Leonora descobriu que a vida pode ser um palco de ilusõES…



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LEONORA DESCOBRIU QUE A VIDA PODE SER UM PALCO DE ILUSÕES…

Robert abraçou Leonora docemente e deu-lhe um beijo apaixonado. Ela suspirou, feliz, mas logo uma terrível dúvida surgiu em seu coração: ele a amava de verdade ou estava apenas representando? Ambos haviam sido convidados a participar de um grupo de teatro amador patrocinado por uma nobre dama da sociedade. Leonora não se revelou boa atriz, pois não conseguia esconder as emoções que Robert lhe despertava… Mas ele parecia usar seus talentos de ator tanto no palco quanto na vida real!

1

Leonora Clare sentou-se à mesa mais reservada do salão. De onde estava, pôde observar que as pessoas que frequentavam o Hotel Plough eram extremamente finas e bem-educadas. Sentiu-se mais segura; não correria o risco ser abordada por algum arruaceiro. Ainda assim, conservou as mãos apertadas sobre o colo e o rosto muito sério, denotando certa apreensão.



De repente, ouviu uma voz familiar e virou-se. Olhou, surpresa, a mu­lher que acabara de entrar. Seria mesmo Wilhelmina?

A jovem senhora conversava com um cavalheiro. Era baixa; trajava um vestido de veludo azul e um chapéu chamativo, enfeitado com pequenos cachos de uvas e várias penas coloridas. O rosto delicado, emoldurado por cachos loiros, só podia ser de Wilhelmina. Mas pelo que Leonora lembrava, ela era muito conservadora, bem diferente da mulher que usa­va o chapéu extravagante.

Leonora estreitou os olhos, tentando certificar-se. Podia estar engana­da quanto à aparência, mas a voz era igual. Definitivamente, era Wilhel­mina! Levantou-se e foi até ela. Antes mesmo de ser abordada, a jovem senhora a reconheceu.

— Minha irmã! — exclamou, envolvendo Leonora num abraço ca­rinhoso.

As pessoas no salão observaram, curiosas, o alegre reencontro das duas irmãs, que não se viam há vários anos.

— Você parece tão… tão bem, Willie — disse Leonora, contendo o impulso de dizer "diferente". — Parece que está muito feliz! Fico con­tente que já tenha se recuperado da perda que sofreu..

Wilhelmina deu de ombros ao lembrar-se de sua condição de viúva.


  • É preciso levar a vida adiante — afirmou ela. E, tentando mudar de assunto: — Mas como você cresceu!

  • Tenho vinte e três anos, não se lembra?

  • Sim, mas ainda é praticamente uma menina, está muito longe de tornar-se uma jovem senhora, como eu.

Riram e começaram a conversar, tentando pôr em dia as novidades. Logo, porém, alguns cavalheiros que aproveitavam o sossego do salão para ler jornal começaram a demonstrar impaciência diante da conversa e risos das duas.

— Acho melhor sairmos, Willie — Leonora sugeriu, baixinho. — Aque­le cavalheiro com o cachimbo não está nos olhando muito amistosamente.

Saíram e começaram a caminhar a passos lentos pela ensolarada High Street.

— Agora conte-me o que papai andou fazendo — pediu Wilhelmina.


Leonora olhou o carrinho de mão parado perto da calçada e espantou-se ao ver sua bagagem amontoada dentro dele, pois imaginara que Willie, e ela iriam tomar uma carruagem. A irmã acompanhou-lhe o olhar e co­mentou:

— Pensei em irmos andando até minha casa. A manhã está tão bela e agradável, não é?

As duas seguiram em frente, a pé, acompanhadas pelo rapazinho que empurrava o carrinho de mão.


  • Agora conte-me, querida. O que papai andou fazendo para aborrecê-la? — insistiu Wilhelmina.

  • Nada que não fosse esperado, Willie. Você sabe, melhor que nin­guém, como papai é. E, com a idade, ele está ficando cada dia pior. Aceitei ficar em casa, em consideração à memória de mamãe, mas cansei de aguentar a mesma situação durante anos. Cansei de passar todas as noi­tes em meu quarto, fugindo das más companhias que papai convida pa­ra suas festinhas particulares.

  • Meus Deus! — exclamou Wilhelmina, arregalando os olhos azuis.
    — Ele chegou a esse extremo?

  • Sim. E mais, papai ligou-se de maneira indevida, para não dizer escandalosa, à nova cozinheira. Quando a vi levando seus pertences para o quarto que foi de mamãe, decidi que era hora de sair de casa.

Apesar das palavras ditas em tom aparentemente calmo, no íntimo Leo­nora escondia uma série de preocupações. Não fazia a menor ideia de onde viveria dali para a frente, mas preferia sujeitar-se a qualquer coisa a ver a educação e os princípios que a mãe havia lhe dado serem des­prezados.

  • A cozinheira! Imagine só! Papai nunca teve boa conduta, mas dessa vez exagerou! Acho que fez bem em sair de casa, Leonora. Sou sua irmã, e ofereço-lhe minha casa como moradia de agora em diante — de­clarou Wilhelmina.

  • Oh, Willie! Obrigada! Que bom tê-la ao meu lado! — exclamou ela, emocionada.

A irmã abraçou-a pela cintura.

— Senti muito sua falta, Leo. Será bom que fique aqui comigo. Pelo menos não poderão falar mal de mim, enquanto você estiver hospedada em minha casa.

Leonora ficou surpresa com as palavras de Wilhelmina. Será que ha­via algo de errado com sua reputação? Não sabendo o que dizer, achou melhor prestar atenção nas explicações que a irmã começou a lhe dar, . no decorrer do caminho, sobre as mansões dos nobres de Cheltenham.


  • O que a fez mudar-se para cá, Willie? — indagou Leonora, de repente.

  • Não pode imaginar? — respondeu Wilhelmina, sorrindo. — Este é um dos lugares mais elegantes da Inglaterra, além de ser o mais procu­rado por hipocondríacos ricos. Eles são ótimos partidos, e, dessa vez, quero casar-me muito bem.

Casar-se por dinheiro? Leonora ficou espantada. Realmente sua irmã estava mesmo mudada, e não apenas na aparência!

Leonora acabara de completar nove anos quando Wilhelmina, na época com vinte e dois anos, fugira de casa com o capitão Edward Smithers, que apesar de bonito e distinto, era muito pobre. O pai quase ficara lou­co com o trágico destino de sua filha mais velha. A partir daquele dia, proibira a esposa e filha caçula de pronunciarem o nome de Wilhelmina. Mesmo assim, ambas sempre tiveram notícias dela através das cartas que enviava em segredo para a residência do pastor.

Wilhelmina tornara-se esposa de um oficial e, como tal, tinha de acompanhá-lo a toda parte. Suas cartas relatavam histórias fantásticas a respeito dos lugares por onde passavam, deixando de lado os tristes detalhes sobre a guerra. Depois de algum tempo, Edward Smithers fora promovido a major. Tudo indicava que a vida de Wilhelmina tornar-se-ia ainda mais emocionante.

O que Leonora e a mãe não sabiam, contudo, era que ela procurava escrever as cartas de uma maneira que não desse margem a repreensões do tipo: "Eu lhe disse que não daria certo!". Seria terrível ter de aguen­tar reprimendas, além de suportar a vida difícil que estava levando com o marido em meio a soldados e campos de batalha.

Leonora fora tomando consciência da verdadeira situação da irmã no decorrer dos anos. Nunca tivera oportunidade de vê-la junto a Edward, para saber se eram realmente felizes. Mas agora, ao vê-la pensando em casar-se com um homem rico, sentiu que seus receios tinham fundamento.


  • Acorde, Leo! — exclamou Wilhelmina, interrompendo-lhe os pen­samentos.

  • Oh! Desculpe-me. Ó que disse, Willie?

  • Estava dizendo que tive sorte em encontrar essa casa perto da igre­ja. É um lugar agradável, próximo de onde as pessoas aqui da região reúnem-se para passear de vez em quando… Enfim, chegamos!

Leonora ficou apreensiva ao notar a casa em ruínas, localizada em uma rua meio suspeita. Mesmo assim, procurou animar a irmã, elogiando o tamanho da construção.

Moro no segundo andar — disse Wilhelmina, começando a subir os degraus de madeira com algumas rachaduras.

Leonora seguiu-a escada acima, sentindo-se envergonhada. Não tinha o direito de censurar a vida da irmã e o local que ela escolhera para morar.


  • É muito confortável — comentou Leonora, assim que entrou no apartamento.

  • Tenho um quarto vazio, onde guardo meus vestidos, que será per­feito para você. Aqui está! — disse Wilhelmina, abrindo a porta de um quartinho. — Não é grande, mas…

  • Oh, Willie! É perfeito! — Leonora abraçou-a, comovida. — É muita bondade sua aceitar-me aqui. Mas quero ajudá-la com as despesas. Te­nho algumas economias, fui juntando aos poucos o dinheiro que tia Felícia costumava me enviar no Natal.

  • Tia Felícia fazia isso? — perguntou Wilhelmina, com uma ponta de inveja.

Leonora assentiu, sentindo-se embaraçada por ter se tornado a sobri­nha preferida da tia rica depois que a irmã havia fugido de casa.

O que me diz, então? Aceita minha oferta? — indagou Leonora.



  • A pensão da viúva de um major é muito pequena. Ficaria satisfei­ta se pudesse ajudar-me. — Wilhelmina fitou-a de forma pesarosa, e acres­centou: — Gostaria muito de poder dar uma festa e apresentá-la à sociedade de Cheltenham, como você merece. Mas com a pensão que recebo…

Nesse momento, Leonora teve vontade de estar frente à frente com o pai pára poder repreendê-lo. Não fora justo o que fizera após o casa­mento de Willie, retirando-lhe o dote. E nunca nem mencionara a possi­bilidade de ajudá-la, se estivesse passando por dificuldades com o marido. A única coisa que sir John Clare dizia era que, se a filha havia escolhido esse destino, devia assumi-lo.

  • Gostaria de poder cobrar de papai a parte que lhe cabe da herança da família — disse Leonora, notando que o tecido do vestido da irmã já estava gasto pelo uso.

  • Não se preocupe com isso, Leo. Talvez papai aprove meu próximo casamento. Já imaginou como ele ficaria surpreso ao me ver casada com um nobre?

  • Um nobre? Já possui algum pretendente? — perguntou Leonora, surpresa.

Não fazia nem um ano que a irmã enviuvara e já estava pensando em casar-se novamente?

— Tenho muitos pretendentes. Como pode ver, minha querida, eu ainda desperto paixões! — disse Wilhelmina, sorrindo. — Mas, com certeza, irão se esquecer de mim, assim que a virem em Cheltenham!

Leonora tornou-se séria.


  • Não penso em casar-me tão cedo. Talvez por ter cansado de ver a vida que mamãe levava…

  • Além do fato de ter visto sua irmã casar-se com um oficial pobre — acrescentou Wilhelmina. — Mas não se entregue à desilusão, Leo, o mundo não é constituído apenas por homens como papai e Edward!

  • Não quero magoá-la, Willie, mas responda-me sinceramente: arrependeu-se do que fez?

  • Prefiro não falar sobre isso. Edward e eu tivemos nossos momen­tos de felicidade. Agora ele se foi, e tudo que me restou foi a pobreza. Sendo assim, não estou disposta a cometer o mesmo erro duas vezes. Bem, agora é melhor refrescar-se e trocar de roupa, enquanto peço à minha criada, Esmé, que prepare algo para nós.

Leonora viu a irmã sair do quarto e pensou que a melhor coisa que poderia fazer no momento seria dormir. Entretanto, pareceu-lhe indeli­cado fazer isso. Trocou de roupa, ajeitou os belos cabelos loiros que pa­reciam o complemento perfeito para o rosto angelical e foi para a sala.

Sua bagagem fora colocada junto à porta. Olhou ao redor e não viu nem sinal de Willie.

Suspirando, atravessou a sala. Pegou uma das malas e pôs uma das chapeleiras sobre ela. Depois de hesitar por um momento, decidiu pôr outra chapeleira em cima dos dois volumes que já tinha em mãos. A ma­la não estava muito pesada, e as caixas para guardar chapéus eram leves, apesar de grandes. Seguiu em direção ao quarto, andando com cuidado; não conseguia enxergar nada à sua frente, pois as chapeleiras lhe enco­briam a visão. Não chegou a dar mais de cinco passos; tropeçou em uma dobra do tapete, derrubando a caixa de cima.

A chapeleira voou por cima do encosto do sofá virado de frente para a lareira. Leonora depositou os outros volumes no chão e foi buscá-la. Soltou um gritinho de susto ao ver um homem, trajando uma farda ver­melha com botões dourados, deitado no sofá. O homem também assustou-se ao vê-la e levantou-se num salto.

Nesse momento, Wilhelmina entrou apressadamente na sala.

— Leonora, querida, este é o major Danforth. Era companheiro de Edward, no exército. Foi ferido durante o cerco de Burgos, onde… onde Edward faleceu. Por favor, não se incomode por ele estar aqui. Acontece que ontem voltamos muito tarde de um jantar, e não pude deixar o ma­jor ir sozinho para casa no estado em que se encontrava.

Danforth reprimiu um bocejo e tentou disfarçar seu embaraço alisan­do as roupas amarrotadas.

Leonora fitou-o, sem dizer nada. Um homem bêbado dormindo no sofá da sala de uma viúva? Então era por isso que Willie havia mencio­nado que as pessoas andavam falando mal dela! Pelo jeito, a vida de sua irmã não estava sendo das mais regradas…

Sentiu-se angustiada, pois saíra da casa do pai justamente para não deparar-se com situações desse tipo. Será que Cheltenham seria mesmo o lugar ideal para encontrar, afinal, pelo menos parte da tranquilidade que sempre quisera ter? Talvez fosse, mas primeiro precisaria dar um jei­to em Wilhelmina.
2
Aproveitando a manhã ensolarada, Leonora saiu para passear um pouco. Pretendia distrair-se, divertir-se um pouco, mas não conseguia parar de pensar em Wilhelmina. Desde que havia chegado, há algumas semanas, mantivera-se atenta ao com­portamento da irmã.

Willie parecia ter deixado de lado, pelo menos por algum tempo, os jantares que terminavam com homens dormindo no sofá de sua sala. Sem mencionar os encontros com a legião de pretendentes ricos que ale­gara ter… Talvez por ter uma hóspede em sua casa, decidira agir com mais discrição.

Mas, no fundo, Leonora sabia que ela não desistira da decisão de casar-se com um homem abastado. Analisando a atitude de Wilhelmina, tudo que conseguia fazer era lamentar que a irmã estivesse levando a sério a ideia de casar-se sem amor. Não queria parecer pessimista, mas algo lhe dizia que teria de consolá-la muito em breve, após mais um casa­mento frustrado.

Mas, até lá, faria todo o possível para evitar que a irmã sofresse no­vamente. Pelo menos, Willie aceitara alguns dos conselhos que lhe dera sobre seu comportamento inadequado. Principalmente, quanto a ter um homem dormindo no sofá… Leonora sorriu, ao lembrar-se de como o pobre major Danforth ficara embaraçado com o acontecimento.

Também tivera coragem de dizer à irmã que não achava correto pen­sar em casar-se passado menos de um ano da morte do marido. No en­tanto, Wilhelmina discordara, dizendo que precisava refazer sua vida e acrescentando que, quando houvesse algum baile na cidade, faria ques­tão de levá-la junto, para servir-lhe de dama de companhia.

Leonora ficara apreensiva, pois não estava com a mínima vontade de frequentar bailes. Para sua aflição, muito em breve começariam as reu­niões dançantes da Temporada, após a entrada do verão e a subsequen­te chegada de muitos visitantes à cidade.

Por fim, decidiu esquecer um pouco os problemas da irmã e aprovei­tar mais o passeio. Caminhou até uma alameda com canteiros repletos de lindas camélias brancas. Pulou a pequena cerca do canteiro, alegre em poder, finalmente, colher as flores que tanto adorava. Havia levado uma cesta onde colocá-las e levá-las para enfeitar seu quarto.

Curvou-se para colher alguns botões, quando alguém que passava por trás esbarrou nela. No mesmo instante, ouviu uma voz profunda dizer-lhe:

— Minhas desculpas, senhorita.

Leonora ergueu os olhos e viu um cavalheiro alto e de ombros largos já seguindo em frente, pela estreita passagem da alameda. "Talvez tam­bém esteja dando um passeio", pensou Leonora, observando-lhe os pas­sos firmes e decididos.

— Está desculpado, gentil cavalheiro! — disse a si mesma, sorrindo. Virou-se para o canteiro, para continuar a colher flores. De repente, ouviu um barulho, seguido de um gemido abafado.

— Maldição! — praguejou alguém mais adiante.

Imediatamente, Leonora correu até o. lugar de onde o som viera. En­controu o cavalheiro que acabara de esbarrar nela sentado no meio do caminho, com um tornozelo torcido.


  • Oh, meu Deus! — exclamou ela, aproximando-se e tocando-lhe o ombro. Não pôde deixar de notar que o tecido gasto do casaco verde-escuro denunciava muito tempo de uso. — Precisa de ajuda, cavalhei­ro? Tropeçou em alguma coisa?

  • Não, senhorita. Simplesmente gosto de viver torcendo o pé em bu­racos de jardins! — retrucou ele, com o rosto encoberto pela aba do cha­péu, enquanto massageava o tornozelo. Por fim, afastou o chapéu para trás e ergueu o rosto para encará-la, dizendo: — É claro que tropecei, e… Deus meu!

O homem pareceu tão impressionado quanto Leonora, que olhou fi­xamente o rosto bonito, mesmo sabendo que, sendo uma dama, deveria disfarçar sua admiração pelo cavalheiro. Ela retirou a mão do ombro dele, como se o tecido a tivesse queimado.

Não ficou surpresa com a admiração que viu nos olhos castanhos que a fitavam intensamente. Tinha consciência de que seu rosto angelical, de olhos azuis da cor do mar e emoldurado pelos cabelos loiros, tinha o poder de despertar o interesse dos homens.

No entanto, ficou espantada ao experimentar a sensação completa-mente nova, despertada por um simples olhar. Concluiu que, em toda sua vida, nunca vira um cavalheiro com um rosto tão belo.

Ele permaneceu sentado no chão, e, após um momento, retirou o cha­péu para cumprimentá-la. Só então Leonora pôde notar os fartos cabe­los ruivos, ligeiramente encaracolados. Pela aparência, o cavalheiro devia ter uns trinta anos.

— Peço desculpas pelas palavras impróprias, senhorita — disse ele. — Mas não é todo dia que costumo cair desajeitadamente, no meio da rua, na frente de uma adorável dama!

Leonora tentou ignorar o quanto o cavalheiro era atraente e procu­rou agir naturalmente. Afinal ele fora vítima de um acidente.

— Não há problema, cavalheiro. Agora, o mais importante é saber se o senhor se machucou. Posso ajudá-lo a levantar-se? — indagou ela, estendendo-lhe a mão.

Ele aceitou a ajuda e, em menos de um minuto, já estava de pé. Lim­pou as botas e a calça e voltou a olhá-la, com um sorriso estonteante.



  • Estou muito bem, senhorita. Obrigado pela ajuda.

  • Ande um pouco — pediu Leonora com jeito de enfermeira, as mãos cruzadas sobre a saia do vestido lilás.

O cavalheiro fez-lhe uma mesura e obedeceu. Contudo, após dar dois passos, olhou-a com expressão de dor.

  • Será que pode ajudar-me mais um pouco, senhorita? — pediu, com outro sorriso irresistível.

  • É claro! — disse ela, pondo a cesta de flores em um braço e oferecendo-lhe o outro. — Devemos seguir para o centro de Cheltenham? — indagou.

  • Sim. Mas ande bem devagar. É tão delicada, que tenho medo de acabar machucando-a.

  • Não sou tão fraquinha assim, pode apoiar-se mais em mim, se quiser.

  • É muito gentil — disse ele, passando um braço sobre os ombros dela.

Leonora surpreendeu-se com o gesto, mas achou que seria indelicado impedir que ele a abraçasse, na situação em que se encontrava.

  • Acho que está na hora de nos apresentarmos. — Ele fitou-a, sorrindo.

  • Sou a srta. Clare — respondeu ela, tentando parecer o mais natu­ral possível.

  • Muito prazer em conhecê-la, srta. Clare. Sou Robert Forrester.

  • O prazer é meu, sr. Forrester. — Será que estava enganada, ou ele a estava abraçando com mais força? — Mais à frente, quando alcan­çarmos aquela cerca, é melhor o senhor sentar-se um pouco, enquanto procuro um galho de árvore que possa usar como bengala. Não pode­mos andar pela cidade dessa maneira — argumentou ela.

  • Não? Oh, que pena…

Leonora ergueu o rosto e fitou-o, indignada.

  • Sr. Forrester, eu…

  • Perdoe-me srta. Clare, mas estou sendo forçado a tirar vantagem de sua bondade. Não é sempre que posso ter o prazer de apoiar-me em uma bela dama…

  • É sempre tão atrevido?

Claro! — respondeu ele, quando alcançaram a pequena cerca. Retirou o braço dos ombros dela e sentou-se, encarando-a, sorridente: — Ah, minha bela srta. Clare! O mundo está cheio de oportunidades que não podemos desperdiçar!

Leonora acabou sorrindo diante do bom humor do atraente cavalhei­ro. Achou melhor ignorar o comentário, já que, de qualquer forma, ele estava machucado.

— Procurarei algum galho ou pedaço de madeira em que possa apoiar-se. Fique aqui, e descanse um pouco — aconselhou ela.

Forrester olhou-a, fazendo ar de tristeza:



  • Não quer conversar mais um pouco comigo? Bem… Em todo ca­so, lembre-se de que é só gritar por mim, se encontrar algum monstro terrível perdido pelo canteiro de flores — brincou ele. — Por falar nis­so, por que está passeando sozinha ?

  • Já passei da idade de ser vigiada por uma dama de companhia, sr. Forrester. Além disso, vivo com minha irmã viúva, e ela não está em condições de manter uma criada que possa acompanhar todos os meus passos.

  • Ah, como pude deixar de notar o quanto já é crescida? Olhando-a melhor… Deve ter uns… quinze anos?

Leonora notou que ele estava brincando com ela.

  • Se está tentando descobrir minha idade, cavalheiro, saiba que já tenho vinte e três anos.

  • Não se pode duvidar da palavra de uma dama… — disse ele, fa­zendo uma ligeira reverência.

Por mais que quisesse, ela não conseguia ficar aborrecida com o ca­valheiro. Ele prosseguiu:

— Estou em Cheltenham apenas como visitante, e agora que não posso mais duvidar de sua palavra, confiarei em sua opinião sobre a cidade.

Leonora percebeu que ele estava tentando descobrir mais alguma coi­sa além de sua opinião pessoal sobre a cidade. Entretanto, não viu moti­vo para não satisfazer-lhe a curiosidade. O cavalheiro parecia respeitável, e pela maneira de falar demonstrava ser uma pessoa de boa formação. Mesmo assim, achou melhor não dizer onde estava morando.


  • Também não conheço bem a cidade. Cheguei há poucas semanas para passar uma temporada com minha. irmã. Mas, pelo que já pude ver, não encontrei nada de reprovável até agora. — Decidiu usar a mes­ma tática e tentar descobrir mais coisas sobre ele: — E o que o traz aqui, sr. Forrester?

  • Questões de saúde, srta. Clare. Vim para tomar a água medicinal das fontes desta região.

Leonora ficou em dúvida. Exceto pelo tornozelo machucado, ele apa­rentava ter uma saúde perfeita. Tinha um físico forte, pele bronzeada e movimentos enérgicos, que não denotavam o mínimo sinal de doença.

  • Veio tratar algum ferimento de guerra? — arriscou ela.

  • Guerra? Oh, não. Só um velho probleminha que reapareceu.

Ela estava morrendo de curiosidade, mas achou que seria muito inde­licado perguntar qual era o problema. Murmurou algumas palavras, de­monstrando compreensão, e desapareceu em meio às árvores. Forrester seguiu seus movimentos graciosos com o olhar. Ao caminhar, Leonora pode sentir que estava sendo observada. Procurou manter a postura ele­gante e o andar discreto, típicos de uma dama.

Retornou logo, trazendo um galho firme que poderia aguentar muito bem o peso de Robert Forrester.



  • Agora que poderá andar sem minha ajuda, acho que é hora de nos despedirmos — disse ela.

  • O quê? Pretende deixar-me sozinho em meio a esse jardim selva­gem? — brincou ele, fazendo um gesto exagerado. — Então, por favor, alivie-me um pouco a dor da despedida, dizendo-me quando poderei vol­tar a vê-la…

Leonora não pôde conter o riso diante dos gestos teatrais do cavalhei­ro. Tentou manter a naturalidade ao perguntar:

  • Voltar a ver-me?

  • Minha bela srta. Clare… Será que não percebe que o destino nos uniu? Já ouviu falar em um provérbio chinês que diz que quando al­guém salva a vida de uma pessoa, passa a ser responsável por ela? Comprometeu-se comigo ao ajudar-me, e agora não pode desapontar-me, fugindo de sua responsabilidade.

Ela riu alto.

  • Não salvei sua vida, sr. Forrester!

  • É claro que sim! Se não tivesse me socorrido após o acidente cruel que sofri, talvez eu estivesse condenado a ficar lá, estendido no meio do caminho, durante meses! Sendo atacado por coelhos selvagens e tu­ do mais!

  • Bem, pode considerar-me sua salvadora, se quiser — disse Leono­ra, sorrindo. — Mas agora, preciso mesmo ir andando. Minha irmã já deve estar preocupada. — Dizendo isso, começou a afastar-se. Depois de alguns passos, voltou-se para ele, preocupada: — Precisa de ajuda
    para descer da cerca, sr. Forrester?

  • Não se preocupe. Quero ficar aqui por mais algum tempo, admi­rando as belezas que a natureza nos oferece. Precisa mesmo ir?

  • Sim.

  • Espero voltar a vê-la muito em breve — disse Robert, estendendo-lhe a mão.

Leonora aceitou o cumprimento, apesar de haver ficado um tanto con­fusa. Será que deveria dizer-lhe o endereço da casa de Willie? Não, não tinha coragem suficiente para fazer algo tão ousado.

Adeus, sr. Forrester — disse ela, voltando a andar.

Ele acompanhou-a com o olhar até vê-la desaparecer depois de uma esquina.

— Até muito breve, minha bela srta. Clare…




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