Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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LUIS FERNANDO

Verissimo


Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão

A agenda
Um homem chamado Cordeiro abre a agenda em cima da sua mesa de trabalho e vê escrito: "Comprar arma”.

Ele não se lembra de ter escrito aquilo. Como tem agenda justamente para ajudá-lo a se lembrar das coisas, compra uma arma, mesmo não sabendo para quê.

No dia seguinte, vê na agenda: "Marcar almoço com Rodrigues."

Mais uma vez, não se lembra de ter escrito aquilo, nem tem qualquer razão para almoçar com o canalha do Rodrigues. Mas marca o almoço. Durante o qual ouve do canalha do Rodrigues a notícia de que pretende se afastar da companhia e vender sua parte ao canalha do Pires, que assim terá a maioria e mandará na companhia, inclusive no Cordeiro.

Cordeiro insiste para que Rodrigues venda sua parte a ele e não ao Pires, mas Rodrigues ri na sua cara e ainda por cima não paga a sua parte no almoço.

Naquela tarde, Cordeiro vê na sua agenda: "Matar Rodrigues. Simular assalto." E o dia e a hora em que deve acontecer o assassinato, sublinhados com força.

E na mesma folha: "Providenciar álibi: lancha."

Lancha? Cordeiro vira a página. Lá está o plano, meticulosamente detalhado. Sair com a lancha no domingo, assegurando-se de que todos no clube o vejam sair com a lancha, encostá-la em algum lugar ermo onde deixou seu carro no dia anterior, ir de carro até a casa de Rodrigues, matá-lo, jogar a arma fora, voltar de carro para a lancha e voltar de lancha para o clube, onde todos o veriam chegar como se nada tivesse acontecido. É o que faz.

Na segunda-feira, Cordeiro arregala os olhos e finge estar chocado quando chega à firma e ouve do Pires a notícia de que houve um assalto no fim de semana e o Rodrigues foi baleado, e está morto.

Pires revela que estava desconfiado de que Rodrigues iria vender sua parte na companhia a Cordeiro. Pretendia marcar um almoço para discutir o assunto com o canalha do Rodrigues, mas no dia Rodrigues dissera que tinha outro compromisso para o almoço.

Na saída do escritório, Pires diz que na última reunião dos três sócios tinha saído por engano com a agenda do Cordeiro e pergunta se por acaso o Cordeiro não ficou com a sua agenda.

Ou então:

Na segunda-feira, Cordeiro arregala os olhos e finge estar chocado quando chega à firma e ouve do Pires a notícia de que houve um assalto no fim de semana e o Rodrigues foi baleado, e está morto.

Os dois marcam uma reunião para tratar do que fazer com a parte do Rodrigues, mas não chegam a um acordo e brigam. Naquele mesmo dia, Cordeiro vê escrito na sua agenda: "Incriminar Pires."

É o que faz. Orientado pela agenda, consegue plantar pistas falsas e convencer a polícia de que Pires matou Rodrigues porque este pretendia vender sua parte na firma a Cordeiro. Com Pires afastado, Cordeiro assume o comando da firma e a faz crescer como nunca ― sempre seguindo as ordens da agenda, que não erra uma.

Até que um dia a agenda lhe manda juntar todo o dinheiro em caixa na firma, vender o que for possível para levantar mais dinheiro e jogar tudo na bolsa. "Agora!", ordena a agenda.
Cordeiro jogou na bolsa todo o dinheiro que tinha, o seu e o da firma. Foi na véspera da grande queda. Perdeu tudo. Quando consultou a agenda de novo, desesperado, sem saber o que fazer encontrou apenas a frase: "Quem entende a bolsa?”.

E no dia seguinte:

"Comprar arma”.

A Carta do Fuás (1)


Posto que as notícias do achamento da terra nova já são da vossa ciência por relato de Pero Vaz de Caminha e outros, resumirei minha conta do que já sabeis, rogando o perdão de Vossa Alteza para o pecado que um escrevedor mais teme, o da redundância. Também rogo a Vossa Alteza que não duvide da minha sanidade, estou lúcido e verdadeiro como só um condenado pode estar. Não porei aqui mais do que aquilo que vimos, ouvimos e nos pareceu, a mim e a Vasco de Ataíde. Pois quem vos escreve é Fuas Roupinho, escrivão embarcado com Vasco de Ataíde na nave tresmalhada, de cujo desaparecimento vos deu conta o Caminha.

Mudo de parágrafo para que Vossa Alteza refaça-se do susto que lhe causaram meu nome e o do meu capitão. Faz parte da arte de escrever a distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas mouras. Assim respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão, e não pretendo que esta carta seja uma enclausura onde vosso espanto procure a saída em vão, como uma freira tomada de fogos, um fantasma novato num mausoléu, ou um traque num calção. Respire, rei, e prepare-se para estranhezas. Vossos navegadores não vos deram apenas este mundo, destamparam muitos outros. Horrores e maravilhas, horrores e maravilhas.

Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março.

Sabe também Vossa Alteza que o mais difícil das viagens não é o Mar e as suas fúrias e o Desconhecido e seus monstros, o mais difícil é sair de Portugal. Somos a raça da saudade, eternamente divididos entre o chão e o além, entre o ficar e o ir. Portugal, com os braços e a garganta da minha mulher, me segurava no cais, como se o Restêlo fosse vivo e chorasse e ralhasse. As pragas da minha mulher não se dirigiam só a mim, mas a todos os navegadores, a todos os homens que viajam, a todos da História que não ficaram. Para o que queria mais mundo quem já tinha Portugal? Tudo, disse ela, pela vaidade, pela fama vã, pelo que tira o Homem de casa. Ali, sobre o cais, éramos menos uma família do que uma alegoria. Um quadro do Portugal indeciso entre ser o que já era e ser outro, entre o campo e o mar, a agricultura e a epopéia, a amável pequenez e a odiável, mas soberba, conquista. Minha Maria bem representava o Portugal agropastoril que precisava ser deixado, com sua cor de terra virada, seus tufos, seus cheiros e suas lamúrias reincidentes. Eu me via como o Portugal que precisava ir, e substituir a epopéia semanal de descobrir Maria sob os seus camisolões, sempre a mesma Maria, repetindo-se como as estações, e montá-la, pela aventura de descobrir novas terras sob outros céus, e ocupá-las. Era o passado que me segurava, era o Tejo que molhava o meu ombro, perguntando-me para o que queria mais água quem já tinha tal rio. Desgrudei-me finalmente dos braços de Maria, mas as suas pragas me seguiram como cachorros raivosos, rampa acima. Ela nunca entendeu que saímos de Portugal para ter saudade de Portugal, que Portugal na nossa saudade é como Portugal preservado numa salmoura de afetos. Que entre o aqui e o lá, preferimos o lá, mas estando aqui.

Domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde. Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu de nós o resto da frota, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para os achar, a uma e outra parte, mas não mais apareceram, até meses mais tarde, quando os reencontramos neste porto de Calicute, onde comparamos aventuras sob a sombra das cimitarras árabes, que em breve nos atacarão. Pois também chegamos ao mesmo sítio a que chegaram Cabral, Caminha e os outros, mas não ao mesmo tempo, e sim 500 anos depois.

Vê Vossa Alteza que abri outro espaço para vosso desfalecimento, ou qualquer outra manifestação coreográfica de incredulidade. Enquanto vos refazeis, conto o meu conhecimento do Caminha, que se pode medir em garrafas, az-zebibs e anos de conversa nas tabernas de Lisboa. Tão bem ele me conhece que garantirá minha honestidade. Aliás, foi de Caminha a idéia, lançada numa mesa de escritores da Alfama, de viajarmos todos com a esquadra de Cabral num barco só de escrivães, abandonada quando nos vimos discutindo se o barco precisaria de um piloto ou se nossas interpretações das nuvens e exegeses criativas das correntes nos levariam ao destino, qualquer destino, e então descobrimos que o vinho nos empurrara, como solerte vento levantino, para a Terra da Bobagem. Seria o barco mais divertido da frota, ainda que dado a derivas depressivas, polêmicas corcoveantes e conflitos de estilos a bordo, e o único que os choques de teses e vaidades ameaçariam mais do que as tormentas do Mar Oceano. E que não dependeria de chegar a nenhuma terra para descrever seus sortilégios, pois qualquer guirlanda flutuante é uma Ilha Afortunada se bem imaginada qualquer lombo de baleia a Última Thule das lendas gregas, se bem contado. Mas sabe o Caminha que não invento, pois não se comem tantas azeitonas com um homem sem lhe conhecer o coração. E do Vasco de Ataíde não se duvide, pois é um nobre português e descrer da nobreza é desesperar da Humanidade.

Vimos-nos sozinhos num mar sem ondas, o Tejo sem as margens, com as velas murchas e os olhos grandes. E subitamente alguém apontou com terror para o horizonte e todos viram um rosto gigantesco com as bochechas estendidas, como os sopradores de vento que ilustram os mapas, e de tal força foi o sopro dos seus lábios quilométricos que o barco disparou sobre a água com as velas insufladas ao máximo e todos agarrados ao fixo mais próximo que os salvasse de ficar para trás, e sentimos que tínhamos sido impelidos para outro mar, ou o mesmo mar em outro mundo. E houvemos vista à terra e vimos o que viu Caminha. O monte a que chamaram Pascoal e as serras mais baixas e a terra chã. Mas o que vimos e fizemos depois em nada se pareceu ao que viram e fizeram eles. Pois, Senhor, tínhamos passado por um portal do tempo e chegamos à vossa nova terra quando nova já não era.

No ancoradouro em que aportamos, 500 anos depois, haviam barcos fundeados, obra de 10 ou 12, mas que pouco se pareciam com as naus de hoje. Vimos que no futuro o velame será imenso, o que permitirá que os barcos cheguem a vários andares de altura e várias funduras de quina, e com tal amplidão que seria possível aos navegadores portugueses atenderem ao secreto desejo da sua alma e levarem o Restêlo na viagem. Mas o Restêlo lá já estava! Além do cais erguia-se uma cidade não muito diferente de Lisboa ou do Porto. Nossa chegada foi saudada com fogos de artifício e bandeiradas, tiros de pólvora seca das naus e muito ruído da multidão. Desfilamos, escoltados, pelas ruas da cidade, vendo de perto a felicidade e a prosperidade de todos, e todos nos festejavam sem que para isso houvesse razão forte. Depois se explicou a alegria: tomaram a nossa nau como uma réplica das naus de 500 anos antes, e nossa chegada como uma comemoração do achamento da Papagália, pois assim será chamada a terra nova no ano 2000.

De nada adiantou falar do portal do tempo e do vento misterioso que nos lançara da costa da África para a costa do inexplicável. Não o entenderam e riram-se muito, e nos discursos que fizeram no banquete em nossa honra, em sua língua arrevesada que parecia português falado pelo nariz, julguei ouvir elogios aos recém-chegados, que tinham cruzado o oceano não numa casca de noz, mas numa imitação de casca de noz e mereciam tantos brindes com aguardente quanto era grande a sua coragem. Naquela noite todos os tripulantes dormiram com sete mulheres cada um, pardas e brancas, salvo o Ataíde, que dormiu abraçado com um crucifixo. E só eu encanei quatro, por diante e por trás, antes de sumir dentro de mim num sorvedouro de aguardente. E vi que no banquete o aguardente era servido a todos em taças de ouro.

Já o capitão viu outra coisa. Para Vasco de Ataíde os tiros de recepção no porto não eram de festim, eram de verdade, fomos escoltados através das ruas da cidade e das suas multidões maltrapilhas como prisioneiros, o banquete não foi um banquete, foi um interrogatório, e os brindes foram orações de exorcismo, pois nos tomavam como enviados do Demônio. Contou Ataíde que, contrariando sua natureza fidalga, teve de mentir como um cigano, dizendo que não éramos uma manifestação maligna, mas estávamos a recriar a viagem de 500 anos antes, em todos os detalhes, do velame aos cadarços e dos calções ao sotaque. E fez isso com grande dificuldade, pois em 500 anos o Homem, se aprendeu a construir barcos gigantescos, desaprendeu o latim. E assim os bispos, pois eram bispos, aceitaram que não éramos visitantes de outro mundo e sim encenações dos primeiros portugueses. E se isso pouco mudou seus humores, pois ali não tinham grande veneração pelos antepassados nem achavam que seu começo era de muito se festejar, pelo menos, segundo Ataíde, nos salvou da grelha. Mas fomos avisados para não nos misturarmos ao povo do Novo Portugal, pois assim Ataíde entendeu o nome futuro de Vera Cruz. O povo era ignorante e supersticioso, e mal distinguiria uma falsa pronúncia antiga de uma das línguas do Diabo.

E Vasco de Ataíde confirma que o vinho era servido em taças de ouro, mas só para os senhores e os bispos. (Continua)


A carta do Fuás (2)


(Descoberta recentemente, por acaso, dentro de uma caixa de sapatos na Torre do Tombo, a carta de Fuas Roupinho, escrivão da frota de Cabral embarcado com Vasco de Ataíde na nau dada como desaparecida, e que um vento misterioso impeliu para a costa brasileira e, segundo o seu autor, para 500 anos depois, dá uma visão holística da nova terra, pois as versões de Fuas e de Vasco de Ataíde sobre o que viram no ano 2000 não podiam ser mais diferentes, e mostram as duas maneiras como o futuro do Brasil foi imaginado pelos descobridores. Já que a carta, ao que tudo indica, é imaginária.) Na vossa nova terra, Senhor, tudo será compartilhado e o que for de um será de outro. Das histórias conservadas do achamento, como relatou Caminha, as mais contadas em Papagália serão as das trocas com o gentio. De como os portugueses davam barretes vermelhos e carapuças de linho e sombreiros e recebiam em troca muito mais do que davam, e para cada barrete recebiam 10 cocares, para cada carapuça 12 colares e para cada sombreiro 20 papagaios.

Em Papagália, nos dias de festa, os nobres dão tudo do que é seu para os plebeus, e os plebeus dão tudo do que é seu para os nobres, e os nobres vivem como plebeus e os plebeus como nobres até a festa seguinte, quando destrocam tudo, pois a terra é rica e haverá para todos. Mas assim não viu meu capitão, Vasco de Ataíde, para quem o resultado de 500 anos em que um chapéu português valerá 20 papagaios na nova terra e um papagaio valerá 20 chapéus novos em Portugal será uma classe de nobres como 20 vezes 500 mais chapéus do que a outra, e que não trocará nada com ninguém.

Vimos, para a alegria de Vossa Alteza, o ouro e a prata que Cabral e Caminha não viram, e vimos a sua abundância. Ouro, prata, diamantes, tudo tem a vossa terra para ter Felicidade. E será feliz (digo eu) e não será feliz (diz o Ataíde). Vi que todos beberão em taças de ouro, viu o Ataíde que disso só farão os senhores e os bispos. Vi putos do tamanho da minha meia-perna jogando com diamantes nas ruas, enquanto Ataíde só viu diamantes nos jogos da corte, onde um dos costumes é comê-los e cagá-los, pois descobrindo diamantes no próprio barro os nobres têm o prazer diário da garimpagem sem o desconforto da aventura ou de deixarem o litoral, além da lembrança da sua superioridade sobre bestas e pobres com sua merda sem conteúdo, e, mais ainda, saúde, pois a passagem de diamantes enobrece tripas que de outra forma seriam só tripas.

Para mim o encontro da inocência dos pardos com a bondade lusitana inaugurou um país como antes não havia, "Dulcia incognita", doçura inédita, uma Arcádia portuguesa. O povo é o mesmo que Caminha viu nas praias, mas com uma alma cristã e 500 anos de educação clássica e atruística, além das vergonhas tapadas, e com eles muitos portugueses queimados do sol e igualmente pardos.

Fazem tão pouco da vã fortuna de todos que a prata é usada nos telhados e nos urinóis. Já Ataíde diz que encontramos o Paraíso antes da Queda, adões e evas antes da Culpa Feliz que os condenaria e salvaria, pois é preciso pecar para ser regenerado. E diz que salvamos os inocentes corrompendo-os, trazendo-os como comparsas ou escravos para a corrente da História, para o pântano do vício, para a ambição e o comércio e o torvelinho das dúvidas, para que tais provações lhe dessem o paraíso depois da Morte. Em Novo Portugal, no ano 2000, Vasco de Ataíde viu um antevestíbulo da Eternidade onde pardos e plebeus juntavam misérias para merecer lugares no Céu e senhores juntavam riquezas para comprá-los, e os bispos intermediavam.

Aqui em Calicute, muito discutimos com Caminha e os outros o fato de os pardos usarem arcos e setas como as usávamos antes de a pólvora nos trazer suas bênçãos, pois certamente eles não tinham notícia das Escrituras, onde os homens da Europa tinham buscado suas artes de matar com distância: a funda de Devi, as lanças dos essenitas e os arcos e as setas dos assírios no cerco de Jerusalém. Uns desconfiam que aqueles homens são descendentes de uma das tribos perdidas de Israel, o que explicaria o seu conhecimento bíblico, do que outros discordaram, visto que nenhum tinha as vergonhas circuncidadas. Outros pensam que o arco e as setas foi uma idéia que nasceu com o homem e era uma das ciências naturais de Adão, ao contrário da besta e das armas de fogo, produtos da civilização moderna. Contei que em 2000 haverá bestas de seis e sete e até oito setas apontadas para todos os lados menos para trás, para caçar de tudo menos o caçador, mas as maiores armas de guerra serão gigantescas Catapultas Hipotéticas, enormes instrumentos de ataque que ninguém saberá como funcionam, dado que Papagália não fará guerra com nenhuma outra ilha. Haverá um exército só para manter, pintar, polir e azeitar os grandes instrumentos que não terá como disparar, pois o único que sabia morreu sem passar o segredo, já que nunca foi necessário. E as Catapultas Hipotéticas ficarão em seus lugares e só sairão para desfilar em dias de festa cobertas de crianças e flores. Em Papagália a pólvora só será usada em fogos de artifício e folguedos de rua, e só haverá explosões nos ares em dias de grande festa. Concordei que arco e setas é uma das ciências naturais que Deus insuflou em Adão pelas narinas, só não tendo certeza como a ciência passou dos descendentes de Adão para os outros seres, como os que encontraram em Vera Cruz, e por que os outros seres, imitando o arco e as setas, também não imitaram as falas e as vestimentas cristãs. Vasco de Ataíde diz que Novo Portugal será fortificado, pois muitos serão os inimigos que cobiçarão nosso entreposto privilegiado para as especiarias do Oriente, e os exércitos existem para garantir o comércio. E sobre o arco e as setas disse Vasco de Ataíde que são a única coisa comum a todos os homens da Terra, cristão ou não, além do membro desonesto, circuncidado ou não.

Em Calicute também muito falamos das moças da nova terra, e das suas vergonhas altas e cerradinhas, tão limpas de cabeleiras, como as viram Caminha e os outros. E ouvindo sobre as partes glabras das moças, lembrei-me da minha Maria, cujo vaso natural tem a cercá-lo um jardim chumacento como um quintal das Terras Altas onde muito chove, e como existem sob as fraldas nobres que conhece Vossa Alteza, salvo se na corte for diferente. E se me subiu, num mesmo assomo, a saudade de Portugal e a ventura de aí não estar.

Contei que 500 anos depois muito se falará de outros éfes, além de Fortuna, Fama e Fé, que chamarão os navegadores para os outros mundos. Éfes de Fêmeas Formosas com suas Fendas Fabulosas e Fechadas, mundos onde os montes das moças serão lisos e à toda vista e os montes da terra serão luxuriantes, ao contrário da Europa, onde os montes das moças vicejam escondidos e os montes da terra são lisos. E o mundo e a História agradecerão o quanto devem às partes peludas da Europa.

Em Papagália todos andarão com suas vergonhas tapadas, mas as destaparão para as festas e para o banho diário, que será público, no mar. Em 2000, homens e mulheres se vestirão da mesma maneira e só se lhes conhecerá o gênero quando se destaparem, e não existirá qualquer pejo em se mostrarem o um ao outro antes da cópula, para saber o que o um pode fazer com o outro, ou se vale a pena. Parecem todos despreocupados e felizes e pouco trabalham, pois riqueza há para todos, e frutas e legumes para quem pegar. Vasco de Ataíde diz que não viu homens e mulheres copulando como animais contentes, não viu nobres e plebeus colhendo as mesmas frutas e legumes, ou nobre brando e plebeu feliz, ou todos se entregando juntos ao vício árabe do banho freqüente, e que o que Portugal dará ao mundo, louvado seja Deus, será outro Portugal.

Em Papagália, os papagaios terão grande prestígio e devoção. Em 500 anos de convívio com os portugueses e intercâmbio com a Terra Mestre desenvolverão um português próprio, que usarão com desenvoltura. Terão a expressão, a inflexão, a entonação e a garrulice humanas, mas não terão o raciocínio, e se manifestarão sobre todos os assuntos com grande animação, mas pouco sentido. O que será a causa do seu prestígio e devoção entre as gentes, pois darão a impressão de transmitir idéias quando apenas transmitem barulho agradável, e em Papagália barulho terá mais valor do que idéias, por ser mais pacífico. Serão tão amados os papagaios que terão privilégios que os bispos e os nobres não terão no Segundo Paraíso, e serão chamados de "Comunicadores" em gratidão por nada comunicarem. Para Vasco de Ataíde, em Novo Portugal os papagaios serão venerados e formarão uma casta, mas serão mantidos pelos bispos e os nobres para distrair os plebeus e os pardos das suas misérias. Pois que tudo dizendo e não dizendo nada, pouparão o gentio de ter idéias articuladas, e dos malefícios do pensamento.

Em Papagália todos são súditos do rei de Portugal, vosso descendente, Alteza, mas na ilha não há governo, pois não carecem de nada do que faria um governo. Não usam dinheiro, portanto não precisam de impostos. Não fazem guerra, portanto basta um exército autogerido para polir as Catapultas Hipotéticas. E para os debates sem serventia e o divertimento, que são as outras funções do governo, há os papagaios. Vasco de Ataíde concorda que todos em Novo Portugal são súditos do seu magnífico descendente, Alteza, mas há um Vice-Rei que recebe ordens diretamente de Portugal quanto ao que gastar e o que fazer e finge que governa com um pequeno grupo de nobres que nunca muda, e os nobres fazem as leis para o seu próprio proveito. Mas há participação popular no governo, que é biparlatorial. No paço comunal existe um balcão abaixo, onde se reúne o povo para fazer suas reivindicações do governo, e um balcão acima, no qual o Vice-Rei e os nobres ouvem as reivindicações do povo, depois mijam nele.

Em duas coisas concordamos, eu e Vasco de Ataíde, sobre a terra nova, da qual uma ventania tão misteriosa quanto a primeira nos varreu de volta a 1500, e à rota para Calicute: que vossa grande ilha é deveras mui formosa e de muitos bons ares, e que 500 anos depois o nome de Vossa Alteza venturosa continuará a ressoar nas terras portuguesas e nos mares entre elas. Escrevo, Alteza, com a morte me lambendo os pés. Não sei que rancores Cabral despertou nos locais, que preferem o nosso sangue a bons negócios. Caminha já se foi, transposto por uma cimitarra. Não sei o que é feito de Vasco de Ataíde, meu vinagroso capitão. Não sei quantos escaparão com vidas para beijar o chão do Restêlo, e vossas mãos. Escrevo estas últimas linhas com meu próprio sangue. A verdadeiro escrivão pode faltar vocabulário e papel, mas jamais faltará tinta. Tive que fazer minha última escolha, entre segurar a espada com a destra e a pena com a outra, e assim bem esgrimar com os incréus, mas mal escrever, ou a pena com a destra e a espada com a outra, e assim escrever melhor e viver menos. Vê Vossa Alteza que preferi a boa caligrafia à boa defesa. Se alguma posteridade eu tiver, que venha como um exemplo para os escrevedores do futuro: que sejam caprichosos e claros, mesmo sendo mentirosos.


A Cidadezinha Natal


Idéia para uma história. Homem chega num carro com motorista a uma cidadezinha do interior. Manda estacionar o carro na única praça da cidadezinha, em frente à única igreja, e diz para o motorista ficar esperando no carro enquanto ele inspeciona a cidadezinha a pé. Não leva muito tempo. A cidadezinha é quase nada. A praça, a igreja, a prefeitura, algumas casas em volta da praça, poucas ruas. O prédio mais alto da cidadezinha tem quatro andares. É o que fica em cima da maior loja da cidade, a Ferreira e Filhos, que vende de tudo.

O homem entra no único boteco da praça, pede uma cerveja e puxa conversa.



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