Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― É ― diz.

― Muito bem ― diz o general. ― Nos retiraremos ao amanhecer.

Na manhã seguinte a população da pequena cidade é acordada pelos ruídos do exército em movimento, continuando a sua longa e penosa retirada.

A Russa do Maneco


Todos ficaram muito intrigados quando o Maneco, logo o Maneco, apareceu com uma russa. Em pouco tempo "a russa do Maneco" se tornou o assunto principal da turma. Todas as conversas, cedo ou tarde, acabavam na frase "E a russa do Maneco?" e daí em diante não se falava em outra coisa. E, claro, quando o Maneco e a russa estavam com a turma, a russa era o centro de todas as atenções. Os homens de boca aberta, as mulheres tentando ser simpáticas mas odiando a russa.

Porque a russa do Maneco era linda como só as russas conseguem ser. Olhos claros e puxados, maçãs do rosto altas, um lábio inferior cheio e um pouco mais saliente do que o de cima, pele branca como as estepes, cabelos loiros como os trigais da Georgia, ou onde quer que nasça muito trigo por lá. E o corpo, o corpo...

― Bailarina ― sentenciou uma das mulheres, como se acusasse a russa de competição desleal.

Bailarina, sim, mas bailarina de um tipo especial: com anca e peito. Pernas longas. Mais alta do que o Maneco. Quando o Maneco a abraçava ela beijava o topo da sua cabeça. (Os homens suspiravam, as mulheres se revoltavam.) E a russa só sabia uma palavra em português, além de "bom dia" e "obrigado":

― Manequinho.

Muitos da turma não conseguiam dormir, pensando no Maneco com a loira na cama, e no "Manequinho" dito com aquele sotaque russo, por aqueles lábios russos. Logo o Maneco!

O Maneco não explicava onde e como encontrara a sua russa. Só dizia, misteriosamente:

― A coisa mais fácil de conseguir, hoje, na Rússia, é plutônio e mulher.

Dando a entender que, além de uma mulher espetacular, também estaria envolvido com o tráfico clandestino de material radioativo. As duas principais sobras da derrocada do império soviético. O que deixava a turma ainda mais intrigada.

― Vem cá: o Maneco não é funcionário público?

Era. E, que se soubesse, nunca saíra do Brasil. Mas as pessoas, afinal, podem ter suas vidas secretas. E numa das suas vidas secretas, o Maneco encontrara a sua russa. Talvez negociando plutônio enriquecido para revender a algum grupo terrorista internacional. Depois de verem a russa beijando o topo da sua cabeça, ninguém duvidava de mais nada a respeito do Maneco. Se ouvissem dizer que o Maneco estava sendo caçado pela Interpol, ou que seria o novo marido da Nicole Kidman, ou as duas coisas, não duvidariam.

E especulações sobre que outras coisas o Maneco era e fazia que ninguém sabia passaram a dominar a conversa do grupo ― sempre que o assunto não era a russa.

E um dia o Maneco apareceu sem a russa. Arrá, pensaram todos. A russa finalmente se deu conta de quem o Maneco realmente é.

Qualquer que fosse a mentira que o Maneco usara para conquistá-la, estava desmascarada. A russa deixara o Maneco, as coisas voltavam aos seus lugares.

O mundo voltava à normalidade. Estava restabelecida a lógica, segundo a qual uma russa daquelas não podia ser de um Maneco daqueles. Que fim levara a russa?

― Olha ― disse o Maneco ― russa não é fácil, viu?

Repetiu:

― Russa não é fácil!

E contou que as russas eram possessivas, e ciumentas, e atrasadas, pois não admitiam que um homem podia ter duas ou três namoradas ao mesmo tempo e...

Naquele momento gritaram do bar que havia um telefonema, uma mulher chorosa querendo falar com o "Manequinho", e o Maneco começou a fazer sinais frenéticos e a dizer: "Diz que eu não estou, diz que eu não estou."

Sensação na turma. O Maneco é que deixara a russa! E se com a russa o Maneco já era o assunto preferido da turma, sem a russa passou a ídolo.

A Travessia


Se não fosse o escravagismo e a diáspora forçada da África nós não teríamos o samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, sem falar nas outras contribuições dos negros para a nossa cultura e alegria. O mesmo tipo de elogio por vias tortas pode ser feito ao comunismo, ao fascismo e outros ismos persecutórios, que mandaram tantos artistas e cientistas para a América. Gente como Billy Wilder, Saul Steinberg e Vladimir Nabokov teriam o mesmo talento se não tivessem que fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques, mas sua arte não seria a mesma sem a marca do exílio ― e sem a oportunidade que encontraram no lugar do seu desterro. Foi esta oportunidade oferecida pela rica e empreendedora América, a "chance" e os meios, mais, talvez, do que a liberdade, que atraíram os cientistas da Europa para também fazerem a sua arte no exílio. O exemplo mais notório dessa arte aplicada é a bomba atômica. Num universo sem relativização moral, um filme do Wilder, um desenho do Steinberg, um livro do Nabokov, e a bomba ― e mais um solo do Charlie Parker ― poderiam ser exibidos num mesmo espaço, ilustrando o mesmo tema: os frutos da travessia.

A famosa visita do físico alemão Werner Heisenberg ao físico dinamarquês Niels Bohr em 1941 já deu muita discussão, muita especulação e uma peça de sucesso, Copenhagen, de Michael Frayn. Heisenberg dirigia o programa nuclear da Alemanha e nunca se ficou sabendo exatamente sobre o que os dois amigos conversaram na casa de Bohr, naquele setembro. Heisenberg teria ido informar Bohr sobre o progresso da sua pesquisa e pedir sua ajuda, queria sondar Bohr sobre o que este sabia das pesquisas sendo realizadas nos Estados Unidos depois da chegada de Enrico Fermi ou ― a especulação dramaticamente mais aproveitável de todas ― teria levado a Bohr a proposta de um compromisso a ser assumido por cientistas dos dois lados, de não construir a bomba ou de sabotar a sua construção? Hoje se sabe que esta proposta não existiu. Mas a simples especulação de que ela teria sido feita trazia algumas implicações importantes. Uma, a de que o próprio Heisenberg estaria deliberadamente atrasando o programa nuclear dos nazistas, e que, mesmo se soubessem como, os cientistas alemães não teriam construído a bomba. Outra, a de que o apelo de Heisenberg seria a valores humanísticos acima de lealdades passageiras a pátrias e regimes, ou a uma sensibilidade comum européia, com a esperança que ela também tivesse sobrevivido na América. Parte da oportunidade que a América dava à ciência para levar a pesquisa nuclear à sua conclusão lógica e prática era livrá-la de escrúpulos e culpa, ou seja, livrá-la da hesitação européia. Heisenberg estaria propondo uma conspiração da consciência, contra o pragmatismo americano e contra a volúpia da ciência de perseguir toda descoberta até o seu fim, mesmo que o fim seja o terror.

Documentos recém-publicados mostram que Heisenberg não propôs nada parecido a Bohr, que Bohr só guardou da visita sua preocupação com a possibilidade de os nazistas terem a bomba primeiro e a certeza consoladora de que Heisenberg e seu grupo não estavam nem perto de conseguir isso. Na verdade o que atrasou o programa nuclear alemão não foi a consciência mas o preconceito burro: os nazistas achavam que física teórica era "coisa de judeu" e custaram a entender todas as implicações do átomo partido. Da mesma forma, foram as novas leis raciais italianas, inspiradas pelas nazistas, que forçaram a ida de Enrico Fermi, cuja mulher era judia, para os Estados Unidos e a emigração da maioria da sua equipe. Assim, foi a antiga tradição do anti-semitismo, exacerbada e burocratizada pelo fascismo, e não o humanismo, a "fraqueza" da Europa que deu a vantagem aos americanos. Também havia anti-semitismo nos Estados Unidos mas na hora de desenvolver a arma que acabaria com todas as armas, quem estava contando?

A idéia de que Heisenberg representava uma resistência do espírito europeu ao horror da bomba em contraste com a mobilização objetiva americana permanece como especulação dramática, mesmo sendo falsa, porque é uma metáfora forte. Heisenberg foi o gênio nuclear que não cruzou o Atlântico, o anti-exilado, o que não aproveitou a terra da oportunidade e fracassou.

Todos os cientistas que participaram do Projeto Manhattan, de construção da bomba, descreveram a época, de oportunidade irrestrita, como excitante, inesquecível, a melhor das suas vidas. Com recursos intermináveis e o estímulo entusiasmante do lendário general Groves, chefe militar do programa, estavam participando da maior aventura científica de todos os tempos, sem tempo para dúvidas. Robert Oppenheimer, o cientista que comandava o projeto, conta que sua primeira reação ao saber que a primeira bomba explodira sobre Hiroshima fora um extático "Funcionou!". O primeiro pensamento da ciência é o da sua própria validação pela eficiência. Os segundos pensamentos custam a chegar. Oppenheimer só pensou nos mortos depois, se opôs ao desenvolvimento da bomba de hidrogênio e acabou sendo chamado de antipatriota. Era como se a consciência tivesse feito a travessia num barco mais lento.

Sem o vício do anti-semitismo os alemães teriam feito a bomba antes? Talvez lhe faltasse a oportunidade da América, onde os europeus iam para recomeçar, onde tudo estava sempre recomeçando, sem hesitaçõesm ou culpa, e onde um delirante arabesco do Steinberg e um cogumelo nuclear nasciam da mesma paisagem sem história. De qualquer jeito, quem ficou com a bomba não foi o Hitler, foi o Truman.


A Vida Eterna

Manoel foi pro céu. O que o surpreendeu muito. Ateu, descrente total, a última coisa que esperava era descobrir que há vida depois da morte. Mas morreu e quando abriu os olhos se viu numa sala de espera cheia de gente, com uma senha na mão, esperando para ser chamado para uma entrevista. Não havia um grande portão dourado, como vira em mais de uma representação da entrada do céu, e aparentemente São Pedro não era mais o porteiro. Fora substituído por recepcionistas com computadores que faziam a triagem dos recém-chegados. Mas o resto era igual ao que as pessoas imaginavam: nuvens, todo mundo de camisola branca, música de harpa...

O número da sua senha era enorme e Manoel deduziu que mantinham uma numeração corrida, desde o primeiro morto. Mas só chamavam pelos três últimos algarismos. Enquanto não chamavam seu número, Manoel puxou conversa com o homem sentado ao seu lado. Que felizmente também era um morto brasileiro. Se apresentou:

― Manoel. Enfarte.

― Bira. Tiro.

― Você esperava isto aqui?

E Manoel fez um gesto que englobava toda a vida eterna.

― Pra dizer a verdade ― disse Bira ― pensei que eu fosse direto para o Inferno.

― Acho que elas é que decidem pra onde a gente vai ― disse Manoel, indicando as recepcionistas com a cabeça.

E, com efeito, quando voltou da sua entrevista com a recepcionista e cruzou com Manoel, que fora chamado, Bira anunciou:

― Me deram uma chance. Purgatório. Duzentos anos.

― Parabéns!

A recepcionista era simpática. Digitou o nome de Manoel no computador e quando a sua ficha apareceu, exclamou.

― Ah, Brasil! Português?

― Português.

E o português dela era perfeito. Fez várias perguntas para confirmar os dados sobre Manoel que tinha no computador. Sempre sorrindo. Mas o sorriso desapareceu de repente. Foi substituído por uma expressão de desapontamento.

― Ai, ai, ai... ― disse a recepcionista.

― O que foi?

― Aqui onde diz "Religião". Está: "Nenhuma."

― Pois é...

― O senhor não tem nenhuma religião? Pode ser qualquer uma. Nós encaminhamos para o céu correspondente. Ou, se o senhor preferir reencarnação...

― Não, não...

― Então, sinto muito. Sua ficha é ótima, mas... Manoel a interrompeu:

― Não tem céu só pra ateu, não?

Não existia um céu só para ateus. Nem para agnósticos. Também não eram permitidas conversões "post-mortem". E deixá-lo entrar no céu, numa eternidade em que nunca acreditara, o sr. Manoel teria que concordar, não seria justo para com os que sempre acreditaram. Infelizmente, ela tinha que...

― Espere! ― disse Manoel, dando um tapa na testa. ― Me lembrei agora. Eu sou Univitalista.

― O quê?

― Univitalista. É uma religião nova. Talvez por isso não esteja no computador.

― Em que vocês acreditam?

― Numa porção de coisas que eu não me lembro agora, mas a vida eterna é uma delas. Isso eu garanto. Pelo menos foi o que me disseram quando eu me inscrevi. A recepcionista não parecia muito convencida mas pegou um livreto que mantinha ao lado do computador e foi direto na letra U. Não encontrou nenhuma religião com aquele nome.

― Ela é novíssima ― explicou Manoel. ― Ainda estava em teste.

A recepcionista sacudiu a cabeça mas disse que iria consultar o seu chefe.

Manoel deveria voltar ao seu lugar e esperar a decisão do chefe.

E Manoel voltou para o seu lugar, e desta vez o homem sentado ao seu lado é que puxou conversa. Abriu os braços e disse:

― Você acredita nisto?

― Eu... ― começou a dizer Manoel, mas o outro não o deixou falar.

― É tudo encenação. É tudo truque. Eles tentam nos pegar até o último minuto.

― Por favor. Eu...

― Olha aí.

O homem tinha se levantado e estava chutando as nuvens que cobriam o chão da sala de espera.

― Isso é gelo seco! Você acha mesmo que existe vida depois da morte? Você acha mesmo que nós estamos aqui? Estão tentando nos engambelar. É tudo propaganda religiosa. É tudo...

Mas o Manoel saltou sobre o homem, cobriu sua cabeça com a camisola, atirou-o no chão e sentou-se em cima dele. Para ele ficar quieto e não estragar tudo. Afinal, mesmo que fosse só propaganda, era a vida eterna.

A Volta da Andradina


A volta da Andradina para casa foi cuidadosamente preparada, como a visita de um chefe de estado. Sua irmã mais velha Amélia ― a irmã com a melhor cabeça, era a opinião geral ― tratou de todos os detalhes. Para começar, a discrição. Todos, na casa, do dr. Saul, marido da Amélia, ao Bolota, neto recém-nascido da cozinheira, receberam ordens para, em hipótese alguma, revelar o dia e a hora da chegada da Andradina. O Bolota só ficou de olhos arregalados mas o resto da família jurou não dizer nada. Fora da casa, ninguém precisava saber que a Andradina estava voltando.

A chegada da Andradina só não teve ensaio geral. Tudo foi planejado. Quem iria ao aeroporto buscá-la, quem ficaria na casa, quem cuidaria das malas.

Na véspera da chegada, Amélia reuniu todos na sala para as últimas instruções. Horário de partida para o aeroporto, provável horário de chegada da Andradina na casa (se o avião não atrasasse), como cada um deveria se comportar. Importantíssimo: nem uma palavra sobre o caso. Para todos os efeitos, ninguém sabia de nada. Para todos os efeitos, Andradina apenas decidira passar uma temporada em casa, descansando e revendo a família. Nada mais natural. Alguém perguntou:

― E na mesa?

― Como, na mesa?

― Na mesa. Na conversa normal. No dia a dia. Não se toca no assunto?

― Só se ela tocar. Entendido?

Entendido. Ninguém diria nada. E principalmente ninguém mencionaria o nome "Geraldo". Regra número um da casa: daquele momento em diante, "Geraldo", não. "Geraldo" em hipótese alguma. Como margem de segurança, talvez fosse melhor banir todos os nomes começados em "Ge". De pessoas e de coisas.

― Ai meu Deus ― disse Alicinha, a filha do meio, a que falava mais e nem sempre se dava conta do que dizia. Precisaria se controlar para não dizer "Geraldo". Tinha certeza que acabaria dizendo "Geraldo". Cruzaria com a tia Andradina no corredor e em vez de "Bom dia" diria "Geraldo". Tinha certeza.

Alicinha ficou muito nervosa.

A Operação Chegada transcorreu sem problemas. O avião não atrasou, Andradina entrou na casa no horário previsto. Sorriu para todos, fez festa para o Bolota, disse que preferia não almoçar. Estava cansada, iria para o quarto, talvez dormisse um pouco, mais tarde comeria alguma coisa. Amélia decretou silêncio absoluto na casa enquanto Andradina descansava. O Bolota foi exilado, para evitar o perigo do choro extemporâneo. Durante toda a tarde, Amélia patrulhou a casa, pronta para abafar no nascedouro qualquer ruído que pudesse perturbar o descanso de Andradina. Pensando: "Como ela está pálida, coitadinha. Como ela está pálida."

Andradina era a irmã mais moça. Amélia era meio mãe de Andradina.

Infelizmente, Andradina não ouvira o que Amélia lhe dissera sobre o Geraldo.

Todas as suas previsões sobre o Geraldo tinham se cumprido. Bem que Amélia avisara. Quando Andradina saiu do quarto, no fim da tarde, encontrou a mesa da cozinha posta, com três tipos diferentes de bolo. Inclusive o seu favorito, de banana.

No jantar daquela noite, todos se esforçaram para deixar Andradina à vontade. O dr. Saul, que raramente falava, foi quem mais falou. Chegou a lembrar o seu tempo de bailarino. É, bailarino. Alguém se lembrava do tuíste? Dançara muito tuíste. A Alicinha, que normalmente era a que mais falava, não disse nada.

Ficou muda durante todo o jantar, apavorada com a possibilidade de dizer "Geraldo", ou coisa parecida, sem querer. Andradina comeu pouco e falou pouco. Passou o tempo todo com um sorriso triste nos lábios. Foi cedo para o quarto. Não, não acompanhava a novela. Quando Andradina se retirou, todos respiraram aliviados.

Tinham se comportado bem. Amélia voltou do quarto, onde fora ver se a irmã tinha tudo de que precisava, e premiou toda a família com a sua aprovação.

Tinham se comportado muito bem. O primeiro dia da volta da Andradina, pelo menos, fora um sucesso. Sem gafes. Coitadinha da Andradina.

No café da manhã do dia seguinte, quase uma catástrofe. Alicinha começou a dizer "Me passa a ..." e parou. Será que podia dizer "geléia"? Geléia era com "ge"? Mesmo se fosse "jeléia" com "jota" o som seria o mesmo e as conseqüências poderiam ser desastrosas. Completou: "...manteiga?" Andradina aparentemente não notou a hesitação da sobrinha. E logo depois do café pediu para falar com Amélia no quarto. Queria contar tudo. Com detalhes. As duas irmãs passaram a manhã trancadas no quarto.

Fora alguns soluços da Andradina, ninguém ouviu nada do que se passava lá dentro. Nem quando colaram o ouvido na porta. Perto do meio-dia a Amélia saiu do quarto, sacudindo a cabeça como se dissesse "eu bem que avisei". E deu novas instruções. A partir daquele momento, além de "Geraldo" e qualquer palavra começada com "ge", ninguém deveria falar em arreios, chapéu de marinheiro e pomada mentolada na presença da Andradina.


A Volta do Fu Manchu


Essa crise seria impensável em outra era, necessitaria não só de instrumentos de morte que não existiam como um mundo interligado, com comunicação e mobilidade rápidas, que antes também não existiam. Mas ao mesmo tempo é uma crise retro, uma crise nostálgica, quase ingênua na sua evocação de símbolos e situações de romance antigo. Quando o Bush chama o Bin Laden de "the evil one" ― "o mau" ― lembra o Fu Manchu, e qual foi a última vez, na ficção ou fora dela, que se recorreu a algo parecido com o insidioso doutor para explicar um mal que nos assola?

É verdade que a personalização do mal numa figura exótica que mobiliza súditos fanatizados era uma tática recorrente do colonialismo europeu, que no seu ocaso precisava equiparar ataques ao seu domínio a ataques à razão e às religiões sensatas. A Inglaterra começou a perder a Índia quando Gunga Din, o personagem de Kipling que dava a vida para salvar seus mestres ingleses dos selvagens adoradores da deusa Kali, se transformou em Mahatma Ghandi, tão pertinaz quando os adoradores de Kali, mas ― fatalmente, para os ingleses ― amável como Din. O pacífico Ghandi não podia ser caracterizado como um mameluco maluco, seu tipo de insurreição era inédito, ele foi o fim dos dervixes providenciais que podiam ser abatidos sem remorso na defesa do império, e o fim do "raj", ou da Índia inglesa.

Mas o Fu Manchu da ficção não era um líder insurrecional ou sequer um fanático religioso. O Mal que ele representava não tinha causa, patológica ou política ― ele era "the evil one" apenas porque era mau, ou apenas porque era oriental. Osama bin Laden tem suas causas religiosas misturadas ― por ele mesmo ou por quem o interpreta ― com causas políticas (algumas improvisadas agora, ele nunca antes tinha falado nos palestinos), mas é uma nova versão, revisada, tecnicamente atualizada, adaptada para a TV e a Internet, do Dr. Fu Manchu. Sua fortuna espalhada pelos mercados financeiros do mundo e seus seguidores secretos supostamente só esperando mensagens cifradas pela CNN para espalharem mais terror repetem a teia de sortilégio hipnótico do Fu Manchu, que também cobria o mundo. Mas o Fu Manchu só contava com a telepatia.

O ataque com venenos também é evocativo, embora nada pudesse ser mais moderno do que tóxicos feitos em laboratório. A literatura antiga está cheia de filtros e poções nunca bem explicados interferindo nas tramas, arranhões ao folhear um livro ou abrir uma carta ― sem falar em líquidos furtivamente derramados de anéis falsos em copos desprotegidos ― levando a mortes misteriosas e desenlaces inesperados. Não se sabia da existência de bactérias. A descoberta das bactérias ― de um mundo de coisas invisíveis e possivelmente letais vivendo com, e muitas vezes na, gente ― foi uma das grandes contribuições da ciência para o terror da humanidade, pois ao mesmo tempo que trazia a explicação e a possibilidade de cura de muitos males, revelava inimigos que a gente nem sabia que tinha. Mas bactérias assassinas nunca tiveram o mesmo prestígio literário das emulsões venenosas, talvez porque a idéia do seu cultivo meticuloso não fosse literariamente tão atraente quanto a de alquimistas destilando líquidos mortais de plantas obscuras e sapos nojentos. Agora os venenos sub-reptícios estão de volta, com as bactérias substituindo as poções. E ― se as suspeitas sobre mais esta maldade de "the evil one" estão certas ― pelas mãos sinistras do novo Dr. Fu Manchu.

Bem que podiam ter deixado a literatura antiga quieta.

ABCDEtc (1)

A ― Primeira letra do alfabeto. A segunda é "L" e a terceira é "F".

AH ― Interjeição. Usada para indicar espanto, admiração, medo. Curiosamente, também são as iniciais de Alfred Hitchcock.

AHN? O quê? Hein? Sério? Repete que eu sou halterofilista.

AI ― Interjeição. Denota dor, apreensão ou êxtase, como em "Ai que bom, ai que bom". Arcaico: Ato Institucional.

AI, AI ― Expressão sarcástica, de troça. O mesmo que "Como nós estamos sensíveis hoje, hein, Juvenal?"

AI, AI, AI ― Expressão de mau pressentimento, de que em boa coisa isto não pode dar, de olhem lá o que vocês vão fazer, gente.

AI, AI, AI, AI, AI ― O mesmo que "Ai, ai, ai", mas com mais dados sobre a gravidade da situação. Geralmente precede uma reprimenda ou uma fuga.

B ― Primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartok, Brecht, Becket, Borges e Bergman, mas também de Bigorrilho, o que destrói qualquer tese.

BB ― Banco do Brasil, Brigitte Bardot, coisas do tipo.

BELELÉU ― Lugar de localização indefinida. Em alguns mapas fica além das Cucuias, em outros faz fronteira com Cafundó do Judas e Raio Que os Parta do Norte. Beleléu tem algumas características estranhas. Nenhum dos seus matos tem cachorro, todas as suas vacas estão no brejo ― e todos os seus economistas são brasileiros.

C ― Uma das nossas letras mais populares. Sem ela não haveria carnaval, caipirinha, cafuné e crédito e a coisa seria bem mais difícil.

CÁ ― Advérbio. Quer dizer "aqui no Brasil". Também é o nome, em português, da letra K, de kafkiano, o que já deveria ter-nos alertado.

CÊ ― Diminutivo de "você", como em "cê soube?" ou "cês me pagam". Também se usa "cezinho", mas só em casos muito particulares, e com a luz apagada.

CI ― Ser mitológico. Na cultura indígena do Amazonas, a mãe de tudo, a que está por trás de todas as coisas, a responsável por tudo que acontece (ver CIA).

CO ― "O outro." Como em co-piloto (o outro piloto), coadjuvante (não o adjuvante principal, o outro) e coabitação (morar com a "outra").



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