Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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CÓ ― O singular de "cós".

CÓS ― Os "cós das calças", que até hoje ninguém descobriu o que são.

CUCUIAS ― Arquipélago, provavelmente no Caribe, mas no lado da sombra... A única coisa certa que se sabe sobre as Ilhas Cucuias é que ficam longe das Ilhas Cayman. Celebrizadas no poema ufanista anônimo Povo de Turistas ("Como viajam os brasileiros/ donos de um elã incomum./ A maioria vai pras Cucuias/ e o resto vai pra Cancun").

D ― 500 em latim. Vale meio M, cinco Cs e dez Ls.

DDD ― Discagem Direta a Distância, ou Dedo Dolorido De tanto tentar.

DE ― Prefixo que significa o contrário, o avesso. Como em "decúbito", ou com o cúbito para cima.

E ― Conjunção. Importantíssima. Sem o E, muitas frases ficariam ininteligíveis, dificultando ainda mais a comunicação entre as pessoas. Em compensação, não existiriam as duplas caipiras.

E? ― E daí? Continue! Qual é a conclusão? Qual é o sentido dessa história toda? Onde você quer chegar, pombas? Vamos, desembuche!

É ― Afirmativa, confirmação, concordância ou resignação. Também usado na forma reflexiva ("Pois é"), na forma interrogativa ("É?"), na forma reflexiva interrogativa ("Né?") e na forma interrogativa retórico-reflexiva ("Ah, é?").

É... ― O mesmo que "Pois é", mas com uma carga filosófica maior. Tudo que tem reticências é filosófico. Ou irônico, que é o filosófico que dá briga.

EH, EH, EH, EH ― Risinho safado. Também dá briga.

EPA! Exclamativo. Usado em situações-limite, como beliscões extemporâneos na bunda, principalmente se ela for a sua. Outras formas: "Opa" (ver OPA), "Peraí"' (ver "PÔ), "Péralá!”‘ (ver AI, AI, AI)”.

ABCDEtc (2)


F ― Ou "efe". Uma das oito letras com duas sílabas do alfabeto. "Doblevê" tem três, "ipsilone" tem quatro e "dobliú", depende. Se você diz o "bliú" ligeiro, é uma sílaba só, se for baiano são duas.

PH ― Efe no tempo em que era "ephe".

G ― De "gongórico", nome dado a tudo que soa como um gongo.

GA-GA-GA-GA-GA... Gago.

H ― A letra "agá". Também pode ser os edifícios do Congresso, em Brasília. Nesse caso, saia de perto.

HONTEM ― Ontem, ontem.

I ― Monograma do Marco Maciel.

IH ― Expressão de mau pressentimento. Como em "Ih, outro discurso do Simon..."

IIIIIII ― Expressão de mau pressentimento quando o pressentido já começou a acontecer e não há nada a fazer senão se preparar para o pior. Ou emigrar, claro. Substitui as frases "Eu sabia...", "Esse filme eu já vi..." "Lá vamos nós outra vez..." e "Ai, ai, ai" (ver AI, AI, AI, AI, AI) IIIIIIIIIIIIIII (Continua) ― Um "liiiih" que não encontra resistência e se prolonga indefinidamente, acompanhando a curvatura da Terra. No Brasil há casos de "liiihs" que começaram há 35 anos e ainda não terminaram.

J ― Uma das letras mais brasileiras do alfabeto. A primeira letra de jabá, jabaculê, jeitinho, jogada e joint venture. Está na nossa origem ("Já fui! Já fui!", as palavras que acompanham nossa concepção) e no nosso fim (jazigo, já era).

JÁ ― Agora.

JÁ, JÁ ― Daqui a pouco.

JESUS! ― Apelo a um poder mais alto, ignorando-se os trâmites normais e todas as instâncias intermediárias ― santos, secretárias, seguranças ― para ir direto em quem manda, ou pelo menos no seu filho.

JURADO ― Membro de um júri. Marcado para morrer. Ou, dependendo de onde for o julgamento, as duas coisas juntas.

K ― Não existe em português, mas ninguém conseguiria dizer "um kantiano kitsch de kilt num kart" sem ela, a não ser que fosse fanho (ver ANHO). Embora seja pouco provável que alguém, algum dia, precise usar esta frase.

L ― O "ele" minúsculo é igual ao "l" e o maiúsculo também, só que com sombra.

LOT ― Ou Ló. De uma vez por todas, preste atenção. Ló era o do pão e dos escravos que jogavam caxangá (ver CAXANQUÊ?), Jó era o das provações de Deus e da mulher que virou estátua de sal. Espera um pouquinho. Jó era o dos escravos, Ló era o do pão e da estátua. Não! A mulher que se transformou em estátua e os escravos eram do Jó, Ló era só o do pão. Não! Os escravos eram da mulher do Jó, o Ló era o das provações e o Jó virou pão. Não! Os escravos eram da mulher do Ló, que era uma das provações do Jó, que virou estátua de sal mas do Ló. Não! O Ló virou Jó e... Esquece.

M ― Primeira letra de "eme".

N ― O "ene", não.

O ― A letra símbolo da Kabala. A Cobra da Vida comendo a si mesma por toda a Eternidade. A letra que é um número, e o número que é um vazio. O Tudo e o Nada num mesmo signo. Em inglês, "OK". Em português: "Aqui, ó."

Ó ― Interjeição. Como em "Ó vida" ou "Ó tempos, ó modos" e, especialmente, "Ó Minas Gerais".

OBA ― Epa, no bom sentido.

OH ― Interjeição. Como em "Oh, não!" e, principalmente em filme americano dublado, "Oh, sim!"

OI ― Alô.

OI, OI, OI ― "Ai, ai, ai" mais baixinho. (Ver "iiiiiiiih") PÔ ― Abreviatura de "positivamente", como em "Positivamente, assim não dá".

QRST ― Único grupo de quatro letras sucessivas no alfabeto que não inclui uma vogal. E você sabe o que isso significa...

UI ― "Epa" de quem está gostando.

V ― De Verdade e Vileza, Verme e Virgem, Veneno e Valium, é a única letra do alfabeto que, de cabeça para baixo, vira uma casinha. É preciso dizer mais?

XYZ ― As últimas letras do alfabeto. Pronuncia-se "xyz". O "X" e o "Z" são, juntos com o "K", as letras mais duras e antipáticas do alfabeto e existe uma suspeita de que sejam nazistas. Não admira que o "Y", entre as duas, esteja com os braços para cima, apavorado.


Abertura de Guilherme Tell


Situação clássica. Marido volta de viagem mais cedo do que o esperado e encontra a mulher na cama, nua sob o lençol. Estranha, porque são 4 horas da tarde. Pergunta o que ela faz na cama àquela hora.

― Enxaqueca.

Há um telefone celular sobre a mesa de cabeceira. O telefone toca.

― O que é isso? ― pergunta o marido.

― Acho que é a abertura de Guilherme Tell.

― De quem é?

― Puccini.

― A música, não. O celular.

― É meu.

― Não é não.

A mulher estende um braço nu para pegar o telefone mas o marido a detém.

― Deixa que eu atendo.

Este é o começo da história. A abertura. A continuação você pode escolher, entre três possibilidades. A primeira:

― Alô?


― É o seu Gastão?

O marido hesita. Depois:

― É.

― Ele acaba de entrar no prédio. Se manda!



― Ele quem?

― Como, "ele quem"? O marido. O ... Espera um pouquinho. É o seu Gastão que está falando?

― Não, é o marido. Mas pode deixar que eu dou o recado.

Nisso o Gastão salta de dentro do armário, nu, e corre para a porta. O marido fica onde está, segurando o celular. Olha para a mulher.

― Quem era? ― pergunta.

― Pela bunda não deu pra ver.

― Você não conhece.

― Gastão. Ele se chama Gastão?

― É.

― Há quanto tempo isto vem acontecendo?



― Foi a primeira vez.

― Você sabia que tinha alguém vigiando o prédio, para avisar da minha chegada?

― Sabia. Foi idéia minha.

― Não acredito.

― Pois é. Você não diz que eu sou incapaz de um pensamento seqüencial? Pois planejei tudo. Dispensei a Noemia. Montei todo o esquema. Só não deu certo porque o seu Inácio demorou para avisar.

― O seu Inácio?!

― É.

― Quando a gente pensa que conhece as pessoas... ― diz o marido. Está se referindo ao porteiro.



― E depois de todos os abonos de Natal!

A notícia da traição do porteiro dói mais no marido do que a traição da mulher. O que talvez explique a traição da mulher.


* * *
Segunda possibilidade. Marido atende o celular que toca a abertura de Guilherme Tell.

― Alô.


― Gastão? Sônia. Beijo. Você pode trazer presunto cru?

― Ahn, mmm...

― Gastão? Quem é? Quem é que está falando? Ai meu Deus!

― Calma, eu...

― Onde está o Gastão? Quem é você? Por que está com o celular dele? O que aconteceu com o Gastão?

― Não aconteceu nada. Calma. Ele está aqui. Em algum lugar.

― Quem é você?

― Não interessa. Um amigo. Está tudo bem com o Gastão.

― Você está me mentindo. Ele teve um acidente. Você está assaltando o Gastão!

― Não é nada disso, ele...

― É seqüestro?!

― Escuta! O Gastão está bem. Você vai falar com uma pessoa que pode lhe dizer tudo sobre o Gastão. O que eles estava fazendo e onde está neste momento. Notícias frescas. Espere só um minutinho.

E o homem passa o celular para a mulher, que faz uma cara de pânico.

― O quequieu digo?

O homem senta na beira da cama e cruza as pernas. Diz:

― Mal posso esperar pra ouvir.


* * *
Terceira possibilidade.

― Alô.


― Gastão? Sônia.

― Arrã.


― Eu sei onde você está.

― Arrã.


― Não tente me conversar. Eu sei. O seu Inácio, do edifício dela, me conta tudo.

― Arrã.


― Me deixa falar! Só quero dizer uma coisa. Você está ouvindo? Onde existe um homem traindo, existe uma mulher frustrada.

― Arrã.


― E onde existe uma mulher traindo, existe um corno abandonado.

― Arrã.


― Quieto! E uma mulher frustrada e um corno abandonado podem se juntar, meu caro. E podem ser vingativos. Entende? Nós vamos humilhar vocês. Eu e o marido dela. Vou fazer coisas com ele que você não imagina. Só estou avisando.

― Arrã.


Quando ele desliga o telefone, a mulher pergunta:

― Quem era?

― Era para ele.

― Sei.


― O Gastão...

― Sei.


― Faça-me o favor. Gastão?!

― Pelo menos ele...

― E outra coisa ― interrompe o marido.

― Você se enganou.

― O quê?

― Guilherme Tell...

― Quequitem?

― Não é Puccini. É Rossini.


Abstraindo


― Há coisa melhor do que isto?

Os braços abertos do Fabião incluíam tudo: a mesa, os chopes, o último bolinho de bacalhau, os quatro além dele em volta da mesa, as outras pessoas em volta das outras mesas no terraço do bar, o dia que acabava, o verão que começava, a cidade, o país, o mundo inteiro naquele momento.

Como os outros só fizessem comentários neutros ― "É...", "Beleza, né?" "Podes crer..." ― Fabião repetiu a pergunta.

― Não. Existe coisa melhor do que isto? Não é pergunta retórica. É enquete.

― "Isto" que você quer dizer... ― tentou o Márcio.

― Isto! Este momento. Nós aqui tomando este chope, neste fim de tarde. Todo mundo amigo, todo mundo se sentindo bem.

O Remi começou a dizer alguma coisa, mas o Fabião o deteve com um gesto.

― Você não vale, Remi.

O Remi era hipocondríaco. Estava sempre sentindo alguma coisa. Fabião se dirigia aos outros.

― O que que falta para este ser um momento perfeito nas nossas vidas? Hein? Hein?

O Carlos Alberto, cujo apelido era Holofote, olhou em volta. Não queria ser um estraga-prazer, mas...

― Eu estou desempregado...

― Abstraindo isso ― disse Fabião.

― Estou bem ― reconheceu o Holofote. E depois, para não decepcionar o Fabião: ― Estou ótimo.

― Então ótimo. E você, Márcio?

Márcio pensou um pouco. Depois revelou, como se fosse informação privilegiada:

― A situação do país não tá boa, viu?

― Abstraindo isso.

Márcio teve que reconhecer. Não podia pensar em nada melhor do que estar ali, tomando aquele chope com os amigos, naquele momento, apesar da situação do país. Não faltava nada para o momento ser perfeito.

― Sei não ― disse o Remi. ― Sei não...

Já que não podia introduzir sua indiscutível gastrite, sua possível diabete e seu provável câncer na avaliação do momento, Remi decidira não ceder tão facilmente.

― "Sei não" por quê? ― desafiou o Fabião.

― O bolinho de bacalhau podia estar melhor.

― Abstraindo isso.

Remi sacudiu a cabeça, fazendo nem sim nem não, querendo dizer que não estava convencido. Insistiu na rebeldia.

― O que eu ganho é uma merda.

― Se é por isso, o que eu ganho também é uma merda ― disse Márcio.

― Abstraindo isso.

Remi não se entregou. Disse:

― Eu vou morrer.

E antes que o Fabião impugnasse sua intervenção dizendo que não valia porque ele estava sempre à morte, Remi continuou:

― Quero dizer, nós todos vamos morrer. Este é só um breve momento no processo irreversível da nossa degradação física. Eu tenho poucos dias de vida, mas vocês todos vão morrer, mais cedo ou mais tarde. Até o Holofote, que faz exercício. É um dado que tem que ser levado em consideração.

― Abstraindo isso.

Abstraída a mortalidade comum da mesa, ninguém mais tinha argumento contra o Fabião. Até que o Sabóia, que ainda não falara, limpou a garganta e falou:

― Tem o Nada.

― O quê?

― O Nada. "N" maiúsculo.

― Que Nada?

― O grande vazio. Além das estrelas, além do Universo.

― Isso não existe. Além das estrelas tem mais estrelas.

― Se o Universo está em expansão, tem que se expandir para algum lugar. Está se expandindo para o Nada.

― Então não é o Nada. É o Infinito.

Ficaram discutindo se o Infinito era alguma coisa ou era nada, ou se nada era mesmo o Nada, e se precisava ter lembrado que a Humanidade não passa de um limo passageiro numa pedra insignificante solta num espaço inexplicável num Universo absurdo, como se não bastasse o bolinho de bacalhau ser só batata. Até que o Fabião perdeu a paciência, deu um soco na mesa e gritou:

― Abstraindo o Nada!

Mas aí já era tarde, o próprio Fabião decretou que a excepcionalidade do momento tinha passado sem que ninguém a aproveitasse e, mesmo, parecia que ia chover.

Agendas


Obrigado pelas agendas, gente. Não precisava tantas, mas tudo bem. Gosto de ganhar agendas. Elas trazem um ar de otimismo e confiança no futuro. E de certeza implícita que eu vou estar vivo e ativo pelo menos durante mais um ano e um mês, já que todas incluem janeiro do ano seguinte. Obrigado pela força, gente.
As agendas se dividem em dois tipos. As que existem simplesmente para nos organizarmos e não perdermos a hora, e só nos dizem a que dias da semana correspondem os dias do mês e, vá lá, quando cai o carnaval, e as que nos tratam como recém-chegados ao mundo. Para estas, cada passagem de ano é um renascimento. Elas são nossos manuais de sobrevivência, com tudo que precisamos saber sobre o Tempo e o Universo para nos situarmos neles no novo ano, com espaço para anotações. Já conhecemos o lugar, inclusive de outras agendas, mas não importa. As informações repetidas são uma forma de nos assegurar que tudo continua como era no ano passado e podemos recomeçar a vida do básico, que não mudou. A capital da Malásia (código DDI: 60, moeda: ringgit) continua sendo Kuala Lumpur que continua à mesma distância de Bangcoc, e uma légua de sesmaria continua equivalendo a 6.600 metros. E por mais que tentasse, a Terra não conseguiu diminuir seus 12.760 km de diâmetro no Equador. Elas nos dizem tudo isso, e também a data do carnaval.
Algumas informações precisam ser atualizadas de ano para ano, no entanto, e se é certo que a conversão de quilogramas para libras não vai mudar num futuro previsível não se pode dizer o mesmo do nome da moeda do Brasil, que obriga os redatores de agendas a viver em alerta. Gosto de agendas com mapas e numa das que recebi este ano os mapas estavam devidamente atualizados ― todos os novos países da África com seus nomes certos, por exemplo ― mas um cartógrafo desafiador se recusou a trocar o nome Leningrado por São Petersburgo, na certa confiando que a História ainda dará uma reviravolta e ele só teria que trocar de novo.
Coisas como tabelas de conversões e códigos telefônicos são mais ou menos óbvias mas que outras informações dar numa agenda depende da inspiração de cada editor, e dos seus critérios sobre o que é importante para nos integrar no mundo prático, que é o mundo das agendas. Saber quais são os feriados oficiais de todos os países da Terra pode ser importante. Vá você chegar no Açafrão sem saber que é o Dia do Bode Sagrado, quando fecha tudo. Mas eu preciso mesmo saber o índice pluviométrico da Sumatra nos últimos 50 anos? Algumas agendas não se limitam a dar as informações sumárias sobre o dia que o próprio dia seria obrigado a dar sob interrogatório inimigo: nome e número. Muitas dão o nome do dia em várias línguas, para enfatizar o seu caráter internacional. Informam, por exemplo, que o dia 14 de maio, além de ser sexta, friday, viernes, vendredi da 19ª semana, é o 134º dia do ano. Outras, querendo personalizar ainda mais a informação, incluem o nome do santo do dia, o que tem ajudado muito na escolha de nomes para filhos. Os nascidos em 14 de maio são do Dia de São Matias e antigamente isto não seria apenas uma sugestão de nome, seria quase uma ordem. Felizmente meus pais não consultaram nenhuma agenda para escolher meu nome e eu não me chamo nem Cosme nem Damião, o que teria mudado tudo.
Como são muitas as agendas e só posso usar uma por ano, resistindo à tentação de ficar com todas e planejar várias vidas clandestinas em loucos anos paralelos, decidi ficar sempre com a que traz, além das tabelas e dos mapas, as fases da lua. Nem todos os editores de agenda se dão conta da importância de saber exatamente quando é a próxima Lua Cheia. Somos uma minoria de obsoletos, reconheço. Românticos e lobisomens. Mas temos nossos direitos.

Agora e aqui


Ele chegou em casa do trabalho mais cedo e, embora não tivesse planejado assim, num momento estrategicamente feliz: depois da saída da empregada e antes da chegada das crianças.

A mulher estava na cozinha, arrumando as coisas que trouxera do supermercado.

― E a Luíza?

― Já foi.

― E as crianças?

― Ainda é cedo.

Quando ela levantou a cabeça para ver por que ele ficara parado ao seu lado, em silêncio, deu com o sorriso dele.

― Que foi?

― Vai ser agora.

― Cê tá doido?

― Agora e aqui.

Ele já estava tirando o casaco.

― Cê tá doido.

― Nós nunca fizemos na cozinha.

― Espera um pouquinho...

Ele estava tentando abrir os dois zíperes ao mesmo tempo, dos jeans dela e das próprias calças.

― Espera!

Ela mesmo abriu o zíper e despiu os jeans, depois a calcinha.

Ele estava pulando num pé só para arrancar as calças.

― Onde?


― Aqui. Na mesa. Vem.

― Não! As compras do súper.

― Não interessa.

― Tem ovos!

― Então em cima do fogão.

― Não! Está aceso. A Luíza deixou um...

― Em cima do balcão. Assim. Senta assim e...

― Ui!


― Que foi?

― Sentei em cima dos congelados.

― Vem mais pra cá...

― Cuidado as facas!

― Ai!

― Cortou?



― Sei lá. No chão. Vai no chão mesmo.

― No chão não. No chão não!

― Então onde?

― Na sala.

― Na sala. Vamos.

― Me carrega.

― O quê?

Ela já estava abraçada nele. Braços e pernas. Ele saiu cambaleando da cozinha.

Entre a cozinha e a sala ficava a sala de jantar.

― Vai ser aqui mesmo ― disse ele.

Tentou soltá-la em cima da mesa. Não agüentaria carregá-la até a sala. Ela gritou:

― As frutas da mamãe!

Eram frutas de vidro que ornamentavam o centro da mesa.

― Nunca gostei dessas frutas.

― Pra sala! ― ordenou ela, pulando no seu pescoço outra vez.

A caminho do sofá ele tropeçou num brinquedo e quase caiu. O sofá também estava coberto com coisas das crianças. Até uma planonda.

Ele tentou levá-la para o tapete, mas ela protestou:

― No chão eu não quero.

― Isso já é preconceito, pô.

― Vamos pro quarto.

― E quarto é lugar pra isso?

Ela se descolou dele, pôs os pés no chão e voltou para a cozinha. Ele abriu um espaço, a golpes irritados, entre as coisas das crianças no sofá e sentou-se.

Em cima de um bichinho da Parmalat, que jogou longe. Quando ela reapareceu na porta da cozinha já tinha vestido os jeans.

― Me ajuda a guardar as compras?

― Não.

― Depois a gente pode usar a mesa...



― Agora é tarde.

Há muito tempo que é tarde, pensou ele. E, mesmo, aquela agitação não fizera nada bem para sua coluna.

Gritou para a cozinha:

― Quando vier daí, traz as minhas calças.


Citações
A imprensa e a opinião pública internacionais não sabem distinguir manifestações do "Brasil arcaico" de omissões do governo brasileiro, e o pior é que o governo brasileiro também não sabe. Lá fora tudo é culpa do governo, em Brasília nada é culpa do governo, a confusão é a mesma.

Efe Agá estava reagindo ao massacre de sem-terra em Eldorado dos Carajás como apenas mais um lamentável episódio de arcaísmo brasileiro quando foi avisado que no exterior a matança estava pegando mal. Não podia fazer muito, mas pelo menos mudou o tom do discurso. No caso do incêndio em Roraima, o que todo mundo chamou de omissão o governo chamou de seguir os trâmites: era preciso dar tempo aos antídotos naturais para funcionarem. E deu resultado. Sem que uma autoridade federal precisasse chegar perto de Roraima, vieram os pajés e fizeram a sua dança, depois veio a chuva e apagou o fogo, qual era a pressa? Agora a seca, que é mais antiga no Nordeste do que o próprio Brasil, surpreendeu o governo outra vez. A vantagem do Brasil arcaico deveria ser que, sendo antigo, fosse previsível. Mas ele sempre ataca de surpresa, e lá se vai nossa imagem no exterior.

O governo, mesmo atrasado, traçou um plano de emergência para enfrentar a seca. A primeira fase consistia em dizer aos céus que a melhor maneira de nos compensar por ter levado o Luís Eduardo Magalhães e o Sérgio Motta era mandando chuva, muita chuva, para o Nordeste. Como o apelo sentimental não deu resultado, decidiram abandonar a metafísica e recorrer a uma solução técnica. Chamarão os pajés.

Sempre se disse que se discurso resolvesse alguma coisa o Brasil seria o país mais justo do mundo, e palavras não resolvem. É uma conclusão apressada. O problema não era as palavras do governo, mas a sua má qualidade. Pela primeira vez na história temos um presidente que cita os principais pensadores da sua época com conhecimento e boa pronúncia. Quando o Efe Agá cita Merleau-Ponty, por exemplo, isso não deve ser visto como um símbolo da distância entre a sua pose e a nossa realidade arcaica. São evidentes as conotações hídricas no nome do pensador francês. Mer. L'eau. Ponte.

Efe Agá pode inundar a região com seu discurso. Há esperanças para o Nordeste!


Agradecimento Público


Era preciso subir sete andares para chegar à tribuna de imprensa e no quarto andar eu só parei de dizer "Não tenho mais idade, não tenho mais idade" porque não tinha mais fôlego. Mas foi só encontrar meu lugar com a visão perfeita do campo do estádio de Yokohama, onde se realizaria a final da Copa de 2002, e recuperar o fôlego, e me tornei um homem agradecido. Estava chegando ao fim de um mês de trabalho difícil, mas durante o qual fiz duas das coisas de que mais gosto, que são viajar e ver futebol. O que quer dizer que estava num paraíso. Um paraíso com escadas demais, mas um paraíso. Só podia estar agradecido.

E não só aos que tinham me proporcionado a oportunidade de ver minha quinta decisão consecutiva de Copa do Mundo. Cabe também repetir o agradecimento público que fiz às minhas coronárias, quando, contra todas as previsões, elas me trouxeram até o ano 2000. Obrigado, meninas, pela bonificação. Por esta prorrogação sem morte súbita. Também cheguei a 2002 e ao fim de mais uma decisão de Copa com a participação do Brasil, que sempre são as mais emocionalmente desgastantes, em razoável estado. Com fígado para as comemorações e um cérebro em condições perfeitas para saber o que está acontecendo. E um cérebro em condições perfeitas para saber o que está acontecendo, ou eu já disse isto? E todos os sistemas ainda funcionando, embora às vezes eu custe a lembrar para o que servem alguns.



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