Lágrimas do dragãO



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LÁGRIMAS DO DRAGÃO


Dean R. Koontz


Este livro é dedicado a pessoas especiais que vivem muito longe...

Ed e Carol Gorman



...com o desejo de que nosso mundo moderno tivesse realmente encolhido até virar uma cidade pequena, como insistem os filósofos da mídia. Então poderíamos nos encontrar no pequeno café na esquina da Main Street com a Maple Avenue para almoçar, conversar e rir.

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PARTE UM

Este Velho Cabaré de Tolos

Você sabe, o sonho é como um rio

Sempre está mudando enquanto corre.

E o sonhador é como um barco

Que deve segui-lo aonde quer que ele vá.

Tentar descobrir o que há atrás

e nunca saber o que há adiante

Faz de cada dia uma luta constante

Apenas para estar entre as margens.
TheRiver

Garth Brooks, Victoria Shaw


Corra de peito aberto para a vida

Ou fique sentado em casa, esperando.

Todas as coisas boas e ruins

Virão até você: é o destino.
Ouça a música, dance se puder.

Vista-se de trapos ou use suas jóias.

Beba o que quiser, acalente seu medo

Neste velho cabaré de tolos.


The Book of Counted Sorrows

UM
I
Terça-feira. Fazia um belo dia californiano, cheio de sol e promessas, até que Harry Lyon teve de matar alguém na hora do almoço.

De manhã, sentado à mesa da cozinha, ele comeu bolinhos de milho com geléia de limão e bebeu café jamaicano, preto e forte. Uma pitada de canela deu à bebida um gosto agradavelmente condimentado.

A janela da cozinha se abria para o cinturão verde que serpenteava ao longo de Los Cabos, um grande condomínio em Irvine. Como presidente da associação dos proprietários, Harry trazia os jardineiros a rédea curta e monitorava rigorosamente o seu trabalho, certificando-se de que as árvores, os arbustos e a grama estivessem tão bem cuidados como numa paisagem de conto de fadas, como se fossem mantidos por pelotões de elfos jardineiros portando centenas de minúsculas tesouras de podar.

Durante a infância ele gostara de contos de fadas ainda mais do que qualquer criança. Nas palavras dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, os montes primaveris eram sempre de um verde impecável e aveludado. Prevalecia a ordem. Os bandidos invariavelmente encontravam a justiça e os virtuosos eram recompensados — ainda que, algumas vezes, somente depois de sofrimentos horríveis. Joãozinho e Maria não morreram no forno da bruxa; ela, sim, foi assada viva. Em vez de roubar a filha recém-nascida da rainha, Rumpelstiltskin foi enganado e se dilacerou de raiva.

Na vida real, durante a última década do século XX, Rumpelstiltskin provavelmente seqüestraria a filha da rainha. Sem dúvida iria viciá-la em heroína, transformá-la em prostituta, confiscar seus ganhos, espancá-la por prazer, cortá-la em pedaços e escapar da justiça afirmando que a intolerância da sociedade para com os gigantes malignos e geniosos o havia deixado temporariamente louco.

Harry engoliu o resto do café e suspirou. Como muitas pessoas, ele sonhava em viver num mundo melhor.

Antes de sair para o trabalho lavou, secou e guardou os pratos e utensílios. Odiava chegar em casa e encontrar sujeira e bagunça.

Parou para ajustar o nó da gravata diante do espelho junto à porta do hall. Vestiu um blazer azul-marinho e certificou-se de que a arma no coldre preso ao ombro não fazia volume visível.

Como em todos os dias de trabalho nos últimos seis meses, evitou as auto-estradas cheias de trânsito, seguindo pelas mesmas ruas secundárias até o Centro de Projetos Especiais Para os Órgãos de Cumprimento da Lei, em Laguna Niguel, um caminho que ele mapeara para minimizar o tempo de viagem. Podia chegar ao escritório entre 8:15 e 8:28, mas nunca se atrasara.

Naquela terça-feira, quando parou seu Honda à sombra, no estacionamento do lado oeste do prédio de dois andares, o relógio do carro indicava 8:21. Seu relógio de pulso confirmou a hora. Na verdade, todos os relógios da casa de Harry e o que ficava na mesa de seu escritório estariam indicando 8:21. Ele os sincronizava duas vezes por semana.

De pé, ao lado do carro, respirou fundo, relaxando.

Chovera durante a noite, o ar estava limpo. O sol de março dava à manhã um brilho dourado como a polpa de um pêssego maduro.

Para atender aos padrões arquitetônicos de Laguna Niguel, o Centro de Projetos Especiais era um prédio de dois andares em estilo mediterrâneo, com uma varanda em colunata. Rodeado por azaléias viçosas e altas malaleucas de galhos rendilhados, não tinha qualquer semelhança com a maioria das instalações da polícia. Alguns dos tiras que trabalhavam no Centro de Projetos Especiais achavam a aparência muito afetada, mas Harry gostava.

A decoração institucional tinha pouco em comum com o exterior paisagístico. Piso de vinil azul. Paredes cinza-claro. Teto acústico. No entanto, o ar de organização e eficiência era confortador.

Mesmo sendo tão cedo, havia pessoas se movimentando pelo saguão e pelos corredores, na maioria homens com o físico sólido e a atitude autoconfiante característicos dos policiais de carreira. Apenas uns poucos usavam uniforme. O Centro de Projetos Especiais contava com detetives de homicídios e funcionários disfarçados das agências federal, estadual, do condado e do município, todos sem uniforme, para facilitar as investigações criminais que se espalhavam por várias jurisdições. As equipes de Projetos Especiais — algumas vezes forças-tarefas inteiras — lidavam com crimes cometidos por gangues de adolescentes, assassinos em série, estupradores que seguiam padrões definidos e atividades ligadas a entorpecentes em larga escala.

Harry compartilhava um escritório no segundo andar com Connie Gulliver. Sua metade da sala era suavizada por uma pequena palmeira, sempre-verdes chinesas e pelos ramos folhosos de uma trepadeira. A metade de Connie não tinha nenhuma planta. Na mesa de Harry havia apenas um borrador, um conjunto de canetas e um pequeno relógio de latão. Pilhas de dossiês, papéis soltos e fotografias viviam atulhados sobre a dela.

Surpreendentemente, Connie chegara primeiro ao escritório. Estava de pé junto à janela, de costas para ele.

— Bom dia — disse Harry.

— Está mesmo? — perguntou ela em tom azedo.

Em seguida virou-se. Usava um velho tênis Reebok, jeans, blusa xadrez marrom e vermelha e uma jaqueta de veludo cotelê marrom. A jaqueta era uma de suas favoritas, tão surrada que o veludo estava pelado em vários lugares, os punhos puídos e as dobras na parte de dentro das mangas parecendo tão permanentes quanto vales escavados pela água em leitos de rocha durante eras geológicas.

Segurava um copo de papel, vazio, no qual tomara café. Amassou-o quase com raiva e jogou-o no chão. O copo quicou e foi parar na metade da sala ocupada por Harry.

—- Vamos à luta — disse ela caminhando em direção à porta.

Harry olhou para o copo no chão.

— Por que a pressa?

-— Somos tiras, não somos? Não vamos ficar com o dedo enfiado no rabo, vamos fazer trabalho de tira.

Enquanto ela desaparecia no corredor, ele ficou olhando o copo do seu lado da sala. Empurrou-o com o pé, para o outro lado da linha imaginária que dividia o escritório.

Foi atrás de Connie, mas parou junto à porta. Olhou de novo para o copo de papel.

Connie já devia estar no fim do corredor, talvez até mesmo descendo a escada.

Harry hesitou. Voltou até o copo amassado e jogou-o na lata de lixo. Aproveitou para jogar também outros dois.

Alcançou Connie no estacionamento, onde ela escancarou a porta do seda comum usado em serviço. Enquanto ele entrava pelo outro lado Connie deu a partida, virando a chave com tanta violência que ela quase quebrou na ignição.

— Teve uma noite ruim? — perguntou ele.

Ela engatou a marcha com um gesto brusco.

— Dor de cabeça?

Ela saiu de ré, depressa demais.

— Um espinho na pata?

O carro disparou pela rua.

Harry se retesou, mas não estava preocupado com o modo de Connie dirigir. Ela podia manobrar muito melhor um carro que pessoas.

— Quer falar sobre o que há de errado?

— Não.

Para alguém que vivia no limite, que parecia destemida em momentos de perigo, que nos finais de semana fazia pára-quedismo e motocross na lama, Connie Gulliver era de uma reticência frustrante e absoluta quando se tratava de revelações pessoais. Os dois trabalhavam juntos há seis meses e, apesar de conhecer um bocado de coisas sobre ela, algumas vezes Harry parecia não saber nada importante.



— Falar a respeito pode ajudar — disse ele.

— Não ajudaria.

Harry olhou-a sub-repticamente, imaginando se a raiva poderia decorrer de problemas com homens. Ele era policial há quinze anos e vira muita traição e miséria humana para saber que os homens eram a fonte da maioria dos problemas femininos. Não sabia nada sobre a vida amorosa de Connie, nem mesmo se tinha uma vida amorosa.

-— Tem a ver com este caso?

— Não.

Acreditou. Connie tentava, com aparente sucesso, não se emporcalhar na sujeira na qual a vida de policial exigia que ela entrasse.



— Mas sem dúvida quero pegar o filho da puta do Durner —

disse ela. — Acho que estamos perto.

Doyle Durner, um vagabundo que entrara para a subcultura do surfe, era procurado para interrogatório sobre uma série de estupros que crescera ern violência a cada incidente, com a última vítima sendo espancada até a morte. Uma colegial de dezesseis anos.

Durner era o principal suspeito porque sabia-se que ele passara por um tratamento para aumentar a circunferência peniana. Um cirurgião plástico de Newport Beach havia lipoaspirado gordura de sua barriga e injetado no pênis, para aumentar a grossura. Esse procedimento definitivamente não era recomendado pela Associação Médica Americana mas, se o cirurgião tivesse uma hipoteca grande a pagar e o paciente fosse obcecado com sua circunferência, as forças de mercado prevaleciam sobre a preocupação com complicações pós-operatórias. A circunferência do pênis de Durner fora aumentada em cinqüenta por cento, um acréscimo tão dramático que deve ter causado desconforto ocasional. Segundo todos os relatos, ele estava feliz com o resultado. Não porque quisesse impressionar as mulheres, mas porque queria machucá-las—e esse era o ponto central. A descrição que as vítimas fizeram sobre a diferença monstruosa do atacante levara as autoridades a centrar as suspeitas em Durner — e três das vítimas haviam observado uma serpente tatuada em sua virilha, um detalhe que ficara registrado em sua ficha policial depois da prisão por dois estupros em Santa Barbara, há oito anos.

Até o meio-dia daquela terça-feira, Harry e Connie haviam falado com funcionários e clientes de três pontos de encontro populares entre surfistas e demais freqüentadores da praia em Laguna: uma loja que vendia pranchas e equipamentos de surfe, uma loja de iogurtes e alimentos energéticos e um bar mal-iluminado onde uma dúzia de clientes bebia cerveja mexicana às onze da manhã. Se desse para acreditar no que disseram — e não dava —, eles nunca tinham ouvido falar de Doyle Durner e não o reconheceram na foto que foi mostrada.

No carro, entre as paradas, Connie presenteou Harry com os itens mais recentes de sua coleção de ultrajes.

— Ouviu falar naquela mulher de Filadélfia? Encontraram dois bebês mortos por desnutrição no apartamento e dúzias de vidros de crack espalhados. Ela estava tão dopada que deixou os filhos morrerem de fome. E sabe qual foi a única acusação que conseguiram contra ela? Dolo irresponsável.

Harry apenas suspirou. Quando Connie estava com vontade de falar sobre o que algumas vezes chamava de 'a crise contínua" — ou, nos momentos mais sarcásticos, de "essa nova Idade das Trevas" -— não esperava qualquer resposta. Ficava satisfeita em recitar um monólogo.

— Um cara em Nova York matou a filha da namorada, uma criança de dois anos, Cobriu a menina de socos e pontapés porque ela ficou dançando na frente da TV, atrapalhando sua visão. Provavelmente estava assistindo à Roda da Fortuna e não queria perder um instante das fabulosas pernas de Vanna White,

Como a maioria dos tiras, Connie tinha um agudo senso de humor negro. Era um mecanismo de defesa. Sem ele a pessoa enlouqueceria ou ganharia uma depressão terminal após os intermináveis contatos com o mal e a perversidade humanos, que são o cerne do trabalho. Para quem só conhece a vida policiai a partir dos enlatados de televisão, o humor dos tiras na vida real pode parecer às vezes grosseiro e insensível —- se bem que nenhum tira dá a mínima para o que qualquer pessoa possa pensar a seu respeito, a não ser que seja outro tira.

— Há um Centro de Prevenção de Suicídios em Sacramento — continuou Connie, parando num sinal vermelho. — Um dos conselheiros enjoou de receber telefonemas de um cidadão idoso e deprimido. Então foi com um amigo até o apartamento do velho, agarrou-o e cortou-lhe os pulsos e a garganta.

Algumas vezes, por trás do humor mais negro de Connie, Harry percebia uma amargura que não era comum aos tiras. Talvez fosse pior do que simples amargura. Talvez fosse pior até mesmo do que desespero. Connie era tão reservada que em geral ficava difícil determinar exatamente o que ela sentia.

Diferentemente de Connie, Harry era um otimista. Mas para continuar otimista ele achava necessário não revolver a imbecilidade e a malevolência humana, como ela fazia.

Tentou mudar de assunto:

— Que tal almoçarmos? Conheço uma pequena trattoria italiana que é fantástica, com mesas forradas de oleado, garrafas de vinho servindo de castiçais, um bom nhoque, um manicotti fabuloso.

Connie fez careta.

— Que nada! Vamos pegar uns tacos num drivethrough e comer no caminho.

Chegaram a um meio-termo: uma lanchonete a meia quadra ao norte da auto-estrada Pacific Coast. Dentro, uma dúzia de clientes e decoração estilo sudoeste. Os tampos das mesas, de madeira pintada de branco, eram selados sob dois centímetros de acrílico. Nas cadeiras, forros com padrão de chamas, em tons pastel. Cactos em vasos. Litografias de Gorman e Parkison. Deveriam estar vendendo sopa de feijão-preto e carne grelhada com algaroba, em vez de hambúrguer com fritas.

Harry e Connie estavam comendo numa pequena mesa encostada à parede — sanduíche de frango grelhado para ele; batatas fritas com um cheeseburger gorduroso e aromático para ela —, quando o sujeito entrou em meio a um clarão de luz solar emitido pela porta de vidro. Ele parou junto ao posto da recepcionista e olhou ao redor.

Apesar de estar penteado e bem-vestido, com calças de cotelê cinza-claro, camisa branca e paletó esporte de camurça, algo nele fez com que Harry se inquietasse no mesmo instante. O sorriso vago e o ar meio distraído dava-lhe um ar curiosamente profissional. O rosto era redondo e suave, com queixo pequeno e lábios pálidos. Parecia tímido, não ameaçador. Mesmo assim as entranhas de Harry ficaram tensas. Instinto de tira.




2

Sammy Shamroe fora conhecido como "Sam, o Simulado", cutivo de uma agência, de publicidade em Los Angeles, abençoado com um talento criativo especial — e amaldiçoado com a atração pela cocaína. Isso fora há três anos. Uma eternidade.

Agora estava saindo do caixote onde vivia, rastejando sobre os trapos e jornais amassados que lhe serviam de cama. Parou de se arrastar assim que ultrapassou os ramos pendentes do arbusto de oleandro, que crescia na beirada do terreno baldio e escondia a maior parte do caixote. Por um instante ficou de quatro, olhando para o chão do beco.

Há muito tempo perdera a possibilidade de obter as drogas caras que o haviam arruinado por completo. Agora sofria uma dor de cabeça de vinho barato. Era como se o seu crânio tivesse sido aberto enquanto dormia e o vento houvesse plantado um punhado de aparas de metal na superfície do cérebro exposto.

Não estava nem um pouco desorientado. Como a luz do sol caía direto no beco, deixando sombras apenas junto às paredes de trás dos prédios no lado norte, Sammy sabia que era quase meio-dia. Ainda que não usasse relógio, visse um calendário, tivesse um trabalho ou apartamento há três anos, estava sempre consciente da estação, do mês, do dia. Terça-feira. Percebia nitidamente onde estava (Laguna Beach), como chegara lá (cada erro, cada auto-indulgência, cada estúpida ação autodestrutiva guardada em detalhes nítidos) e o que poderia esperar pelo resto da vida (vergonha, privação, luta, arrependimento).

O pior aspecto da queda era a clareza teimosa de sua mente, que mesmo quantidades maciças de álcool só podiam poluir por breves períodos. As aparas metálicas de sua dor de cabeça eram uma pequena inconveniência comparada aos agudos espinhos da memória e da autoconsciência que penetravam mais fundo no cérebro.

Ouviu alguém se aproximando. Passos pesados. Um ligeiro coxear: um pé se arrastando de leve no pavimento. Conhecia aquelas passadas. Começou a tremer. Manteve a cabeça baixa e fechou os olhos, desejando que o ruído diminuísse, recuando até o silêncio. Mas os passos soaram mais alto, mais perto... e então pararam à sua frente.

— Já descobriu?

Era a voz profunda e sepulcral que recentemente começara a assombrar os pesadelos de Sammy. Só que agora ele estava acordado. Não era o monstro de seus sonhos turbulentos. Era a criatura real que inspirava os pesadelos.

Relutante, Sammy abriu os olhos granulosos e levantou a cabeça.

— Já descobriu?

Alto, corpulento, com a cabeleira revolta, a barba emaranhada e com pedaços de matéria nojenta demais para se contemplar, o homem-rato era uma figura aterrorizante. Onde a barba não escondia, seu rosto era nodoso, cheio de cicatrizes, como se o tivessem golpeado e revolvido com um ferro de soldar incandescente. O nariz grande era torto e adunco, os lábios cheios de feridas. Sobre as gengivas escuras e doentias os dentes se empoleiravam como lápides de mármore amareladas pelo tempo.

A voz sepulcral ficou mais alta.

— Talvez você já esteja morto.

A única coisa comum no homem-rato eram suas roupas: tênis, calças caqui de bazar de caridade, camisa de algodão e uma capa de chuva muito gasta. Tudo manchado e amarrotado. Era o uniforme de muita gente de rua que resvalara através das rachaduras e caíra no porão escuro que havia sob os pisos da sociedade moderna, alguns por culpa própria e outros não.

A voz suavizou-se dramaticamente quando o homem-rato se curvou, chegando rnais perto.

— Já está morto e no inferno? Pode ser?

Dentre todas as coisas extraordinárias do homem-rato, seus olhos eram o que havia de mais perturbador. Eram de um verde intenso, incomum, mas possuíam estranhas pupilas negras e elípticas, como as de um gato ou réptil. Os olhos faziam o corpo do homem-rato parecer meramente um disfarce, uma roupa de borracha, como se algo indizível espiasse, através de uma fantasia, um mundo onde não nascera, mas que desejava.

Ele baixou a voz ainda mais, até um sussurro grave:

— Morto, no inferno, e eu sou o demônio designado para torturar você?

Sabendo o que viria, já tendo passado por aquilo, Sammy tentou ficar de pé. Mas o homem-rato, veloz como o vento, chutou-o antes que ele pudesse sair da frente. O chute pegou-o no ombro esquerdo,, quase acertando o rosto, e não pareceu dado por um tênis, e sim por uma bota, como se o pé fosse inteiramente de osso, de chifre ou do material que forma a carapaça dos besouros. Sammy enrolou-se em posição fetal, protegendo a cabeça com os braços do melhor jeito que podia. O homem-rato chutou-o de novo, de novo, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, quase como uma dança, uma espécie de jiga, um-chute-e-dois-chute-e-um-chute-e-dois, sem som, sem rugir de raiva ou rir de escárnio, sem arfar a despeito do esforço.

Os chutes pararam.

Sammy se enroscou numa bola ainda mais apertada, como um tatu, enrolando-se ao redor de suas dores.

O silêncio no beco era anormal, a não ser pelo choro baixo de Sammy, pelo qual ele se desprezava. O ruído do trânsito nas ruas próximas desaparecera por completo. O arbusto de oleandro não mais sussurrava à brisa. Quando Sammy, com raiva, disse a si próprio para ser um homem, quando engoliu os soluços, o silêncio foi de uma perfeição mortal.

Ousou abrir os olhos e uma fresta entre os braços, olhando para o fim do beco. Piscou para clarear a visão velada por lágrimas e pôde ver dois carros parados na rua de trás. Os motoristas, visíveis apenas como sombras, aguardavam imóveis.

Mais perto, direto em frente ao seu rosto, uma lacraia de três centímetros, estranhamente fora de seu hábitat de madeiras podres e lugares escuros, estava congelada no processo de atravessar o beco. Os espinhos gêmeos na parte de trás do inseto pareciam malignos, perigosos, curvados para cima como a cauda de um escorpião, ainda que na verdade fossem inofensivos. Algumas de suas seis pernas tocavam o chão, e outras estavam erguidas no meio do passo. O bicho não movia sequer um dos segmentos de sua antena, como se estivesse congelado pelo medo ou prestes a atacar.

Sammy virou o olhar para o final do beco. Na rua, os mesmos carros estavam imóveis nos mesmos lugares. As pessoas lá dentro pareciam manequins,

O inseto outra vez. Imóvel. Como se estivesse morto e alfinetado num quadro de entomólogo.

Cautelosamente, Sammy baixou os braços cruzados sobre a cabeça. Rolou de costas, gemendo, e olhou com relutância para o atacante.

Pairando lá em cima, o homem-rato parecia ter trinta metros de altura. Estudou Sammy com um interesse solene.

— Quer viver?

Sammy ficou surpreso não pela pergunta, mas pela incapacidade de responder. Estava paralisado entre o medo da morte e a necessidade de morrer. A cada manhã sentia-se desapontado ao acordar e descobrir que continuava entre os vivos; e a cada noite, quando se enrolava em sua cama de trapos e papel, aguardava o sono sem fim. Contudo, dia após dia lutava para obter comida suficiente, para encontrar um lugar aquecido naquelas raras noites em que a bondade climática da Califórnia desaparecia, para ficar seco nos dias de chuva, de modo a evitar uma pneumonia. Antes de atravessar a rua olhava para os dois lados.

Talvez não quisesse viver, só desejasse ser punido por estar vivo,

— Seria melhor se você quisesse viver—disse o homem-rato

em voz baixa. — Mais divertido para mim.

O coração de Sammy trovejava. Cada pulsação latejando mais forte na carne machucada que marcava os pontos de impacto dos chutes ferozes do homem-rato.

— Você tem trinta e seis horas para viver. Melhor fazer alguma

coisa, não acha? Hmmmm? O relógio está correndo. Tique-taque, tique-taque.

— Por que está fazendo isso comigo? — Sammy perguntou em tom choroso.

Em vez de responder, o homem-rato disse:

— À meia-noite de amanhã os ratos virão atrás de você...

— Eu nunca fiz nada ao senhor.

As cicatrizes no rosto brutal do atormentador ficaram lívidas.

— ...mastigar seus olhos...

— Por favor!

Seus lábios pálidos se esticaram enquanto ele falava, revelando mais dentes podres:

— ...rasgar seus lábios enquanto você grita, mordiscar sua língua.

Enquanto o homem-rato se agitava, sua conduta não ficava mais febril, e sim mais fria. Seus olhos de réptil pareciam irradiar um gelo que abria caminho pela carne de Sammy e penetrava nos recônditos mais profundos de sua mente.

— Quem é você?—perguntou Sammy, não pela primeira vez.

O homem-rato não respondeu. Inchou de fúria. Seus dedos grossos e imundos se fecharam, formando punhos, abriram, fecharam, abriram. Amassou o ar como se quisesse espremer sangue. O que é você?, pensou Sammy, mas não ousou perguntar.

— Ratos — sibilou o homem.

Com medo do que estava por vir, apesar de já ter acontecido antes, Sammy arrastou-se de costas na direção do arbusto que meio escondia seu caixote, tentando colocar alguma distância entre ele e o vagabundo enorme.

— Ratos — repetiu o homem-rato e começou a tremer.

Estava começando.

Sammy congelou, aterrorizado demais para se mexer.

Os tremores do homem-rato se transformaram em convulsões. As convulsões evoluíram para sacudidas violentas. Seu cabelo oleoso chicoteava ao redor da cabeça, os braços tinham espasmos e a capa preta balançava como se estivesse em meio a um ciclone, mas nenhum vento soprava ou uivava. O ar de março estava tão sobrenaturalmente imóvel que era como se o mundo não passasse de um cenário pintado, e os dois fossem os únicos atores dentro dele.

Parado sobre recifes de asfalto, Sammy Shamroe finalmente conseguiu se levantar. Fora lançado de pé pelo medo da maré de garras, dentes aguçados e olhos vermelhos que logo se ergueria ao seu redor.

Entre as roupas, o corpo do homem-rato sacudia como um saco de aniagem cheio de cascavéis iradas. Ele estava... mudando. Seu rosto se dissolveu e se reformou, como se ele estivesse numa forja controlada por alguma divindade louca que pretendesse moldar uma série de monstros, cada qual mais terrível que o outro. Sumiram as cicatrizes lívidas, os olhos de réptil, a boca cruel. Por um momento sua cabeça era apenas uma pasta de carne indiferenciada, uma bola de massa transpirante, vermelha de sangue, depois vermelho-amarronzada e mais escura, brilhando, como algo que escorresse de uma lata de comida para cães. Abruptamente o tecido se solidificou, e a cabeça era composta de ratos grudados uns nos outros, uma bola de ratos, caudas penduradas como trancas de rastafáris, olhos ferozes, escarlates como gotas de sangue radiante. Onde as mãos teriam pendido das mangas, ratos saíam de punhos frouxos. Cabeças de outros roedores começaram a surgir por entre os botões da camisa.

Apesar de ter visto tudo isso antes, Sammy tentou gritar. Sua língua inchada grudou no céu da boca seca e ele só conseguiu um som abafado de pânico no fundo da garganta. De qualquer modo, um grito não ajudaria. Ele havia gritado antes, durante outros encontros com seu atormentador, e ninguém respondera.

O homem-rato se desmembrou como se fosse um espantalho frouxo numa tempestade violenta, pedaços do corpo sendo espalhados. Quando batia contra o pavimento, cada parte era um rato. Com bigodes, nariz molhado, dentes agudos, guinchando, as criaturas repelentes enxameavam umas sobre as outras, caudas longas chicoteando para a direita e a esquerda. Mais ratos brotavam da camisa e das pernas das calças, muito mais do que as roupas poderiam ter contido: vinte, quarenta, oitenta, mais de cem.

Como um balão construído em forma de homem, ele desinflou, e as roupas assentaram devagar sobre o pavimento. Depois cada peça também se transformou. As roupas amarrotadas fizeram brotar cabeças e membros e produziram mais roedores, até que o homem-rato e seus trajes fedorentos foram substituídos por uma multidão de animais que se agitavam Uns sobre os outros com a agilidade desossada que tornava sua espécie tão repulsiva.

Sammy não conseguia respirar. O ar ficou ainda mais pesado. Antes o vento havia parado, e agora uma imobilidade anormal parecia assentar sobre camadas mais profundas do mundo natural, até que a fluidez das moléculas de oxigênio e nitrogênio declinou drasticamente, como se a atmosfera começasse a engrossar, virando um líquido que ele só conseguia sugar para os pulmões com extremo esforço.

Agora que o corpo do homem-rato havia se desintegrado em muitas dezenas de bichos guinchantes, subitamente o corpo transformado se dispersou. Os ratos gordos e untuosos irromperam do bolo, correndo em todas as direções, afastando-se de Sammy e ao mesmo tempo enxameando ao seu redor, sobre seus sapatos e entre suas pernas. Aquela maré odiosa e viva derramou-se para as sombras junto aos prédios e no terreno baldio, onde escorreu por buracos nas paredes e na terra — buracos que Sammy não podia ver — ou simplesmente desapareceu.

Uma brisa súbita empurrou folhas mortas e pedaços de papel. O ranger de pneus e o rugir de motores cresceram enquanto carros passavam pela rua principal junto à entrada do beco. Uma abelha zumbiu perto do rosto de Sammy.

Ele podia respirar de novo. Ficou parado um momento à luz forte do meio-dia, arfando.

O pior era que tudo acontecera durante o dia, ao ar livre, sem fumaça, espelhos, iluminação especial, fios de seda, alçapões ou as ferramentas comuns do ofício de mágico.

Sammy havia se arrastado do seu caixote com a boa intenção de começar o dia a despeito da ressaca, talvez procurando latas de alumínio para vender no centro de reciclagem, talvez pedindo esmolas na calçada. Agora a ressaca se fora, mas ele continuava sem disposição para enfrentar o mundo.

Voltou ao arbusto de oleandro, sentindo as pernas inseguras. Os ramos estavam pesados de flores vermelhas. Ele empurrou-os para o lado e olhou para o grande caixote de madeira.

Pegou uma vara e cutucou os trapos e os jornais dentro da caixa, espetando que alguns ratos saíssem do esconderijo. Mas eles tinham ido para outro lugar.

Ficou de joelhos e se arrastou para dentro do abrigo, deixando que as cortinas de oleandro se fechassem atrás dele.

Da pilha de suas magras posses no fundo do caixote retirou uma garrafa fechada de um borgonha barato e desatarraxou a tampa. Tomou um gole comprido do vinho morno.

Sentado de costas na parede de madeira, agarrando a garrafa com as duas mãos, tentou esquecer o que vira. Até onde podia perceber, o esquecimento era sua única esperança de enfrentar a situação. Ele não conseguia mais cuidar dos problemas da vida cotidiana. Como poderia enfrentar algo tão extraordinário quanto o homem-rato?

Um cérebro embebido em muitos gramas de cocaína, temperado com várias outras drogas e marinado em álcool podia produzir o mais espantoso zoológico de criaturas alucinadas. E quando sua consciência exigia o melhor, e ele lutava para atender a um de seus periódicos pedidos de sobriedade, a privação levava ao delirium tremens povoado por uma fantasmagoria de feras ainda mais exóticas e ameaçadoras. Mas nenhuma delas era tão memorável e tão perturbadora quanto o homem-rato.

Tomou outro gole generoso de vinho e recostou a cabeça na parede do caixote, segurando-se firme à garrafa.

Ano após ano, dia após dia, Sammy encontrava uma dificuldade cada vez maior em distinguir entre a realidade e a fantasia. Há muito deixara de confiar em suas percepções. Mas de uma coisa ele estava desalentadamente certo: o homem-rato era real. Impossível, fantástico, inexplicável — mas real.

Sammy não esperava encontrar respostas às questões que o assombravam. Mas não conseguia parar de perguntar: o que era aquela criatura? De onde vinha? Por que o interesse em atormentar e matar um sem-teto grisalho e arruinado cuja morte — ou cuja existência permanente — trazia pouca ou nenhuma conseqüência ao mundo?

Bebeu mais vinho.

Trinta e seis horas. Tique taque. Tique-taque




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