Licenciatura em matemática



Baixar 25.06 Kb.
Encontro14.05.2018
Tamanho25.06 Kb.




LICENCIATURA EM MATEMÁTICA:
DIRETRIZES PARA UM CURRÚCULO

César Polcino Milies



O Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo mantém um processo de reflexão e discussão quase constante do seu programa de Licenciatura em Matemática. Este processo tem levado a uma profunda reformulação da estrutura curricular do curso em 1994 e existe uma Comissão de Licenciatura que avalia o andamento de programa e orienta os professores que ministram aulas para esse curso.
Apresentamos a seguir uma breve resenha histórica sobre a evolução da Licenciatura em Matemática da USP, desde sua origem, que segue a descrição elaborada pela Profa. Cristina Cerri, com base em depoimentos da Profa. Elza Gomide e que se encontra, na íntegra, na página da internet http://www.ime.usp.br/~cerri/lic/historico.html.
Em 1934 foi fundada a Universidade de São Paulo e sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que passou a abrigar o primeiro curso superior de Matemática da USP. No início existia apenas o curso de Bacharelado em Matemática, com duração de três anos. Alguns anos depois, o Departamento de Educação foi agregado à Faculdade de Filosofia e passou então a existir o curso de Licenciatura em Matemática, com o objetivo de formar Professores de Matemática. Este curso coincidia com o do Bacharelado nos seus três primeiros anos e tinha um ano a mais, com disciplinas da área de educação.
O Departamento de Matemática daquela Faculdade, na época dirigido pela Profa. Dra. Elza Furtado Gomide, organizou as estruturas curriculares de ambos cursos e, no fim da década de 60 deu-se sua separação efetiva com a criação de disciplinas específicas para o curso de Licenciatura, mantendo porém, boa parte em comum.
O Insitituto de Matemática e Estatística foi fundado em fins de 1969, reunindo professores de matemática de diversas unidades da USP e a primeira reunião de sua Congregação, para escolher seu primeiro diretor ocorreu já em março de 1970. Além do Departamento de Matemática, foram criados departamentos de Estatística, Matemática Aplicada e, mais adiante, de Ciência da Computação e seus respectivos bacharelados. A partir desta época, houve sucessivas mudanças da estrutura curricular da licenciatura, com a introdução de disciplinas das áreas de Estatística e Computação, bem como mais disciplinas específicas.
Ao longo dos anos, a desvalorização da profissão de professor e a deterioração do ensino em geral teve conseqüências aparentes e a USP organizou, em 1990 o “Fórum das Licenciaturas”, que promoveu um amplo debate sobre a profissão de professor e o papel da Universidade na formação de profissionais competentes na área de ensino, que durou até 1992.
Essas discussões prosseguiram no IME onde, tomando como base a proposta do “Fórum”, grupos de trabalho e debates coordenados pela Comissão Coordenadora do Curso de Licenciatura elaboraram uma nova estrutura curricular, implantada a partir de 1994.
Um texto elaborado pela Comissão Coordenadora em 1998, composta pelos professores Iole de Freitas Druck, Maria do Carmo Domite Mendonça, Oscar João Abdonur e Rosa Maria dos Santos Barreiro Chaves serviu de base para um documento sobre o Projeto Pedagógico que norteou a elaboração da nova estrutura curricular. Nós citaremos e comentaremos, a seguir, alguns dos aspectos que julgamos mais significativos para as discussões desta mesa; a íntegra do documento pode ser consultada na página http://www.ime.usp.br/~cerri/lic/projeto_pedagogico.html.
O documento é dividido em três sessões: Na primeira se descreve o perfil desejado do formando, na segunda, as competências e habilidades nele esperadas e, na terceira, os conteúdos mínimos julgados essenciais e algumas sugestões para o enriquecimento curricular.

Perfil do Licenciado em Matemática
Neste sessão, o documento enumera uma série de características desejadas num professor que irá ensinar Matemática na segunda fase do ensino fundamental e no ensino médio. Dentre estas, há algumas que são válidas para qualquer licenciado. Citaremos aqui apenas aquelas que são específicas do licenciado em matemática.


  • Domina conhecimento matemático específico não trivial, tendo consciência do modo de produção próprio desta ciência – origens, processo de criação, inserção cultural – tendo também conhecimento de suas aplicações em várias áreas.




  • Percebe o quanto o domínio de certos conteúdos, habilidades e competências próprias da matemática importam para o exercício pleno da cidadania.




