Louis Pauwels Jacques Bergier



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Louis Pauwels Jacques Bergier

O Planeta das Possibilidades Impossíveis

Perspectivas para o terceiro milénio

Tradução de GUTTORM HANSSEN

4.» Edição

Edições Melhoramentos

Tradução do alemão: Der Planet der unmóglichen Mõglichkeiten © 1968 by Scherz Verlag, Berna e Munique

© Comp. Melhoramentos de São Paulo, Indústrias de Papel Caixa Postal 8120, Sáo Paulo

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III-1976


Este livro contém os mais importantes artigos de Louis Pauwels e Jacques Ber-gier, originalmente publicados na revista Planeie.

Nos pedidos telegráficos basta citar o cód. 7-02-05-062

ÍNDICE

CAPITULO I



Algumas reflexões iniciais Louis Pauwels .

CAPITULO II

Uma segunda Renascença Louis Pauwels 17

A quinta caravela e o primeiro astronauta A primeira despedida do Oriente Fontes esgotadas O retorno às fontes A redescoberta da liberdade A juvenilidade dos velhos Novo impulso De encontro a uma nova Plêiade

CAPITULO III

Três Janelas para o Infinito Jacques Bergier 28

Nós enviamos sinais às estrelas A segunda janela: a radioastro-nomia A terceira janela: o segredo de Pontecorvo Motivos decisivos para o pacifismo

CAPITULO IV

Novas hipóteses da Astronomia moderna Jacques Bergier 35

Teorias em profusão Um bilhão de planetas habitados no sistema de nossa Via-Láctea? A protomatéria ou a formação das estrelas Existirá além do mundo um antimundo? De Pascual Jordan... à escuta das estrelas Mensagens do além e o segredo das fontes de radioemissão As incompreensíveis galáxias Que se passa no interior das estrelas?

CAP1TULOV

Pesquisas Parapsicológicas na U.R.S.S. Jacques Bergier 46

Há surpresas pela frente A colher de prata e o materialista

O olho emite raios? Campos de força e transmissão de pensa

mento Um programa para a pesquisa de forças parapsicológicas

• Magnetismo e hipnose Comunicação radiofónica entre os cé-

rebros? A situação atual na União Soviética

CAPITULO VI

Existem seres extraterrenos inteligentes? Louis Pauwels/Jacques Bergier 57 Do pequenino tupinambo à grande galáxia Inteligências do espaço cósmico Vida mais antiga do que as estrelas Lua, Marte e Vénus Da evolução biológica à evolução mecânica Da essência do pensar Reservas de informações no espaço cósmico Receptores para transmissões estranhas Das máquinas de Mac-Gowan às borboletas de Clarke Nossas almas falam na sombra

CAPITULO VII

A História dos Cérebros Eletrônicos Jacques Bergier 67

Presente e futuro das máquinas de pensar O homem que gostava de quietude... e o homem que detestava as telefonistas Um dos homens mais geniais do nosso tempo Tão importante como E = mc2 Pensar cada vez mais depressa Os novos ar-

mários mágicos 1.530 quilómetros de literatura por hora

Máquinas com caráter Máquinas com acessos de cólera

Amanhã falarão nossa língua Contra o Tempo e o Espaço

Diálogo homem-máquina Espelhos que pensam Ligação a

uma rede de conhecimentos

CAPITULO VIII

O quarto estado da matéria Jacques Bergier 83

Conhecemos a estrutura do Universo? Um mundo científico por si Um gás que tem características de metal Por que é possível o rádio? A mais extraordinária descoberta da física moderna Não existe vácuo interestelar: o espaço cósmico está saturado de plasma Um fogo que tudo devora Usinas geradoras sem turbinas Rumo aos planetas com foguetes de plasma Um milhão de graus numa garrafa

CAPITULO IX

Pesquisa genética no Presente e no Futuro Jacques Bergier 98

Do homem ao super-homem Uma enciclopédia de mil volumes numa cabeça de espermatozóide A escada de caracol da vida Influência da matéria viva A língua secreta da vida: quatro letras e vinte palavras Nosso escasso saber O portador de informação: ARN Origem de um ser vivo Perspectivas ousadas: Alteração do património hereditário Continuar o desenvolvimento Será o homem o ponto culminante da evolução? Com o auxílio da matemática

CAPITULO X

Homem e Universo Jacques Bergier 113

v Microrganismos com 180 milhões de anos Para outros sistemas planetários O lugar do homem no Universo

CAPITULO XI

Vida da Retorta Jacques Bergier 117

A maior aventura da ciência A atmosfera terrestre antes da formação da vida Quando o hidrogénio se volatiliza O saber dos alquimistas A cadeia da vida Produzir vida para compreendê-la A volta a Louis Pasteur Vida no antimundo O algarismo cinco e a vida A vida sintética deve ser despertada para a vida

CAPITULO XII

Antimatéria uma realidade científica Jacques Bergier 128

Mundos paralelos Eléctrons e posítron Das antipartículas à antimatéria O mais possante acumulador de energia Rumo às estrelas com a Lâmpada Voadora O lado sombrio da antimatéria Antimatéria e ciência Até onde chega o pensamento

CAPITULO XIII

Magia e Ciência Jacques Bergier 141

Fatos, apenas fatos Magia e Farmacologia Ferreiros, alquimistas, mágicos Magia e eletricidade A água e seus segredos

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Hipnose e sugestão Magia e substâncias aromáticas Para

terminar, uma tentativa de explicação Primeira hipótese: o acaso

Segunda hipótese: um saber mais elevado do que a ciência

Terceira hipótese: saber antiquíssimo

CAPITULO XIV

Assim viveremos em 1984 Jacques Bergier 153

Como vejo nosso futuro Será ganha a batalha da água Como não se tomar um número? Podemos tornar-nos imortais? Problemas que se solucionaram por si A linguagem da ciência para todos Novas ciências Ciência fatal Uma nova guerra religiosa Drogas, Tempo e Espaço O homem não está mais insatisfeito

CAPITULO XV

Brincadeiras de guerra com computadores eletrônicos Jacques Bergier 166 Um mundo louco Habitantes de Marte pousam na Terra Desmonte os aviões para protegê-los IntuiçÕes erradas são caras

Um futuro possível: bases na Lua Três documentos para

evitar o irrevogável Que seres humanos são esses?

CAPITULO XVI

Gigantes no Universo os Quasares Jacques Bergier 177

Nasce uma nova física Que são quasares? Grande como uma galáxia ou menor do que uma estrela? A teoria de Hoyle e Narlikar A misteriosa gravidade Mundos que se criam cons-tantemente? Existirá um código astronómico, tal como existe um genético? A ideia de Hoftmann: Pior do que a antimatéria

CAPITULO XVII

Possibilidades nunca antes imaginadas Jacques Bergier 189

A ligação entre cérebros torna possível levarem-se várias vidas Comando de máquinas por meio de pensamentos As drogas podem criar gente melhor? Poderá a psicoqufmica vencer o medo que o homem moderno tem da vida? Pílulas de inteligência? Drogas eliminam Espaço e Tempo Computadores eletrônicos talvez solucionem esses problemas

CAPITULO XVIII

A Maravilha da Célula Jacques Bergier 199

Uma viagem aos limites de nosso saber Células programadas produzem quaisquer substâncias desejadas e causam mutações Cérebros eletrônicos de matéria viva? Imagens de televisão a cores com micróbios produzidos industrialmente A célula nos revelará o segredo da imortalidade física? Amebas do tamanho de bois Células como espiões magistrais Reconstrução de um ser vivo a partir de uma única célula A célula encerrará o segredo da evolução?

CAPÍTULO I

Algumas reflexões iniciais

Louis Pauwels

"Eu sabia que, ao deixar a pátria, o homem é acometido de certa nostalgia. Sei agora que sentimos coisa parecida quando deixamos a Terra, mas não sei como se deveria chamar esse

sentimento..."

German Titov

UANDO NÓS, Jacques Bergier e eu, publicamos o livro Partida para o Terceiro Milénio, não esperávamos atrair tão grande público. Com nosso trabalho visávamos a um efeito de profundidade, queríamos despertar o ânimo de algumas pessoas, mas nunca pensávamos num efeito em expansão, pois simplesmente não podíamos imaginar que tanta gente iria reagir favoravelmente.

A publicação do livro foi precedida de longos anos de pesquisas em numerosos ramos da ciência, como física, biologia, história, mística, literatura, etc. Queríamos tentar estabelecer certa harmonia entre o pensar antigo, mágico, e o pensar de nossa época. A realidade passada e a futura foram demonstradas sob o aspecto do fantástico; o livro terminava com uma visão das grandes perspectivas futuras da humanidade.

Nunca cessei de fazer a mim próprio as três perguntas que através dos tempos agitam a humanidade para as quais ela talvez tenha encontrado resposta no decorrer de sua longa viagem, na qual frequentemente perde sua bagagem de vista: De onde viemos? Que somos? Para onde vamos? No livro Partida para o Terceiro Milénio nada mais fizemos senão repetir as mesmas perguntas, mas o fizemos de um modo inteiramente atual, bárbaro mesmo, como pessoas acossadas, em situação aflitiva, que se defendem a um só tempo com todas as armas de que dispõem, do dardo ao foguete, da fórmula mágica à equação matemática.

Vivemos numa época na qual os pontos de interrogação de súbito assumiram proporção gigantesca, de modo a se projetarem muito além de nosso planeta. As indagações fundamentais da humanidade readquiriram sua importância elementar. A meu ver está em tempo de deixarmos o "Meu Deus, por que eu sou eu?", de Stendhal, e perguntarmos "Meu Deus, por que nós somos nós?". Quando, num mundo das massas, dos projetos que envolvem o globo e dos mitos cósmicos, num mundo que se revela muito diverso do que até agora se supunha que fosse e no qual também o homem sente que com ele se processa uma transformação fundamental, tentamos por toda parte passar apenas com psicologia subjetiva, toda e qualquer psicologia acaba por desvanecer-se. Sem dúvida é dolorosa para os privilegiados a transição do indivíduo para o coletivo (e correspondentemente do psicológico para o metafísico), sendo pois compreensível que dela recue a literatura, que visa quase exclusivamente ao enalteci-mento do indivíduo, voltada para a procura da ventura pessoal. Mas isso equivale a esquivar-se à própria vida. Numa carta a Constance Malleson escreveu Bertrand Russell a extraordinária frase: "Antes de morrer devo ainda encontrar uma "possibilidade de expressar o essencial que existe dentro de mim e que nunca ainda exprimi, algo que não é nem amor, nem ódio, nem compaixão, nem desprezo, mas que é o hálito quente da própria vida, vindo de longe, que traz para a vida humana a força imensurável, assustadora, admirável, inexorável das coisas sobre-hu-manas".

Na sua maioria, os trabalhos literários da França de hoje lembram os insignificantes rabiscos feitos por sonolentos participantes, com meticulosidade obstinada e absurda, durante uma longa conferência. Como que sonhando acordado, de mau humor, o escritor se refugia tanto mais em brincadeiras complexas, em seu canto de menino zangado, estreita tanto mais seu horizonte, quanto mais intimamente o destino individual é ligado ao destino de toda a humanidade e quanto mais no terreno do saber as várias disciplinas se fundem numa exposição conjunta. Balzac expôs Paris ou a província; em suas obras amava-se segundo os distritos urbanos, sendo que o XVI distrito desempenhava o papel principal. Ergue-se dessa literatura das individualizações um cheiro de mofo, ao passo que uma brisa fecundante sopra sobre todo o nosso planeta e a história real, por nós vivida, no âmbito das ideias, da técnica, dos problemas sociais, se compõe de fenómenos de massas, enquanto a consciência individual, na previsão de uma consciência nova, planetária, cósmica, passa por um doloroso processo de ampliação. Já no século XIX o lamen-

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tável Maurice de Guérin, dilacerado entre a vaidade e o vago pressentimento de verdades mais elevadas, procurou escapar à fartura azeda e proferiu palavras que também na boca de muitos contemporâneos nossos, empenhados em esbanjar seu talento, ficariam bem: "Meu Deus, por que nos queixamos de nosso isolamento? Também eu vivi muito tempo possesso dessa mania. Naquele tempo vivia de modo completamente errado; eu tinha estabelecido relações ilegítimas entre as criaturas e meu eu mais íntimo, e tive de sofrer muito, pois a criação me negava o rico tesouro de suas alegrias e, por causa dessas relações ilegítimas, me excluía de seu círculo mais estreito. Na mais profunda solidão, eu desesperava; para mim a Terra era pior do que uma ilha erma, completamente deserta, um mar encapelado. Um silêncio amedrontador me envolvia. Que absurdo era isso! Quem souber se enquadrar na harmonia universal e abrir a alma a todas as impressões dessa harmonia, não conhece isolamento".



Quando o fatal torvelinho que nos arrasta consigo tiver serenado, quando depois de todas as tormentas se elevar da terra o aroma fresco e vivificante de uma nova sociedade e de uma nova civilização, verificar-se-á com assombro quão pouco espaço nossa literatura cedeu a tais ocorrências. Ela não só se mantém afastada dos grandes acontecimentos políticos e militares de nossa época, mas também da profunda inquietação, fonte primordial desses acontecimentos, e das grandes perspectivas que através deles se tornam visíveis. "Não há no mundo nada mais belo do que compreender o que se passa à sombra das espadas" escrevia Kipling. No entanto, não o parecem sentir as testemunhas das violentas batalhas de nosso tempo, esses autores que nos enfadam com fatos simulados em vez de nos contarem histórias coletivas verídicas. Quando se lêem os romances de hoje sente-se mais ou menos o mesmo que um chinês moderno em face dos poemas de flores de chá de um literato da década de trinta: os derradeiros e desvairados idílios de um mundo em vias de se acabar.

Mas quem somos nós para nos atrevermos a criticar e a fazer tais censuras? Não ensinamos nenhuma filosofia, não fundamos nenhuma escola, não somos sábios conselheiros. Somos simplesmente homens que procuram. Demarcamos o terreno: dentro de nossa área fica tudo quanto alimenta em nós a consciência de sermos contemporâneos não só de nosso tempo mas, nesta época agitada, que avança com crescente velocidade, também contemporâneos do futuro. Na sua maior parte a literatura se fundamenta na suposição de que o homem não se transforma, ou melhor, na crença de que, a despeito de todas as alterações nas estruturas fundamentais, o mecanismo do cérebro, os processos

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biológicos e as mais profundas camadas psíquicas, enfim, tudo quanto perfaz o Homo sapiens, tal como o vemos tradicionalmente, não se modifica. A chamada literatura comprometida duvida tão pouco dessa crença como a chamada literatura burguesa. Em Bourget como em Zola, em Montherlant como em Sartre, o homem é sempre o mesmo Homo sapiens, embora em situações diversas. Nós, porém, somos de opinião que esta maneira de ver o homem, embora numa determinada fase da evolução histórica sem dúvida tenha sido lógica, é demasiado limitada. Ela não corresponde aos fatos reais de civilizações antigas, baseadas na magia, e nem ao da civilização futura, baseada na técnica. Tanto em relação ao passado remoto como ao futuro próximo, somos inundados com informações que, pelo menos como hipótese, nos obrigam a admitir que apesar de tudo o homem não poderá ser reduzido ao esquema tradicional, que as forças de sua inteligência e suas faculdades talvez sejam (ou podiam ser) diferentes daquilo que em geral supomos. Absolutamente não queremos defender um ocultismo paracientífico, com o qual hábeis charlatães se adaptam à moda do dia. Mas, tanto na física teórica como na fisiologia cerebral, torna-se visível a possibilidade de estados de consciência até agora nunca imaginados; sociólogos progressistas chegaram a compreender que as atuais modificações no mundo também modificarão o homem, que verá a si próprio e o mundo com novos olhos, cujo destino tomará novos rumos. Teilhard de Chardin e C. S. Lewis introduziram ideias novas, revolucionárias, até no baluarte da teologia cristã. Somos por isso de opinião que a literatura, tanto da esquerda como da direita, desde que tente incluir nos limites do Homo sapiens tradicional uma realidade humana maior e mais fantástica, se volta para o passado. Por isso está fora de nossa esfera, voltada para o futuro.



"Em escala cósmica ensina-nos a física moderna só o fantástico tem probabilidade de ser real", escreveu Teilhard de Chardin. E Oppenheimer: "Chegamos assim a saber o quanto o mundo é descomunal". E Haldane: "A realidade não é apenas mais fantástica do que acreditamos, é muito mais fantástica ainda do que tudo quanto podemos imaginar". Acreditamos, pois, que do verdadeiro realismo moderno faz parte o fantástico, tanto no plano do cósmico como no plano da psicologia, da história ou da sociologia. Mas que vem a ser o "fantástico"?

Para a maioria das pessoas "cultas" o fantástico é uma lesão das leis da natureza, é o aparecimento visível do impossível. Tal como o extraordinário e o bizarro, é um aspecto do pitoresco.

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Acreditamos, porém, que ocupar-se com o pitoresco é tentativa inútil, é ocupação burguesa. Para nós o fantástico absolutamente não é o resultado de uma lesão, é antes uma manifestação das leis da natureza, o resultado de um contacto com a realidade, quando esta é compreendida diretamente, sem ser falsificada através do filtro de nossos antigos ou modernos preconceitos.



Como todas as civilizações, a nossa é uma conspiração. Grande número de pequenas divindades, cujo poder deriva exclusivamente do nosso consentimento tácito de não as por em dúvida, desvia ininterruptamente nosso olhar do aspecto fantástico da realidade. A conspiração nos leva a renunciar voluntariamente à convicção de que no mundo por nós habitado ainda exista outro mundo e no homem que conhecemos ainda exista outro homem. Temos de sair à força deste pacto e escapar ao círculo dos conspiradores. Podemos fazê-lo empregando de modo diferente os conhecimentos que temos à nossa disposição, estabelecendo novas relações entre os vários campos do saber, vendo os fatos com olhos que não se atêm às hierarquias tradicionais em suma, se nos portarmos no mundo do espírito como criaturas inteligentes, que vieram de outro lugar e se esforçam só e unicamente por reconhecer a verdade. Se procedermos assim, sempre perceberemos a realidade e ao mesmo tempo o fantástico.

Tal atitude vem ultimamente sendo assumida por amigos nossos, jovens matemáticos, físicos e biólogos. Um deles, Charles-Noel Martin, especialista em física nuclear, nos escreveu: "A ciência absolutamente não é apenas o que nos leva a crer na tradição do século XIX; ela é tudo quanto, com nossas forças intelectuais, podemos imaginar que existe dentro de nós e no mundo exterior; mesmo o que é fora do comum não deve ser excluído nem desprezado, pois não podemos dizer nem prever como será o saber de tempos vindouros. Talvez se apoiará em noções a que nós, homens de hoje, não damos atenção, mas que nossos descendentes reconhecerão em seu verdadeiro significado e em seu papel no homem e no mundo exterior, já então explorado".

Nossa única meta consiste em abordar com essa atitude, acessível a tudo quanto é novo, todos os campos do saber, sobretudo as ciências que dizem respeito ao homem: psicologia, pesquisa de culturas extintas, sociologia, história, etc. Chega-se assim a um mundo que é tão maravilhoso, perturbador e estranho como o mundo do biologista, do físico, do astrónomo ou matemático. Há coesão em tudo. Procedendo-se assim, encontra-se uma multiplicidade de ousadas hipóteses, de fatos maravilhosos e fora do comum; com algumas novas verdades abala-se uma profusão de

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lendas e sonhos. Todos os métodos têm seu reverso; além de valiosos conhecimentos novos, cada um deles também traz consigo coisas duvidosas. Mas o essencial a nosso ver é a intenção real, embora oculta, de ampliar nossa concepção do Universo e nosso entusiasmo ante a multiplicidade de formas deste mundo e a crença em sua finalidade. Foram estes os três fatores que deram origem à Renascença.



Mas não é apenas nossa literatura que não consegue acompanhar o crescimento cada vez mais rápido do saber nem a rees-trúturação da sociedade humana que abrange todo o planeta e a consciência modificada que a humanidade adquiriu do próprio valor; é toda a nossa civilização. Seria tolice discutirmos apenas sobre literatura, seria uma escaramuça barroca na era da navegação espacial. Quando olhamos ao nosso redor vemos que por toda parte confluem correntes intelectuais que põem em dúvida a imagem tradicional do homem e do mundo. Diariamente che-., gam à nossa mesa de trabalho pilhas inteiras de livros e transparece do conteúdo de todos eles que o lugar da civilização, ainda hoje definida como moderna, está sendo tomado por uma nova civilização. Um romance de ficção científica soviético tem como tema a ideia do mutante ou um contacto com criaturas inteligentes do espaço cósmico. Na Inglaterra Priestley publicou um romance com o título Saturn over the Water, ainda bem mais ousado do que Départ pour le Troisième Millenaire. Na Alemanha, Ceram, que dedicou sua vida à interpretação do passado, de súbito muda completamente de tom e publica sob seu verdadeiro nome, Kurt Marek, Provokatorische Notizen (Notícias Provocadoras), nas quais, em nome do futuro próximo, se rebela contra as formas anquilosadas de nossa civilização. Poder-se-iam citar ainda numerosos exemplos desta espécie e de fato o faremos em nossa revista Planète. Ainda não foi despertada a atenção da coletividade; os novos conhecimentos ainda se limitam a poucas pessoas, que se prefere não tomar a sério, chamando-as de excêntricas. Mas nós agora sabemos como se originam as revoluções. Sabemos que já existe uma organização secreta muito ramificada, enquanto a maioria ainda acredita estar lidando com uma rebelião de uns poucos indivíduos isolados.

Naturalmente não temos a intenção de rejeitar sem mais nem menos em seu conjunto toda a nossa cultura humanística tradicional. Embora ela não corresponda mais a toda a realidade, ainda precisamos dela para poder responder a determinadas per-

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guntas que só podem ser respondidas com o auxílio da inteligência clara e do respeito incondicional à pessoa humana. Em todos os tempos tais perguntas são tão numerosas quanto urgentes e devemos ter o máximo cuidado em não descuidá-las. Desprezando-as estaríamos, em nossos esforços de ultrapassar o humanismo e avançar para o essencial, deixando à incultura a solução dos problemas mais momentosos. Não se pode confiar o trabalho nos laboratórios a génios, e o atendimento nos postos de primeiros socorros a bárbaros. Trata-se, ao contrário, de distinguir entre problemas, inteiramente diferentes uns dos outros em sua essência. Os problemas que nos ocupam requerem já não dizemos para solucioná-los, mas só para perceber que existem uma atitude mental que ultrapassa de muito o que pressupõe nossa civilização estabelecida. Como poderemos elaborar uma concepção do Universo que corresponda aos avanços das ciências naturais que tocam as raias do fantástico? Como poderemos conceber o futuro da humanidade em sua expansão e reestrutu-ração em escala planetária? Como pode o mundo íntimo do homem concatenar-se com uma realidade situada fora dele, que, como hoje sabemos, se estende ao infinito? Nada nos prepara para tão enormes perguntas e nada nos ajuda a respondê-las. "Vivemos hoje num mundo escreve Oppenheimer no qual poetas, historiadores e filósofos declaram cheios de orgulho que nem de longe pensam na possibilidade de aprender alguma coisa que tenha algo a ver com ciências naturais; para eles a ciência está situada no extremo de um longo túnel que é comprido demais para que um homem avisado ousasse ainda que fosse apenas meter a cabeça dentro dele. Nossa filosofia se é que a temos é pois inequivocamente anacrónica e de nenhum modo adaptada ao nosso tempo." É verdade que os cientistas com demasiada frequência são anfitriões pouco amáveis. Só poucos opinam como o Dr. Burton, que "se presta um desserviço à ciência quando se desencorajam os leigos interessados". Isso, porém, é uma dificuldade fácil de se vencer. Absolutamente não temos a pretensão de criar uma nova filosofia. Queremos unicamente deitar numerosas sondas em todas as direções, lançar novas perguntas e ficar à espera de novas respostas. Diz um antigo rifão: "Quem faz muitas perguntas frequentemente parece tolo, mas quem não faz nenhuma é tolo a vida inteira".



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