Livros de bolso europa américa



Baixar 0.87 Mb.
Página1/20
Encontro28.01.2018
Tamanho0.87 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20

JEAN-PAUL SARTRE

A NÁUSEA


livros de bolso europa américa

Do mesmo autor:

As Mãos Sujas

Os Sequestrados de Altona

Baudelaire

Situações I

Situações II

Situações III

Situações IV

Situações VI: Problemas do Marxismo - I

Situações VII: Problemas do Marxismo - 2
JEAN-PAUL SARTRE

A NÁUSEA
C M P V

BIBLIOTECA li N Data
Publicações Europa-América

Título original: La Nausée Tradução de António Coimbra Martins Capa: estúdios P. E. A. © Librairie Gaüimard

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de textos ou passagens para apresentação ou crítica do livro. Esta excepção não deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas ontológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra.Ostransgressores são passíveis de procedimento judicial.

Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA.

Apartado 8

2726 MEU MARTINS CODEX

PORTUGAL

Edição n°-: 140633/5207 Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra - Mem Martins

Ao CASTOR

«É um rapaz sem importância colectiva; um indivíduo, nada mais.»

L. F. CÉLINE (A Igreja)

Estes cadernos foram encontrados entre os papéis de Antoine Roquentin. Publicamo-los sem lhes fazer a mais pequena alteração.

A primeira página não está datada, mas temos boas razões para pensar que é anterior de algumas semanas ao começo do diário propriamente dito. Teria sido escrita, portanto, em princípios de Janeiro de 1932, o mais tardar.

Nessa altura, Antoine Roquentin, depois de ter viajado pela Europa central, pelo Norte de África e pelo Extremo Oriente, tinha-se fixado, havia três anos, em Bouville, para concluir nessa cidade as suas pesquisas históricas sobre o marquês de Rollebon.


Os EDITORES
Vão em rodapé as notas da versão original; o leitor que quiser consultar as do tradutor encontrá-las-á no fim do livro, embora nenhuma remissão as anuncie, a fim de não perturbar o prazer da leitura a quem não gosta ou não precisa de recorrer a comentários estranhos a obra
O AUTOR
FOLHA SEM DATA
O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. Fazer um diário para os considerar com clareza. Não deixar escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes, e sobretudo ordená-los. Tenho de dizer como é que vejo esta mesa, a rua, as pessoas, a minha bolsa de tabaco, visto que foi isso que mudou. Tenho de determinar exactamente a extensão e a natureza dessa mudança.

Por exemplo, tenho aqui uma caixa de cartolina que contém o meu frasco de tinta. Devia tentar dizer como é que a via antes e como é que agora a... * Pois bem! É um paralelepípedo recto, sobressai dum fundo... Que tolice! Não há nada a dizer dela. É isto que é preciso evitar; é preciso não achar estranho o que não tem estranheza nenhuma. É este o perigo, creio eu, quando se faz um diário: exagera-se tudo, espia-se de mais, excede-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, dum momento para o outro - e justamente a propósito desta caixa ou doutro objecto qualquer - sentir de novo aquela impressão de anteontem. Tenho de estar sempre pronto, senão mais uma vez ela me escaparia. É preciso não... 2 coisa nenhuma, mas registar cuidadosamente e com minúcias extremas tudo o que acontece.

Está claro que já não posso escrever nada com nitidez sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou
* Uma palavra deixada em branco.

Uma palavra riscada (talvez «forçar», ou «forjar»); está outra escrita por cima, mas ilegível.


muito longe delas; tudo quanto posso dizer é que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que geralmente se chama um acontecimento. Sábado, uns garotos estavam a atirar pedrinhas ao mar para as fazer saltar de ricochete, e pretendi atirar uma como eles. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui-me embora. Devia ir com uns ares de transviado, com certeza, porque os garotos desataram a rir quando voltei as costas.

Isto, quanto ao exterior. O que se passou em mim não deixou traços claros. Havia qualquer coisa que vi e que me repugnou, mas já não sei se estava a olhar para o mar ou para a pedra. A pedra era chata; dum lado estava inteiramente seca, húmida e enlodada do outro. Tinha-a agarrado pelas beiras, com os dedos muito afastados, para não me sujar.

Anteontem, foi muito mais complicado. E tinha havido também uma série de coincidências, de equívocos, que não consigo explicar. Mas não vou perder tempo a confiar tudo isso ao papel. Enfim, é certo que tive medo ou qualquer sentimento desse género. Se ao menos soubesse de que tive medo, já seria um grande passo em frente.

O que é curioso é que não estou disposto de modo algum a considerar-me louco. Vejo com evidência que não estou louco: 'estas mudanças ocorrem todas nos objectos. É disso, pelo menos, que queria ter a certeza.

Dez horas e meia 1

Pode bem ser, afinal, que tenha sido uma pequena crise de loucura. Já não restam sinais dela. Os sentimentos esquisitos da semana passada parecem-me hoje bastante ridículos: não consigo revivê-los. Esta noite estou muito à vontade, muito burguêsmente instalado no mundo. Aqui é o meu quarto, virado para o nordeste. Lá em baixo, a Rua

dos Mutilados e a estação nova, em construção. Vejo da janela, à esquina do Boulevard Victor-Noir, as luzes vermelhas e brancas do Rendez-vous dos Ferroviários. Chegou neste momento o comboio de Paris. As pessoas saem da estação velha e disseminam-se pelas ruas. Ouço passos e vozes. Muitos esperam o último eléctrico. Vão apinhar-se num grupinho triste à roda do candeeiro a gás, precisamente por baixo da minha janela. Pois olhem, ainda têm de esperar alguns minutos: o eléctrico não passa antes das dez e quarenta e cinco. Oxalá que não cheguem caixeiros viajantes esta noite: tenho tanta vontade de dormir e tanto sono atrasado. Uma noite bem dormida, uma só, chegaria para me varrer da cabeça todas estas histórias.

Onze menos um quarto: já não há que temer. Se tivessem vindo, já cá estavam. A não ser que seja o dia do sujeito de Ruão. Vem todas as semanas, reservam-lhe o quarto n." 2, no 1.º andar, o que tem um bidé. Talvez venha ainda: às vezes vai beber uma cerveja ao Rendez-vous dos Ferroviários antes de se deitar. Mas é pessoa que faz pouco barulho. É muito baixo e muito limpo, com bigode preto engraxado e chinó. Ele aí vem.

Sim, senhor, quando o ouvi subir a escada, o coração deu-me um baque de contentamento, tão reconfortante era a sua chegada: de que há que ter receio num mundo tão regular? Creio que estou curado.

E lá vem o eléctrico da linha 7 (Matadouro-Docas Grandes). Chega com um grande ruído de ferros velhos. Põe-se outra vez em andamento carregado de malas e de crianças adormecidas; vai agora sumir-se no negrume de este. em direcção das Docas Grandes e das fábricas. É o penúltimo eléctrico. O último passa daqui a uma hora.

Vou-me deitar. Estou curado, renuncio a escrever as minhas impressões dia a dia, como as rapariguinhas num lindo caderno novo.

Num caso apenas poderia ser interessante fazer um diário: no caso de... *


*1 Da noite, evidentemente.
O parágrafo que se segue é muito posterior aos precedentes. Somos levados a pensar que foi escrito no dia seguinte; mais cedo não, em todo o caso.

O texto da folha sem data termina aqui.


DIÁRIO
SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JANEIRO DE 1932.

A CONTECEU-ME qualquer coisa; já não posso duvidar. -Ti. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se.

Não acho que a profissão de historiador disponha para a análise psicológica. É um trabalho em que só se entra em jogo com sentimentos inteiros, aos quais se dão nomes genéricos, como Ambição, Interesse. Se eu tivesse, porém, uma sombra de conhecimento de mim próprio, era agora que devia utilizá-la.

Nas minhas mãos, por exemplo, há qualquer coisa de novo, certa maneira de agarrar no cachimbo ou no garfo. Ou então é o garfo que tem agora uma maneira diferente de se deixar agarrar; não sei. Há bocadinho, quando ia entrar no meu quarto, detive-me repentinamente, porque senti na mão um objecto frio que me chamava a atenção, como se possuísse uma espécie de personalidade. Abri a mão, olhei: era simplesmente o fecho da porta. Hoje de manhã, na Biblioteca, quando o Autodidacta, veio cumprimentar-me.


*1 Ogier P..., de quem muitas vezes se falará neste diário. Era um ajudante de tabelião. Roquentin travara conhecimento com ele, em 1930, na Biblioteca de Bouville.
11
precisei duns dez segundos para o reconhecer. Via diante de mim uma cara desconhecida, apenas uma cara. E depois havia a mão dele, como um grande bicho branco na minha mão. Larguei-a logo, e o braço caiu molemente.

Nas ruas há também uma quantidade de ruídos equívocos que perpassa.

Produziu-se pois uma mudança durante estas últimas semanas. Mas onde? uma mudança que não se fixa em sítio nenhum. Fui eu que mudei? Se não fui, então foi este quarto, esta cidade, esta natureza; é preciso escolher.

Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. E mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raras vezes penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso. e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução. Foi o que deu à minha vida estes solavancos, este aspecto incoerente. Quando saí de França, por exemplo, muita gente começou a dizer que a minha partida fora uma leviandade. E, quando voltei, bruscamente, após seis anos de viagem, de novo se podia ter falado de leviandade. Ainda me estou a ver, com Mercier, no gabinete daquele funcionário francês que se demitiu o ano passado, em consequência do caso Pétrou. Mercier dirigia-se a Bengala com uma missão arqueológica. Eu desejara sempre ir a Bengala, e ele instara comigo para que fosse ter com ele. Agora pergunto a mim próprio porquê. Creio que Mercier não tinha muita confiança em Portal e que contava comigo para o trazer debaixo de olho. Eu não via motivo para recusar. E mesmo se tivesse pressentido, na altura, esse pequeno conluio contra Portal, mais uma razão teria visto nisso para aceitar com entusiasmo. Pois bem, senti-me como paralisado, não podia dizer uma palavra. Estava a olhar

para uma pequena estatueta khmeriana, assente numa toalha verde ao lado dum telefone. Parecia-me que estava cheio de linfa ou de leite morno. Mercier dizia-me com uma paciência angélica que velava uma ponta de irritação:

«Não é? Tenho necessidade de obter uma resposta definitiva. Sei bem que você acabará por dizer que sim: valia mais aceitar já.»

Mercier deixa crescer a barba, que é dum negro arruivado, e perfuma-a muito. A cada movimento da sua cabeça eu respirava uma baforada de perfume. E depois, bruscamente, acordei dum sono de seis anos.

A estátua pareceu-me desagradável e estúpida, e senti que me aborrecia profundamente. Não conseguia compreender porque é que estava na Indochina. Que estava eu ali a fazer? Porque estava a falar com aquelas pessoas? Porque estava vestido duma maneira tão exótica? Tinha morrido a paixão que me submergia e arrastara durante anos; naquela altura sentia-me vazio. Mas não era isso o pior: defronte de mim, instalada com uma espécie de indolência, havia uma ideia volumosa e insípida. Não sei exactamente o que era, mas não podia olhá-la, a tal ponto ela me repugnava. Tudo isso se confundia para mim com o perfume da barba de Mercier.

Reagi, num acesso de cólera contra ele; respondi secamente:

«Agradeço-lhe, mas penso que já viajei bastante: agora tenho de voltar a França.»

Dois dias depois tomava o barco para Marselha.

Se não me engano, se todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal da minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante, nem preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me... arrastar-me para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo em meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.


12 13
TERÇA-FEIRA, 30 DE JANEIRO.

Nada de novo.

Trabalhei das nove à uma na Biblioteca. Pus em ordem o capítulo XII e tudo quanto se prende com a estada de Rollebon na Rússia, até à morte de Paulo I. É trabalho acabado: não voltarei a mexer-lhe antes da passagem a limpo.

É uma e meia. Estou no Café Mably, a comer uma sanduíche; tudo parece mais ou menos normal. De resto, nos cafés tudo é sempre normal, e especialmente no Café Mably, por causa do gerente, o Sr. Fasquelle, que traz sempre pintada na cara uma expressão acanalhada muito positiva e reconfortante. Daqui a nada é a hora da sua sesta: já tem os olhos vermelhos, mas conserva o andar vivo e decidido. Passeia entre as mesas e aproxima-se, confidencialmente, dos fregueses:

«Está tudo à vontade de V. Ex.a?»

Sorrio de o ver tão vivo: à hora em que o estabelecimento se esvazia, esvazia-se também a cabeça dele. Das duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos como embrutecido, os criados apagam as luzes, e ele resvala pela inconsciência: este homem, assim que fica sozinho, adormece.

Ainda estão na casa uns vinte fregueses, rapazes solteiros, engenheiros modestos, empregados. Almoçam todos rapidamente em pensões de família, a que chamam o seu rancho, e, como têm necessidade dum pouco de luxo, vêm aqui, depois da refeição, tomar um café e jogar ao poker de ases; fazem um certo barulho inconsistente que não me incomoda. Também estes, para existir, precisam de se reunir uns com os outros.

Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém. O Autodidacta não conta. É verdade que há Françoise, a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Mas pode dizer-se que falo com ela? Às vezes, depois de jantar, quando vem servir-me uma cerveja, pergunto-lhe:

«Esta noite você tem tempo?»
14
Nunca diz que não, e então sigo-a a um dos quartos grandes do 1.º andar, que ela aluga à hora ou ao dia. Não lhe pago senão o quarto. Ela goza (precisa dum homem por dia, e, além de mim, tem muitos outros) e eu purgo-me assim de certas melancolias cuja causa conheço perfeitamente. Mas mal trocamos algumas palavras. Para quê? Cada um por si; aos olhos dela, de resto, continuo a ser, antes de mais nada, um freguês do café. Diz-me assim, ao despir o vestido:

«Ouça lá, você conhece um aperitivo chamado Bricot? É que houve dois fregueses, esta semana, que pediram. A rapariga não sabia, veio prevenir-me. Eram caixeiros viajantes; foi coisa que beberam em Paris, com certeza. Mas não gosto de comprar sem saber. Se não se importa, não tiro as meias.»

Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado-, Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso por ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem, e esqueço-me logo deles.

Estes rapazes fazem a minha admiração: contam, ao beber o seu café, histórias nítidas e verosímeis. Se lhes perguntarem o que fizeram ontem, não se perturbam: põem--nos ao corrente em duas palavras. No lugar deles, eu titubearia. É verdade que há muitíssimo tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verosimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se; vêem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos! Mas não se perde nada, em compensação, de quanto é inverosímil, de tudo em quanto, nos cafés, não se poderia acreditar. Por exemplo, sábado à tarde, eram umas quatro horas, pelas tábuas que servem de passeio nas obras da estação nova, uma mulherzinha


15
vestida de azul-celeste corria às recuadas, a rir, dizendo adeus com um lenço. Ao mesmo tempo, um negro, de impermeável creme, sapatos amarelos e chapéu verde, dobrava a esquina da rua, a assobiar. A mulher, sempre às recuadas, veio esbarrar com ele, mesmo por baixo duma lanterna que está pendurada na paliçada e se acende de noite. Havia portanto ali, ao mesmo tempo, aquela paliçada que cheira tanto a madeira molhada, aquela lanterna, aquela mulher-zinha loura nos braços dum negro, sob um céu de fogo. Se estivessem comigo três ou quatro pessoas, suponho que teríamos reparado no choque, em todas essas cores desmaiadas, no belo casaco azul que parecia um edredão, no impermeável claro, nos vidros vermelhos da lanterna; teríamos rido da estupefacção que se desenhava naqueles dois rostos de criança.

É raro um homem só ter vontade de rir: aquele conjunto animou-se para mim dum sentido muito forte e até feroz, mas puro. Depois desmanchou-se; ficou só a lanterna, a paliçada e o céu: mas subsistia ainda uma certa beleza. Uma hora depois, a lanterna estava acesa, levantara-se vento, o céu escurecera; já nada restava do caso.

Nada disto é muito original; nunca recusei estas emoções inofensivas; pelo contrário. Para as sentir, basta ficar--se sozinho um momento, só o preciso para nos desembaraçarmos, na altura oportuna, da verosimilhança. Antes conservava-me muito perto das pessoas, à superfície da solidão, bem decidido, em caso de alarme, a refugiar-me no meio delas: no fundo, até aqui, era um amador.

Agora há em toda a parte coisas como aquele copo de cerveja, além, em cima da mesa. Quando o vejo, tenho vontade de dizer: «Ferrados! Não brinco mais.» Compreendo perfeitamente que fui longe de mais. Acho que não se pode manter a solidão quietinha no seu lugar. Não quer dizer que eu vá olhar para debaixo da cama antes de me deitar, nem que receie ver a porta do quarto abrir-se bruscamente ao meio da noite. Somente, apesar de tudo, estou inquieto: há talvez meia hora que evito olhar para aquele copo de cerveja. Olho para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Mas o copo, não quero vê-lo. E sei muito bem


16
que nenhum destes homens que me cercam, solteiros como eu, pode prestar-me o menor auxílio: é tarde de mais, já não posso refugiar-me entre eles. Viriam dar-me palmadinhas nas costas, dir-me-iam: «Então, que é que tem este copo de cerveja? É como todos os outros. Biselado, com uma asa, tem gravado um escudozinho com uma pá, e por cima do escudo está escrito spatenbrüu.» Tudo isto eu sei, mas sei também que há outra coisa. Quase nada. Mas já não posso explicar o que vejo. A ninguém. É isso: vou deslizando suavemente para o fundo da água, direito ao medo.

Estou sozinho no meio desta? vozes alegres e razoáveis. Todos estes fulanos passam o seu tempo a explicar-se uns aos outros, a reconhecer com contentamento que são da mesma opinião. Que importância que ligam, meu Deus, ao facto de pensarem todos juntos as mesmas coisas. Basta ver a cara que fazem quando passa pelo meio deles um desses homens com olhos de paigo, que parece que andam a olhar para dentro, e com quem, de forma nenhuma, se pode chegar a acordo. Quando eu tinha oito anos, e brincava no Luxemburgo, havia um que vinha sentar-se numa guarita situada junto ao gradeamento que margina a Rua Auguste-Cornte. Não dizia nada, mas, de vez em quando, estendia uma perna e olhava para o pé com um ar de terror. Esse pé tinha calçada uma bota, mas o outro estava enfiado numa pantufa. O guarda disse ao meu tio que esse homem era um antigo censor. Tinham-no reformado, porque viera ler as notas do período, nas aulas, em trajo de académico. Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que estava sozinho. Um dia sorriu para Robert, estendendo os braços para ele, de longe: por um pouco, Robert não desmaiou. Não era o ar miserável do tipo que nos metia medo, nem o tumor que tinha no pescoço, e que constantemente esfregava na beira do colarinho: é que sentíamos que ele gerava na cabeça pensamentos de caranguejo ou de lagosta. E a nós aterrorizava-nos que se pudessem alimentar pensamentos de lagosta quanto à guarita, quanto aos nossos arcos, quanto aos tufos de arbustos.

É isso então o que me espera? Aborreço-me, pela primeira vez, de estar sozinho. Gostava de falar a alguém do

LB133 - 2


17
que me está a acontecer, antes que seja tarde, antes de meter medo aos rapazes pequenos. Gostava que Annv. estivesse aqui.

É curioso: acabo de escrever dez páginas, e não disse a verdade -não disse, pelo menos, a verdade toda. Se escrevi, por baixo da data, «Nada de novo», foi com a consciência a protestar: com efeito, uma pequena história, que não é vergonhosa nem extraordinária, recusava-se a sair. «nada de novo.» Admiro-me de como se pode mentir com a verdade na mão. Evidentemente, não se produziu nada de novo. se assim quisermos: esta manhã, às oito e um quarto, ao sair do Hotel Printania para ir à Biblioteca, quis apanhar um papel que estava no chão, e não pude. É tudo; nem isso constitui um acontecimento. Sim, mas, para dizer a verdade toda, fiquei profundamente impressionado: pensei que deixara de ser livre. Na Biblioteca procurei libertar-me dessa ideia, e não consegui. Quis fugir-lhe indo para o Café Mably. Esperava que ela se dissipasse com as luzes. Mas a ideia ficou onde estava, em mim, pesada e dolorosa. Foi ela que me ditou as páginas precedentes. Porque é que não falei dela? Deve ter sido por orgulho, e também um pouco por inépcia. Não tenho o costume de contar a mim próprio o que me vai sucedendo; por isso não recordo bem a sucessão dos acontecimentos, não distingo o que é importante. Mas, agora, acabou-se: reli o que tinha escrito no Café Mably, e tive vergonha: não quero segredos, nem estados de alma, nem inefáveis; não sou virgem, nem padre, para brincar à vida interior.

Não há grande coisa a dizer: não pude apanhar o papel, mais nada.

Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos já velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca, como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pi-eriço. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à teiia. Outras novinhas ou, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, alentam no chão como cisnes, mas já a terra por baixo a vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da Lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a talear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se- e«tão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.

Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as- bolas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial. com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente dum caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sitios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas .. Não pude.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal