Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Dois dias depois, quando ela chegou da rua (banco, pedicure, supermercado) no meio da tarde, ele estava esperando atrás da porta.

Tinha chegado mais cedo do trabalho para pegá-la. Pacotes do supermercado pelo chão, ele tomou o que era seu em cima dos congelados.

Na manhã seguinte, esperou ela se levantar da cama, escovar os dentes, se vestir ― e só então atacou.

― Ariosto! Na mesa do café?!

Foi na mesa do café mesmo e não teve conversa.

― A Nelinha vai chegar a qualquer momento!

― Azar.

Outra vez foi no cinema. Ela devia ter desconfiado quando ele quis sentar atrás, ele que gostava de sentar na frente. Atrás não tinha ninguém.

― Ariosto, o que é isso?

― Chega um pouco pra cá... Assim... Agora a outra perna.

― Ariosto, vão nos ver!

― Não vão.

― Vão nos ouvir!

Mas era um filme do Schwarzenegger e ninguém ouviu.

Ela decidiu que o jeito era restabelecer uma rotina convencional. Ariosto tinha vencido. Voltariam a fazer sexo em lugar e hora apropriados, sempre que ele quisesse. Só assim ela conteria a fúria compensatória do Ariosto. Só assim se livraria da ameaça constante de ser atacada pelo Ariosto quando menos esperava ― como na vez em que ele a estava aguardando na garagem do prédio, e eles quase tinham sido flagrados dentro do carro pela dona Elcina do 702. Ela decidiu que começaria a ir para a cama antes de botar o creme.

Mas era tarde demais.

― Negro...

― Hmmm?


― Vamos?

― O quê?

Ariosto, lendo uma revista e se fazendo de desentendido.

Ela:


― Você não quer?

Ele (bocejando):

― Agora não.

E, quando ela desistiu e levantou-se para botar o creme, ele perguntou:

― Aonde você vai amanhã?

― Não digo!

Todas as terças-feiras ela almoçava com a turma. Amigas antigas, muitas ex-colegas da escola, um grupo de 15 ― quando apareciam todas. Ela e a Nelinha, que morava no mesmo prédio, iam juntas e não perdiam um almoço, sempre nas terças, sempre no mesmo restaurante. Naquela terça a conversa na mesa estava animada, como de costume, mas as amigas notaram que ela não parava de olhar para a porta do restaurante, como se esperasse a chegada de alguém. E viram ela, de repente, se levantar com uma expressão de pânico no rosto. Alguém que entrara pela porta e agora se aproximava da mesa era a causa do seu terror. Ela recuou, derrubando sua cadeira, e achatou-se contra a parede. E gritou:

― Ariosto, tu não é louco!


Arredondados


A estabilização da moeda acabou com uma velha mania brasileira, que era arredondar. Tínhamos uma certa impaciência com frações, detalhes e coisas muito exatas, e a conta arredondada era o equivalente matemático do "isso a gente vê depois", um dos lemas nacionais. Na dúvida, para ganhar tempo e poupar ou adiar trabalho, determinava ― se:

― Arredonda.

Não era um artifício contábil, era uma vingança. O centavo valia tão pouco que o brasileiro vivia irritado com ele. O centavo era um estorvo, um anacronismo. Aquele toco inútil depois da vírgula. Como o cóccix, que só existe para ser o começo do rabo que ninguém tem.

Quando dois brasileiros combinavam uma conta, sempre surgia a sugestão, num tom conspiratório, de liquidar os centavos.

― Vamos arredondar?

― Arredonda, arredonda.

E os centavos eram reduzidos a zero, sem piedade.

Claro que se podia arredondar a favor ou contra, dependendo de quem fazia a conta. Ou simplesmente se ignoravam os centavos ou o último número antes da vírgula subia de status, e nesse caso o pagador pagava mais. Mas ainda tinha a satisfação de ser cúmplice na eliminação dos centavos. Os centavos nos humilhavam com sua inutilidade e nos desafiavam com sua persistência. Durante muito tempo, o troco foi um dos incômodos diários dos brasileiros.

