LiçÕes sobre a docência na mídia: Entre professores inteligentes e professoras dedicadas e afetivas



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LIÇÕES SOBRE A DOCÊNCIA NA MÍDIA:

Entre professores inteligentes e

professoras dedicadas e afetivas
Saraí Patrícia Schmidt (UFRGS)
Professora se acha vencedora / Executivo vira professor e ensina após expediente / Volta as aulas sem estresse : psicólogos orientam como evitar a ansiedade na hora de retomar a rotina depois das férias / A postos: o primeiro dia pode ser uma experiência angustiante, mas pais e professores devem estar prontos para ajudar os pequenos a vencer o período de adaptação/ Hit volta as aulas...
Estes são alguns títulos de reportagens e legendas de fotos que foram publicadas em jornais brasileiros recentemente, quando estes colocaram em pauta temáticas referentes a profissão docente. Para criar representações sobre a/o profissional que ocupa as salas de aula como espaço de trabalho a imprensa conta com inúmeros recursos que são utilizados estrategicamente. Um destes recursos extremamente produtivo e que será o alvo deste estudo é a fotografia. Este trabalho é parte das conclusões de uma pesquisa, onde investiguei as concepções de educação apresentadas na mídia impressa brasileira, centralizando a análise nas reportagens que colocam em pauta a profissão docente. Para este estudo serão tomadas como objeto de análise as fotografias, legendas e títulos que integram o espaço jornalístico de três jornais brasileiros.1 Busco uma possibilidade não de interpretação, mas de novos olhares para a imprensa, iniciando um estudo das representações de professoras e professores, que a mídia constrói através de fotografias e respectivas legendas.

O trabalho é realizado na perspectiva dos Estudos Culturais, analisando as formas como a profissão docente é representada na trama de discursos da mídia neste final de século, e discutindo como estas representações, construídas com inspiração em concepções modernas e hegemônicas, se constituem e se fortalecem na textualidade fotográfica do aparato jornalístico. Os Estudos Culturais abrem a possibilidade de optar por não realizar um estudo de recepção do material analisado e sim discutir aquilo que está sendo colocado em circulação na mídia. Entendo que pode ser produtivo o exercício de tentar analisar quais são os olhares que o jornal está lançando para as questões relacionadas à formação docente, examinando o que ele nos diz sobre isto.

O espaço que as imagens têm ocupado na mídia provocou certa inquietação em minha prática como jornalista envolvida com o campo da educação, despertando o desejo de discutir as fotografias como artefatos culturais que tem desempenhado papel importante na constituição de identidades sobre a docência. O que interessa discutir neste trabalho não é se as representações sobre a profissão docente publicadas na mídia são “essencialmente verdadeiras” ou não, como se existisse uma “realidade única”, uma forma correta de representar as coisas. Mas interessa analisar as imagens construídas e multiplicadas pela mídia, que naturalizam o que é uma construção social e histórica. Pretendo lançar outras possibilidades de olhar para profissão docente, num esforço para que não seja o olhar hegemônico.

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A professora é destaque na foto onde o tema da matéria é a volta às aulas. Ela está em frente ao quadro, no centro da foto com um vestido vermelho. Os alunos estão todos numa fila, lado-a-lado, atentos à professora e, inclusive, imitando a sua postura, que lembra a posição de sentido adotada em formações militares: costas eretas e braços estendidos ao longo do corpo. O título, Volta as aulas sem estresse3, vem acompanhado de uma linha de apoio que sugere a escola como um local eficiente para adequar alunas e alunos às regras de um jogo onde o bom comportamento e a obediência são fundamentais: Psicólogos orientam como evitar a ansiedade na hora de retomar a rotina depois das férias4.

Olhando esta fotografia, temos a noção de que a professora opera como um modelo que deve ser seguido pelas/os estudantes. A professora competente deve manter a disciplina na sua sala de aula. Na cartilha dos novos conhecimentos que serão ensinados pela professora: a fila reta, meninos de um lado e meninas de outro; levantar a mão antes de falar; esperar a sua vez de falar, ou seja, apenas quando a professora autorizar. Alvarez-Uría (1996) compara a escola com instituições totais, como o convento, onde existe uma permanente organização disciplinar e hierarquizada. O autor utiliza o termo “mortificação do eu” para denominar um processo de subjetivação marcado pelo preestabelecimento dos espaços de cada um em função das hierarquias e seqüência de atividades. “Os silêncios, as filas, os exames, a compartimentação dos movimentos no espaço e no tempo, os prêmios e os castigos, o trabalho e a obediência vão conformar determinadas personalidades” (ibidem, p. 136). Estudantes e professoras são capturados, são regulados na escola. Inclusive a professora desta foto precisou contar com o apoio de psicólogos para desempenhar melhor o seu papel, ou seja, adaptar, de forma mais eficiente, os estudantes às novas regras da escola. Nas palavras do autor, a escola exige “uma entrega total de alunos e professores, uma imersão da mente e do corpo em atividades que comprometem os sujeitos na sua totalidade não apenas durante as horas de aula, mas também na sua vida cotidiana e em suas horas de descanso; promove um sistema de imersão que reclama, dos professores, a vocação à sua profissionalização” (ibidem, p. 136).

Esta reportagem , quando fala sobre a volta as aulas sem estresse, utiliza a fotografia de estudantes muito bem alinhados, o que demonstra que estão disciplinados e que também a professora está conseguindo desempenhar com competência o seu papel, mantendo todos em ordem. Na legenda temos uma orientação sobre o significado da escola regulando corpos e mentes: A postos: o primeiro dia pode ser uma experiência angustiante, mas pais e professores devem estar prontos para ajudar os pequenos a vencer o período de adaptação. Veiga-Neto (1999, p. 1) nos ajuda a pensar sobre o disciplinamento escolar regulando os saberes e os corpos:

Segundo Foucault, viver, como vivemos, numa sociedade disciplinar significa viver sob uma rede quase invisível de normas, valores, verdades, proibições, etc., cujo objetivo é fazer com que cada um seja capaz de se autogovernar. A vantagem desse autogoverno está no fato de que, com um mínimo de custos, a sociedade funciona de maneira auto-regulada. É por isso que, para aqueles que não passaram pela escola —ou para aqueles a quem a escolarização não surtiu resultados—, para os incapazes de se autogovernarem, a sociedade tem ainda o recurso de mandá-los para a prisão. Ou para o manicômio, conforme o caso.

Muitas reportagens anunciam uma nova pedagogia, formas avançadas de ensinar na escola. Mas, nestas reportagens, a forma encontrada para representar, através da fotografia, esta nova e avançada maneira de lecionar, é justamente fazendo uma composição da já tradicional professora na sala de aula, diante das/os alunas/os e próxima ao quadro de giz. Mesmo que ela não esteja utilizando o quadro no momento da fotografia, ele está quase sempre presente, como um ícone da profissão docente. A professora está autorizada a colocar no quadro aquilo que deve ser copiado e compreendido pelos estudantes.

O foco principal da foto está na professora e naquilo que ela escreveu no quadro negro. Ela está ali com os seus instrumentos de trabalho: o giz e o quadro. Alunas e alunos estão de costas para a câmera e atentas/os para aquilo que a professora está falando, àquilo que ela está ensinando. Esta foto pode sugerir a noção de que os alunos são todos iguais, são anônimos e estão ali para receber o conhecimento. Segundo Deacon e Parker (1995, p. 98), na educação ocidental moderna “o professor é constituído como o catalisador particularmente ativo, autorizado e comunicativo da produção e reprodução do conhecimento, em relação ao qual o aprendiz pode ser mais ou menos ativo, mas sempre subordinado”.

O que o jornal tem nos ensinado sobre educação é que ela se constitui num conjunto de soluções infalíveis para o desenvolvimento de todos, propiciado pela garantia de acesso à escola. Esta está autorizada a preparar o indivíduo para ser uma pessoa bem sucedida, bem educada, bem regulada. A própria concepção de educação cria necessidades que só através da escola poderão ser sanadas. Illich (apud Deacon e Parker,1995) faz uma analogia entre a educação e o desenvolvimento, como construções sociais que criam um novo tipo de espaço que precisa de mobília. Nesta perspectiva, “a educação cria um vazio interno que exige ser preenchido e então acaba por monopolizar a produção dessa escassa mobília (...) através da criação de um vazio interno, a educação destrói o sentido comum e, como resultado, o homo torna-se educandus: para aprender ele precisa ser educado” (ibidem, p. 105).

Conforme Varela e Alvarez-Uría (1992, p. 82), ao discutirem a formação da escola Normal de Madri, criada em 1839, “o professor não possui tanto um saber, mas técnicas de domesticação, métodos para condicionar e manter a ordem; não transmite tanto conhecimento, mas uma moral adquirida em sua própria carne na passagem pela Escola Normal”. Segundo a autora e o autor, nesta época, quando surge a Escola Normal, os professores eram pessoas de um nível social ao mesmo tempo elevado para identificarem-se com as classes populares e baixo para aspirar uma nova posição social através desta profissão. Este grupo demonstrava um desprezo pela cultura das classes humildes e transmitiam sua admiração pela cultura burguesa, na qual gostariam de integrar-se. Surge então o professor como um sujeito que rompe com seu grupo de origem em nome de uma integração com uma classe que, supõe, deseja, imagina, estaria “apto” para ingressar.



