Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página14/44
Encontro05.12.2017
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   44

Como poderia ser uma história de terror de Quarta-Feira de Cinzas?

Havaiano e mascarada misteriosa, que veste a máscara e pouca coisa mais, conhecem-se no sábado de carnaval e, na madrugada da quarta-feira, estão num motel, onde ele finalmente poderá fazer o que passou quatro dias dizendo que queria fazer, beijá-la todinha, começando pelos lábios, descendo pelo pescoço, chegando aos seios e...

― Meu Deus.

― O que foi?

― Acho que furei alguma coisa. Está vazando.

― É o silicone.

― O que?

― O silicone! Foi na sua boca?

― Acho que sim. Por que, é venenoso?

― Não sei. Acho que não, mas...

― Ai meu Deus.

― Você engoliu?

― Sim. Não. Não sei.

― Tinha que morder, tinha?

― Me descontrolei, pô. Um peitão desses...

― Agora a culpa é minha...

― Você podia ter avisado.

― Avisado o quê? Não morde que espirra?

― Sei lá, eu... Ai, ai, ai.

― O quê?

― Estou ficando tonto.

― Calma. Vamos para um hospital.

― Hein?

― Onde está o seu sarongue?

― Não sei, eu... Acho que estou ficando cego.

― É impressão sua.

― Estou com taquicardia!

― E o meu peito está murchando! Olha o que você fez!

― O quê? Eu aqui morrendo e você preocupada com o seu peito?! Você tem outro peito, eu só tenho esta vida!

― Você não está morrendo.

― Ah, não? Não enxergo mais nada. Meu coração está disparando. O silicone chegou ao sistema nervoso!

― O silicone não tem esse efeito.

― Como é que você sabe? É como os transgênicos: ninguém sabe qual é o efeito.

― Vamos para o hospital. Cadê o sarongue?

No carro, ela dirigindo, combinam o que vão dizer no hospital. Possível ingestão acidental de silicone líquido. Como aconteceu?

― Não fala no meu peito.

― Por que não?

― Vão querer examinar, e ele não está apresentável. Vamos ter que inventar uma história. Você tentou se matar.

― Engolindo silicone?

― Não, tranqüilizantes. Formicida. Qualquer coisa. Seja o que for, vão fazer uma lavagem no seu estômago.

― Sabe que eu já estou me sentindo melhor?

― E a cegueira?

― Está passando.

― E a taquicardia?

― Passou.

Ela pede para ele levá-la em casa. Ele estaciona o carro quando ela diz "É aqui". O dia está raiando. Ele começa a mordiscar a sua orelha, depois beija a sua boca, o seu pescoço, e seus lábios vão descendo para beijar o outro seio, o cheio.

― Cuidado ― diz ela.

― Gosto de viver perigosamente ― diz ele. Mas promete que não vai morder.

Ela afasta a cabeça dele e diz que precisa estar em casa antes que o Sol se levante. Só quando ela desce do carro é que ele se dá conta que estão em frente de um cemitério.

― Você mora... aqui?

― Não, bobo diz ela. ― Ali.

E aponta um edifício no outro lado da rua.

Os dois combinam se encontrar de novo assim que ela consertar o seio.


Destino (continuação)

Um homem chamado Romildo encontra um livrinho de endereços caído na calçada.

Aberto na letra "A". Vê o nome "Ada" e pensa: "É essa." Ele é um homem solitário. Esperou a vida inteira que o destino desse um sinal do que tinha lhe preparado e ali está o sinal. Um livrinho de endereços caído na calçada, aberto no nome "Ada".

Ele vai ao endereço de Ada e sente, ao vê-la, que encontrou a mulher que esperava a vida inteira. Mas Ada mente, diz que sabe de quem é o livrinho e por isso ficará com ele, para devolvê-lo ao dono. E manda Romildo embora.

Romildo sai da nossa história.

Ada fica com o livrinho de endereços. Não reconhece nenhum dos outros nomes.

E sente que foi o destino que lhe trouxe o livrinho e não aquele homem insignificante de quem nem guardou o nome. O que eu quero, o que eu esperei a vida inteira, está nesse livrinho, pensa Ada. Que também é solitária e mora com um gato. Ada fecha os olhos e deixa o seu dedo escolher uma folha do livrinho. Deixa o seu dedo fazer o trabalho do destino. E seu dedo escolhe a letra "H". E um nome, Henrique. "É esse", pensa Ada.

Ada vai procurar Henrique. É recebida por um homem mais velho, cabelo pintado, de robe de cetim e que mora com a mãe. Enquanto Henrique examina o livrinho, no qual também não reconhece nenhum outro nome, Ada examina seu apartamento, e agradece ao destino que a trouxe ali. Tudo no apartamento lhe agrada. O homem, apesar do cabelo acaju, a decoração, até a mãe. Ada sente que encontrou quem esperava a vida inteira. Mas Henrique também mente, diz que sabe de quem é o livrinho e que ficará com ele e o devolverá ao dono.

Agradece a Ada, despede-se, por pouco não a empurra para a porta. Ada sai, arrasada, do apartamento e da história. Não fica nem com o livrinho, para poder escolher outro dos nomes trazidos pelo destino e pensar "É esse".

Henrique fica maravilhado com as possibilidades do livrinho. Sente que será uma aventura intelectual, descobrir a identidade do dono de um livrinho de endereços através dos nomes que ele contém. Cada nome uma personalidade, cada nome uma história. "Uma boa idéia para um conto", pensa. Mas também pensa nas possibilidades eróticas, dentro do seu robe de cetim. Todos aqueles nomes desconhecidos, esperando o seu bote... Escolhe um nome sob a letra "R". "Rudy". Só "Rudy", o telefone e o endereço. "É esse", pensa Henrique. Quem sabe o destino não lhe trouxe um grande amor, ou no mínimo uma grande noite? Decide começar a investigação por Rudy.

Mas Rudy é uma decepção. Para começar, "Rudy" não é nome, é sobrenome.

Octacílio Rudy. Henrique chega esperando um Rudy jovem disposto a não só ajudá-lo a descobrir a identidade do dono do livrinho como, quem sabe, acompanhá-lo num fim de semana em Paraty, e encontra um Octacílio velho, casado, barrigudo e mal-humorado, que não tem a menor idéia de quem é o livrinho de endereços. E não quer muita conversa. Henrique decide abandonar seu instinto e adotar a lógica, e começar o livrinho pelo começo. Pelo "A".

O primeiro nome é, deixa ver... Ada, claro. Essa ele já conheceu e sabe menos do que ele. O segundo nome é Andradino. Doutor Andradino.

Quem abre a porta é uma senhora. E uma senhora agitada. Que diz "Foi o destino que mandou o senhor!" antes que Henrique possa explicar porque está ali. A senhora conta que é a mulher do doutor Andradino. E o doutor Andradino Henrique, sem dúvida, sabe quem é: o da biblioteca. O da biblioteca? O da famosa biblioteca. A biblioteca das estantes até o teto, só com livros raros e das primeiras edições encadernadas. Pois o doutor Andradino é um homem cultíssimo, um homem que só lê os clássicos e um salafrário. Um quê? "Ele está me enganando!" grita a senhora. "Depois de velho, arranjou outra. Está na casa dela neste momento!" E a senhora conta que o doutor Andradino dera para sair de casa todas as tardes, ele que durante anos raramente saíra da biblioteca. E ela o seguira até a casa da outra. Naquela mesma tarde, seguira o marido pela rua, até a casa da outra.

Mas não tivera coragem de bater na porta e flagrar o salafrário com a amante, provavelmente de cuecas. Por isso Henrique caíra do céu, para isso o destino o trouxera até ela. Henrique deveria bater na porta da outra casa, com um pretexto qualquer, e depois contar o que vira. E só quando Henrique já está saindo, com o endereço da casa da outra no bolso, a senhora pergunta: "Quem é o senhor, mesmo?"

O doutor Andradino entreabre a porta e diz "Pois não?" Henrique conta a história do livrinho de endereços perdido. Talvez o doutor Andradino possa identificar o dono do livrinho. Talvez, conversando, os dois cheguem a um amigo ou conhecido em comum e solucionem o mistério. O doutor Andradino concorda e deixa Henrique entrar. Henrique nota que ele estava lendo uma revista Caras e marcou o lugar com um dedo. Há várias Caras, Chiques e Famosos, Contigo, etc. espalhadas pela pequena sala. Numa estante ao lado de uma poltrona, que é quase o único móvel da casa, toda a coleção do Harry Potter, Paulo Coelho e outros best sellers recentes, além de livros de bolso descartáveis, com capas lúbricas. A Noite do Lambe-Lambe, etc. Nenhum sinal de amante. Henrique compreende que a casa é um refúgio, onde o doutor Andradino, homem cultíssimo que só lê os clássicos, vem ler o que gosta, escondido dos outros e longe da sua biblioteca famosa. Encerram sua conversa sem concluir quem é o provável dono do livrinho e só quando Henrique já está saindo o doutor Andradino pergunta: "Como é que o senhor sabia que eu estava aqui?”

Henrique não responde. Sorri e de despede. Na rua, consulta o livrinho. O nome seguinte é Belinha. Belinha! Que personagem será esse? Qual será a sua história? O endereço não é longe dali. Henrique toma o seu destino.

Destino, ou o livrinho de endereços


Idéia para uma história. Uma mulher chamada Ada recebe um visitante. Se a história se passasse há alguns anos o visitante simplesmente bateria na porta do apartamento de Ada. Como se passa hoje, o visitante precisa dar uma longa explicação no interfone do portão antes de ser admitido no prédio. E a explicação não é fácil.

Ada não entende o que o homem quer. Como é?! O visitante tenta de novo.

Encontrou um livrinho de endereços na rua. Quer devolver o livrinho, mas não sabe de quem é. O primeiro nome com endereço no livrinho, sob "A", é o dela.

Ada. Ela talvez possa ajudá-lo a descobrir o dono do livrinho perdido.

Ada hesita, depois diz "Entra". (E segue-se o diálogo conhecido. "Abriu?"

"Não." "Hein?" "Não abriu." "Abriu?" "Agora sim." A repetitiva linguagem da era do medo.) Ada (seus 35, 36 anos, não exatamente bonita, mas atraente, solteira, funcionária pública, mora sozinha, gato) examina o visitante (moço, boa cara, algo triste) antes de desengatar a corrente e deixá-lo entrar. O livrinho de endereços é uma agenda de bolso, capa preta e está cheio de nomes. Ada o folheia. Não reconhece nenhum nome. Além do seu, claro. Mas diz:

"Ah, acho que já sei" Finge que sabe de quem é o livrinho, diz que se encarregará de devolvê-lo, pode deixar, agradece ao visitante, por pouco não o empurra porta a fora.

Ele já cumpriu o seu papel. Ada sente que quem bateu na sua porta não foi aquele homem de quem nem ficou sabendo o nome (Romildo), foi o Destino. O seu horóscopo para aquele dia dizia que alguém chegaria com novidades e seria o que ela esperara toda a sua vida. O que ela esperara a vida toda poderia estar naquele livro de endereços que o Destino botara em suas mãos.

O dono do livrinho não era seu íntimo. Colocara seu nome e sobrenome, antes do endereço e do telefone. Podia ser uma mulher, mas a letra parecia ser de homem. Quem seria? Ela não conhecia nenhum dos outros nomes. Obviamente, não andavam nos mesmos círculos, não tinham nenhum amigo em comum. Talvez um daqueles nomes fosse o que ela esperara a vida toda. Meu Destino está neste livrinho, pensa Ada. E fecha os olhos e vira cegamente as páginas do livrinho, esperando que seu coração lhe diga onde parar. E pára numa página do "H". O primeiro nome que vê é "Henrique". Só "Henrique", sem sobrenome. É esse, pensa Ada.

"Henrique" tem um endereço e um telefone. Telefono ou vou procurá-lo? Vou procurá-lo, decide. Assim vejo como ele é. Posso não reconhecer o que eu esperei a vida toda no primeiro olhar, mas certamente saberei à primeira vista se ele não for o meu destino. Onde é mesmo o endereço? Vou ter que tomar um táxi. Valerá a pena, se "Henrique" for o que eu espero. Meu Deus, que "Henrique" seja o que eu espero. Que meu horóscopo esteja certo!

"Abriu?" "Não." "E agora?" "Ainda não... Abriu, abriu!" Não foi fácil para Ada explicar pelo interfone o que fazia ali, mas Henrique finalmente a deixou entrar. Está esperando na porta aberta do seu apartamento. Veste um robe de seda. Como o meu pai! pensa Ada, cheia de esperança. Ele é baixo, com o cabelo obviamente pintado, mas não é desagradável. "Moro com a minha mãe", diz Henrique, indicando a mulher magra que não desgruda os olhos da TV quando Ada entra. Ada quase diz "Eu tenho um gato", mas se contem, para não parecer que está comparando as experiências. Henrique ouve o que Ada tem a dizer sobre o livrinho, depois examina o livrinho. Ele não é desagradável, pensa Ada. A decoração do apartamento é de muito bom gosto, a mãe pode ser um problema mas...

― Sei de quem é! ― exclama Henrique.

― Como?

― Sei de quem é esse livrinho. Vou devolver pra ele. Pode deixar. E Henrique já está de pé. Ada não sabe o que fazer.

― Mas... ― começa.

Henrique estende a mão para depedir-se dela.

― Muito obrigado, viu? Tenho certeza que ele lhe telefonará, para agradecer pessoalmente.

― Quem?


― O dono do livrinho.

Na rua, Ada se amaldiçoa. Amaldiçoa a falta de um táxi, amaldiçoa o seu Destino. "Henrique" obviamente não era o que ela esperara a vida toda. E agora não tem nem o livrinho para escolher outro nome.

No seu apartamento, Henrique folheia o livrinho, cheio de oportunidades. Não reconhece nenhum dos nomes, mas quem sabe que deliciosas aventuras não se esconderão entre suas capas pretas? Como aquele "Rudy", sob "R", por exemplo? Sem falar no desafio literário que será descobrir tudo sobre alguém a partir unicamente do seu livrinho de endereços, nome por nome por inédito nome...

Em outro ponto da cidade, Romildo também se amaldiçoa. Sentiu que o Destino lhe dava um sinal, quando encontrou o livrinho de endereços caído na calçada, aberto na primeira página, na página de Ada. Ada! É essa, pensou. E Ada em pessoa era tudo o que ele queria, era o que ele esperara a vida toda.

Não exatamente bonita, mas atraente. E sozinha como ele. Mas a visita a Ada tinha sido um fracasso. Ela dissera que devolveria o livrinho de endereços ao seu dono, o botara para fora, e ponto final.

Detalhes
Rupert Brooke nunca foi considerado um grande poeta, mas, como era um moço bonito, escrevia versos românticos e morreu durante a 1ª Guerra Mundial, com 28 anos, ficou como símbolo da juventude dourada inglesa mandada para aquela carnificina, a primeira e última guerra democrática, em que graduados de Oxford e Cambridge e a massa foram sacrificados nas mesmas trincheiras.

Um dos seus poemas mais famosos, The Old Vicarage, Grantchester, é uma espécie de suma sentimental da Inglaterra vista de longe, de um paraíso pastoral lembrado por um dos seus exilados numa Europa em decomposição, em suas evocativas linhas finais "Stands the Church clock at ten to three?/And is there honey still for tea?" E foi Rupert Brooke quem escreveu, no começo da guerra, o chamamento poético ― intitulado 1914 ― para a sua geração de aristocratas ir morrer com glória pelos verdes campos ingleses. No poema ele antecipa sua própria morte, com palavras que dariam arrepios em guerreiros românticos ainda por nascer. "If I should die, think only this of me:/That there's some corner of a foreign field/That is forever England." (E seu eu morrer, pense apenas isto de mim: que há um canto numa terra estranha que será para sempre a Inglaterra.) Brooke morreu servindo na Marinha inglesa, na Ilha de Skyros, onde está sepultado, e onde há um monumento à sua memória. Pelo monumento não se fica sabendo que ele não morreu em ação e sim vítima de disenteria. Mas o velho John Ford dizia que, quando os fatos desmentem a lenda, se deve publicar a lenda. Um pequeno detalhe antipoético não deveria ter o poder de transformar o mito de um jovem deus trágico numa história de ardor juvenil frustrado, significando muito pouco.

Esquecido o detalhe, permanecem a morte prematura numa terra estranha e o símbolo, literariamente satisfatório, de patriotismo ou de juventude martirizada. De qualquer forma, a poesia vence a disenteria.

Pelo menos Brooke morreu moço. Se vivesse muito, os detalhes se acumulariam e ele não teria a reputação que tem hoje, e que cresce apesar dos seus versos e do fim sem glória. Razão teve o Taffarel quando decidiu que sua biografia esportiva estava pronta e recusou a convocação para a seleção do Luxemburgo. Estava recusando a possibilidade de vexames que comprometessem a lembrança que ele quer deixar. Não deu chances ao tempo para desmoralizá-lo com mais detalhes. Com o tempo, os detalhes estragam qualquer biografia.

O policial se envolve em torturas que voltarão para acusá-lo, o político contradiz seus próprios ideais na prática... É o tempo, é o tempo. O tempo é danado para destruir reputações. E qualquer pessoa que não morre aos 28 anos ele toma como provocação.


Deus
Um cenário limpo. Fundo azul. Deus fala para a câmera.

"Meus filhos, boa noite. Eu sou Deus Vosso Senhor. Se me permitem a imodéstia, acho que não preciso me apresentar. Meu currículo é conhecido de todos. Criador do céu e da terra, etc. A minha vida é um livro aberto, e se chama Bíblia. Minha assessoria me advertiu que estaria havendo uma certa falta de comunicação entre nós e que existiriam algumas dúvidas sobre o meu trabalho, os meus métodos ― enfim, sobre qual é a de Deus, afinal. Por isto, optamos por este formato de uma conversa descontraída, sem trovões, sem relâmpagos, sem efeitos especiais ou anjos com clarins, apenas um papo informal entre Criador e criaturas.

Antes de mais nada, quero esclarecer que, ao contrário do que alguns jornais andaram publicando, escolhi a Globo para falar com vocês do Brasil por uma razão muito simples, que não tem nada a ver com ibope, cachê, favoritismo ou qualquer prevenção com o Ratinho. É que o dr. Roberto foi o único que me contatou diretamente.

E aqui estou eu para responder às suas perguntas. Sei que muitas vezes o que eu faço parece incompreensível. Quantas vezes você não se perguntou por que eu fiz isto ou aquilo, não é verdade? Quantas vezes, quando estragou o ar condicionado no cinema ou o filme saiu de foco, você não olhou para o alto e disse "Ó, Deus!", cobrando uma providência divina? Quantas vezes você se perguntou por que existem os desastres naturais, e a caspa, e aquele nervinho da carne que fica preso entre os dentes, e o Sérgio Naya, e os alarmes de carro que disparam e não aparece ninguém para desligar, e a colher que cai dentro do molho e depois lambuza a mão, e a doença, e a morte, e o IPMF? Por que alguns tiram a sena acumulada e eu não ganho nem rifa? Qual é a de Deus, afinal? Pensam que eu não sei? Eu sei de tudo. Sei o que você pensa a cada minuto. Pelas minhas costas ninguém fala!

Posso responder a todas as suas perguntas. O caso do "El Niño", por exemplo. Como todos sabem, o tempo é o maior problema da minha administração. Requer uma organização imensa, difícil de controlar, e os encarregados nem sempre estão à altura das suas tarefas. Mantenho o São Pedro na chefia do setor porque foi um dos nossos primeiros companheiros, mas há muito ele perdeu seu interesse no trabalho e o resultado é que o clima do mundo está essa confusão. Estamos tentando melhorar, no entanto, e pensando, inclusive, em terceirizar o serviço, e em pouco tempo tudo voltará ao normal. Aproveito a oportunidade para dizer que são infundadas as notícias de que um meteorito se chocará com a Terra em breve e a destruirá. Não temos nenhum plano de acabar com a Terra num futuro próximo, inclusive porque ela tem um grande valor sentimental para nossa família.

Selecionei algumas cartas para responder no ar. A Ivani, de Londrina, Paraná, me pede para arranjar um encontro dela com o Fábio Junior. Ivani, acho que você não pegou bem o espírito do programa. E o Leôncio, de Santo Antônio, no Rio Grande do Sul ― velho Antônio ― escreve: "Gostaria que o Senhor explicasse para que existem as unhas do pé." Aí está, uma pergunta objetiva e séria. Para que servem as unhas do pé. Deixa ver. As unhas do pé, por que eu criei as unhas do pé... Faz tanto tempo... Mas vejo que o nosso tempo está se esgotando. Mandem as suas cartinhas! Tentarei explicar todos os meus atos numa linguagem acessível, sem tecnicalês, que qualquer leigo pode entender. Se preferir telefonar, o prefixo do céu é 02, porque 01 são os Estados Unidos. Só não atenderei se estiver em reunião. Ou então usem meu e― mail, Poderosíssimo@com.ceu.

Até a próxima, e fiquem comigo."


Os crus e os podres


Gourmet amigo meu, que acabo de inventar, chegou a um ponto de fastio com a vida e a comida. Diz que vai concentrar-se nos dois extremos do espectro culinário e ignorar todo o aborrecido resto. Vai concentrar-se no cru e no podre.
São duas áreas gastronômicas que oferecem uma variedade surpreendente. Nos crus, ele pode escolher entre ostras frescas e outros mariscos, o carpaccio e as demais carnes cruas fatiadas, a carne crua picada que os franceses chamam de "Tartare" e os alemães, claro, de um nome muito maior, os peixes crus dos japoneses e todos os vegetais e legumes que podem ser comidos "in natura" depois de um banho para tirar os tóxicos.
Mas são os podres que o fascinam. Ele acha que a podridão é a maneira de a comida escapar do arbítrio do cozinheiro e encontrar seu próprio ponto de consumo. É quando a comida se come! O charque ou carne-de-sol não é apenas carne podre. É a carne como ela mesmo se pretendia, antes de ter seu processo de maturação rudemente interrompido por algum assador afoito. O peixe à escabeche é o peixe que saiu da água, passou incólume pela civilização e voltou à natureza. Já que a podridão é o caminho natural de todas as coisas.

Tudo que é orgânico procura a podridão, se realiza na podridão. É este momento mágico de auto― indulgência que ele quer saborear nos alimentos. Quer ser cúmplice do alimento no momento em que ele se torna repugnante ao paladar comum, e, portanto, só acessível aos poucos que o compreendem. E, só para não humilhar seus ouvintes com um excesso de argumentação, nem cita todos os gloriosos resultados do leite estragado, como o queijo. O que dirá um certo legendário iogurte turco que, segundo a tradição, só pode ser comido cem anos depois da morte da cabra que deu o leite ou quando o armário em que está guardado explodir, o que vier primeiro.




Diálogo das pombas

Quando Collor caiu, inventei um diálogo entre carpas do seu lago na Casa da Dinda. As carpas discutiam a corrupção em Brasília. Collor não há mais, a Casa da Dinda, suponho, mudou de dono, e se ainda há carpas no seu lago certamente não são mais as mesmas. Brasília e a corrupção continuam.

Em vez de carpas num lago artificial, imagine pombas dialogando na Praça dos Três Poderes.

― Viu só? Agora querem um Código de Ética.

― Triste país em que a ética precisa de um código para ser entendida.

― A culpa é de Brasília, que está distante de tudo. Aqui tudo precisa ser reinventado, até a ética. Aqui o poder é apenas uma forma hierarquizada de solidão. Em Brasília nenhuma multidão é uma multidão, são vários solitários juntos.

― Literatura. A culpa é de Brasília porque foi aqui que começou o Brasil moderno, ou o Brasil refém. Primeiro, refém das empreiteiras. Juscelino inaugurou o regime sob o qual vivemos e do qual tudo o mais é decorrência: a ilicitocracia. O governo por licitação suspeita, o lobby como programa, o "quanto eu levo nisso" como lema, a propina como sistema e as relações públicas como justificativa histórica. Ao mesmo tempo que desbravávamos o nosso oeste político rompíamos a barreira moral que nos mantinha agropastoris e atrasados e nos privava da mola universal do progresso, que é o superfaturamento. Depois as financeiras substituíram as empreiteiras mas o resto continuou igual. Inovamos o processo: aqui o refém é sempre o mesmo e mudam os bandidos.

― Não, não, é algo no ar. Algo na luz, algo no chão. A construção de Brasília mexeu com o que não era para ser mexido, despertou um monstro enterrado, furou um veio maligno. Isso que anda por aí não é mau caráter, é escapamento. Collor respirou estas emanações na adolescência. Era um filho da profanação. Aquilo não era falta de escrúpulos, era intoxicação.

― Mas o Jader, por exemplo, não é daqui.

― Mas foi aceito como um filho. Só a um filho se permitiria chegar tão longe, sabendo-se o que se sabia dele. Só uma mãe adotiva seria tão compreensiva.



1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   44


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal