LingüÍstica cognitiva e tradiçÃo funcionalista



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LINGÜÍSTICA COGNITIVA E TRADIÇÃO FUNCIONALISTA

 

 



Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq)

 

 



Nesta mesa-redonda, dividimos nossas tarefas da seguinte forma: situo a Lingüística Cognitiva na tradição funcionalista da Lingüística contemporânea, a Profa. Margarida Salomão, da Universidade Federal de Juiz de Fora, trata de “metáforas e cognição”, e Malu Braga e Maria da Conceição de Paiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falam sobre “dêixis locativa e categorias cognitivas”. Nossa intenção comum é atrair pesquisadores para a área em que a Margarida tem sido a pioneira no Brasil. Em nome da Diretoria do GEL, agradeço a essas colegas por terem aceito convite para integrar esta atividade.

 

No ano passado, redigi um relatório no qual procurei fazer uma idéia sobre os campos cobertos pela Lingüística Cognitiva. Tão longe quando vejo, inclui-se aí a Gramática Funcional em suas várias vertentes, a Teoria dos protótipos, a Teoria da metáfora, a Teoria dos espaços mentais, a Teoria da gramaticalização e alguns modelos da Gramática cognitiva. A Semântica cognitiva invade todos esses campos. Pode ser que sob o rótulo “Lingüística Cognitiva” haja outros continentes a desbravar, porém minha visão nesta altura dos acontecimentos foi parando por aqui.



 

Para começo de conversa, qual é a relação entre Lingüística Cognitiva e Ciências Cognitivas ?

 


  1. 1.      Ciência Cognitiva

 

“Cognição” é um termo bastante geral, que abriga sentidos tais como PERCEPÇÃO (especialmente a VISÃO), PENSAMENTO, MEMÓRIA e RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS. Talvez se possa definir a cognição como a percepção do mundo real ou imaginário. Por conseqüência, as Ciências Cognitivas (e em seu interior, a Lingüística Cognitiva) deixam de lado a descrição formal de um mundo estático para privilegiar a descrição funcional de um mundo em movimento, com particular atenção ao dinamismo mental na criação do pensamento.

 

A Ciência Cognitiva, ou melhor, as ciências cognitivas se desenvolveram fortemente na Rússia, na Inglaterra e nos Estados Unidos, particularmente em universidades da Califórnia, a partir de 1980.



 

A chamada “revolução cognitiva” representa um “esforço contemporâneo, com fundamentação empírica, para responder a questões epistemológicas de longa data – principalmente aquelas relativas à natureza do conhecimento, seus componentes, suas origens, seu desenvolvimento e seu emprego”: Gardner (1985 / 1995: 19).

 

Parece que tudo começou com o “Simpósio Hixon”, realizado na Califórnia em 1948, tendo por tema os “mecanismos cerebrais do comportamento”. Os principais expositores mostraram que os cânones behavioristas, até então intocados, inviabilizavam um estudo científico da mente. Eles argumentaram que a compartimentação das ciências em campos tais como a Psicologia, a Antropologia, as Neurociências, a Sociologia e a Lingüística levadas a cabo no final do séc. XIX dificultava o estudo dos processos mentais, entre os quais o mais complexo é o da fala, e daí a importância da Lingüistica no projeto que então se delineava.



 

Vários domínios do conhecimento concorreram para a fundação da Ciência Cognitiva, e aqui me limito a enumerar a Matemática, a Computação, a Neurologia com seus estudos sobre danos cerebrais, a Cibernética, e a Teoria da informação: Gardner (1985/1995).

 

A Matemática e a Computação conceberam a idéia de uma máquina capaz de fazer quaisquer cálculos a partir de programas armazenados em sua memória. A Neurologia mostrou que as redes neuronais, isto é, as células nervosas e suas conexões com outras células nervosas, podiam ser modeladas em termos da Lógica. Na mesma direção, Chomsky sustentou que a linguagem compartilha propriedades com a Lógica.



 

Não se pode dizer que a(s) Ciência(s) Cognitiva(s) constituam um campo nítido. São conhecidas as conexões entre as ciências acima referidas, definidas pelo mesmo Gardner (1985/1995: 52) em termos de vínculos fortes e vínculos fracos. Apesar das dificuldades de delimitação do campo, é geralmente aceito que a Ciência Cognitiva apresenta os seguintes aspectos fundamentais: (1) A crença de que é necessário “postular um nível de análise separado, que pode ser chamado de ‘nível de representação’; quando trabalha nesse nível, um cientista trafega por entidades representacionais tais como símbolos, esquemas, regras, imagens” para dar conta da variedade dos fenômenos humanos (ibidem: 53). (2) A convicção de que pelo menos por ora convém deixar de lado as emoções, a história e o contexto, visto ser impossível tratar cientificamente de tais fatores. Isso descontentou os antropólogos, que aparentemente vêm se afastando da Ciência Cognitiva. (3) A crença de que desencapsulando as ciências, e cultivando uma abordagem interdisciplinar dos temas, pode-se atingir percepções mais poderosas do que aquelas identificadas no trato monodisciplinar. (4) Por fim, o paradoxo computacional: a crença de que o pensamento humano não é semelhante às operações de um computador. Não se nega que o uso do computador tenha acelerado as pesquisas cognitivistas, mas isso é tudo.

 

Valendo-me de uma distinção formulada pelo mesmo Gardner (1985/1995) quando relata as pesquisas em Psicologia, pode-se dizer que as pesquisas em Ciência Cognitiva têm conhecido um movimento pendular que poderia ser captado através da oposição entre a análise molecular e a análise molar. A análise molecular ou de pequena escala tem uma atitude empiricista, postulando que do exame dos dados ressaltarão os princípios. A análise molar ou de grande escala tem uma atitude racionalista, segundo a qual é preciso postular aprioristicamente os grandes princípios e depois verificar como os dados se comportam. Ambas repercutem o velho embate empiricismo / racionalismo que agita a Filosofia desde sempre.



 

1.1 - Análise molecular

 

A “teoria da modularidade da mente” e as chamadas “pesquisas em linhas verticais” integram a análise molecular.



 

1.1 - Segundo a teoria da modularidade, a mente opera por módulos independentes uns de outros.

 

Talvez se pudesse ver em Aristóteles e Kant os primeiros integrantes da teoria da modularidade, quando o primeiro deles sustentou que a mente opera por “categorias do pensamento”: “Estes conceitos elementares da compreensão pura – tais como quantidade (unidade, pluralidade e totalidade), qualidade (realidade, negação e limitação), relação (substância e acaso, causa e efeito e reciprocidade), modalidade (possibilidade, existência e necessidade) – constituem o equipamento mental, os conceitos sintetizadores puros dos quais a compreensão humana é dotada. Somente eles permitem ao indivíduo ver algum significado nas suas experiências”: Gardner (1985/1995: 72). A cada categoria do pensamento corresponde um esquema, que é como ela é aplicável aos objetos da experiência em geral.



 

Fodor, em seu The Language of Thought (1975) sustenta que cada módulo mental funciona segundo suas próprias leis, sendo então necessário postular algum tipo de processador central, ou função executiva. Até aqui ele acompanha de perto o pensamento de Chomsky, francamente favorável à modularidade da mente. Mas ele acrescenta que, por isso mesmo, a Lingüística Cognitiva deveria funcionar como uma holding das demais ciências.

 

Certo refinamento da teoria modular adiciona à noção de diferentes módulos operando isoladamente a idéia de “muitas unidades operando e trocando informação de maneiras análogas a muitas células ou colunas cerebrais disparando simultaneamente” Gardner (1985/1995: 335). Essa questão da simultaneidade, aliás, aparece em algumas interpretações dos resultados do Projeto de Gramática do Português Falado, como se pode ver em Nascimento (1993) e Castilho (1997).



 

Cada módulo representa uma abordagem molecular, e o processador central representa uma abordagem molar – e baste esta observação para patentear a complexidade das abordagens cognitivistas.

 

1.2 - Por “linhas verticais” entendem-se as análises moleculares em que determinado fenômeno é examinado numa forma interdisciplinar. Incluem-se aqui as categorias de VISÃO, ESPAÇO, MOVIMENTO E AÇÃO MOTORA, SÍMBOLOS, IMAGENS, estes durante muito tempo esquecidos nos desvãos da Retórica, e agora fortemente valorizados pelas pesquisas cognitivistas, como fenômenos do dia-a-dia, bastante reveladores de como criamos os significados.



 

Em suma, as análises moleculares diluem os limites entre as disciplinas. A linguagem deixa de ser o campo dos lingüistas, uma posição que já tinha aparecido em Saussure (língua e história), Sapir (língua e pensamento) e Jakobson (língua e poética). A destruição das fronteiras continua hoje nos seminários dos Centros de Ciência Cognitiva, como os da Universidade da Califórnia em San Diego, por exemplo.



2. Análise molar

 

Este ponto do pêndulo é ocupado por aqueles pesquisadores para os quais os dados nunca falarão por si, sendo indispensável uma posição teórica, a partir da qual serão exploradas as conseqüências da teoria formulada. Na Lingüística, Chomsky é o padrão maior desta posição, quando insiste em que os princípios não podem derivar da descrição das expressões lingüísticas. São bem conhecidas suas posições sobre a centralidade da sintaxe, que pode ser estudada independentemente dos outros níveis da língua, e sobre a autonomia da linguagem, que pode ser pesquisada com independência em relação às demais ciências cognitivas.



 

As análises molares, com exclusão de Chomsky, são nitidamente antimodularistas. Optando por uma visão holística, elas postulam que a mente opera por um conjunto de impulsos não passíveis de organização em grandes blocos. O cérebro é um órgão único e altamente integrado que não dá respostas específicas à estimulação.

 

Qualquer que seja a tendência cognitivista adotada – e a polarização acima é apenas um esforço para apresentar num desenho articulado um campo tão complexo – testemunha-se no estado atual dos estudos cognitivistas uma espantosa proliferação de categorias acompanhadas por uma complexa terminologia, muitas delas se sobrepondo de mais de um modo. Tendo sua origem nas discussões de Platão e de Aristóteles sobre a natureza do conhecimento e sua caracterização, a Ciência Cognitiva no século que acaba de terminar e certamente ainda nos anos por vir continuará a opor racionalistas a empiricisras, o individualismo científico à interdisciplinaridade. Que ponto reúne então os cognitivistas, em que lugar eles se encontram e se vêem como tais ? Certamente na postulação de um nível de representação mental (roteiros, esquemas, símbolos, estruturas, imagens, modelos mentais), “um conjunto de construtos que podem ser invocados para a explicação de fenômenos cognitivos, indo da percepção visual à compreensão de histórias”: Gardner (ibidem, 403).



 

É no domínio das representações mentais que se integra a Lingüística Cognitiva: Ungerer and Schmid (1996). Ela tem sido às vezes definida pelo que não é, pois essa direção de estudos não aceita (1) “a existência de um nível estrutural ou sistêmico de significação lingüística (...) distinto do nível em que o conhecimento do mundo está associado às formas lingüísticas”; (2) a arbitrariedade do signo; (3) a afirmação de que as categorias lingüísticas são discretas e homogêneas; (4) “a idéia de que a linguagem é gerada por regras lógicas e por traços semânticos ‘objetivos’”; (5) a autonomia e não-motivação semântica e conceptual da sintaxe: Silva (1997: 61).

 

Deixando de lado o debate entre funcionalistas e formalistas sobre qual é o domínio mais central da língua, a Lingüística Cognitiva estuda a interação entre a língua e as estruturas cognitivas, buscando explicar as formas e os significados das palavras e das construções. Sua contribuição para as Ciências Cognitivas está em mostrar que os “dados lingüísticos quando adequadamente compreendidos podem servir para revelar aspectos da representação mental em seu nível mais alto”: Sweetser and Fauconnier (Eds. 1996: 1).



 

Os lingüistas cognitivistas na verdade evitam cuidadosamente o estabelecimento de relações de causa e efeito entre os processos cognitivos e as propriedades lingüísticas. Ao emparelharem esses campos, eles se servem de predicadores tais como “interação”, “paralelismo”, “reflexo”, “representação” – e nunca se lê algo como “derivação”, relação “primitivo-derivado”, etc.

 

2. Lingüística Cognitiva e tradição funcionalista

 

A tradição funcionalista e a tradição formalista envolvem todos os momentos históricos da reflexão sobre a linguagem. Até o final dos anos 70 os lingüistas procuravam contrastar essas duas tradições.



Restringindo o campo de observação à Lingüística da segunda metade do século XX, e mesmo correndo o risco da caricatura, vou admitir, com Dell Hymes (1974) e Dik (1978: 5, 1989), que as seguintes afirmações caracterizam essas duas abordagens:

 

Formalismo: A língua é um conjunto de orações, cujo correlato psicológico é a competência, isto é, a capacidade de produzir, interpretar e julgar a gramaticalidade das orações. Segue-se que as orações devem ser descritas independentemente de sua localização contextual, e a Sintaxe é autônoma com respeito à Semântica e à Pragmática. Diferentes graus de idealização dos dados podem ser considerados, sendo indispensável seguir considerando uma Língua I, distinta de uma Língua E.





Funcionalismo: A língua é um instrumento de interação social, cujo correlato psicológico é a competência comunicativa, isto é, a capacidade de manter a interação por meio da linguagem. Segue-se que as descrições das expressões lingüísticas devem proporcionar pontos de contacto com seu funcionamento em dadas situações. A Pragmática é um marco globalizador, dentro do qual se deve estudar a Semântica e a Sintaxe.

 

O que se nota nessas citações é que o Formalismo e o Funcionalismo se distinguem na estratégia de abordagem do fenômeno lingüístico, e no papel conferido à Gramática, à Semântica e ao Discurso, entendidos tacitamente como os sistemas de que uma língua é feita.



 

O Formalismo contextualiza a língua nela mesma, isto é, nas suas propriedades internas, selecionando a Gramática como seu componente central. O Funcionalismo contextualiza a língua na situação social representada nas estruturas.

 

As duas tradições se fixaram fortemente na Lingüística brasileira, em que os estudos funcionalistas são mais recentes.



 

Pode-se reconhecer que a “Lingüística da Enunciação” abriu caminho para a eclosão da Lingüística Funcional, posteriormente aos anos 70, particularmente, (1) as idéias de Charles Bally sobre uma Lingüística da “parole” e as de Dwight Bollinger sobre as relações entre significado e forma, (2) os ensaios de Benveniste sobre os pronomes e sobre o aparelho formal da enunciação, e (3) as pesquisas sobre as funções lingüísticas promovidas por Buhler, Jakobson, Halliday e outros.

 

Apesar de compreender um conjunto de teorias, a abordagem funcionalista postula basicamente que a língua tem funções cognitivas e sociais que desempenham um papel central na criação das estruturas e dos sistemas considerados pelos lingüistas como a gramática de uma língua. Essas estruturas não são fechadas, pois representam continuadas gramaticalizações das necessidades sociais de expressão e de intercomunicação. A pesquisa funcionalista, portanto, concentra-se no esclarecimento das relações entre forma e função, especificando aquelas funções que parecem exercer influência na estrutura gramatical.



 

Uma das conseqüências desse modo de refletir sobre a língua “é o reconhecimento de que o conjunto de [estruturas] arbitrárias que os lingüistas postulam como características da gramática é muito menor do que supunham as abordagens formalistas”: Thompson (1992: 37). Por via de conseqüência, a metodologia funcionalista abre espaço para a consideração de que a gramática das línguas naturais é um conjunto de escolhas formuladas pelo falante.

 

Na Europa, as análises funcionalistas tiveram início na década de 30, na Escola Lingüística de Praga, quando Vilém Mathesius formulou sua teoria sobre o fluxo da informação na sentença, logo desenvolvida pro Firbas e Danes sob o rótulo “perspectiva funcional da sentença”. Halliday e sua Gramática Sistêmica tem certa ligação com essa Escola. Nos Estados Unidos, o Funcionalismo teve início em meados dos anos 70, tendo tido como precursor o trabalho de Dwight Bollinger. No Brasil, a polêmica Votre-Naro (1989), Naro-Votre (1992) x Nascimento (1990), seguida depois das observações de Dillinger (1991), deu maior visibilidade ao entrechoque Formalismo x Funcionalismo. Votre-Naro (1989) argumentaram que “em nossa abordagem vamos normalmente do particular para o geral, porque o próprio critério que permite a descoberta do que ocorre e recorre, de forma regular, e que nos permite construir a generalização, é o papel comunicativo, e não algum critério formal. Nascimento mostra que o Formalismo e o Funcionalismo têm objetivos diferentes. A Sintaxe Gerativa é um modelo do conhecimento lingüístico, ao passo que a Sintaxe Funcional é um modelo do processamento verbal. Vistas as coisas deste ângulo, ele argumenta que "os dois modelos de análise podem contribuir um para o progresso do outro", pois focalizam o fenômeno lingüístico de ângulos complementares.



 

O desenvolvimento dos estudos funcionalistas no Brasil foi minuciosamente tratado por Neves (1997 e 1999). No trabalho de 1999 ela identifica os pioneiros desse movimento (Evanildo Bechara, Rafael Hoyos-Andrade e Ataliba T. de Castilho), os grupos de pesquisa (“Programa de estudos sobre o uso da língua”, coordenado na UFRJ por Anthony J. Naro; “Discurso e gramática”, coordenado na UFF por Sebastião Votre; Grupo de Sintaxe I do “Projeto de Gramática do Português Falado”, coordenado por Rodolfo Ilari e Maria Helena Moura Neves, e contando com pesquisadores da Unicamp, Unesp, USP e UFRJ; “Espaços mentais e gramaticalização”, coordenado na UFJF por Margarida Salomão), além de várias pesquisas avulsas.

 

É preciso reconhecer que neste final de século Formalismo e Funcionalismo passaram por muitas transformações, verificando-se hoje uma diminuição das distâncias mencionadas nos anos 70, devida, sobretudo, aos avanços conseguidos nos domínios do Discurso e da Semântica. Kato (1998), por exemplo, admitiu um “casamento” entre os dois modelos, prevendo que ele poderá ocorrer no domínio da subteoria gramatical dos papéis temáticos - na Semântica, portanto.



 

Nos primeiros oitenta anos da pesquisa lingüística do séc. XX, mentes e corações estiveram ocupados com a descrição sincrônica e a explicação diacrônica da estrutura das línguas naturais. Falando de um modo geral, excluíam-se então as questões do significado, consideradas não abordáveis de um ponto de vista científico. Assim, ficaram intocadas questões tais como a criação dos significados, e o fato fundamental de que as expressões lingüísticas não refletem diretamente os eventos e situações objetivas ou imaginárias, pois elas na verdade representam o modo como pensamos, o modo como construímos o pensamento.

 

Pode-se afirmar com segurança que a Lingüística Cognitiva aceitou este repto, organizando-se como uma nova área de investigações. Seu objeto primeiro, ao se desviar do estudo da língua seja como enunciado seja como enunciação, é buscar entender o sinal lingüístico, e como se constroem os significados. Retomando antigas questões sobre as relações entre a linguagem e o pensamento, ela representa uma nova revolução da Lingüística, intrigada com esta afirmação de Wittgentein, tão habitualmente relembrada por cognitivistas como Fauconnier (1996), por exemplo: “Os aspectos das coisas que são mais importantes para nós estão escondidos, dada sua simplicidade e familiaridade”. Fomos deixando de lado, realmente, “as complexas operações mentais desencadeadas no interior e ao longo dos domínios quando pensamos, agimos ou comunicamos” (Fauconnier 1996: 2)



 

Gostaria de sublinhar, mais uma vez, que a Lingüística Cognitiva deslocou o eixo central das preocupações com a descrição e a história das línguas, para aquilo que reconhecidamente é a pergunta última da ciência a que nos dedicamos: como pensamos ? como representamos na linguagem os pensamentos que continuamente criamos, no entorno social ?

 

Isso não quer dizer que a descrição e a história vão desaparecer de nossa agenda. No domínio da Gramática, por exemplo, fica evidente que a principal contribuição da Lingüística Cognitiva é fornecer as bases cognitivistas para o entendimento da gramaticalização. No domínio da Semântica, a principal contribuição da Lingüística Cognitiva está no programa de investigações sobre a criação dos significados, como já disse. É bem verdade que qualquer semântica será sempre uma semântica da cognição. Entretanto, a partir dos anos 80 o rótulo “Semântica Cognitiva” passou a designar as pesquisas sobre como a percepção humana constitui os significados, e qual é sua relação com as formas gramaticais. A agenda da Semântica Cognitiva distinguiu-a fortemente das pesquisas sobre a Semântica lexical e composicional.



 

A seguir, as colegas que integram esta mesa-redonda detalharão alguns aspectos da agenda cognitivista.

 

 

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http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/32/htm/amesa.htm

13/07/2009

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