Executivo vira professor e ensina após expediente. Este é título de outra reportagem que coloca em pauta a profissão docente. Na foto, um homem com cerca de 50 anos, usando uma camisa branca e gravata, apontando alguns dados diante de uma transparência projetada na parede com algumas frases explicativas em inglês. O efeito da luz do retroprojetor sobre o rosto do professor parece indicar que ele é alguém, realmente, iluminado, que está ali oferecendo a sua luz própria para os estudantes. Ele está indicando o caminho através de sua própria mão, projetada como seta sobre a transparência na parede.

Este executivo procurou a sala de aula após o expediente para relaxar e ter prazer. Enquanto professoras e professores organizam manifestos, reivindicam melhores salários e reclamam das condições de trabalho, este homem fala da possibilidade de relaxar através da docência. Ele está ali de gravata o que indicaria que, provavelmente, foi para a sala de aula direto da empresa. Ele está no terceiro turno de atividade e não demonstra cansaço “porque ele gosta daquilo que faz”. Na legenda da foto, a frase: Carlos Dreyfuss, diretor da Original mostra transparências usadas nas aulas de inglês técnico, que ele ministra depois do expediente na multinacional. Provavelmente este homem que aparece na foto, diretor de uma mutinacional e evidentemente bastante ocupado, não está buscando no magistério uma compensação financeira. O próprio título diz isso  ele virou um professor para relaxar, ter prazer  ou seja, ele não necessita de formação para o magistério, pois a profissão é descontraída e prazerosa. As palavras em inglês e o título de diretor de uma multinacional, já lhe garantem um certo status que dispensa uma discussão sobre formação ou competência. Se ele tem capacidade para administrar uma grande empresa seria evidente que está apto para conduzir uma turma de estudantes o que, segundo a lógica corrente, deve ser muito mais fácil.



Outra reportagem que também aborda a profissão docente, traz uma professora que teve um caminho inverso daquele do executivo da reportagem anterior. Na foto, uma mulher sorridente está sentada e rodeada de crianças. No fundo da fotografia aparecem alguns desenhos infantis que denotam que o local possa ser uma sala de aula. O título da matéria fala sobre o significado da docência para esta mulher: Professora se acha vencedora. Ao contrário do executivo que “virou professor”, neste caso ela precisou estudar muito para conseguir ser uma professora. Na legenda: Professora Rita de Cássia, índia pankararu, ao lado de seus alunos na escola Real no Parque. Para aquela mulher ser professora talvez possa significar muito em relação ao que poderia significar para aquele homem branco que sabe inglês. Na foto onde está a professora indígena temos a presença de suas alunas e de seus alunos. Ela está cercada de crianças. Já na foto do homem, os alunos não aparecem, talvez porque ele está à frente dos estudantes e isto pressupõe uma certa distância. O professor está naturalmente mais próximo do quadro, das lâminas, ou seja, dos artefatos que representam o seu conhecimento. Considerando que esta mulher é uma índia, chegar a ser professora pode representar muito, afinal para alcançar este status ela precisou sair da sua aldeia “primitiva”, ir para a cidade e tomar contato com o mundo civilizado, com a cultura letrada. Ela agora terá condições de até ensinar para as crianças brancas.



Uma reportagem bastante insólita surge abordando a moda da professora. Uma página colorida traz inúmeras fotos de uma jovem professora com o seu grupo de alunos e alunas. A matéria traz dicas de moda, recomendando roupas esportivas e confortáveis. A mesma jovem professora aparece em circunstâncias variadas e sempre com uma vestimenta diferente. A modelo escolhida para este ensaio fotográfico, que tem como tema a moda da professora ou a moda na escola, é uma adolescente, lembrando o padrão de beleza de uma top model. Nas fotos ela está, ora de cabelos soltos, ora de tranças, ora de cabelo preso, demonstrando a versatilidade que uma professora deve ter no exercício de sua profissão. Na foto que abre a página, a professora está sorrindo com uma bola de futebol nas mãos e em frente a uma goleira. Um pouco atrás dela, uma fila de garotos com roupas esportivas estão olhando para a professora. Eles parecem simular a tradicional barreira que os jogadores de futebol fazem diante da possibilidade de gol do adversário ao cobrar uma falta. Todos estão sorrindo na fotografia. Na legenda algumas dicas para a jovem professora estar adequadamente vestida: Para invadir o campinho da educação física, o tamanquinho em camurça com solado de madeira é superleve (Azaléia) e combina com o cinto trissê de couro, com a corsário crua em jeans com strech (Lua & Cia) e com o cotton com o símbolo da Calvin Klein. Talvez usar um tamanquinho não seja o mais recomendado para uma aula de educação física, mas neste caso o que importa é aparência, é o visual da professora.

O título é bastante sugestivo: Hit volta às aulas. É interessante que esta matéria, publicada no caderno de moda do jornal, traz sugestões para a professora se vestir adequadamente seguindo as tendências da moda. Um texto-legenda fala sobre a importância destas dicas, apresentando fotografias que oportunizam a atualização das professoras para seguir o “hit” da moda. Duas semanas de volta à rotina de aulas foi tempo suficiente para perceber que a calça curta, conhecida como corsário ou pescador, veio das férias para a escola e virou hit dentro das salas de aula.

Está aqui apresentada a relação da mulher professora com o supérfluo. Conforme este ensaio ela precisa acompanhar o hit da moda que muda constantemente. Isto nunca seria recomendado a um professor. Ao mesmo tempo saliento a utilização do diminutivo associado com o feminino. Conforme o anúncio, ela está usando um tamanquinho para entrar no campinho. Seria difícil imaginar a possibilidade de encontrar um ensaio fotográfico abordando a moda do professor e sugerindo que ele utilizasse um sapatinho para entrar no laboratoriozinho.



Como exemplo desta possibilidade do jornal narrar o local mais adequado para os homens trago duas reportagens sobre cursos técnicos profissionalizantes. Em geral estes cursos que possuem um currículo sobrecarregado de disciplinas tais como matemática, química, física, são associados como cursos masculinos e consequentemente possuem em sua maioria, mais professores que professoras. No título da primeira reportagem temos anunciado o gênero da competência: Meninos aprendem os segredos da mecânica . Na foto aparecem seis adolescentes sentados numa sala. O professor também é homem. Em primeiro plano aparece o motor de uma máquina. Está associada a idéia de que mexer e conhecer máquinas é coisa de homem. Na legenda, a importância destes jovens, futuros trabalhadores buscarem uma profissão: Curso profissionalizante: alunos da Escola Meta são encaminhados pela prefeitura. Na segunda reportagem, são exaltadas outras características naturalizadas como sendo do universo masculino: a inteligência. No título: Liberato faz viagem científica para os EUA. Na foto aparecem quatro rapazes,  agora “mais crescidos”, acompanhados pelo professor  que estão posando ao lado de um painel que anuncia uma feira internacional. Na legenda: Representação na 49ª Isef: Charles, Ricardo, o professor Shrott, Giuliano e Carlos. Nesta legenda aparecem os nomes das pessoas, afinal estes rapazes são pesquisadores e precisam ser reconhecidos nominalmente pela competência que demonstraram ao desenvolverem um trabalho científico para uma feira internacional.

Como observam Costa e Silveira (1998), ao discutirem as representações das identidades femininas para a docência na revista Nova Escola, o destaque ao indivíduo surge sempre associado ao gênero masculino; as mulheres são vinculadas ao coletivo, ao comunitário. Isto ficou evidente, naquela pesquisa, quando as autoras analisam as capas da revista. Quanto estas apresentam a fotografia de um professor são utilizadas personalidades masculinas famosas como o presidente Fernando Henrique Cardoso ou o professor interpretado por Chico Anísio no programa A escolinha do Professor Raimundo. Quando o foco das capas são as professoras surgem personagens anônimas em situações de grupo e à noção de afetividade e dedicação. Conforme as autoras “a análise do conjunto dessas capas, através do confronto entre as professoras e os pretensos professores representados, parece apontar para uma professora `modelo’ afetuosa/dedicada versus professores individualizados e marcantes” (ibidem, p. 8) Assim temos a noção de autoria, de individualismo relacionada com as características masculinas. Os garotos da foto acima, além de estudantes, são apresentados como pesquisadores que estão ali sendo reconhecidos pela obra que criaram, como jovens cientistas talentosos que, talvez, terão um futuro brilhante e promissor. Tanto nesta reportagem como na outra, com os alunos estudantes de mecânica, os professores são homens. Nesta segunda matéria é utilizada a palavra “segredos” para fazer referências aos conhecimentos da área. Ou seja, neste caso, mais do que afetividade e dedicação, atributos reservados para a professora, o professor aqui mostrado deve ter conhecimentos para desvendar e ensinar os segredos da mecânica.

Nestes exemplos de reportagens onde aparecem fotos de jovens que são destaque por sua “inteligência comprovada” seja por terem conquistado o primeiro lugar nos vestibulares de medicina e engenharia, ou por estarem participando de cursos profissionalizantes de mecânica ou ainda por terem sido selecionados para apresentar um trabalho científico na área de ciência e engenharia numa feira internacional, todos são homens e brancos. Ou seja, todos possuem as ditas características masculinas “naturais” para ocupar seu espaço na sociedade como personalidades bem sucedidas. São apresentados como intrépidos, corajosos, objetivos e racionais.

Quando olho para esta seqüência de fotos que “comprovam” a capacidade de homens para as áreas naturalizadas como masculinas, cabe lembrar o estudo de Walkerdine (1995), O raciocínio em tempos pós-modernos, onde são questionadas as idéias de uma suposta carência de alguns grupos, nos quais podem ser incluídos, neste caso, mulheres e negros, em relação a certas competências intelectuais. A autora discute como estas idéias operam na forma de pensar e vão constituindo um componente central de aspectos de governo. São colocadas em xeque as idéias, as metanarrativas do século XX sobre o raciocínio das crianças. Conforme Walkerdine (1995), estas idéias naturalizam concepções sobre a criança e seu desenvolvimento natural como algo imanente e cientificamente comprovado. “Elas nos contam uma história sobre o desenvolvimento e o pensamento que pretende ser verdadeira para todas as épocas, todos os povos, todos os lugares, que vê todas as crianças como progredindo em direção ao pensamento abstrato, o qual se supõe ser o pináculo do ser civilizado” (p. 209). Apoiada no sentido foucaultiano de poder e governo, a autora demonstra como esta busca do desenvolvimento de um pensamento abstrato mais elaborado, resulta numa estratégia para vigiar e controlar a população, inclusive se autogovernando ou autoregulando. Estão ai incluídas como estratégias de regulação e governo as ciências humanas, tais como a psicologia e sociologia que dizem a verdadeira ou a forma mais adequada de ser criança. Estas ciências instituem verdades, criando déficits e ao narrar tais pessoas deficitárias, produzem maneiras eficientes de regular e governar a população. Numa perspectiva foucaultiana compreendemos que estas teorias científicas surgem não apenas para descrever a criança como ela é, mas para dizer como ela é ou deveria ser.

Segundo Walkerdine (1995, p. 210), no sentido contrário desta visão que analisa estas teorias como estratégias de regulação, temos “a visão da ciência que pretende nos apresentar uma visão ‘libertada’ da criança, cujas características e inclinações ‘naturais’ teriam sido descobertas”. É justamente neste sentido que a autora empreende seu maior esforço de análise, mostrando como a busca da “verdade libertadora” está estreitamente relacionada com a concepção de racionalidade ocidental, inspirada no pensamento iluminista que foi amplamente utilizado para falar das civilizações européias como mais “avançadas e racionais”. É evidente que este pretenso pensamento avançado ganha sustentação à medida que vai classificando os demais como primitivos e infantis ou seja, menos racionais e civilizados. Temos produzida a necessidade destes “deficitários” terem acesso ao “verdadeiro desenvolvimento” para alcançarem a “verdadeira emancipação”. A autora argumenta que estas “descrições modernas que concebem uma progressão infantil em direção à racionalidade, na verdade, acabam constituindo a diferença em relação à norma da criança raciocinante da patologia” (ibidem, p. 210). Este aparato faz parte da estratégia de governo que define a conduta adequada dos cidadãos que devem seguir normas e leis, ou seja que são plenamente governáveis.

Nesta lógica, estão sendo produzidos sujeitos que seguem um padrão tido como normal ou ideal. Assim, qualquer desvio deste padrão comportamental poderá ser corrigido através da “auto-regulação e da patologização dos próprios oprimidos” (ibidem, p. 211). É neste contexto que a autora lembra o surgimento da escolarização popular no final do século XIX na Inglaterra:

Sabe-se que, assim, como as tentativas filantrópicas para se acabar com o trabalho infantil, a escolarização também foi introduzida para tentar produzir uma “força de trabalho dócil”, uma força de trabalho com os hábitos corretos de aplicação , economia e assim por diante . E que, assim, não se tornariam um peso sobre o governo, um peso que era vista da mesma forma que o crime e a pobreza. Crime e pobreza eram entendidos como características populacionais que resultavam de maus hábitos (ibidem, p. 211).

A partir destas discussões de Walkerdine sobre a escola como elemento de regulação, talvez fosse interessante relembrar a fotografia da índia que agora é professora. Ela está sendo apresentada como uma pessoa que teria déficit cultural e foi buscar na escola de brancos a sua competência para poder ensinar as crianças e adquirir os conhecimentos necessários ao seu desempenho profissional e maior integração à sociedade. Ela tem duas características marcantes como deficitárias: é mulher e índia, ou seja, ela não tem as características do empresário professor que opta por dar aulas de inglês para relaxar..

Um exemplo citado no referido estudo de Walkerdine (1995) é de uma pesquisa sobre garotas e matemática onde aparecem citações de professoras/es descrevendo o desempenho de estudantes nas aulas de matemática. Para as meninas o bom desempenho é sempre justificado através do esforço, seguindo regras e o bom comportamento. Já os meninos recebem atributos próprios, como potencial e capacidade. Ou seja, os meninos são brilhantes, talentosos e até desatentos, mas as meninas quando obtém sucesso é porque são esforçadas ou dedicadas. Esta mesma lógica, apontada pela autora, encontro nas reportagens mencionadas anteriormente que falam sobre a competência de rapazes nas área científicas. Eles, enquanto futuros trabalhadores homens, estão ocupando o espaço correto quando buscam cursos profissionalizantes na área de mecânica ou quando decidem ser engenheiros. Estes cursos exigem a capacidade para cálculos, para o raciocínio rápido. Nestas reportagens a ausência da mulher nas áreas científicas e que exigem um maior raciocínio está mais uma vez naturalizada.



< FOTOS 7 e 8>

Outro exemplo interessante é uma reportagem sobre a defasagem salarial dos professores das universidades federais. Esta matéria traz o depoimento de uma professora e de um professor aposentados da Universidade Federal do Rio Grande do SulUFRGS. Na chamada principal: Professores experientes e gabaritados estão deixando a UFRGS para garantir aposentadoria integral e serem melhor remunerados. A professora está sentada com um gato no colo. O professor está de pé com um livro aberto nas mãos. Cabe salientar os termos escolhidos para fazer referência à experiência profissional de ambos. Para ela foi escolhida a palavra dedicação: 27 anos dedicados a faculdade de arquitetura. Já ele recebe o termo lecionar: lecionou sociologia por 32 anos em diversos cursos. A mulher, assim, como dedica-se à casa, aos filhos, ao marido, dedica-se também à escola ou à faculdade. A escola talvez seja como uma extensão da casa para as mulheres. Já o homem precisa ter competência e não apenas dedicação. Relembro o já citado estudo de Walkerdine (1995) quando analisa pareceres de professoras e professores sobre o desempenho dos estudantes. Conforme a autora, as meninas recebem atributos como dedicação, esforço, bom comportamento, mas para os meninos os atributos são outros: competência, potencial, brilhantismo.

Saliento que, nesta reportagem, a mulher está representada no espaço privado, seguro, protegido. Ela está com o seu gato no colo, o que sugere que está em casa, no espaço doméstico. Já o professor está num espaço aberto, público. Em Costa (1999) encontro uma interessante discussão sobre esta naturalização do espaço privado para mulheres e público para homens, quando discute as representações do magistério em alguns livros de literatura infantil e alguns exemplares da revista Nova Escola. Conforme a autora, é recorrente, tanto nas obras de literatura infanto-juvenil quanto nas revistas analisadas, a distinção entre os espaços do feminino e do masculino. Assim como no material analisado nestas pesquisas, também nas fotos que encontrei publicadas nos jornais, a maioria das professoras estão em espaços fechados, na sala de aula, rodeada de alunos e alunas. Já para os professores homens está reservado o desafio dos laboratórios, das descobertas importantes. Relembro ainda as fotos anteriormente discutidas dos professores que aparecem acompanhando seus alunos no laboratório de mecânica ou apresentando uma descoberta científica selecionada para participar de uma feira internacional de ciências. Conforme as pesquisas de Costa (1999), na maioria das vezes em que os professores homens são protagonistas em livros de histórias infanto-juvenis aparecem envolvidos em projetos que exigem grande capacidade intelectual. Segundo a autora, “o cenário que os circunda é composto de fórmulas químicas e matemáticas, laboratórios, tubos de ensaio, microscópios, zoológicos, matas, pântanos e eles estão imersos em segredos, mistérios, investigações e experiências engenhosas e incomuns” (ibidem, p. 10).

Neste artigo, a autora destaca para a importância de estarmos atentas/os ao que é contado sobre a docência na literatura infanto-juvenil, nas revistas dirigidas ao magistério e em tantas outras narrativas que posicionam as professoras e os professores de maneira desigual. Eu acrescentaria que também nas fotografias publicadas nos jornais esta desigualdade se apresenta. Segundo Costa (1999, p. 11)

A forma como a identidade do magistério tem sido relatada, narrada, interpela as próprias professoras, numa dinâmica em que resistir ou acolher significa participar do jogo constitutivo das identidades. Quem joga segue regras e é por elas coordenado, não há outra possibilidade. Quem tem o poder de narrar, de dizer como as coisas são, fabrica as coisas. É nesse sentido que conhecer é governar.

Neste sentido, o tratamento que as fotos dos jornais dão às professoras tende não apenas a compor sua identidade, mas, concomitantemente, interpela-nos a serem da forma como estas as apresentam. Estas composições de fotos e legenda conectam-se à idéia de que temos, historicamente, espaços reservados para homens e para mulheres. Está presente um pensamento dicotômico, classificando as pessoas, criando e determinando espaços e posições para o feminino e para o masculino.

É neste sentido que são questionadas as análises que partem das relações dicotômicas para compreender as relações de gênero. Para as teóricas feministas não existe uma essência universal e permanente de ser feminino ou masculino, pois encontramos uma diversidade de fatores que constróem culturalmente estes sujeitos. Scott (1995), em seu artigo Gênero uma categoria útil de análise histórica, parte de um novo olhar metodológico para a análise das relações de gênero. Para superar as relações dicotômicas sobre o feminino e o masculino, a autora propõe a desconstrução da diferença sexual dos pares ditos opostos. Neste artigo, é discutida a possibilidade e a importância de uma rejeição do caráter fixo e permanente da oposição binária, pois “devemos encontrar formas (mesmo que imperfeitas) de submeter sem cessar novas categorias à crítica e nossas análises à auto-crítica” (ibidem, p. 84). Talvez seja possível enfraquecer ou borrar estas fronteiras tão definidas em nossas análises, que tradicionalmente buscam demarcar com rigidez este binarismo que limita o espaço do feminino, do masculino, do homossexual, do heterossexual, do branco, do negro.

Questionar esta polarização homem/mulher, ou desconfiar desta naturalidade, pode contribuir para uma melhor compreensão de que isto implica uma construção histórica e também para refletirmos sobre as práticas educativas nesta construção (Louro, 1995). Talvez seja possível encontrar frestas que possibilitem questionar quando olho fotos de professores que estão lecionando em cursos como medicina, engenharia ou mecânica, naturalizados como coisa de homem ou quando vejo fotografias de mulheres abraçadas em crianças como símbolo da sua dedicação e amor a vocação do magistério.

Em nossa época é preciso estar atento para a busca constante da “visibilidade”, que é na maioria das vezes “naturalizada”, “comprovada”, “clareada”, “desvendada” através de imagens. Veiga-Neto (1996) alerta para esta naturalização que é apregoada a partir do olhar, da visão (fotografia, televisão, cinema):

“As metáforas ligadas à visão têm sido muito importantes na nossa tradição cultural, na medida em que a visão tem sido celebrada enquanto sentido privilegiado capaz de fazer uma mediação acurada e fidedigna entre nós e a realidade, ou seja, nos mostrar como é “mesmo” o mundo. Desde a Antigüidade Clássica nossos discursos têm recorrido fortemente à visão....Vejamos alguns exemplos: em termos vocabulares (clarificar as idéias, visão de mundo, esclarecer a questão, perspectiva de análise, espelhar a realidade, vislumbrar uma intenção, transparência de intenções, desvelar, sinopse, etc); em termos locucionais (deitar os olhos, idéias claras, fazer vistas grossas, traçar o perfil, a olhos vistos); em termos de metáforas (o morcego de minerva, a caverna de Platão, o Iluminismo),etc...” (p.20)

Nas inúmeras reportagens analisadas neste estudo encontramos por exemplo a narrativa da importância da afetividade no magistério. No já citado estudo de Costa e Silveira sobre a revista Nova Escola, as autoras chamam a atenção para o caráter persuasivo das imagens, construindo e reforçando a associação da profissão docente com a afetividade e domesticidade. Neste estudo sobre as fotos publicadas em três jornais brasileiros podemos evidenciar na maioria das imagens selecionadas esta mesma associação. A partir das análises das fotografias, percebo que o enunciado das imagens apresenta, na maioria das vezes, as professoras como mulheres-heroínas da educação que orientam e defendem alunos/as que estão felizes e protegidos/as na escola. No discurso da mídia, temos a multiplicação de uma imagem padrão da “boa escola” ou da “boa educação.’’ As fotos evidenciam a defesa de uma “metarranativa”, a da valorização excessiva da afetividade na profissão docente. Temos uma “pasteurização fotográfica”5 criando um ideário6 de ambiente escolar, uma imagem padrão para a instiuição escola.

