Lidiane peixoto dos reis



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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

UNIRIO

LIDIANE PEIXOTO DOS REIS

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NA SALA DE AULA:

A ATUAÇÃO DO PROFESSOR EM CASOS DE PRECONCEITO LINGUÍSTICO



UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

UNIRIO

LIDIANE PEIXOTO DOS REIS

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NA SALA DE AULA:

ATUAÇÃO DO PROFESSOR EM CASOS DE PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Monografia apresentada ao curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro- Unirio, como requisito parcial para a obtenção de grau de Licenciado Pleno em Pedagogia.

Orientadora: Vera Regina Loureiro

RIO DE JANEIRO

2013

BANCA EXAMINADORA



_____________________________________________

Maria Alice de Moura Ramos

_____________________________________________

Vera Regina Loureiro Silva

_____________________________________________

A Deus, merecedor de toda a Honra e toda a Glória;

Aos meus pais, irmão e noivo pelo eterno incentivo;

E ao meu avô Arides (in memorian) que mesmo muito doente vibrou junto comigo a alegria de ingressar em uma Universidade Federal.

Agradeço a Deus por ter chegado até aqui;

Aos meus pais Luiz e Lucinéia e meu irmão Luiz

Gustavo pelas inúmeras parcerias;

Ao meu noivo Sanderson por ser o meu

inspirador e incentivador e à professora Vera

Loureiro, exemplo de Educadora, pelo apoio nas

pesquisas realizadas.

[...]...para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma “certa” de falar [...] além de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico.”

(Fonte: PCN de língua portuguesa - http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf - Pág. 26)

RESUMO

Este trabalho tem por finalidade analisar casos de preconceito linguístico em uma turma de Educação de Jovens e Adultos – EJA - do 1° segmento do ensino fundamental. O objetivo é verificar como é a atitude do professor em casos de discriminação linguística em sala de aula e como esse professor trabalha a variação linguística com os alunos. As práticas pedagógicas são analisadas com base em autores como Marcos Bagno e Paulo Freire e nos Parâmetros Curriculares Nacionais. A pesquisa foi realizada a partir de observações feitas em sala de aula de uma turma de EJA em uma igreja evangélica localizada em São João de Meriti e de de entrevista com a professora da turma. O trabalho aponta para a necessidade de refletirmos sobre as práticas pedagógicas, favorecendo o direito do aluno de se expressar-se livremente, contribuindo para o estudo da variação linguística na escola, e para a diminuição da discriminação e do preconceito.

PALAVRAS-CHAVES: Preconceito Lingüístico, Variação Linguística, Educação de Jovens e Adultos.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................................1



  1. ESTUDOS DA LINGUÍSTICA E DA DIVERSIDADE ..............................................3

    1. - VARIAÇÃO HISTÓRICA .......................................................................................3

    2. - VARIAÇÃO REGIONAL ........................................................................................5

    3. - VARIAÇÃO SOCIAL ..............................................................................................7

    4. - VARIAÇÃO ESTILÍSTICA .....................................................................................8



  1. PRECONCEITO LINGUÍSTICO...................................................................................10

3- O ENSINO DE LÍNGUA MATERNA E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE LÍNGUA PORTUGUESA ..................................................................... 17

3.1 – OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS........................................ 19

4- A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL ..............................................21

4.1 – UM BREVE HISTÓRICO .........................................................................................21 4.2 – A LEI DE DIRETRIZES E BASES...........................................................................27 4.3 – A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS HOJE..................................................27 4.4 – O PROGRAMA BRASIL ALFABETIZADO...........................................................28 4.5 – DADOS ESTATÍSTICOS SOBRE A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL....................................................................................................................................29

5- METODOLOGIA E CONTEXTO ...................................................................................31

5.1 – ABORDAGEM METODOLÓGICA......................................................................31

5.2 – CONTEXTO.............................................................................................................31 5.2.1 - O ESPAÇO FÍSICO...............................................................................................31 5.2.2 – OS ALUNOS: UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA.........................................32

6- A ANÁLISE......................................................................................................................34

6.1 – A PROPOSTA PEDAGÓGICA...............................................................................34 6.2 – A PROFESSORA: UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA.....................................37 6.3 – A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NA SALA DE AULA..........................................37

6.4 – A ATUAÇÃO DO PROFESSOR EM CASOS DE PRECONCEITO LINGUÍSTICO NA SALA DE AULA.............................................................................38

