Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Encontro05.12.2017
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Ela começou a entrar, mas parou. Ficou como que paralisada, só os olhos se mexendo. Os grandes olhos verdes e arregalados indo de um lado para o outro.

― Ih ― disse a mulher do vizinho. ― Surtei.

― Que foi? ― perguntou Sérgio, já pensando em como socorrê-la ("Vamos ter de desamarrar esse bustiê"), já pensando em ambulância, hospital, confusão, mal-entendido com o vizinho...

Mas ela explicou:

― O seu apartamento é exatamente o oposto do nosso. Preciso me acostumar...

Ela entrou devagarinho. Como se, além de ser o avesso do seu, o apartamento do Sérgio pudesse conter outras surpresas. O chão podia estar no teto e o teto no chão.

― Que coisa! ― disse a mulher do vizinho, passando por Sérgio e parando no meio da sala.

Exatamente o que Sérgio tinha pensado ao ver que sobrava um pouco de nádega onde acabava o shortinho da mulher do vizinho. No caso, que coisas!

― Você quer sentar?

― Como?


― Até se orientar...

Ela sentou-se, ainda maravilhada.

― Nossa televisão também fica ali, só que ao contrário!

Ele tentou acalmá-la.

― Você quer um copo d'água ― Você é solteiro?

― Sou.


― Meu marido é casado. Aliás, comigo. Viu só ― O quê?

― É tudo ao contrário!

― É. Eu...

― Palmeiras ou Corinthians?

― Corinthians.

― Ele é Palmeiras!

― Puxa.

― Destro ou canhoto!

― Destro.

― Meu marido é canhoto!

― E você ― Eu o quê?

― Palmeiras ou Corinthians? Destra ou canhota?

Ela tinha se levantado e estava andando pela sala. Cuidadosamente, até se acostumar com tudo ao contrário. Disse:

― Não dou muita importância para essas coisas.

Foi nesse momento que Sérgio se apaixonou pela mulher do vizinho. Os grandes olhos verdes tinham ajudado, claro. Os nacos de nádega sobrando do shortinho também. As coxas longas, sem dúvida. O "erre" meio carregado (ela dissera "Palmeirrras" e Corrinthians", em alemão) contribuíra. Mas Sérgio se apaixonou pela mulher do vizinho quando ela declarou que não dava muita importância para essas coisas, times de futebol, ser destro ou canhoto...

Ficou esperando que ela dissesse "Isso é coisa de homem" para se atirar aos seus pés e beijá-los, mas ela não disse. Ela conseguiu chegar até a sacada, apesar de desorientada, e apanhar a toalha. Mas quando se virou para reentrar na sala, ficou paralisada outra vez. Ficou em pânico.

― Ai meu Deus.

― O que foi?

― A porta da rua. Onde fica a porta da rua?

― É aquela ali.

― Ai meu Deus. Eu não consigo me orientar.

― Pense no meu apartamento como o seu apartamento visto no espelho. A esquerda fica na direita e a direita...

― Por favor: esquerda e direita não, senão complica ainda mais!

Ele foi buscá-la. Ele foi salvá-la da sua confusão. Ele enlaçou sua cintura com um abraço, segurou a sua mão e começou a acompanhá-la até a porta, como se dançassem um minueto. Pensou em dizer que também estava desorientado (o amor, o amor) e levá-la para o seu quarto, para a sua cama. Imaginou-se tendo dificuldade para desamarrar o bustiê, os dois chegando à conclusão que no apartamento dele o bustiê deveria ser desamarrado ao contrário, depois desistindo de desamarrar o bustiê e se amando. O bustiê arrancado. O shortinho arrancado. E a mulher do vizinho, como se não bastassem o "erre" um pouco carregado e tudo mais, revelando que não usava calcinha. E dizendo que ele era tudo que o vizinho não era. Que ele era o oposto do vizinho em tudo. Em tudo!

Mas chegaram, não ao orgasmo simultâneo ("Com ele isto nunca aconteceu, com ele é o contrário!"), mas à porta. Ela agradeceu, se despediu e já ia saindo, levando a sua toalha, e todas as esperanças do Sérgio, quando se virou, deu outra passada de grandes olhos verdes pelo apartamento, e disse:

― Preciso voltar aqui.

― Para se acostumar ― disse Sérgio.

― É ― disse ela.

E sorriu.

Ainda por cima, ela sorria!


A natureza humana


Idéia para uma história.

Cirurgião plástico de uma cidade do interior é procurado na sua clínica por um homem que lhe oferece US$ 1 milhão para fazer uma operação. O homem quer discrição total, não quer perguntas e quer outra cara.

O médico começa a dizer que o homem está enganado a seu respeito, que ele não trabalha assim, porque a ética, porque a...

O homem o interrompe:

― Um milhão e meio.

― Não posso.

― Dois milhões.

― Quando você quer a operação?

― Agora.

― Impossível. Temos que fazer testes, preparar o...

― Dois milhões e meio.

O médico fica em silêncio, examinando o homem. Depois pergunta:

― Posso ver o dinheiro?

O homem abre uma maleta em cima da mesa do médico. Notas de cem.

― Quanto tem aí?

― Exatamente dois milhões e meio de dólares.

― Como você sabia que meu preço seria esse?

― Conheço a natureza humana. Aliás, foi com esta cara honesta e meu conhecimento da natureza humana que consegui juntar dois milhões e meio de dólares.

― Mas agora quer mudar de cara...

O homem sorri.

― Também sou um homem precavido.

O médico começa a fechar a maleta para guardar o dinheiro, mas o homem o detém com um gesto. Debaixo das notas de cem tira um pijama dobrado e uma sacola de plástico com escova de dente, pasta, etc. Está pronto para ser internado.

― Vejo que o senhor é mesmo um homem precavido, sr. Silva.

― Silva, claro, não é o meu verdadeiro nome.

― Posso saber o seu verdadeiro nome?

― Pode. É Xis.

― Muito bem, senhor Xis. Vamos fazer essa operação. Que cara o senhor quer?

― Não importa. Só quero ficar irreconhecível.

― Nem sua mãe o reconhecerá.

― Não peço outra coisa.

O médico fala no interfone com sua recepcionista:

― Jussara, transfira o nariz da dona Heleninha para amanhã.

Com o dinheiro da cirurgia, o médico investe na clínica, anuncia, aumenta sua clientela e sua renda, melhora de vida e passa a freqüentar outras rodas. Numa das quais, um dia, encontra uma cara conhecida.

― Senhor Xis!

O homem puxa o médico para um canto e sussurra seu novo nome. O nome da sua nova cara.

― Hugo. Hugo Pontecarrero.

― Hugo. Pensei que você tivesse deixado a cidade depois da...

― Com que dinheiro? Você ficou com tudo o que eu tinha.

E o homem conta que circula nas altas-rodas tentando usar seu conhecimento da natureza humana para ganhar dinheiro fácil, mas que ganhar dinheiro fácil está cada vez mais difícil. A operação lhe deixara com uma cara que não inspirava confiança. Uma cara de escroque. Com aquela cara ele jamais sairia da cidade.

― Você salvou a minha vida ― diz Hugo Pontecarrero ―, mas ficou com todo o meu dinheiro e me deu esta cara sem nenhum proveito.

E Hugo declara que o cirurgião lhe deve um futuro. E passa a chantageá-lo, ameaçando denunciá-lo pela operação clandestina e o dinheiro não declarado e exigindo sua cumplicidade na exploração dos seus novos clientes ricos. Até que um dia um detetive particular na pista de um certo escroque com cara honesta chega à clínica do cirurgião e pergunta se por acaso ele não operou um homem com tais e tais características, descrevendo o incômodo senhor Xis. Quem quer saber? ― pergunta o médico. A mãe dele, que quer vingança, responde o detetive. E o cirurgião, depois de ponderar sobre a natureza humana e a nossa responsabilidade no destino dos outros, nega-se a dizer onde o homem pode ser encontrado, pois isso não seria ético, mas oferece-se para fazer um retrato falado, por um preço. Raciocinando que os direitos autorais da cara, afinal, são dele.

Idéia para outro final.

― Jussara, transfira o nariz da dona Heleninha para amanhã.

O homem é operado, fica alguns dias internado na clínica em regime de discrição total, e sai com uma cara que nem sua mãe reconheceria. O médico, depois de se informar ― discretamente ― sobre o que fazer com os dólares, descobre que todas as notas de cem são falsas. Depois da descoberta, passa um bom tempo olhando a cara falsa do Benjamin Franklin com o que o senhor Xis pagou sua própria cara falsa, ponderando sobre a natureza humana, etc. Quando chega o detetive particular contratado pela mãe do escroque, o médico se oferece para incorporar-se à busca, pois só ele pode reconhecer a cara que fez. E um dia, seguindo uma pista levantada pelo detetive, o cirurgião e a mãe do escroque ― que viajam juntos pelo mundo, atrás de vingança ― dão com uma cara que o cirurgião identifica como a do senhor Xis.

― Que senhor Xis? Meu nome é Hugo Pontecarrero e não conheço nenhum de vocês dois.

― É ele ― insiste o médico.

― Essa cara é minha. Conheço o meu trabalho!

― Será? ― pergunta a mãe.

Termina com o homem desafiando o médico a provar que é o autor da sua cara, o médico reclamando que a mãe, também, não ajuda na identificação ("Algum sinal ele deve ter!"), a mãe dizendo que coração de mãe não se engana, aquele não é o safado que procuram, e todo o mundo no restaurante reclamando da gritaria.

A Rainha das Microondas


Sérgio convidou Cláudia para jantar e disse que ele mesmo faria a comida.

― O meu nhoque é famoso.

― Quero só ver, riu a Cláudia.

― Quarta-feira?

― Quarta-feira.

Na quarta-feira, Sérgio abriu a porta para Cláudia de avental. Explicou que não, não acabara de decapitar uma galinha. O sangue no avental não era sangue, era o molho do nhoque. Pequeno acidente. Nada grave. Estava nervoso.

Instalou Cláudia na sala, perguntou se ela já queria começar no vinho ou se preferia um aperitivo, ela perguntou se tinha Campari, não tinha, ela disse que vinho estava ótimo, ele serviu o vinho, ela perguntou se podia ajudar em alguma coisa, ele disse que não e voltou para a cozinha. Quando sentaram-se para jantar, ela perguntou:

― Por que nervoso?

― Você aqui, no meu apartamento? Comendo a minha comida?

Espera aí um pouquinho.

Cláudia sorriu. Pensou em dizer "Eu é que devia estar nervosa, sozinha, aqui no seu apartamento", mas não disse. Pensou em dizer "Eu nunca esperava ser convidada", mas não disse. Pensou em dizer "Eu não podia sonhar que você estava a fim de mim", mas não disse. Deixou o sorriso dizer tudo.

― São de farinha.

― Hein?

― Os nhoques. Faço com farinha, acho que ficam mais leves. O engraçado é que nhoque de farinha é considerado mais fino, mas o nhoque de batata é mais caro. Como você está cansada de saber.

― Sérgio...

― Sim?


― Posso te fazer uma pergunta?

― Já sei o que você vai perguntar. O molho. Acertei? Esse gosto diferente do molho. É o meu segredo. Você não adivinha o que tem no meu molho. Ninguém adivinha.

― Não, Sérgio. Eu ia perguntar...

― Pergunte.

― Por que a gente não esquece os nhoques e...

Ela parou de falar quando viu a expressão no rosto dele. Surpresa e dor.

Como se alguém tivesse lhe dado a notícia de uma morte na família. Uma tia favorita, atropelada.

― Você não gostou.

― O quê?

― Do nhoque.

― Não, adorei. Adorei!

― Você não gostou do meu nhoque.

― Não é isso, Sérgio. Eu...

Ela não sabia como continuar a frase. "Eu ia sugerir que a gente esquecesse a mesa e fosse para a cama"? "Eu pensei que o nhoque fosse só um pretexto, ou uma mensagem cifrada, e ia pedir para pular as preliminares e ir logo para o que interessava"? "Eu entendi tudo errado"?

Ele começou a tirar o prato da sua frente. Ela segurou o prato.

― Sérgio, deixa. Eu amei o nhoque.

Ele, puxando o prato:

― Não precisa fingir.

Ela, puxando o prato com as duas mãos:

― É o melhor nhoque que eu já comi na minha vida, Sérgio. Juro.

Ele, puxando o prato com força:

― Eu vou servir outra coisa.

Ela:

― Não precisa!



Ele largou o prato e voltou para o seu lugar. Durante algum tempo nenhum dos dois falou. Ela hesitou, depois recomeçou a comer o nhoque. Pensou em pedir desculpa, mas concluiu que, também, não era o caso de se humilhar. Pensou em fazer "mmm" depois de cada garfada, mas achou que poderia ser acusada de ironia. Ele não estava comendo. Estava estendido na cadeira, desconsolado, olhando para a parede. Ela o magoara. Ela, decididamente, entendera tudo errado. Decidiu tentar uma reconciliação.

― Qual é o segredo do seu molho, afinal?

Ele sacudiu a cabeça, querendo dizer que não valia a pena.

Só depois da sobremesa ele falou de novo.

― O que você ia me perguntar?

― Não, queria saber porque eu deixei você nervoso.

― Porque eu sei que você cozinha muito bem. Não queria fazer feio.

― Eu, cozinhar bem? Eu nem sabia como se fazia nhoque.

― Mas me disseram que você...

― Disseram errado.

― Tinha até curso na França.

― Iih, já vi tudo. Grande confusão. É a outra Cláudia!

― A outra Cláudia?

― Eu não sei fazer nada. Sou a rainha do microondas.

De madrugada, ela acordou e viu que ele a olhava. Os dois sorriram. Ele perguntou:

― Por que você ficou?

Ela pensou em dizer "Para restaurar o meu ego". Pensou em dizer "Porque você fez aquela cara quando eu disse para esquecer os nhoques, e eu nunca agüentei ver cachorro abandonado". Pensou em dizer "Porque sou uma estudiosa dos abismos humanos, e você promete". Mas disse:

― Porque mal posso esperar para provar seu café da manhã.


A Recaída


A proposta era simples. Cláudia acompanharia João Carlos numa visita à casa dos seus pais, na cidadezinha onde nascera, e seria apresentada como sua namorada. Alguém o tinha visto no Rio e chegara à cidadezinha com a notícia de que ele era gay. Ele precisava provar que não era gay.

― Mas você não tem uma namorada de verdade? ― perguntara Cláudia ― Por que eu?

― Porque eu sou gay. Não tenho namorada. Tenho namorado. O nome dele é Roni.

Não posso aparecer lá com o Roni.

― Mas ninguém liga pra isso, hoje em dia. Liga?

― Na minha cidade, na minha casa, ligam.

Cláudia hesitara. Quase não conhecia João Carlos. A idéia de passar o Natal e o ano-novo com um quase desconhecido, na casa de uma família totalmente desconhecida, numa cidadezinha inimaginável, não a atraía. Se bem que...

Poderia ser divertido. O João Carlos não era antipático. E os dois se fingindo de namorados, enganando todo o mundo... Ela não tinha outros planos para o fim do ano. Nenhum desfile agendado. Seria divertido. Topou.

No aeroporto, antes de embarcarem, João Carlos se despediu de Roni com um beijo prolongado e disse para ele não se preocupar.

― Não vá me ter uma recaída... ― disse Roni, indicando Cláudia.

― Pode deixar ― disse João Carlos. ― Não há perigo.

Os três riram muito.

Ao churrasco na casa dos pais de João Carlos, na primeira noite, veio gente de toda a região, parentes e amigos e até alguns que ninguém conhecia, para ver a namorada carioca. A notícia de que Cláudia era, além de carioca, uma bela mulher, uma modelo, se espalhara rapidamente e todos queriam vê-la, e ouvi-la, e dizer "O Joãozinho, hein? Quem diria". Os dois tinham dormido em quartos separado, João Carlos no seu quarto antigo, Cláudia com a irmã dele.

A mãe do João Carlos, que via novela e sabia que aquilo era comum, não se importaria se os dois dormissem juntos, mas "O seu pai, sabe como é..." Eles sabiam como era. Não dormiam juntos, mas passavam o tempo todo se acariciando e se beijando, em casa e na rua. Provando para a cidade inteira que aquele boato de que o João Carlos tinha desandado no Rio era invenção, pura invenção. Gostava de mulher. E, a julgar pela Cláudia, de grandes mulheres!

Cláudia e, em segundo plano, João Carlos foram as maiores atrações das festas de fim de ano na cidadezinha. Do concorrido Natal na casa dele e do réveillon no clube. E foi na noite de Ano Bom, depois de muito frisante no clube, depois de se abraçarem e se beijarem apaixonadamente à meia-noite para todos verem, que os dois chegaram em casa e não foram cada um para o um quarto, foram para o quarto do João Carlos, quem diria, onde se amaram durante toda a madrugada, tentando não fazer muito barulho. E de manhã, suas pernas ainda entrelaçadas com as de Cláudia, João Carlos lamentou o acontecido, e disse "Bem que o Roni me avisou...", e a Cláudia beijou a ponta do seu nariz e disse:

― Pronto, pronto.

Voltaram para o Rio no dia 2, o João Carlos silencioso no ônibus e no avião, com cara de culpa, depois de pedir a Cláudia que em hipótese alguma comentasse a sua recaída para quem quer que fosse senão o Roni ia acabar sabendo, e a Cláudia silenciosa, com o secreto orgulho de ser tão desejável, tão mulher, que provocara a recaída fatal do João Carlos, depois de prometer que não contaria nada a ninguém, que aquilo ficaria entre os dois, só entre os dois, para sempre.

Ainda ontem a Cláudia encontrou o Roni e perguntou pelo João Carlos e o Roni disse:

― Quem?!

― O João Carlos. Seu namorado.

― Ah, é. Está bem. Muito bem. Quer dizer. Olha aqui... Esse negócio de namorado...

― Você também mal conhecia o João Carlos. Não é?

― É. Eu...

― Ele pediu para você fingir que era o namorado dele.

― É ― O seu nome nem é Roni.

― Não.


Cláudia sorriu. Pensando: se o João Carlos tivesse me pedido, honestamente, sem mentir, sem encenação, topa ou não topa, eu teria topado? Provavelmente não. Uma mulher como eu? Provavelmente não. O falso Roni tinha chegado mais perto e estava dizendo:

― Olha, eu também não sou gay. E se quiser, posso provar.

Cláudia se afastou, ligeiro. Pensando: ó raça!

Por exemplo

(Da série Poesia numa Hora Dessas?!)

Testemunhos suspeitos na origem não são uma coisa incomum.

Masoquistas (por exemplo) põem a mão no fogo por qualquer um.

A Retirada


Idéia para uma história. Uma pequena cidade é invadida por um exército em retirada. Os habitantes da cidade acordam com os ruídos da chegada do exército. Ouvem o som de cascos de cavalos e de rodas de canhões e dos passos arrastados de soldados nas pedras das ruas. Quando abrem suas janelas dão com o lento desfile do exército derrotado, que antes do raiar do dia ocupa toda a pequena cidade. As pessoas que saem de casa tropeçam em soldados exaustos estirados na calçada. Mas a maioria não sai de casa, assustada. Que exército é esse? De onde ele vem? E em que guerra ele foi derrotado? Não há notícia de nenhuma batalha perto da pequena cidade. Não há notícia de nenhuma guerra, em parte alguma, perto dali.

O comandante do exército em retirada instala a sua tenda na praça principal da pequena cidade. O prefeito da cidade espera em vão sua visita à prefeitura, para explicar aquela inesperada invasão na madrugada. Mas o comandante não sai da sua tenda. Finalmente, o prefeito e seus secretários decidem ir eles mesmos ao encontro do general. Ninguém os detém, na entrada da tenda. Os guardas estão estirados no chão, dormindo. O general está dormindo. Os cavalos estão dormindo. Todo o exército está dormindo.

Provavelmente dormirá o dia inteiro. A batalha perdida deve ter sido terrível. A retirada deve ter sido longa e penosa. Mas que batalha? De onde o exército está se retirando?

No fim da tarde o general aparece na entrada da sua tenda, se espreguiçando.

Chuta os guardas, para acordá-los. Atravessa a praça e entra na prefeitura.

Mas não quer falar com o prefeito. Quer usar o banheiro.

Tarde da noite, o general convoca o prefeito da pequena cidade para a sua tenda. O prefeito fica impressionado com a cara do general. Nunca viu uma cara assim. Todo o sofrimento do mundo está nessa cara, pensa o prefeito.

Nem imagina o que o general passou, para ter uma cara assim. Todo o sofrimento do mundo, sofrido ou causado. O general agradece ao prefeito a hospitalidade da sua pequena cidade. Hospitalidade? "Vocês nos invadiram" pensa em dizer o prefeito. Mas não diz. Não quer ser o responsável por mais um sulco naquela cara. Diz que espera que a estada na sua modesta cidade ajude o exército a se recuperar, e que todos são bem-vindos, e, por sinal, quanto tempo pretendem ficar? O general oferece um licor ao prefeito. Diz que ele verá que seus homens são rudes mas não são desleais, e que sua convivência com os habitantes da cidade será pacífica. O prefeito diz que já houve contato entre os soldados e a população, que lhes ofereceu comida, agasalho e um melhor lugar para dormir do que a calçada, e que tem certeza que não haverá problemas enquanto o exército estiver na pequena cidade. E, por sinal, quanto tempo pretendem ficar? O general sorri, com um esforço.

Diz que o prefeito pode ir. Sim, aceita o convite para jantar na prefeitura na noite seguinte. Mas agora precisa dormir mais um pouco.

Curiosamente, não há feridos entre os soldados. Todos estão muito cansados, e deprimidos, e se queixam da saudade de casa, mas nenhum está ferido. Aos habitantes da cidade que lhes perguntam sobre a batalha que perderam, respondem vagamente. Só dizem que foi terrível, terrível. Falam de companheiros que morreram. Falam dos horrores que viveram, na batalha e na retirada. Mas desconversam quando alguém pergunta em que guerra, mesmo, eles estão lutando. Preferem falar da casa que deixaram ou dos amigos que perderam. No jantar do general e dos seus oficiais com o prefeito e figuras ilustres da pequena cidade, na prefeitura, a conversa é a mesma. Quando o prefeito, no seu discurso, declara que todos estão curiosos para saber de que batalha o exército em retirada se retirou, certamente por estar em insustentável desvantagem numérica ou por sido traído, pois por falta de heroísmo e sacrifício pelas pátria todos sabem que não pode ter sido, e, por sinal, em que guerra ― e, aliás, por que pátria ― está lutando, o general responde que naquele momento de congraçamento não devem falar de coisas tristes e propõe um brinde a uma coisa que os militares amam mais do que os civis: à paz. E quando perguntam quanto tempo o exército em retirada pretende ficar na cidade, o general propõe outro brinde. À convivência.

Mas, como não pode deixar de ser, começa a haver problemas entre os soldados e a população. Compreensíveis, pois os soldados são homens rudes, longe de casa, marcados pela batalha terrível e a longa retirada, pela tristeza e o horror. Há estupros, casos de bebedeira e pilhagem e, no fim de um mês, o prefeito toma coragem e visita a tenda do general para protestar contra o comportamento do seu exército. Encontra-o estirado na sua simples cama de campanha, olhando para o teto, com todo o sofrimento do mundo no rosto. O general não se ergue para receber o prefeito. Continua olhando para o teto enquanto o prefeito diz que entende que os soldados são homens rudes, marcados pela batalha perdida e a penosa retirada, mas que assim não dá para continuar. A pequena cidade está sendo aterrorizada. A convivência é impossível.

― Vocês, então, estão nos mandando embora? ― pergunta o general, sem tirar os olhos do teto.

O prefeito hesita. Não sabe qual será a reação do general. E se ele mandar destruir a cidade, queimar tudo e matar todo o mundo, começando pelo prefeito? Já deve ter feito coisas piores na sua vida, pensa. Não se consegue uma cara assim sem ter sofrido e causado coisas piores. Posso propor um entendimento. Pedir que o general tente controlar a sua tropa. Com o tempo, os soldados talvez se integrem à vida da pequena cidade. Talvez esqueçam o que passaram, e se tornem cidadãos comuns, pacatos e desarmados.

O próprio general, que parece gostar tanto da cidade, pode se estabelecer ali, trocar a tenda de comando no meio da praça por uma casinha, quem sabe conhecer uma boa moça... Mas o prefeito decide ser firme.



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