  • Tem maturidade para utilizar adequadamente ou perceber o significado da precisão dedutiva num processo de demonstração, assim como para empregar procedimentos indutivos ou analógicos na criação de matemática, entendida como uma atividade de resolução de problemas, tanto na sua relação pessoal com a ciência matemática quanto na dinâmica de ensino-aprendizagem.




  • Compreende as características peculiares a cada um dos raciocínios típicos da matemática: o raciocínio lógico-algébrico, o combinatório e o geométrico.




  • Domina a forma lógica característica do pensamento matemático e tem conhecimentos dos pressupostos da Psicologia Cognitiva de modo a compreender as potencialidades de raciocínio de cada faixa etária. Em outras palavras, e capaz de, por um lado, favorecer o desenvolvimento do raciocínio de seus alunos e, por outro lado, não extrapolar as exigências de rigor ao ponto de gerar insegurança em seus alunos em relação à matemática.


Habilidades e Competências

Descrevem-se, nesta sessão, as habilidades ou competências que o curso de Licenciatura em Matemática tem por objetivo desenvolver em seus formandos. Mais uma vez, citamos apenas alguns destes itens, mas todos eles estão disponíveis na página acima mencionada.




  • Pensamento heurístico competente: capacidade de encaminhar solução de problemas e explorar situações, fazer relações, conjeturar, argumentar e avaliar. Capacidade de formular problemas.



  • Domínio dos raciocínios algébrico, geométrico e combinatório de modo a poder argumentar com clareza e objetividade dentro destes contextos cognitivos. Ou seja, os alunos devem desenvolver capacidade dedutiva com sistemas axiomáticos, percepção geométrico-espacial, capacidade de empregar ensaio e erro como procedimento de busca de soluções e segurança na abordagem de problemas de contagem.




  • Capacidade de contextualizar e inter-relacionar conceitos e propriedades matemáticas, bem como de utilizá-los em outras áreas do conhecimento e em aplicações variadas. Em especial, poder interpretar matematicamente situações e fenômenos que emergem de outras áreas do conhecimento ou de situações reais.




  • Visão histórica e crítica da Matemática, tanto no seu estado atual como nas várias fases de sua evolução que lhe permita tomar decisões sobre a importância relativa dos vários tópicos tanto no interior da ciência matemática como para a aprendizagem significativa da escola fundamental e média.




  • Domínio dos conteúdos básicos da matemática, estatística, informática, física e pedagogia constantes, a seguir, no rol de conteúdos curriculares mínimos. É importante ressaltar que estes foram pensados de modo a garantir, não só os objetivos já elencados, como também propiciar o necessário distanciamento e visão abrangente de conteúdos além daqueles que deverão ser ministrados na escola fundamental e média.




  • Capacidade de utilização em sala de aula de novas tecnologias como vídeo, áudio, computador, internet, entre outros.


Conteúdos Curriculares
Nesta sessão, se descrevem alguns conteúdos curriculares considerados para permitir ao formando da licenciatura adquirir as habilidades e competências desejadas, bem como adquirir o perfil que dele se espera. As grandes áreas contempladas são as seguintes:


  • Álgebra.




  • Geometria.




  • Análise Matemática.




  • Estatística.




  • Informática.




  • Física.




  • História e Fundamentos da Matemática.




  • Área Pedagógica.




  • Metodologia da Matemática.




  • Psicologia.




  • Didática.




  • Administração e Estrutura Escolar.




  • Estágio.

Na descrição de cada uma destas áreas se inclui, mais do que conteúdos específicos, as idéias gerais e o espírito e objetivos com que cada um destes assuntos devem ser abordados. Não os detalharemos aqui, para não alongar desnecessariamente nosso texto mas, mais uma vez, observamos que eles estão disponíveis na página acima citada.



Observações

Como dizemos acima, este projeto pedagógico serviu de referência para uma profunda reformulação da estrutura curricular do curso de licenciatura em matemática do IMEUSP, em 1994. Podem-se observar hoje os efeitos desta reformulação. Por um lado, as estatísticas mostram que o número de formandos vem crescendo e, consistentemente, o número de desistências ao longo do curso tem diminuído visivelmente. Mais importante ainda, embora não seja possível quantificar em estatísticas a satisfação dos alunos com o curso, esta também parece ter aumentado apreciavelmente.


