Lee child alerta final



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LEE CHILD
ALERTA FINAL
Tradução Daniel Estill
BERTRAND BRASIL

2012
Para minha filha, Ruth. No passado, a melhor criança do mundo, agora, uma a quem sinto orgulho de chamar de minha amiga.





Prólogo
Hook Hobie devia sua vida inteira a um segredo de quase trinta anos. Sua liberdade, seu status, seu dinheiro, tudo. E, como qualquer sujeito cuidadoso nessa situação particular, estava disposto afazer o que fosse preciso para proteger seu segredo. Porque tinha muito a perder. A vida inteira.

A proteção na qual se sustentava havia quase trinta anos baseava-se em apenas duas coisas. As mesmas duas coisas que qualquer pessoa usa para se proteger do perigo. Da mesma forma que um país se protege de um míssil inimigo, da mesma forma que o morador de um apartamento se protege de um ladrão, da mesma forma que um boxeador fecha a guarda contra uma tentativa de nocaute. Detecção e resposta. Fase um, fase dois. Primeiro você identifica a ameaça, depois você reage.

A fase um era o sistema de alarme preliminar. Havia sido modificado ao longo dos anos, assim como as circunstâncias haviam mudado. Agora, estava bem-ensaiado e simplificado. Constituía-se de duas camadas, como dois fios de alarme concêntricos. O primeiro estava a dezoito mil quilôme­tros de casa. Era um sinal de alerta muito antecipado. Uma chamada para despertar. Avisaria que eles estavam se aproximando. O segundo estava oito mil quilômetros mais próximo, mas ainda a 10 mil quilômetros de distância.

Uma ligação do segundo ponto avisaria que eles estavam prestes a chegar muito perto. Serviria para avisar que a fase um chegara ao fim e que a fase dois estava começando.

A fase dois era a reação. Ele sabia muito bem qual deveria ser. Passara quase trinta anos pensando nisso, mas só havia uma única reação viável. E era fugir. Desaparecer. Ele era um cara realista. Durante toda a vida, or­gulhara-se de sua coragem e sua astúcia, de sua tenacidade e sua fortaleza. Sempre fizera o necessário sem pensar duas vezes. Mas sabia que, ao ouvir os sinais de alerta daqueles distantes fios de alarme, tinha que sair de lá. Porque nenhum homem seria capaz de sobreviver ao que viria depois dele. Nenhum homem. Nem mesmo alguém tão implacável quanto ele.

O perigo subira e descera, como a maré dos anos. Por longos períodos, estivera certo de que seria inundado a qualquer momento. Para então serem substituídos por longos períodos em que nada parecia ser capaz de atingi-lo. Às vezes, a sensação de amortecimento do tempo fazia com que ele se sentisse seguro, afinal, trinta anos é uma eternidade. Mas, outras vezes, parecia um piscar de olhos. Às vezes, ficava à espera da primeira ligação hora após hora. Planejando, suando, mas sempre ciente de que poderia ser forçado a fugir a qualquer momento.

Ele ensaiara tudo em sua mente milhões de vezes. Do jeito que ele espe­rava, a primeira ligação viria talvez um mês antes da segunda. Seria um mês para se preparar. Amarraria as pontas soltas, fecharia as coisas, sacaria o dinheiro, faria a transferência dos ativos, acertaria as contas. Depois, quando recebesse a segunda ligação, decolaria. Imediatamente. Sem hesitação. Era só se mandar e ficar bem longe.

Mas, do jeito que aconteceu, as duas ligações chegaram no mesmo dia. A segunda veio antes da primeira. O fio de alarme mais próximo foi detonado uma hora antes do mais distante. E Hook Hobie não fugiu. Abandonou trinta anos de planos cuidadosos e ficou lá para encarar a briga.


1
JACK REACHER VIU O CARA ENTRAR PELA PORTA. Na verdade, não havia porta. O cara apenas entrou pela par­te da parede da frente que não estava lá. O bar abria direto para a calçada. Havia mesas e cadeiras lá fora, sob uma tre­padeira seca, que ainda dava um mínimo de sombra. Era um ambiente contínuo, de dentro para fora, passando por uma parede que não existia. Reacher achava que poderia haver algum tipo de grade que poderiam prender na abertura, quando o bar fe­chasse. Se fechasse. Reacher certamente nunca vira o bar fechar, e olha que ele cumpria um horário de trabalho bem radical.

O cara ficou em pé, esperando, alguns metros dentro da sala escura, piscando, deixando que os olhos se acostumassem à penumbra, após sair do branco escaldante do sol de Key West. Era junho, exatamente quatro da tarde, na parte mais ao sul dos Estados Unidos. Mais ao sul até do que a maior parte das Bahamas. Um sol branco e intenso, um calor extremo. Reacher sentou à mesa, no fundo do bar, bebeu um gole-d'água de uma garrafa plástica e esperou.

O cara olhava em torno. O bar tinha teto baixo, era construído com tábuas velhas, ressecadas e até ficarem bem escuras. Pareciam ter vindo de um daqueles velhos veleiros. Pedaços espalhados de sucata náutica estavam pregados nelas. Objetos de latão e globos de vidro verde. Pedaços de redes velhas. Equipamento de pesca, era o que Reacher achava, apesar de nunca ter pescado um peixe na vida. Ou velejado. Além de tudo aquilo, havia uns dez mil cartões de visita pregados ao longo de cada centímetro quadrado livre, incluindo o teto. Alguns deles eram novos, outros, velhos e enrola­dos, representando empreendimentos que haviam passado por lá décadas atrás.

O cara avançou um pouco mais pela penumbra, na direção do balcão. Era velho. Uns sessenta anos, altura média, corpulento. Um médico o teria considerado acima do peso, mas Reacher viu apenas um homem robusto começando a descer a ladeira. Um sujeito que encarava a passagem do tem­po com elegância, sem se preocupar muito com isso. Estava vestido como alguém de uma cidade do norte que precisou se arrumar às pressas para viajar para um lugar quente. Calças cinza leves, largas no alto, estreitas na base, um paletó bege fino e amassado, uma camisa branca com o colari­nho bem aberto, mostrando a pele branco-azulada do pescoço, meias es­curas, sapatos urbanos. Reacher desconfiou que ela era de Nova York ou de Chicago, talvez de Boston, tendo passado a maioria de seus verões no ar condicionado dos prédios ou dos carros; essas calças e esse paletó ficaram enfiados no fundo do armário desde que foram comprados, uns vinte anos antes, e saíam de lá apenas de vez em quando, para serem usados em situa­ções apropriadas.

O cara chegou até o balcão e tirou a carteira de dentro do paletó. Estava recheada e era feita de couro preto fino. O tipo de carteira que se molda em torno do que quer que estivesse enfiado lá dentro. Reacher viu o cara abri-la com um movimento rápido, mostrá-la para o barman e fazer uma pergunta em voz baixa. O barman olhou para outro lado, como se tivesse sido insul­tado. O cara afastou a carteira e ajustou as mechas grisalhas do cabelo sobre o couro cabeludo suado. Murmurou outra coisa, e o barman tirou uma cer­veja duma caixa de gelo. O velho segurou a garrafa fria contra o rosto por um momento e depois deu um longo gole. Arrotou discretamente por trás da mão e sorriu, como se uma pequena decepção tivesse sido amenizada.

Reacher acompanhou seu gole longo fazendo o mesmo com a garrafa-d'água. O sujeito que tinha o melhor condicionamento físico que ele já co­nhecera fora um soldado belga que jurava que a chave para a boa forma era fazer qualquer coisa que você estivesse a fim, desde que bebesse cinco litros de água mineral todos os dias. O belga era um sujeito pequeno e magro, com metade do seu tamanho, portanto, em vez de cinco, Reacher teria que beber dez litros por dia. Dez garrafas de um litro. Seguiu a recomendação desde que chegara ao calor das Keys. Estava funcionando. Nunca se sentira melhor. Todos os dias, às quatro da tarde, ele se sentava àquela mesa escura e bebia três garrafas de água sem gás, à temperatura ambiente. Estava tão viciado em água como já tinha sido em café.



O velho estava encostado de lado no balcão, ocupado com sua cerve­ja. Varrendo a sala com os olhos. Reacher era a única pessoa lá, além do barman. O velho afastou-se do balcão com um movimento do quadril e se aproximou. Balançou a cerveja com um gesto vago, como se perguntasse posso ir até aí? Reacher apontou para a cadeira diante dele e quebrou o lacre de plástico da terceira garrafa. O homem sentou-se pesadamente. A cadeira pareceu estar sendo esmagada por ele. Era o tipo de cara que guarda chaves, dinheiro e lenço nos bolsos das calças, o que aumentava a largura natural dos quadris.

  • Você é Jack Reacher? — perguntou.

Nada de Chicago ou Boston. Nova York, com certeza. A voz soava exa­tamente como a de um conhecido de Reacher que passara seus vinte pri­meiros anos sem nunca se afastar mais de cem metros da avenida Fulton.

  • Jack Reacher? — perguntou o velho de novo.

De perto, tinha olhos pequenos e espertos e sobrancelhas grandes. Reacher bebeu e olhou para ele através da água clara em sua garrafa.

  • Você é Jack Reacher? — perguntou o cara pela terceira vez.

Reacher colocou a garrafa na mesa e balançou a cabeça.

  • Não — mentiu.

Os ombros do velho caíram levemente, estava desapontado. Puxou o punho da camisa e olhou o relógio. Moveu sua massa para a frente na ca­deira, como se fosse levantar, mas sentou-se de volta, como se de repente houvesse tempo de sobra.

  • Quatro e cinco — disse.

Reacher concordou. O cara acenou com a garrafa vazia para o barman, que se abaixou para pegar outra gelada.

  • O calor — disse. — Me pega de jeito.

Reacher concordou de novo e tomou mais um gole da água.

  • Você conhece algum Jack Reacher por aqui? — perguntou o cara.

Reacher deu de ombros.

  • Alguma descrição? — perguntou de volta.

O cara deu um longo gole na segunda garrafa. Limpou os lábios com as costas da mão e aproveitou para esconder um segundo arroto discreto.

  • Na verdade, não. Um grandalhão, é tudo o que eu sei. Por isso que te perguntei.

Reacher assentiu.

  • Tem muitos grandalhões por aqui. Tem grandalhões em tudo quanto é lugar.

  • Mas você não conhece o nome?

  • Deveria? — perguntou. — E quem quer saber?

O cara sorriu e acenou com a cabeça, como um pedido de desculpas por um lapso de boas maneiras.

  • Costello — respondeu. — Prazer em conhecê-lo.

Em resposta, Reacher assentiu de volta e levantou a garrafa levemente.

  • Rastreador? — perguntou.

  • Detetive particular — respondeu Costello.

  • Procurando um cara chamado Reacher? — perguntou Reacher. — O que ele fez?

Costello deu de ombros.

  • Nada, pelo que sei. Apenas me pediram para encontrá-lo.

  • E você acha que ele está aqui embaixo?

  • Estava na semana passada. Ele tem uma conta bancária em Virgínia e está mandando dinheiro para lá.

  • Daqui de baixo, de Key West?

Costello concordou.

  • Toda semana — respondeu. — Há três meses.

  • E daí?

  • Daí que ele está trabalhando por aqui — disse Costello. — Pelo me­nos, tem trabalhado, há três meses. Acho que alguém deve conhecê-lo.

  • Mas ninguém conhece — disse Reacher.

Costello balançou a cabeça.

  • Subi e desci a Duval perguntando para todo mundo. Parece que é ali que a ação acontece nesta cidade. O mais próximo que cheguei foi num bar de strippers, uma garota de lá disse que tinha um sujeito grandão por aqui, há exatos três meses, que vinha beber água todo dia, às quatro horas, aqui.

Ele ficou em silêncio, olhando firme para Reacher, como se fizesse um desafio direto. Reacher tomou um gole da água e encolheu os ombros.

  • Coincidência — disse.

Costello concordou.

  • Acho que sim — disse em voz baixa.

Ele levou a garrafa de cerveja até os lábios e bebeu, mantendo seus sá­bios e velhos olhos focados no rosto de Reacher.

  • Tem uma grande população temporária aqui — disse Reacher. — As pessoas vêm e vão o tempo todo.

  • Acho que sim — repetiu Costello.

  • Mas vou ficar de ouvidos abertos — disse Reacher.

Costello concordou.

  • Eu agradeço — respondeu de um jeito ambíguo.

  • Quem quer encontrá-lo? — perguntou Reacher.

  • Minha cliente — respondeu Costello. — Uma senhora chamada Jacob.

Reacher tomou um gole da água. Aquele nome não significava nada para ele. Jacob? Nunca ouvira falar dessa pessoa.

  • Está bem. Se encontrá-lo por aqui, eu te aviso, mas não fique muito esperançoso. Não costumo encontrar muita gente.

  • Você trabalha?

Reacher assentiu.

  • Cavo piscinas — respondeu.

Costello ponderou, como se soubesse o que eram piscinas, mas como se nunca tivesse parado para pensar como elas chegavam lá.

  • Operador de escavadeira?

Reacher sorriu e balançou a cabeça.

  • Não por aqui — respondeu. — Nós escavamos com as mãos.

  • Com as mãos? — repetiu Costello. — Como assim? Com pás?

  • Os terrenos são muito pequenos para as máquinas — explicou Reacher. — As ruas são muito estreitas, as árvores, muito baixas. Saia da Duval e você vai ver.

Costello concordou mais uma vez. De repente, pareceu muito satisfeito.

  • Então provavelmente não vai conhecer esse tal de Reacher — disse. — Segundo a sra. Jacob, ele era um oficial do Exército. Então fui verificar, e ela estava certa. Era um major. Medalhas e tudo o mais. Um manda-chuva da Polícia do Exército, foi o que me disseram. Não se encontra um cara desses cavando piscinas com uma porcaria de pá.

Reacher tomou um longo gole em sua água para esconder sua expres­são.

  • E como se encontra um cara desses?

  • Aqui no sul? — perguntou Costello. — Não tenho certeza. Segu­rança de hotel? Tocando algum tipo de negócio? Talvez tenha um iate e o alugue para passeios.

  • E por que ele teria vindo parar aqui, afinal?

Costello concordou, como se estivesse concordando com uma opinião.

  • Certo — disse ele. — Isso aqui é um inferno. Mas ele está aqui, com toda certeza. Deixou o Exército há dois anos, colocou o dinheiro no ban­co mais próximo do Pentágono e desapareceu. A movimentação da conta mostra o dinheiro sendo transferido pra tudo quanto é lugar, e depois, há três meses, as transferências passaram a sair daqui. Então, ele andou por aí por um tempo e depois se ajeitou por aqui, fazendo alguma grana. Vou encontrá-lo.

Reacher assentiu.

  • Ainda quer que eu pergunte por aí?

Costello balançou a cabeça. Já estava planejando o próximo movi­mento.

  • Não se preocupe com isso — respondeu ele.

Ajeitou o corpanzil na cadeira e tirou um rolo amassado de dinheiro do bolso da calça. Deixou uma nota de cinco sobre a mesa e se afastou.

  • Prazer em conhecê-lo — disse em voz alta, sem olhar para trás.

Caminhou para a rua, passou pela parede inexistente, entrou no clarão da tarde. Reacher bebeu o que restava da água e o observou ir embora. Às quatro e dez.

Uma hora mais tarde, Reacher descia a avenida Duval, pensando em novos acertos bancários, escolhendo um lugar para jantar mais cedo e se pergun­tando por que mentira para Costello. Sua primeira conclusão foi que iria sacar o dinheiro e ficar com um maço de notas no bolso da calça. A segun­da foi que iria seguir o conselho de seu amigo belga e comer um bife grande e sorvete com mais duas garrafas de água. A terceira foi que havia mentido porque não havia razão para não mentir.

Não havia motivo algum para que um detetive particular de Nova York estivesse atrás dele. Jamais tinha morado em Nova York. Ou em qualquer outra cidade grande do norte. Na verdade, nunca tinha morado em lugar algum. Essa era a característica que definia sua vida. Era o que o fazia ser quem era. Filho de um oficial dos Fuzileiros Navais, fora carregado para todos os cantos do mundo desde o dia em que sua mãe saiu com ele da maternidade, em uma enfermaria em Berlim. Não tinha morado em lugar algum, a não ser em uma interminável confusão de bases militares, a maio­ria em locais distantes e inóspitos do planeta. Então, também se alistou no Exército, como investigador da Polícia do Exército, e viveu e trabalhou nas mesmas bases, tudo de novo, até os dividendos da paz fecharem sua unida­de e ele ser liberado. Voltou para casa, nos Estados Unidos, e vagueou por lá como um turista com pouco dinheiro, até chegar à extremidade do país, com as economias chegando ao fim. Passara uns dois dias cavando buracos no chão, os dois dias se estenderam por duas semanas e depois meses, e lá estava ele.

Não tinha parentes vivos que pudessem lhe deixar uma fortuna em testamento. Não devia dinheiro para ninguém. Nunca tinha roubado ou enganado qualquer pessoa. Não tivera filhos. Vivia apenas com alguns pedaços de papel, da maneira que seria possível a um ser humano viver. Era praticamente invisível. E jamais conhecera alguém chamado Jacob. Tinha absoluta certeza disso. Então, o que quer que Costello quisesse não lhe interessava. Por certo não o suficiente para botar a cabeça para fora e se envolver com o que quer que fosse.

Porque ser invisível tornara-se um hábito. Na parte frontal de seu cére­bro, ele sabia que isso era algum tipo de reação complexa e alienada à sua situação. Dois anos antes, tudo tinha virado de cabeça pra baixo. Ele dei­xara de ser um peixão nadando num pequeno lago e passara a ser um nin­guém. Deixara de ser um membro sênior, valorizado, de uma comunidade altamente estruturada para se tornar apenas mais um entre 270 milhões de civis anônimos. De ser necessário e procurado para ser apenas alguém sobrando. De estar onde lhes diziam que deveria estar a cada minuto do dia para se ver diante de cinco milhões de quilômetros quadrados e talvez mais uns quarenta anos pela frente, sem qualquer mapa ou horário. A par­te frontal do seu cérebro dizia-lhe que sua reação era compreensível, mas defensiva, a reação de um homem que gostava de estar só, mas que temia a solidão. Dizia-lhe que era uma reação extrema com a qual deveria lidar.

Mas a parte oculta do seu cérebro, enterrada atrás dos lobos frontais, dizia que ele gostava daquilo. Gostava do anonimato. Gostava do segredo. Sentia-se aquecido, confortável e reconfortado. Zelava por aquilo. Sentia-se amistoso e gregário na superfície, sem jamais falar muito de si mesmo. Gostava de pagar em dinheiro e viajar pelas estradas. Jamais aparecia nas listas de passageiros ou nos carbonos dos canhotos de cartão de crédito. Não dizia seu nome a ninguém. Em Key West, havia se registrado num hotel barato com o nome Harry S. Truman. Dando uma olhada no livro de registro, viu que não tinha sido o único. A maioria dos 41 presidentes dos EUA havia passado por lá, mesmo aqueles de quem ninguém ouvira falar, como John Tyler e Franklin Pierce. Descobrira que os nomes não signifi­cavam muito nas Keys. As pessoas apenas acenavam, sorriam e davam um oi. Todo mundo presumia que todos tinham algum motivo para se manter discretos. Sentia-se confortável lá. Confortável demais para sair apressado.

Caminhou por uma hora em meio ao calor barulhento e depois saiu da Duval, indo para um restaurante discreto, com mesas num pátio, onde o conheciam de vista e serviam sua marca de água favorita, além de um bife cujas beiradas sobravam pelos dois lados do prato ao mesmo tempo.

O bife veio com um ovo, batatas fritas e uma mistura complicada de algum tipo de verdura de climas quentes; o sorvete veio com calda de chocolate quente e castanhas. Bebeu mais um litro de água e completou com duas xí­caras de café preto forte. Afastou-se da mesa e ficou sentado ali, satisfeito.



  • Tudo certo? — a garçonete sorriu.

Reacher sorriu de volta e concordou com a cabeça.

  • No ponto certo — respondeu ele.

  • Você parece ter ficado satisfeito.

  • Estou ótimo.

Era verdade. Seu próximo aniversário seria o trigésimo nono, mas ele se sentia melhor do que nunca. Sempre fora forte e estivera em boa forma, mas os últimos três meses o levaram a um novo patamar. Tinha dois metros e pesava uns cem quilos quando deixara o Exército. Um mês depois de se juntar à turma das piscinas, o trabalho e o calor o deixaram com 95 quilos.

Mas, nos dois meses seguintes, havia recuperado todo o peso e chegado a 113 quilos de puro músculo. Sua carga de trabalho era extraordinária. Ele calculava carregar cerca de quatro toneladas de terra, pedras e areia todos os dias. Tinha desenvolvido uma técnica de escavação, remoção, giro e descarga da terra com sua pá que fazia com que cada parte do seu corpo trabalhasse o dia inteiro. O resultado era espetacular. Estava bronzeado, um marrom-escuro, e na melhor forma de sua vida. Como uma camisinha cheia de amêndoas, é o que uma garota lhe dissera. Ele achava que tinha que comer cerca de dez mil calorias por dia só para manter o equilíbrio, além de beber os dez litros de água.



  • Então vai trabalhar hoje à noite? — perguntou a garçonete. Reacher deu uma gargalhada. Ganhava por um programa de exercícios

pelo qual a maioria das pessoas pagaria uma fortuna em qualquer academia reluzente e agora ia para seu trabalho noturno, algo pelo qual era pago mas que a maioria dos homens faria de graça e com boa vontade. Era o porteiro no bar de strippers que Costello mencionara. Na Duval. Ficava lá a noite toda sem camisa, com cara de durão, bebendo de graça e garantindo que as moças nuas não fossem incomodadas. E então lhe pagavam cinqüenta dólares pelo serviço.

  • E uma obrigação, mas alguém precisa fazer o serviço.

A garota deu uma risada com ele, que pagou a conta e voltou para a rua.

Dois mil e quatrocentos quilômetros ao norte, logo abaixo de Wall Street, na cidade de Nova York, o presidente da empresa pegou o elevador para descer dois andares, até a sala do diretor financeiro. Os dois homens en­traram juntos no escritório e se sentaram lado a lado, atrás da mesa. Era o tipo de escritório caro, com uma mesa cara, típicos de quando os tempos estavam favoráveis, mas que depois ficaram lá, como uma muda reprova­ção, quando os tempos ficavam difíceis. O escritório ficava num andar alto, carvalho por toda parte, cortinas de tecido claro, toques de bronze, uma enorme mesa de pedra, uma luminária italiana, um enorme computador que custou bem mais do que o necessário. O computador estava ligado, esperando por uma senha. O presidente digitou o código e teclou ENTER, a tela se transformou numa planilha. Era a única planilha que contava a verdade sobre a empresa. E por isso era protegida por senha.



  • Vamos mesmo fazer isso? — perguntou o presidente.

Aquele tinha sido do Dia D. D de downsizing, a reestruturação, na lin­guagem dos negócios.

O gerente de recursos humanos estava na fábrica, em Long Island, ocu­pado desde às oito da manhã. A secretária dele ajeitara uma longa fila de cadeiras no corredor, do lado de fora do escritório, e as cadeiras estavam ocupadas por uma longa fila de pessoas. As pessoas passaram a maior parte do dia à espera, mudando de lugar de cinco em cinco minutos para final­mente chegar ao começo da fila e entrar na sala do gerente de RH para uma entrevista de cinco minutos que dava cabo de sua subsistência, um muito obrigado e adeus.



  • Vamos mesmo fazer isso? — repetiu o presidente.

O diretor financeiro estava copiando alguns números grandes em uma folha de papel. Subtraiu um do outro e olhou para um calendário. Deu de ombros.

  • Em tese, sim — respondeu. — Na prática, não.

  • Não? — repetiu o presidente.

  • É o fator tempo — disse o diretor financeiro. — Fizemos a coisa certa lá na fábrica, sem dúvida. Oitenta por cento das pessoas se foram, uma eco­nomia de 91 por cento da folha de pagamento, porque mantivemos apenas os funcionários mais baratos. Mas pagamos a todos até o fim do mês que vem. Assim, a melhoria do fluxo de caixa não nos afeta por seis semanas. E, na verdade, o fluxo de caixa agora fica bem pior, porque os cretinos estão todos lá sacando seus cheques correspondentes a seis semanas de trabalho.

O presidente suspirou e concordou.

  • Então, de quanto precisamos?

O diretor financeiro usou o mouse e ampliou a janela.

  • Um milhão e cem mil dólares — respondeu. — Por seis semanas.

  • Banco?

  • Esqueça — o diretor financeiro disse. — Estou indo lá todo dia para puxar o saco dos caras, só para não aumentar o que já devemos a eles. Se eu pedir mais, vão rir da minha cara.

  • Coisas piores podem acontecer com você — disse o presidente.

  • Não é essa a questão — respondeu o diretor financeiro. — A questão é que, se eles tiverem algum sinal de que não estamos saudáveis, vão execu­tar a dívida. Num piscar de olhos.

O presidente tamborilou com os dedos sobre a mesa de carvalho e en­colheu os ombros.

  • Vou vender algumas ações — disse.

O diretor financeiro balançou a cabeça.

  • Você não pode — explicou pacientemente. — Se colocar essas ações no mercado, o preço vai despencar até o chão. Nossos empréstimos estão garantidos pelas ações e, se elas caírem ainda mais, eles nos fecharão ama­nhã.

  • Merda — disse o presidente. — Faltam ainda seis semanas. Não vou perder tudo por causa de uma porcaria de seis semanas. Não por uma merreca de um milhão de dólares. É um valor insignificante.

  • Um valor insignificante que nós não temos.

  • Tem que haver algum lugar onde a gente consiga isso.

O diretor financeiro não respondeu nada. Mas estava sentado ali, como se tivesse algo mais a dizer.

  • O quê? — perguntou o presidente.

  • Ouvi uma conversa — disse. — Uns caras que eu conheço. Talvez tenha alguém a quem possamos recorrer. Por seis semanas, pode valer a pena. Tem uma possibilidade de que ouvi falar. Algo do tipo um credor de último recurso.

  • Confiável?

  • Aparentemente — o diretor financeiro disse. — Parece muito res­peitável. Um escritório grande no World Trade Center. Especializado em casos assim.

O presidente olhou para a tela.

  • Casos assim como?

  • Assim — o diretor financeiro repetiu. — Como quando você já está quase chegando em casa a salvo, mas os bancos têm a visão curta demais para perceber.

O presidente concordou com a cabeça e olhou em torno do escritório. Era um lugar bonito. E seu próprio escritório ficava dois andares acima, num canto, era ainda mais bonito.

  • Está bem — disse. — Pode fazer isso.

  • Eu não posso — disse o diretor financeiro. — Esse cara não lida com ninguém abaixo do nível da presidência. É você quem tem que ir lá.

Uma noite tranqüila começou no bar de strippers. Uma noite no meio de uma semana de junho, muito tarde para os pássaros fugindo do frio ou para o início da primavera, mas cedo demais para os veranistas que iam se bronzear. Nada mais do que umas quarenta pessoas a noite toda, duas ga­rotas no bar, três outras dançando. Reacher estava assistindo a uma mulher chamada Crystal. Ele desconfiava que não fosse o nome verdadeiro dela, mas nunca perguntou. Era a melhor. Ganhava muito mais do que Reacher ganhara como major da Polícia do Exército. Uma parte do dinheiro ela gastava para andar num velho Porsche preto. Às vezes, Reacher o ouvia no início da tarde, roncando e bufando em volta dos quarteirões onde ele estava trabalhando.

O bar ficava numa sala comprida, no segundo andar, com uma pista e um pequeno palco circular com uma barra brilhante. Uma fila de cadeiras serpenteava ao redor da pista e do palco. Havia espelhos por toda parte, e, onde não eram cobertas por eles, as paredes eram pintadas de preto liso. Todo o lugar pulsava e vibrava com a música alta saindo de meia dúzia de alto-falantes, suficientes para abafar o ronco do ar-condicionado.



Reacher estava de costas para o bar, a um terço do caminho do salão. Perto o suficiente da porta para ser visto de imediato e suficientemen­te dentro da sala para que as pessoas não esquecessem que ele estava lá. Crystal tinha acabado sua terceira dança e estava arrastando um cara ino­fensivo para os bastidores, para um show particular de vinte pratas, quan­do Reacher viu dois homens surgirem no alto da escada. Gente estranha, vindo do norte. Talvez uns trinta anos, sarados, pálidos. Ameaçadores. Caras durões do norte, com ternos de mil dólares e sapatos brilhantes. Ali no sul, com um jeito apressado, ainda vestindo as roupas da cidade. Esta­vam diante da mesa e discutiam sobre a taxa de três dólares de consumação. A garota na mesa olhou ansiosamente para Reacher. Ele desceu de sua ban­queta. Aproximou-se.

  • Algum problema, amigos? — perguntou.

Tinha usado o que chamava de andar de universitário. Já tinha ob­servado que os meninos universitários andavam de um jeito tenso, como se mancassem um pouco. Especialmente na praia, com calção de banho. Como se fossem tão musculosos que as pernas não podiam se mover nor­malmente. Achava que isso tornava aqueles adolescentes de setenta quilos um tanto cômicos. Mas aprendera que, para um cara de quase dois metros e uns 115 quilos, o andar parecia bem assustador. O andar de universitário era uma ferramenta de seu novo emprego. Uma ferramenta que funciona­va. Com certeza, os dois rapazes, com seus ternos de mil dólares, pareciam um tanto impressionados.

  • Algum problema? — perguntou de novo.

Em geral, aquilo era o bastante. A maioria dos rapazes recuava nesse ponto. Mas não esses dois. Ao se aproximar, sentiu algo vindo deles. Uma certa combinação de ameaça e confiança. Talvez fosse arrogância. Algo que sugeria que, em geral, conseguiam fazer as coisas do jeito deles. Mas esta­vam longe de casa. Bem longe do próprio campo de jogo para se comportar com um pouco mais de circunspecção.

  • Nenhum problema, Tarzan — respondeu o da esquerda.

Reacher sorriu. Já havia sido chamado de um monte de coisas, mas Tarzan era novidade.

  • Três dólares para entrar — disse. — Mas para dar meia-volta e descer a escada é de graça.

  • A gente só quer falar com uma pessoa — disse o da direita.

Os dois tinham sotaque. De algum lugar de Nova York. Reacher deu de ombros.

  • A gente não conversa muito por aqui — respondeu. — A música é muito alta.

  • Qual é o seu nome? — perguntou o da esquerda. Reacher sorriu novamente.

  • Tarzan — respondeu.

  • Estamos procurando um cara chamado Reacher — o homem devol­veu. — Jack Reacher, conhece?

Reacher balançou a cabeça.

  • Nunca ouvi falar — disse ele.

  • Então, precisamos conversar com as meninas — disse o cara. — Nos disseram que talvez elas o conheçam.

Reacher balançou a cabeça novamente.

  • Não conhecem — disse.

O cara da direita olhava por cima do ombro de Reacher, para a sala longa e estreita. Examinava as garotas atrás do balcão. Estava percebendo que Reacher era o único segurança de plantão.

  • Está bem, Tarzan, chega para lá — disse. — A gente vai entrar agora.

  • Vocês sabem ler? — perguntou Reacher. — Até as palavras grandes?

Ele apontou para um cartaz pendurado acima da mesa. Letras grandes de tinta fluorescente sobre um fundo preto. Dizia: "A gerência reserva-se o direito de recusar a admissão."

  • Eu sou a gerência — disse Reacher. — Estou recusando a admissão de vocês.

O homem olhou da placa para a cara de Reacher.

  • Precisa de tradução? — perguntou Reacher. — Em palavras de uma sílaba? Significa que sou o chefe e vocês não podem entrar.

  • Me poupe, Tarzan — o sujeito disse.

Reacher deixou que ele se aproximasse, até ficarem ombro a ombro. Então, ergueu a mão esquerda e o segurou pelo cotovelo. Segurou a articu­lação com a palma da mão e enfiou os dedos nos nervos da parte inferior do tríceps do sujeito. É como levar golpes contínuos no osso do cotovelo. O sujeito começou a pular como se estivesse recebendo descargas de ele­tricidade.

  • Para a escada — disse Reacher gentilmente.

O outro cara estava ocupado, calculando as chances. Reacher percebeu o que ele estava fazendo e avaliou que estava na hora de deixar as coisas bem às claras. Ergueu a mão direita até o nível dos olhos para confirmar que ela estava livre e pronta para entrar em ação. Era uma mão grande, morena, cheia de calos causados pela pá, e o cara entendeu o recado. Deu de ombros e começou a descer a escada. Reacher o seguiu, levando o colega com firmeza pelo braço.

  • Vamos nos ver de novo — disse o sujeito.

  • Traga todos os seus amigos! — falou Reacher em voz alta, escada abaixo. — Três dólares cada para entrar.

Ele se voltou para o salão. Crystal estava em pé, logo atrás dele.

  • O que eles queriam? — perguntou ela.

Ele deu de ombros.

  • Estavam procurando uma pessoa.

  • Alguém chamado Reacher?

Ele concordou.

  • Segunda vez hoje — disse ela. — Teve um coroa aqui antes. Ele pa­gou os três dólares. Quer ir atrás deles? Conferir quem são?

Ele hesitou. Ela pegou a camisa dele de cima da banqueta do bar e es­tendeu para ele.

  • Vai lá — disse ela. — Está tudo bem por aqui. A noite está calma.

Ele pegou a camisa. Acertou as mangas, que estavam do avesso.

  • Obrigado, Crystal — disse.

Vestiu e abotoou a camisa, e dirigiu-se para a escada.

  • De nada, Reacher — respondeu ela mais alto.

Ele se virou, mas ela já estava voltando para o palco. Ele olhou fixamen­te para a garota da mesa e saiu para a rua.

Key West às 11 da noite é tão animada quanto de dia. Algumas pessoas estão no meio da noitada, outras estão apenas começando. Duval é a rua principal, percorre toda a ilha, de leste a oeste, bem iluminada e barulhenta.

Reacher não estava preocupado se os caras estavam esperando por ele na Duval. Muita gente. Se tivessem a intenção de se vingar, escolheriam um local mais discreto. Havia boas opções. Fora da Duval, especialmente para o norte, as coisas se acalmavam depressa. A cidade é uma miniatura. As quadras são minúsculas. Uma pequena caminhada, e você já percorreu vinte quadras, para um lugar que Reacher considerava o subúrbio, onde cavava piscinas em pequenos quintais, nos fundos de pequenas casas. A iluminação da rua diminuía, e o ruído dos bares desaparecia em meio ao zumbido intenso dos insetos noturnos. O cheiro de cerveja e fumaça era substituído pelo odor pesado da vegetação tropical que brotava e morria nos jardins.

Ele caminhou por uma espécie de espiral em meio à escuridão. Viran­do ao acaso pelas esquinas, circulando por áreas silenciosas. Ninguém por perto. Caminhava pelo meio da rua. Ninguém se escondendo nos umbrais, ele queria deixar quatro ou cinco metros de espaço aberto para se resguar­dar. Não temia ser atingido por um tiro. Os caras não tinham armas. Os ternos comprovavam isso. Justos demais para esconder armas. E os trajes diziam que tinham ido para o sul com pressa. De avião. Não é fácil entrar num avião armado.

Desistiu depois de caminhar quase dois quilômetros. A cidade era pe­quena, mas mesmo assim grande o bastante para que dois sujeitos se per­dessem no meio dela. Virou para a esquerda, margeando o cemitério, e seguiu de volta para o barulho. Havia um cara na calçada, encostado na cerca de aramado. Esparramado e inerte. Não era uma visão incomum em Key West, mas havia algo errado. E algo familiar. O que estava errado era o braço do sujeito. Estava preso sob o corpo. Os tendões do ombro deveriam estar doendo o bastante para cortar a bebedeira ou o barato em que o sujei­to poderia estar. O que havia de familiar era a claridade de um velho paletó bege. A metade superior do cara estava sob a luz, a outra metade estava no escuro. Paletó bege, calça cinza. Reacher parou e olhou ao redor. Caminhou até lá. Agachou-se.

Era Costello. Seu rosto transformado em uma massa.

Uma máscara de sangue. Rios de sangue incrustados e marrons por todo o triângulo de pele pálida, azulada, da cidade aparecendo sob a gola da camisa. Reacher sentiu o pulso atrás da orelha. Nada. Tocou a pele com as costas da mão. Frio. Não havia rigor, mas era uma noite quente. O cara estava morto havia uma hora, talvez.

Verificou dentro do paletó. A carteira recheada desaparecera. Então, ele viu as mãos. As pontas dos dedos tinham sido cortadas. Dos dez dedos. Cortes rápidos e eficientes em ângulo, com algo limpo e afiado. Não um bisturi. Uma lâmina maior. Talvez uma faca curva de cortar carpete.




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