Literatura brasileira II



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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

FACULDADE DE CIÊNCIAS E LETRAS

LITERATURA BRASILEIRA II


AS MENINAS - LYGIA FAGUNDES TELLES

Prof. Dr Maria Célia Leonel Nomes :

ARARAQUARA -2006

LOCALIZAÇÃO DO TEXTO NA OBRA DA AUTORA

Lygia Fagundes Telles é considerada, junto com Clarice Lispector, uma das principais vozes femininas da literatura brasileira. Ela pertence à chamada "geração de 45", que é uma geração de escritores que se destacaram no período pós-guerra e que se firmaram na nossa literatura nas décadas de 40 e 50 do século XX. A sua prosa é caracterizada justamente por trazer as marcas das principais tendências culturais e literárias desse período. Bosi a considera uma escritora que atesta, em conjunto com outros romancistas, a maturidade literária a que chegou nossa prosa.

Lygia começou a escrever o romance As Meninas em 1963, inspirada no momento político que o país vivia e nas conversas e conflitos dos amigos do seu filho, Goffredo da Silva Telles Neto, que frequentavam sua casa. Dessa maneira incorporou tudo o que delineava o caminho da juventude brasileira da época.

Em 1973, As Meninas é publicado pela José Olympio, sendo esse o seu terceiro romance (antecedido por Ciranda de Pedra e Verão no Aquário e sucedido por As Horas Nua)s. O livro é dedicado ao seu segundo marido, Paulo Emílio Salles Gomes, e arrebata todos os prêmios literários de importância no país: o Coellho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o de "Ficção" da Associação Paulista de Críticos de Arte. Além disso, faz muito sucesso junto aos leitores, tanto que possui traduções para o espanhol e para o inglês, possui edição em Portugal e foi adaptado para o cinema e para o teatro.



As Meninas é considerado pela própria autora o livro que lhe deu mais prazer, no qual ela expõe a realidade de um regime militar horrível e da liberação sexual, e um livro que ainda é muito atual, pois retrata a natureza humana. O romance foi escrito quando o Brasil sofria a repressão mais feroz da ditadura militar e, por isso, deixa-se contaminar pelas preocupações políticas e sociais. Para Lygia, ele é o testemunho de uma época.

CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

Lygia Fagundes Telles começou a escrever As Meninas em 1963, porém só terminou o livro e o editou em 1973, por isso presenciou uma década de fatos históricos e culturais do Brasil e do mundo que a influenciaram em seu processo de criação. Segundo Alfredo Bosi, "As Meninas, de 1973, desenhou o perfil de um dos momentos da vida brasileira, em que o fantasma das guerrilhas é apreendido no cotidiano de estudantes burguesas". (BOSI, 1994)

Essa foi uma época de muitas contradições, já que ao mesmo tempo em que o Brasil passava por um dos períodos mais negros de sua história, com o Golpe Militar de 1964 que deixou o país sob repressão e censura, o mundo vivia transformações culturais intensas com a liberação sexual trazida pelos hippies, mudanças na música e até mesmo a ida do homem a lua.

Assim, esse livro deixou-se contaminar por preocupações políticas e sociais, e serve também como instrumento de luta, mostrando os conflitos de uma geração de jovens através das três personagens principais que refletem a repressão e a revolta que marcaram os anos 60 e 70.

Lygia já declarou em entrevistas que é todas as suas personagens e nenhuma delas ao mesmo tempo, o que nos leva a interpretar que cada uma delas reflete um pouco da escritora e de sua forma de encarar o mundo, mostrando as múltiplas faces do ser humano, o quanto somos fragmentados, divididos diante da realidade que nos cerca. Segundo Terezinha Lima Pereira, na dissertação de mestrado O narrador multiforme em As Meninas de Lygia Fagundes Telles, nós podemos perceber na obra um aprisionamento do eu que se vê limitado por algo que o deixa impotente, desarmado, sobretudo em relação ao contexto que está inserido. Conforme vamos lendo, percebemos que a autora, através da linguagem, embaralha o real e o irreal, o conhecido e o desconhecido, o concreto e o abstrato, que leva para o romance questões existenciais que sempre permearam o homem, dando características de universalidade ao livro.

SINOPSE

Filha de um casal da alta burguesia, Lorena Vaz Leme passou sua infância na fazenda com seus irmãos Rômulo e Remo. Segundo ela, a filha caçula, seu irmão, Rômulo, morreu num drástico acidente com um tiro, mas sua mãe diz que seu segundo filho morreu com um mês de vida de sopro no coração. Podemos pensar que a mãe mente por dois motivos: pelo relato de Lorena "Todas as vezes em que o presente a desgosta (o que vem acontecendo com maior frequência) refugia-se no passado. As lembranças colhidas sem ordem no tempo são sempre as mesmas" e pela opinião de Lia, segundo a qual é mais fácil para mãe acreditar que o filho morreu ainda muito pequeno do que qualquer outra coisa. Ou podemos pensar que Lorena mente, como afirma a mãe.

Seu pai morre no sanatório, desmemoriado; a mãe, meio "glingue glongue", não aceita a sua própria velhice e se envolve com um homem bem mais novo, Mieux, que só lhe traz desgosto. Lorena cresce e vai estudar Direito, residindo no pensionato Nossa Senhora de Fátima (provavelmente em São Paulo).

Filha de um alemão Herr Poe) , ex-nazista, e de dona Dionísia, baiana, Lia de Melo Schultz, outra personagem principal, tem, quando menina, um caso homossexual. Depois que seus pais descobrem, vem para o mesmo pensionato, para estudar Ciências Sociais.

A outra personagem principal, filha de pai desconhecido e de Judite Conceição, Ana Clara Conceição, teve uma infância de muito abandono: criada em um cortiço, via a mãe apanhar de muitos homens (Judite era prostituta), sua infância foi marcada pela solidão Ainda menina, se tratava com um dentista conhecido como Dr. Algodãozinho, que abusava sexualmente das duas. A mãe , cansada de sofrer, toma formicida. Ana vira modelo, era muito bela, vai estudar Psicologia.

Morando no mesmo pensionato as três meninas se tornam muito amigas. Lia, ativista da Esquerda, se corresponde por carta com os pais, com quem mantém um relacionamento de saudade amor e compreensão. Se envolve no "aparelho" ( grupo de resistência militar). Ana, em busca de ascensão social firma vários noivados, mas namora Max, Maximiliano, um moço que já foi rico e agora é traficante, e se encontram num apartamento.

Lorena tinha um "casinho" com Fabrizio, um amigo da Faculdade, que quase perdeu sua virgindade com ele, mas Lião e depois Ana chegaram para atrapalhar. No dia seguinte, conhece M. N. (Dr. Marcus Nemésius, ginecologista) por quem mantém um amor platónico e edipiano. Instala-se a Ditadura Militar e Miguel, namorado de Lião, é preso.

O livro começa no período da greve estudantil. Ana e Max estão na cama bêbados e drogados; e nas conversas de Aninha, principalmente sobre a infância, o real e o imaginário a todo o momento se confundem. Ana fala para Max que está grávida e pretende abortar. Lia vai ao pensionato pedir o carro emprestado para Lorena. Logo após vai para um galpão encontrar-se com Pedro, que a chama de Rosa de Luxemburgo. Depois se encontra com Bugre que lhe dá a notícia de que Miguel está na lista dos que serão soltos, mas será exilado na Argélia. Lia volta para o pensionato e lê uma carta de Maurício, que relata a tortura que sofreu, para Madre Alix. Guga, um amigo de Lorena, vai visitá-la. Ela quase se entrega a ele. Lia vai até a casa da mãe de Lorena, a "mãezinha", para pegar roupas para sua viagem, pois iria com Miguel para Argélia. Enquanto espera por "mãezinha" observa um tapete em que as gazelas são perseguidas por um tigre. Ana sai do quarto de Max às onze horas da noite dizendo que estava atrasada para o encontro com seu noivo industrial. Pega carona com um homem chamado Valdomiro, finge se chamar Lorena, pede a ele, depois de perceber que está mal intencionado, para deixá-la na esquina, entra num bar, vai para um apartamento de um cara de 46 anos, pois acha que este é seu pai. Volta para o pensionato drogada. Lorena a ajuda a tomar um banho de banheira e após reclamar de uma dor no peito morre de overdose.

Para não incriminar as freiras e para a polícia não descobrir os planos de Lião, esta e Lorena vestem e maquiam Ana, colocam-na no carro (são três horas da madrugada) e a deixam sentada num banco da praça como uma estrela que era. Lorena volta para o pensionato, pois, com o fim da greve, suas provas começaram, e Lia vai para o aeroporto.

TEMA

Segundo José Paulo Paes, em um ensaio na revista "Cadernos de Literatura Brasileira" o tema de As Meninas é o de desencontro existencial.

" Se eu não falasse tanto em fazer amor, se Ana Clara não falasse tanto em enriquecer, se Lião não falasse noite e dia em revolução." (Telles, 1974)

"Os 'ses' pontuam três tipos de desencontro existencial":



Lorena: "a mortificação com a virgindade que insiste em manter numa época de liberação sexual. Sua relação com M. N. ameaça continuar platônica", porque "ele se recusa ao adultério".

Lia: "figuração do impasse de suas esperanças políticas no desenho de um tapete", onde gazelas são perseguidas por um tigre e condenadas a extinção, tanto quanto a nova Esquerda que "se não se unisse aos outros grupos acabariam todos tão multiplicados e enfraquecidos que (...)ninguém mais se entenderia" (Telles, 1974). "A ida par Argélia era um adiantamento do desencontro final entre utopia e realidade"

Ana Clara: "Queria capitalizar sua beleza de modelo profissional para chegar à opulência que apagasse o estigma de uma infância bastarda feita só de miséria, violência e degradação. A morte de overdose de cocaína abre ao máximo o leque de desencontros da vida de Ana Clara.".

PERSONAGENS

Lorena Vaz Leme: toma a palavra com mais frequência, o que pode atrair para ela as simpatias dos leitores. Bondosa, desprendida e delicada, é fruto de uma educação esmerada; filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com frequência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação refinada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular; vive num mundo de fantasias, idealizando um romance com um homem mais velho e casado (MN) que, aparentemente, não se concretiza. Dentro de seu quarto no pensionato, que a isola do mundo exterior como uma redoma, fica remoendo coisas de seu passado: a morte trágica do irmãozinho, a loucura do pai, o romance da mãe com um homem mais jovem, os problemas de sua vida sentimental. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. No entanto, diante da morte de A. Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: enquanto resolve enfrentar o mundo ela rompe sua "concha" definitivamente.

Lia de Melo Schultz: filha de pai alemão e mãe baiana, é estudante de Ciências Sociais. Ativista de esquerda, deixa tudo de lado para dedicar-se à ação politica clandestina. Lia é o oposto de Lorena no que diz respeito a refinamentos e delicadezas: vive mergulhada na contestação dos valores e ideais da sociedade burguesa, rodeada de recortes de jornais, panfletos e estatísticas. Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

Ana Clara Conceição: estudante de Psicologia com matrícula trancada e vida pessoal complicadíssima. Apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor. Vive sérios conflitos existenciais, filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida. Ana foi seduzida por um dentista, que abusa sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Nas coisas que diz, o real e o imaginário se confundem a todo momento. Viciada, entrega-se aos tóxicos em companhia de Max, a quem ama, embora viva aludindo a um possível noivo, com quem pretende se casar para adquirir respeitabilidade; em seu desamparo afetivo, procura o casamento como forma de ascensão social. Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Das três, é talvez a personagem mais rica e mais problemática, com um comportamento próximo à autodestruição. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.

O romance AsMeninas oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de três pessoas em busca de si mesmas; de outro, uma amostra dos problemas cruciais que agitaram a juventude durante um dos períodos mais conturbados da história do Brasil, que Lygia Fagundes Telles teve a ousadia e a coragem de denunciar.

NARRAÇÃO, NARRADOR E FOCALIZAÇÃO Narração

No livro As Meninas, verifica-se a narração ulterior, em que o ato narrativo se situa numa posição de inequívoca posteridade em relação à história. Destaca-se, além do diálogo, a presença constante de monólogos interiores e fluxos de consciência por parte das personagens, entendidos como pausa, que por sua vez, significa a suspensão do tempo da história em benefício do tempo do discurso, interrompendo momentaneamente o desenrolar da história, sendo assim, o tempo do discurso é maior que o tempo da história. É durante essas pausas, que ocorre a simultaneidade das vozes narrativas.

O romance inicia-se com um monólogo interior de Lorena, isolada em seu quarto, faz uma série de reflexões, pensamentos e ligações, muitas vezes desconexos, mas reveladores do seu modo de ver o mundo e encarar as coisas da vida. Pela personagem Lorena, é que conhecemos as outras personagem, Lião e Ana Clara e por estas, nos é permitido apurar um pouco mais sobre a primeira.

"Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro

e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois

mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M.N. vai dizer e fazer quando cair o último véu (...)" (Telles, 1974, p.03)

No trecho acima, além do uso de primeira pessoa, observa-se a um ritmo vertiginoso - típico do fluxo de consciência. A noção de ulterioridade está confirmada no uso de verbos no tempo passado.

Na reprodução do trecho a seguir, temos uma espécie de antecipação dos fatos em relação ao momento em que os mesmos aconteceram. A personagem Lorena ao narrar faz a combinação de um advérbio,"Amanhã" - indicador do porvir, o dia seguinte em relação ao que estamos com uma forma verbal de passado acabado, (eu) "conheci".

"(...) Ana Clara se cobrira com meu xale e dormia profundamente, toda enrolada na cadeira.

Tinha passado a chuva. "Volto amanhã" - ele disse quando montou na sua moto sem maior

entusiasmo. Fechei o portão, Amanhã conheci M.N." (Telles, 1974, p. 67)

E com muita maestria, portanto, que o narrador trabalha todas as técnicas narrativas a que se propõe e é justamente pela combinação destas, que o discurso se torna possível.

Narrador


No livro As Meninas, há quatro narradores: as três meninas universitárias que se revezam,
sucessivamente, como narradoras em primeira pessoa, e um narrador impessoal em terceira pessoa.
Este último, detém o fio condutor do discurso e é o
responsável pela distribuição das vozes narradoras. As três narradoras protagonistas da história constituem um narrador autodiegético, ou seja, aquele em que o narrador da história relata as suas experiências como personagem central dela.

Durante a narração, muitas vezes, não temos a certeza quanto à identidade do narrador, não fosse alguns indícios. É o que acontece no trecho a seguir, pois é através do pronome "minha" no final e da palavra "mãezinha", que percebemos a narração feita através da personagem Lorena.

"(...) Mieux piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar o seu prestígio:"Vai ficar a coisa mais jóia do mundo, já estou com umas idéias. Quero o banheiro cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para o banho - disse ele atirando a ponta de cigarro no vaso rachado. (...) Apanhou no chão uma carta de baralho, era uma dama-de-espadas. Colocou-a de pé na frincha da porta. E, como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda."(Telles, 1974, p.15-6).

Nesse outro fragmento, ocorre um exemplo de mudança do narrador de primeira pessoa para o de terceira pessoa, sem pausa, o que acarreta um ritmo veloz à narrativa.9

"(...) Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, morreu drogado o pobrezinho, todos eles morrem drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi!...

Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna (...) Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e, olhando em frente foi-se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos." (Telles, 1974, p. 5-6).

O narrador impessoal, através das vozes, acaba narrando com a visão das personagens, o que lhe acarreta um certo grau de onisciência - já que muitas vezes, nos diz o que determinada personagem pensou ou sentiu, mas isso não quer dizer que tal narrador seja intruso.

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"(...) "Fico tomando sol porque não posso tomar o homem que amo", pensou mastigando mais energicamente."(Telles, 1974, p.55-6)



"(...) "Se voltar, lembra", pensou Lorena abrindo as mãos com as palmas voltadas para cima em gesto de oferenda." (Telles, 1974, p. 109)

"(...) "Miguel é um cerebral" - pensou Lia fechando o caderno." (Telles, 1974, p. 210) Focalização

A focalização em As Meninas é feita através da interioridade, que segundo José Paulo Paes:

"Os acontecimentos e as demais personagens da narrativa são sempre vistos através da interioridade da personagem focal."

Traduzindo em termos genettianos, falar-se-á, portanto, no caso d'As Meninas, em focalização interna variável, segundo a qual o narrador (quando se trata de terceira pessoa) sabe tanto quanto as personagens e à interioridade pela focalização interna e/ou pela(s) personagem(ns) narradora(s), que ao narrar em primeira pessoa, imprimem no discurso uma forte carga de subjetividade. O aspecto variável, dá-se pela oscilação das vozes narradoras, pela variação do narrador.

Portanto, a focalização interna variável permite a circulação do núcleo focalizador do relato por várias personagens fazendo intersecções com suas experiências, posturas, incidências ideológicas, sentimentos, reflexões existências etc. propícios ao monólogo interior e ao fluxo de consciência.

TEMPO

A sequência cronológica da narrativa, isto é, o tempo da história principal é de algumas semanas. O tempo expandido em "As meninas" é de difícil determinação, pois ocorrem misturas entre o futuro, o passado e o presente.



Por ser uma ficção intimista, Lygia F. Telles - escritora de invulgar penetração psicológica -desenvolve na maior parte de sua obra, o tempo subjetivo, isto é, o tempo predominante é o psicológico (sucessão de nossos estados internos). Há a tentativa de anular o tempo cronológico a favor do tempo interior (duração interior).

Segundo Bosi, a obra é definida como "romance de tensão interiorizada"; temos três narradoras que enfrentam suas dificuldades não pela


ação mas pelo subjetivismo (memorialismo, intimismo, auto-análise,etc), assim sendo, tudo acontece através do psicológico e da subjetividade. As personagens vivem mergulhadas na temporalidade, suas mentes estão voltadas ao passado, à memória, aos acontecimentos antigos que se misturam no presente. Elas desejam que o tempo pare e tudo recomece reinando em suas vidas a felicidade que gostariam ter tido.A mudança das três narradoras ocorre sem pausa, não há no texto passagens que marcam a troca das narradoras. Cortes bruscos de um trecho para outro dão impressão de simultaneidade.

O tempo da narração não coincide com os dos acontecimentos, assim sendo, o tempo


expandido percorre praticamente a vida inteira das personagens e o tempo da narrativa equivale aos dias da greve. A duração interior sobrepõe-se às medidas temporais objetivas; o tempo psicológico (subjetivo e qualitativo) imprimem à obra momentos imprecisos.

Há desacelerações e acelerações temporais resultado de elipses de palavras, frases entrecortadas e ausência de pontuação que dão à obra um fluxo de intervenção do narrador autodiegético. Este relata as suas experiências como personagem central dessa história.

Portanto, narrador e leitor estão intimamente ligados, o tempo não tem sentido sem a existência do leitor que atua sobre o texto e que possibilita o "eu organizador do discurso" (narrador) trabalhar essas anacronias da melhor forma, ora com descrição dos acontecimentos físicos ou subjetivos, ora sem, deixando o texto com maior riqueza literária.

ESPAÇO


A história se passa na cidade de São Paulo, no Pensionato Nossa Senhora de Fátima, o qual é administrado por freiras.

Em "As meninas" não são encontradas grandes passagens descritivas. Isso se dá, provavelmente, porque a narrativa já é lenta devido as numerosas reflexões interiores feitas pelas personagens em primeira pessoa, e se fossem introduzidas muitas descrições de ambiente, a narrativa se tomaria mais lenta, tornando o livro monótono.

Mesmo assim, ainda podem ser encontradas algumas descrições feitas a partir de um narrador, em terceira pessoa, por exemplo, no capítulo 6, temos:

"Lia tirou a sacola do ombro e dependurou-a na cadeira mais próxima. Olhou a mesa recoberta de poeira, o calendário enrolado apontando detrás da máquina, o copo com um resto de café no fundo. Desenrolou o calendário: ocupando mais da metade da folha, a gravura de uma loura de biquini, a boca polpuda se entreabrindo para emborcar a garrafa de Coca-Cola. Deixou-o cair e ele se enrolou como se tivesse molas. Voltou-se para o teto pardacento, pontilhado de moscas estateladas, a maior parte morta em meio de fiapos de antigas teias. Sorriu. 'Lorena se divertiria muito aqui', pensou. No centro do globo de vidro leitoso, a mancha espessa de um amontoado de insetos que lá entraram e lá morreram aprisionados." (Telles, p. 124)

Segundo Antônio Dimas, em Espaço e Romance, esse tipo de descrição, a qual é feita a partir de um narrador intruso, é chamada de ambientação franca.

Sendo assim, a maior parte da ambientação vai nos sendo apresentada a partir das ações das personagens, como também foi mostrado no excerto anterior: " Lia tirou a sacola do ombro e dependurou-a na cadeira mais próxima", através da ação de Lia ficamos sabendo que existe mais de uma cadeira no local; esse tipo de descrição é chamada de ambientação dissimulada ou oblíqua.

Apesar de tudo, pode ser feita uma distinção no espaço segundo a posição social de cada uma das personagens, pois cada uma vive sua vida isoladamente, e só se encontram no pensionato, ou melhor, no "quarto-concha" de Lorena, que se toma um refúgio para onde as outras duas personagens se dirigem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão.

BIBLIOGRAFIA

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira.42.º edição. São Paulo: Cultrix, 1994. CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. São Paulo: Instituto Moreira Salles, v. 5, 1998.

DIMAS, Antônio. Espaço e Romance. Série princípios. São Paulo: Ática, 1985. MONTEIRO, Leonardo et al. Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Abril Educação, 1980. NUNES, B. O tempo na narrativa. São Paulo: Ática, 1988

PAES, José Paulo. Ao encontro dos desencontros. Cadernos de literatura brasileira. São Paulo, Instituto Moreira Salles, 1998, p. 70 - 83, v. 5.

PEREIRA, Terezinha Lima. O narrador multiforme em As Meninas de Lygia Fagundes Telles.

Araraquara, 2001. (dissertação de mestrado)

REIS, C. Dicionário de narratologia. Almedina,2000.



REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Editora Ática, 1988.

TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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