Livros da ufu 2011 Memórias sentimentais de João Miramar



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Livros da UFU - 2011

1. Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade (1890/1954)
Em Memórias sentimentais de João Miramar (1924), Oswald de Andrade trabalhou a estrutura do romance memorialista de maneira revolucionária. Longe do encadeamento linear do Realismo e longe dos traços afetivos do Romantismo, as memórias do personagem narrador são feitas através de flashes, recortando a realidade psíquica e encadeando nexos elípticos e metonímicos como num filme ou numa sequência de fotos.

São 163 capítulos curtos, numerados, quase instantâneos, que misturam várias formas literárias, quebrando a sintaxe narrativa: poema, carta, bilhete, romance, diário de viagem, anotações, etc. O livro foi planejado e redigido em parte por volta de 1915 e reescrito várias vezes até atingir a forma sincopada e concisa da sua versão última versão, de 1924.

Apesar da ordem cronológica, os acontecimentos da vida de João Miramar são colados de maneira segmentada: as impressões da infância; a perda do pai; os colégios internos; o primo Pantico, filho da tia Gabriela; a adolescência preguiçosa; a viagem à Europa a bordo do navio Marta; a amizade com madame Rocambola e o namoro com a filha, chamada Rolah; o regresso ao Brasil, motivado pela morte da mãe e os acontecimentos da Primeira Guerra; o namoro e o casamento com a prima Célia; o nascimento da única filha, Celiazinha; um caso extraconjugal com Rolah, agora atriz; o investimento na indústria do cinema e a falência; o divórcio e a morte de Célia; a recuperação da custódia da filha e da estabilidade financeira; e, por fim, pai e filha em um apartamento no Largo do Arouche.

Vale destacar alguns amigos e conhecidos de Miramar: Machado Penumbra, intelectual e autor do prefácio do livro; o Dr. Pôncio Pilatos da Glória, sempre com “manias de orientalista”; o Dr. Mandarim Pedroso, presidente do “Recreio Pingue-Pongue, chiquíssima sociedade de moças que a sua personalidade centrava como um coreto"; o Dr. José Chelinini, casado com a tia Gabriela, sócio de Miramar na indústria cinematográfica; e outros, sempre com a intenção de fustigar as pseudo-culturas dos novos-ricos, o parnasianismo acadêmico e balofo, e todos os pequenos vícios e caprichos fúteis da burguesia - da qual o próprio Miramar se considerava ex-membro.

A memória é moldável e, dependendo do contexto no qual é exposta, é reduzida ou acrescentada de fatos e de perspectivas de interesse momentâneo. Por isso, quase sempre, legislados pelos códigos da sociedade, os relatos são parciais, relativos e egocêntricos expressando não o que houve de fato, em toda a plenitude do acontecimento, mas deixando transparecer vantagens e recalcando aquilo que é desagradável do ponto de vista pessoal.

Nas suas memórias, João Miramar busca fugir das castrações freudianas e, ironicamente, revela situações constrangedoras – que rompem com os padrões estabelecidos na época. Logo no início do livro, falando da infância, Miramar sobrepõe duas imagens incompatíveis - a reza tradicional católica e o desejo carnal imediato: “- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres , as mulheres não têm pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que pernas nas mulheres, amém.” Irreverente e irônico, evidenciando que não existem apenas fatos notáveis na memória, o livro mostra uma sociedade marcada por interesses monetaristas. A história é banal. Miramar não passa de um penumbrista, que vive à sombra dos acontecimentos cotidianos - e sempre preocupado com o dinheiro.

Diferente de Brás Cubas, nas quais as memórias estão em decomposição, apodrecendo, em proposição pós-temporal, as de João Miramar estão vivas, pulsando, e vociferando as hipocrisias e os preconceitos sociais, morais e religiosos. O estilo lacunar e digressivo de Machado de Assis abre espaço para reflexões e críticas, não somente à literatura e à sociedade, mas cinicamente ao próprio defunto-autor. Em Oswald de Andrade, a linguagem cinematográfica estabelece uma nova maneira de relatar a memória, dentro das novas luzes da psicanálise freudiana e do socialismo marxista.

Cabe ainda ressaltar, no que diz respeito às Memórias Sentimentais de João Miramar, o prefácio de Machado Penumbra é marcado pelo falso estilo pomposo e intelectual. (uma clara alusão a Machado de Assis que, além do próprio título, evoca as Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), conservando o substantivo e, embora mudando o adjetivo para “sentimentais”, mantendo a ironia presente em “póstumas”). Com isso, Oswald também critica a retórica vazia, beletrista, e desnecessária; rejeita os estilos artísticos precedentes, principalmente o Parnasianismo; critica toda uma classe ociosa (da qual fazia parte), ou seja, critica ironicamente seu próprio passado: trata-se de uma autocrítica, inclusive. Entretanto, para além da superfície, em que se propõe a ridicularizar um mundo que desmorona, O. de A. era um artista consciente da sua importância.

No capítulo final, "Entrevista entrevista", retomando o tom de deboche do texto "assinado" por Machado Penumbra, "À guisa de prefácio", João Miramar é questionado a respeito de prosseguir com suas "interessantíssimas memórias". O protagonista alega "razões de estado" e sua viuvez, e é contestado pelo interlocutor. "A crítica vai acusá-lo e a posteridade clamar porque não continuou tão rico monumento da língua e da vida brasílicas no começo esportivo do século 20". Ao que Miramar responde, com imensa ironia, que o livro já havia sido submetido ao "sábio" dr. Pilatos, registrando semelhança com o poeta latino Virgílio, "apenas um pouco mais nervoso no estilo.” Concluindo sua apreciação crítica, Machado Penumbra destaca: "Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que nos apresenta pela primeira vez o estilo telegráfico e a metáfora lancinante."

Obra-prima da paródia, Memórias Sentimentais de João Miramar, segundo o professor Antonio Candido, "soube ser um dos maiores livros de nossa literatura, é uma tentativa seriíssima de estilo e narrativa (...) Miramar é um humorista pince sans rire (= árido, caústico ou irônico) que procura kodakar a vida imperturbavelmente, por meio de uma linguagem sintética e fulgurante, cheia de soldas arrojadas, de uma concisão lapidar".

Mais em:

http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo22/Oswald_de_Andrade_Memorias_Sentimentais_Joao_Miramar.htm
2. Prosas seguidas de Odes mínimas (1992), de José Paulo Paes (1926/1998)
José Paulo Paes foi reconhecidamente um homem de letras completo. Era tradutor, crítico e ensaísta. Autodidata, era um estudioso de línguas e como poeta se distinguiu por ser um viajante, observador de estados e coisas, sobretudo de espaços literários, em que percorreu como admirador e leitor assíduo de todos os gêneros literários.

Para englobar todas estas características, Paes definiu-se através do epigrama (poema curto, com transposição satírica), para condensar toda sua vivência de maneira ampla e concisa.


Retomou em sua obra a poesia epigramática originária da Antiguidade, como em Roma, caracterizada pela ironia. Há um grande destaque para a sátira da vida pública, constante em quase todos os seus livros aqui apresentados. Seus versos breves, sintéticos e concretos, tratam, na velocidade dos tempos atuais, do registro de uma poesia pesquisada através da análise histórica e se faz condensação de suas reflexões a respeito do mundo. O minimalismo expresso em seus poemetos traz, de forma autêntica e inconfundível, uma sátira dos costumes, acontecimentos e traços históricos da vida urbana.

Prosas seguidas de odes mínimas é um livro que traz diversos poemas que representam sua melhor performance. Contendo o maior número de poemas selecionados nesta coletânea, o livro é uma mistura de temas que vão do lirismo à crítica política e fazem com que o leitor tenha uma ideia geral da obra. Por esses motivos é um dos livros mais completos. O autor repassa por toda sua trajetória e é como se tivesse a preocupação de lapidar novamente toda sua forma e estilo.

Em “Escolha de túmulo”, coloca o pós-morte como uma nova vida, um novo vôo. Faz mais uma nova leitura em “Canção de exílio” do poema de Gonçalves Dias. Existe a presença da figura de seu pai no poema “Um retrato”, uma homenagem que também contém a morte como tema de reflexão. Esse mesmo tema encontra-se embutido no poema “Reencontro”, onde o autor se encontra em sonho com o escritor Osman Lins. O crédito de maior destaque pode ser dado ao poema: “À minha perna esquerda”. Trata-se de uma sequência de poemetos de características epigramáticas, num total de sete, onde conta sobre si mesmo de maneira tétrica e sarcástica sobre a perda de sua perna esquerda. É forte a intenção interpretativa que se embute no inevitável sacrifício. Nos poemas finais, tece uma quase crônica dos detalhes, sintetiza no cotidiano de objetos e lugares sua poética de forma condensada e rebuscada para dentro de si mesmo.

Contém a coletânea: “Escolha de túmulo”, “Noturno”, “Canção de exílio”, “Um retrato”, “Outro retrato”, “A casa”, “Iniciação”, “Nana para Glaura”, “Balancete”, “Reencontro”, “Balada do Belas-Artes”, “À minha perna esquerda”, “À bengala”, “Aos óculos”, “À tinta de escrever”, “Ao shopping center”, “Ao espelho”, “Ao alfinete” e “A um recém-nascido”.
“Escolha de túmulo”
Onde os cavalos do sono
batem cascos matinais.
Onde o lúcido menino
propõe uma nova infância.
Ali repousa o poeta.
Ali um vôo termina,
outro vôo se inicia.

“Reencontro”


Ontem, treze anos depois da sua morte, voltei a me encontrar com Osman Lins.
O encontro foi no porão de um antigo convento, sob
cujo teto baixo ele encenava a primeira peça do seu Teatro do Infinito.
A peça, Vitória da dignidade sobre a violência, não tinha
palavras: ele já não precisava delas.
Tampouco disse coisa alguma quando o fui cumprimentar. Mas o seu sorriso era tão luminoso que eu acordei.
Mais em:

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/p/prosas_seguidas_de_odes_minimas

http://www.vestibular1.com.br/resumos_livros/prosas_seguidas_de_odes_minimas.htm
3. Ensaio sobre a cegueira (1995),

de José Saramago (1922 / 2010)
"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

Ensaio sobre a Cegueira é um texto literário que narra a história de uma pandemia inédita – a cegueira branca – através de um dos muitos grupos de pessoas que por ela são contagiados. Quando a doença se manifesta num homem e se propaga a todas as pessoas com quem constatou num curto espaço de tempo, o Governo decide isolar os pacientes num manicômio fora de uso, mas cedo se verifica que o poder de contágio supera todas as medidas preventivas que possam tomar. É através dos olhos da única pessoa imune à cegueira, a mulher de um oftalmologista, que vemos o cenário de degradação, tanto física como psicológica, em que a história dos habitantes do hospital se desenrola. Dentro do manicômio, a comida rareia, graças a um abastecimento deficiente efetuado por soldados aterrorizados e à crescente sobrelotação do local. O asseio torna-se impossível, e das condições precárias de vida emergem atitudes de grande violência e egoísmo. Quando a cegueira atinge proporções gigantescas no mundo exterior ao manicômio, a mulher do oftalmologista conduz o seu pequeno grupo de cegos para fora do hospital, através de uma cidade que desconhecem, povoada de imundície e de um salve-se-quem-puder global, em busca de mantimentos que parecem ter desaparecido com a visão. Depois de passar pelas casas dos companheiros em busca de familiares sobreviventes à cegueira, a mulher do oftalmologista leva o grupo para a sua casa, onde passam os dias e as noites acalentando a esperança de uma cura que lhes parece cada vez mais distante. É numa dessas noites que o primeiro cego lança um grito de alegria e anuncia aos seus companheiros que recuperou a visão. Um a um, e pela mesma ordem em que foram contagiados, os cegos voltam a ver.

Pode-se afirmar que a obra é difícil de ser lida não apenas pelo seu contexto filosófico, mas pelo estilo de José Saramago: as falas entre vírgulas forçam o leitor a um verdadeiro mergulho em suas ideias, pois é impossível parar em meio às ideias do autor. A desconstrução do tempo linear em suas idas e vindas nas memórias das personagens, as características únicas, a mesquinhez presente evocam a reflexão sobre os valores que cada um de nós tem da vida, da moral, dos costumes e até mesmo do que nos é caro: onde está a mãe do menino estrábico? Cegou, morreu? A rapariga de óculos que, em princípio, parece não ter valores, mostra-se filha amorosa, amiga e uma mulher capaz de amar, não pela beleza física, mas pela ternura que as situações a levam.

As personagens não caracterizadas por seus nomes, mas por particularidades. Podemos destacar como personagens principais os ocupantes do dormitório coletivo onde estavam o médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga de óculos e o velho com a venda num dos olhos. Como personagens secundários ou coadjuvantes, os cegos que promovem o levante para a redistribuição da comida, aqueles que encontram-se na camarata do cego que tem uma arma, o cego que escreve em braile, a mulher que estava com o cego que tem a arma no momento em que este é assassinado pela mulher do médico, o ladrão, os soldados, entre tantos outros.

Mais em:


http://www.coladaweb.com/resumos/ensaio-sobre-a-cegueira-jose-saramago


4. Sagarana (1946), de J. G. Rosa (1908/1967)
O Burrinho Pedrês”

"E, ao meu macho rosado,



carregado de algodão,

preguntei: p'ra donde ia?

P'ra rodar no mutirão."

(velha cantiga, solene, da roça.)

Na Fazenda da Tampa, do Major Saulo, os homens estão ultimando os últimos preparativos para sair pelo sertão, tocando uma boiada de bois de corte. O dia é de chuva, mas ela ainda não veio. Major Saulo ordena que os homens preparem os animais. Por zebra, o burrinho Sete-de-Ouros, presente ali na varanda da casa grande, também é escolhido para a viagem. Para montá-lo, o Major escolheu o vaqueiro João Manico. Raymundão conta a história do touro Calundu. Não batia em gente a pé, mas gostava de correr atrás de cavaleiro. Certa vez, na proteção de um grupo de vacas com seus bezerros novinhos, Calundu enfrentou uma onça preta, amedrontando a fera e pondo-a para correr. Certa feita, o touro Calundu matou Vadico, filho do fazendeiro Neco Borges. O pai, vendo filho ensanguentado no chão, puxou o revólver para matar o touro. Vadico, antes de morrer, pediu que o pai não matasse Calundu. Neco Borges mandou o touro para outra fazenda para ser vendido ou dado a alguém. Raymundão foi quem levou o bicho. O zebu ficou uma noite apenas no curral. No outro dia, estava morto.

Depois da chuva grossa, a boiada chegou ao córrego da Fome. Estava cheio. A travessia era perigosa, e o Major Saulo pediu cautela. Ali já morrera muita gente. Mas a travessia é feita sem perda. Até o Sete-de-Ouros atravessou sem reclamar.

Em determinado ponto do caminho, Major Saulo ordenou que Francolim trocasse de montaria com João Manico. A ordem foi obedecida. Francolim fez um pedido ao Major: que, na entrada do povoado, a troca fosse desfeita. Não ficava bem para ele, encarregado do Major, ser visto montado no burrinho Sete-de-Ouros. Badu está na fazenda há apenas dois meses e já tomou a namorada do Silvino. Por isso, os dois viraram inimigos, um querendo prejudicar o outro. Francolim já avisou o major sobre o perigo de um matar o outro. Raymundão acha que o caso não é para morte. A moça é meio caolha. O casamento com Badu já está marcado. Raymundão, em prosa com o Major, informou que Silvino vendeu umas quatro cabeças de gado por preço abaixo do normal. Outra informação que veio do Francolim: Silvino está com bagagem além do normal. O Major Saulo, antes da chegada ao povoado, determinou que Francolim, na volta, vigie Silvino o tempo todo. O Major está convencido de que Silvino já planejou a morte de Badu.

A chegada ao povoado foi uma festa. O povo, mesmo com a meia-chuva, foi para o curral da estrada de ferro ver o embarque. Depois, os animais ficaram descansando enquanto os vaqueiros andavam um pouco pelo povoado.

Na hora de ir embora, cada um pegou a sua montaria. Badu ficou por último: estava bêbado e tinha ido comprar um presente para sua morena. Por maldade, deixaram-lhe o burrinho Sete-de-Ouros. Na saída do povoado, alguém vaiou: Badu era por demais grande para o burrinho pedrês, os pés iam quase arrastando no chão. Já no fim do lugar, Francolim estava parado no meio da estrada, esperando Badu. Francolim deixou Badu para trás e foi juntar-se ao grupo. Queria mesmo era ficar de olho em Silvino. Os dois, Silvino e o irmão Tote, iam bem na frente dos dois. Tote tentava dissuadir o mano para não matar Badu. Mas Silvino estava determinado. Esperava apenas o momento certo para fazer o serviço e cair no mundo. João Manico, por insistência de todos, contou mais uma vez a história da boiada que estourou à noite, quando o Major Saulo, ainda novo, era tratado por Saulinho. No estouro, de madrugada, o gado passou por cima dos dois vaqueiros que estavam de vigia. Deles, só restou uma lama cor de sangue.

Viajavam à noite. De repente, os cavalos empacaram, pressentindo o mar de água. O Córrego da Fome transbordara, inundando tudo bem alem das margens. Todos aprovaram a ideia de esperar Badu e o burrinho Setede-Ouros. Se o burro entrasse na água, todos o seguiriam. É que burro não entra em lugar de onde não pode sair.

O burrinho entrou levando Badu às costas. Os cavalos seguiram-no. E foi uma tragédia: oito vaqueiros mortos naquela noite. Benevides, Silvino, Leofredo, Raymundão, Sinoca, Zé Grande, Tote e Sebastião. O burrinho Sete-de-Ouros, com Badu agarrado às crinas e Francolim agarrado à cauda, conseguiu atravessar o mar de águas em que se transformara o pequeno córrego. Já em terra firme, livrou-se de Francolim e seguiu ligeiro para a fazenda. Ali, livraram-no do vaqueiro, que dormia, e dos arreios.

Sete-de-Ouros - animal miúdo e resignado, idoso, muito idoso, beiço inferior caído. Outros nomes que tivera ao longo de anos e amos: Brinquinho, Rolete e Capricho.

Major Saulo - corpulento, quase obeso, olhos verdes. Só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo. Estava sempre rindo: riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; riso mudo, de normal. Não sabia ler nem escrever, mas cada ano ia ganhando mais dinheiro, comprando mais gado e terras.

João Manico - vaqueiro pequeno que montou o burrinho Sete-de-Ouros na ida. Na volta, trocou de montaria. Na hora de entrar na água, refugou, alegando resfriado, e escapou da morte.

Francolim - espécie de secretário do Major Saulo, encarregado de pôr ordem nos vaqueiros. Obedece cegamente às ordens do Major. Foi salvo, na noite da enchente, pelo burrinho Sete-de-Ouros.

Raymundão - vaqueiro de confiança do Major Saulo. Enquanto tocam a boiada, vai contando a história do zebu Calundu.

Zé Grande - vai à frente da boiada, tocando o berrante.

Silvino - vaqueiro; perdeu a namorada para Badu e planejava matar o rival na volta, depois de deixarem a boiada no arraial.


Sarapalha”

"Canta, canta, canarinho, ai, ai, ai ...



Não cantes fora de hora, ai, ai, ai ...

A barra do dia aí vem, ai, ai, ai ...

Coitado de quem namora!..."

(o trecho mais alegre, da cantiga

mais alegre, de um capiau beira-rio.)
Há uma narrativa principal, que é bem simples: a sezão (febre/malária) avança por um povoado às margens do Rio Pará. As pessoas abandonam o povoado deixando tudo para trás, as que não se vão morrem. Na beira do rio Pará, a malária expulsou a gente de um povoado inteiro. Deixaram para trás "casas, sobradinho, capela, três vendinhas, o chalé e o cemitério". Morador, agora, só andando três quilômetros para cima. Moram ali, na fazenda abandonada, três pessoas: Primo Ribeiro, Primo Argemiro e uma preta velha que cozinha o feijão de todos os dias. Os homens não podem mais trabalhar, a malária não deixa.

Em certo dia, ainda pela manhã, Primo Ribeiro começou a falar de morte. Achava que o seu dia havia chegado. Por isso, puxou a conversa que se referia a uma mulher. Se ela aparecesse, até a febre sumia. Ribeiro confessa que tem Argemiro na conta de irmão. Por isso, tem coragem de remexer o passado. Estava casado com ele há apenas três anos, e a ingrata fugiu com outro. Argemiro quis ir atrás dos dois. Queria matar o homem e trazer a mulher de Ribeiro de volta.

Agora, Ribeiro não tem vergonha de confessar: não foi atrás dos dois porque, se fosse, a obrigação era matá-los. Mas faltava-lhe, já naquela época, a coragem. Talvez por causa da malária. Argemiro também soltou a imaginação. Chegou a sentir ciúmes dela com o marido. E veio o boiadeiro, ficou três dias na fazenda, com desculpa de esperar outra ponta de gado... Não era a primeira vez que ele se arranchava ali. Mas nunca ninguém tinha visto os dois conversando sozinhos... Ele, Primo Argemiro, não tinha feito nenhuma má ideia....

Ela fugiu com o boiadeiro, e Primo Argemiro nunca lhe havia confessado o seu amor. Arrependia-se disso. Se tivesse tido coragem. Talvez ela aceitasse, quem sabe até teria fugido com ele, pois o boiadeiro ainda não havia aparecido. No mínimo, ela agora estava pensando que ele era um pamonha. Primo Ribeiro não se cansa de dizer que considera Argemiro um irmão; nem um filho seria tão bom assim. O outro se sente mal. Resolve confessar o seu grande segredo. Quando Ribeiro ouviu, apesar da febre e da fraqueza, ficou muito zangado e insistiu que o Primo fosse embora.

Argemiro explicou que nunca disse nada a Luísa, nunca a desrespeitou, que ela foi embora sem saber de nada. Ribeiro negava-se a entender. Só conseguia repetir que o Primo fosse embora. Sentia-se picado de cobra.

Primo Argemiro, não obtendo o perdão de Ribeiro, reúne as forças para ir embora. Caminha com dificuldade, passa pela rocinha de milho, assustando os pássaros pretos que o confundem com um espantalho. O cão Jiló não sabe mais a quem obedecer. Quer seguir com Argemiro, mas também quer ficar com Ribeiro. Na dúvida, ficou. Argemiro segue adiante, com os primeiros sintomas da tremedeira. E a lembrança vai buscar Luisinha, antes de se casar com Ribeiro. Ela estava toda de azul. A paisagem ali também se enfeitava de flores azuis. Bom lugar para se deitar e morrer.

Primo Argemiro - Na região, vem conseguindo sobreviver à malária. Tem febre e frio todos os dias, o baço sempre inchado, mas vai vivendo. No início da doença, foi abandonado pela esposa, Luísa; ela fugiu com outro homem, um boiadeiro.

Primo Ribeiro - Como Primo Argemiro, vai sobrevivendo à malária. Os dois moram isolados, numa região em que a febre já expulsou toda a gente. Apesar de ter terras em outra região, prefere ficar ao lado de Primo Ribeiro, tal a amizade que os une.

Prima Luísa - Mulher de Ribeiro. Morena, olhos pretos, cabelos pretos... muito bonita. De riso alegrinho, mas de olhar duro. Fugiu com um boiadeiro.

Ceição - Preta velha.

Jiló - Cachorro.

Mais em:



http://literatura2pontos.blogspot.com/2008/11/trechos-de-o-burrinho-pedrs-e-sarapalha.html
5. Paraísos artificiais ( 2004),

de Paulo Henriques Britto (1951/?)
O livro Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto, publicado em 2004, título poético, por remeter aos Paraísos artificiais (escritos sobre o ópio, o haxixe e o vinho) de Charles Baudelaire, reúne nove contos, a maior parte escrita nos anos 70 e reescrita ao longo das últimas décadas. Mais recentemente, lançou Tarde, seu novo livro de poemas.

A obra é resultado de obsessão e, também, depuração. Britto diz ter escrito cerca de 30 contos durante o ano e meio (entre 1972 e 73) que passou em São Francisco, na Califórnia, estudando cinema. Quando relidos, mais tarde, quase todos foram jogados fora. Os restantes começaram a ser burilados.

Paulo Henriques Britto se afirma como criador de um universo próprio, feito de uma prosa límpida que, parecendo coloquial a transparente, não perde tempo ao capturar e expor seus objetos nos contos de "Paraísos artificiais", seu livro de estreia na ficção. Seja qual for o cenário - a cidade grande, o estrangeiro ou a provinciana São Dimas -, os relatos deste volume capturam sempre situações extremas - que podem ser uma doença sem nome ou um mero ônibus errado - e encontros embaraçosos - quase sempre do protagonista consigo mesmo. Os pretextos podem ser mínimos, até mesmo banais, mas os impasses que logo se criam não têm nada de trivial. Em contos desde já antológicos, como e a mão firme de Britto conduz seus heróis a narradores a visões nuas a dolorosas de si meamos - mais alheios, mais tortuosos, mais covardes do que gostariam de ser.

Um dos pontos fortes do livro é o domínio da linguagem, destacando os diálogos, setor em que a ficção brasileira tem tradicionalmente grande dificuldade em sair do artifício, Britto se mostra aqui exímio seguidor de Nelson Rodrigues e dos prosadores norte-americanos que traduz regularmente, para quem fazer diálogo verossímil é coisa corriqueira. As pessoas em Paraísos artificiais falam como estamos acostumados a ouvir em casa, na rua ou nas telenovelas nacionais, mas ainda pouco na ficção.

Possíveis influências literárias:

Charles Baudelaire: O livro de Britto tem o mesmo titulo de uma coletânea de ensaios do escritor francês Baudelaire e remete às satisfações momentâneas que os homens buscam para fugir da mediocridade existencial.

Samuel Beckett: A influência de Beckett se faz notar pelas temáticas da imobilidade, da solidão e pelo teatro do absurdo de algumas situações.

Franz Kafka: O clima absurdo que perpassa contos como “O 921” é nitidamente kafkiano. Note-se, ainda, o clima sufocante dos contos, as consequências inesperadas e absurdas e o próprio absurdo da existência.

Características da obra

• Contos solipsistas: vida ou conjunto dos hábitos de um individuo solitário

• A escrita dos narradores como saída para a inércia

• A convivência nitidamente desconfortável entre as personagens

• Vários personagens dos contos recorrem ao ato da escrita para encontrar seus supostos "paraísos artificiais"

• Diálogos verossímeis e prosaicos, através do uso da linguagem coloquial, aliada a presença constante da ironia a da auto-critica

• Os contos são repletos de tensão narrativa, mas o clímax muitas vezes não se encontra no final, já que os desfechos são frequentemente prosaicos e propositalmente frustrantes: cabe ao leitor, muitas vezes, "completar" o final das narrativas

• Os finais sempre ficam em aberto, pois não há uma solução definida e definitiva para os conflitos, tramas e obsessões das personagens expostos nas narrativas

• A narração em 1ª. pessoa, presente em 8 dos 9 contos do livro, auxilia esse caráter parcial, limitado a incompleto dos textos, que propositalmente "frusta" as expectativas do leitor. Esse "jogo" com o interlocutor é característico da literatura contemporânea, que questiona as verdades totalizantes e a definição clara a exata da realidade.

• Situações kafkianas: as personagens encontram-se em situações desesperadoras ou inquietantes, ficam perturbadas pela falta de motivos aparentes para elas e não possuem saída ou escape. Fazem questionamentos e cogitações sem, no entanto, chegarem a conclusão alguma.

• Narrativas solipsistas - solipsismo: doutrina filosófica segundo a qual, alem de nos, só existem as nossas experiências. De acordo com tal pensamento, só o ser existe e o mundo ao redor é apenas um esboço virtual do que o ser imagina.

Os 9 contos do livro são :“Paraísos Artificiais” (o único em 3ª. Pessoa); “Uma doença”; “Uma visita”; “Um criminoso”; “O companheiro de quarto” ; “Coisa de família”; “O 921”; “O Primo”; “Os Sonetos Negros”

O primeiro conto de Paraísos artificiais funciona como uma espécie de introdução, porque, a priori, não existe historia e a temática desenvolvida volta nos demais textos da coletânea.Trata-se de um texto em que predominam as sequências expositivas e argumentativas. Não há, apesar de se tratar de um livro de contos, uma narrativa propriamente dita. Até mesmo a fonte usada, itálico, diferencia este texto dos oito demais da coletânea:

Você está sentado numa cadeira. Você está sentado nesta cadeira já faz bastante tempo. Você fica sentado nesta cadeira durante muito tempo, diariamente. Você não conseguiria ficar parado em pé por tanto tempo; logo você ficaria cansado, com dor nas pernas. Também não conseguiria permanecer tanto tempo assim deitado na cama, de cara para o teto; essa posição se tornaria cada vez mais incomoda com o passar do tempo, até fazê-lo virar-se para um lado - por exemplo, para o lado esquerdo; mas depois de alguns minutos de bem-estar, seu corpo seria dominado pouco a pouco por uma sensação de desconforto que gradualmente se transformaria numa ideia, de inicio vaga, depois mais nítida, mais e mais, até cristalizar-se nas palavras: "Esta posição é a menos confortável que há", e essas palavras em pouco tempo levariam a estas: "A posição mais confortável de todas seria ficar virado para a direita". A ideia aos poucos se tornaria mais forte, até sobrepujar a inércia natural do corpo, e nesse momento você se viraria para o lado direito. Imediatamente uma sensação deliciosa de prazer lhe invadiria o corpo, como se cada célula sua fosse uma boca a proclamar: "Essa e verdadeiramente a mais confortável de todas as posições". A nova sensação, porém, não perduraria por muito tempo; logo você seria obrigado a trocar de posição mais uma vez, e todo o ciclo recomeçaria.

Mais: possibilidade de verificar cada um dos contos, em:



http://www.vestibulandoweb.com.br/analise_obra/paraisos-artificiais-paulo-henriques-britto.asp

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