7 - CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................................................................41

8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................42

9 - ANEXOS..........................................................................................................................44


INTRODUÇÃO
Apesar de para alguns estudantes de graduação ter sido difícil a definição do tema para a monografia, para mim não houve dificuldade. Desde pequena, fui instruída a falar “certo” e, por ser sempre corrigida tanto em casa quanto na escola, passou a fazer parte do meu dia-a-dia me autopoliciar quanto a falar de acordo com a norma culta. Incomodava-me quando alguém falava “pra mim fazer”, “a gente vamos” e sempre o corrigia pois achava que assim estaria contribuindo para que a pessoa falasse “certo”.

Ao ingressar na faculdade, cursando a disciplina de Língua Portuguesa na Educação, o tema (trabalhado durante o curso) “Variação Linguística” me estimulou à análise sobre algo em que nunca havia pensado antes, isto é, o fato de, apesar de no Brasil termos uma única língua oficial, vivemos em um país em que há várias linguagens diferentes, e essa questão passou a fazer parte do meu cotidiano.

Devido ao contato social com pessoas nordestinas, percebi que, devido a essa convivência, apesar de ter sido educada a falar dentro da norma culta, por mais que eu e qualquer pessoa estudemos a língua portuguesa, jamais poderíamos falar exatamente como a norma culta pede, pois sabemos que a linguagem escrita é diferente da linguagem oral e, portanto, muitas vezes, não falamos de acordo com esta norma. Um exemplo muito comum é a palavra “tá” (abreviação de está), que faz parte do nosso “linguajar” sem ser considerado impróprio.

Nas escolas, é possível encontrar alunos falando “como você ?”, “ vai aonde?”, “Péraí” sem uma intervenção do professor quanto ao “erro”. Porém quando um aluno, em uma conversa informal usa o termo “pra mim fazer”, provavelmente será questionado pelo professor, dizendo que está “errado”, que o correto é “pra eu fazer”, causando até mesmo dúvidas, já que ele pode ter crescido em um grupo social em que o “pra mim fazer” é um termo comum usado no ambiente em que ele vive.

Nas aulas de Pensamento e Linguagem, disciplina oferecida pela professora e orientadora Vera, confirmei a minha vontade de aprofundar esse assunto depois do debate acerca da tão polêmica obra “Por uma vida melhor”, do livro “Viver, Aprender”, decidindo sobre o que eu realmente queria analisar no final do meu curso. De uma forma bem dinâmica, a discussão em sala foi proveitosa para todos os alunos entenderem um pouco o conceito de “preconceito linguístico” e, para mim foi um grande estímulo para começar os meus primeiros escritos.

Com as análises que fiz, observei que cotidianamente, alguns professores, por mais intelectuais que sejam, não conseguem perceber que o ser humano é oriundo de uma bagagem cultural que precisa ser respeitada e que muitas vezes é esquecida, pois o professor acha que não está desempenhando seu papel de profissional, se permitir que o aluno fale sem estar de acordo com a norma culta.

Refletindo sobre esses possíveis casos, o tema do preconceito linguístico foi adequado para denominar minhas intenções de pesquisa. A problematização da pesquisa seria: Qual o papel do professor no combate e na prevenção ao preconceito linguístico em sala de aula? Qual a atuação do professor em casos de preconceito linguístico em sala? Como é abordado esse assunto com os alunos? Como o professor entende a variação linguística em sala de aula?

Essa pesquisa apresenta a concepção de que o aluno tem uma história sociocultural que precisa ser valorizada e reconhecida, e tem como objetivo descrever atitudes dos professores e alunos diante da variação linguística na sala de aula, com o intuito de identificar a presença de condutas preconceituosas na relação professor-aluno, e também na relação aluno-aluno, e analisar as possíveis consequências dessas atitudes em relação ao processo de ensino-aprendizagem da língua materna.



1. ESTUDOS DA LINGUÍSTICA E DA DIVERSIDADE
Como a ciência evolui, a nossa língua também evolui, não só a língua portuguesa, como todas as línguas do mundo. Termos como “vosmecê”, “Vossa Senhoria”, “Vossa Majestade”, com a evolução da língua, não são mais usados. Atualmente, nossa língua apresenta uma rica variação, por diversos fatores, como o histórico, regional, social e estilístico.
1.1. VARIAÇÃO HISTÓRICA

A variação histórica, cientificamente conhecida como variação diacrônica, refere-se ao fato de que de acordo com o tempo, a língua sofre mudanças, como tem acontecido com a língua portuguesa. Como por exemplo a palavra “você” e “farmácia” sofreram variações ao longo do tempo.

O termo “você”, surgiu em 1665, com vossancé, através de D. Francisco Manuel de Melo, em o Auto do Fidalgo Aprendiz (Lião). Posteriormente, em 1721, vossancê, e, 1721 vossê. (ALVES, 2004, p. 45 Apud LAURINDO, 2011, p.2). Com o tempo, no Brasil, o termo “Vossa mercê”, que remetia a uma formalidade, acabou se tornando um termo de informalidade. Durante o período colonial brasileiro, com o encontro das diferentes linguagens e a mistura das raças, havendo tratamento mais comum e aberto, as duas palavras se reduziram a apenas uma: “vossemecê”, e atualmente usamos o pronome de tratamento “você”.

A palavra “farmácia” se escrevia “pharmácia” até o início do século XX. Hoje, se fôssemos escrever “pharmácia” em um texto, seria considerado como impróprio, pois essa palavra sofreu alterações e a norma ortográfica hoje requer que escrevamos “farmácia”. Essa mudança aconteceu depois da reforma de 1911 em Portugal, que pôs fim às letras repetidas desnecessárias, ao h separador de hiatos, aos arcaicos ph, th, rh, ao ch com som de q etc, que chegou ao Brasil em 1945.

Observe como era a escrita no século passado:

(Fonte:Link: http://acervonovafriburgo.blogspot.com.br/2011/08/nova-friburgo-em-1920-era-assim.html)


Um grande exemplo dessa evolução está explícito na tirinha abaixo:

(Fonte: Link: http://portalmultirio.rio.rj.gov.br/acordoortografico/u1a3.shtml)


A variação histórica está diretamente ligada à língua viva, isto é, falada por muitos povos, e gerando a variação por não se referir a um povo específico. Muitas palavras sofrem alterações por motivos como: falantes de outras línguas que as usam e, até mesmo, por adaptações a traduções de outras línguas. É o caso da palavra paraolímpico que, por se adaptar a uma organização que utiliza a língua inglesa como padrão, teve como resultado de formação de palavras por prefixação paralímpico. Embora muitos gramáticos não aceitem, essas mutações poderão ser mais comuns em nossa língua futuramente, haja vista que só uma “língua morta”, como o latim, não sofre alteração por não ter falantes, usuários da mesma.
1.2. VARIAÇÃO REGIONAL

A variação regional, também conhecida como variação diatópica, refere-se às diferenças linguísticas encontradas em cada região.

Podemos perceber essa variação quando conversamos com alguém de outra região, falante da mesma língua. Percebemos essa diferença tanto nos termos (diferença de nomes) quanto na fonética. Podemos citar no plano lexical, um exemplo: “combóio” em Portugal, “trem” no Brasil.
“No plano fonético: A pronúncia aberta da vogal anterior média como em “prémio” [‘prεmju], com a pronúncia fechada no Brasil, “prêmio” [‘premju]. No plano gramatical: derivações diversas de uma raiz comum, como em ficheiro, paragem, bolseiro, que no Brasil correspondem a fichário, parada e bolsista; a colocação de advérbios como em “Lá não vou” (Portugal) e “Não vou lá” (Brasil)”. (Alkmim, 2004, p.34)
Esta variação é percebida não só nas diferenças entre países falantes da mesma língua, mas também diferenças gramaticais e léxicas oriundas do mesmo país, sendo que de regiões diferentes. Um grande exemplo que podemos citar são as diferenças entre os falantes da região nordeste e sudeste. Entre os falantes das duas regiões, percebemos diferenças fonéticas, como, por exemplo, a pronúncia de vogais médias pretônicas – como ocorre na palavra “melado” – pronunciadas como vogais abertas no nordeste [mε’lado] e fechadas no sudeste [me’ladu]. Neste caso, podemos dizer que é uma variação diatópica fonética, já que a palavra fonética quer dizer aquilo que diz respeito aos sons da fala.

Percebemos também diferenças gramaticais, como, por exemplo, a preferência pela preposição verbal da negação, como em “sei não” (nordeste) e “não sei” (ou não sei, não”, no sudeste); o uso do artigo definido antes de nomes próprios como em “Falei com Joana” (nordeste) e “Falei com a Joana” (sudeste). Essa variação, chamamos de variação diatópica sintática, visto que sintático significa parte da gramática que estuda as palavras enquanto elemento de uma frase. (CATARINO, 2013)

Falando mais sobre a variação regional do nosso país, observe a tirinha abaixo:

Nessa tirinha, podemos observar no lado esquerdo um “exercício” onde se tem a opção “exemplo fonético”, que é a forma como o falante fala sua língua, uma linguagem informal, cotidiana. No meio, a região em que se identificaria a origem dessa linguagem e no lado direito, a descrição da origem de cada um deles. De uma forma simples, podemos observar que o nosso país é rico em variações linguísticas regionais e que todos nós temos uma história atrás da nossa maneira de falar.

Um outro exemplo que podemos mencionar é o fato de um mesmo produto/objeto ter vários nomes, de acordo com a região ou cidade. Temos por exemplo a bergamota ou vergamota utilizada em Florianópolis e região sul em geral, e mexerica em Minas Gerais.

Os dois termos designam a mesma coisa, uma fruta cítrica de cor alaranjada e sabor adocicado, conhecida também como tangerina. Um outro exemplo é a mandioca, que também é conhecida como macaxeira (Nordeste) e aipim (Rio de Janeiro). A essa variação, denominamos de variação diatópica lexical, visto que lexical significa relativo ao vocabulário.
1.3. VARIAÇÃO SOCIAL
A variação social (ou diastrática) é encontrada em qualquer grupo, de acordo o gênero, faixa etária, classe social, lugar onde vive, grau de escolaridade, situação social etc.

Podemos citar alguns exemplos em relação ao falar de mulheres e homens, em que as mulheres usam termos não comuns entre homens, como “que lindinho amiga”, “você está uma gracinha” e também pode-se ressaltar o comportamento não verbal, ou seja, nota-se a diferença sem ao menos que o homem e a mulher falem, que pode também ser verificado, como direção do olhar, postura do tórax, entre outros. É comum as mulheres terem o hábito de mexer no cabelo enquanto conversam, já os homens têm o hábito de cruzar o braço com mais frequência, a postura se diferencia entre homem e mulher com base no modo de andar (possivelmente por conta do salto), etc.

Nota-se a diferença também entre mais velhos e mais jovens, onde os mais jovens usam termos como: “Qual a boa?”, “Fala aí”, formas dificilmente encontradas na linguagem de senhores idosos.

Vejamos mais um exemplo na tirinha abaixo:


.

Nessa tirinha, observamos que o pai da jovem de 18 anos acreditou que o outro rapaz era muito velho para namorar sua filha. Na última tirinha, obtêm-se a certeza, visto que o outro rapaz usava uma linguagem mais antiga, pouco usado nos dias de hoje.



Observamos também que muitos jovens usam gírias como “virou presunto” ao invés de dizer que “foi assassinado”, podemos classificar essa variação de variação diastrática lexical.

Também encontramos essa variação nas diferentes camadas sociais brasileiras. Uma pessoa que diz “chicrete”, ao invés de “chiclete”, sofre uma variação diastrática fonética.



A situação de pessoas que, por exemplo, usam o termo “menas gente” ao invés de “menos gente”, pode ser classificada como variante diastrática sintática.
1.4. VARIAÇÃO ESTILÍSTICA
Encontramos variação estilística ou variação diafásica, quando devemos mudar o nosso modo de falar de acordo com o ambiente em que estamos.

Também mudamos o tipo de registro oral de acordo com a pessoa ou grupo a quem nos dirigimos. Por exemplo, em um bar se fala informalmente com os amigos, utilizando gírias, enquanto que em uma entrevista de emprego, é necessário que a linguagem seja o mais formal possível. Temos um outro exemplo na tirinha a seguir:


Fonte: Link: http://letrasmarques2013.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html

Neste exemplo, o aluno fala de uma maneira informal com o seu colega de turma, mas com a professora, ele usou uma variante mais formalizada, pois se tratava de um diálogo com a coordenadora do seu curso.

Essa variação se dá unicamente por vivermos socialmente com outras pessoas, que possuem, cada uma delas, uma realidade diferente. Umas por viverem há mais tempo (bagagem linguística maior, já que a língua evolui com o tempo), outras por viverem com pessoas de outros lugares (regionalmente falando), e também de diferentes classes sociais. Todas essas variações fazem parte do nosso dia a dia e de forma nenhuma podemos considerar que uma esteja mais certa que a outra, simplesmente são diferentes. Toda a variação existente é fruto de uma história entre o passado e o presente.



2. PRECONCEITO LINGUÍSTICO
Atualmente, um dos temas mais debatidos na sociedade é o preconceito. Preconceito racial, preconceito religioso e campanhas sobre o “não ao preconceito”, onde se diz que o preconceito é fruto de ignorância e intolerância, e que deve ser banido da sociedade, estão presentes em todos os meios de comunicação, mas não é isso que acontece nos casos de preconceito linguístico. Muito pelo contrário, o que mais temos visto é uma sociedade cada vez mais insegura com o seu modo de falar, dizendo que é “errado falar assim”, “o certo é falar desse jeito”, etc.

Essas atitudes preconceituosas são fruto de uma insegurança linguística, ou seja, o falante desprestigiado considera o seu modo de falar pouco valorizado, fazendo com que “procure imitar” o modo de falar dos falantes de classes mais prestigiadas mas, mesmo sem perceberem, os “inseguros linguisticamente” são discriminados por tais atitudes, pois são percebidas pelos falantes ditos “prestigiados”. Um exemplo real disso são meus parentes nordestinos quando vêem ao Rio de Janeiro e, por medo de serem discriminados pelo jeito de falar, começam a pronunciar palavras/gírias como nós, cariocas, pronunciamos como: “fala aí”, “fala sério”, “Lidjiane”, e nós como dominantes dessa linguagem, percebemos a linguagem “artificial” deles e notamos que, mesmo fazendo com que eles fiquem o mais confortável possível em nosso meio, eles sentem medo de sofrer algum tipo de preconceito e servirem de “piada” pelo modo de falarem pois, culturalmente, alguns deles entendem que nós falamos certo e eles falam errado.

Sabemos que a nossa linguagem é uma representação da sociedade em que vivemos. Como toda sociedade, a linguagem é variável, independente do país ou da cidade em que vivamos. Cada grupo de pessoas possui uma forma de falar, de se expressar, de se comunicar. Não podemos afirmar que uma linguagem é pior ou melhor que a outra.
Tal como não se pode falar de “inferioridade” ou “superioridade” entre línguas, mas apenas de diferenças, não se pode falar de inferioridade ou superioridade entre dialetos geográficos ou sociais entre registros. Também aqui, como ocorre em relação às línguas, cada dialeto e cada registro é adequado às necessidades e características do grupo a que pertence o falante, ou à situação em que a fala ocorre: todos eles são, pois, igualmente válidos como instrumentos de comunicação; também não há nenhuma evidência linguística que permita afirmar que um dialeto é mais “expressivo”, mais “correto”, mais “lógico” que qualquer outro: todos eles são sistemas linguísticos igualmente complexos, lógicos, estruturados. (SOARES, 2008, p.40)

A linguagem constitui a identidade de cada grupo social que precisa ser respeitado por qualquer ser humano. Como dizem Bagno e Soares, precisamos fazer com que as pessoas compreendam que o preconceito social jamais pode ser aceito. Nenhuma sociedade é melhor e mais “correta” por ter um status mais elevado que outras sociedades, o que existe são diferentes modos de falar, que foram adquiridos através de um convívio em uma determinada sociedade.

Dizer que existe um modo certo de falar, faz com que os usuários da língua tentem adquiri-lo. Porém, o que de fato estes sujeitos tentam adquirir é seu lugar na sociedade.

Em muitos desses casos, o que pode acontecer com o usuário da língua é a tentativa de adquirir uma linguagem de prestígio, movimento este, chamado de “hipercorreção”. Com essa ideia, os falantes tentam falar de uma forma prestigiosa e esquecem até mesmo de sua própria origem.

O indivíduo preconceituoso nos quer convencer cada vez mais de que, quanto mais distante da linguagem de prestígio, mais ignorante essa pessoa o é para a sociedade. Marcos Bagno (2003:16) diz que “... preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social”.

Bagno em seu livro “Preconceito linguístico – o que é, como se faz” nos convida a analisarmos oito mitos que nos levarão a refletir mais sobre os equívocos que encontramos quando falamos sobre “falar corretamente”.



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