Substituíam-se os centavos pelo comprimido e pela bala até que o comprimido e a bala passaram a valer mais do que os centavos que faltavam. Eram lançadas novas moedas de centavos tão leves e frágeis que pareciam nos dizer para não lhes dar atenção, pois não durariam muito e em breve voariam.

Às vezes até dava briga.

― O senhor deixou cair uma moeda.

― Eu, não. Essa moeda no chão é sua.

― Imagina! É sua.

― É sua. Vi quando ela caiu do seu bolso e planou até o chão.

― Perdão, a moeda é sua.

― É sua!


Certos cheques, para poupar a seu dono tinta e incomodação com as desprezíveis frações, traziam impresso no espaço para escrever a quantia por extenso: "E centavos..." Ou ainda "E (ah, ah) centavos". Ou, com desdém: "E aquelas coisas." O melhor substituto para o centavo, em vez do Fontol, seriam as reticências. Três pontinhos, significando ironia e resignação filosófica.

Hoje tudo mudou. O centavo vale alguma coisa. O troco continua sendo um problema, mas ninguém mais diz "arredonda". E muito menos "esquece". As pessoas hoje brigam pelos centavos. É verdade que há o outro lado dessa história. Como a situação da maioria continua ruim e o dinheiro pode estar estabilizado, mas continua longe do seu bolso, alguém poderia dizer que hoje se briga "até" por centavo. Mas seria alguém mal-agradecido, talvez um nostálgico dos centavos evanescentes, cheio das arestas da insubmissão e das pontas do ceticismo.

Quer dizer, alguém que ainda não foi arredondado.

As Mortes do Farley


Até a sua morte ridícula, a única coisa notável no Farley era o nome. Vinha de Farley Granger, um ator americano que sua mãe amava. Fora isso, Farley era uma pessoa comum, à qual nunca tinha acontecido nada. Até que aconteceu: Farley foi atropelado pela bicicleta de um entregador de lavanderia. Caiu, bateu com a cabeça no meio-fio e morreu. O entregador nem estava montado na bicicleta. Deixara a bicicleta estacionada contra um muro, num declive, a bicicleta saíra andando sozinha, Farley vinha dobrando a esquina com um pacote do super (duas cervejas, bolachas, uma revista para a mulher), tropeçara na bicicleta e pumba.

No velório, diante da consternação geral de parentes e amigos ― o Farley, tão moço, tão pacato! ―, a primeira explicação foi que as circunstâncias da sua morte ainda não estavam bem claras. Tudo indicava que tinha sido um entregador de pizza. Numa moto. Mas ainda não estava bem claro. Podia ter sido um Volkswagen.

A viúva nem precisou pedir. Todos na família se conscientizaram, sem combinar nada, de que era preciso proteger o pobre do Farley dos detalhes da sua morte. Já que vivo não fora nada, que pelo menos morto não fosse ridículo. E a família também precisava se proteger do constrangimento de dizer a verdade, cada vez que perguntassem como o Farley morrera. Um atropelamento por bicicleta desgarrada, por mais doloroso que fosse, seria sempre um desafio à seriedade. A família precisava urgentemente de uma morte mais séria.

Antes de o enterro sair, já corria a versão que Farley tinha sido atropelado por uma Mercedes. E mais: o atropelamento podia não ter sido acidental.

― Mas como? Quem ia querer mata o Farley?

― Nunca se sabe, nunca se sabe.

Naquela noite, tinha-se outra versão da tragédia. Não fora uma Mercedes, fora uma jamanta. E Farley morrera salvando uma criança. Correra para tirar a criança do caminho da jamanta, fora atingido e caíra com a cabeça contra o meio-fio. A jamanta não parara. A criança fugira, assustada. Estavam tentando descobrir sua identidade.

Passou o tempo, como costuma acontecer. E a legenda do Farley cresceu, com versões cada vez mais nobres e elaboradas para sua morte sendo empilhadas em cima da singela verdade, para que esta nunca aparecesse. Mas desenvolveu-se, entre os jovens da família, uma espécie de contracorrente. Por inconfidências dos mais velhos, sabiam que a morte do tio Farley tinha sido ridícula. Só não sabiam como. E como os mais velhos não forneciam os pormenores ― "Não se fala nisso nesta família, não pergunte" ― cresceu entre eles outra legenda: a das possíveis mortes insólitas do tio Farley. Escorregara num cocô de cachorro ― não, numa clássica casca de banana! ― e quebrara a cabeça. Abrira a boca para bocejar, entrara um besouro em sua boca e ele morrera engasgado. Morrera do que ninguém morre: tratamento de canal, limpeza de pele, até (as especulações chegavam ao delírio) atropelamento por bicicleta. Sabe aquele satélite americano que perdeu velocidade e caiu, se despedaçando ao entrar na atmosfera? Os jornais não deram, mas um pedaço caiu no Brasil, adivinha em cima de quem. No outro dia, um dos jovens da família perguntou para a mãe se não era verdade que o tio Farley tinha ficado com a gravata presa numa porta giratória e... Mas a mãe fez "sssh" porque as pessoas em volta podiam ouvir. E porque a banda ia começar a tocar. Estavam inaugurando o monumento ao Farley, na praça que tinha o seu nome, com uma inscrição no pedestal: "A pátria agradecida." Finalmente, o reconhecimento pela sua ação decisiva em defesa da democracia, quando acabara, por acidente, embaixo de um tanque de guerra, ainda segurando uma bandeira nacional, em circunstâncias que nunca tinham ficado bem claras.




As torres do Morandi

Fui visitar o Giorgio Morandi, porque sempre gostei muito dele e porque ele se mudou para o nosso bairro em Paris e achei que devia lhe dar as boas-vindas, como um bom vizinho. O pintor italiano Giorgio Morandi está morto desde 1964, claro, e o que chegou ao Museu de Arte Moderna, aqui perto, foi uma exposição das suas pinturas e desenhos, mas tudo transcorreu como num encontro com um velho amigo: nenhuma surpresa ― Morandi pintou essencialmente a mesma coisa a vida inteira, fui vê-lo porque sabia exatamente o que ia encontrar ― e muito prazer. Só não posso dizer que botamos os nossos assuntos em dia porque não teríamos sobre o que conversar.

Depois do 11 de setembro nenhum vivo tem assunto com qualquer morto antigo, fora as banalidades de sempre. A destruição do World Trade Center acabou com toda a possibilidade de diálogo entre as gerações. Nossas referências não batem, quem viu as torres se esfarelarem e quem não viu vivem em universos diferentes, sem comunicação possível. Quem já estava morto na ocasião, então, nem conseguiria conceber de que catzo falamos.

Mas entre todos os mortos que não nos entenderiam, Morandi talvez não nos entendesse de uma maneira especial. O que ele pintou quase que exclusivamente a vida inteira foram naturezas-mortas, conjuntos de garrafas, caixas, vasos, vasilhames que ao mesmo tempo se integravam ao fundo e entre si abstratamente e mantinham sua distinção concreta e sólida de coisas. Não foi só porque durante alguns anos aquelas torres em chamas não nos sairão da cabeça que pensei imediatamente nelas vendo as formas verticais de Morandi, as caixas e garrafas longilíneas firmemente postas numa superfície real, com volume, presença e peso, e magicamente postas em outra dimensão, a salvo do tempo, da História, até da interpretação. Tem-se a impressão que os próprios objetos que Morandi reproduzia nos seus conjuntos repetidos eram sempre os mesmos, que ele estava na verdade pintando a sua permanência enquanto a vida e o pintor passavam por eles. Não são as garrafas e as caixas, é a sua existência silenciosa que está nos quadros de Morandi, as coisas que ele retratou são apenas o signo do que nelas é irretratável. Quem acompanhava a sua obra ano a ano devia se divertir com a reincidência dos objetos ― aquela cumbuca de novo! ― que ele pintava obsessivamente, e era como se cada pintura fosse apenas um novo registro daquele mistério, uma coisa existindo, persistindo em existir. Morandi é o último morto com quem você poderia falar de caixas de ferro evanescentes, de formas que se declaram triunfalmente eternas desaparecendo, e o seu significado mudando, em minutos.

Quadros do Morandi aparecem em mais de uma cena de A Doce Vida, do Fellini, mas a sua arte tem mais a ver com a do Antonionni, que também retratava a realidade apenas sendo, existindo à parte, e a despeito, da gente. A diferença com Antonionni era que Morandi retratava a indiferenças das coisas amavelmente. Até disseram que ele era um pintor decorativo, já que seus quadros eram tão bonitos e suas cores tão agradáveis. Mas quem disse isto não o compreendeu. Como Antonionni, pintando a estranheza do mundo Morandi pintava a neutralidade cruel das coisas. Mas ele amava esta distância da vida que seus objetos e suas raras paisagens transmitem, esta idéia da tranqüilidade do que está no mundo sem precisar se explicar.

Natureza-Morta em inglês é "still life", vida parada, vida em silêncio. O inglês descreve melhor do que o italiano ou o francês o que Morandi fazia.

Não aparecem figuras humanas na sua obra, depois de uma primeira fase influenciada pelo de Chirico ― e mesmo então as figuras não eram gente, eram manequins. A vida que há nos seus quadros é toda inferida: a mudança na perspectiva de um conjunto, uma ou outra marca de uso na superfície de um dos seus objetos domésticos reincidentes, um sombreando denunciando a existência de uma fonte de luz em algum lugar real fora do quadro. Nenhum movimento, e tudo se repetindo. O humano só existe na obra de Morandi como contraponto ao que se vê, às coisas reduzidas a elas mesmas e também significando a sua irredutibilidade. Ou: o humano é tudo na obra de Morandi que não se vê. O próprio pintor interfere o menos possível com seu próprio trabalho e deixa que a obsessão o guie. Ou: a única coisa humana na obra de Morandi é a obsessão.

Morandi levou uma vida parada, uma vida em silêncio. Raramente se afastou de Bologna, sua cidade natal. Nunca se casou e morava com três irmãs, também solteiras, na casa em que se criaram. Tudo se repetindo. Era um homem comprido e elegante ― uma torre incongruente ― de hábitos conservadores.

Depois de se envolver, na juventude, com o movimento artístico fascista, imagino que mais por ingenuidade do que por convicção, nunca mais se manifestou sobre política ou mesmo, que eu saiba, sobre arte. Não sei se entendia a sua própria obsessão. Gostei de pensar, ao visitá-lo no Museu de Arte Moderna, que estava visitando talvez o último homem tranqüilo do nosso tempo. Na vida parada captada nos seus quadros estava o desprezo das coisas pelo drama humano, mas confesso que eu estava ali justamente para me convencer da transitoriedade da angústia, o sentimento mais humano do momento, e esquecer o drama. Se pudesse passaria o dia com ele, tentando armanezar tranqüilidade para enfrentar o que vem aí. Mas manda a boa educação que as visitas de cortesia sejam curtas e, mesmo, o museu fechava às 5 e meia. De qualquer maneira, é bom pensar que as caixas do Morandi continuavam lá depois do museu fechado, sólidas, indestrutíveis, significando apenas sua própria permanência ― e silêncio.


Assadores

Os relatos de contradizem. Uns garantem que eles cruzaram espetos, outros insistem que não chegou a isso. O fato é que os dois tiveram que passar pelo posto médico antes de irem para a delegacia. Porque houve sangue.

Tinham combinado um churrasco na praia para os pais da Vanessa, a Van, conhecerem os pais do Ricardo, o Dão. A Van e o Dão estavam praticamente (essa palavra que não diz nada e serve para tudo) casados, era hora de os pais se conhecerem.