Não há dúvidas de que a imagem é central na contemporaneidade. Estamos imersos no mundo da imagem, da sedução das cores dos anúncios publicitários ou do impacto sutil e oportuno do preto e branco. Seja na televisão, revistas ou em outdoors, a mídia “está presente” criando e multiplicando representações. Não precisamos sair de casa, a mídia invade nossa casa e nos leva para grandes viagens. Somos tomados pela informação visual que invade as cidades. Não temos a opção de entrar ou não no mundo da imagem, somos parte deste cenário e não meros expectadores ou observadores. Homens, mulheres, jovens, crianças, ocidentais ou orientais, todos integrados por esta avalanche de “informações visuais” que cria expectativas em cada pessoa. Carmem Rial (1995) aponta que há muitos modos de se entender a contemporaneidade,

“através de aspectos históricos, econômicos, políticos, mas quando se pensa no aspecto cultural são as imagens transmitidas simultaneamente para todo o planeta que primeiro vêm a mente. O mundo hoje é um sistema interativo, em um sentido que é absolutamente inédito, pois se tratam de interações de uma nova ordem e uma nova intensidade. E essas interações se realizam principalmente através de imagens. (..)” (p. 95)

É importante observar que, ao mesmo tempo que encontro esta variedade de reportagens e anúncios publicitários focalizando a educação, me parece que estas inúmeras fotos são feitas sempre dos mesmos ângulos. Ou seja, fotógrafas/os, jornalistas e editoras/es, parecem ter uma forma cristalizada de olhar para a profissão docente. Fotos de estudantes sentadas/os na sala de aula escrevendo e professoras próximas ao quadro negro são recorrentes no material coletado. Talvez esta forma exaustiva de repetição possa demonstrar o quanto somos capturadas/os por um olhar hegemônico que nos conforma. Em outras palavras, o olhar da mídia, assim como está condicionado também nos condiciona na direção de uma visão única e monolítica inclusive sobre a profissão docente.



Referências bibliográficas:

ALVAREZ-URIA, Fernando. A escola e o espírito da capitalismo. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.) Escola Básica na Virada do Século. Cortez: São Paulo, 1996.

COSTA, Marisa Vorraber. e SILVEIRA, Rosa Maria H. A revista Nova Escola e a constituição de Identidades Femininas. In: BRUSCHINI, Cristina; HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Horizontes Plurais – Novos Estudos de Gênero no Brasil. São Paulo: Ed. 34-Fundação Carlos Chagas, 1998.

____ O magistério e a política cultural de representação e identidade. In: SILVA JÚNIOR, Celestino da; BICUDO, Maria Aparecida (orgs.) Formação do Educador e avaliação educacional. São Paulo: Ed. UNESP, V. 3, 1999. (Livro no prelo).

DEACON, Roger e PARKER, Ben. Educação como sujeito e como recusa. In: SILVA, T. Tadeu (org.) O sujeito da Educação. Petrópolis: Vozes, 1995.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero, História e Educação: construção e desconstrução. Educação & Realidade, Porto Alegre, V. 20, Nº2, jul./dez., 1995.

RIAL, Carmem Sílvia. Por uma Antropologia do Visual Contemporâneo. Horizonte Antropológicos, nº2, 1995. (Número organizado por ECKERT, Cornélia e GODOLPHIM, Nuno).

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação Realidade, Porto Alegre, V. 20, Nº2, jul/dez, 1995.

VARELA, Julia e ALVAREZ-URIA, Fernando. A maquinaria escolar. Teoria e Educação. Porto Alegre: Pannonica Editora, 1992.

VEIGA-NETO, Alfredo. Olhares. In: Costa, Marisa V. Costa (org.) Caminhos Investigativos. Porto Alegre: Mediação, 1996.

____ Regulação Social e Disciplina . Suplemento NH na Escola. Jornal NH. Novo Hamburgo, 14 de agosto de 1999.

WALKERDINE, Valerie. O raciocínio em tempos pós-modernos. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, Nº2, jul/dez, 1995.



ANEXO:

Foto 1



Foto 2




Foto 3




Foto 4



Foto 5




Foto 6



Foto 7




Foto 8







1 As discussões apresentadas neste artigo fazem parte da dissertação de mestrado intitulada A educação nas lentes do Jornal, PPGEDU- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1999. Nesta pesquisa analisei fotografias publicadas em 1998 em três jornais brasileiros: Folha de São Paulo-São Paulo/SP; Zero Hora – Porto Alegre/RS; Jornal NH – Novo Hamburgo/RS. Realizei esta pesquisa como bolsista do CNPQ.

2 As imagens estão em anexo.

3 Utilizarei os títulos das reportagens em caixa alta para um maior destaque no texto.

4 As legendas das fotos serão colocadas em itálico no texto.

5 Conforme dicionário Aurélio: A metáfora pasteurização, (processo pelo qual determinado material é aquecido a temperatura não elevada, por um período longo, e, em seguida, submetido a resfriamento súbito, obtendo-se assim , a morte, apenas do germes patogênicos ) visa fazer relação com a busca da higienização do padrão escolar.

6 Ideário - Conjunto ou sistema de idéias políticas, sociais e econômicas; Idear - criar a idéia, na imaginação, imaginar, fantasiar.



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