Loucura “Doença ou Preconceito Ideológico?” Dr Wagner Paulon



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Encontro01.07.2018
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Loucura “Doença ou Preconceito Ideológico?”

Dr Wagner Paulon
Acho que "loucura" hoje é mais uma questão de ponto de vista da sociedade do que propriamente uma "doença", quer dizer, todas aquelas pessoas consideradas "hostis às formas tradicionais de conduta" são taxadas de "loucas" ou são tratadas como tal.
Para explicar melhor minha opinião, desejo transcrever alguns trechos do livro Nova Consciência (Luis Carlos Maciel, Eldorado, 2)8 págs. 1973) no qual é trajado o assunto num artigo intitulado. Muito Louco. Bicho: "O celebre poema Howl, de Allen Ginsberg, considerado na década dos 50 uma espécie de manifesto da beat generation, é em sua última parte uma saudável saudação ao poeta Carl Solomon, que se encontrava internado no hospício de Rockland. A experiência da insanidade mental é, certamente, uma experiência radical, uma situação-limite que ainda não foi devassada como devia. Em seu poema, Ginsberg traça a trajetória trágica de sua geração, da angústia às drogas e, destas ao hospício. Solomon é seu personagem típico, herói dessa trajetória moderna".
Segundo Luis Carlos Maciel, os mais atingidos pela "doença mental" são todas aquelas pessoas que ousam desafiar as regras do establishment, e este, por sua vez, tenta silenciá-lo através de "tratamentos psiquiátricos", que são marcados pelos meios mais violentos de nossa época. "Ê uma pena"-- escreve LCM -- "que testemunhos pessoais sobre o processo não apareçam com freqüência. É chato para qualquer um confessar que já andou meio louco ou foi tratado como tal. A moralidade estabelece, de maneira mais ou menos definitiva, que quem foi internado num hospício perdeu para sempre o título humano. E os que escaparam às garras da doença devem tentar recuperá-los través do silêncio. Mais uma vez, aqui, a desumanidade dos preceitos e preconceitos evita que se lance luz sobre alguns aspectos mais significativos da existência humana. Em assunto tão proibido, poucos tiveram a coragem de dar seu depoimento".
Essa falta de testemunho é provocada pelo terror adquirido pelo paciente ou ex-paciente durante sua internação, aos choques elétricos, às comas de insulina e tudo o mais, e ele, naturalmente com medo de voltar àquele inferno, recusa-a fazer qualquer declaração a respeito.
LCM transcreveu ainda o depoimento de Solomon, que atravessou um tratamento de 50 comas de insulina e conta tudo em detalhes: "Cedo a coma confirma todos os medos do paciente" — escreve Solomon. "O que começou com um sono drogado transforma-se de maneira orgânica em um dos milhões de universos psicofísicos que se devem atravessar antes de ser acordado por sua dose de glicose. A coma destrói a memória do paciente enquanto a glicose engorda até a deformação".
Solomon conta sua experiência com mais detalhes em seu documento “ Report from the Asylum”, de indiscutível importância, onde são analisadas as relações entre o louco e a sociedade, não do ponto de vista psiquiátrico, mas do ponto de vista do doente.
A psiquiatria enumera os vários tipos de doenças mentais, fazendo distinções, enredando-se freqüentemente em suas próprias definições na hora de fazer um diagnóstico concreto. O fato é que o choque elétrico é usado para todas elas, como meio de cura. Os psiquiatras dizem que o choque cura, mas não sabem por que cura.
"Vi com clareza" — escreve Seymour Krim — "que insanidade e psicose não podem ser mais respeitadas como definições que tenham um sentido, mas são apenas usadas por alguns indivíduos que detêm o poder social, para tratar maneiras de se comportar de pessoas que são estranhas, ameaçadoras e obscuras para eles". Krim também passou um certo tempo internado. Escritor da beat generation, teve uma violenta crise de depressão. Tentou o suicídio, tomando uma dose excessiva de barbitúricos. Encontrado ainda com vida, foi levado pára um hospital, onde foi salvo. Ainda meio drogado, foi levado do hospital para um hospício. Ficou lá quatro meses, brigando e reclamando como todo mundo o seu direito "à insegurança da liberdade".
Quando o soltaram, sua primeira atitude foi escrever um ensaio: The Insanity Beat. "Mais radical que Solomon — escreve LCM — "endossando plenamente as conclusões de Artaud, Krim vai afirmando de saída que a insanidade, hoje, é uma questão de definição e não de fato. A palavra loucura, diz ele, só pode ser usada literariamente, não teve nada a ver com ciência; insanidade é uma concepção legal anacrônica e tão rígida quanto uma peça de Ibsen; e mesmo o moderno termo antisséptico psicose parece-lhe tão suspeito de preconceito ideológico que deve ser mantido "à distância de um braço, como um rato morto".
Luis Carlos Maciel recebeu muitas cartas de psiquiatras, cartas cheias de termos científicos, e outras coisas. Naturalmente esses psiquiatras e psicólogos não entenderam o sentido de seus artigos, que vê o problema do ponto de vista muito mais social do que científico.
O próprio Luis Carlos Maciel escreve a respeito: "Só recebi dois tipos de cartas: as de médicos psiquiatras ou psicólogos, isto é,“de especialistas da matéria”, e as de ex-pacientes de sanatórios, isto é, de pessoas que sofreram a "matéria" na carne. O conteúdo das cartas revela algo da natureza humana. Todos os psiquiatras que escreveram arrasaram meus artigos; todos os seus os ex-pacientes me enviaram palavras de simpatia e, principalmente, gratidão... Algumas de suas cartas (dos psiquiatras e psicólogos) estão escritas como desesperadas defesas de profissão que, a julgar por elas. teria sido enxovalhada pelos meus artigos".

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