Literatura independente, contemporaneidade e cultura alternativa



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Encontro05.04.2018
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Literatura marginal, pós-modernidade e cultura alternativa”

(ensaio)
Prolegômenos e preliminares.
A primeira coisa a esclarecer é que eu não sou porta-voz da literatura marginal ou da cultura alternativa ou da contemporaneidade. Considero-me apenas um assalariado que dialoga com a herança alternativa (no sentido geral). Sou apenas poetinha, contador de histórias, pensador autodidata. O que vou emitir neste “ensaio” é meramente opinião pessoal, ou seja: não vou fazer uma abordagem “científica” (neopositivista, absolutamente imparcial, lógico-quantitativa ou assemelhada), até porque não acredito nesse tipo de abordagem quando o assunto é poesia e literatura. E também não me proponho a escrever, exclusivamente, em estilo acadêmico ou técnico (com a terminologia exclusiva dos departamentos de Letras), nem a seguir todos os ditames da Teoria Literária, da ABNT, da Reforma Ortográfica ou de qualquer outra “igreja” instituída, mesmo que seja pós-moderna (continuo usando, por exemplo, os acentos diferenciais: faço questão).
A origem do termo “poesia marginal”.
A minha desconfiança pessoal é de que esse termo foi cunhado pela intelectualidade academicista, “reacionária” e misoneísta do sudeste-sul no início da década de 70 (com o objetivo capcioso de denegrir e desqualificar, obviamente). O problema é que a paternidade nunca foi assumida. O nome surgiu “no ar”, e os poetas alternativos e/ou independentes assumiram a “metáfora”. A partir daí, o termo consolidou-se. A meu ver, está na hora do pai assumir a criança. Afinal, se ele tiver a coragem de assumir o rebento, pode ter alguma perda política ou cultural, mas terá algum ganho histórico (uma vez que seja reconhecido como o “inventor” do termo).

Atualmente, a maioria dos poetas e escritores que foram identificados como “marginais” não se identificam mais com essa definição. Alguns poucos ainda assumem o “rótulo” (como é o caso do pessoal da literatura marginal paulista e de alguns poetas recifenses oriundos da resistência cultural do Movimento de Escritores Independentes no início da década de 80, ou da poesia marginal pernambucana, propriamente dita, a partir da década de 90). Eu também não tenho problema em ser chamado de escritor “marginal”, embora prefira o termo “independente”. O problema, no frigir dos cocos, parece estar mais relacionado com demarcação de territórios do que com a sensação de constrangimento em ser identificado com um “marginal”. Argumentam alguns que, uma vez que este tipo de literatura já está razoavelmente assimilado por boa parte da crítica e da coletividade, não faria mais sentido insistir na demarcação. Poesia é poesia, pouco importa se está à margem ou não: isto é uma verdade. Mas eu acredito que ainda é necessária a diferenciação, por vários motivos. Eu gosto de saber onde estou pisando, de clarear referências. Seu eu disser “padrão grego”, ou “estilo clássico”, o leitor imediatamente terá um entendimento intuitivo do que eu estou querendo dizer. E se eu disser “estética da fome”, idem. Ou “teatro da crueldade”. Ou “estilo marginal”. ETC. Portanto, as diferenciações continuam sendo necessárias, não como “rótulos”, mas como uma referência mínima para facilitar o entendimento inicial do leitor.

Outro argumento capcioso usado pelos defensores do cânone ocidental é a afirmação de que a poesia marginal é um fenômemo datado. Se esse não é um argumento capcioso, é uma limitação perceptiva, ou uma discriminação cultural. Acredito que as proposições estilísticas e temáticas colocadas pela poesia marginal são intuições seminais válidas para qualquer contexto. Permanecem como opções, entre outras, dentro de um leque literário ampliado, inclusive para “aperfeiçoamentos”. Nunca é demais lembrar que, em meados da década de 70, era comum a intelectualidade acadêmica afirmar que “poesia marginal não é literatura”. Aliás, por falar nisso, esse mesmo “argumento” foi usado contra alguns escritores beatniks na década de 50 (o Ginsberg, inclusive, enfrentou um processo por atentado violento ao pudor). Dizia-se também, nos meios “ultra-intelectuais”, que esse tipo de literatura não tem cidadania estética. Ainda dizem? Quem tem a coragem de continuar dizendo? Sejamos lúcidos e vamos admitir que essa afirmação de que apenas a literatura canônica tem cidadania estética é uma “conversa pra boi dormir”, se não for uma discriminação mesmo, além de um elitismo horrível.
Dicotomias, dialéticas, sinergias.
A maturidade e a “lucidez” dos meus 50 anos dizem-me que a postura mais frutífera seria evitar a supremacia “absoluta” de um campo literário sobre os outros campos, seja ele qual for, e promover “jogos” dialéticos bilaterais ou a própria sinergia entre quatro ou cinco campos diferentes. Sendo assim, não estou advogando a hegemonia da literatura “alternativa” ou contemporânea ou qualquer outra, seja qual for. Seria fácil se fosse fácil. Vejam o “fosso” atual que existe entre os Estudos Literários e os Estudos Culturais: é mais que um fosso, é uma disputa ideológica, uma queda-de-braços epistêmica (não é apenas um choque entre concorrentes literários). Que tal colocar os dois no currículo dos estudantes de Letras?

O fato é que um pendor compartimental muito forte acaba instalando-se na cabecinha de quem se apega, de forma excludente, a um determinado campo literário, seja ele qual for, e então é inevitável uma certa limitação perceptiva como conseqüência da ausência de diálogo e sinergia entre os diferentes campos. Nas décadas de 80 e 90 ainda era forte esse pendor. Atualmente, diluiu-se um pouco, mas ainda persiste. Tenho advogado a diluição das fronteiras e a abertura para as influências mútuas, convicto de que o clima mais propício para a brotação das melhores idéias e criatividades está na predisposição para as “sínteses” dialéticas bilaterais e sinergias várias.


Espontaneidade, inspiração, transpiração.
A cultura alternativa, desde seus primórdios, priorizou a espontaneidade e a inspiração, mesmo sem advogar o descarte da “transpiração”. A escrita automática e o fluxo de consciência, entre outros, deram o pontapé inicial no ambiente urbano, mas os repentistas e emboladores, desde o século XIX, já tinham um acúmulo de experiências na poesia que se faz “de repente”. O RAP então vai iniciar um diálogo com essa espontaneidade regional, e dessa influência mútua certamente brotarão inúmeras tacadas geniais. Mas nem tudo é repentino ou espontâneo na literatura contemporânea. É consenso, entre historiadores da Literatura, que Kerouac revisou várias vezes o seu On the Road. Eu mesmo não escrevo prioritariamente através do automatismo ou do “vômito” instantâneo. Sou um “costureiro” que premedita e reelabora suas “colchas de retalhos” (raramente “recebo” poemas completos), embora também escreva forçado pelo “fogo interior”, pela chama interna. Aqui em Pernambuco temos o caso de um poeta (oriundo da poesia marginal recifense) que escreve quase que exclusivamente por inspiração e “possessão” instantânea, como ele mesmo confessa e reafirma (chama-se Miró da Muribeca, e é razoavelmente conhecido em todo o Brasil, principalmente como recitador). Mas, realmente, na grande maioria dos casos, constata-se mais transpiração do que inspiração.
Charlatães e prestidigitadores.
Charlatães existem em todos os campos. Não é apenas um ou outro poetinha alternativo que usa a “desculpa” da transgressão para justificar uma literatura mal escrita (ruim mesmo) ou as limitações de suas atividades “intelectuais”, ou a sua incapacidade de escrever uma poesia bem elaborada, mesmo que não seja em estilo clássico ou não tenha “harmonia” na sintaxe (enfim: mal concatenada). Mas alguns poetas acadêmicos também fazem prestidigitação literária quando escrevem uma poesia pomposa e balôfa, um gongorismo sem conteúdo (turvam suas águas pra que pareçam profundas?). A meu ver, esses são também prestidigitadores, embora, diferentemente de alguns poetas transgressores, usem uma fachada “intelectualóide” para disfarçar uma inanição conteudística e uma “ruindade” de outro tipo. Evidentemente, esse tipo de literatura não passa de mais uma punheta estilística (mas cacofonias, por exemplo, podem acontecer em qualquer um dos dois).

Às vezes há também charlatanismo no conteúdo, em ambos os lados. No caso da herança contracultural, temos o caso da pregação de “liberdade total” ou de “falta de cultura” para combater a normose coletiva. Dois equívocos, evidentemente. E eu estou dizendo “equívoco” para não dizer “esperteza”, “malandragem”. Sem falar no mito do poeta “doidão” e autodestrutivo, quando a autodestruição é pregada como uma bandeira cultural-existencial (“viva intensamente e morra jovem”), ou como uma exigência para o postulante a poeta transgressor. Ninguém, de sã consciência, vai pregar a inanição cultural como uma tática para combater a normose cultural dos conservadores e reacionários, ou o suicídio branco como um arma contra o “Sistema”. Pelo contrário: quanto mais ampliada a consciência e a visão crítica, mais temos chance de combater o Estabelecido. O Raul Seixas cunhou uma frase infeliz: “falta de cultura pra cuspir na Estrutura” (um grave equívoco, obviamente).


As altas e as baixas literaturas. Os cânones.
O que existe, na realidade, é uma enorme relatividade perpassando tudo. Só os dicotômicos não vêem (os maniqueístas de ambas as partes). Não sou dos que acham que gôsto não se discute, mas vamos com calma nessa história de cristalizar julgamentos numa área onde a subjetividade e o egotismo imperam, na grande maioria dos casos, sem falar em interesses pessoais, políticos, econômicos, existenciais, étnicos, classistas, etc, etc, sub-repticiamente afastados do conteúdo em nome de uma pureza artística altamente suspeita.

Há cânones e cânones. E se eu acredito piamente que o meu é o melhor, ou o único, estou mal (espiritualmente). E se tento impor na coletividade a hegemonia absoluta desse cânone, obviamente estou preso a uma pulsão egótica e a um pendor compartimental muito fortes (ou uma obsessão por “obras primas”). Pouco importa qual o tipo de cânone ao qual me apego, uma vez que as proposições pós-modernas ou alternativas também podem tornar-se um novo cânone hegemônico (o risco existe). O caos cronológico, por exemplo, tornou-se quase uma moda após a modernidade. Quero dizer: o apego unilateral, de um tipo ou de outro, vai trazer limitações perceptivas, e estados mentais dicotômicos, dualistas.

Inclusive existem escritores que não conseguem escrever em estilo coloquial, e vice-versa, seja por autocensura ou por incapacidade mesmo (por vários motivos). Eu mesmo vacilei muito, antes de ter a coragem de escrever alternando o estilo coloquial e o estilo “clássico”, e esse problema tinha a ver com autocensura também, entre outras causas, como a superação de inseguranças ou da baixa auto-estima, internalizadas por séculos de bombardeios culturais limitativos ou inúmeros mecanismos de dominação e castração, muitas vezes acobertados por propostas literárias ardilosas (tradicionais ou pós-modernas). Não estou dizendo que a sistematização do conhecimento literário feita com terminologia acadêmica não tem a sua importância. Eu não disse isso. O problema acontece quando essa terminologia passa a ser a única, e todos os escritores que não a usam são desqualificados. Neste caso, estamos diante de uma evidente discriminação elitista, de um descarte da “concorrência”.
Monoglotas, autodidatas, populares.
Necessidade urgente: desmitificar e desmistificar o escritor enquanto criatura de “outro mundo”, aprioristicamente superior aos outros seres humanos, enclausurado numa torre de marfim ultra-intelectual, cujas atividades estariam definitivamente descartadas para o resto da população. A entrada em cena, a partir da década de 70, de escritores, principalmente poetas, que não são poliglotas nem doutores, nem críticos, certamente deixou de “orelhas em pé” aqueles que se enclausuraram em guetos acadêmicos, classistas, ideológicos, intelectualóides, ou elitistas de um modo geral. Mas essa experiência, essa de escritores monoglotas, autodidatas ou de origem popular, é uma experiência que está apenas começando. E não podemos prever em que direções ela irá desembocar. Sabemos apenas que é urgente e mais que necessário ampliar a abertura do mundo literário para uma maior diversificação de atores, seja na poesia ou na prosa. Os canônicos tradicionais, certamente, farão o possível e o impossível para que ninguém entre no “reino dos seus”. É conhecida e óbvia a ojeriza nutrida por esse pessoal contra a coloquialidade ou uma maior abertura para outras literaturas que não reproduzam a cartilha do seu cânone exclusivista (obcecado por “obras primas”).

Nunca aconselhei nenhum jovem a tornar-se autodidata. Mas alguns raros são vocacionados para o autodidatismo, e nesses casos o mais aconselhável seria ajudá-los a evoluírem no caminho de sua vocação autodidata, ao invés de insistirmos numa trajetória forçada através de algum tipo de educação formal. Mas há outros problemas para os “saudosistas” (por exemplo: a periferia falando por si mesma, digerindo suas próprias idéias e sua própria visão de mundo, por fora da intelectualidade pequeno-burguesa, que sempre monopolizou interpretações e cosmovisões, e acostumou-se a trazê-las “de cima” para “injetá-las” naqueles que ela sempre considerou como incapazes de terem suas próprias idéias, ou como possíveis prosélitos para idéias trazidas de “pára-quedas”).


Engajamento. Politização.
Velho grilo: o que é engajado ou politizado não tem valor literário, ou trata-se de uma literatura de quinta categoria. Depois dos horrores culturais do “zhdanovismo”, tudo o que exala o menor cheiro classista, ou anticapitalista, é imediatamente visto como caudatário da ortodoxia marxista, ou do cabresto de algum partido político, como se não fosse possível elaborar uma literatura que seja, ao mesmo tempo, politizada e bem escrita, engajada e literariamente válida (não-panfletária). Como se, necessariamente, obrigatoriamente, inevitavelmente, o que for politizado terá automaticamente seu valor literário reduzido. Certamente estamos necessitados de um novo engajamento, como auxiliar da luta contra as injustiças sociais, mas o tabu persiste, e até certo ponto justifica-se, uma vez que as experiências desse tipo foram, em sua maioria, “traumatizantes”. Mas o desafio está posto. Quem tentará? Quem conseguirá?

Muitos poetas e escritores contemporâneos fogem do “neo-engajamento” (e essa fuga aprofundou-se após a década de 90). A moda atual parece que é fugir do politizado para abordar, preferencialmente, o escatológico, o existencial, o sexual, etc. O quanto temos de escapismo, propriamente dito, nessa postura, não é quantificável, mas o fato é que nem todos fogem da tentativa de uma “politização” ou de uma postura anticapitalista (que não implique em uma queda da qualidade literária ou em panfletarismo). O exemplo da literatura marginal paulista é evidente. Lembro, entre outros, de nomes como Sérgio Vaz ou Ferréz, cujas literaturas não deixam de ter uma boa costura sintática. Argumentar que a poesia de um Sérgio Vaz é inferior, por conta do teor de crítica social em algumas passagens, obviamente seria uma argumentação frágil, limitada, capenga. Além do que, pra mim, às vezes acontece de que eu goste de uma poesia com um valor mais antropológico ou sociológico, e que não está inserida, obrigatoriamente, nas exigências estéticas do “cânone ocidental”.



Sinceramente, não vejo como qualificar de literatura inferior um romance como “A mãe”, de Gorki, ou o “Quarup” de Antônio Callado, ou a parte engajada da poesia de Maiakovski e Gullar, por exemplo. Tal qualificação, muito provavelmente, está embasada na excessiva importância dada à harmonia na sintaxe e à concatenação no ritmo, como se isso, em si mesmo, fosse o “supra-sumo do supra-sumo” quando o assunto é literatura. Ou então estamos diante de um caso em que a “melodia” sintática e a costura rítmica foram excessivamente valorizados para que essa ultravalorização fosse usada como desculpa para desviar, até onde seja possível, das relações de poder, dos mecanismos de dominação, dos modos de produzir, etc, etc. Quem quer escapar do enfrentamento com o Stablishment, tem o direito de escapar. Mas, por favor, tenha pelo menos a dignidade de não pactuar com os impedimentos e barreiras e tramóias que são usadas por aqueles que vampirizam o próximo e o meio ambiente. No caso daqueles que defendem uma arte “partidarizada”, ou próximo disso, principalmente setores da esquerda que não conseguem ver outra opção ideológica além do velho marxismo ortodoxo, os problemas são de outro tipo: relacionam-se mais com limitações perceptivas (em geral). Nesse caso, as dificuldades maiores apontam para questões como expansão da consciência, espiritualidade, autoconhecimento, administração do ego, cosmovisão, etc. Não há como esconder que a ortodoxia marxista está calcada, epistemologicamente, no positivismo ou algo semelhante. Constata-se, pois, uma enorme dificuldade da esquerda marxista para lidar com uma problemática epistemológica atualizada. Na questão ambiental é onde essa dificuldade evidencia-se de forma bastante clara. Não é possível lidar com a questão ambiental através da velha ferramenta positivista, pan-racional. E aí acontece o pior: a maioria dos ambientalistas e ecologistas bandeiam-se para a direita. Ou seja: a dicotomia continua. E eu digo o seguinte: se a minha literatura contribuir para problematizar essas questões e, ao mesmo tempo, consolidar um mínimo razoável de costura harmônica na sintaxe, eu não tenho porque me preocupar exageradamente com as exigências estéticas e formais do paradigma “tipográfico”, canônico, ou com o excessivo apego pós-moderno às variantes da anti-arte ou da anti-estética. Se a questão principal é, antes de mais nada, de forma excludente, uma questão prioritariamente de harmonia ou melodia, então eu vou pra música instrumental, e não pra literatura. Se é pra fazer da anti-transparência um dogma em poesia, ou submeter o sentido a um jogo de esconde-esconde, como se isso fosse o auge do efeito poético, então eu vou logo pra sociologia esquerdista mesmo (não-panfletária), ou pra filosofia crítica, embora não seja eu quem está pregando a diluição da literatura na vida. Se o meu cuscuz não interessa aos literatos do cânone ocidental, então a literatura deles também não tem interesse para a minha mesa. Se desprezo vem, desprezo vai (“lei” da ação e reação).

No caso da poesia marginal carioca, por exemplo, aconteceu algo “interessante”: a postura crítica foi direcionada para um viés quase que exclusivamente comportamental. O lado classista foi “secundarizado”, ou até mesmo descartado, em alguns casos. Ninguém está desconhecendo a importância da luta existencial contra a “normose” coletiva. Tem a sua importância, obviamente. Mas uma literatura que se pauta por um viés “exclusivamente” comportamental, é uma moeda sem um dos lados (crítica social), e vice-versa. Outra questão que tem a ver com politização é a da “educação cultural”. Virou moda falar em educação-e-cultura, como se fossem panacéias em si mesmas. Porém, a maioria dos que falam em educação não falam em distribuição de renda. Como melhorar a educação sem distribuir renda? Se não falam em “transformação” social, ao falarem em educação, estão com um cadáver na boca, estão fazendo “embromação” ideológica com fachada cultural. O máximo que se pode conseguir com uma postura apolítica é aumentar os esforços pessoais de professores para mudar o tipo de abordagem educacional. Mesmo assim, como é que ficam os salários e as condições de ensino para os trabalhadores da educação?


Psicotrópicos.
O uso de drogas também tornou-se um “dogma” no mundo artístico, quase uma “exigência” para quem quiser pertencer ao mundo das artes, principalmente no campo da cultura transgressora e “rebelde”. Foi na década de 60 que se iniciou o equívoco de que as drogas, por si mesmas, trariam criatividade e iluminação, ou que seriam uma arma privilegiada para a luta contra o Estabelecido, o Sistema, a Normose. Em alguns casos, pode ajudar, é verdade. E há também o lado da liberdade individual, do “direito” de usar quando alguém quiser usar. Mas as coisas não são simples assim, pois há muitos aspectos negativos misturados aos positivos. Por exemplo: vícios, desvios mentais (ou existenciais), doenças, etc. Certamente, o uso responsável poderia ser bastante útil para artistas e pensadores, embora os exemplos de descontrole sejam muitos no mundo artístico em geral (e alguns jovens desavisados sintam-se tentados a imitar “ídolos” autodestrutivos no estilo de vida, como se o desgoverno fosse, em si mesmo, uma exigência para quem se dispõe a lutar contra a “caretice”).

A luta pela legalização é importante, mas não deve ser vista como algo inquestionável, que não admite recuos táticos, se necessários, se a realidade apontar nessa direção. Enfim: o uso de psicoativos tanto pode ajudar como pode afundar. Há exemplos em ambos os lados. O LSD foi um excelente auxiliar cognitivo (ampliador da percepção) para o Aldous Huxley, por exemplo, que usou-o de forma responsável, mas são muitos os casos de excessos e desregramentos, com consequências graves (pinel, suicídio branco, “derrapagem”, etc).


Regionalismos e cosmopolitismos.
Tenho repetido à exaustão: o principal problema com a herança regional é a ausência de teor crítico nas letras, na mensagem, no conteúdo. Mas, quando eu faço essa “crítica” (que não é uma crítica, é apenas um alerta), eu não estou querendo desqualificar a cultura “popular”, nem muito menos dissolver identidade étnica. Pelo contrário: acredito que estou contribuindo com a luta para melhorar e aperfeiçoar a Cultura Popular, em geral, uma vez que, se acontecesse uma assimilação do viés crítico pela herança regional, teríamos então uma evolução, um avanço, uma melhora, um extraordinário aperfeiçoamento (acrescentamento), pois o campo regional já possui uma grande qualidade: uma imensurável riqueza de ritmos, de formas e de criatividade espontânea, “repentina”, mormente a herança nordestina. Qualidade esta que, diga-se de passagem, ainda não é suficientemente reconhecida, nem apoiada, em todo o país.

Mas, por outro lado, eu também tenho “necessidades” existenciais, culturais, espirituais, etc, que vou procurar saciar em searas cosmopolitas, se não as encontro no campo regionalista ou popular. Posso procurar em Ginsberg o que não encontro em Ariano. Assim como posso procurar em Cazuza o que não encontro em Gonzagão. E os riscos de xenofobia existem em ambos os lados: no norte e no sul (não é exclusividade de nenhum dos dois). Daí a necessidade urgente dos diálogos, intersecções, “interfaces”. O que já está acontecendo, por exemplo, entre o Hip Hop e a embolada nordestina (incluindo o repente), e já acontecia com o Mangue Beat (em relação à herança underground e contracultural). Imaginem o tamanho da riqueza cultural que pode brotar dessas “interpenetrações”.


Estudos Culturais versus Estudos Literários.
Na minha visão pessoal da questão literária, vejo dois eixos principais:

1) existencial – ideológico – cultural – espiritual – social – econômico;

2) estético – estilístico – formal – técnico – lingüístico – gramatical.

Com o passar do tempo, desde o início do Século Vinte, aprofundou-se o fosso entre os dois. O segundo tornou-se hegemônico nas academias, e o primeiro “migrou” para as “ruas”, para a cultura alternativa, a literatura “maldita”, o underground, etc. Um bom observador perceberá a disputa “feroz” que existe entre essas duas abordagens (não apenas na disputa de idéias, mas também na disputa por cargos, poderes, dinheiro). E a “guerra” agravou-se após o avanço dos Estudos Culturais em universidades do Primeiro Mundo, uma vez que esta abordagem (cultural) “secundariza” os estudos exclusivamente literários, e coloca a literatura (em si mesma) quase como um “epifenômeno” da realidade social, econômica, existencial, etc. A minha atual lucidez está dizendo que nenhum dos dois eixos é mais importante que o outro, e que a atitude mais frutífera seria um jogo dialético entre os dois, e não a supremacia de um sobre o outro, embora o meu coração, selvagem, simpatize mais com o primeiro. Neste caso, a literatura seria transformada numa espécie de “auxiliar” das Humanidades. No outro, ela se transforma numa variante de “arte pela arte”, fechada em si mesma, onde apenas aspectos formais e estéticos interessam para quem se envolve com a questão. Para superar essa “dicotomia”, portanto, seria necessário não priorizar nenhum dos dois eixos, mas fazer um “jogo dialético” entre os dois.


A poesia pela poesia.
Arte pela arte: até o Baudelaire caiu no canto dessa sereia, com aquela história de “poesia pura”. Mas a dificuldade para admitir que há vários tipos de poesia continua existindo. Ainda há quem diga que letra de música não é poesia, ou que determinados aspectos não-formais, porém relacionados ao fenômeno poético, não podem ser abordados num poema, mas apenas na prosa teorizante. Por exemplo: androginia e loucura. Recentemente, li um artigo de um desses superdoutores “uspianos” no qual ele alegava, arrogante, que esses assuntos não têm a ver com poesia. Ora, meus caros, sabemos que poesia e loucura andam de mãos dadas (sempre andaram), e que a relação entre arte e androginia é uma relação forte. Então como é que esses assuntos não têm nada a ver com poesia? É grande a tentação de apegar-se a uma literatura autofágica, que se relaciona apenas consigo mesma, desde o Formalismo Russo até os Estudos “exclusivamente” Literários (a literatura pela literatura), sem falar na tentação de abordar o fenômeno literário com ferramentas positivistas e “pan-racionais”. Não estou dizendo que a experimentação formal não é importante. Eu não disse isso. Mas a abordagem prioritariamente formalista é uma abordagem capenga, evidentemente.

Poesia não é apenas harmonia sintática, ritmo, concatenação, métrica, “melodia” na costura dos versos. Às vezes a poesia está mais no “clima” ou no tema (na maneira de abordá-lo), além de que há mesmo uma infinita variedade de tipos de poesia, sem falar nas interfaces com as outras artes e “tecnologias”. Às vezes o “sabor” de um poema está mais no clima geral e no conteúdo. Por que alguns superdoutores ainda torcem o nariz para o poema-piada ou para algumas variações do poema curto ou para a poesia prosaica? Certamente porque têm uma visão estreita do fenômeno literário. Mas o verso livre e a rima branca foram, finalmente, assimilados? E aqui é preciso alertar o seguinte: se há riscos no “belo pelo belo”, também há riscos no “feio pelo feio” (uma tendência mais contemporânea). Em ambos os casos, quando um deles é escolhido unilateralmente, instala-se um estado mental dicotômico, que pode trazer sérias limitações perceptivas e culturais (maniqueísmos e estreitezas).


Gêneros confessionais. Narrativa simples. Discursos.
Outro “tabu” estabelecido: a narrativa na terceira pessoa é superior à narrativa na primeira pessoa. Quem impôs isso? De onde se originou essa ilusão? Da aristocracia grega? E eu por acaso sou aristocrata grego? Sou mundiça nordestina, meus caros. Por que então eu deveria engolir esse dogmazinho? Vamos admitir, de uma vez por todas, que o que existe é uma enorme relatividade perpassando tudo. Vamos acabar com esse discursozinho estreito de que o gênero confessional é inferior ao gênero épico, ou que a narrativa simples é inferior ao estilo acadêmico, ou que o lirismo “limpo” é superior ao lirismo “sujo”, ou que a forma é mais importante que o conteúdo, etc. Nem sempre o mais importante é a “obra prima”. Às vezes é, e às vezes não é. Vida e arte alternam-se e misturam-se.

Eu mesmo, às vezes, prefiro o realismo sujo (os desvelamentos da realidade concreta), mesmo quando é escrito num estilo “torto” e em linguagem chula. Quem me garante que as literaturas assépticas, acríticas, doutorais, compartimentais, etc, não são usadas ardilosamente para afastar, do campo literário, “investigações” sobre aspectos fundamentais da vida e da existência? Por exemplo: relações de poder, mecanismos de dominação, consequências dos modos de produzir, estreitamento da consciência e da visão crítica. Atualmente, há um enorme interesse “popular” pelas autobiografias, documentários, memórias, diários, confissões, etc. A meu ver, os Poderes Estabelecidos sempre usaram diferentes ardis para dificultar o desvelamento e a emersão desses aspectos “vitais”, da realidade concreta (escondendo o quanto há de manipulação ideológica nesse esquema). Assim, pra eles, é extremamente perigoso que as pessoas comecem a procurar pelo realmente existente, pela verdadeira realidade, que eles sempre procuram esconder. E o que eles dizem? Que esse interesse é vulgar, inferior, superficial, condenável. Que a composição inventiva é sempre superior ao “mero” memorialismo. Conheço esse papo não sei de onde. Subcultura é a vovozinha. Tudo é relativo. Metafísica do belo? Superioridade científica? Intelectualidade imparcial? Ora, meu caro, sou malandro velho.


Espiritualidade, transcendência, ecologia. A herança alternativa.
O diálogo entre assalariados e alternativos nunca foi fácil. E continua difícil. À primeira vista, tudo parece lindo, acomodável, dialogável. Mas, quando vamos pra prática, na hora da onça beber água, na hora de dividir poder, dinheiro ou “fama” (brilho pessoal), é que vemos o quanto ainda é difícil essas “intersecções”. Tanto por conta da herança marxista ortodoxa, no caso dos assalariados, quanto por conta do apego a convicções alternativas unilaterais, no caso dos alternativos. Ou seja: continua bastante complicado amalgamar a luta espiritual com a luta política. Muito difícil. Mas é um processo. Certamente novas propostas de socialismo aparecerão, e os “espiritualistas” (no sentido geral) conseguirão se abrir mais para o diálogo com aqueles que priorizam o combate classista. Enfim: é preciso não jogar fora a criança junto com a água do banho, nos dois casos, ou seja: assimilar e costurar aspectos positivos de ambos os lados. Pois se há efeitos colaterais na militância política, também há efeitos colaterais na militância alternativa.

As dificuldades específicas para o lado “marxista” (classista, “positivista”) são: gerenciamento do ego, integração da Sombra (no sentido junguiano-transpessoal), ampliação da consciência (individual ou cósmica), modificações epistemológicas, auto-percepção, etc. Para o lado alternativo são: ausência de visão política (às vezes é escapismo), excesso de apego a um gueto cultural, misticismo superficial (“fosfórico”), demonização da “normalidade”, desvios existenciais, etc. Ninguém é santo, e tanto um marxista quanto um “hippie” podem ter os mesmos defeitos das pessoas comuns. É relativo.


Quixotes, semi-loucos, peters pans, trânsfugas, bichos-grilos, diferentes, estranhos.
Percebe-se, na coletividade, uma grande apreensão com os pendores quixotescos, autodestrutivos, enlouquecedores, “infantilóides”, etc, presentes no campo contracultural, marginal, transgressor, rebelde, “maldito”. Essa apreensão tem suas justificativas, pois o problema realmente existe. O que não se justifica é a rejeição completa em nome da “normose” coletiva. Até porque, nas novas gerações, esses problemas, parece-me, estão sendo atenuados. O momento mais forte aconteceu nas décadas de 60 a 80, quando a percepção desses riscos ainda era pequena. Mas, num primeiro momento, a resistência cultural contra o Mainstream, quase sempre, é exercida por pessoas com personalidades e temperamentos desviantes, não-normais, problemáticos ou até mesmo “perigosos” (em alguns casos). E não poderia ser de outra maneira, já que uma pessoa “normal”, adaptada, nunca enveredaria pela “loucura” de um pioneirismo desses (só mesmo um sonhador, um semi-louco, um quixote, teria predisposição e destemor bastantes para viver tamanhos riscos no enfrentamento com o “Stablishment”). Os jovens da novíssima geração parecem-me mais “equilibrados”. Terminam seus cursos superiores, arranjam seus empregos (ou alguma maneira de ganhar a vida), são mais adaptáveis, menos autodestrutivos, e sabem combinar disciplina com criatividade. Ou seja: num segundo momento, essas “bandeiras anti-Sistema” vão sendo assumidas por pessoas com uma relativa capacidade de autocontrole. E isso é bom, embora haja também uma tendência para a superficialidade na “Geração Twitter”. Mas, no geral, tudo isso quer dizer que a “resistência”, atualmente, pode ser feita por pessoas razoavelmente “normais”, assimiláveis pela coletividade. Ou seja: é preciso ter o cuidado e a lucidez para, na luta contra o Mainstream, não enveredar pelo maniqueísmo da demonização unilateral da “normalidade”. Inclusive o seguinte: se acontecesse uma hegemonia total da “anormalidade” no mundo das artes, isso não seria bom, pois estaríamos, também, diante de um domínio maniqueísta, ditatorial, exclusivista, limitador (em nome de outro extremo). O mais “saudável” e frutífero seria mesmo a convivência e o diálogo entre os diferentes tipos, o aperfeiçoamento da acomodação de diferenças. Até porque há riscos específicos em ambos os lados. Se há o risco de “caotizar”, num lado, há o risco de “engessar”, no outro.
Minorias.
A literatura de “minorias” também é um tabu para o cânone ocidental, que não admite a existência de diferentes tipos de literatura (em pé de igualdade), uma vez que admite apenas uma “literatura universal”, encarnada em determinadas “obras primas”, em escritores que também são críticos literários, no padrão grego, em referências endeusadas e cristalizadas pelos Departamentos de Letras, etc. Porém as minorias também correm o risco de se fecharem em guetos artísticos, ou compartimentos culturais, e terem a sua visão geral diminuída, ou caírem na diabolização da diferença. E esse raciocínio vale para os diferentes tipos de “minorias” (feminina, homossexual, étnica, “underground”, mística, maldita, etc). Há riscos específicos. Por exemplo: identificar-se com bandidos, por conta de uma realidade pessoal vivida à margem, devido a injunções sociais várias. Ou o descarte de qualquer diálogo com tipos que não se enquadram em determinado gueto ou compartimento social, comportamental, etc. Mas há também os que usam essas opções minoritárias como uma postura, uma pose, um marketing individual, um “charme” pessoal.

E aqui volta aquela questão da “oposição” entre forma e conteúdo, já que a principal acusação dos “canônicos” contra as “minorias” é a de que estes são extremamente frágeis justamente no estilo, na forma, na sintaxe, e que possuem apenas interesse antropológico, sociológico, filosófico, etc, e o valor propriamente literário dos mesmos seria baixo ou inexistente. A meu ver, isso é “pré-conceito” mesmo, discriminação cultural, descarte da concorrência. Qual é o problema em uma literatura que tem um valor mais conteudístico que formal? Cada um que escolha qual o livro que quer comprar. Os motivos, no frigir dos cocos, são mais subjetivos, pessoais, seja pelo estilo, seja pela mensagem, seja pelo que for. O resto é ego.


Veículos. Internet. Contemporaneidade.
A informática e a Internet trouxeram inúmeras facilidades para os escritores independentes (no sentido geral). Nos tempos do mimeógrafo, as dificuldades eram bem maiores. Até mesmo a publicação de um fanzine era um trabalho demorado. Hoje publica-se um blog rapidamente, e o escritor pode colocar uma quantidade enorme de textos num blog desses (e a sua visibilidade também aumenta). No caso de um livro, se o conteúdo já estiver pronto, improvisa-se uma capa e, se o autor assim quiser, disponibiliza imediatamente para o público. Conclusão: as coisas realmente ficaram mais fáceis para os escritores alternativos, independentes, marginais, etc, uma vez que o mais importante é que não haja cortes ou modificações no texto (o veículo, portanto, é secundário). Até mesmo o preço tem mais chances de ser reduzido quando se trata de uma publicação virtual. O livro de papel, inclusive, padece de uma série de problemas, que vão da “impossibilidade” de queda no preço até problemas mais graves relacionados à indústria de celulose e à cadeia produtiva e distribuidora.

Os contemporâneos estão “com a faca e o queijo”, portanto. A liberdade de expressão soma-se às facilidades trazidas pelo meio virtual, e os garotos estão “soltando o verbo” em todas as direções (quanto mais gente escrevendo, melhor: estão treinando “escrevinhadura” e procurando conhecer outros escritores). No conteúdo, na maioria dos casos, hoje há um predomínio do escatológico, do grotesco, do sexo, do conformismo, etc, em detrimento da postura crítica, classista, politizada. Mas há exceções, como já disse. Se o pessimismo conformista e o escapismo tornarem-se hegemônicos, restará apenas esperar pelo momento da extinção da espécie enquanto usufruem do “restinho” que sobrou? Ou os novos “yuppies” e a Geração Z estão alimentando a esperança de morar em Marte? Ou apenas restará o pós-morte para os que evoluírem exclusivamente no nível espiritual?

Obviamente, essa nova geração é diferente da minha. Nos meus áureos tempos de “marginal”, tentávamos amalgamar o lado existencial com o lado político. Mas hoje parece que os “contemporâneos”, a novíssima geração, na grande maioria dos casos, quer saber “apenas” do grotesco pelo grotesco, do sexo pelo sexo, ou da espiritualidade despolitizada (escapismo?). Mas fugir da busca espiritual para abraçar a luta política também é escapismo (de outro tipo).
Governos. Empresas.
Mais uma divergência com a esquerda ortodoxa e radicalóide: no caso específico do Brasil, a estratégia de transformação social mais adequada seria, com certeza, algum tipo de etapismo, e não a passagem por uma ditadura trotskista, ou algo parecido, com o intuito de instalar o socialismo a curto prazo, o que pode, na prática, tornar-se uma ilusão perigosa. Nesse novo etapismo, os recuos táticos e os acordos pontuais com as classes “dominantes”, em geral, não poderiam ser descartados a priori.

Na questão cultural, esses acordos pontuais, essas negociações circunstanciais, poderiam ser de diferentes tipos, visando somar com os esforços gerais para expandir a percepção e a visão crítica do público, uma missão para o médio e o longo prazos (consciências não podem ser ampliadas “da noite pro dia” ). No caso de uma publicação literária, o aspecto mais importante seria a ausência de cortes ou modificações no conteúdo, uma vez que a independência autoral acontece mais no texto do que no tipo de publicação ou de editora. Sendo assim, eu mesmo não veria maiores problemas em ser editado por qualquer espécie de editora, ou de participar de recitais ou gravações, desde que houvesse prévios acordos em relação à mensagem veiculada através da poesia ou da prosa.



LARA

escritor independente

Recife, julho-2010

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