Linguagens Documentárias



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Daniela Boiaski

Larissa Guipson

Taíse Maria

Linguagens Documentárias


Linguagens Documentárias1

Daniela Boiaski – Email: danielaboiaski@hotmail.com

Larissa Guipson – Email: larissinhaaaa18@hotmail.com

Silvestre Gomes Martins - Email: sil_gomes7@hotmail.com *

Taíse Maria - Email: taiseppg@hotmail.com

Orientadora: Profª. Dr. Nádia Vanti/ Doutora em Comunicação e Informação


Departamento de Biblioteconomia da UFRN– e-mail nvanti@hotmail.com

RESUMO: Revisão bibliográfica sobre a evolução das Linguagens Documentárias na Documentação e seu campo de estudo, a Lingüística Documentária. Mostra que com o tempo, os vocabulários controlados se sofisticam na forma de linguagem documentaria. Foi utilizada como procedimento metodológico a pesquisa bibliográfica e eletrônica para subsidiar na revisão e também para é dada ênfase na importância dos usuários de informação documentaria, pois são produtos de conhecimento potencial. Será abordado que as informações são unidades de significantes codificadas(descritores) e estas unidades são códigos que representam um conceito, tendo base um referente . A partir de estudos é trabalhado o conceito de linguagem documentaria aproximando-o da linguagem de indexação, pois a escolha da mesma é fator essencial para a eficácia de um sistema de recuperação de informação. A revisão compreende parte das pesquisas desenvolvidas na Europa pela linha francesa, notadamente por Jean-Claude Gardin, García Gutiérrez e Hutchins, e no Brasil, pelo Grupo Temma. A partir da análise das reflexões apresentadas, propõe-se um quadro das principais características das linguagens Documentárias.
Palavras-chave: Linguagem Documentária. Lingüística Documentária. Documentação.

1 INTRODUÇÃO
A Ciência da Informação preocupa-se com a organização e recuperação da informação e, para isso, propõe metodologias e instrumentos, como os vocabulários controlados que, com o tempo, se sofisticaram na forma de Linguagens Documentárias para aperfeiçoar a indexação e a busca da informação. O conceito de Linguagem Documentária foi se refinando com o passar dos anos. E consequentemente, a metodologia de construção de Linguagens documentárias foi também sendo aprimorada. Da simples identificação de ocorrência e frequência dos termos na literatura, passou-se a propor o arranjo organizacional dos termos que tem na noção de estrutura lingüística uma de suas referências principais.

Desde o campo de estudos que trabalha tais instrumentos, até o que se entende por Linguagem Documentária, pode-se observar uma evolução na definição de seu conceito e funções. Dessa forma, a pesquisa faz um retrospecto do conceito da Linguagem Documentária, de acordo com a vertente francesa e seus desenvolvimentos tanto na França como no Brasil pelo Grupo Temma.

Neste levantamento, aborda-se o campo de estudos das Linguagens Documentárias e a evolução de seu conceito.

Como procedimentos metodológicos foi utilizada a pesquisa bibliográfica e eletrônica para subsidiar esta revisão bibliográfica.


2 LINGUAGENS DOCUMENTÁRIAS
Linguagens documentárias (LDs) são linguagens artificialmente construídas e constituídas de sistemas simbólicos que visam “traduzir” sinteticamente conteúdos documentais, utilizadas nos sistemas documentários para indexação, armazenamento e recuperação da informação. Para Saracevic (1996), a recuperação da informação foi (e continua sendo) a principal solução para o primeiro grande ‘problema’ da Ciência da Informação, a “explosão informacional”. Anunciada em 1945 por Vannevar Bush, a explosão informacional foi à mola propulsora das discussões incipientes na Pós-Segunda Guerra e a geradora da referida Ciência. Tal afirmação evidencia a importância da recuperação da informação no universo da Ciência da Informação e, consequentemente, a relevância das linguagens documentárias.

O léxico utilizado pela linguagem natural é composto pelo vocabulário de uma determinada língua, ou seja, a relação de todas as palavras faladas por essa mesma língua, enquanto o léxico adotado pela linguagem documentária é a relação de termos e símbolos empregados para a identificação temática nos sistemas de informação (CAVALCANTI, 1978). Para a mesma autora, linguagem documentária consiste em um conjunto de regras, símbolos e termos pré-estabelecidos com o intuito de indicar assuntos de documentos. Faz-se necessário distinguir linguagem natural (LN) e linguagem documentária (LD). Para Cintra et. al. (2002), tanto a LN quanto a LD são sistemas simbólicos instituídos que visam facilitar a comunicação. Porém, a primeira é composta por palavras e seus diversos significados, ao passo que a segunda é composta por palavras que assumem o papel de termos, ou seja, restringem seus significados de acordo com um contexto ou de acordo com uma área específica do conhecimento.

Analisando sob uma ótica social, Cintra et al. (2002) afirmam que a função das linguagens documentárias vai além da simples tradução de conteúdos documentais; ela tem a função de possibilitar que os diferentes segmentos sociais tenham adequado acesso aos estoques de conhecimento. Sem as linguagens documentárias, não seria possível cumprir com o caráter público da informação, pois são elas que garantem o compartilhamento social entre estoques de conhecimento e usuários de informação. Numa visão também social Lima (2004) reforça a afirmação acima alegando que a representação e a recuperação eficientes da informação possibilitadas pelas linguagens documentárias potencializam a construção de novos conhecimentos, fato este que contribui para o desenvolvimento da sociedade, pois segundo a autora, os usuários de informações documentárias são produtores de conhecimento em potencial. As afirmações de cunho social descritas acima demonstram a preocupação de fazer das linguagens documentárias verdadeiros instrumentos capazes de possibilitar que a informação efetivamente cumpra seu papel com a sociedade, ou seja, as linguagens documentárias se tornam imprescindíveis para conectar a informação ao seu público, para daí poder exercer a transformação por meio do conhecimento adquirido. Lima (2004) faz uso do termo informação documentária para denominar o signo documentário que possibilita a articulação entre conceitos e termos de um domínio de conhecimento, melhor dizendo, a informação documentária é o signo que, auxiliado por uma linguagem documentária, representa o conteúdo informacional de um documento. Para a autora, a informação documentária é o resultado de um processo de codificação (realizado pelo indexador) e de um processo de decodificação (realizado pelo usuário que acessa a informação).

3 ESTUDOS DAS LINGUAGENS DOCUMENTÁRIAS
O campo que estuda a Linguagem Documentária tem sido progressivamente delineado. Observa-se que, inicialmente, não se distingue especificamente uma área exclusiva que trate desses instrumentos, remetendo-se seu estudo à Documentação de modo genérico. Com Gardin, as Linguagens Documentárias são incluídas no campo da Análise Documentária e é com García Gutiérrez que começa a tomar forma um sub-campo particular denominado Lingüística Documentária. Como é natural numa área em formação ou transformação, há flutuação de denominações, não se podendo identificar claramente quando as distinções efetivamente passam a ganhar corpo.

Num primeiro momento, as Linguagens Documentárias integravam o processo de Análise Documentária. A Análise Documentária, termo criado por GARDIN (1973), envolveria o desenvolvimento de metalinguagens que precisam ser elaboradas de forma independente, por campos separados, mas que exibem similaridades estruturais.

Posteriormente, percebeu-se que apesar da Análise Documentária fazer uso de Linguagens Documentárias, o desenvolvimento destas não é um procedimento da Análise Documentária propriamente dita. De acordo com García Gutiérrez (1990, p.24-25), a “Documentação apresenta dois corpus que se imbricam com a lingüística: a Análise documentária e a Lingüística Documentária”, mas que não formam uma mesma área.

Verifica-se, portanto, que a Análise Documentária utiliza as Linguagens Documentárias, contudo não é responsável por sua elaboração. De fato, reconhece-se o papel das Linguagens Documentárias nos procedimentos de Análise Documentária. Uma Linguagem Documentária responde “pela análise de tratamento da informação com o objetivo de recuperá-la e disseminá-la” (LARA, 1993). A partir desse reconhecimento, García Gutiérrez (1990) propôs a criação de um sub-campo da Documentação que denominou Lingüística Documentária, que compreenderia o estudo dos meios de representação da informação, com foco nas linguagens de processamento e produção para fins de circulação do conteúdo informacional.

A Lingüística Documentária é então a área responsável pelo desenvolvimento de parâmetros para a elaboração das Linguagens Documentárias, apoiando-se para isso, na Lingüística Estrutural, na Semiótica, na Terminologia e na Lógica Formal.
4 A EVOLUÇÃO DAS LINGUAGENS DOCUMENTÁRIAS
O que hoje conhecemos por Linguagem Documentária recebeu diversas denominações no decorrer do tempo, de acordo com entendimento do conceito e de suas características. Neste trabalho, restringiremo-nos à exploração de algumas contribuições da vertente francesa e seus desenvolvimentos, principalmente por Gardin, e seus desdobramentos por García Gutiérrez (Espanha) e por Hutchins (Inglaterra); posteriormente, trataremos da vertente brasileira que teve nessa linha sua origem. Reconhecemos, no entanto, que as diferentes vertentes atribuem diferentes denominações a esse instrumento de comutação, conforme os aspectos colocados em destaque.

Para dar uma idéia do problema, citamos DODEBEI (2002, p.40), que se reporta à dissertação de Wanderley (1973) que por sua vez apresenta um levantamento das denominações que as Linguagens Documentárias receberam ao longo do tempo.



    1. A LINHA FRANCESA

A linha européia é representada por autores como Gardin, Coyaud, Chaumier, García Gutiérrez e Hutchins. García Gutiérrez(1990,p.76) ressalta que:

“Usava-se o termo ’linguagem’ para denominar instrumentos classificadores desprovidos de essência lingüística. Isso até o aparecimento das linguagens combinatórias que inspiraram, despertou um maior interesse pela lingüística”.
Jean-Claude Gardin é um dos primeiros autores a reconhecer que a atividade de representação documentária se desenvolve no universo da linguagem. Como já apontamos, ele é o responsável pela introdução do termo “Análise Documentária” na literatura da Documentação, e tornou-se uma das principais referências na pesquisa sobre representação documentária. Uma de suas grandes contribuições foi utilizar os parâmetros lingüísticos para propor a organização de Linguagens Documentárias, (LARA, 1999), o que mostra seu pioneirismo.

Já em 1966, Gardin apresenta a ideia do que viria a ser conhecido como Linguagem Documentária. O termo inicialmente usado por ele foi Léxico Documentário, que o autor define como “uma lista de termos, organizados ou não, quer servem à indexação documentária”( GARDIN, 1966) ou ainda, como um inventário das correspondências entre os termos dessas listas e as palavras ou frases em linguagem natural que eles representam.

Alguns anos mais tarde, em artigo sobre Análise Documentária e Lingüística, Gardin utiliza o termo 'Linguagem Informacional', que seria usado para as classificações Linguagens de Indexação, cobrindo tanto listas de termos de índice ou descritores (GARDIN,1973).

Em pesquisa coordenada por GARDIN, outros autores adotam o termo Linguagem Documentária em seu trabalho. Esses autores afirmam que Linguagem Documentária é “todo conjunto de termos, e em alguns casos de procedimentos sintáticos convencionais, utilizados para representar certo conteúdo de documentos científicos, para fins de classificação ou de pesquisa retrospectiva de informação”. Eles acreditam que usamos as Linguagens Documentárias, pois precisamos 'condensar' o conteúdo de textos científicos, a fim de acelerar a consulta, ao preço admitido de certa perda de informação; precisamos normalizar a expressão desse conteúdo para que noções ou temas análogos sejam sempre designados pelos mesmos termos ou grupos de termos.

Um pouco mais tarde, Gardin trabalha com o conceito de metalinguagem, que define como um sistema simbólico que faz a mediação entre textos e sua representação (GARDIN, 1974, citado por KOBASHI, 1989, p.48). A menção à metalinguagem, neste texto, tem a finalidade de fazer ressaltar o caráter simbólico do vocabulário organizado para gerar as representações de textos. Nota-se que o termo 'metalinguagem' não é utilizado para substituir o termo Linguagem Documentária, mas para ressaltar uma de suas características.

No mesmo ano, Chaumier (1974) trabalha com as linguagens documentais, classificando-as em dois grupos: linguagens combinatórias (léxicos) e linguagens de estrutura hierárquica (classificações). CHAUMIER (1978, p.17, citado por TÁLAMO, 2001, p.145) destaca, em trabalho posterior, que “embora a noção de linguagem documentária seja tão antiga quanto os primeiros sistemas documentários, sua utilização nem sempre foi acompanhada do rigor necessário”.

Hutchins, autor inglês que também emprega o termo, considera que as Linguagens Documentárias são os meios de comunicação em sistemas de informação (HUTCHINS, 1975) entre documentos e leitores potenciais (Hutchin, 1975). O autor considera que linguagens como os sistemas de classificação decimal são Linguagens Classificatórias, enquanto que os tesauros são Linguagens de Indexação. O autor reafirma que o termo Linguagem Documentária é mais abrangente. Pois demonstra a necessidade de caracterizar os instrumentos que apresentam um espectro mais amplo de relações entre seus termos como sendo mais característicos de uma 'linguagem' em seu sentido efetivo. Para o autor, “as propriedades estruturais características das Linguagens Documentárias são largamente determinadas pelos seus requisitos funcionais particulares”. (HUTCHINS, 1975).

Em 1987, o termo Linguagem Documentária, foi definido como linguagens que “oferecem normas para indexar univocamente os documentos e as demandas estabelecidas pelos usuários com o fim de produzir mínimos índices de ruído e silêncio documentário”. (GARCÍA GUTIÉRREZ; LUCAS; FERNÁNDEZ, 1987). Os autores também enfatizam suas funções de organização ou classificação dos dados de um campo científico, técnico ou especializado e a unificação dos critérios de análise da informação na fase de entrada do sistema, com os da recuperação da informação, na fase da saída.

A Linguagem Documentária é um sistema híbrido “com estrutura e funções próximas (...) aos sistemas naturais” (GARCÍA GUTIÉRREZ, 1990). Pode-se observar que o autor ressalta a noção estrutural que subjaz à Linguagem Documentária, uma vez que afirma a significação como resultado de relações opcionais, noção fundante do conceito de estrutura.

Em 1998,a Linguagem Documentária, é definida “dispositivo léxico” construído artificialmente para a análise e a recuperação de um sistema de informação”. (GARCÍA GUTIÉRREZ, 1998). Neste trabalho, o autor afirma que as Linguagens Documentárias em geral ignoram o comportamento enunciativo (GARCÍA GUTIÉRREZ, 1998), e sugere trabalhar a Linguagem Documentária como uma linguagem associativa, baseada em estruturas de organização horizontal, criada a partir de cenários que reproduzem construções discursivas em uma área do conhecimento. Este novo instrumento o autor denomina Linguagem Epistemográfica.

Pode-se afirmar que, a partir dos anos 80, de acordo com os textos pesquisados, portanto, todos os autores aqui citados passam a trabalhar com o termo Linguagem Documentária, que engloba características já levantadas desde os anos 60, e que foram sucessivamente refinadas e enriquecidas. Assim, poderíamos dizer que: Em relação à sua denominação, as Linguagens Documentárias foram chamadas de Léxico Documentário, Linguagem Informacional, Metalinguagem, Linguagem de Indexação, Linguagem Documental, Linguagem Classificatória, Linguagem Artificial, e Linguagem Controlada. Acreditamos que as Linguagens Documentárias trazem um pouco de cada um desses conceitos, e de certa forma conseguem abrangê-los.

Quanto às suas funções, os autores concordam sobre o caráter organizador das Linguagens Documentárias, como também sobre seu papel de intermediação entre informação (do sistema) e usuário.


As Linguagens Documentárias também vão sendo refinadas quanto à proposição de suas características formais. De uma lista de termos, vão a léxico, passam a incorporar a necessidade de procedimentos sintáticos, até serem reconhecidas formalmente como estruturas com significação dada pelo uso. Ou seja, mais do que um instrumento com a função de indexar, as Linguagens Documentárias passam a ser reconhecidas como um tipo de linguagem.

Nota-se, portanto, que houve crescimento teórico na formulação das características que identificam uma linguagem para fins de indexação, fato que contribui enormemente para superar a noção de uma lista de termos usados para representar conteúdos de documentos. A noção de arranjo é progressivamente construída.


4.2 A LINHA BRASILEIRA

A linha brasileira, representada por integrantes do Grupo Temma2, apresenta muito em comum com a linha europeia. De fato, a linha nacional se institui e se firmou a partir do conhecimento teórico dos autores europeus, em particular, de Jean-Claude Gardin, trazido principalmente por Johanna W. Smit, que estudou com Gardin na França nos anos 70.

Formado em 1986, o Grupo Temma é composto, em sua maioria, por pesquisadores e professores do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e integra, também, alguns pesquisadores da UNESP-Marília. Sua preocupação principal se dirige à construção de conhecimentos relacionados à organização da informação. Nota-se que o Grupo, inicialmente organizado em torno da noção de Análise Documentária, vai progressivamente alterando seu vocabulário para aproximá-lo das questões gerais de organização da informação. Antes, porém, de abordar esse aspecto, faremos uma retrospectiva do uso do termo Linguagem Documentária no Grupo. Vale ressaltar o papel da professora doutora Johanna W. Smit, do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ela estudou na França com Jean-Claude Gardin e trouxe ao Brasil muito de suas idéias, com o que formou o Grupo Temma, e logo em seguida coordenou a publicação do livro Análise documentária: a análise da síntese6, considerado literatura de referência para a Documentação, e cujos textos são citados neste trabalho.

Em 1983, Cintra afirma que as Linguagens Documentárias “possuem uma gramática que corresponde a um conjunto de regras ou instruções (relações booleanas, indicadores de funções, etc.)” (CINTRA,1983).

No mesmo trabalho, Cunha (1987) refere-se ao termo Linguagem Documentária apresentando-o como gênero de léxico que serve para a “conversão entre conceitos apresentados de forma independente nas diversas linguagens, e conceitos de leitura “universal” definidos pela própria Análise Documentária”. Em sua dissertação de mestrado, Guimarães (1988) utiliza o termo linguagem de indexação para discutir a questão da recuperação de informações.

Para Guimarães,(1988,p.89) as Linguagens Documentárias são linguagens artificiais ou linguagens de indexação, que visam “ao controle do vocabulário e à padronização da linguagem no processo de busca”, e preocupam-se com a transmissão do conteúdo dos documentos. Os termos dessas linguagens não teriam “em primeiro plano, o compromisso de serem fiéis ao vocabulário do usuário” (GUIMARÃES,1988, p.103), mas uma fidelidade com o vocabulário especializado (GUIMARÃES,1988).

Em 1990, Cunha(1990,p.65) define a Linguagem Documentária como uma “gramática, sintaxe construída a partir de um campo semântico previamente determinado”. A autora propõe uma diferenciação quanto ao termo Linguagem Documentária, no singular, como sistema geral, e Linguagens Documentárias, no plural, como os “processos diversificados capazes de traduzir conteúdos de documentos em informações” (CUNHA, 1990, p.19).

Tálamo et.al. (1992) introduzem no tratamento do tema Linguagem Documentária, as questões terminológicas, ao afirmarem que são “instrumentos de controle terminológico que atuam em dois níveis: a) na representação da informação obtida pela análise e síntese de textos; b) na formulação de equações de busca da informação”.

A pesquisa de Lara propõe afinar as distinções entre a Linguagem Documentária e instrumentos que têm características parecidas. Para a autora as Linguagens Documentárias “não são taxionomia ou nomenclatura, não podendo pressupor, portanto, biunivocidade da relação significado-significante” (LARA, 1993, p.78). Lara propõe distinguir as Linguagens Documentárias dos léxicos, dos vocabulários, das nomenclaturas e das terminologias, como também das metalinguagens (LARA,1993). Os léxicos seriam “conjunto das unidades que formam a língua de uma comunidade, atividades humana etc.” os vocabulários, “conjunto das ocorrências que integram um determinado corpus discursivo, como uma lista de unidade da fala” a nomenclatura, um instrumento que pressupõe “biunivocidade da relação significante-significado” outros, as terminologias, “conjunto de termos de uma área, definidos rigorosamente para designar as noções que lhes são úteis” (DUBOIS e outros, apud. LARA, 1993, p.70), e a metalinguagem, “uma semiótica cujo plano de conteúdo é, ele próprio, uma semiótica (HJELMSLEV, 1975, apud. LARA, 1993,p.71). LARA enfatiza importância característica comunicativa.

Lara, (1993) propõe observar melhor a proximidade da Linguagem Documentária do sistema de significação das ciências , associando, a partir daí, as Linguagens Documentárias às terminologias. Lara(1993, p.--) afirma que uma Linguagem Documentária deve remeter ao simbolismo das ciências, “e não valer-se de sua incidência texto a texto”. Assim, as Linguagens Documentárias não deveriam ser vistas apenas como denominações, mas a partir do conceito de representação, permitindo a separação do processo de elaboração das Linguagens Documentárias do processo de análise de textos com fins documentários.

Em 1994, Guimarães afirma que as Linguagens Documentárias são “os instrumentos (ferramentas) para que se efetue a tradução de conceitos anteriormente identificados e selecionados no documento” (GUIMARÃES, 1994, p.229). Para o autor, é possível dizer que “as estratégias de análise monitoram a utilização das linguagens de indexação e não vice-versa” (GUIMARÃES,1994, p.5), e as linguagens de indexação seriam, então, uma decorrência desse processo, refletindo “um conjunto documentário em uma determinada realidade de busca informacional” (GUIMARÃES,1994,p.9). A afirmação de Guimarães difere, nesse sentido, da de Lara no que diz respeito à autonomia do processo de construção da Linguagem Documentária.

Somente por volta de 1970 o termo Linguagem Documentária afirmou-se na literatura, junto com a difusão do tesauro documentário, que é um tipo de Linguagem Documentária. Para ela, a atividade documentária não objetiva a organização como um fim em si mesmo, mas como forma de tornar acessível e possibilitar a circulação efetiva da informação. Neste ponto nota-se que Tálamo, (1997,p.2) retoma a divisão proposta na linha européia, onde o desenvolvimento das Linguagens Documentárias não é função da Análise Documentária, e sim um instrumento de organização.

A noção de Linguagem Documentária é aperfeiçoada quando Tálamo propõe vê-la como construção feita a partir de hipóteses sobre a organização do conhecimento que deem conta de determinada demanda de informação, tendo por variáveis a instituição, a área de conhecimento, o tipo de atividade, e os segmentos sociais envolvidos.

A autora ressalta, entretanto, que para que tal linguagem funcione efetivamente, ela deve ser construída de forma a garantir a presença de um sistema de relações que permita que ela se apresente como estrutura. Só dessa maneira é possível afirmar que suas unidades tenham significado e possam ser utilizadas como referência na representação dos textos que são objetos de sistemas documentários (TÁLAMO,1997,p.4). Vê-se, aqui, a importância que a autora confere à noção de estrutura.

Tálamo afirma que, em relação ao conhecimento registrado, a LD é uma metalinguagem que o re-elabora como informação. Verifica-se que, do mesmo modo, que a autora enfatiza a noção de estruturação como sistema de relacionamento interno à própria Linguagem Documentária, quando afirma que, assim como a relação entre a linguagem natural e a realidade, a Linguagem Documentária não se define em relação a acervos, mas "por força das relações que respondem pela organização da hipótese de representação do conhecimento".(TÁLAMO, 1997, p.10-12).

A definição mais formal de Linguagem Documentária proposta por Tálamo (1997,p.10) é a que segue:

"De maneira geral, define-se linguagem documentária (LD) como uma linguagem construída, oposta à natural, portanto, que tem como objetivo específico tratar a Informação para fins de recuperação. Atualmente as questões relativas à sua construção são tratadas pela Lingüística Documentária e aquelas relativas ao seu uso encontram-se integradas às questões mais amplas relativas ao tratamento e à recuperação da informação, discutidas no âmbito da Análise Documentária (AD)".
Lara, em 2002, novamente comenta o fato de a Linguagem Documentária ser uma maneira de organizar a informação para mapear uma área e transferi-la a determinados grupos que apresentam objetivos específicos. Para a autora, “a linguagem documentária configura-se como instrumento facilitador da comunicação em contextos documentários específicos” (LARA, 2002, p.).

“Construídas, as linguagens documentárias – LDs – se valem de quase todos os conceitos apresentados para a LN [linguagem natural], constituem sistemas onde as unidades se organizam em relações de dependência”. Para as autoras, “compete às LDs transformar estoques de conhecimento em informações adequadas aos diferentes segmentos sociais. Elas também consideram que as Linguagens Documentárias são “construídas para indexação, armazenamento e recuperação da informação e correspondem a sistemas de símbolos destinados a ‘traduzir’ os conteúdos dos documentos”.

Em outro trabalho (LARA, 2003), Lara observa que não há uma relação biunívoca entre o que é representado e a forma da representação, já que a Linguagem Documentária é, em si, um sistema de significação construído a partir de uma hipótese de significação, o que significa dizer que ela é, também, um signo particular.

A autora reafirma, também, o caráter estrutural das Linguagens Documentárias:

Uma linguagem documentária só poderá ser propriamente linguagem se tiver características estruturais que a permitam funcionar como tal. É por essa razão que as linguagens documentárias mais modernas, como os tesauros, apresentam-se como estruturas, que compreendem relações de natureza lógica, ontológica, associativa e de equivalência. O léxico de uma linguagem documentária se organiza como uma rede paradigmática e dispõe de regras de combinação (rede sintagmática), que a despeito das diferenças relativamente à potencialidade de produzir enunciados como os de língua, permitem a formação de sintagmas, combinação de conceitos que podem expressar tema informacionais.(LARA, 2003)
A breve revisão permite ver que prevaleceu o termo Linguagem documentária sobre o termo linguagem de indexação nas linhas europeia e brasileira (esta última, ao menos no âmbito do Grupo Temma), o que permite afirmar que seu desenvolvimento corrobora uma visão mais abrangente do instrumento de indexação ao ressaltar os aspectos que reforçam as características de linguagem.

Reconhece-se a função de metalinguagem da Linguagem Documentária, e se propõe incorporar à sua elaboração hipóteses de organização do conhecimento, que devem respeitar os interesses e necessidades de variáveis como os usuários, a instituição que gera e organiza a informação, a área de conhecimento ou atividade, entre outros. De um léxico reduzido e sintaxe precária, ela passou a ser elaborada seguindo parâmetros lingüísticos sendo, portanto, compreendida como uma estrutura cujos termos devem necessariamente estar relacionados para que possam significar de modo determinado.

Fora do Grupo Temma, a questão da Linguagem Documentária também é observada por Dodebei, em seu livro 'Tesauro'. Para a autora, entre as funções da Linguagem Documentária estão: “a função de organizar um campo conceitual, a função de servir como instrumento para a distribuição de documentos, e a função de controlar dispersões léxicas nos processos de análise documentária”. (DODEBEI, 2002, p.57).

Na linha brasileira, identificamos um aproveitamento e aprofundamento das questões levantadas pela linha europeia.

Atualmente, observa-se, no Grupo Temma, que determinados autores têm investido nos estudos das relações entre a Linguagem Documentária e a Terminologia.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A evolução do conceito de Linguagens Documentárias passou por diversos momentos, que levaram em conta diversas de suas características. A começar pelo entendimento de qual seria o campo responsável por sua elaboração e desenvolvimentos, até suas próprias funções enquanto uma linguagem para representar o conteúdo de documentos. Neste ponto, identificamos diversas abordagens, que fizeram variar sua denominação e objetivos.

As linhas francesa e brasileira, em sintonia, apontaram para o conceito que hoje temos de Linguagem Documentária, como um instrumento para uso em contexto específico, que pretende sintetizar e agrupar documentos, tendo em vista sua recuperação, e, portanto, a circulação das informações que os formam.

No entanto, não se deve esquecer do papel da Lingüística Estruturalista e da Terminologia para o desenvolvimento das Linguagens Documentárias. Essas áreas muito contribuíram para o que hoje conhecemos como Linguagem Documentária, e cujos estudos ambas as linhas, francesa e brasileira, têm levado em conta. Conhecendo-se o conceito de Linguagem Documentária, somando-o às noções de estrutura lingüísticas e da Terminologia, temos as teorias necessárias para o desenvolvimento adequado deste instrumento de controle terminológico.
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1 Artigo apresentado ao Curso de Biblioteconomia, do Departamento de Biblioteconomia, do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sob a orientação da PROFª.DR. Nádia Vanti, como requisito da terceira nota da matéria de Introdução ao Tratamento Temático da Informação.


 Alunas do 3º período do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).








2 Mais informações sobre o Grupo Temma podem ser obtidas no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, CNPq. http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/resultbusca.jsp?campo=grupo&uf=branco&instituicao=branco&grandearea=branco&area=branco®ini=0&setor=branco&texto=Grupo+Temma&tipo=AND Acesso em 12.jun.2009.



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