Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― O quê?

― O nome dela é Priscila.

― Como você sabe?

― Você me apresentou, não lembra? Só não me contou a história da laranja.

― Nem sei se foi laranja. Alguma coisa que eu fazia que... Bom, Priscila.

Depois dela, deixa ver... Mercedes. A boliviana. Colega na faculdade.

Baixinha. Grandes seios. Vivia cantarolando. Não parava de cantarolar. Um dia eu reclamei e ela atirou um vaso na minha cabeça. Depois, depois...

― Não teve uma Isis?

― Isis! Claro. Eu falei da Isis pra você? Era corretora de móveis. Bem mais velha do que eu. Foi quem me ajudou a escolher um escritório, depois da formatura. Não chegou a ser namoro. Fizemos sexo em várias salas vazias da cidade, e ela nunca chegou a tirar o vestido. Não era bonita, mas tinha pernas longas, usava meias pretas e rosnava quando tinha um orgasmo.

Rosnava. Era assustador. O negócio acabou quando eu encontrei o escritório que queria. Grande Isis... Olha aí, até que não foram muitas. Gugu, Sulamita, Liselote, Priscila, Mercedes a boliviana... Ah, teve uma, eu já contei? Uma que fazia voz de criancinha quando a gente estava na cama.

Falava como criança, me chamava de paizinho, toda melosa, já pensou o ridículo? Como era o nome dela?

― Era eu, Plínio.

― O quê? Não. O que é isso?

― Era eu.

― Não era não. Que absurdo. Nós, inclusive, não transamos antes de casar.

― Transamos, namoramos, e eu falava como criancinha porque você pedia.

― Era outra pessoa.

― Era eu, Plínio. Bota o meu nome na sua lista.

― Não. Nem sei por que eu comecei esta bobagem...

― E quer saber de uma coisa? Não é o seu modo de descascar laranja, Plínio.

É o seu modo de chupar laranja. A Priscila tinha razão. A Priscila tinha razão!


Apenas tênis

Tênis. Apenas tênis. Foi o que a Laura alegou, quando o Márcio anunciou sua intenção de massacrar o Martins. Por que, Márcio, perguntara a Laura. Que importância tinha? Era apenas tênis. Foi quando o Márcio disse:

― Isso mostra como você não conhece a alma masculina. Pior, mostra como você não me conhece.

A Laura não conhecer a alma masculina era uma coisa. Nenhuma mulher conhece.

Mas não conhecer o Márcio era outra. Afinal, os dois estavam casados há oito anos. O que o Márcio estava dizendo era que durante oito anos, Laura vivera com um desconhecido.

Dormira com um desconhecido. Dera um filho a um desconhecido. Só isso explicava ela não entender por que ele iria massacrar o Martins. Por que ele precisava massacrar o Martins.

― O Martins não é o seu chefe?

― É.


― Não é vaidoso, e odeia perder?

― É.


― E então?

― Então é por isso que eu preciso massacrá-lo.

― Eu não entendo vocês.

Laura disse "vocês". Reconhecendo que não os conhecia. O gênero masculino em geral e o seu marido em particular. A alma deles era mesmo um mistério para Laura.

Martins soubera que Márcio jogava tênis assim que ele começara na firma e o convidara para uma partida antes do expediente. Depois outra, e outra. Em breve estavam jogando três vezes por semana. Para não haver o perigo de desencontro nos horários, arranjara para Márcio trabalhar diretamente com ele. Ninguém mais na firma jogava tênis. Até Márcio ser contratado, o Martins não tinha com quem jogar. "Você me caiu do céu" disse o Martins, no vestiário, depois de uma partida. E Márcio era claramente favorecido pelo Martins, no emprego. Não importava que comentassem no escritório que o patrão protegia Márcio, uma parceiro para o tênis não era fácil de encontrar. Os dois eram mais ou menos do mesmo nível. Entediam-se bem.

Apenas, quando perdia, Martins costumava dar sinais de irritação. Mas nada que durasse além do banho, no vestiário. Normalmente chegavam ao escritório juntos, comentando o jogo. Até que um dia...

Começou na discussão de uma bola duvidosa.

― Fora! ― gritou o Márcio.

― Dentro! ― gritou o Martins.

― Fora! Está aqui a marca.

― Dentro. Um palmo dentro.

― Como você pode ver daí?

― Não interessa. Foi dentro.

― Foi fora.

― Eu estou dizendo que foi dentro e eu sou o seu chefe.

Por um instante os dois ficaram em silêncio. Depois o Márcio deu uma risada, disse "Está bem, você é quem manda", Martins riu também, e o jogo continuou.

Mas naquele dia os dois entraram no escritório sem se falar.

Isso foi numa quarta. Na sexta os dois jogaram com mais empenho do que o normal. No fim, o jogo foi feroz. Disputado até o último "game". Martins venceu, com uma bola que bateu na rede e caiu no outro lado. Venceu por centímetros. E cerrou o pulso, deu um "jab" no ar e disse "Yes". Foi o "yes" que fez Márcio reagir. Sabia que não devia, mas não se conteve. Disse "Sorte".

Sorte nada, meu amigo. Classe.

― Sorte.

― Nós jogamos dez jogos como o de hoje, e eu ganho sete. Oito!

― É. Tá bem.

― Você acha que é melhor do que eu, Márcio?

― Eu sei que sou melhor do que você.

― Ah, é? Com esse seu joguinho?

― É. Com este meu joguinho.

― Então vamos fazer o seguinte. Na segunda-feira o jogo é para valer.

― Quer dizer que até agora não foi para valer?

― Da minha parte, não.

― Ah, não? Você joga cada bola como se valesse tudo. A vida. Quando perde um ponto, fica histérico. Isso quando não rouba, e diz que bola fora foi dentro. Eu é que não jogo para valer, para não magoar você.

― Ah, é? Ah, é?

― É.


― Então vamos ver na segunda-feira!

― É o melhor emprego que você já teve, Márcio. Ele adora você. Você vai botar tudo isso fora só porque...

― Ele chamou de meu joguinho.

― Márcio, pense um pouco. Pense no nosso futuro. Pense no Henrique André.

Henrique André era o filho. Os nomes dos avós.

― Ele vai ver só o meu joguinho.

― Márcio, ele disse que você caiu do céu. Quando é que um patrão diz isso para um empregado, Márcio? Você está feito na vida. É só deixar ele ganhar.

― Quero ver ele dizer "yes" na segunda-feira.

― Márcio, é apenas tênis!

― Aí é que você se engana.

Era aí que ela se enganava. Era aí que ela não entendia a alma masculina, e muito menos a do Márcio.

― Não é apenas tênis, Laura.

― Então só pode ser burrice. Jogar fora uma carreira, o futuro da sua família, tudo, por uma partida de tênis, só pode ser burrice.

― Não é apenas tênis, Laura ― repetiu Márcio.

― Então o que é?

Não adiantava.

― Você não entenderia, Laura.

Apetitosos


Àidéia de que não somos mais do que uma erupção passageira na superfície de um planeta menor numa galáxia entre trilhões de outras se antepôs, ultimamente, a convicção ― agora não mais religiosa, mas cientificamente plausível ― de que o Universo existe para a gente existir. O fato de a Terra estar na distância exata do Sol para haver vida como a nossa ― um pouquinho mais perto ou um pouquinho mais longe e nem você, eu ou qualquer outro mamífero seria possível ― é apenas uma amostra dessa grande deferência conosco. Somos a razão de tudo, o resto é cenário ou sistema de apoio. E não fazemos feio entre os mamíferos. Nenhuma outra espécie com a mesma proporção de peso e volume se iguala à nossa. Nosso habitat natural é o planeta todo, independentemente de clima e vegetação. Somos a primeira espécie da História a controlar a produção do seu próprio alimento e a sobreviver fora do seu ecossistema de nascença. Em nenhuma outra espécie as diferentes categorias se intercasalam como na nossa, o que nos salvou do processo de seleção natural que militou nas outras. E o que a nossa sociabilidade não conseguiu, a técnica garantiu. Mutações que decretariam o fim de outra espécie em poucas gerações, na espécie humana são corrigidas ou compensadas pela técnica. Exemplo: a visão. Enxergamos menos do que nossos antepassados caçadores e catadores, mas vemos muito mais, graças à oftalmologia e a todas as técnicas de percepção incrementada.

Mas nosso sucesso tem um preço. Chegamos aonde estamos consumindo tudo à nossa volta e hoje somos tantos que também nos transformamos em recursos consumíveis. Em breve a carne humana superará em valor calórico todas as outras fontes de alimento disponíveis sobre a Terra. E 10 mil anos ingerindo comida cultivada, mesmo com a maioria só comendo para subsistir, nos tornaram cada vez mais apetitosos e nutritivos. Gente já é o principal exemplo de recurso subexplorado do planeta. E as leis da evolução são impiedosas: comunidades virais e bacteriológicas se transformam para nos incluir, cada vez mais, na sua dieta. Já que estamos ali, aos bilhões, literalmente dando sopa.




Aprendendo a praguejar

"Bárbaros" era o nome dos gregos para quem não falava grego. Ficou sendo o nome de todos que produzem ruídos estranhos em vez da nossa língua e, não tendo uma cultura inteligível, só podem ter uma cultura inferior, ou cultura nenhuma. Em troca do ouro que levava do Novo Mundo, a Europa trouxe uma língua de gente e a palavra de Deus e a certeza de que a troca era justa. Com a linguagem vinha a História e o discernimento da alma e a possibilidade de uma civilização. O fato de o Mundo Novo já ter civilizações, e uma História, apenas contada de outro jeito, era inconcebível. Para muitos, continua inconcebível.


* * *
A Tempestade não é exatamente uma metáfora sobre o colonialismo. Como é a última peça de Shakespeare, talvez seja mais uma reflexão sobre o sortilégio da arte e o poder do artista de criar mundos. Termina com Próspero, o autor-feiticeiro, pedindo a indulgência do público para os excessos da sua imaginação, e suas preces para salvá-lo do desespero. "And my ending is despair, unless I be relieved by prayer." Ariel, Caliban, Miranda, a tempestade, a ilha, são caprichos literários, frutos da linguagem, essa civilização à parte em que os poetas podem tudo. Mas as alusões às terras recém-descobertas (nem tão recém assim, cem anos já tinham se passado desde a viagem de Colombo quando A Tempestade foi encenada pela primeira vez) são claras, e dizem que Shakespeare se inspirou para a sua trama no naufrágio de colonos ingleses a caminho da Virgínia perto das Bermudas. Caliban, principalmente, ficou consagrado como a representação da mistura e fascínio e repulsa que o selvagem provocava na Europa da época. Perguntava-se então que espécie de homem era o selvagem, e era o mesmo que perguntar que espécie de selvagem podia ser o homem.
* * *
Antes dos descobrimentos discutia-se o que definia o homem em relação aos animais. Segundo alguns apressados, o homem era a única criatura com bunda. Uma decorrência da sua inédita estatura ereta. Aí os primeiros exploradores chegaram ao Bornéu e descobriram orangotangos tão eretos quanto o homem, e decididamente bundudos. A articulação vocal seria outra habilidade exclusivamente humana, um critério rapidamente destruído com a descoberta do papagaio. Mas produzir sons diversificados não significava ter uma linguagem, uma cosmogonia e e uma história registrada, além de mitos e rituais. Os "índios" descobertos por Colombo eram gente ou não eram? Só em 1537 um "edicto" papal deu a resposta oficial. Eram. Mas continuavam sendo bárbaros no sentido grego, incapazes de uma civilização conseqüente até que aprendessem a língua do conquistador. Esse critério perdurou por muito tempo depois de 1537. O livro de um pesquisador húngaro chamado Emil Torday sobre uma comunidade indígena africana que retinha uma história detalhada e aferível do seu próprio desenvolvimento causou espanto e desdém nos meios científicos europeus quando foi publicado, não na era elizabetana, mas em 1925. Ainda se acreditava então que os povos primitivos não tinham nada parecido com uma ciência do passado e que um sentido histórico, e com ele a possibilidade do autoconhecimento e do progresso, era uma dádiva do colonizador branco e da sua linguagem. Ainda era esse o espírito das comemorações da descoberta da América em 1992. Quando só o que se estava comemorando era a entrada da América nos livros de Próspero.
* * *
A ilha de A Tempestade fica, segundo a lógica, no Mediterrâneo, já que os náufragos viajavam da Tunísia para a Itália quando Próspero conjurou o seu destino. Dirigiam-se a Milão, para onde o próprio Próspero declara que irá no fim da peça, para uma aposentadoria merecida, durante a qual "cada terceiro pensamento será da minha sepultura". Tudo se arruma no final. Os amantes se casam, os inimigos se reconciliam, o autor renuncia às suas bruxarias e anuncia seu silêncio. Ariel, o fruto bom da sua imaginação, ganha a liberdade. Mas Caliban, o fruto monstruoso, só troca de mestres. Numa versão da peça que vi, há anos, em Paris, Peter Brook colocou atores do Terceiro Mundo em todos os papéis menos no de Caliban, que era branco. Mas nem travestido e politicamente corrigido Caliban escapava do seu destino. Na linguagem civilizada do Ocidente, Caliban será sempre ou servo ou monstro.
* * *
A revolta contra o eurocentrismo, o multiculturalismo, etc. mostram que levou tempo, mas Caliban finalmente dominou a linguagem que o dominava. Como ele mesmo diz a Próspero, na peça: "Você me ensinou a linguagem e meu lucro nisso é que aprendi a praguejar. " Os "bárbaros" do mundo todo, reagindo à sua exclusão de um centro que fica com todo o ouro e em troca lhe impõe sua cultura e seus valores, estão praguejando como gente grande.

Aquele nosso tempo


O Alfredo contou para o Binho que estava escrevendo um livro sobre "o nosso tempo". O Binho entendeu que o Alfredo estava escrevendo sobre "o nosso tempo" no sentido, assim, de "O Nosso Tempo", o século 20, a era moderna, mas o Alfredo esclareceu:

― Não, não. O nosso tempo. Nosso, da turma. A nossa juventude. O Binho achou uma boa idéia, depois pensou melhor. Perguntou:

― Você não vai contar tudo, vai?

― Por que não?

― Você acha?

― Por que não?

E, como o Binho fizesse uma cara de "sei não", o Alfredo o cutucou e disse:

― Nós aprontamos algumas, hein? Hein?

O Régis ficou sabendo do livro pelo Binho e telefonou para o Alfredo. Não se falavam há horas. Conversa vai, conversa vem, o Régis falou no livro. Era verdade que o Alfredo estava escrevendo um livro sobre a turma, sobre "aquele nosso tempo"? Era, confirmou, o Alfredo.

― Romanceado? ― perguntou o Régis.

― Como, romanceado?

― Você vai usar os nomes verdadeiros?

― Claro.

― Você acha?

― Por que não? Tem histórias fantásticas. Aquela vez em que nós fomos com a Maria Estela pra...

― Alfredo: usa pseudônimos.

Quem procurou o Alfredo não foi a Maria Estela. Foi o Argeu, que, apesar de tudo que a Maria Estela aprontara, tinha casado com ela. Queria saber sobre o livro.

― Não tem nada demais... ― começou a dizer o Alfredo.

Argeu interrompeu. Alfredo nunca mais tinha visto o Argeu depois do casamento. O Argeu era o mais cabeludo da turma. O Argeu estava completamente careca.

― A Maria Estela hoje faz muito trabalho na Igreja ― disse o Argeu.

― Sim, mas...

― Não põe a Maria Estela no livro, Alfredo.

O próximo foi o Pinto, que não fez rodeios.

― Que história é essa do livro?

― Pois é. Estou pensando em escrever sobre aquele nosso tempo.

Acho que tem algumas histórias...

― A da galinha no velório, por exemplo?

― É. Essa é uma delas.

― Não bota o meu nome.

― Mas você foi um dos que...

― Não bota o meu nome. Ou bota um pseudônimo.

― Mas foi uma coisa de adolescente, perfeitamente...

― Tá doido? Você sabe o que eu sou hoje, Alfredo? E você se lembra de quem era o velório?

― Mas...

― Quer um conselho? Esquece esse livro.

O Alcides disse que era uma boa idéia escrever o livro, que o livro resgataria uma época, que seria divertido e ao mesmo tempo importante, que muita gente ia se lembrar do seu próprio passado lendo o livro, e meditaria sobre as loucuras e os sonhos perdidos de uma geração, e que o Alfredo devia, sim, escrever o livro ― desde que não o citasse.

― Mas Alcides, você era o nosso líder. O nosso guru. O livro seria quase todo sobre você. O livro não tem sentido sem você.

― Usa um pseudônimo.

Alcides explicou que sua terceira mulher tinha uma carreira política e que o livro poderia prejudicá-la. E ela não sabia nada do seu passado. E, além do mais, ele já era avô.

― Pô, Capitão ― disse Alfredo.

― Capitão?

― Você não se lembra? Seu apelido na turma era Capitão Fumaça.

― Sabe que eu não me lembrava?

Alfredo decidiu reunir a turma para falar sobre a sua idéia para o livro. Conseguiu reunir o Binho, o Régis, o Pinto, o Farelo, a Suzaninha (que foi com o marido, um comerciante desconfiado que ninguém conhecia) e o Argeu representando a Maria Estela. Não encontrou os outros, ou encontrou, mas eles não foram à reunião, e descobriu que o Ferreira tinha morrido do coração. Alfredo explicou que ele mesmo financiaria a edição do livro. O que significava que seria uma edição pequena, que sua circulação seria restrita, que poucas pessoas leriam. Explicou que sua intenção era capturar um momento na vida deles, da turma. Para que todos pudessem lembrar "aquele nosso tempo". O tempo em que todos eram jovens, e o que eles sentiam, e pensavam, e tinham aprontado. Ninguém seria prejudicado, só se divertiriam. Tudo tinha acontecido há muito tempo. Como se fosse em outro país. E com o tempo tudo vira literatura. Mesmo com os nomes verdadeiros.

Depois que o Alfredo terminou de falar, todos ficaram em silêncio. Aí o Pinto disse:

― Tá doido.

E o Régis disse que se o livro saísse com o nome dele ele processava e sugeriu que o Alfredo usasse pseudônimos. E a Suzaninha disse que queria mais era esquecer o seu passado e até já tinha um pseudônimo pronto. Celeste.

― Sei lá. Acho que combina comigo.

E como o marido não entendesse, acrescentou:

― Naquele tempo, Abílio, naquele tempo.


Ar e Chumbo


Eu estava na Rua da Praia. Não me lembro por que ou com quem. Ouviu-se o som de uma sirene. Todos, na rua, começaram a andar na mesma direção, na direção da sirene. Alguns corriam. A pessoa que estava comigo me puxou pela mão. Seguimos a multidão.

Seria um ataque aéreo? Impossível, a 2ª Guerra Mundial acabara três anos antes. O nosso lado ganhara. Durante a guerra era comum ouvir-se a sirene anunciando o blecaute na cidade, para prevenir contra um ataque inimigo. Nunca se soube bem de onde viria um ataque alemão a Porto Alegre, talvez de Novo Hamburgo, mas era melhor não facilitar. Falava-se muito que uma guerra entre o Brasil e a Argentina era inevitável, em algum ponto da nossa história. Por isso a bitola das nossas ferrovias era mais estreita do que a deles, para a Argentina não nos invadir de trem. Aviões argentinos podiam estar se aproximando de Porto Alegre para bombardear o Largo dos Medeiros, o Café Central e as sedes do Grêmio e do Internacional, aniquilando com um golpe só toda a nossa capacidade de reação. Mas ninguém estava olhando para o céu.

A multidão se aglomerava na frente do edifício do Diário de Notícias, de onde vinha o som da sirene. Todos queriam ler uma notícia escrita às pressas num cartaz preso à fachada do prédio ou pendente de uma janela. Gandhi assassinado! Não era guerra. Entre aliviado e perplexo ― onde fora o assassinato de Gandhi, por que tinham matado o Gandhi e, acima de tudo, quem era o Gandhi? ―, fiquei ali, maravilhado diante daquela coisa mística, aquela entidade misteriosa onde as notícias do mundo chegavam em minutos, pelo ar, e eram propagadas daquela maneira. Com espalhafato, se merecessem o espalhafato.

No dia seguinte lá estava, na capa do Diário, tudo sobre o assassinato. A foto e a biografia de Gandhi e os detalhes da notícia que não cabiam no cartaz escrito à mão. Foi a primeira vez que me detive na primeira página do jornal antes de passar automaticamente para a seção de esportes. Tinha um interesse particular na história. Como parte da multidão convocada na rua pela sirene para saber da novidade, eu praticamente era uma testemunha ocular do crime.

Também foi a primeira vez que pensei no mecanismo de um jornal e imaginei como seria aquela alquimia, captar o acontecimento no ar e transformá-lo em informação. Transformá-lo naquela sintética lição de história, de grandeza e selvageria ao mesmo tempo, que eu estava tendo ali, estendido de barriga no chão lendo o Diário. Depois passei para o noticiário do futebol e para os meus ídolos do cotidiano. Um jornal era isso, o sobressalto da novidade e a garantia de que a nossa rotina continuava. Simultaneamente um espalhafato ― um espalha fatos ― e um repetidor das nossas confortáveis banalidades municipais. O grande Gandhi fora assassinado, mas em compensação o grande Tesourinha estava curado da lesão e jogaria o Grenal e um novo seriado completo estava para estrear no Apollo.

Quando entrei na oficina de um jornal pela primeira vez, me decepcionei. O processo não era nada como eu imaginara. A notícia não era destilada do ar, entrava por uma grande e barulhenta usina de transformação ocupada por pessoas sem o menor ar de alquimistas. E os linotipos! Até hoje penso nos linotipos como dinossauros: bichos fantásticos e improváveis, de um tamanho que os jovens digitadores de hoje não podem nem imaginar, e que no entanto existiram, e há restos fossilizados para provar.

Metabolizavam texto em chumbo. E durante muitos anos, como os dinossauros, elas também dominaram o mundo.

A informatização das redações e a progressiva "limpeza" das oficinas gráficas com a composição e a impressão a frio tiveram o mérito de devolver, pelo menos a pré-eletrônicos como eu (confesso que ainda não assimilei o princípio da torneira), um pouco do velho mistério. Voltei à fascinada ignorância dos meus 10 anos e estou de novo convencido de que tudo passa do ar para o papel por mágica.

Mas, seja feito do ar ou com chumbo, o jornal sempre me deu a mesma sensação simultânea de urgência e conforto que senti há 50 anos. Nenhum outro meio de comunicação consegue isso: a autoridade para nos contar o que aconteceu com detalhes e distanciamento e a intimidade para compartilhar tudo conosco num contexto doméstico cálido e próximo. O rádio nos diz, a televisão nos mostra, mas só o jornal nos envolve.

O Diário de Notícia de Porto Alegre não existe mais, o prédio que o sediava veio abaixo e eu mesmo já não estou bem aqui, mas 50 anos depois o deslumbramento daquele dia na Rua da Praia persiste.


Ariosto não tem sangue de barata


― Não me beija que eu estou toda suada!

Depois:


― Ariosto! Eu recém-saí do banho!

Depois:


― Não-o. Olha o meu penteado.

Depois:


― Quer fazer o favor? Estou tentando ver a novela.

Depois:


― Agora não, Ariosto. Eu já botei o creme.

De manhã:

― Ó Ariosto. Eu ainda não escovei os dentes!

Depois:


― Não dá tempo, bem. A Nelinha daqui a pouco vem me buscar pra ginástica.

E depois da ginástica:

― Me larga que eu estou toda suada!

Finalmente:

― Ariosto!

― Vai ser aqui mesmo.

― Mas...Você está se molhando todo!

― Não interessa.

― Eu estou toda ensaboada!

― Melhor assim.

― Ariosto! Ai! Espera!

Mas Ariosto não esperou. Foi ali mesmo. Debaixo do chuveiro. Ariosto nem tirou as calças.

À mesa do jantar, naquela noite, ela se queixou.

― Nunca pensei.

Ariosto, sem saber se a frase se aplicava:

― Eu não tenho sangue de barata.

― Precisava me atacar?

― Só tomei o que é meu.

― Precisa ser grosseiro?

― Agora vai ser assim. Quando você menos esperar.

― Ariosto!

― Quando você menos esperar!



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