Livraria besteseler centro comercial imaviz



Baixar 2.12 Mb.
Página1/36
Encontro08.05.2018
Tamanho2.12 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   36

A vida de salazar, primeiro volume

FRANCO NOGUEIRA


ATLâNTIDA EDITORA

COIMBRA


LIVRARIA BESTESELER

CENTRO COMERCIAL IMAVIZ

(Edifício AVIZ)

Av. Fontes Pereira de Melo, 35

Lojas: 21 e 22

Telef. 57 5 B 14

FRANCO NOGUEIRA
I

A mocidade e os princípios

(1889 1928)
Estudo Biográfico

DO AUTOR:


Jornal de Crítica Literária   1954

A Luta pelo Oriente   1957, 2.0 ed. 1962

As Nações Unidas e Portugal   1961, 2., ed. 1962

Política Externa Portuguesa   1964

Terceiro Mundo   196,7, 2.& ed. 1969

Debate Singular   1970

As Crises e os Homens   1971

O Vento e as Grades (poemas, fora do mercado)   1975


ÍNDICE
Volume I   A mocidade e os princípios (1889 1928)

vii Esclarecimento

1 Capítulo I SANTA COMBA E VISEU

61 Capítulo II COIMBRA

159 Capítulo III PROFESSOR

217 Capítulo IV DOUTRINADOR

293 Capítulo V O 28 DE MAIO

Esclarecimento


Muito mais além no tempo, para os vindouros, acaso não será empresa de monta uma biografia de Antônio de Oliveira Salazar.
Na época em que ouso fazê lo, suscita dificuldades. E são numerosos os motivos. Trata se de figura que, no ponto de vista humano e da história, se encontra ainda demasiado próxima.

São muitos os que exaltam Salazar, e muitos os que o apoucam: uns e outros não se libertam da visão apaixonada que em sentidos opostos deforma a mesma realidade. E estamos também perante um ser complexo. Para o interpretar com algum rigor, há que harmonizar contradições, resolver enigmas, sondar mistérios, transpor abismos psicológicos. Bem acima do comum, Salazar violentou as coordenadas habituais, rompeu os limites que cingem o homem médio:


e para que o entendamos há que procurar esclarecer quanto no

seu ser moral e mental nos aparece como incoercível, impenetrável, mesmo desumano. Para mais, viveu longamente, e com intensidade brutal, e atravessou durante a existência os mais graves e os mais enredados problemas dentro do país e fora deste.


Enquadrar nesses problemas e no seu tempo a figura de Salazar,

e avaliar a sua acção de protagonista ou comparte, constituem

por si tarefas sobejas. Em particular pela falta de estudos monográficos sobre os grandes capítulos: as finanças públicas, a reforma do Estado, a política externa, a defesa nacional, o ultramar, e muitos outros.

Na ausência destes estudos, maior é o embaraço

para um trabalho de conjunto. Por último, da quase inexaurível

documentação existente é muito escassa a que pode ser utilizada:


há documentos cujo acesso está compreensivelmente vedado; o

uso público de outros é prematuro, e poderia ser menos conveniente; e muitos, pela dispersão ou anonimato dos possuidores, escapam de momento ao exame e à crítica. Por isso poderá perguntar se, ante estes obstáculos insuperáveis, por que tento sem embargo uma biografia de Oliveira Salazar.


São os motivos muito simples: mas poderosos também. De episódios e passos da vida de Salazar não se encontram documentos, nem jamais serão achados: porque somente os podemos conhecer por testemunhos pessoais: e estes, se não recolhidos em tempo, desvanecem se para sempre. Desses testemunhos, responsáveis, idóneos e rigorosos, muitos pude conhecer: e constituem traves mestras para estabelecer factos e firmar conclusões. Em contrapartida, e não obstante melindres respeitáveis, foi me facultado o acesso a um acervo de documentos, de procedência vária, que revelam ou iluminam situações já remotas: seria imperdoável não os aproveitar.

E uma terceira razão se me impôs. Por acaso

ingrato, fui incumbido de responsabilidades duras ou envolvido

em lances dramáticos durante o consulado de Salazar; e daquelas

e destes ficaram me naturalmente centenas de documentos pessoais, relatos, manuscritos, mil testemunhos em suma. Seria ao menos pouco curial não os deixar registados ordenadamente.

E tudo isto procurei completar, e apurar, e afinar através de pesquisas exaustivas em cartórios, arquivos, bibliotecas, livrarias privadas. E além do mais, em qualquer caso, haverá de publicar se uma primeira biografia de Oliveira Salazar:


terá a obra o mérito de desbravar caminho a cronistas futuros: e esses outros, mais frios pela passagem do tempo, melhor documentados pela abertura de novas fontes, menos travados pelo melindre, poderão preencher lacunas, sanar omissões, aclarar o que é obscuro, decifrar problemas. Do título de pioneiro, numa palavra, se arroga este livro:
mas não invoca outro, nem o pretende. E não se afirma isto por

modéstia: apenas por consciência, seriedade, ou escrúpulo,

se se quiser.

Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, gerou se em

Portugal um clima de ódio contra a figura histórica e humana de

Oliveira Salazar. Não procuro negar a legitimidade dos motivos

de quantos nutrem aquele sentimento. Decerto terão para tanto

razões pessoais. É perfeitamente possível, aliás, formular reservas a muitos aspectos da obra de Salazar, e a traços da sua personalidade; e a quem possuir documentos que o permitam, e que eu desconheço, seria mesmo lícito condenar em bloco aquela obra e aquela personalidade. Mas o ódio é mau conselheiro, e a paixão política parece ser, dentre todas as paixões, a que mais cega os homens. No plano histórico, se são de arredar o favor e o encómio, também são de evitar tanto o ódio como a paixão. Impõe se ao cronista de factos passados toda a frieza, toda a isenção de ânimo, toda a objectividade de juízo: não pode ser o apóstolo da figura retratada, nem o seu detractor tão pouco. Em qualquer caso, a realidade histórica é esta: Oliveira Salazar governou Portugal durante quarenta anos. Esses quarenta anos não foram um

espaço em branco na história da Nação: mal ou bem, alguém os

preencheu. Afigura se que os portugueses têm o direito de saber

como viveu a sua pátria e o que nesta aconteceu ao longo daquele

período. Os portugueses de hoje e os de amanhei. Temos mais de



oitocentos anos de história, e estamos em república: julgo que seria

pelo menos absurdo, por muito republicanos que possamos ser,

negar que por setecentos e tantos anos Portugal foi governado

por Reis e que, entre estes, muitos foram grandes monarcas.

Há quem ainda hoje considere execrável a figura do Marquês de

Pombal? Com certeza. Será o facto motivo, no entanto, para que

se não escreva a história do consulado pombalino? É neste espírito, de absoluto desprendimento, de rigoroso exame das fontes, mesmo de gelado realismo, que concebi o relato do consulado de Oliveira Salazar.

Não é obra de vitupério, nem de apostolado: busco a

verdade, à luz de factos e documentos. Quem a quiser entender

diferentemente, que entenda: mas não está de boa fé.


Reparti a biografia de Salazar em três períodos.

No primeiro, de 1889 até 1928, incluí a infância, a adolescência, os seus tempos de Coimbra, de professor, até à tomada de posse, pela segunda vez, de Ministro das Finanças.

Abrange o segundo, de 1929 a 1945, todo o seu governo até ao fim da guerra mundial.
No último período, de 1946 até 1970, procuro descrever a sua derradeira época de governo e de vida.

Quanto se narra nos dois primeiros períodos assenta em documentos ou testemunhos irrefutáveis.


Porque já afastados na história, a sua invocação não acarreta

melindre de monta; e quando acaso este pudesse existir aproveitei a fonte para estabelecer o facto ou o episódio, embora constrangido a omitir a citação expressa. Pelo que toca à época final, pela proximidade dos sucessos, o problema poderá revestir se de alguma delicadeza: e por isso parece preferível recorrer pelo menos em parte ao relato pessoal, produto do meu próprio testemunho e participação em muitos acontecimentos.

E devo esclarecer que este meu testemunho não o fui buscar à memória, mais ou menos fiel, mais ou menos exacta: repousa em documentos, que possuo, ou nas notas minuciosas que sempre tomei das conversas com Salazar. Tudo o que nesse particular lhe atribuo, em discurso directo, é portanto estritamente histórico.

Todos os factos apontados, todas as situações descritas, todos os episódios narrados assentam em documentos e testemunhos irrefragáveis. Rigorosamente, haveria que citar para cada caso a fonte respectiva. Fazê lo, todavia, equivaleria a incluir copiosas notas de fim de página, numa profusão que fatigaria o leitor sem proveito. Julguei preferível, por esse motivo, cingir me a indicar em anexo as principais fontes a que pude ter acesso. Pelo que respeita a opiniões expressas e a interpretações dos factos, selo evidentemente da minha responsabilidade.

Dividi a obra em três volumes. Aparece agora o Volume I,

sob o título de A Mocidade e os Princípios (1889 1928).

Tenho adiantados os dois volumes subsequentes.

Conseguirei publicá los algum dia? Faço a pergunta porque ignoro que vicissitudes me aguardam, vítima como já fui de multas, por motivos certamente poderosos e lícitos mas de que não fui informado jamais por aqueles que mas infligiram.




Lisboa, 1973
Londres, 1976

xii
CAPÍTULO I


Santa Comba Dão e Viseu

Do Bairro Novo, junto à estação de Santa Comba

freguesia do Vimieiro, naqueles fins do século XIX, uma estrada

de terra batida, toda em curvas, pedregosa e de piso em covas.

No termo, solitários entre matas, estão o adro e a igreja de Santa Cruz, atarracada, modesta, sem estilo, e o cemitério, escondido por um muro alto. Antes de percorrida meia distância, pela direita há um casebre, baixo e sobre o comprido, que entesta na berma.
Tem de face uma portinhola e um janelo; depois, a parede recua,

para criar um espaço rectangular; ao fundo deste, três portas sem degraus dão acesso ao interior; entre as portas, dois bancos de pedra tosca; e a cobertura, de telha antiga portuguesa, prolonga se à frente até à estrada, para abranger o vão entre a parede recuada e a beira do caminho. Por detrás da casa, desce o terreno, e alarga se num plaino de latadas e milheirais até a um outeiro com arvoredo, que tapa o horizonte.

No casebre, pelo último quartel do século, habitam Antônio

de Oliveira e Maria do Resgate. Haviam casado em 1881: ele

já dobrara os quarenta anos, ela ia completar os trinta e seis.

(i) Bairro Novo se chamava, pois que surgira com a construção da Estação, e esta com a do caminho de ferro da Beira Alta, cuja inauguração oficial se poderá situar por 1882.


sobe da

Antônio de Oliveira era de boa estatura e ombros largos; tinha

cabeleira farta e espessa, testa rasgada, orelhas salientes, sobrancelhas horizontais e finas, rosto cheio, queixo anguloso e firme;

e o seu todo mostrava a rusticidade do homem apegado à terra,

que lida de sol a sol no manejo da esteva, ou a podar árvores

e a enxertar videiras.

Maria do Resgate era de maior apuro: cabelos apartados ao meio, sobrancelhas arqueadas e erguidas, órbitas

profundas, olhos num horizonte perdido, lábios muito delgados

que pareciam um golpe na face redonda: e do seu porte desprendia se garbo e raça patrícia. Para mais, e dentro das limitadas posses, recebera uma instrução e uma educação acima do seu meio.

Mas eram próximas as raízes de ambos: Antônio nascera no

Vimieiro, Maria do Resgate na vila de Santa Comba. O pai de

Antônio, Manuel de Oliveira, era de perto, do Rojão Grande, e a

mãe, Thereza Pais, vinha de gente mais ao sul, dos lados de Tábua;

o pai de Maria do Resgate, José de Lemos Salazar, era natural

de Santa Comba, e a mãe, Felicidade Ritta, também nascera nas

imediações; e, recuando mais no tempo, a origem dos outros ante 

passados espalhava se pela Beira, ao sul de Viseu, desde Carregal

do Sal a Tondela ('). Mas a modéstia do viver pesara sempre sobre

todos: era uma pobreza de gerações. Haviam sido pequenos negociantes, pequenos lavradores, caseiros ou feitores de casa alheia (2).

Era penosa a luta pela existência em Santa Comba e Vimieiro,

e mesmo para além das cercanias, à parte um caso ou outro de

desafogo, não era uma região meiga para os povos. De acesso

áspero, todo o vasto planalto irregular ficava encravado entre as

cordilheiras do Caramulo e da Estrela. Para os rurais, era quase

impossível levantar cabeça e romper a mediania de subsistência.

Na tradição dos seus, Antônio de Oliveira e Maria do Resgate

vinham de pobres, e eram pobres: e eram povo fincado na gleba.


(1) Por o considerar irrelevante para o presente estudo, não investiguei em profundidade a genealogia de Oliveira Salazar. Há sobre este ponto, aliás, vários elementos publicados, que traçam essa genealogia até ao séc. xvii; mas penso que devem ser encarados com alguma reserva, até investigação rigorosa.

(2) Exceptuar se á João de Lemos Salazar e Abreu que, segundo

elementos não verificados, terá sido um dos antepassados, e foi oficial

do exército, com patente de capitão, no primeiro quartel do séc. XVIII.


2
No casebre à beira da estrada era árduo o dia a dia. Maria

do Resgate era exemplar nas tarefas da casa, e ainda prestava

uma ajuda nos trabalhos de campo. Tinha a paixão da ordem

rigorosa, e tudo havia de estar escarolado e nítido; e nos gastos

era tão económica que conseguia poupar uma peça ou outra.

Antônio de Oliveira era homem sereno, de pés assentes na terra,

e na sua rusticidade tinha das pessoas e das coisas uma visão

limitada mas lúcida. Vivia para a leira de milho entre a casa e o

outeiro de arvoredo cerrado. E o casal possuía amigos, a quem

recorria nas emergências, e que lhe recompensavam pequenos ser 

viços. Era estimado pela família dos Pais de Sousa, proprietários,

de casa antiga no centro velho de Santa Comba, e cuja cabeça

era José Pais de Sousa. Antônio de Oliveira frequentava o boticário Pais, um íntimo, um consultor sobre pontos delicados; guardadas as distâncias, era amigo do dr. José Borges da Gama, médico


de muitos anos na região; e era assíduo à conversa na loja de

fazendas de Amparo Cruz, na vila, ao Largo do Balcão, onde se

discutiam os problemas locais e a política do reino. Bom amigo

entre todos era o Tio José Duarte, funcionário do município,

homem de luzes mais largas e de algumas letras, e influente pelo

cargo. Mas a confidência dos desabafos, das agruras, dos desejos

secretos para o futuro, era reservada ao cura Antônio Nunes de

Sousa. Muito crentes, muito cristãos, para Antônio de Oliveira

e Maria do Resgate o Padre Antônio era guardião moral e avisado conselheiro. Gente de mais consequência e destaque, toda 

via, eram os Perestrelos, com moradia antiga de família para os

lados do Vimieiro também, e senhores quase feudais de posses

e de terras, e além disso com situação na sociedade que contava,

desde Viseu a Coimbra. Como Perestrelos eram genericamente

conhecidos: mas por casamento estavam ligados a uma parentela

que ia dos Corte Reais aos Botelheiros. Formavam larga família,

que desde a freguesia de Papízios espalhara ramos por toda a

região. E nessa família encontrou Antônio de Oliveira um lugar

mais estável: contrataram no como feitor da casa. Era uma pro 

moção social, além de alguma melhoria de vida: com deferência,

passou a ser tratado, no Vimieiro e em Santa Comba e seu termo,

por Tio Antônio Feitor: e Maria do Resgate passou a Tia Mariquinhas.
3


Entretanto, por Fevereiro de 1882, nascia ao casal uma filha.

Baptizou a o Padre Antônio com o nome de Martha do Resgate

de Oliveira Salazar, e foram seus padrinhos os Perestrelos: o

Dr. António e D. Júlia Etelvina. Além de feitor, o Tio Antônio

de Oliveira era agora compadre também. E cerca de um ano

depois foi o novo vínculo confirmado com outros Perestrelos.

Em Abril de 1883 surgia uma segunda filha: Elisa. Desta

vez, para o baptismo, recorreu se ao Padre Albino Pinto: mas

Afonso Perestrelo e sua sobrinha Bertha foram os padrinhos. Com

estas duas filhas agravavam se as dificuldades para Antônio

de Oliveira e Maria do Resgate: havia que aumentar os ganhos,

poupar ainda mais, trabalhar mais duramente. Da terra avara,

mesmo a poder de esforço, não havia que esperar muito; e apenas

algum comércio ou negócio melhoraria a vida. Pela estrada transitavam almocreves e viandantes: por que não lhes forneceriam

vinho e refeições? Mas um ano passou, e depois outro, e em 1885

nascia mais uma filha. Tornou se ao Padre Antônio para o baptizado. Os padrinhos, todavia, foram se buscar à família Magalhães,

proprietários na freguesia da Póvoa, e em homenagem à madrinha

foi lhe dado o nome de Maria Leopoldina. E menos de um ano

mais tarde era a família aumentada de uma quarta filha: foi Laura.

Sempre fiel, Padre António baptizou a. E mais uma vez os Perestrelos, amigos, patrões e compadres, foram convidados para padrinhos: o Dr. António e sua filha Cacilda. Com esta descendência

cresciam os trabalhos de Maria do Resgate e as preocupações de

António de Oliveira. Felizmente, era rica a família dos Perestrelos,

e farta a casa, e certo e seguro o salário; mas as despesas aumentavam; e viriam em pouco os problemas da educação das quatro

raparigas, além do mais porque não existia no Vimieiro uma escola

primária. Neste particular, talvez o Tio José Duarte, da Câmara

de Santa Comba, pudesse dar uma ajuda: por entretenimento ou

modesta paga, com efeito, ensinava as primeiras letras a rapazes

e raparigas das freguesias: e até alguns filhos da família Pais de

Sousa aproveitavam das suas classes privadas. E a casa da beira

da estrada era agora também botequim e venda; e na parede exterior foram cravadas duas argolas de ferro para que os recoveiros,

enquanto bebiam e comiam, pudessem amarrar as suas bestas de

carga. Maria do Resgate ia nos quarenta e quatro anos, Antônio


4
de Oliveira passara os cinquenta. E em 28 de Abril de 1889, no

mesmo ano em que morria o rei D. Luís, pelas três da tarde

nascia lhes finalmente um rapaz. Com o nome de Antônio de

Oliveira Salazar, e aos dezasseis de Maio, foi baptizado pelo velho

Padre Antônio na Igreja de Santa Cruz do Vimieiro, lã no termo

da estrada, solitária entre matas, e atarracada, modesta e sem estilo.

Ainda mais uma vez foram solicitados os Perestrelos: apadrinharam o rapaz o Dr. Antônio Xavier Perestrelo Corte Real e sua

filha Maria de Pinna Perestrelo. Mas não compareceram na Igreja

de Santa Cruz: representaram nos, com procuração, Francisco

Alves da Silva, carpinteiro, e sua mulher Luísa da Piedade.

No assento do acto, o Padre Antônio colou e inutilizou um selo

de oitenta réis. E Antônio de Oliveira Feitor começou a dizer

a amigos e conhecidos que em sua casa recebia hóspedes e fornecia bons vinhos e petiscos. Na exiguidade dos quartos, os

melhores eram reservados àqueles, e pouco ficava para albergar

os sete membros da família: era dura a vida para todos.


2
Martha, a mais velha, ia nos seus oito anos: já se lhe definiam as feições: era o rosto da mãe. Pendiam as outras três

irmãs para os traços do pai. Do pequeno Antônio nada ainda se

podia dizer, à parte ser de constituição normal, embora delicada,

mesmo franzina; mas ia progredindo a contento. E de todos os

irmãos cuidava Martha. Maria do Resgate estava empenhada no

seu botequim, na preparação da comida para os seus fregueses;

e Antônio de Oliveira todo o dia mourejava pelas leiras e pelos

campos dos Perestrelos. Por detrás da casa, entretanto, batera

bem o chão, e fizera um terreiro sobre o comprido; e improvisara umas capoeiras, e mesmo um pequeno curral. Martha tomava

lições de primeiras letras com o Tio José Duarte; e no regresso

a casa ia brincar para o terreiro com as irmãs e o irmão Antônio,

por entre as galinhas e os patos. Eram folguedos e jogos de meninas: com louça de miniatura fingiam cozinhados para bonecas.
5
2 Salazar   I


O irmão António não tinha outros companheiros: e brincava com

as irmãs. E era pela mãe, mais do que pelo pai, que mostrava

maior apego.

3
Todas as irmãs tinham recebido, não obstante os sacrifícios,

a instrução própria das suas idades, e que o meio consentia.

Martha, a primogénita, passara os catorze: e Laura, a mais nova,

ia nos dez anos. Ao rapaz queriam os pais, sobretudo Maria do

Resgate, dar uma educação mais completa, mais apurada. Tinha se

desenvolvido, crescido, e prometia ser apessoado e de boa presença. Possuía as feições da mãe: os mesmos olhos, sobretudo

os mesmos lábios finos. Atingira os sete anos, era a altura de o

meter às primeiras letras. Mas o Vimieiro continuava sem escola.

Era o Tio José Duarte, mais uma vez, o único recurso. Antônio

começou a frequentar as suas classes particulares. Ia às aulas:

não mostrava interesse, no entanto, nem repugnância tão pouco.

Mas os seus horizontes alargaram se, conheceu outros rapazes.

Não dava a sua intimidade, todavia, nem acamaradava; e eram

muito poucos os que escolhia para companheiros. Gostava particularmente dos rapazes da família Pais de Sousa, o Abel, o Celestino, o Mário, filhos de José Pais de Sousa, agora chefe da estação

de Fornos de Algodres. Mas não tomava parte nas bulhas de

garotos, e quase sempre se recusava a jogos e brincadeiras, sobre 

tudo se estas fossem violentas e obrigassem a saltos e a correrias.

Era muito tataranho; não reagia aos desafios dos outros; e não

sabia defender se. O Tio José Duarte, porém, gostava do António,

e seguia com gosto os seus progressos de ano para ano: achava o

inteligente, rápido na apreensão de quanto lhe ensinava: e era

atento, sisudo, respeitoso, e mais velho do que os seus oito ou

nove anos. Para António, no entanto, o grande prazer era voltar

para casa, estar com a mãe, brincar com as irmãs. Iam para o

terreiro batido; faziam agora cozinhados a sério; os irmãos Pais

de Sousa participavam; e Antônio ajudava. Mas mesmo então as

irmãs, sobretudo a Martha, troçavam; diziam que ele era muito

medroso; e achavam no muito acanhadito. Antônio gostava de
6
árvores, e principalmente de flores. Mas a sua paixão eram os

pássaros. Tinha gaiolas, apanhava pintassilgos, cuidava os. Se lhe

fugia algum, possuía o um acesso de choro convulso; e não des 

cansava enquanto não o substituísse. Através de tudo, no entanto,

era nos pais que concentrava toda a sua afeição. Procurava ajudar

o pai em pequenos trabalhos na leira, ou nas latadas; e à noite,

quando Tio Antônio Feitor regressava exausto, auxiliava o a des 

calçar as botas pesadas. E com a mãe tinha extremos de carinho:

e, se Maria do Resgate estava doente, tratava a, estava atento às

horas dos medicamentos, por sua iniciativa se erguia da cama para

lhos dar, aliada que fosse pela madrugada.

Mas Antônio já aprendera tudo quanto era possível no

Vimieiro. Tio José Duarte, como mestre escola privado, não podia

emitir diplomas oficiais, nem mesmo apresentar os seus pupilos



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   36


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal