Lohbauer, Christian



Baixar 7.93 Kb.
Encontro26.06.2018
Tamanho7.93 Kb.

Lohbauer, Christian. “As novas faces da Pequim moderna”. São Paulo: Valor Econômico, 25 de outubro de 2001. Jel: H, I.
As novas faces da Pequim moderna.

Christian Lohbauer.

Nas proximidades da Praça Tiananmen três garotos de rua perambulam por uma das novas esplanadas comerciais da cidade. Dois deles fumam cigarros. Alguns metros dali centenas de chineses se divertem bebendo cerveja alemã em um Biergarten Hofbrauhaus montado especialmente para promover mais um ponto de venda no novo mercado a ser explorado pela cervejaria. Do outro lado da esplanada luzes e néons de um dos novíssimos shopping centers da capital brilham entre out-doors da Esprit, Armani e MacDonald´s. Vários policiais do serviço de segurança municipal de Pequim transitam com seus uniformes impecáveis entre os milhares de novos consumidores visivelmente deslumbrados e seduzidos pelos prazeres do capitalismo.

Um policial se aproxima de um dos garotos. É recebido com uma baforada de cigarro no rosto. Sem aparentar ter se abalado com a ação do pivete acena para que saiam circulando. Os garotos se distanciam alguns metros e param mais adiante. Alguns minutos depois, um dos garotos no melhor estilo "mão-de-gato" bate a carteira de um transeunte de meia-idade que, mesmo calçando sandálias, sai no encalço do garoto, correndo no meio da multidão, que observa a cena espantada para alguns segundos depois continuar o passeio e as compras.

Não muito distante dali, está a Cidade Proibida, maior ponto turístico da China junto das Muralhas e local onde entre os séculos XIII e XX residiram vários imperadores das últimas três dinastias Yuan, Ming e Qing. Nas suas proximidades encontram-se alguns "Hutongs". Criados na dinastia Yuan como área residencial planejada de forma quadrangular para abrigar aristocratas e famílias abastadas em torno da cidade proibida, os Hutongs foram se estabelecendo em outras áreas da cidade através dos séculos.

Constituíram uma espécie de quarteirão central das enormes quadras de Pequim e foram divididos em áreas menores de ocupação familiar coletiva. Com a fundação da República Popular da China em 1949, os Hutongs tornaram-se áreas de residência popular. Parte das propriedades foram distribuídas e controladas pelo governo. A Revolução Cultural de 1966 acabou destruindo vários Hutongs para construção de apartamentos populares ou desapropriando e redistribuindo várias propriedades de acordo com interesses do governo.


Muitas injustiças foram cometidas e provavelmente não serão desfeitas. Cerca de 2 milhões de chineses vivem hoje nas 25 áreas residenciais que restaram dos antigos Hutongs. O governo atual decidiu preservá-los para manter a tradição histórica e promover o turismo. Um novo sistema tributário está sendo desenvolvido para preservar o aluguel de casas pelas famílias proprietárias ao mesmo que contribuem para o governo com parte de sua receita. Sejam proprietários tradicionais ou beneficiados mais recentes com a desapropriação pós Revolução Cultural, eles se tornarão um pouco mais independentes do governo e devem apenas manter o compromisso de não modificarem ou reformarem as estruturas originais dos Hutongs.

A Pequim de 2001 é uma cidade em plena transformação. Como a Berlim dos anos 90, Pequim é um enorme pátio de obras. Será a sede dos jogos olímpicos de 2008 e já se encontra em pleno vapor para ser uma nova cidade. Durante as noites observa-se que as construções civis não param. Iluminadas até a madrugada abrigam dezenas de milhares de trabalhadores civis, na maioria migrantes do campo e de regiões mais pobres, que trabalham em três turnos para abreviar a inauguração de novas pontes, viadutos, além de hotéis e áreas comerciais. O crescimento e dinamismo são visíveis.



É inevitável que com toda esta pujança chegasse também os problemas das grandes cidades ocidentais e os problemas do capitalismo. A miséria, a violência, o problema da habitação e as diferenças sociais estão se tornando fato. Pequim é a capital do grande experimento chinês. Aqui estão o governo e os mais importantes dirigentes militares e do Partido Comunista Chinês. A julgar pelas aparências, Pequim está caminhando para ser mais uma megalópole do mundo capitalista. Anúncios espalhados pela cidade apresentam Arnold Schwarzenegger utilizando um determinado telefone celular. Ônibus trafegam com anúncios da Pepsi com fotos dos jogadores de futebol Rivaldo e Roberto Carlos.

algumas semanas, em discurso pela comemoração dos 80 anos do Partido Comunista Chinês, o presidente Jiang Zemin anunciou que o partido estava preparado para aceitar homens de negócio em seus quadros. Durante os 51 anos em que esteve no poder o partido referiu-se a si mesmo como um partido de camponeses e trabalhadores. Será este o primeiro ensaio do partido comunista chinês e das lideranças políticas para uma despedida definitiva dos princípios marxistas? Ainda é cedo para saber mas a cidade de Pequim é o palco principal da experiência chinesa. Uma aventura político-econômica que, como nas tradicionais óperas chinesas deverá ocorrer entre muitas acrobacias e terminar com uma luta entre forças poderosas, muitas delas além do controle dos homens.

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal