148

5.3. A peia, o símbolo e a sombra pg. 158


CONSIDERAÇÕES FINAIS pg. 174

BIBLIOGRAFIA pg. 178

Capitulo 5

As funções da peia

Buscaremos nesse último capítulo aprofundar a análise da peia no ritual do Santo Daime a partir de duas perspectivas distintas, uma que realce as implicações sociais e comportamentais da peia e outra que nos permita acessar a subjetividade da experiência. Inicialmente sob um enfoque antropológico, buscaremos entender de que a forma a peia se insere no processo ritual, através da análise do seu caráter ordenatório. Em complemento à essa análise, realizaremos uma tipologia aproximativa da peia de forma a dar maior visibilidade e profundidade ao entendimento do fenômeno. Posteriormente, recorreremos à psicologia analítica e estudos sobre a psicossomática, de forma a aprofundar o entendimento sobre a função terapêutica da peia.



5.1. Análise do caráter ordenatório do ritual

O consumo coletivo da ayahuasca no contexto estudado abre a possibilidade para a desarmonia, para o caos e a desordem, inspirados pela ação da bebida e pelas relações conflitantes existentes entre os membros da corrente. Essa "energia negativa1" está em tensão constante com a "força da corrente", gerada a partir da comunhão dos pensamentos em torno dos valores expressos nos hinos, pela harmonia do bailado e do canto, e pela ação eficiente dos atores que compõem a corrente e auxiliares do trabalho (fiscais). Os trabalhos são freqüentemente referidos como "batalhas espirituais", e seus atores, como participantes de um batalhão de "soldados da Rainha". Essa batalha representa a "doutrinação dos espíritos de pouca luz" através do autoconhecimento e aprimoramento de cada um. Todos devem buscar ter firmeza frente a seus erros, falhas e fraquezas, convertendo essa "energia negativa" em força para a corrente, força essa constituída pela união e pela harmonia. Há no ritual a polarização de diversos elementos que o compõem, e que estabelecem, entre si, uma tensão constante. Como por exemplo as relações de espaço (alas masculina e feminina, salão e terreiro, "astral" e realidade ordinária, etc. ), funções rituais masculinas e femininas, dimensões do ser ("eu superior" e "eu inferior"), seres de luz e de sombra, verdade e Ilusão, sagrado e profano, etc.

A teoria de Victor sobre os processos rituais tem sido freqüentemente utilizada por diversos pesquisadores do Santo Daime2 para a caracterização dessa natureza ordenatória do culto. TURNER estuda os rituais de alguns povos africanos de forma a analisar a relação desses rituais com a manutenção da ordem e das tradições nesses povoados. Esses rituais harmonizam as tensões existentes entre o todo social, expresso pela tradição, pelas crenças e pelos costumes, e grupos menores ou indivíduos marginalizados3. O autor caracteriza a sociedade, denominada societas, como um processo dialético que alterna estados e transições numa dinâmica que parte de uma necessidade humana em participar de ambas as possibilidades. Esse processo é dividido em três componentes: estrutura, communitas (ou antiestrutura) e estados de liminaridade.

Para TURNER, a estrutura se constitui de um conjunto orgânico de relações entre posições e papéis, sujeitos a modificações mais ou menos gradativas, que persistem no tempo. No contexto daimista, esta estrutura se constitui da tradição, dos valores e crenças inspiradas nos ensinos de mestre Irineu, e expressos no ritual pela comunhão de todos com a bebida, no seguimento das prescrições e técnicas de êxtase, e, principalmente, pelos ensinamentos da própria bebida, ao redor da qual gira a cerimônia e as relações sociais entre os membros. A bebida, como já dissemos anteriormente, é entendida como um ser divino4. Podemos dizer que a estrutura está contida na bebida e é a própria doutrina, expressa nos ritos e nas pessoas que compõem e freqüentam o centro. Segundo COUTO, a prática ritual dá existência social ao mundo cósmico-espiritual, relacionado com o sistema ideológico que tem como idéia principal o "Império Juramidã5" e que, durante a perfomance ritual, é intensamente vivido nesse mundo6. Sob essa perspectiva, a estrutura é representada por esse "império", que representa o universo simbólico e ideológico daimista, sob o qual todos estão sujeitos, e que, segundo a crença local, rege também as vidas dos fieis.

A communitas, ou antiestrutura, também chamada por TURNER de "sociedades abertas", apresenta um grau superficial, ou mesmo inexistente, de estruturação onde as relações se dão entre indivíduos. Os valores e usos de uma communitas, assim como seu grau de organização social, determinam a sua posição em relação à estrutura. O autor classifica a communitas conforme essa mesma relação em 3 categorias: existencial, normativa e ideológica, estando as duas últimas inseridas na estrutura, enquanto a primeira, encontrada em grupos menores, busca a total (ou quase total) dissociação da estrutura. Para TURNER, o sentido de tempo que alimenta estrutura e communitas representa um ponto fundamental de ruptura entre ambas, sendo a última existente no presente, enquanto a primeira, lança suas raízes no passado e se estendem para o futuro através da linguagem, da lei e dos costumes. Isso será tão mais verdadeiro quão menos social e culturalmente desestruturalizado seja a communitas. Na concepção daimista, as pessoas são constituídas de uma parte material, um "eu inferior", e de uma parte espiritual, um "eu superior". A primeira estaria relacionada com a vida dos sentidos, dos instintos e dos desejos materiais, enquanto a segunda simboliza a parcela divina que cada um trás em si. Desta forma, uma pessoa estará tão mais na "ilusão" quanto maior for sua inconsciência sobre sua dimensão divina e maior for o seu apego ao mundo material. O processo de desenvolvimento espiritual se constitui pela expansão dessa "consciência divina" através das vivências com o daime. Em outras palavras, há uma luta pelo poder entre esse "eu divino", essencialmente espiritual, e o "eu profano", pertencente à vida material e sujeito à influencia do "mundo de ilusões". Não se trata, contudo, de se eliminar um ou o outro mas, ao contrário, busca-se a harmonização e hierarquização entre ambos, de forma a dar o poder ao "eu superior", que passa então a comandar o "eu inferior". Padrinho Sebastião descreve essa relação:

O momento é de unir o negativo com o positivo. Ai é que tá o espírito com a matéria, unidos! Aí, o foco cresce muito mais. Só no que é negativo, não dá luz. No positivo, só, também não dá! Tem de ligar os dois! Então ajunta todos os diabos que existe, não é? E ajusta todos com Deus, aí está. Se for pra um lado, tem soldado vigiando, se for para outro, tem soldado também. Então, anda direitinho na estrada para não se perder! A ordem é unir-se. O Eu Superior interno na sua casinha, na sua própria igreja, no seu próprio templo que é o corpo! Ele bem sentadão, no Trono, vendo tudo!7

A natureza do "eu superior" é integrativa e harmonizadora enquanto a do "eu inferior" é dispersiva e desarmonizadora. O primeiro seria regido pelas leis do amor, da caridade, da união, etc., e o segundo pelo egoísmo, pela desunião, pela inveja, etc. A tensão entre essas duas categorias sugere uma analogia com o modelo idealizado por TURNER. Os valores relacionados à dimensão espiritual do ser correspondem à estrutura, e a natureza individualizada associa-se à vida profana e corresponde à antiestrutura8.

Conforme as palavras do Padrinho Sebastião, não se trata de eliminar uma das polaridades em tensão, e sim em uni-las. Essa união, ou comunhão, é possibilitada durante os rituais quando as ambigüidades e fronteiras entre elementos estruturais e antiestruturais são desfeitas. Segundo COUTO,

Acrescentaríamos ainda que esses rituais, quando desempenhados, acabam momentaneamente com a ambigüidade entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens, a vida e a morte, o sonho e a realidade, Jesus e Cristo, Raimundo Irineu Serra e Juramidã ou qualquer outra ambigüidade que se estabeleça entre o aqui (terra) e o lá (mundo dos espíritos)9.

Essa quebra de fronteiras espaciais e temporais foi chamada, por TURNER, de estado liminar. Tem um caráter essencialmente dúbio e transitório e representa aquilo que Van GENNEP10 chamou de margem, onde o indivíduo ou grupo se vêem livres de suas relações sociais estruturalizantes e, por vezes, sufocantes. A liminaridade gera uma ausência de "status" e controles sociais, um limbo, e dessa forma age como harmonizador das tensões sociais. Os estudos das relações sociais e processos rituais de diversas tribos africanas e algumas urbanas, todas caracteristicamente enquadradas como communitas, demonstram, nas pesquisas de TURNER, a natureza harmonizadora da transitoriedade limiar, em especial para indivíduos ou grupos que se encontrem em condições de liminaridade, marginalidade e/ou estruturalmente inferiorizados. A própria constituição e desenvolvimento do culto daimista, como pudemos ver nos dois primeiros capítulos, se dá em um tipo de liminaridade, isto é, inicialmente, os seringueiros, excluídos social e economicamente da nova ordem econômica, encontram na experiência com a ayahuasca condições para uma re-leitura e re-significação para suas crenças e valores frente à nova sociedade que se forma. Por outro lado, o processo de expansão da doutrina para os grandes centros urbanos atraem indivíduos que se encontravam em busca de novos valores e de uma nova forma de religiosidade. O estado liminar é, assim, produto da dissolução de fronteiras entre estrutura e anti-estrutura, uma ruptura com a realidade cotidiana e abertura para o "caos" e o "divino". A miração, a peia, e demais eventos que caracterizam os trabalhos, são fenômenos essencialmente liminares. A análise do processo ritual estudado por TURNER aponta para dois tipos principais de ritos: os ritos de crise do grupo e de calendário e os ritos de crise e de investidura.

Os ritos de crise do grupo e de calendário atingem geralmente a todos ou referem-se a grandes grupos. Podem se realizar pelos mais diversos motivos mas tem em comum a reafirmação da ordem estrutural. Isso se dá, na maioria dos casos, através da inversão de posições sociais. Nesses casos, é comum a existência do "poder dos fracos" como harmonizador das tensões sociais e culturais pertencentes aos grupos. Aqui, os indivíduos estruturalmente inferiores tornam-se, durante o período de limiaridade, isto é, o próprio ritual, simbolicamente superiores, detentores do poder sagrado, para retornarem, posteriormente, às suas condições iniciais. Nos rituais do Santo Daime, essa inversão não parece ocorrer, pelo contrário, as posições sociais dos indivíduos são reforçadas durante os rituais, como por exemplo, no casos dos padrinhos, que no âmbito da comunidade auxiliam seus "afilhados" na solução de problemas e servem de modelo para os demais. Essa posição é confirmada nos rituais.

Os ritos de crise e de investidura, por sua vez, simbolizam a mobilidade estrutural do indivíduo ou do grupo através da elevação de "status'". A puberdade, o casamento, a mudança de comando tribal, a morte, entre outros, integram essa categoria ritual. Mais do que simplesmente legitimar a nova posição, tais ritos tem caráter disciplinatório, ensinando sobre os riscos e deveres da nova posição. O neófito perde temporariamente seu "status", posicionando-se simbolicamente abaixo dos demais, como no caso da iniciação de um novo chefe tribal em algumas culturas, para retornar à sua nova posição renovado, "purificado" e consciente de sua nova posição. Essa purificação é análoga à apuração associada à peia. Diversos hinos apontam para a necessidade de "se humilhar" para poder seguir o caminho espiritual. No início da doutrina, havia a distribuição de patentes que refletiam o grau de desenvolvimento dos seguidores de mestre Irineu. Posteriormente, em decorrência de supostos desentendimentos e lutas de poder, essa prática foi abolida. No entanto, ainda hoje, fala-se de "graduações"11 recebidas "no astral", e na própria vida, em decorrência do aprimoramento do adepto.



21– O que é que você vai fazer

(Padrinho Sebastião)

(...)

Ninguém queira ser grande



É preciso se humilhar

Se faça pequenininho

Para entrar no Celestial.

A "entrada no Celestial" está condicionada à uma postura humilde do fiel. É preciso "se humilhar", isto é, enfrentar e aceitar todas as imperfeições que o daime lhe mostra para que essas sejam transformadas. Por um lado, essa "humilhação" tem visibilidade social, uma vez que a peia expõe o "infrator" mas, por outro, sugere um ato de entrega e de rendição dos instintos e desejos materiais em relação aos desígnios do "Império Juramidam". Enxergamos aqui um movimento que parte da desestruturação dos egoísmos dos indivíduos, isto é, da própria communitas, para a sua posterior assimilação pela estrutura. Para TURNER, a communitas tem, a priori, uma vida curta, e está fadada a ser absorvida pela estrutura por não conseguir manter, na maioria dos casos, "a organização social e econômica por longos períodos de tempo". Em outras palavras, a communitas revigora, legitima e harmoniza a estrutura através de sua manifestação cultural repetida, tendendo à dissolução nessa mesma estrutura.

Para COUTO os trabalhos daimistas não são ritos de inversão, onde há o deslocamento do equilíbrio estrutura/communitas para o lado dessa última12. O autor entende que esse deslocamento se dá para o lado da estrutura,

reforçando a ordem cosmológica, que é intensamente vivida, saindo do seu estado latente, inconsciente, para se manifestar durante o ritual. (...) Por outro lado, a ordem interna é reafirmada pelo empenho de cada um na performance ritual, ao submeter-se aos imperativos do "Império Juramidã", na sua praxis durante o ritual, de onde o fiel acredita receber os "ensinos" e, principalmente, o ordenamento simbólico que se acredita eficaz (...), levando todo o sistema para uma ascese simbólica; ou, antes de mais nada, para a ordem".13

A conceituação do culto daimista como um ritual de ordem está em concordância com os relatos apresentados sobre a peia. As diferentes experiências relatadas, referentes à preparação para os trabalhos, à performance e empenho dos participantes, aos valores e crenças sobre a bebida e seres espirituais, entre outros, apresentam, como ponto comum, a noção de saúde e desenvolvimento espiritual condicionado ao aprimoramento moral do indivíduo, expresso na conduta do sujeito no ritual e em sua vida. A peia age ora como punidora das infrações e desvios, ora como facilitadora do processo de purificação do sujeito. A ordem externa é definida pela união, harmonia e concentração de todos nos hinos e no bailado. A ordem interna, por sua vez, é reafirmada pelo empenho de cada um na performance ritual ao submeter-se aos imperativos do "Império Juramidã", na sua práxis durante o ritual14. A peia "desce" e atua sobre os indivíduos, sobre as relações entre esses indivíduos e, conseqüentemente, no grupo como um todo, promovendo uma ampla limpeza de ordem física, mental, emocional e espiritual. Para COUTO:

Da prática ritual o fiel acredita receber os "ensinos" e, principalmente, o ordenamento simbólico que se acredita eficaz, e que, nessa ordenação, vai limpando e desobstruindo simbolicamente os canais invisíveis dos neófitos, levando todo o sistema para uma ascese simbólica; ou, antes de mais nada, para a ordem, como afirma Mary Douglas15: "A sujeira ofende a ordem. Elimina-la não é um movimento negativo, mas um esforço positivo para organizar o ambiente"16.

O antropólogo reforça o seu argumento apontando outros elementos que indicam o caráter de ordem, como a utilização de fardas, a autodenominação dos fieis como "soldados das rainha" e utilização de outros termos militares como "batalhão", "estado maior", "fora de forma", "general", "comandante", etc. O autor refere-se à diferença de gêneros como também significativa ao princípio ordenador do simbólico e das atividades comunitárias. A disposição espacial, no ritual, das pessoas em homens e mulheres casados, moços e moças, solteiros e solteiras, revela também a organização social do grupo. No que se refere à peia, esse dado se enquadra ao relato de um fiscal mais antigo, com aproximadamente 9 anos de farda, que fala da peia pela falta de humildade. Segundo esse informante, muitas pessoas levam peia por "querer cantar de galo" sem conhecer bem a doutrina17. A sua fala indica a posição de alguém que está "dentro de um grupo" em relação "ao outro" posicionado fora do grupo. Nesse exemplo, o impedimento para a inserção recai sobre a arrogância do "outro" e a sua integração no grupo requer uma "purificação", ou ainda, um ordenamento, desse aspecto de seu caráter, isto é, a falta de humildade.

MACRAE analisa os efeitos estruturantes do consumo da ayahuasca nos rituais daimistas a partir da perspectiva da redução de danos18, aplicada no contexto de consumo de drogas entorpecentes a partir da década de 60 do século passado. Essa perspectiva busca um entendimento mais complexo da questão das drogas que transcenda a ação meramente orgânica da substancia, e inclua a noção de controles sociais, onde o consumo do psicoativo é regido por regras, valores e padrões de comportamento desenvolvidos entre grupos de usuários. Esses controles sociais funcionariam de 4 maneiras:



  • são definidoras de um uso "aceitável" e condenam usos que que fujam desse padrão;

  • limitam o uso a meios físicos e sociais capazes de propiciar experiências positivas e seguras com a substância;

  • identificam efeitos potencialmente negativos. Os padrões de comportamento ditam precauções a serem tomadas antes, durante e depois do uso;

  • distinguem os diferentes tipos de uso das substâncias, respaldando as obrigações e relações que os usuários mantém em esferas não diretamente associadas aos psicoativos19 .

Para MACRAE o consumo da ayahuasca no contexto daimista representa uma instância paradigmática das idéias relacionadas à redução de danos.

Entre os membros da seita, o efeito da bebida é tradicionalmente entendido como um transe em que o sujeito expande seus poderes de percepção, tornando-se consciente de fenômenos de um plano espiritual que, por sua sutileza, normalmente escapam aos sentidos. Além disso (...) essa prática é rigorosamente prescrita em seus menores detalhes, tornando-se um bom exemplo do uso controlado de um psicoativo20.

Com base em uma etnografia de aspectos diversos que envolvem o consumo ritualizado da bebida, como as crenças, valores, práticas rituais, manuseio e estocagem do daime, hierarquia do grupo, entre outros, o pesquisador conclui:

Assim, acima de tudo, são rigorosamente controladas as atividades em que se engajam os indivíduos quando sob o efeitos da bebida. Como já vimos, isto sempre acontece sob a forma de um ritual religioso21 (...) A participação regular nos rituais do Santo Daime freqüentemente leva a notáveis mudanças entre seus seguidores. Estes são muitas vezes recrutados entre os indivíduos socialmente estigmatizados, por sua condição pauperizada, como na Amazônia, ou por sua adesão a valores da contracultura, como o uso de drogas e o livre exercício da sexualidade. Para todos, os rituais apresentam uma valorização e incitação à autodisciplina, possibilitando direcionarem suas vidas e tornarem-se mais eficazes nas atividades do dia-a-dia. Essa constatação encontra consonância nas idéias de Turner, para quem os rituais periodicamente convertem o obrigatório em desejável, colocando as normas éticas e jurídicas da sociedade em contato com fortes estímulos emocionais. Suas considerações se adequam muito bem ao caso das cerimônias do Santo Daime22.



5.2. Alguns tipos de peias recorrentemente relatadas.

Buscaremos agora traçar uma tipologia aproximativa da peia com base nos dados coletados durante o trabalho de campo. Essa tipologia não é conclusiva e certamente não abarca todas as possibilidades de peia possíveis. Ela, no entanto, nos permite uma melhor visualização do impacto da peia para os fieis, assim como os explicita valores e crenças associadas a peia.



5.2.1 Peia por não se preparar adequadamente para o trabalho

Entre os vegetalistas tradicionais e também em outras formas de xamanismo amazônico, o manuseio e consumo das plantas e ervas é cercado de dietas e abstinências, cujos períodos podem variar de meses até anos. Também na medicina popular amazônica, os remédios de plantas e ervas são acompanhas de sua "fineza", isto é, os resguardos necessários para o tratamento das doenças, que podem ser de origem orgânica, mas são normalmente relacionadas com a ação de seres sobrenaturais. O resultado esperado, geralmente uma cura, está diretamente relacionado ao cumprimento dessas prescrições, além, obviamente, do conhecimento acumulado do próprio curador. Segundo MACRAE:

Todos os vegetalistas afirmam que seguir a dieta é o caminho da sabedoria. Dizem que ela não os enfraquece e que, apesar de perderem peso, seus corpos se tornam mais fortes e resistentes a até mudam de cheiro. Afirmam, também, que enquanto a seguem, suas mentes funcionam de forma diferente, a observação e memorização tornam-se mais fáceis. É a própria natureza que lhes revela, então, seus próprios segredos. Seus sonhos tornam-se mais claros e instrutivos. Assim, a dieta pode ter a função de desencadear um estado de consciência alterada durante o período de aprendizagem23.

No contexto daimista, a importância das dietas e abstinências é relativizada e mesmo relegada a um segundo plano. É sugerido a abstinência sexual 3 dias antes e 3 depois dos trabalhos. Nesse período, aconselha-se a não ingestão de carne ou álcool. Recomenda-se, também, que haja um esforço do sujeito em se manter em harmonia consigo e com o próximo, resolvendo quaisquer pendências pessoais antes de se dirigir para o trabalho. Notamos que no centro estudados, essas prescrições nem sempre são seguidas à risca e, algumas vezes, questionadas.

(B) Eu já fiz trabalho com a disciplina dos três dias e sem a disciplina. Com certeza, disciplina é disciplina, o trabalho pega muito mais. Uma preparação tem que ter, uma preparação de acordo com cada um. Mas às vezes entra numa rotina de trabalho24 que parece que você já não sai mais do trabalho. Então você já fica naquela e do jeito que você está ali, você já vai indo. Num dia você come muito, noutro dia você come pouco: "hoje eu vou comer pouco porque eu vou tomar daime", no outro dia, "eu vou comer bastante para agüentar". É muito relativo. Qualquer disciplina que a gente fizer é bom, mas tem que fazer , ver por que está fazendo e para que está fazendo25.

Em outro relato, L., fala sobre a sua preparação.

Às vezes eu me preparo, outras não. Depende se eu não tenho que trabalhar antes. Depende do trabalho... posso tomar banho de descarrego, posso acender uma vela em casa ou posso estudar o hinário antes. Por exemplo, o trabalho de finados eu gosto de estudar. Quando dá tempo, eu ouço 1 ou 2 hinários, para ter uma base. De alguma maneira eu me preparo. Às vezes eu não como carne, ou alguma coisa assim, mas isso é relativo. Faz uns 6 meses que eu não faço isso, uma dieta alimentar. A preparação, às vezes, é você pegar sua farda dois dias antes e ver se ela está lavada, passada, certinha. Você já focaliza o trabalho. Às vezes, preparar é só pensar nele. Se arrumar. Você chega lá e sente que entrou certo. Já começou pensando, não é jogado assim. Às vezes, "preparar" não é ritual e tudo mais, é pensar no assunto. Se ligar com a situação...deixar fluir... eu acho que é melhor26.

Há aqui uma ruptura com a preparação típica do vegetalista. Os procedimentos que antecedem o consumo do daime parecem estar mais associados à tentativa em entrar em sintonia com o trabalho. A dieta alimentar, embora levada em conta, não representa o aspecto principal da preparação. Percebemos, pelo segundo informante, que, por um lado, há uma ritualização no preparo, como banhos de descarrego e velas e, por outro, uma noção mais prática sobre o trabalho, como estar com os hinários e a farda em ordem, e ter ensaiado os hinos com antecedência. A preparação para o trabalho, como pudemos notar nos dois relatos, é considerada importante - "disciplina é disciplina, o trabalho pega mais muito mais" e "de alguma maneira eu me preparo" -, mas está condicionada, primeiramente, ao contexto em que se encontra o adepto para participar do trabalho, isto é, se "trabalha antes27" ou se há tempo para uma preparação mais complexa. A forma que cada um se prepara para o ritual é definida, pelo menos parcialmente, pela vida pregressa e valores do sujeito. No primeiro caso, com relação à alimentação, ele às vezes come muito e outras pouco, dependendo do ritmo dos trabalhos. Em outro momento da entrevista, esse entrevistado afirma que desde pequeno sempre comeu carne e nunca sentiu qualquer efeito negativo em seus trabalhos por causa disso.

Não é falar que se comer carne, vai acontecer isso ou aquilo...não...a maioria (das pessoas) que eu conheço foi criado, desde de pequeno, na “papinha“. Pelo menos uma “carninha“ desfiada tinha, né? Então essa é uma coisa natural de cada um28.

Em contraponto ao relato acima, um outro daimista, C.29, explica o que pensa da importância de uma dieta adequada para participar dos rituais.

Eu acho fundamental que a gente tenha uma alimentação leve, adequada, pra você poder estar participando de um trabalho espiritual, porque se você come carne, por exemplo, você está cansado de saber que a digestão é mais demorada, os resíduos ficam mais tempo no teu organismo. Aquilo não se dissolve em poucas horas, demora dias até, entendeu? E eu acho que o daime está tão "na luz" que o fato de você comer carne no dia do trabalho interfere. Então muitas vezes você toma o daime e tem que fazer limpeza, porque aquilo não está compatível com a bebida. Depois que você faz a limpeza, você melhora30.

Pensamos que C. enquadra-se na descrição feita por GOULART sobre o novo tipo de daimista, denominado "do sul"31, surgido com a expansão geográfica do CEFLURIS iniciada no começo da década de 80. Essa semelhança se dá não apenas em relação à dieta mas também pelo seu discurso, onde afirma o seu desejo em se mudar para a "floresta" e o seu trabalho junto a Santa Casa32. Os outros dois informantes, B. e L., demonstraram pouco interesse, e até mesmo nenhum interesse, em residir no Mapiá ou em outra comunidade daimista, embora estivessem engajados em viver, futuramente, em localidades mais afastadas de São Paulo. Nos vimos inúmeras vezes em meio a conversas informais com outros daimistas que discutiam dietas e outras formas de preparação para os trabalhos. Pudemos identificar como único ponto de concordância o não consumo de álcool. Mesmo a questão da abstinência sexual foi apresentada por vezes como relativa, embora a maioria concordasse que a abstinência fosse importante.

O outro ponto levantado em relação à preparação diz respeito a "sintonização" do fiel com o trabalho. Essa "sintonização" está relacionada, por um lado, a uma intencionalidade em relação ao trabalho e, por outro lado, à uma atitude de atenção para com os "sinais" percebidos durante o transcorrer do dia ou dias anteriores ao ritual que possam ter uma relação com o mesmo. L. afirma:

Você vai para um trabalho de cura, de São Miguel33, Aí você decide: "eu vou trabalhar não sei o que ", e aí pega a farda do jeito que está, coloca na bolsa e sai para o trabalho. Você chega, "com seu livro aberto", você vai descobrir que vai "chover um pouco na sua vida". Você não estava ligado no que estava fazendo. Não se ligou. Não se atinou no que você estava fazendo. Você entrou no meio da coisa sem saber o que era. Aí você vai ter que assimilar...é mais complicado. É um descuido, é descaso34.

Nas palavras da fiscal, a peia sofrida é conseqüência do "descuido" ou "descaso". Na fala, o sujeito decide "trabalhar" um determinado assunto sem se preparar adequadamente, há uma intencionalidade que gera, segundo a crença, um evento, isto é, quando a pessoa chega no hinário o "seu livro está aberto". O despreparo em relação ao trabalho teve, como resultado, a peia. Nas palavras de L., "choveu um pouco na sua vida".

Segundo GROISMAN, o ato de tomar daime é cercado por diversas prescrições de conteúdo simbólico, que correspondem muitas vezes a cuidados pessoais que permitem ter uma boa experiência mas, principalmente, elas servem para demarcar os parâmetros do sagrado – fronteiras do comportamento esperado – e do respeito ritual pela bebida35. Vimos, pelos depoimentos, que o resultado de uma preparação inadequada, ou descuido na preparação para o ritual, é normalmente a peia. Por outro lado, quando no trabalho, o indivíduo se encontra em sintonia com as forças ali presentes e em harmonia com a corrente, o resultado é o êxtase, a graça, a miração.

(C) Quando você vai pro trabalho limpo, meu amigo, não tem nada que te atrapalhe, é um primor. Você só vê primor. E isso ai eu não estou dizendo por mim, eu estou dizendo pelas pessoas que me ensinaram muitas coisas nessa doutrina, que foi o padrinho Wilson, o sr. Luis Campelo, o sr. Jorival, o padrinho Eduardo, esses mais antigos das doutrina que sempre passaram aqui por São Paulo, e graças a Deus, tive a oportunidade de conviver com vários deles. Eles são todos da época do padrinho Sebastião36.

As operações simbólicas que antecedem o consumo da bebida representam uma "purificação" física, mental e emocional do adepto. Busca-se um estado de limpeza para participar do ritual, por outro lado, quando o indivíduo encontra-se "sujo", o acesso aos "primores" da miração lhe é negado e ele leva uma peia.

(C) Porque para você participar de um trabalho espiritual, pra você chegar lá, invocar a energia da Nossa Senhora, a energia dos teus guias espirituais, pra se beneficiar e enxergar à luz divina, que é única, como é que você vai se aproximar da luz de Deus estando sujo? Porque se você não se prepara você vai sujo. É como se você não tomasse banho e fosse entrar na casa de Deus. Não pode. Você não consegue enxergar a luz como ela é, como ela se apresenta. E ela não consegue se apresentar pra você. Ai você entra na peia, você faz limpeza37.

No hino (45) Aqui entram todos, do padrinho Sebastião, essa idéia fica clara. O hino descreve dois momentos distintos. No primeiro, quando se chega na igreja, na doutrina, a porta está aberta para todos que quiserem consumir a bebida. No segundo momento, o acesso à "Casa do Pai" é permitido somente aos que estiverem "limpos".

Aqui entram todos

Entra o sujo e o rasgado

Na Casa do meu Pai

Só entra os limpos sem pecado.


A seqüência do hino estabelece a necessidade do castigo para a manutenção da ordem e do propósito do culto.

É preciso apanhar

Apanhar para obedecer

Que culto sem castigo

Ninguém sabe o que vai fazer
Na última estrofe, o hino reitera a autoridade espiritual do Pai38 e chama a todos para ter firmeza na apuração dos pecados.

A Força do meu Pai

Ele bem vem ensinando

Quem tiver os seus pecados

Agüente firme para ir se limpando.

A análise até aqui efetuada sobre alguns aspectos da preparação individual para o consumo do daime, apontados por vários fieis como motivos de peia, sugere que essa preparação, embora apresente diferentes formas, é indicadora de um sistema mais amplo de valores e crenças, em detrimento das técnicas de manuseio e consumo da substância que caracterizam o uso tradicional da ayahuasca. A peia, por um lado, une os indivíduos em torno desses valores e crenças, punindo os "infratores", ordenando e reforçando os laços do grupo como um todo e, por outro, apura conteúdos inconscientes e fornece ao sujeito um modelo de interpretação e significação para a própria vida e para as vicissitudes inerentes a ela, auxiliando-o em seu processo de cura.



5.2.2. Peia de pensamento

Pensamentos desordenados, intrusivos, lascivos, entre outros, são tidos como causadores de doenças e motivos de peia. Deve-se, ao contrário, "elevar o pensamento" e adotar uma atitude mental positiva, receptiva, tranqüila, evitando a atividade mental intensa quando sob efeito da "força do daime". O muito pensar ou ficar "pensando besteiras" pode levar o adepto a "entrar em tranças". Esse termo, freqüentemente citado nos hinos, integra o jargão daimista e expressa a confusão que o indivíduo pode entrar, e/ou ficar preso, por não ter os pensamentos, intenções e sentimentos em harmonia com o trabalho. A "trança" é, certamente, uma peia e vem acompanhada de mal estar e desconforto, como confirma o trecho do hino (22) - Tu prometes ser fiel - do Padrinho Sebastião: ai todos me viram / mas não ligaram importância / agora estão sofrendo/ estão entrando na trança. Em outro hino (140), Palmatória, recebido por Alfredo Gregório, as "tranças" são lançadas para os que não tem humildade.

Força do sol eu recebi

E a ordem é uma só

Eu tenho umas belas tranças

Para quem quer ser maior

A saída da "trança" e, conseqüentemente, da peia é, além da humildade, a firmeza de pensamento. Essa firmeza refere-se domínio do pensamento, evitando-se que o mesmo fique "solto" durante o trabalho e seja, na medida do possível, suprimido pela atenção aos hinos e ao bailado. Acredita-se que um pensamento solto, divagante, faz do indivíduo uma presa fácil para as entidades espirituais de pouca luz, como zombeteiros e sofredores.

(R.C.) Você já viu uma pessoa "avoada"? não é pela mente, tudo solto...no momento que ele "escapa" vem outro ser e domina....vai beber, vai fumar, vai falar, não sei...agora, quando você mantém o seu centro de gravidade, tem controle né, "eu vou sair porque a entidade tem algo para me falar", "vou voltar". Você tem esse controle, você sabe...você está vendo, você sabe quem que é, né? Você olha a presença negativa e pede licença, não deixa sucumbir39.

O pensamento constitui uma categoria central no ritual daimista. Essa é certamente uma herança da experiência dos primeiros daimistas com o Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento que, como o próprio nome sugere, dá grande importância ao poder do pensamento. Os trabalhos de concentração visam, entre outros, o desenvolvimento da capacidade de domínio do pensamento. A Consagração do Aposento deixa claro a importância do pensamento na crença daimista, sua última estrofe diz:

As vibrações do meu pensamento são forças de Deus em mim, que aqui ficam armazenadas e daqui se irradiam para todos os seres, constituindo este lugar um centro de emissão e recepção de tudo quanto é bom, alegre e próspero.

As palavras do padrinho Sebastião confirmam a aproximação entre o Santo Daime e o CECP no referente ao papel do pensamento.

"Eu vou ligar o meu pensamento/ só aonde eu devo ligar / no Sol, na Lua, nas Estrelas / Na floresta, na Terra e no Mar40". É! Para estar com Deus é preciso deixar aquelas preocupações, aquelas cruzas, aquelas coisas que nós caímos. Suspendendo o nosso pensamento, chegamos em um Deus todo poderoso. Porque Ele está em nós e devemos nos ligar Nele. Deus é uma máquina que faz todas as outras máquinas41.

Na concepção local, um pensamento alegre e positivo trás a saúde, o bem estar, e a sintonia com o divino, ao passo que um pensamento fraco é capaz de materializar a doença e o sofrimento. Nesse sentido, a firmeza nos hinos atuam como "trilhos" para o pensamento, impedindo que este fique a deriva da influencia de outros pensamentos42 ou entidades trevosas.

(L) Você não pensa. O pensamento não alcança soluções. Então não pensa. Faz. O trabalho pensa a gente. O raciocínio é pequeno. Se você ficar pensando você fica nos seus pensamentos, sentindo seus pensamentos e aquilo é uma casca muito pequena. Não pensa! A letra do hino é para você não pensar. Você se ocupa. Leva tocando maracá, bailando pra lá e pra cá, ouvindo a música. É muito estímulo. É para você não pensar43.

O depoimento acima confirma a importância em se estar firme nos hinos e no bailado. Ele aponta também para as limitações do pensamento analítico, que é, nas palavras da entrevistada, pequeno e incapaz de alcançar as alturas da experiência extática. Os hinos não são compreendidos pela exploração analítica ou pelo raciocínio que, pelo contrário, impedem o acesso ao seus conteúdos misteriosos não expressos. A compreensão desses mistérios se dá por outras formas, como explica a fiscal.

(L) É para sentir, e mais do que sentir, é para você chegar naquele ponto que é a "mente criativa", não é raciocínio. É um saber. Sabe aquela lamparina "ah, sei", mas não é pensar isso e aquilo. Se você fica no pensar, sua cabeça começa a ficar apertada, pesada. Não é para pensar, é pra deixar rolar. Isso a gente aprende quando a gente começa, depois a gente esquece44.

Para a fiel, o raciocínio é uma prisão que aprisiona os sentimentos e impede uma compreensão mais profunda da experiência. O entendimento provém não do pensar, nem do sentir, e sim da ação da "mente criativa" que simplesmente "sabe". Outro fiel enfatiza que o pensamento deve ser substituído pela entrega à força da corrente e pela concentração45 no trabalho. A postura, por sua vez, deve priorizar ideais elevados como o amor e a alegria, para que se possa contar com a ação benéfica dos seres de luz.

(V.) A idéia não é ficar pensando, principalmente durante o trabalho. Não tem que ficar raciocinando, tem que entrar na energia, se entregar pra força, se entregar pros seres divinos que estão ali, se entregar pra corrente e concentrar nos hinos, cantar os hinos e ir embora. E cantar os hinos com alegria, com amor. Não adianta cantar hino de mal humor que você chama um monte de outras coisas que só vem para atrapalhar. Agora, quando você consegue fazer o trabalho dessa maneira, centrado, feliz, aí você sai do trabalho sabendo coisas que antes você não sabia. E esse processo não foi mental. Você, de alguma maneira, incorporou um conhecimento que antes você não tinha. Sei lá, os seres divinos passaram por ali e te passaram alguma coisa , e...agora, eu acho que é assim que deve funcionar a compreensão de um trabalho46.

O pensamento firmado, assim como a crença em seu poder, não se limitam apenas ao contexto ritual. É comum o relato, mesmo após poucos trabalhos, da diminuição da ansiedade e confusão mental no dia-a-dia das pessoas, a peia adquire, nesse sentido, um caráter terapêutico. No cotidiano de cada um, todos estão expostos à força da "ilusão47", que se expressa por influências diversas, entre elas, pensamentos trocados, maus pensamentos, pensamentos viciosos, etc., e constituem riscos para o fiel, que conta com uma "proteção espiritual", desde ele esteja na linha. A peia de pensamento, portanto, serve como instrumento regulador e ordenador do modo de se pensar. No ritual, a peia se expressa nas "tranças" decorrentes da falta de firmeza de pensamento e atenção. Na vida cotidiana, ela é atribuída às conseqüências de velhos hábitos, vícios e posturas indesejadas.

5.2.3. Peia pela desatenção

Na concepção nativa, a "abertura de consciência" proporcionada pela experiência com o daime exige uma postura de atenção constante. Acredita-se que o daime, ao mesmo tempo que abre os canais perceptivos do fiel, exige a aplicação cuidadosa da mente em relação aos próprios pensamentos e sentimentos, às outras pessoas e ao ambiente ao redor, de forma a impedir que se seja influenciado por "forças negativas" internas ou externas, materiais ou espirituais. Cada um torna-se responsável por seu próprios atos e as conseqüências desses atos podem resultar em peias.

(C) Tudo que a gente faz impensadamente, você vai ter uma conseqüência depois. Dentro da doutrina isso é muito nítido. O daime abre muito a nossa consciência48.

O trecho do hino do mestre Irineu abaixo fala de uma força existente, com a qual todos tem contato, porém a desconhecem.



119 – Confia

(...)


Esta força é muito simples

Todo mundo vê

Mas passa por ela

E não procura compreender

(...)

Acredita-se que a iniciação nos mistérios do daime "desvela" a realidade dessa "força" natural desconhecida da maioria das pessoas. Se, por um lado, o fiel está sujeito à ação das entidades espirituais, por outro, o castigo só se dará em virtude do grau de conhecimento, ou consciência, sobre as implicações e conseqüências dos próprios atos, comportamentos e atitudes. Dessa forma, na concepção nativa, não se toma uma peia por causa das entidades, e sim por falhas cometidas ou pela desatenção. A culpa e o castigo recaem sempre sobre o "infrator", conforme fica claro no depoimento abaixo.



(C) A peia vem de você mesmo. Vem de você mesmo pela tua falta de atenção. Porque você chega na doutrina e começa a prestar atenção nos hinos. Os hinos, o que pedem para a gente? Pedem atenção, prestar atenção, andar direitinho, tomar cuidado, observar ... e muitas vezes, as pessoas não fazem isso, ou se fazem, fazem assim numa proporção muito pequena, entende? "Quase" não prestam atenção, "quase" não andam direitinho. Não andam direito totalmente ou então andam um pouco fora, "pisam no tomate". E ai a peia vem, é inevitável a peia49.

Mestre Irineu é visto, entre outros50, como um professor. Sua doutrina são os ensinos da Rainha da Floresta e seus fieis integram uma escola. A atenção é um pré-requisito para se aprender a lidar com os mistérios da bebida, como diz o trecho do hino de Valdete, filho mais velho do Padrinho Sebastião.



16 – Para se estudar

Para se estudar

Nesta escola do senhor

É preciso ter amor

E prestar bem atenção

A peia, nesse contexto, castiga para "refrescar" a memória do fiel sobre algo que ele já sabia ou já havia sido ensinado anteriormente e, no entanto, havia esquecido ou ignorado. Ela tem função pedagógica e se manifesta quando o "aluno" é desatento.

(L) Quantas vezes você aprende a mesma coisa e fala, "poxa eu já sabia disso, e eu esqueci". Aí você retoma, tem que re-aprender. Aí você tem aquele trabalho e diz: "tomei uma peia". Não. Você esqueceu! Você foi um péssimo aluno. Ai você lembra todas as vezes que você esqueceu e de todas as vezes que você lembrou a mesma coisa51.

A vida material é vista como cheia de armadilhas e é constantemente referida como o "mundo de ilusão", cuja característica principal é entorpecer e fazer esquecer da realidade espiritual, que é o "mundo da verdade". É preciso, portanto, estar atento às armadilhas da ilusão para não esquecer os ensinos recebidos. Para C., os hinos são sempre cantados pois o ser humano dever ser constantemente lembrado de "tudo o que é certo, de tudo o que é bom, de tudo que é correto na vida espiritual", para não se deixar levar pelo esquecimento que a ilusão impõe.

Por que a gente canta tantos os hinos, tantas vezes? Porque o ser humano tem sempre que estar sendo lembrado de tudo que é certo, de tudo que é bom, de tudo que é correto na vida espiritual. Para ele estar seguindo, ele precisa ser lembrado disso, porque muitas vezes o mundo da ilusão é tão forte que ele acaba te desviando o pensamento, entra num pensamento trocado, entra numa idéia não saudável, um mal hábito antigo, que você tinha , um mal hábito de fazer determinadas coisas, então ele vem tentando se estabelecer 52.

A atenção às armadilhas da ilusão está direcionada mais para o próprio comportamento, pensamentos e sentimentos que em relação ao ambiente externo. É preciso estar atento para velhos hábitos e costumes que podem ser "ativados" por pensamentos trocados53 ou idéias não saudáveis. O informante prossegue,

E se você procurar sempre se lembrar dos hinos e, toda vez que pintar um pensamento trocado, você "opa", estar sempre alerta, " orai e vigiai", tem que estar sempre vigiando, sempre alerta, até dormindo mesmo. Aí você consegue, se tiver, se fizer um esforço maior. Você consegue ficar numa boa, ficar na tranqüilidade, na paz de Deus mesmo. E aí não tem força negativa que chegue, que possa te interferir, atrapalhar tua vida. Você não entra numa peia. A peia fica distante, entendeu? A peia entra quando entra um pensamento trocado, quando entra um mal hábito, quando entra uma idéia que não é muito saudável, quando ela vem para você e você acaba dando trela, aí você entra na peia (...) Não tendo dúvida, não tem medo. Você estando na certeza, você mata a dúvida. Então, você vive na paz. Ai você fica numa boa54.

A lembrança dos hinos é a firmeza frente as "tentações" da ilusão e fraquezas do fiel em sua vida. Deve-se "orar e vigiar", estar atento, consciente a todo o momento de forma a não se deixar ser levado por "energias negativas". A peia, para o fiel, ocorre quando se está desatento ou inconsciente dessas forças, entendidas como pensamentos trocados, idéias "não saudáveis" ou impulsos para velhos hábitos abandonados ou com os quais se luta para abandonar. Essas forças são entendidas como também pertencentes a um mundo espiritual. São sofredores, zombeteiros, embusteiros55, etc., que interagem com os seres humanos. A maior ou menor abertura à influencia desses seres é definida pelo grau de consciência sobre esses mesmos seres e pela conduta moral do indivíduo, pois, como dito pelo informante, quando se está "de ficha limpa, não há o que temer, não tem peia que te pegue".

Podemos concluir que a atenção, embora diga respeito ao conhecimento da ação de seres espirituais invisíveis, está mais diretamente ligada à conduta do indivíduo em relação aos preceitos morais os quais os hinos se referem. Esses preceitos estabelecem um padrão de comportamento, em parte decorrente do próprio entendimento da experiência vivenciada pela pessoa, em parte moldado pelas práticas sociais e pelas relações vivenciadas dentro da irmandade. Como na parábola do fariseu hipócrita, deve-se limpar o prato por dentro e não apenas parecer limpo por fora, pois nesse caso, a sujeira que está dentro atrairá, ou deixará exposto o indivíduo, às influencias externas negativas. Em última análise, a atenção é para com quaisquer condições ou estados desarmônicos, que ponham em risco a harmonia física, mental e emocional do adepto.

5.2.4. Peia por falta de firmeza

É requerido do fardado que esse tenha, ou procure ter, firmeza durante os trabalhos assim como em sua vida. A firmeza, ao contrário do que possa parecer, não é uma atitude de truculência e rigidez. Está mais relacionada à idéia de harmonia com a "força" e com a corrente, expressa na suavidade do bailado e do canto, na serenidade do pensamento, na capacidade em resistir e compreender as peias e mirações, entre outros. R.C. descreve a sua atitude típica quando percebe que vai levar uma peia:

Quando eu percebo que eu vou apanhar , que estou devendo e vou apanhar, eu não saio do salão nem por decreto. Quando "ouço": "É peia...se segura", (respondo) " tá, eu não saio". Você pode ter certeza que eu não saio56.

Segundo ele, se "correr" o castigo fica pior, embora nem sempre seja possível permanecer no salão. Essa, aliás, é a postura cobrada de todos os fardados durante os trabalho, que fiquem firmes em seus lugares, cantando e bailando, e só saiam para as suas limpezas. É permitido a cada um ficar fora do salão por até 3 hinos consecutivos, após esse período, caso o fardado não retorne ao seu posto, este será preenchido por uma outra pessoa, e a corrente será realinhada pelos fiscais. No caso dos novatos a atenção é especial. Há o esforço em mantê-los dentro do salão ou, no máximo, no terreiro, pois acredita-se que essas áreas estão sob proteção espiritual.

A firmeza responde, também, pela força de vontade do sujeito em não se deixar levar por velhos hábitos.

(R.C.) Naquele exato momento ela (a peia) te mostra qual é "aquele patamar", te ensina como ficar ali, depois é com você, porque ela não vai ficar tomando conta. Depende muito de você, da sua vontade, do que você quer na verdade. Não adianta, por exemplo, eu receber uma cura da bebida, você sentir o seu corpo expulsando todo o álcool, o daime te mostra tudo aquilo, o que é aquele bem estar, aquela qualidade de vida, de saúde e, depois de 4, 5 dias, você estar bebendo de novo. Ela vai te mostrar de novo , só que vai ser mais forte. Vai chegar uma hora que você vai tombar. Você vai aprendendo, vai sabendo, vai utilizando, (chega uma hora que) o daime te pega mesmo e te dá um "sacode" para ver se encerra57.

Percebemos, no relato, a ação da peia em dois momentos distintos. Inicialmente, o organismo do sujeito é limpo da substancia nociva, o álcool. O daime "limpa" e ensina "o que é" aquele bem estar posterior. O daime "mostra" uma qualidade de vida e de saúde que o motivam a parar de beber. O processo certamente não foi agradável, embora o produto da experiência lhe tivesse feito compreender a nocividade de seu vício. Num segundo momento, quando a pessoa não tem a força de vontade, ou firmeza, necessária para evitar o álcool e volta a beber, o daime lhe mostra "tudo de novo, só que mais forte". Há uma verdadeira batalha de forças entre a "vontade do daime" e a do fiel, e o resultado, via de regra, pende para o primeiro. A peia, nesse segundo momento da experiência, é associada ao castigo, pois o adepto estava consciente do "erro" cometido, enquanto a primeira situação está ligada a uma apuração, uma purificação da pessoa. Ambos os casos, contudo, constituem o processo de cura que, no caso, culmina com a mudança de hábito em relação à bebida.

Outro caso ilustrativo da peia pela falta de firmeza, diz respeito à miração. L.S., fiscal de terreiro, descreve sua peia.

Eu estava numa concentração e a força foi chegando. Eu não costumo mirar muito, é raro, mirava muito quando não era fardado ainda, mas depois que fardei a miração rareou. Pois bem, eu estava sentado no meu lugar, tranqüilo, quando a força começou a baixar e eu vi que era a miração vindo. Eu apavorei e quis sair correndo, fiquei com medo, não deixei a miração fluir. Fui entender depois que eu tinha que fazer o contrário, tinha que relaxar, respirar fundo, e me entregar pois ali tinha um ensinamento. Ao invés disso eu corri e tomei a maior peia, quase cai no meio do salão e só não cai lá fora no terreiro porque um fiscal me ajudou. Fiquei lá fora com medo de entrar. A verdade é que eu não estava preparado para a miração58.

O motivo da peia foi, aparentemente, o despreparo do fardado em lidar com os efeitos do daime, embora a miração não lhe fosse de todo estranha, pois "mirava muito" antes de se fardar. Essa descrição completa, em parte, aquilo que foi dito sobre ficar no salão quando a peia desce. O que ficou da experiência não foi a miração, que não se concretizou, mas a peia e o entendimento da falha cometida, isto é, a necessidade de relaxar e se entregar para a força. O relato sobre o seu "erro" diz respeito a um aspecto técnico do ritual, o qual não conhecia completamente. Outro relato dá conta da necessidade de preparo para "agüentar" a miração.

(R.C) Hoje em dia eu apanho, mas eu já consigo ficar mais esperto no que ele (o daime) está me falando, né ? Mas é difícil porque, às vezes, você acha que está mirando, mas você está é apanhando. Você não sabe definir qual é peia, qual é miração, né ? Miração sem firmeza vira peia porque é muita luz. O seu interior fica naquele patamar ali, e quando vem aquela luz, você leva peia. Eu considero a peia como apuração, você recebeu aquela miração assim, levou aquela peia... tá, na próxima vez que você receber aquela miração de novo, você vai estar apurado para recebê-la59.

Percebemos que aquilo que nos foi reportado como "peia por falta de firmeza" representa, também, uma peia que firma. Após a peia, o sujeito vê-se melhor preparado para vivenciar determinada situação, a forma de vencer um vício, uma experiência dentro do ritual, ou o que quer que seja. A recorrência no erro, no entanto, retorna a mesma peia, ou uma peia semelhante, de maior intensidade.

(L) A peia fortalece, você passa para crescer. Mesmo que às vezes você não entenda o motivo dela. Ela é para crescer. Você passa uma situação difícil que vai se desenvolvendo ao longo de 2, 3, 4 trabalhos. E vai se desenvolvendo e você fala "eu não quero mais isso", e vai levando, você vai levar aquilo em frente e você vai sair daquilo. Quando enfim você descobre porque você passou aquilo. Aí você olha para trás e vê por onde você passou60.

Dentro dessa lógica, a peia é instrumento do daime para quebrar as resistências que agem contra o processo de transformação e cura. Na corrente, a firmeza de cada um está diretamente associada à capacidade de permanecer em seu lugar, independentemente do que possa ocorrer durante o trabalho, firmado no hinário, cantando com fé e alegria.

Por fim, a idéia de firmeza permeia todos os outros tipos de peia já descritos, a peia de pensamento, por despreparo, por desatenção, etc., e não representa uma atitude adquirida. Ela deve ser, a todo momento, exercitada e renovada, tanto no ritual como na vida. A peia age, nesse sentido, como uma motivadora para que a firmeza se perpetue.



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