Como ponto negativo, podemos observar que, na nossa opinião, o nível de conhecimentos e de formação geral dos nossos formandos parece ter decaído. Acreditamos que isto se deve a interação de dois fatores: por um lado, é evidente que os alunos que ingressam na licenciatura chegam, a cada ano, com maiores falhas na sua formação; por outro lado, correspondentemente, devido ao desejo de se adaptar à formação anterior dos nossos alunos ingressantes, os professores parecem ter diminuído, talvez demasiadamente, seu nível de exigência.
A total desvinculação do curso de licenciatura dos demais bacharelados, já desde o primeiro dia do curso, teve a vantagem evidente de poder formular uma estrutura curricular totalmente voltada para as necessidades destes profissionais do ensino. Teve também o inconveniente de permitir que tanto os conteúdos quanto os níveis de exigência se distanciassem cada vez mais dos usuais nos bacharelados.
Acreditamos, porém, que o IME se encontra no bom caminho. São necessários apenas alguns ajustes que a experiência vem apontando e que seguramente serão realizados com êxito.

Comentários finais

A proposta da Comissão Coordenadora do Curso de Licenciatura contém alguns pontos que nos parecem fundamentais como diretrizes para a elaboração de um currículo. Quando fala do perfil desejado num licenciado, diz, entre outras coisas, que ele “Domina conhecimento matemático específico não trivial, tendo consciência do modo de produção próprio desta ciência” ... “Tem maturidade para utilizar adequadamente ou perceber o significado da precisão dedutiva num processo de demonstração” ... “Compreende as características peculiares a cada um dos raciocínios típicos da matemática”.


Entre as habilidades e competências desejadas se menciona que o licenciado em matemática deve ter “Domínio dos raciocínios algébrico, geométrico e combinatório de modo a poder argumentar com clareza”... “Capacidade de contextualizar e inter-relacionar conceitos e propriedades matemáticas” e ter ainda “visão abrangente de conteúdos além daqueles que deverão ser ministrados na escola fundamental e média”.
A questão principal a ser então considerada é a de como conseguir que o futuro licenciado adquira essas características, habilidades e competências. Pode-se discutir quais são os conteúdos específicos desejáveis nas várias disciplinas, mas nos parece muito claro que para atingir os fins almejados o mais importante é uma questão qualitativa.
É fundamental que algumas disciplinas, distribuídas entre as várias áreas apontadas, seja ministradas com o rigor e a profundidade com que são usualmente oferecidas para os cursos de bacharelado. De nada adianta discutir lógica, fundamentos, axiomatização ou conteúdos mais avançados de álgebra, geometria ou análise matemática, se isto é feito com superficialidade ou sem a devida “cobrança” de aprendizado. O domínio de conhecimento matemático não trivial, a maturidade, o distanciamento e a visão abrangente de conteúdos só pode resultar do envolvimento em profundidade com determinados assuntos, do estudo individual sério e metódico e do esforço do estudante em resolver problemas que parecem inicialmente difíceis e que requerem meditação e reflexão para achar os caminhos de solução. Quais seriam esses assuntos a serem explorados com maior profundidade nos parece uma questão secundária. São muitos os temas que poderiam ser escolhidos; o importante não é o assunto em si mas a forma e a seriedade com que ele é tratado.
Acreditamos que é fundamental fomentar, estimular e favorecer de todas as formas possíveis o desempenho individual. Obviamente, achamos da maior importância todos os esforços realizados no sentido de facilitar o aprendizado, de motivá-lo e de torná-lo mais atraente, mas nada substitui o trabalho individual. Tal como em muitos outros afazeres humanos, acreditamos que, no processo de ensino-aprendizado, cabe ao professor (ou, no caso, às instituições de ensino) o papel de guia, de facilitador mas, em última análise, a verdadeira formação só pode resultar do trabalho do aluno.
Gostaria de finalizar minha participação apontando uma outra característica, de caráter talvez mais geral, mas que acho que também merece ser levada em consideração quando se pensa em diretrizes para um currículo de formação de professores. Parece existir uma tendência, cada vez maior, de se preocupar quase que exclusivamente com a formação técnica do futuro profissional. Nesse campo, parece ter havido uma falsa oposição entre a preocupação com a obtenção das habilidades próprias do ensino e a formação específica em matemática. Na realidade, elas desempenham papéis complementares na formação do professor.
Há um outro aspecto que não pode ser descuidado. Antigamente, a universidade tinha, além da preocupação de formar um técnico capacitado, a intenção de formar um cidadão com uma sólida cultura geral, preocupação essa que começava já no curso secundário. Acho que um currículo de licenciatura deveria ter o ensejo de recuperar, pelo menos parcialmente, essa tradição. Acredito que, de uma forma ou outra, deve-se incentivar no futuro professor, o hábito de leitura e discussão de pelo menos alguns textos clássicos da filosofia e da literatura universal bem como o de investigar as relações entre o desenvolvimento histórico da matemática e da ciência, arte e cultura como um todo.

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal