Livro: Mccayres Digitalização: Marina



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Livro: Mccayres

Digitalização: Marina

Revisão: Marisa




ISBN 978-85-7665-477-3

9788576654773

"Sheila". Copyright © 1962 Sony/ATV Music Publishing LLC. Todos os direitos administrados por Sony/ ATV Music Publishing LLC, 8 Music Square West, Nashville, TN 37203. Todos os direitos reservados. Reproduzido com permissão.

"Glory days", de Bruce Springsteen. Copyright © 1984 Bruce Springsteen (ASCAP). Reproduzido com permissão. Todos os direitos reservados.

"Magic Bus" reproduzida com a permissão de Pete Townshend.

Copyright © 2009 Michael J. Fox

Todos os direitos reservados

título original Always looking up : the adventures of an incurable optimist

preparação Adriane Gozzo

revisão Bel Ribeiro

DIAGRAMAÇÃO S4 Editorial



capa adaptada a partir do projeto gráfico original de Phil Rose

foto da capa Mark Seliger

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil)

Fox, Michael J.

Um otimista incorrigível / Michael J. Fox ; tradução Cassius Medauar.

- São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2009.

Título original: Always looking up: the adventures ofan incurable optimist. ISBN 978-85-7665-477-3

1. Atores - Canadá - Autobiografia 2. Atores - Estados Unidos -Autobiografia 3. Doença de Parkinson - Pacientes - Biografia 4. Fox, Michael J., 1961-1. Título.

09-09440 CDD-790,4302

Índice para catálogo sistemático 1. Estados Unidos: Atores: Autobiografia 790.4302

2009


Todos os direitos desta edição reservados à

Editora Planeta do Brasil Ltda.

Avenida Francisco Matarazzo, 1500 - 3a andar - conj. 32B

Edifício New York

Para Tracy, Sam, Aquinnah, Schuyler e Esmé.

E para Karen.

Com amor.

SUMÁRIO


INTRODUÇÃO

PARTE UM


TRABALHO

PARTE DOIS



POLITICA

PARTE TRÊS



PARTE QUATRO



FAMILIA

EPILOGO
AGRADECMENTOS

INTRODUÇÃO


Nas primeiras páginas de Lucky man*, descrevo uma manhã na Flórida há dezenove anos, quando acordei com uma bela ressaca e meu dedo mindinho tremendo. Nos anos seguintes, minha vida passou por grandes mudanças. Na maioria das manhãs, por exemplo acordo e meu dedo mindinho está totalmente imóvel; o problema é o restante do meu corpo, que treme de forma incontrolável. Tecnicamente; meu corpo só fica em paz

___


*Um homem de sorte, primeiro livro de Michael J. Fox no qual descreve sobre os estágios iniciais de sua doença, ainda inédito no Brasil (N.T.)
por completo quando minha mente está em repouso total - ou seja, dor­mindo. Atividade cerebral baixa significa menos neurônios queimando ou, no meu caso, pulando. Quando estou acordando, antes de a minha consciência acordar e saber o que está acontecendo, meu corpo já rece­beu insistentes instruções neurais para que se mova, se torça e contorça. E qualquer chance de voltar a dormir já era.

Nesta manhã, Tracy já se levantou, está preparando o café da manhã e aprontando as crianças para a escola. Tateio o criado-mudo à procura de um frasco de plástico, engulo dois comprimidos e sigo rapidamente para a primeira de uma série de atividades que, mesmo sendo automáticas, de­mandam grande determinação. Levanto as pernas e as levo até o lado da cama. No instante em que meus pés encostam no chão, os dois começam a lutar. A distonia, uma doença complementar ao Parkinson, faz meus pés doerem e se curvarem para dentro, pressionando meus tornozelos contra o chão e fazendo as solas dos meus pés se encontrarem, como se estivesse juntando as mãos em uma prece. Arrasto meu pé direito até a ponta do ta­pete e pego com os dedos meu mocassim de couro. Forço o pé para dentro dele e repito o processo com o esquerdo. Então, com cuidado, me levanto. Confortados pela firmeza do couro, meus pés começam a se comportar. Os espasmos pararam, mas as dores ainda vão durar uns vinte minutos.

Primeira parada: banheiro. Vou poupar você dos detalhes iniciais da minha visita. Digo apenas que, para quem tem Parkinson, é essencial dei­xar o assento da privada levantado. Pegar a pasta dental não é nada com­parado ao esforço feito para coordenar o trabalho das duas mãos, uma segurando a escova e a outra tentando colocar uma linha de pasta nas cerdas. Agora, minha mão direita já está levantada e fazendo movimentos circulares com meu punho, perfeito para o que farei em seguida. Minha mão esquerda guia a direita até a boca e, quando a parte de trás da escova toca a gengiva atrás do lábio superior, eu a solto. É como soltar o elástico de um estilingue e, comparando, é tão poderoso quanto a melhor escova elétrica que existe no mercado. Contudo, não há o botão "desligar". Então preciso parar meu braço direito com a mão esquerda, forçando-o para baixo até a pia e desarmando-o da escova, como se faz com alguém com uma faca em um filme. Em geral, consigo saber se estou em um bom dia para fazer a barba ou não, e, nesta manhã, como na maioria delas, decido que é cedo demais para arriscar uma carnificina. Resolvo passar apenas o barbeador elétrico rapidinho. E viva Miami Vice!

Um banco no chuveiro dá uma força aos meus pés, e a água batendo constantemente em minhas costas tem efeito terapêutico, mas, se ficar mui­to tempo sentado aqui, posso não me levantar mais. Vestir-me já é mais fácil, graças aos comprimidos, que começam a fazer efeito. Evito roupas com muitos botões ou cordões, porém sou viciado em Levi’s 501, o que me faz ser uma vítima da moda no estrito senso da palavra. Em vez de me pentear de verdade, ergo os dedos tremulantes até a cabeça, passo a mão no cabelo e torço para ter ficado bom. Viro-me devagar (minhas pernas ainda não ga­nharam confiança hoje) e sigo em frente para ver minha família.

Na saída do meu quarto para o corredor, há um grande espelho antigo com moldura de madeira. Não consigo evitar dar uma olhadela em mim mesmo enquanto passo por ele. Virando-me totalmente para o espelho, considero o que estou vendo. Essa versão refletida de mim, molhada, tremendo, enrugada, embaraçada e um pouco curvada seria alarmante, não fosse pela expressão de satisfação estampada em meu rosto. Eu me faria a pergunta óbvia, "do que você está rindo?", mas já sei a resposta: "a partir de agora o dia só melhora".

***


How to lese your brain without losingyour mind [Como perder seu cé­rebro sem perder sua mente] era o título original das memórias que es­crevi há oito anos. Na segunda ou terceira página do primeiro rascunho, referi-me a mim mesmo como sendo um "homem de sorte". Depois de algumas edições, eu sempre voltava a essas três palavras e, no fim, elas acabaram dando um jeito de chegar à capa do livro. Combinavam com a capa, e combinam até hoje.

Já o título deste novo livro* tem mais de um significado. Primeiro -vamos falar disso de uma vez -, é uma piada de baixinho. Tendo pouco menos de 1,65 metro, a maior parte da minha interação com o mundo e com as pessoas nele requereram que eu inclinasse um pouco a cabeça para trás e olhasse para cima. Mas isso não é um manifesto sobre as difi­culdades dos menos favorecidos em termos de altura. Sinceramente, mi­nha altura, ou a falta dela, nunca me incomodou muito. Apesar de que não há dúvidas de que contribuiu para o meu engrandecimento mental. Sempre saí na frente por ser subestimado, e me aproveitei disso. E este é mais o espírito do título: fazer alusão a uma perspectiva emocional, psicológica, intelectual e espiritual que me serviu durante a vida e tal­vez tenha me salvado ao me ajudar a viver a vida com Parkinson. Não que eu não sinta a grande dor da perda. Força física, espontaneidade, balanço, destreza manual, liberdade de fazer o trabalho que eu quiser, na hora em que e como quiser, e a confiança de que sempre estarei presente quando minha família precisar de mim - se todas essas coisas não se perderam por completo com o Parkinson, foram pelo menos comprometidas de maneira drástica.

Os últimos dez anos da minha vida, que são o grande assunto deste livro, começaram com uma grande perda: minha aposentadoria da série Spin City. Tive de me esforçar para me adaptar a uma nova dinâmica, à mudança das minhas personalidades pública e privada. Eu era Mike, o ator, e depois Mike, o ator com Parkinson. E agora seria apenas Mike com DP? A Doença de Parkinson tinha consumido minha carreira e, em certo sentido, se tornado minha carreira. Mas onde tudo isso me deixava? Tinha de construir uma nova vida quando ainda era muito feliz com a vida antiga. Fui abençoado com uma carreira de vinte e cinco anos em um trabalho que amava.

____


*O autor de refere ao titulo original, Alwais Looking up, “Sempre olhando pra cima”, que além de ser uma mensagem de otimismo, que no caso foi traduzida por Um otimista incorrigível, é uma bvrincadeira que se faz com as pessoas de baixa estatura

Tinha uma esposa brilhante, linda, engraçada, que me apoiava totalmente, e uma família em expansão de filhos irrepreen­síveis. Se eu tinha de abrir mão de parte disso tudo, como poderia me proteger para não perder tudo?

A resposta tinha muito pouco a ver com "proteção" e tudo com perspectiva. A única opção que eu não tinha era ter ou não ter Parkinson. Todo o restante eu podia resolver. Podia me concentrar na perda e inves­tir em quaisquer medidas reparadoras que meu ego conseguisse criar. E podia me apoiar na minha velha conhecida dos anos 1990, a negação. Ou então podia simplesmente seguir em frente com minha vida e ver se os buracos nela começariam a se preencher sozinhos. Nos últimos dez anos, isto aconteceu mesmo, e das maneiras mais incríveis.

O que você vai ler a seguir são as memórias desta última década. Mas, diferentemente de Lucky man, o livro é temático, e não cronológico. Trabalho, Política, Fé e Família. Esses são os pilares da minha existência. E a base da minha vida.

Juntos, formam uma proteção contra a destruição causada pela Doença de Parkinson. Minha identidade tem tudo a ver cora minha habilidade de me expressar, de mostrar minha criatividade e meu valor produtivo (trabalho), de defender meus direitos e os de qualquer comu­nidade da qual eu faça parte e, portanto, seja responsável (política), de ter liberdade de procurar um propósito espiritual (fé) e poder explorar os laços complexos que tenho com as pessoas que mais amo (família), sem os quais eu já teria sucumbido há tempos diante das forças do lado negro.

Mesmo não sendo uma narrativa estrita, este Livro descreve uma jor­nada de autoconhecimento e reinvenção. A história é um testamento das coisas que me trouxeram até aqui e que deram sentido a todas as áreas da minha vida.

Para tudo que a doença tomou de mim, algo de grande valor me

Foi dado — às vezes , foi apenas algo que me fez ir em uma nova direção que jamais teria trilhado em outra situação. Claro que tudo isso pode parecer um passo para a frente e dois para trás, mas depois de um tempo com Parkinson aprendi que o que importa é fazer com que aquele passo à frente valha a pena; sempre mirando as estrelas.


PARTE UM
TRABALHO



Into the great wide open*

Em vários sentidos, a vida diária é mais difícil agora que quando Lucky man foi publicado. Eu pensava que estava em mau estado em 2000, quando resolvi sair de Spin City. O peso de ter duas responsabilidades, produzir e atuar em uns cem episódios durante quatro anos, me deixou acabado. A ci­rurgia no cérebro feita dois anos antes reduziu os tremores que eu tinha no lado esquerdo, mas não resolveu nada no direito nem nas pernas. Os me­dicamentos travavam uma batalha diária contra um inimigo em mudança constante. As diferenças de quando estava com e sem remédio, a transição de um estado para outro, em condições ideais, são como uma conversa civilizada, mas isso se deteriorou em discussões beligerantes e conversas pa­ralelas. Em uma fútil tentativa de estar no modo "ligado" nos momentos--chave, ou seja, quando estava atuando, tentava fazer a parte da produção com o mínimo possível de levodopa (ou L-Dopa; a dopamina sintética que os pacientes de Parkinson usam para controlar os sintomas) no corpo, por­que assim, quando tivesse de atuar, poderia aumentar a dose e ficar parado diante das câmeras. Raramente, talvez nunca, acertei a conta. E errando a dose — principalmente ao tomar muita levodopa -, acabei tendo uma torrente de discinesias, movimentos involuntários anormais que afetam, acima de tudo, as extremidades, o tronco ou a mandíbula, como ondula­ções, tremores, balanços e pulinhos. A ironia disso ê que eu praticamente não percebia nada até assistir à filmagem na sala de edição.

_______

*”Dentro da Imensidão”, música famosa da banda de rock norte-americana Tom Petty and the Heartreakrs (N.T)



Tendo decidido na metade da quarta temporada que minha condi­ção física não me deixaria fazer uma quinta, comecei a pensar que talvez nem conseguisse fazer os treze episódios que ainda faltavam. Meu regi­me diário de medicamentos (que, por sinal, não tinham nenhum efeito psicotrópico, nada de barato) afetava meus padrões de voz e às vezes fazia com que eu falasse enrolado ou hesitasse antes de falar, uma droga quando se está tentando fazer algo engraçado. E em relação à comédia física, na verdade, eu só tentava evitar uma tragédia.

Mesmo todo mundo - elenco, equipe de produção e audiência -sabendo que eu tinha Parkinson, eu ainda estava tentando interpretar ura personagem que não tinha a doença. Qualquer que fosse a com­plexidade cômica ou dramática de uma cena, meu maior desafio era sempre atuar como se eu não tivesse Parkinson. E, mesmo tendo con­tinuado a usar os mesmos truques que me serviram tão bem durante anos - segurar algo para controlar o tremor das mãos, encostar em paredes, mesas e outros atores, girar em uma cadeira ou sentar atrás de uma mesa para esconder os movimentos incontroláveis das pernas e dos pés -, o avanço dos sintomas começou a me forçar a aumentar meu repertório. Descobri que, por curtos períodos de tempo, podia dirigir toda a ener­gia ondulante do corpo para uma extremidade particular - mão, perna ou pé. Então, ao organizar uma cena, eu me colocava (e o restante do elenco também) em uma posição que escondesse bem a parte do cor­po na qual estivesse confinada a energia do Parkinson. Como disse, é o mesmo tipo de coisa que fiz durante anos, e pensei que, se explicasse para as pessoas por que estava fazendo aquilo, todo o processo ficaria bem mais fácil.

Mas não ficou. A coisa continuou dura. As pessoas só passaram a ter uma idéia de por que era tão duro. Meu amigo Michael Boatman fazia o papel de Carter Heywood, um dos assistentes do prefeito. Ura dia, estáva­mos ensaiando uma cena na qual nós dois devíamos passar pela porta do escritório do prefeito . Um dia, estávamos ensaiando uma cena na qual nós dois simultaneamente e em direções opostas. Roteiros nas mãos, começamos a cena, mas, quando ambos chegamos na porta, em vez de passar por Michel, congelei exatamente na frente dele.

__ Você tem de se mexer - eu disse, mais por impulso que por querer dizer isto.

Michael é um dos caras mais legais do planeta, porém ficou confuso e perplexo com o que falei.

- O quê? - ele disse.

- Você tem de se mexer. Não posso me mexer até que você se mova. Ele acabou atendendo ao meu pedido e, depois do ensaio, tentei ex­plicar o que tinha acontecido.

As vezes, quando meu cérebro pede para o corpo fazer tarefas sim­ples que envolvem algum grau de julgamento referente a relações de es­paço, a mensagem acaba se perdendo no meio do caminho. É necessário algum estímulo externo, como o movimento de algum obstáculo ou, curiosamente, a introdução de um, para eu conseguir me mover para a frente. Alguns parkinsonianos que param repentinamente ao andar con­seguem continuar quando uma régua é colocada na frente dos pés deles e eles são forçados a pisar nela. Claro que Michael aceitou minha explica­ção e até riu comigo por causa da estranheza da situação.

Com o passar dos dias, das semanas, dos meses e dos anos, várias situações que necessitavam do mesmo tipo de explicação surgiram e se tornaram uma responsabilidade muito cansativa. As diferenças ao estilo o Médico e o Monstro entre os remédios estarem funcionando ou não confundiam as pessoas - e com razão. As pessoas à minha volta tinham dificuldade de entender e separar o enérgico e expressivo Mike Flaherty que viam diante das câmeras do confuso e mascarado Mike Fox que en­contravam quando tinham de resolver seus problemas por trás das câme­ras. Minha parceira na produção, Nelle Fortenberry, lembra de muitas ocasiões em que chefes de departamento ou outros membros do elenco ou da equipe entravam em seu escritório, fechavam a porta e implora­vam para que ela dissesse por que eu estava bravo com eles.

-O que o faz pensar que Le está bravo com você?

- Acabei de passar por ele no corredor e ele não sorriu, não acenou, e nem mesmo diminuiu o passo.

Nelle sempre repetia que um dos sintomas do Parkinson é a escassez de movimentos faciais - a máscara de Parkinson. Além disso, uma coi­sa simples como virar a cabeça e fazer um cumprimento é fisicamente impossível. Assim que começo a caminhar, a quantidade de energia re­querida para parar e depois começar de novo é dez vezes maior que para uma pessoa com o cérebro normal.

Longe do set de filmagens, Nelle é a pessoa com a qual eu mais in­teragia no dia a dia, com os produtores executivos Bill Lawrence e David Rosenthal e nosso diretor Andy CadifF. Era quando eu punha meu chapéu de produtor e discutíamos sobre orçamento, tramas futuras, ras­cunhos de roteiros, propostas de design para o cenário, questões de pós--produção, problemas com o elenco e a equipe e todas as minúcias que aparecem ao fazer um novo episódio da série a cada sete dias. Acredite se quiser, mas pode ser bem divertido. Todavia, também pode ser fatigante. Os problemas aparecem como pipoca; enquanto vamos resolvendo os que estão na tigela à nossa frente, parece que temos uma grande panela do lado de fora do escritório constantemente fazendo mais pipocas.

Às vezes eu ria quando Nelle explicava os desafios do dia. Eu a lem­brava de que, por maiores que fossem, não seriam meu maior desafio. E não era uma reclamação, mas apenas uma nova perspectiva adquirida por causa da minha condição.

Se pudesse voltar no tempo e falar comigo em 2000, em relação à batalha diária travada contra o Parkinson, eu diria:

- Você ainda não viu nada!

Na verdade, com a experiência que adquiri desde lá, agora sei que ficaria muito pior antes de ficar... bem, pior ainda. Mesmo assim, com o que aprendi em todo esse tempo sobre controlar o estresse por meio de programações criativas e a nova geração de remédios que está bem próxima, provavelmente teria conseguido fazer umas boas sete temporadas.

Não estou querendo dizer que era o que gostaria de ter feito. Minha deci­são de deixar Spin Ciy foi a coisa certa a fazer na hora certa.

Naquela época, tomar a decisão de como comprometer meu tempo e minha energia se transformou em como eu me sentia em oposição ao que pensava em relação às coisas. E com certeza a decisão de deixar a sé­rie, na primavera de 2000 (nos Estados Unidos), foi toda "sentimento".

A decisão ocorreu no final da tarde do último dia do ano de 1999. Estava com minha família mergulhando nas límpidas águas de St. John, nas Ilhas Virgens americanas. Visitávamos essa praia havia anos e nunca tínhamos visto uma tartaruga marinha. Quando por fim encontrei uma deslizando pela água dentro da barreira de corais, nadei lentamente por trás dela, mantendo uma distância respeitosa. Quando saí da água, chu­tei as nadadeiras para longe, andei até onde Tracy secava as crianças, peguei uma toalha e comuniquei que ia me aposentar da série. Talvez tenha sido por estar exausto até os ossos de lutar com os sintomas todos os dias apenas para fazer meu trabalho, ou talvez tenha sido somente a sublime indiferença daquela tartaruga, mas houve um clique em mim e, dependendo de como eu o aceitasse, uma luz estaria acendendo ou apagando em mim. Se a descuidada natureza do meu anúncio assustou Tracy, ela disfarçou bem. Era o momento de ela desabafar, se quisesse. Ela poderia ter rido como se fosse uma piada sem graça ou fingir que ig­norava o que disse, oferecendo-me tacitamente a chance de reconsiderar. Ou ainda poderia ter dito: "Você ficou louco?". Afinal, o que eu estava propondo de forma tão casual traria grandes mudanças em nossa vida e também na das crianças. E nem mencionei a tartaruga, com medo de ela achar que só a estava consultando para pedir uma segunda opinião. Todos os momentos difíceis do nosso casamento ocorreram quando um de nós - tá bom, eu - resolveu agir de maneira unilateral. Para encurtar a história, ela poderia ter tido várias reações diferentes. Mas o que Tracy fez foi me olhar nos olhos e dizer uma só palavra: "Certo", e me dar um abraço molhado e cheio de areia.

Nos últimos dias de férias não falamos sobre o assunto. Se eu estives­se esperando que ela me demovesse da idéia, isso não iria acontecer.

Mas a ruptura seria assim tão simples tão clara? Essa foi uma decisão de momento; com certeza foi uma das mais importantes da minha vida, e aconteceu abruptamente.

E, sim, seria, em certo sentido. Não duvidei nem uma vez, desde meu encontro com a tartaruga, de ter feito a escolha certa, da coisa certa a fazer na hora certa. Mas não foi fácil. Não foi difícil tomar essa deci­são, mas era uma decisão bem difícil de ser posta em prática. Como em qualquer grande mudança, ou quando escolhemos um novo caminho e esquecemos o antigo, vão haver conseqüências. Estávamos na noite do último dia do ano, próximos do Ano-Novo, perto de um novo milênio, e eu tinha decidido deixar para trás tudo que havia conquistado, buscado e acumulado ao longo dos últimos vinte anos. Eu sabia que não estava deixando apenas a série - estaria deixando de lado minha carreira de ator. Enquanto sempre tive dificuldade de me ver como um astro, orgulhava--me de ser um artista. Entendi que, embora sair oficialmente de Spin City não significasse abandonar minha carreira, não poderia abandonar esse compromisso, essa agenda e as condições de trabalho e esperar con­seguir outro papel principal na TV ou no cinema. Era o fim. Eu estava tirando o fio da tomada. Adeus. Até mais.

John Gielgud, reverenciado por décadas atuando nos palcos ingleses e famoso por ser o mordomo de Dudley Moore em Arthur, o Milionário, certa vez descreveu o trabalho de sua vida desta forma: "Atuar é meio vergonha, meio glória. Vergonha em exibir a si mesmo; glória quando consegue esquecer de si mesmo". Quando eu tinha 16 anos e estava em­barcando na carreira, podia fazer essa relação. Arrisquei-me em outras áreas, durante um tempo vislumbrei um futuro como escritor, ator de comerciais ou talvez músico, mas foi atuar que pareceu para mim a coisa mais natural do mundo. Em uma idade em que a maioria das pessoas impossível de ser amada, encontrei algo que me parecia fácil e natural fazer. Eu podia ser qualquer um, qualquer coisa, de qualquer tamanho ou forma, e me transportar para qualquer tempo ou lugar. E, se fizesse direito, ainda ha­veria o bônus de receber a aprovação das pessoas que eu seria pressiona­do a agradar se a situação fosse outra. Alguns papéis nas peças da escola, pequenos filmes locais e na TV me encorajaram a testar meu potencial, e logo fui percebendo que minha maior limitação era geográfica. Eu pre­cisava ir aonde o trabalho estava.

Ser ator deu-me uma vida além daquela que eu poderia imaginar - e olha que tenho uma imaginação fervilhante. Aos 18 anos, minhas aspira­ções me levaram a Los Angeles. Passei por audições humilhantes e sem sentido e por rejeições rotineiras, com recompensas ocasionais, como um pequeno papel na TV ou um comercial em rede nacional que paga­vam meu aluguel e mantinham meu espírito aceso. Então veio o sucesso e, com ele, uma nova confiança em minha vida artística e a coragem de tentar coisas novas - algumas com resultados positivos, outras nem tan­to, mas nunca com arrependimento.

Atuar era uma ocupação que exigia que eu fosse tanto observador quanto participante do mundo. Durante todos os anos de comédia, sem­pre me apoiei em uma habilidade intuitiva de achar graça em quase todos os tipos de situação. Sempre há um "lado engraçado”. A paleta do ator é a totalidade da experiência humana. Uma carreira tão longa e ocupada como a minha me permitiu ter empatia e uma conexão com as pessoas de forma que outras profissões não conseguiriam. E claro que tinha tam­bém os benefícios mais tangíveis, como viagens, boa situação financeira e boa vontade acima de qualquer merecimento. Talvez o maior presente de todos tenha vindo graças a uma escolha fortuita de elenco: conhecer Tracy nas gravações de Caras e Caretas.*



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*Family Ties, no original (N.T.)
Não fiz faculdade nem mesmo acabei o colegial. Ser ator era a única carreira que eu conhecia e, agora, graças ao conselho de uma tartaruga, estava pronto para abandonar tudo tão facilmente quanto secar a água das minhas costas queimadas de sol?

No fundo eu sabia que meu grande amor pelo trabalho - aquele ar­repio que passava pela minha espinha quando uma piada bem escrita era encenada certinha e aceita pela público - ainda estava lá. Um conforto conseguido a duras penas, desenvolvido após muitos anos de atuações. Não indolência, mas uma confiança racional de que, independente da emoção, da intenção ou da atitude que eu tivesse de tomar, essa flecha estaria na minha aljava quando eu a procurasse. Quando era um jovem ator, às vezes podia esconder minha insegurança em determinada cena usando um movimento ágil e puramente físico: Alex Keaton colocan­do as mãos nos bolsos e pulando para trás do balcão da cozinha; Marty McFly andando agachado, fazendo piruetas e deslizando bastante ao can­tar Johnny B. Goode; Brantley Foster fazendo a pose do Hulk no elevador, usando apenas samba-canção; ou mesmo Mike Flaherty tirando as calças em pleno ar enquanto girava por cima da cama e de sua namorada, que o esperava. Sempre pude contar com o físico. A triste ironia é que, quando senti que possuía o controle total das dimensões emocionais e intelec­tuais da minha identidade performática, não podia mais contar com meu corpo para apoiá-la. Não quero, como ator, fazer escolhas baseadas em incapacidades em vez de em habilidades.

Apesar de não poder afirmar que tenho memórias lúcidas daquela noite, tenho certeza de que passei o Ano-Novo de 1979, meu primeiro como jovem ator na Califórnia, bebendo até cair e fazendo promessas loucas sobre tudo que ia conseguir nas décadas seguintes. Agora, vinte anos depois, aproveitando um Ano-Novo calmo e sóbrio com minha fa­mília e refletindo a respeito de tudo que aquele jovem tinha conseguido realizar, preparava-me para entrar em um futuro incerto.

ESTÚDIO D, CHELSEA PIERS

17 DE MARÇO DE 2000
Para uma série de televisão, em especial as comédias, atingir cem episódios representa uma importante conquista. Tradicionalmente, a marca dos cem é o mínimo exigido para um programa obter sucesso com a venda dos di­reitos para emissoras independentes e para o exterior.* Ao entrar na nossa quarta temporada e tendo programados vinte e dois episódios para ela, esperávamos terminá-la chegando aos noventa e seis programas gravados.

Nosso acordo de venda de direitos já estava fechado, então não era crucial que fizéssemos mais quatro programas e chegássemos a cem. Mas, mesmo estando em paz com minha decisão de deixar o programa, fiquei obcecado em atingir aquele marco. E isso poderia significar adicio­nar mais um mês de produção, porém, não tínhamos nem tempo nem dinheiro. Então, em vez de facilitar as coisas e deixar o programa tran­qüilamente, criei um esquema logístico duro que às vezes fazia com que gravássemos um programa e meio por semana e que nos permitia bancar seis episódios em quatro semanas. O plano era fazer um final especial de uma hora, editado como dois episódios por causa da venda dos direitos. Ele foi filmado em duas semanas, a maior parte no estúdio e sem platéia, além de um dia filmando em Washington, D.C. Depois, esse material foi editado, organizado e exibido no nosso final de temporada, ao vivo de Nova York, com platéia e intercalado com cenas feitas na hora.

Tenho certeza de que foi um período difícil para o elenco e a equipe técnica, apesar de já sabermos no último mês e meio da temporada que minha saída não seria o fim de Spin City, mas apenas uma transição. O programa continuaria. Charlie Sheen tinha aceitado ser o novo assistente do prefeito, e a produção se mudaria para Los Angeles, onde Charlie e Gary Goldberg, o cocriador do programa, moravam. (Gary iria reassumir o cargo de produtor-executivo.)

___


*É o que os norte-americanos chamam de syndication. (N. T.)

Claro que essa seria a temporada final para a equipe de Nova York. Para o público, porém, não seria um adeus ao show, mas apenas para o personagem Mike Flaherty.

O episódio final foi complicado de ser criado e executado porque a trama era recheada de realidade. Mike Flaherty, por razões injustas, era forçado a deixar prematuramente o trabalho que amava. E posso dizer que todos os outros atores da série estavam tão preocupados comigo quanto seus personagens estavam com Mike. Era tudo um grande (e o mesmo) problema. E então era isso. Tinha mesmo acabado.

As perspectivas fictícias de Mike Flaherty eram melhores que as mi­nhas. Provavelmente ele trabalharia de novo. Mas eu trabalharia? Dificil­mente. Pelo menos não dessa forma, gravando semana sim, semana não, diante de uma platéia ao vivo.

Trabalhei com David Rosenthal, Bill Lawrence e o restante dos es­critores para garantir que Mike tivesse pelo menos uma cena substancial com cada um dos personagens fixos da série. Isto era para dar ao público a sensação de que todos os relacionamentos que ele tivera haviam sido bem resolvidos e também para que eu pudesse dividir o palco com cada um daqueles artistas talentosos, dos quais vim a gostar muito nos quatro anos em que trabalhamos juntos. A coisa toda foi carregada de emoção; a carga logística que havíamos criado só tinha agravado a exaustão, que era a razão inicial que me fizera sair do programa. Fora dos palcos, meus planos de deixar a série criaram uma onda de apoio e carinho compará­vel a dois anos antes, quando eu havia anunciado que tinha a Doença de Parkinson. Houve um enorme interesse da mídia nos meus últimos dias de mandato, com repórteres aparecendo no estúdio e acompanhando nossa preparação para meu último programa. Todos - elenco, equipe técnica, escritores e equipe de produção - estavam, ao mesmo tempo, dando o máximo e meio perdidos. Mas agarravam-se a algo que parecia estar fugindo de mim. Esse episódio final marcava um momento de virada na minha vida, um abalo tectônico. Eu olhei em volta, entendi o que havia sido colocado em movimento e o que aconteceria em seguida e disse:

- Puta merda! O que foi que eu fiz?

Eu tinha navegado em águas estreitas e rasas demais para poder vi­rar o barco. Não é como se estivesse totalmente por fora do que estava acontecendo; fui dominado pela emoção como todos os outros. E tam­bém me sentia culpado, sabendo que, ao escolher mudar a direção da mi­nha vida, havia tirado tantos outros de seus cursos naturais. Eu esperava que não fosse algo irreversível, mas com certeza havia sido inesperado. Ou talvez não tenha sido tão inesperado assim. Todos podiam ver minha batalha fatigante. E o último esforço para fechar tudo de maneira cor­reta, a pressão para atingirmos a marca dos cem episódios, o sacrifício físico de produzir e atuar simultaneamente apenas reforçaram que eu tinha tomado uma decisão sábia. Todavia, a necessidade de eu conseguir essas últimas risadas e desmaiar depois de cruzar a linha de chegada so­brepuseram-se a qualquer pensamento a respeito do que eu enfrentaria ao cruzar aquela linha invisível. Naquele momento, o que me manteve seguindo em frente foi a necessidade de parar.

Mesmo que eu não tenha aparecido dizendo "Puta merda!", disse por procuração. Para podermos fazer com que Mike Flaherty saísse do empre­go na Prefeitura (e eu saísse de Spin City), precisávamos criar o momento certo para ele, e essa saída honrosa me deu certa perspectiva.

O conceito era o seguinte: apesar de ser inocente e de não ter feito nada errado, o prefeito acaba envolvido em um escândalo e a prefeitura é ligada ao crime organizado. Não vendo outro jeito de tirar o chefe dessa enrascada, Mike decide assumir a culpa de tudo e resolve pedir demissão do cargo. Os colegas de trabalho ficam chocados e ele também, fica aba­lado, mas tem certeza de que esta é a coisa certa a fazer. Então ele começa a costurar as pontas soltas de um trabalho que o definia. Depois de seu último dia no emprego, já em casa e com a namorada e colega de trabalho Caitlin, Mike expressa sua ansiedade. Que diabos vai fazer agora?
CAITLIN ESTÁ COLOCANDO A COMIDA NA MESA - JANTAR PARA DOIS. MICHAEL ENTRA.

Caitlin


Oi.

Michael


Ei, você não apareceu no bar.

Caitlin


As coisas estavam meio confusas no escritório.

Michael


É, ouvi dizer que perderam um cara bem impor­tante hoje..

Caitlin


Ele era só um rostinho bonito.
Sempre senti que Heather Locklear é subestimada como atriz, provavel­mente porque é muito natural e faz tudo sem esforço diante das câmeras. E uma grande prova da sua habilidade ocorreu bem na minha frente, enquanto trabalhávamos juntos no tal último episódio. Caitlin podia ser uma rocha, mas Heather estava mal, chorando antes e depois de cada cena. Ela foi ótima naquela semana, como já havia sido durante toda a temporada. Afinal de contas, ela havia entrado para me ajudar quando o trabalho começou a ficar pesado demais, e fez um trabalho espetacular, assim como Carlin estava fazendo com o futuro ex-assessor do prefeito.

Mas a situação que fechava a semana era, na verdade, sobre mim e Tracy, um reconhecimento de quão me sinto fortalecido por ela acredi­tar em mim, na vida e na família que construímos juntos. Às vezes só tenho a coragem das convicções dela, do seu apoio incondicional e da sua segurança, quase como se eu devesse confiar sempre no meu cora­ção, na minha coragem e no amor dela. E, relembrando não apenas um momento da nossa história recente juntos, as palavras e as emoções evo­caram lembranças de outros tempos, quando eu oferecia minhas dúvidas e medos à minha esposa - a bebida, as crises da carreira, o Parkinson - e ela nunca me julgava, apenas os dividia comigo. Quando tudo parecia perdido, contava com Tracy para me ajudar a achar o caminho - ou, me­lhor que isso, ficar ao meu lado até que algo novo aparecesse. E às vezes isso demorava.


MICHAEL SENTA-SE À MESA. PELA PRIMEIRA VEZ EM MUITO TEMPO, ELE RESPIRA FUNDO.

Michael


Quer saber? Estou bem. Vou dar a volta por cima, não vou?
Caitlin

Claro que vai, Mike.

Michael

Não é o fim, né?



Caitlin

Ainda está muito longe do fim.

Michael

Mas é estranho. Desde que me lembro, sempre ti­nha algum lugar para ir todas as manhãs. 0 que vou fazer amanhã, quando o despertador começar a tocar?



Caitlin

Vou deixar o despertador desligado.


Na noite do programa, o lugar ficou lotado. A imprensa estava lá, e mui­ta gente do estúdio e da rede de TV também; minha família tinha vindo de Vancouver; todos os produtores e roteiristas que haviam trabalhado no programa nos últimos quatro anos apareceram para se despedir. E, mesmo tendo muitos convidados especiais, muitos ingressos foram re­servados para as pessoas comuns, aqueles leais espectadores que sempre vinham ver nosso programa desde que fora criado. E claro que Tracy passou a maior parte da noite nos bastidores, vendo o programa pelos monitores ao lado de Gary, os dois chorando enquanto assistiam ao epi­sódio e a esse capítulo de nossa vida chegarem ao final.

No fim da noite, corri para juntar o elenco para o cumprimento ao público que planejamos para ser incluído como parte do episódio. Eu usava a jaqueta esportiva favorita de Mike Flaherty, da Universidade de l;ordham, e abracei cada membro do elenco e acenei minha despedida. Ao fundo tocava Glory days, música que Bruce Springsteen gentilmente nos deu permissão para usar. Foi uma escolha sentimental, mas também era para ser irônica. O tempo passa e deixa você sem nada, cavalheiro; sobram apenas histórias chatas dos dias de glória. Claro que meus dias de glória ain­da não tinham acabado. Eu ainda teria muitas histórias para contar.

Depois do programa, reunimo-nos em um restaurante próximo que já tínhamos reservado para aquela noite. Dançamos e festejamos, rimos até a barriga doer e fizemos nossas despedidas. Naquela noite, quando Tracy e eu fomos para casa, deixei o despertador desligado.



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