Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Uma vez, com meus 14 ou 15 anos, tive o seguinte pensamento: quando eu ficar bem velho (com 40 anos, por aí), os americanos já terão descoberto a cura de todas as doenças e o segredo de uma vida sem fim, salvo bigorna na cabeça.

Portanto, pra que me preocupar? A verdade é que ninguém pensa seriamente na morte antes dos 30 e poucos anos. A inevitabilidade da morte nos bate de repente, sem aviso, sentados na privada ou no meio de um picolé. Você um minuto está bem, eternão, e no momento seguinte é um mortal irreversível. E pelo resto da vida carregará aquela coisa, o sentimento da sua morte, com você. Como uma hérnia inoperável que só se pode acomodar.

Chega o momento em que todo homem, principalmente todo cardíaco, desenvolve uma fé irrealista na pesquisa médica. Se convence que de algum lugar, provavelmente do Japão, virá o cateter mágico que depositará bactérias amestradas nas suas artérias, e elas começarão a desobstrução definitiva que lhe dará mais cem anos (só mais cem, não é como se tivéssemos pedindo a eternidade) de vida. No fim, tudo se resume numa corrida entre a fatalidade e os japoneses.

Chegar ao ano 2000 foi um feito, chegar a 2002 e ao fim de uma Copa com muito deslocamento e pouco elevador foi uma surpresa, e chegar ao fim de 90 e poucos minutos de um Brasil e Alemanha, que só começou a se definir na metade do segundo tempo, foi um milagre. Mas conseguimos. E quero agradecer a todos que contribuíram para este privilégio. Àquelas primeiras amebas que, há bilhões de anos, tiveram a grande idéia de se unirem e iniciarem o processo que deu em mim ― e no resto da humanidade, claro ― obrigado, obrigado. A meus pais, sem os quais eu não estaria aqui. Ou pior, seria filho de outros. A familiares, amigos, médicos e amigos médicos. À indústria farmacêutica, que me mantém de pé. Ao Internacional e ao Botafogo, cujas provações deixaram este coração mais forte. Obrigado, obrigado.

A Copa da Alemanha em 2006? Se depender de mim, terei idade, sim. Mas depende dos japoneses.

O bunraku é uma das tradicionais formas de teatro do Japão, junto com o nô e o kabuki. No bunraku, bonecos são manipulados por pessoas encapuzadas vestidas de preto, e uma das suas convenções é que a platéia precisa fingir que os bonequeiros não estão no palco para poder aproveitar o espetáculo.

Quem se concentrar nos movimentos dos manipuladores em vez de nos bonecos não acompanhará a trama e perderá o melhor. Nos campeonatos mundiais organizados pela Fifa acontece a mesma coisa: para aproveitá-los, você precisa fingir que os manipuladores não existem, ou são apenas recursos cênicos neutros. Fica cada vez mais difícil ignorar a presença dos vultos negros movendo os atores e os cenários do futebol internacional. Suspeitas de corrupção na Fifa e a crescente influência das megaempresas de artigos esportivos e outras multinacionais na organização dos campeonatos, e de empresários do mercado de jogadores nas decisões da entidade requerem um esforço cada vez maior do público para se concentar no espetáculo e fazer de conta que não tem mais ninguém no palco.

Mas a única maneira de aproveitar o que uma Copa do Mundo tem de único e de sensacional é encará-la como teatro bunraku. É ver os manipuladores em cena ― pois alguns nem se dão mais o trabalho de usar capuz ―, saber que eles estão lá, mas ignorá-los e dar toda a atenção à arte e à grandeza do futebol jogado.


Alfabeto
Do baú:

A ― Primeira letra do alfabeto. A segunda é "L", a terceira é "F" e a quarta é "A" de novo.

AH ― Interjeição. Usada para indicar espanto, admiração, medo. Curiosamente, também são as inicias de Alfred Hitchcock.

AHN? ― O quê? Hein? Sério? Repete que eu sou halterofilista.

AI ― Interjeição. Denota dor, apreensão ou êxtase, como em "Ai que bom, ai que bom". Arcaico: Ato Institucional.

AI, AI ― Expressão satírica, de troça. O mesmo que "Como nós estamos sensíveis hoje, hein, Juvenal?"

AI, AI, AI ― Expressão de mau pressentimento, de que em boa coisa isto não pode dar, de olhem lá o que vocês vão fazer, gente.

AI, AI, AI, AI, AI ― O mesmo que "Ai, ai, ai", mas com mais dados sobre a gravidade da situação. Geralmente precede uma reprimenda ou uma fuga.

B ― Primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartók, Brecht, Beckett, Borges e Bergman mas também de Bigorrilho, o que destrói qualquer tese.

BB ― Banco do Brasil, Brigitte Bardot, coisas desse tipo.

BELELÉU ― Lugar de localização indefinida. Em alguns mapas fica além das Cucuias, em outros faz fronteira com Cafundó do Judas e Raio Que os Parta do Norte. Beleléu tem algumas características estranhas. Nenhum dos seus matos tem cachorro, todas as suas vacas estão no brejo ― e todos os seus economistas são brasileiros.

C ― Uma das letras mais populares. Sem ela não haveria carnaval, caipirinha, cafuné e crédito e a coisa seria bem mais complicada.

CÁ ― Advérbio. Quer dizer "aqui no Brasil". Também é o nome da letra K, de kafkiano, que também quer dizer "aqui no Brasil".

CÊ ― Diminutivo de "você", como em "cê soube?" ou "cês me pagam". Também se usa "cezinho", mas em casos muito particulares, a sós e com a luz apagada.

CI ― Ser mitológico. Na cultura indígena do Amazonas, a mãe de tudo, a que está por trás de todas as coisas, a responsável por tudo que acontece (ver CIA).

CO ― "O outro". Como em co-piloto (o outro piloto), coadjuvante (não o adjuvante principal, o outro) e coabitação (morar com a "outra") CÓ ― O singular de "cós", como em "cós das calças", que até hoje ninguém descobriu o que são.

D ― 500 em latim. Vale meio M, cinco Cs e dez Ls.

DDD ― Discagem Direta a Distância, ou Dedo Dolorido De tanto tentar.

DE ― Prefixo que significa o contrário, o avesso. Como em "decúbito", ou com o cúbito para cima.

E ― Conjunção. Importantíssima. Sem o E, muitas frases ficariam ininteligíveis, dificultando a comunicação entre as pessoas. Em compensação, não existiriam as duplas caipiras.

E? ― E daí? Continue! Qual é a conclusão? Qual é o sentido dessa história?

Onde você quer chegar, pombas? Vamos, fale, desembuche.

É ― Afirmativa, confirmação, concordância. Também usado na forma reflexiva ("Pois é"), na forma interrogativa ("É?"), na forma reflexiva interrogativa ("Né?") e na forma interrogativa retórico-histriônica reflexiva ("Ah, é?").

É... ― Com reticências, o mesmo que "Pois é", mas como expressão de desânimo ou resignação filosófica , muito usado por torcedores do Palmeiras e em comentários sobre o ministério do Lula.

F ― Antigamente, escrevia-se "ephe".

FH ― Em desuso.

GHIJKLMNOPQRSTUV ― Letras que precedem o W, o X e o Z e sem as quais nenhum alfabeto estaria completo W ― De "Wellington" ou "Washington". Só é mantida no alfabeto brasileiro para ser usada por jogadores de futebol, que têm exclusividade.

X ― No Brasil, "queijo".

Z ― "S" depois de um choque elétrico.

ZÉ ― A gente. Ver também "Mané".

ZZZZ ― Sssshhhh!


Amigos para Sempre

Eram tão amigos, tão inseparáveis, que decidiram morar juntos. Não na mesma casa, num condomínio de casas. Compraram um grande terreno e cada um dos quatro casais construiu sua casa. Nenhuma ficava a menos de 30 metros da outra e a grande área verde era comum às quatro. Ali, Paulo e Marta Helena, Zé Carlos e Titina, Alex e Flávia, Marino e Júlia continuariam fazendo o que sempre faziam, o que gostavam de fazer, o que os mantinha unidos.

Conviveriam. Reuniriam-se ora na casa de um, ora na casa de outro. Fariam jantares ― sempre só os oito ― todas as semanas. Jogariam. Vôlei: homens contra mulheres, ou times mistos (os que preferiam o Paul McCartney contra e os que preferiam o John Lennon, por exemplo; eram os anos 60) Mímica. "War".

Cartas. Tinham todos mais ou menos a mesma idade. Não tinham filhos. Quando viessem os filhos, eles seriam criados ali, no condomínio. Cresceriam juntos e seriam amigos como os pais eram amigos. Aquela amizade nunca acabaria.

Amigos para sempre.

Na inauguração oficial do condomínio, com os oito reunidos no centro do gramado compartilhado pelas quatro casas, os oito com copos de champanhe erguidos, o Paulo disse exatamente isso:

― Amigos, para sempre.

― Amigos para sempre ― disseram todos.

Paulo disse mais. Disse:

― Que a nossa vida seja sempre assim. Que nada mude. Que nunca nos separemos!

― Que nunca nos separemos!

Trinta anos depois, Alex convenceu a Júlia, com quem tinha se casado depois do divórcio dela e do Marino, a visitar o local. Júlia resistira. O Alex tinha aquelas manias. Era um sentimental. Ela preferia não ser lembrada do passado. Mas o Alex insistira e agora ali estavam eles, no meio da grama alta, do capim que quase chegava aos seus joelhos, olhando em volta, olhando as três casas ainda de pé e o que restara da quarta casa depois do incêndio.

"Que horror" disse a Júlia.

Só uma das casas estava ocupada e seu dono obviamente não se preocupava em conservá-la, ou em cuidar do terreno. A churrasqueira, que também era compartilhada pelo condomínio, estava coberta por vegetação selvagem. Um solitário espeto enferrujado jazia sobre lajotas rachadas como uma arma deixada para trás depois de uma batalha perdida. "Lembra?" disse Alex.

"Anrã" disse Júlia, desanimada. Era ali, na churrasqueira comum, num ensolarado domingo de manhã, na absurda briga do Paulo e do Zé Carlos, por nada, por um mal-entendido bobo, que a mágica começara a se desfazer. O fato do Paulo estar endividado e da Titina estar traindo o Zé Carlos com o Marino não ajudara, apesar do consenso de que o Zé Carlos sabia de tudo e não se importava e que o Paulo, sempre metido a grande coisa, merecia a ruína.

Também fora ali, atrás da churrasqueira, que Alex e Júlia tinham começado seu namoro escondido. "Incrível", disse Alex, pensando na rapidez com que aquela amizade que duraria para sempre se desfizera. Culminando no episódio dos foguetes, a briga entre Paulo e Marta Helena e Zé Carlos e Titina porque o filho dos primeiros tinha passado no vestibular e o Zé Carlos Júnior não, os foguetes comprados para comemorar a vitória do Júnior atirados contra a casa de Paulo e Marta Helena porque estes festejavam a vitória do filho acintosamente, para humilhá-los. O incêndio da casa de Paulo e Marta Helena, o processo, a orelha do Zé Carlos quase arrancada pela Marta Helena, e tudo o que se seguira. Incrível.

― Você acha que a convivência humana é um inferno, Júlia?

― Vamos embora, Alex.

Ou: Paulo ergue o seu copo de champanhe no meio do gramado e diz.

― Amigos para sempre.

Todos:


― Amigos para sempre!

Paulo:


― Que nossa vida seja sempre assim. Que nada mude. Que nunca nos separemos!

― Que nunca nos separemos!

Neste momento, algo acontece. Um raio atinge o copo erguido do Paulo. Há uma reversão de pólos magnéticos. Qualquer coisa assim. E 30 anos depois os quatro casais continuam os mesmos. Ainda vivem no condomínio e ainda têm a mesma idade. Nada mudou. Os oito usam as roupas e os penteados dos anos 60.

Quando se visitam, o que é freqüente, as mulheres vão de minissaias ou "hot pants", os homens de cabelos compridos e calças apertadas com boca-de-sino.

O condomínio se transforma numa curiosidade, as pessoas vêm de longe para ver aquele fenômeno, a vida de oito amigos eternizados. Os oito fingem que não notam as pessoas espiando através da cerca, os helicópteros sobrevoando suas casas, e o fato de que nenhum deles envelhece ou muda de hábitos, ou consegue sair do condomínio. Com sua amizade salva do tempo, serão amigos para sempre, para sempre. Um inferno.

Desculpa Na semana passada incluí o cômico Ankito numa lista de pessoas que mandavam e-mails do além. Não sei se o Ankito usa e-mail mas do além não é: vários leitores me avisaram que ele continua vivo e ativo. Espero que continue assim por muito tempo, e me desculpe.

Tchau Estou, como se vê, precisando de férias. Vou tirá-las. Volto a mandar crônica (do além ou daqui mesmo) no dia 22 de junho. Até lá, tchau.


Amores de verão

Eu sei, eu sei. Não duram mais do que a marca do maiô os amores de verão, e lavarás meus beijos dos teus pés junto com o sal. E procurarás aquela concha que eu te dei na praia para lembrar de mim pra sempre e dirás "Ih, esqueci", aquela concha com a minha vida dentro. Eu sei, eu sei, meu coração também não coube na sua mochila, ficou numa gaveta, junto com o protetor solar número 3 e o Harry Potter. Nos encontraremos na cidade e eu pedirei meu coração de volta e você dará um tapa na testa e dirá, "Ó cabeça" e dirá "Desculpe, viu Renato" e isso não será o pior. Nos encontraremos por acaso, não como combinamos, mas isso também não será o pior. Nada do que combinamos aquela noite na praia, sob aquela lua, com aquela lua nos seus cabelos, com seus cabelos fosforescendo sob aquela lua, nada do que combinamos naquela noite sob aquela lua acontecerá, e isso também não é o pior. Eu sei, eu sei, eu não esperava que nossos grandes planos dessem certo, o juramento de não voltar para a escola mas fugir para os Estados Unidos, cada um com o seu sonho e o seu inglês do Yázigi, e dar duro e ser feliz e só voltar famoso, você como cantora e eu, sei lá, como o melhor entregador de pizza do mundo, ou o plano de casar ali mesmo, o luar como grinalda, a espuma do mar como testemunha, a concha em vez de um anel e ninguém ficar sabendo, e ficar vivendo na praia ou voltar e ir viver juntos numa cobertura com piscina se nossos pais concordassem com o preço, para sempre, ou o plano de nunca, nunca mais, nunca nos separarmos. Mas pelo menos os planos menores, como a data certa para nos encontrarmos na cidade, na volta, eu esperaria que você não esquecesse, e você esquecerá, mas tudo bem, o pior não é isso. Nos encontraremos por acaso, meses depois, com o bronzeado desbotando, e você dirá "Desculpe, viu Renato" e eu direi tudo bem, quem precisa de um coração enganado, mesmo? Fique com ele, plastifique, use como centro de mesa, quem se importa? Eu já beijei os seus pés, eu já beijei todo o seu corpo enluarado, mas quem se importa? E direi: o pior, viu? O pior, o que dói, e doerá por muitos verões, é que meu nome não é Renato, é Roberto.

Danem-se

(Da série Poesia numa Hora Destas?!) Vem, alma minha já que tão vizinha está do nosso ninho a ventura que cá dela se sente a vinha...

Vem, vem ― e danem-se os cacófatos!

Engano


Ela acordou na quarta-feira de cinzas ao lado do Saddam Hussein. Os dois nus, ele só com a máscara tapando o rosto, e roncando. Onde é que eu estou?

Pensou ela. E, mais importante, com quem? Que fim levou o Lula? Ela se lembrava de pouca coisa da noite anterior, mas de uma coisa tinha certeza.

Fora para a cama com o Lula. Ou com um Lula. E agora acordava com um Saddam.

O que acontecera? Não estava tão bêbada assim. Ou estava, mas não a ponto de não saber com quem fora para a cama. Era o Lula. Sem dúvida nenhuma, era o Lula. Ou teria ido para a cama com dois? Um Saddam e um Lula? Ou, meu Deus, com três. Com um Bush também! Não, com o Bush não. Por mais bêbada que estivesse, não iria para a cama com o Bush. Mas onde estava o Lula?

Levantou a máscara do homem, que dormia profundamente. Não o conhecia.

Sacudiu― o.

― Ei, Saddam! Acorda!

O homem parou de roncar. Mais uma sacudida e abriu os olhos. Sorriu para ela. Disse:

― Oi.

― Quem é você?



― Você não se lembra? Passamos toda a noite juntos. Brincamos junto.

Trocamos confidências. Você...

― Péra lá. O homem com quem eu passei a noite, brinquei e troquei confidências tinha a máscara do Lula.

― Não. A máscara era esta mesmo. Do Saddam.

― Impossível. O Lula tem barba, o Saddam não tem. Eu não poderia me enganar.

Ou poderia?

― Você se enganou.

― Também, essas máscaras são tão malfeitas...

Ele acariciou o braço dela e perguntou:

― Faz alguma diferença?

Ela puxou o braço, irritada:

― Claro que faz, né?

Ela não sabia bem que diferença fazia, mas enfim. Tinhas seus princípios.

Anônimos
Todas as histórias são iguais, o que varia é a maneira de ouvi-las.

No grupo comentava-se a semelhança entre os mitos e os contos de fada. Na história de Branca de Neve, por exemplo, a rainha má consulta o seu espelho e pergunta se existe no reino alguém mais bonito do que ela. Os espelhos de castelo, nos contos de fada, são um pouco como certa imprensa brasileira, muitas vezes dividida entre as necessidade de bajular o poder e de refletir a realidade. O espelho tentou mudar de assunto, elogiou o penteado da rainha, o seu vestido, a sua política econômica, mas a rainha insistiu.

Existia no reino uma beleza maior do que a sua?

"Existe", disse, finalmente, o espelho, maldizendo o seu mínimo compromisso profissional com a objetividade. Uma menina de pele tão branca, de cabelo tão loiro e de rosto tão lindo que era espantoso que ainda não tivesse sido procurada pela agência Ford, apesar dos seus 12 anos incompletos. Seu nome:

Branca de Neve. A rainha má esbravejou. Espumou. Chutou o espelho. E mandou chamar um lenhador. Sua missão: levar Branca de Neve para a floresta, matá-la, desfazer-se do corpo e voltar para ganhar sua recompensa.

Nada se sabe sobre esse lenhador. Seu nome e sua biografia não constam em nenhuma versão do conto. A rainha má é A Rainha Má, claramente um arquétipo freudiano, a mãe de Electra mobilizada para eliminar a filha rival que seduzirá o pai, e os arquétipos não precisam de nome. O Príncipe Encantado que aparecerá no fim da história também não precisa. É um símbolo reincidente, talvez nem a Branca de Neve se dê o trabalho de descobrir seu nome e, na velhice, apenas o chame de "Pri", ou, ironicamente, "Seu Encantado". Dos sete anões se sabe tudo: nome, personalidade, hábitos, fobias, CIC, tudo. Mas do personagem principal da história, sem o qual a história não existiria e os outros personagens não se tornariam famosos, não sabemos nada. Um lenhador, pronto.

Toda a história depende da compaixão do lenhador, que deixou Branca de Neve fugir e levou um coração de passarinho para trocar pela recompensa da Rainha Má. O lenhador não é símbolo de nada. Salvo talvez da importância do fortuito em qualquer história, mesmo as mais preordenadas. Ele só entra na trama para fazer uma escolha, mas toda a narrativa fica em suspenso até que ele faça a escolha certa, pois se fizer a errada não tem história. O lenhador compadecido representa os dois segundos de livre-arbítrio que podem desregular o mundo dos deuses e heróis. Por isso é desprezado como qualquer intruso e nem aparece nos créditos.

Laio ouve do seu oráculo que seu filho recém-nascido um dia o matará, e manda chamar um pastor. É o lenhador, numa caracterização anterior. O pastor é incumbido de levar o pequeno Édipo para as montanhas e eliminá-lo. Mais uma vez um universo inteiro fica parado enquanto um coadjuvante decide o que fazer. Se o pastor matar Édipo, a psicanálise como nós a conhecemos nunca existirá, com previsíveis efeitos, inclusive financeiros, em tantas vidas.

Se não matar, Édipo crescerá com pais adotivos, que abandonará quando ouvir de um oráculo ― os oráculos são símbolos dos chatos que sempre contam o fim da história ― que matará seu pai, casará com sua mãe e será pai do seu irmão e seu próprio enteado. Enfim, aquela confusão. O pastor poupa Édipo, que matará Laio por acaso e casará com Jocasta, sua viúva, sem saber que é sua mãe, e dá início ao mito, ao complexo e a 5 mil anos de culpa.

O pastor podia se chamar Ademir, nunca ficamos sabendo. Como o lenhador, também não se sabe que fim levou. Talvez um dia, anos depois, com o drama acabado, tenha cruzado com Édipo, que não o reconheceu. Mesmo porque, sem os olhos, seria difícil. Se tivesse matado Édipo, nada daquilo teria acontecido. Pode-se imaginar a conta da análise do pastor.

Todos no grupo concordaram que as histórias reincidentes mostram como são os figurantes anônimos que fazem a História, ou como, no fim, é a boa consciência que move o mundo. Mas uma discordou e disse que tudo aquilo só provava o que ela sempre dizia: que o maior problema da humanidade, em todos os tempos, era a dificuldade em conseguir empregados de confiança, que fizessem o que lhes pediam.




Antigas namoradas

De vez em quando as pessoas têm vontade de se inventariar. É natural. Acham que devem fazer uma recapitulação crítica da sua vida. Isso geralmente ocorre quando se chega a uma certa idade, pois a primeira condição para examinar o passado é ter um passado. A segunda condição é ter tempo. Foi o que aconteceu com o Plínio quando se aposentou. Não tinha nada para fazer, e um dia se viu pensando nas suas namoradas. Todas as namoradas que tivera, desde a primeira. Quem fora a primeira? A Maria Augusta, claro. Nunca mais pensara na Maria Augusta. Foi uma lembrança tão forte que ele chegou a exclamar em voz alta:

― Gugu!

A mulher pensou: pronto. O Plinio ficou gagá. Só estava esperando se aposentar para ficar gagá. Senilidade instantânea. O Plinio não era de perder tempo.

Mas ele continuou:

― Que coisa. Como eu fui me esquecer?

― Quem?

― A minha primeira namorada. Maria Augusta. Gugu.

― A primeira?

― É. Nós tínhamos 12 anos. O primeiro beijo na boca. Ela que me deu.

Namoramos escondidos. Uma vez combinamos que um ia sonhar com o outro. Seria um sonho só. Nos encontraríamos no sonho. Engraçado, as coisas que a gente começa a se lembrar...

― E sonharam?

― Hein? Não, claro que não. Mas mentimos que sim. O namoro durou um verão.

Nunca mais soube dela. Depois veio a ... a ... Sulamita!

― Você namorou uma Sulamita?!

― Preciso fazer uma lista.

O Plínio saiu atrás de papel e caneta. Pronto, pensou a mulher. O Plínio encontrou uma ocupação.

― Então, vamos ver. Gugu, Sulamita...

― Que idade tinha essa Sulamita?

― Uns 14. Primeiro beijo de língua. Primeira mão no peito. Mas só por fora.

Ela não queria fazer mais nada. Meu Deus, as negociações! As intermináveis negociações. Deixa. Não deixo. Pega aqui. Eu não. Só um pouquinho. Não. Você não me ama! Sexo, sexo mesmo, ou uma simulação razoável, foi só com a seguinte, que se chamava... Não. Antes do sexo teve um anjo. A Liselote.

Loira, magra, alta. Pele de alabastro. O que é mesmo alabastro?

― Não sei, acho que é uma espécie de...

― Não importa. A pele da Liselote era de alabastro. Ela me disse que era um templo e que nenhum homem jamais a penetraria, e que só fazia uma exceção para o meu dedo porque eu a respeitava. E um dia mordeu a minha orelha de tirar sangue!

As coisas que a gente se lembra... Liselote... Acabamos quando fizemos um pacto suicida mas eu levei tanto tempo para escrever o bilhete que ela achou que era má vontade. Anos depois nos encontramos e ela me disse que era psicóloga e tinha quatro filhos. Depois da Liselote, então, sexo animal!

― Como era o nome dela? Do sexo animal?

― Marina. Não, Regina. Cristina. Por aí. Fizemos de tudo, ou quase tudo. Foi a primeira namorada oficial, daquelas de ficar de mão dada na sala. Nossas famílias se conheciam. Durou quatro anos. Engraçado eu não me lembrar do nome dela. Me lembro de um sinalzinho na nádega, estou vendo ele agora, mas não me lembro do nome. Era para acabar em noivado, casamento assim que eu me formasse, o pai dela nos ajudaria... Mas um dia ela me viu descascando uma laranja e teve uma crise. Por alguma razão, o meu jeito de descascar uma laranja desencadeou uma crise. Ela disse que não podia se imaginar casada comigo, com alguém que descascava laranja daquele jeito. Foi um escândalo na família. Mandaram ela para a Europa, para ver se ela se recuperava e, na volta, noivasse comigo. Mas não teve jeito.

― Priscila.



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