Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Mas aí surgiu a décima oitava ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões. Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que "obsedante" e "obcecante" eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse "Rará", depois disse que "obcecante" era com "c" depois do "b", eu disse que não, que também era com "s", fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada ainda mais debochada e eu não me agüentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela. A gente agüenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente. Arrogância intelectual, não.


A Dividida


Raimundo entrou firme, Luiz Carlos voou longe. A bola espirrou pela linha de fundo...

― Pô, Mundo! ― disse Luiz Carlos, do chão.

― É pra homem ― disse Raimundo. E em seguida foi pra cima do juiz, que tinha dado escanteio. ― Bola prensada! Bola prensada!

No vestiário, Luiz Carlos mostrou a perna para o Raimundo.

― Olha o que você fez.

― É do jogo, meu.

― Do jogo, não. Tu é que é um animal.

A discussão continuou no carro. Luiz Carlos dava carona para o Raimundo.

Todas as terças, do condomínio para o ginásio, do ginásio para o condomínio.

Os dois se conheciam desde a adolescência. Eram sócios numa firma de engenharia. Eram cunhados. Moravam em casas pegadas, no mesmo condomínio.

Sempre jogavam no mesmo time. Naquela noite, Raimundo fora aliciado pelo outro time. Tinha fama de bom marcador. Viril, mas leal.

― Acho que vou ter que tirar uma radiografia.

― É, flor?

― Pô, tu ainda brinca?

― Não foi nada. Eu entrei na bola.

― Entrou por cima.

― Na bola! Você é que entrou com pé de anjo.

― Olha o que o seu irmão me fez.

― O Mundo fez isso?

― Fez. Entrou por cima da bola. Não sei como eu não quebrei a perna.

― O time de vocês anda bom, hein? Um trombando no outro...

― Ele jogou no outro time. É um animal.

― O Mundo, um animal?

― Você nunca viu ele numa quadra. Se transforma.

― O Mundo é incapaz de matar uma mosca.

― Porque elas fazem o que eu não fiz. Pulam fora.

Na manhã seguinte, se encontraram, cada um saindo da sua casa. Luiz Carlos mancando, Raimundo caçoando.

― Pensei que você estivesse no hospital...

― Olha aqui, ó troglodita. Não fala comigo ― Na UTI!

― Isto é o que dá jogar contra perna-de-pau.

― Ah é? Eu sou perna-de-pau? Eu sou viril, mas leal, se você quer saber.

Viril, mas leal.

― Viril, mas leal... Assassino, mas traiçoeiro, isso sim.

― Eu divido, meu irmão.

― E eu?!

― Você pipoca.

― Eu não acredito... Você entrou por cima da bola, Mundo.

Admite.


― Entrei na bola!

― Por cima!

A discussão continuou na reunião das quartas, na firma. Ficou tão violenta que a reunião teve que ser suspensa. Decisões importantes foram adiadas porque os dois não quiseram mais se falar, naquele dia ou no resto da semana. E no sábado, pela primeira vez desde que tinham se mudado para o condomínio, as duas famílias não fizeram o churrasco juntas. Cada um fez na sua churrasqueira. E proibiu a mulher e os filhos de se aproximar da mulher e dos filhos do outro.

No domingo, as mulheres decidiram que aquilo já fora longe demais.

Convenceram os dois a sentar para conversar. Como amigos. Como parentes.

Como sócios. Como adultos.

― Foi inveja ― disse o Raimundo.

― O quê?!

― Deixa o Mundo falar, Luiz Carlos ― pediu a mulher dele. ― Depois você fala.

O Raimundo contou que tinha sido convocado para reforçar o outro time, que sempre perdia nos jogos das terças. Justamente porque não tinha um jogador como ele. Bom marcador. Viril, mas leal. E o Luiz Carlos ficara com ciúmes por não ter sido o escolhido. Porque o Luiz Carlos, para quem não soubesse, era um ciscador, dado a brilhaturas inúteis, ao contrário dele, que entrava para decidir jogos. Tanto que o seu time fora o vencedor, naquela noite. Por ciúmes, o Luiz Carlos tentara acertá-lo numa bola dividida, e ele apenas se defendera. Por ser apenas um ciscador inconseqüente, e não saber dividir bola, levara a pior.

Luiz Carlos estava com o rosto escondido entre as mãos, como que envergonhado pelo outro. Levantou a cabeça quando Raimundo acabou de apresentar o seu lado.

― Posso falar? Você já acabou de mentir?

― Fala.

― Dividir bola é uma coisa. Entrar com o pé por cima da bola é outra. Não é uma questão de estilo. É uma questão de ter ou não ter caráter.

― É uma questão de ser ou não ser veado.

― Veado não!

― Sabe de uma coisa? A firma só foi pra frente nestes anos todos porque eu estava lá pra dividir todas. Eu dividia enquanto você pipoqueava.

― "Pipoqueava", não!

A reunião de paz terminou em guerra declarada.

Na firma, a situação ficou insustentável. Negócios foram perdidos porque os dois se recusavam a se encontrar. Acabaram desfazendo a sociedade.

Abandonaram o condomínio. Perderam dinheiro. Os dois, aliás, estão muito mal de vida. Mas nenhuma reconciliação é possível. Segundo Raimundo, no mundo há os que dividem a bola e há os que não dividem. Segundo Luiz Carlos, o mundo está dividido entre os que vão na bola e os que vão com o pé por cima. E quando as mulheres perguntaram como os dois tinham vivido e trabalhado juntos em paz durante tanto tempo, os dois responderam a mesma coisa. Era porque nunca antes tinham jogado um contra o outro.

A Estrategista

Bete recomenda um conjunto escuro e sóbrio, mas com um decote que mostre o rego dos seios. O rego dos seios é importantíssimo. O viúvo precisa ter uma amostra do que existe por baixo do terninho compungido já no abraço de pêsames.

Bete tem um método de prospecção de viúvos. Procura convites para enterro em que não conste "netos". De preferência nem "filhos". É um sinal de que a mulher morreu jovem. Falecida moça igual a viúvo moço. Precisando de consolo imediato.

O ideal é quando há mais de um convite. Quando a firma do marido também convida para o enterro. E dá a posição do viúvo na vida. "Nosso gerente", ótimo. "Nosso diretor-financeiro", melhor ainda. "Nosso diretor-presidente", perfeito! Um diretor-presidente com 40 anos ou menos é ouro puro. Segundo a Bete.

Bete dá instruções.

― Aumenta o decote. Isso.

― O que que eu digo?

― Chore. Diga "Eu não acredito". Diga "A nossa Pixuxa."

― "Pixuxa?!"

― Era o apelido dela. Estava no convite.

― A nossa Pixuxa. Certo.

― E não esquece de beijar perto da boca, como se fosse descuido.

Bete não cobra pelo seu trabalho. Faz pelo desafio, pelo prazer de um desfecho feliz, cientificamente preparado. Quando consegue "colocar" uma das suas amigas, sente-se recompensada. Não é verdade, como dizem alguns, que tenha informantes nos hospitais de primeira classe da cidade e que muitas vezes, quando a mulher morre, ela já tenha um dossiê pronto sobre o viúvo, inclusive com situação financeira atualizada. Trabalha em cima dos convites para enterro, empiricamente, com pouco tempo para organizar o ataque. Procura se informar o máximo possível sobre o viúvo, depois telefona para uma interessada e expõe a situação.

― O nome é bom. Parece que é advogado. Entre 55 e 60 anos. Aproveitável. Dois filhos, mas já devem ter saído de casa.

― Entre 55 e 60, sei não...

― É pegar ou largar. O enterro é às 5.

Bete vai junto aos velórios. Para dar apoio moral, e para o caso de algum ajuste de última hora. Como na vez em que, antes de conseguir chegar no viúvo, sua pupila foi barrada pela mãe dele, que perguntou:

― Quem é você?

A pretendente começou a gaguejar e Bete imediatamente colocou-se ao seu lado.

― A senhora não se lembra da Zequinha? Uma das melhores amigas da Vivi e do Momô.

Era tanta a intimidade que a mãe do Moraes, embora nunca soubesse que o apelido do seu filho fosse Momô, recuou e deixou a Zequinha chegar nele, com seu rego.

Foi um dos triunfos da Bete. Naquele mesmo ano, o Moraes e a Zequinha se casaram. Alguns comentavam que tudo começara no enterro da pobre da Vivi, outros que o caso vinha de longe.

Ninguém desconfia que foi tudo planejado. Que havia um cérebro de estrategista por trás de tudo.

Bete tem medo das livre-atiradoras, das que invadem o seu território sem método, sem classe, enfim, sem a sua orientação. Quando o viúvo é uma raridade, uma pepita ― menos de 40, milionário, quatro ou cinco empresas participando o infausto evento, sem herdeiros conhecidos, e bonito ― Bete faz questão que sua orientada chegue cedo no velório, abrace o prospectado ("A nossa Ju! Eu não acredito!"), beije-o demoradamente perto da boca, por descuido, e fique ao seu lado até fecharem o caixão, alerta contra outros decotes. Ela deve até tornar-se uma confidente do viúvo.

― Essa que me cumprimentou agora... Não tenho a menor idéia quem é.

― Eu também, nunca vi.

― Não é uma amiga da Ju?

― Vulgar assim? Acho que não.

E a Bete cuida da retaguarda. Observa a aproximação de possíveis concorrentes e, quando pode, barra o seu progresso em direção ao viúvo. ("Por favor, vamos deixar o homem em paz.") De tanto freqüentar velórios, Bete já conhece a concorrência.

Sabe que elas vêm dispostas a tudo. Quando o viúvo é muito importante e forma-se uma multidão à sua volta, dificultando o acesso, abrem caminho a cotoveladas. Não hesitam nem em ficar de quatro e engatinhar, entre pernas, até o viúvo. A Bete compreende. Sabe o valor de um bom viúvo em tempos como este. Por isso se sente justificada em usar qualquer meio para impedir o sucesso das outras e assegurar o sucesso das suas. Até a coação física e moral.

"Estamos numa selva", diz a Bete, para encorajar suas discípulas. E as instrui a não desanimar quando não conseguem prender a atenção do viúvo no velório. Afinal, sempre existe a missa do sétimo dia.


A Famosa Samanta


― Quer dizer que eu finalmente vou conhecer a famosa Samanta... ― disse Gustavo.

― Você vai amar a Samanta, Gu! ― disse Suzaninha.

Suzaninha não parara de sorrir desde que recebera o telefonema da irmã dizendo que chegaria no dia seguinte e ficaria com eles. Samanta não era apenas sua irmã mais velha. Era o seu ídolo. Gustavo já cansara de ouvir as histórias da Samanta que Suzaninha contava com os olhos brilhando. Samanta fumando na mesa para desafiar o pai, e apagando o cigarro no pudim para escandalizar a mãe. Samanta namorando três ao mesmo tempo e tratando os namorados como empregados ("Homem só serve para carregar peso" era uma das suas frases). Samanta não apenas aderindo a todas as causas nobres como assumindo a liderança do movimento. Samanta mandando em todos à sua volta, e sempre conseguindo o que queria. Samanta brilhante. Samanta fantástica.

Samanta irresistível.

Gustavo não estava em casa quando Samanta chegou. Suzaninha abraçou a irmã, emocionada, mas Samanta a afastou, examinou seu rosto e sua roupa e decretou:

― Você está péssima.

― Você está linda!

― Esse seu marido não cuida de você, não? ― Cuida. Ele é formidável. Você vai ver.

E depois:

― Você vai amar o Gustavo, Sam!

Samanta dormiria numa cama de armar na salinha do computador do Gustavo, que desocupara uma das suas estantes para a cunhada pôr suas coisas. Depois de examinar todo o apartamento com uma leve expressão de nojo ("Pequeno, não é?"), Samanta se atirara numa poltrona, aceitara uma bebida ("Coca daiti com uma rodela de limão e pouco gelo") e passara a fazer um relatório de casa, onde, para resumir, continuava tudo a mesma merda, inclusive o pai e a mãe.

A novidade era ela. Samanta tinha um plano.

― Suzeca, decidi ter um filho.

― O quê?!

― Um filho. Você sabe, aquelas coisas que saem de dentro da gente e fazem barulho.

― Mas assim, sem mais nem menos? Suzana queria dizer "sem casamento nem marido?" ― Sem mais nem menos, não. Será uma coisa muito bem planejada. Para começar, preciso encontrar o homem ideal. É para isso que estou aqui.

― Não era você que dizia que homem só serve para carregar peso? ― E segurar a porta. Era. Mas reavaliei meus conceitos. Também servem como reprodutores, até que inventem coisa melhor.

Segundo Samanta, só os mortos nunca mudavam de filosofia.

Samanta pôs-se a descrever o homem que procurava. O físico. O temperamento.

O jeito de ser. O posicionamento político ("De esquerda, mas não muito"). E quanto mais Samanta falava, mais Suzaninha tentava controlar o pensamento que a assolava, o vazio no seu estômago que aumentava, a certeza que crescia. Mas não havia como evitar a conclusão aterradora: Samanta procurava um homem como Gustavo. E Samanta sempre conseguia o que queria.

Quando finalmente Samanta disse "Mas chega de falar de mim, me conte sobre você, Suzeca. Você sente muito a minha falta?" Suzana tinha decidido o que fazer. E quando Samanta comentou que Gustavo estava custando a chegar, que não podia esperar para conhecer o famoso Gustavo, disse:

― Eu me esqueci. Hoje ele tinha médico.

― Médico? Algum problema? ― Nada demais. Quer dizer, é chato mas...

― Suzeca. Não me diz que...

Suzaninha fez que "sim" com a cabeça. Sim, era o que Samanta estava pensando.

― Disfunção erétil ― Suzeca! Mas hoje existem esses remédios...

― Nada funciona com o Gustavo.

Quando Gustavo chegou, deu com as duas irmãs abraçadas no sofá, Samanta acariciando a cabeça de Suzaninha e dizendo:

― Suzeca, Suzeca...

Durante o jantar, Suzaninha viu Samanta examinando Gustavo e pensou: "Ela deve estar pensando ele é tudo que eu queria, mas não serve, maldição, não serve, pobre da Suzaninha." E Samanta, examinando Gustavo, pensou "Hmmm, essa disfunção erétil eu curo, ah se não curo". Pois Samanta não apenas descobrira o reprodutor que queria, também descobrira outra causa nobre.

Suzaninha ainda a agradeceria.

A invenção do milênio


Qual foi a maior invenção do milênio? Minha opinião mudou com o tempo. Já pensei que foi o sorvete, que foi a corrente elétrica, que foi o antibiótico, que foi o sufrágio universal, mas hoje ― mais velho e mais vivido ― sei que foi a escada rolante. Para muitas pessoas, no entanto, a invenção mais importante dos últimos mil anos foi o tipo móvel de Gutemberg. Nada influenciou tão radicalmente tanta coisa, inclusive a religião (a popularização e a circulação da Bíblia e de panfletos doutrinários ajudaram na expansão do protestantismo), quanto a prensa e o impresso em série. Mas há os que dizem que a prensa não é deste milênio, já que os chineses tiveram a idéia de blocos móveis antes de Gutemberg, e antes do ano 1001, e que ― se formos julgar pelo impacto que tiveram sobre a paisagem e sobre os hábitos humanos ― o automóvel foi muito mais importante do que a tipografia. O melhor teste talvez seja imaginar o tempo comparativo que levaríamos para notar os efeitos da ausência do livro e do automóvel no mundo. Sem o livro e outros impressos seríamos todos ignorantes, uma condição que leva algum tempo para detectar, ainda mais se quem está detectando também é ignorante. Sem o automóvel, não existiriam estradas asfaltadas, estacionamentos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e provavelmente nem os Estados Unidos, o que se notaria em seguida. É possível ter uma sociedade não literária, mas é impossível ter uma civilização do petróleo e uma cultura do automóvel sem o automóvel. Ou seja: nós e o mundo seríamos totalmente outros com o Gutemberg e sem o automóvel, mas seríamos os mesmos, só mais burros, com o automóvel e sem o Gutemberg.

É claro que esse tipo de raciocínio ― que invenções fariam mais falta, não num sentido mais nobre, mas num sentido mais prático ― pode ser levado ao exagero. Não seria difícil argumentar que, por este critério, as maiores invenções do milênio foram o cinto e o suspensório, pois o que teriam realizado Gutemberg e o restante da humanidade se tivessem de segurar as calças por mil anos? Já ouvi alguém dizer que nada inventado pelo homem desde o estilingue é mais valioso do que o cortador de unhas, que possibilitou às pessoas que moram sozinhas cortar as unhas das duas mãos satisfatoriamente, o que era impossível com a tesourinha. Tem gente que não consegue imaginar como o homem pôde viver tanto tempo sem a TV e uma geração que não concebe o mundo sem o controle remoto. E custa acreditar que nossos antepassados não tinham nada parecido com teleentrega de pizza.

Minha opinião é que as grandes invenções não são as que saem do nada, mas as que trazem maneiras novas de usar o que já havia. Já existia o vento, faltavam inventar a vela. Já existia o bolor do queijo, faltava transformá-lo em penicilina. E já existia a escada, bastava pô-la em movimento. Tenho certeza que se algum viajante no tempo viesse da antiguidade para nos visitar, se maravilharia com duas coisas: o zíper e a escada rolante. Certo, se espantaria com o avião, babaria com o biquíni, admiraria a televisão, mesmo fazendo restrições à programação, teria dúvidas sobre o microondas e o celular, mas adoraria o caixa automático, mas, de aproveitável mesmo, apontaria o zíper e a escada rolante, principalmente esta. Escadas em que você não subia de degrau em degrau, o degrau levava você! Nada mais prático na antiguidade, onde escadaria era o que não faltava. Com o zíper substituindo ganchos e presilhas, diminuindo o tempo de tirar e botar a roupa e o risco de flagrantes de adultério e escadas rolantes facilitando o trânsito nos palácios, a antiguidade teria passado mais depressa, a Idade Moderna teria chegado antes, o Brasil teria sido descoberto há muito mais tempo e todos os nossos problemas já estariam resolvidos ― faltando só, provavelmente, a reforma agrária.

E o Homem do milênio? Se não foi o Gutemberg, quem foi?

Também depende dos critérios. Se o fato mais importante do mundo no fim do milênio é a globalização, então devemos honrar o homem que começou tudo isso: Gengis Khan. Foi ele que convocou as tribos das estepes e avançou contra o Ocidente, unindo a Europa no susto. Antes da ameaça dos mongóis, no século 13, a Europa era uma coleção de Estados monárquicos e papais em conflito, sem qualquer identidade continental ou interesse no restante do mundo. Gengis e seus ferozes descendentes mudaram tudo isto. Criaram entre os europeus a idéia de uma identidade comum, despertaram o seu interesse no Oriente e em outros povos e foram os responsáveis indiretos pelo Renascimento, no século seguinte. E dizem que foi um neto do grande Khan, ao reclamar da falta de gosto da comida européia antes de decapitar um garçom, que deflagrou a grande busca por especiarias que levou aos descobrimentos, ao comércio internacional e à civilização como nós a conhecemos. Nós, literalmente, não estaríamos aqui se não fosse o Gengis Khan. E a mulher do milênio, claro, é a Patrícia Pillar.

A Menina
Primeiro dia de aula. A menina escreveu seu nome completo na primeira página do caderno escolar, depois seu endereço, depois "Porto Alegre", depois "Rio Grande do Sul", depois "Brasil", "América do Sul", "Terra", "Sistema Solar", "Via Láctea" e "Universo". A menina sentada ao seu lado olhou, viu o que ela tinha escrito, e disse: "Faltou o CEP."

Ficaram inimigas para o resto da vida.

Ela era apaixonada pelo Marcos, o Marcos não lhe dava bola. Um dia, no recreio, uma bola chutada pelo Marcos bateu na sua coxa. Ele abanou de longe, gritou "Desculpa", depois foi difícil tomar banho de chuveiro sem molhar a coxa e apagar a marca da bola. Ela teve que ficar com a perna dobrada para fora do box, a mãe não entendeu o chão todo molhado, mas o que é que mãe entende de paixão?

Quem mais sofria com a paixão da menina pelo Marcos era o seu irmão menor, o Fiapo. Tinha dias em que ela chegava da escola e pegava o Fiapo num abraço tão apertado que ele começava a espernear e a gritar "Mãe!".

Sua melhor amiga era a Rute, que anunciou que teria três filhos, Suzana, Sueli e Sukarno.

― "Sukarno"?!

― Li o nome no jornal.

― Mas por que "Sukarno"?!

― Não tem nome de homem que começa com "Su".

E a Rute nem queria ouvir falar em não ter filho homem, o que resolveria o problema. Não transigiria.

Na festa de aniversário da Ana Lúcia, ela, a Rute, a Nicete e a Bel chegaram em grupo e foram direto para o banheiro. De onde não saíram. A Nicete às vezes entreabrindo a porta para controlar a festa, e a Bel dando uma escapada para trazer doces e a notícia de que não, o Marcos não estava dançando com ninguém. A Rute contou que já tinha pêlos pubianos e perguntou se as outras queriam ver, mas não houve unanimidade.

Claro, quem dava bola para a menina era o Mozart, tão feio que o apelido dele na escola era "Feio". Foi ele quem disse que era perigoso ela andar com o endereço completo na primeira página do caderno. Por que perigoso? "Sei lá", disse o Mozart. "Com tanto seqüestro." Ela não entendeu. Depois disse:

― Quero ver me encontrarem no Universo.

Aí foi o Mozart que não entendeu.

No grupo tinha um Mozart e um Vitor Hugo.

― Temos dois nomes famosos na classe ― disse a professora. ― Seu Vitor Hugo, o senhor sabe quem foi Vitor Hugo na História?

O Vitor Hugo (apelido "Papudo") sabia, Vitor Hugo, escritor francês.

― E seu Mozart, o senhor sabe quem foi Mozart na História?

― Sei.


― Quem foi?

― Meu padrinho.

Naquele ano, a última página do caderno da menina estava toda coberta com o nome do Marcos repetido. Marcos e sobrenome, Marcos e sobrenome. Às vezes o nome dela com o sobrenome do Marcos. Às vezes o nome dos dois com o sobrenome dele. E na saída do último dia de aula antes das provas alguém arrancou o caderno das mãos dela e levou para o Marcos ver. Ela correu, tirou o caderno das mãos do Marcos e disse "Desculpa". Naquela noite chorou tanto que a mãe teve que lhe dar um calmante. Nunca mais falou com o Marcos.

Nunca mais encheu seu caderno com o nome de alguém. Nunca mais se apaixonou, ou chorou, do mesmo jeito. Do pior dia da sua vida só o que repetiu muitas vezes, depois, foi o calmante.

Pensou que se um dia saísse um livro com o seu diálogo com Marcos seria um livro de 100 páginas com "Desculpa!" na primeira página e "Desculpa" na última, e todas as outras páginas em branco. Seria o livro mais triste do mundo.

Um professor disse para a menina que só havia um jeito de compreender o Universo. Ela devia pensar numa esfera dentro de uma esfera maior, dentro de uma esfera ainda maior, dentro de uma esfera maior ainda, até chegar a uma grande esfera que incluiria todas as outras, e que por sua vez estaria dentro da esfera menor. A menina então entendeu que a sua vizinha de classe tinha razão, era preciso botar o CEP. Num universo assim, era preciso fixar um detalhe para você nunca se perder. Nem que o detalhe fosse a mancha no teto do seu quarto com o perfil da tia Corinha, a que queria ser freira e acabara oceanógrafa.

A menina disse para a Rute que era preciso escolher um detalhe da sua vida, em torno do qual o Universo se organizaria. Cada pessoa precisava escolher um momento, uma coisa, uma espinha no rosto, uma frase, um veraneio, um quindim, uma mancha no teto ― um lugar em que pudesse ser encontrada, era isso.

― Pirou, disse a Rute.


A Mulher do Vizinho

Sérgio abriu a porta e era a mulher do vizinho. A fantástica mulher do vizinho. A fantástica mulher do vizinho dizendo "Oi". A fantástica mulher do vizinho perguntando, depois do "Oi", se podia pegar uma toalha que tinha voado da sacada deles. "Sabe, o vento" ― para a sacada dele.

― Entre, entre, disse o Sérgio, checando, rapidamente, com a mão, se sua braguilha não estava aberta. Morava sozinho, às vezes se descuidava dessas coisas.



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