Lelé e a Arquitetura Moderna Brasileira



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Lelé e a Arquitetura Moderna Brasileira










Escrito por Luiz Recamán   


Em sua versão hegemônica, e mais prolífera, a arquitetura brasileira moderna decantou o programa moderno no desenho de edifícios que recusam o diálogo com o meio urbano a que a princípio deveriam responder.

A arquitetura moderna brasileira constituiu um objeto arquitetônico peculiar dentro da tradição moderna, no qual vão aflorar suas mais contundentes aporias.

Por tratar, no limite, de radicais formulações modernas originais, esse objeto peculiar as completa e esclarece, e não abre mão da filiação.

Mantém funcionando ainda um sistema que nos últimos 30 anos aparece como superado (o projeto moderno).

Mas uma análise mais detida pode aproximar isso - que pode ser considerado o "capítulo conclusivo" (1) da modernidade cultural - desse ressurgimento, espetacular, da forma arquitetônica na produção contemporânea internacional.

Em sua versão hegemônica, e mais prolífera, a arquitetura brasileira moderna decantou o programa moderno no desenho de edifícios que recusam o diálogo com o meio urbano a que a princípio deveriam responder.

Por certo uma crítica ao caos da grande cidade brasileira, essa arquitetura formulou ora uma negação completa, ora uma introjeção indesejável dos mecanismos mais irracionais da produção urbana.

Por enquanto será suficiente considerar que a grande arquitetura brasileira do século 20 pretendeu opor um objeto arquitetônico à textura fragmentada e violenta dessas cidades, ainda que faça parte dessa lógica perversa -a produção de cidades na periferia do capitalismo- a excepcionalidade e a absorção produtiva dos contrários.

Apesar dos inúmeros pontos de aproximação entre a obra de Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas, um aspecto as distancia, a saber: enquanto o primeiro isola seu objeto sobre um fundo -paisagem natural exuberante ou caos urbano interrompidos por clareiras-vazios-, o segundo ocupa o retângulo estabelecido a priori, na divisão injusta da terra, para objetá-la numa contra-lógica intramuros.

O volume resultante, muitas vezes a extrusão da área do terreno disponível, instaura relações antagônicas com o entorno.

Para isso corroboram o contraste entre os materiais, o novo programa e a clareza construtiva que não ameniza na forma arquitetônica as contradições do processo de produção ao qual a arquitetura está submetida.

O primeiro mais diretamente -como podemos verificar no Memorial da América Latina (1987) ou no Museu de Niterói (1996)- e o segundo de uma forma ambígua e contraditória -como se verifica no edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (1961-69) e na série de residências- vão acabar por resumir a ação moderna à constituição de um objeto arquitetônico único.

Seu potencial simbólico -do qual a arquitetura moderna quis em vão se afastar- será explorado pelas circunstâncias sociais de diferentes maneiras e em diferentes tempos.

Hospital Sarah Kubitschek (Salvador/BA), projeto de João Filgueiras Lima

Outras vezes esses "objetos modernos" a princípio distintos vão se sobrepor, já que têm como matéria aspectos de um mesmo problema -a modernização "conservadora" que o país adotava e os seus impasses.

Não é esse o tema deste texto. Mas definir uma certa "condenação" ao objeto por parte da arquitetura brasileira, como realização final do programa moderno reificado, é fundamental.

Não basta acusá-la de formalista, de desvio etc., se não se acrescenta a essa crítica um sentido histórico, a ser encontrado nas mais profundas ambigüidades do movimento moderno original, da qual é, nesse sentido, o grande acerto.

Tais ambiguidades cristalizam-se nas soluções construtivas alcançadas e esclarecem-se a partir de uma análise criteriosa desses objetos. Talvez o lugar mais evidente onde esse processo ocorreu -a matriz da arquitetura moderna brasileira estabelecida essencialmente por Oscar Niemeyer- não seja o único material para explorar tais ambiguidades.

O mais camuflado, diga-se de passagem; e é hegemônica exatamente por isso: anula na aparência as ambiguidades do processo que ajuda a formalizar.

O exemplo mais claro dessa assimilação incompleta é a obra arquitetônica e teórica de Lúcio Costa, ao mesmo tempo mentor dessa matriz e seu crítico indireto.

Em sua obra encontram-se caminhos entreabertos, e que ele sabia não poder trilhar dentro da conjuntura conturbada a que respondia. Por sobre essas contradições, indica como síntese última da arquitetura moderna brasileira a obra do próprio Oscar Niemeyer. Mais que isso, tomou providências para que o talento inequívoco de seu discípulo para a composição moderna se consolidasse como a versão definitiva da arquitetura moderna brasileira (2).

Sua obra, porém, encaminha outras questões e evita outras tantas, formulando uma arquitetura em grande medida oposta à do discípulo predileto.

E é também Lúcio Costa quem joga luz sobre os desdobramentos dessa arquitetura quando, nos anos 80, diz, ao saudar um dos mais notáveis frutos dessa modernização arquitetônica, o arquiteto João Filgueiras Lima, dito Lelé: "Era o elemento que estava faltando para preencher grave lacuna no desenvolvimento da nossa arquitetura" (3).

Seria Lúcio Costa a aperceber-se, passadas décadas, dos problemas gerados por aquela arquitetura que ele aderira entusiasticamente nos anos 40 -de forte caráter inventivo e em busca exclusiva da beleza das formas de concreto?

Porque, ao ressaltar as características da obra de Lelé ("voltado para a tecnologia construtiva do 'pré-moldado', enfrenta e resolve de forma racional, econômica e com apurado teor arquitetônico os mais variados e complexos desafios que o mundo social moderno programa e impõe") explica, por oposição, a "grave lacuna" a que se referira: o afastamento do caráter construtivo e a ausência de programa social da arquitetura brasileira.

Como essa "síntese" não se disseminou (o aspecto construtivo da arquitetura, o programa social e a "arte") podemos, seguindo nossa hipótese inicial, concluir que a obra de Lelé, por tampouco sublimá-la, possui tensões não resolvidas, o que permitiria uma verificação, digamos, mais didática, dos conflitos existentes na modernização arquitetônica de um país periférico.

Em tempo: essa lacuna jamais poderia ser preenchida, e a obra de Lelé é um ensaio sobre tal impossibilidade.


Coisas inesperadas

O salto modernizante brasileiro em tudo se distingue de sua origem agrária, escravocrata e colonial. Mas funcionou muito bem, tendo em vista o resultado: destaca-se entre os maiores crescimentos industriais do século 20 em todo o planeta, senão o maior. Desarraigado e bem sucedido, sempre aparece como fruto do acaso.

Assim, a conversão de Lúcio Costa aos princípios da Nova Arquitetura, superando seu passado neocolonial, a solução do projeto fundante do Mesp, a própria modernização arquitetônica, sempre vem acompanhada de pequenas e grandes coincidências (4).

E é assim que o arquiteto João Filgueiras Lima reforça o mito e explica sua trajetória profissional: uma série de acasos, desde a escolha pela arquitetura, o encontro com Oscar Niemeyer, o acidente de automóvel que fez com que tomasse contato com a vida hospitalar por dois meses etc.

Passos fundamentais, para quem conhece a sua obra, recheados de "coisas inesperadas". E foi essa falta de programação que o levou, recém-formado, a ser um "construtor" em Brasília em 1957. Sua vocação para as artes plásticas não impediu que se envolvesse, sem nenhum preparo mais específico, com os problemas da construção e da engenharia civil.

A pressa (a cidade foi construída em três anos) e a necessidade de alojamentos provisórios fez com que buscasse as primeiras soluções de pré-fabricação em concreto.

Fundações, tubulões, instalações, traço do concreto, nada disso fazia parte de suas aptidões, mas são a base da pesquisa das técnicas de construção que vão caracterizar o seu trabalho a partir dessa experiência.

Um primeiro contraste: na cidade dos palácios exuberantes e excepcionais cuidou, na primeira fase, das técnicas da construção. Desde a construção dos alojamentos, da infra-estrutura e das superquadras -tudo a exigir regularidade, precisão, economia e adequação- até os grandes edifícios (Ministério da Justiça, do Exército, o Congresso Nacional etc.) -cujos aspectos construtivos são volta e meia criticados (5).

E nesse confronto (as soluções construtivas da regularidade e da excepcionalidade, herdadas em parte da lição corbusiana) vai amadurecer sua obra a partir da segunda metade da década de 60, quando viajou para os países do Leste Europeu a fim de conhecer as técnicas de pré-fabricação da construção, base dos programas de habitação social do "comunismo real".

Sediado em Brasília durante a ditadura militar, onde poderia exercitar os novos conhecimentos adquiridos? Leal servidor público (como o foram boa parte da intelligentsia do país, independente do grau de autoritarismo que invariavelmente acompanhou a frágil república brasileira a que serviram), terá como encomendas em Brasília: residência para ministros de Estado (1965), sede de uma distribuidora Volkswagen (1965), da Ford (1972), o Hospital da cidade satélite de Taguatinga (1968), o edifício da Portobrás (1974), os edifícios da Camargo Corrêa (1974) e algumas ilustres residências. Em Salvador: as Secretarias do Centro Administrativo da Bahia (1973), seu centro de exposições (1974) e sua igreja (1975).

A relação com Salvador se aprofundará a partir da segunda metade dos anos 70, onde passa a morar e a desenvolver seus principais projetos. Nesse primeiro momento -Brasília- não será mera coincidência essa tríade que foi responsável pela aceleração da modernização brasileira: o Estado, as montadoras de automóveis e as grandes empreiteiras.

A arquitetura brasileira do período tratou de dar forma a esse desconfortável arranjo: autoritarismo e crescimento (o "milagre econômico" promovido pela ditadura militar na primeira metade dos anos 70).

O que distingue sua obra é que nela o princípio moderno mais fiel ao programa construtivo original -a estandardização- resiste e se choca com a realidade do país.

Nesse período, a obra de Lelé -o mais importante arquiteto pesquisador da pré-fabricação no Brasil- não se diferenciava, aparentemente, dos temas gerais da arquitetura feita no país: o cliente estatal, o concreto, o grande vão, orçamentos generosos etc.

A não ser por sua insistência em desenvolver componentes pré-fabricados e a preocupação com as questões relativas ao conforto térmico das edificações (temas que, quando muito, faziam parte da retórica da arquitetura do período, raramente atingindo os projetos).


O plano corbusiano

Os grandes edifícios tornaram-se então um laboratório possível para a pesquisa dos elementos construtivos modulares. Isso ocorreu ainda que a pré-fabricação tenha o sentido da repetição em larga escala para a diminuição dos custos da produção e quase sempre ligada à demanda crescente pela habitação social (cuja experiência moderna pioneira foi o "fordismo" da arquitetura alemã dos anos 20).

Por que pré-fabricar componentes de um edifício único e grandioso -em que as questões de custo, principalmente naquele período, não se colocavam- a não ser como experimentação de novas tecnologias para um programa mais apropriado, num futuro próximo? (6)

Quem tiver dúvidas a esse respeito, é só conferir a produção dos dois outros mais importantes arquitetos do período, já citados, Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Para este último, as marcas da tecnologia rudimentar utilizada, impressas no concreto (as fôrmas de madeira imprecisas), eram mesmo denúncia social (7).

Ou seja, a ausência de pré-fabricação e a utilização de mão-de-obra semiqualificada na construção adquiriam conotação política no acirramento dos conflitos ideológicos durante a ditadura militar.

O esquema é paradoxal: estandardização e eloquência. Uma rápida lembrança de Le Corbusier -matriz definitiva da arquitetura moderna brasileira- pode ajudar o raciocínio. Esse arquiteto contava com a teatralidade da paisagem urbana para destacar eixos e monumentalidade, bom aluno da lição francesa.

Não existe edifício corbusiano que não esteja articulado à hipótese do plano urbano, donde retira sua expressão. No nível do pedestre e dos caminhos, as grandes lâminas verticais (horizontalizadas no conjunto) se articulam a embasamentos e anexos nos quais a diversidade formal e a surpresa dão o tom.

Todos os timbres necessários são acionados para a orquestração urbana final da cidade do plano corbusiano. Mesmo considerando Brasília uma cidade da Carta de Atenas (exemplo raro e que não fornece elementos para se pensar as grandes cidades brasileiras), isso não foi suficiente para nossa arquitetura considerar o conjunto urbano.

Nem como cidade real -à qual modernamente nos contrapusemos- tampouco como Plano -do qual nos aliviamos na transposição moderna. Exigimos do edifício, portanto

No caso de Lelé, o paradoxo avança ao enfrentar a questão da pré-fabricação, mesmo que estejamos falando em excepcionalidades arquitetônicas, símbolos claros do jogo social em andamento.

Ao contrário de destacar os anexos, à maneira de Le Corbusier, Lelé promoverá uma simbiose entre a lâmina composta de elementos pré-fabricados e o embasamento de grande vão, moldado in loco.

O resultado é um conjunto grandiloqüente, que, ao mesclar sistemas construtivos, monumentaliza o tipo -de que empresta racionalidade e funcionalidade. O esquema alcança o paroxismo nas residências para Ministro de Estado (1965) e José da Silva Netto (1974).

As questões da modulação reduzem-se, nesses exemplos, às vigas e lajes transversais únicas, subordinadas às duas grandes vigas que, tanto em altura como em largura, contemplam praticamente todo o programa do edifício.

Mas a insistência, mesmo que deslocada, nesse ponto de vista tecno-construtivo vai permitir que ele promova um salto qualitativo em sua obra a partir dos anos 80, exatamente os anos da grande crise do que se convencionou chamar de Arquitetura Moderna Brasileira.

Enquanto que no centro-sul os arquitetos aprofundavam a pesquisa em torno dos resquícios ideológicos da "escola paulista" e "carioca" (8), alguns arquitetos, oriundos dessa tradição, tomaram um caminho mais autônomo em busca de novas técnicas de construção e de adaptação ao clima tropical do país e suas variações.

Além de Lelé, que foi para a Bahia, outro exemplo de destaque é Severiano Porto, que se instalou no Norte do país. E é dessa sutil dissensão que vão surgir os exemplos mais renovadores da arquitetura brasileira a partir da redemocratização do Brasil, justamente no momento em que a crise de seu programa moderno é mais patente.

Estamos falando de um desdobramento dentro dos princípios originais da arquitetura moderna brasileira, porque novas influências aparecerão também nos anos 80, só que vindas de renovações de fora. Uma, mais discreta, ligada à arquitetura européia do "lugar" (Itália, Espanha e Inglaterra, por exemplo); e outra, ligada ao "new international style" difundido pelos EUA nos anos 80 e 90 (9).

Na Bahia, Lelé pôde objetivar seus conhecimentos construtivos num leque mais amplo de possibilidades. Devido às condições topográficas, econômicas e construtivas, seus elementos pré-fabricados ficaram mais leves, de mais fácil manuseio em circunstâncias desfavoráveis, como a implantação em morros (muitas peças podem ser mesmo carregadas pelos trabalhadores, facilitando o acesso e a montagem).

Iniciou a pesquisa da argamassa armada em 1978, que, apesar da menor espessura, possui as qualidades de resistência e conservação similares ao concreto armado, que fora a base da pré-fabricação pesada utilizada no Centro Administrativo da Bahia (1973).

O resultado desse pragmatismo é que sua arquitetura ficou mais leve, mais diferenciada, mais próxima dos diversos problemas -quase sempre "sociais", por assim dizer- que procura resolver.

Sistemas construtivos mais fechados se adaptaram às escolas, repetidas em vários exemplares, como a Escola Primária Estadual Oswaldo Cruz, em Salvador. No projeto dos Ciacs (Centro Integrado de Ensino, de 1990), apesar da visibilidade causada por uma situação política constrangedora, Lelé se recusava a ver nele um projeto de edifício, mas, antes, um processo de construção racional que levasse em conta as diferenças regionais, inclusive a construção em locais desfavoráveis como as favelas (10).

Criou várias famílias de componentes infraestruturais de drenagem, contenção de taludes, escadas (Salvador é cidade de relevo acidentado, principalmente quando se trata de ocupações e favelas), mobiliário urbano, passarelas etc.

Poderíamos dizer, comparando com a sua fase de Brasília, que a arquitetura de Lelé se suaviza, desmonumentaliza e populariza. Boa parte de seu trabalho nem se dirige à criação de "objetos arquitetônicos" da tradição moderna brasileira (nos termos da introdução deste trabalho), mas sim às mais diferentes inserções da atividade do arquiteto em relação ao conjunto de problemas de uma grande cidade.

No trabalho em que colaborou com a arquiteta Lina Bo Bardi para a recuperação do Centro Histórico do Pelourinho, não existia "arquitetura" propriamente dita (no sentido dessa tradição moderna), mas sim uma intervenção preservando a diversidade de um centro urbano a ser recuperado devido à sua importância histórica, cultural e social. Se posteriormente esse conjunto foi "espetacularizado" para o turismo, isso trai as aspirações originais desses arquitetos.

Lelé mostrou-se à vontade no trabalho de arquitetura, mesmo quando o "objeto" arquitetônico se diluía numa intervenção mais complexa. Suas intervenções fazem parte, diluídas, da paisagem de Salvador.

Nesses casos descritos acima, a solução arquitetônica final está sempre submetida à lógica do sistema construtivo desenvolvido, e não o contrário, como fazem crer boa parte dos trabalhos com sistemas de pré-fabricação experimental realizados no país e a própria obra anterior desse arquiteto.

Mas o recente destaque obtido por Lelé em eventos internacionais, como a premiação na Bienal de Arquitetura de Buenos Aires e a participação na Bienal de Veneza (2000), deve-se, provavelmente, à série de projetos para a Rede Sarah Kubitschek de hospitais que vem realizando com amplo sucesso (11).

Nesses projetos complexos a experiência anterior com o Hospital de Taguatinga (1968) vai se transformar aprofundando a preocupação com a humanização e acessibilidade dos espaços, o conforto ambiental e a diversificação da pré-fabricação. O sistema construtivo se abre, possibilitando que se somem aos componentes de argamassa armada novos elementos metálicos.

A seqüência laje-"shed" de argamassa é abolida na cobertura por uma estrutura metálica mais leve e contínua, formando as ondulações que vão caracterizar o conjunto. O sistema natural de refrigeração através de captação do ar por galerias, sugado pelos "sheds" para o exterior, permite o plano horizontal extenso que a circulação para deficientes exige.

A ondulação do conjunto é acentuada por elementos únicos de maior escala, como as marquises, os grandes arcos metálicos que filtram a luz nos saguões etc.

Essas ondulações, livres, mas regulares, podem ser responsáveis pelo sucesso dos projetos nas mostras de arquitetura. É como se as conhecidas curvas da arquitetura brasileira adquirissem um sentido, diríamos, mais arquitetônico.

É impossível não compará-las às curvas dos projetos de Oscar Niemeyer, anunciadas como leves, mas feitas em concreto armado, e cujo objetivo é mimético e direto (nem climático nem estrutural): "As curvas da mulher amada e as montanhas de meu país". As curvas da arquitetura de Lelé "tropicalizam", no sentido preciso, a tradição brasileira da curva na arquitetura -de exclusivo caráter ideológico. Não se livra dele totalmente.




Pré-arquitetura e arquitetura

A obra de Lelé deve ser entendida no conjunto da herança moderna brasileira, ao lado, hoje, de Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha etc.

O que estamos dizendo é que, em relação a esses arquitetos, logrou um caminho mais fértil, mais amplo, justamente por ter se voltado a questões modernas que foram abandonadas pelas pesquisas desse outros colegas: a racionalização das técnicas e a industrialização dos componentes construtivos; a tentativa, através da pré-fabricação de elementos infraestruturais, de melhorar as condições urbanas de saneamento e circulação; a busca de soluções climáticas mais apropriadas às condições brasileiras e, finalmente, a elaboração de programas sociais (escolas, creches, hospitais etc.) vinculados a sistemas construtivos que, a princípio, dotaram esses edifícios de boa arquitetura com custo baixo.

As dificuldades, e facilidades, desses projetos serem implementados em Salvador, primeira capital do Brasil colônia (1549-1763) e foco das relações sociais e políticas mais conservadoras do país (e antidemocráticas), deve ainda ser analisado oportunamente (pode-se ter aí não um paradoxo, mas uma causa).

Exatamente nesse lugar, fora dos centros industrializados do Sudeste, logra-se quase uma "arquitetura", em contraposição à uma quase "pré-arquitetura" que a tradição moderna instaurou entre nós (gesto grandiloquente de uma idéia-força, mas que não adquire sentido de utilização, de espaço social).

Mas estamos ainda dentro dos paradoxos dessa tradição moderna. E como tal, registra fortemente um caráter antiurbano e anti-social (deste último, Lelé se livrou em parte, por esforço pessoal).

Entre uma arquitetura -sem "objeto", mas arquitetura- das intervenções urbanas das passarelas, contenções, escadarias nos morros, calçamentos etc., e os grandes complexos hospitalares, geralmente em grandes e distantes terrenos, não conseguimos um acontecimento urbano arquitetônico síntese.

Uma ótima oportunidade de explorar a inserção dessa arquitetura no meio urbano consolidado foi perdida, com a construção da sede da Prefeitura de Salvador (1986). Encravada na parte alta da cidade colonial, esse "objeto" busca o vazio.

Ao lado do elevador Lacerda tendo como pano de fundo o mar, descuida da implantação quando se olha para o casario histórico vizinho, seu ritmo de cheios e vazios, de construções e espaço público. Esta crítica não defende uma espécie de contextualismo histórico, mas sim, um sentido urbano -nesse caso, de espaço público- aversão do qual, essa arquitetura presa à nossa tradição moderna, não conseguiu se livrar.

De acordo com o arquiteto, esse edifício é desmontável (estrutura metálica). Talvez, portanto, seja provisório, e esse espaço -único na cidade plena de "lugares"- vá ser um dia transformado a partir de um sentido novo, urbano e social, do qual, essa arquitetura de Lelé -tendo rompido já diversos preconceitos- poderia ter sido a pioneira (nada o indica, até o momento).

Mais: implica certo desentendimento, ao contrário de Oscar Niemeyer, este sim, intérprete quase que exclusivo (cuja longevidade profissional atesta) dos anseios anti-sociais do status quo brasileiro.

Luiz Recamán, é arquiteto, professor da faculdade de arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo e doutorado em filosofia pela USP

1 - Arantes, Otília. "Urbanismo em Fim de linha". São Paulo: Edusp, 1998. Especialmente o capítulo "Do universalismo moderno ao regionalismo pós-crítico".

2 - Além do incentivo dado por Lúcio Costa no desenvolvimento do projeto do Mesp, de risco corbusiano, em 1936, o convite a Oscar Niemeyer para dividir o encargo recebido da construção do pavilhão brasileiro da Feira Internacional de Nova York, em 1939, é marco definitivo para a consolidação da linguagem moderna brasileira, plenamente estabelecida no projeto de Oscar Niemeyer para a Pampulha, em 1942.

3 - "João Filgueiras Lima - Lelé". São Paulo: Ed. Blau e Instituto Lina Bo Bardi, 2000.

4 - Arantes, Otília. "O Esquema de Lúcio Costa". “Block 4” (Buenos Aires: Universidad Torcuato Di Tella, 1999).

5 - Um exemplo conhecido é o Palácio da Alvorada, de Oscar Niemeyer, que parece pousar suavemente no serrado do Planalto Central, graças às delgadas colunas conhecidas no mundo inteiro. Lelé defende a idéia que as robustas colunas internas que quase transformam as famosas colunas externas em mero ornamento, seriam desnecessárias se as condições de cálculo e construtivas fossem mais adequadas. De qualquer forma, diz que os projetos chegavam do Rio de Janeiro praticamente sem detalhes construtivos, e o seu papel, delegado por Oscar Niemeyer, era "ir resolvendo as coisas" na obra.

6 - Isso, supondo que esses sistemas construtivos tenham um custo menos elevado, o que parece não conferir com a realidade, já que foram pouco utilizados comercialmente. A criação de um sistema para a construção de um ou dois edifícios torna-se economicamente inviável, já que os custos do desenvolvimento tecnológico não podem ser amortizados pela repetição.

7 - Uma exceção de destaque quanto ao desenvolvimento de pré-fabricação para programas sociais foi o projeto construído do conjunto habitacional Cecap "Zezinho Magalhães Prado", de Vilanova Artigas, em 1967. Os governos militares se caracterizaram, no entanto, pela baixa qualidade dos projetos habitacionais realizados pelo Banco Nacional de Habitação.

8 - Denominação inadequada, que serve aqui apenas para localizar os trabalhos de Vilanova Artigas e seus epígonos paulistas e de Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro.

9 - Com a decadência da arquitetura moderna entre nós, durante os anos 80 e 90, os arquitetos voltados à arquitetura de grandes edifícios comerciais encontrarão abrigo e inserção nessa voga internacional, tentando fazer uma transição ideológica, sob todos os aspectos suspeita.

10 - Esse projeto foi realizado e utilizado politicamente pelo Governo Collor, que haveria de sofrer um processo de impeachment por corrupção. Foi, no entanto, uma decorrência do projeto dos Cieps, no Rio de Janeiro, feito por Oscar Niemeyer e idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Partem ambos da idéia de um centro para jovens carentes, que integre diferentes atividades além do ensino regular. Conforme a entrevista concedida à arquiteta Maria Pronin, não publicada.

11 - A partir do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília (1980), foi construída uma nova série com novas tecnologias: o Hospital (1991) e o Centro de Tecnologia da rede em Salvador (1992), em Fortaleza (1991), em Belo Horizonte, em Brasília o Centro de Apoio ao Grande Incapacitado Físico e a ampliação da rede em Brasília (1995). De forma análoga, caracterizando a mais recente fase do arquiteto, foram construídas as sedes do Tribunal de Contas da União em Salvador (1995), em Natal (1996), em Sergipe (1997), em Belo Horizonte (1997), em Maceió (1997), em Teresina (1997), em Cuiabá (1997) e em Vitória (1998).



 




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