― Meu pai é um grande assador ― dissera a Van.

― Meu pai faz um churrasco diferente ― dissera o Dão.

Eles deveriam ter previsto o que iria acontecer, mas não previram. Decidiram que estava na hora de as famílias se encontrarem e que um churrasco na casa de praia dos pais da Van seria uma ocasião perfeita para o encontro. Os dois assadores certamente se entenderiam. Quem não se entende, numa churrasqueira?

Começou mal. O pai da Van fez ao pai do Dão a pergunta fundamental, a pergunta que estabelece, de saída, a escola do assador. E dizem que também define índole e caráter.

― Sal grosso ou salmoura?

― Nem sal grosso nem salmoura ― respondeu o pai do Dão. ― Tenho uma técnica na grelha que dispensa o sal.

O que significa que o pai da Van já começou desestabilizado. Já começou em desvantagem. Mas procurou não demonstrar sua insegurança ao se dirigirem os dois, lado a lado, para a churrasqueira. O pai da Van pensando "Eu deveria ter desconfiado quando ele perguntou se tinha caipirinha de Underberg".

Ficara combinado que o pai do Dão traria a sobremesa, mas ele tomara a liberdade de trazer algumas coisinhas mais, que talvez agradassem. Invenções suas. Por exemplo: um combinado de aipim com queijo, para ser servido, com orégano e geléia de pimenta, como aperitivo, "para nos libertar da ortodoxia do salsichão". E alguns cortes de carne que o pai da Van talvez nem conhecesse, como uma parte, recém-descoberta, do cordeiro que...

Sentados em cadeiras de armar sobre o gramado que separava a casa da churrasqueira, os outros não acompanhavam o que se passava à beira das brasas. A luta de egos e de estilos que, em vez de aproximar os dois pais, os impelia para um desfecho imprevisível, potencialmente trágico. Só se deram conta do que estava acontecendo quando ouviram a voz do pai da Van que gritava "Ah, é? Ah, é?" com raiva, e quando olharam para dentro da churrasqueira... Bom, aí é que vem a divergência. Uns dizem que viram os dois esgrimando com espetos, outros dizem que viram os dois engalfinhados, rolando pelo chão de lajotas. O fato é que, pouco mais de meia hora depois de terem sido apresentados um ao outro, os dois assadores estavam lutando.

Na delegacia, o pai da Van contou que agüentara tudo, o pouco-caso do outro com o sal grosso e o espeto, as frescuras para substituir o bom e honesto salsichão, os cortes de carne exóticos para serem preparados de maneiras exóticas ("Até com kiwi!"), mas não se controlara quando o outro chamara a costela de "lugar-comum" do churrasco, de "banalidade ultrapassada" e, finalmente (aí sim, viera a explosão) de "falta de imaginação".

Ninguém falava assim da costela na frente do pai da Van. Era como se falasse mal de um parente. Desrespeito, não!

― Ah, é? Ah é?

E atacara.

O noivado, ou coisa parecida, da Van e do Dão resistiu à briga, e aos processos mútuos por lesões corporais, dos seus pais. As mães até ficaram amigas, mas nunca conseguiram que os maridos se reaproximassem. O pai do Dão dizendo que com retrógrado maluco não havia papo e o pai da Van dizendo que com quem insultava costela não havia papo. E alguém comentou que era assim em todas as artes: o inevitável conflito entre classicismo e vanguarda.


Assombrações

Todos na roda tinham uma história de assombração para contar. Algumas conhecidas, até clássicas, embora o narrador jurasse que tinha acontecido com ele. Como a história da moça muito pálida.

― Conheci num bar. A palidez dela era impressionante. Ela vestia uma roupa estranha, fora de moda, e seu penteado também era de outra época. Mas era bonita, muito bonita. Bonita e pálida. Bebemos, conversamos, levei ela para o meu apartamento e fizemos amor a noite inteira. A pele dela era fria, gelada, mas ela era um furacão na cama. Era como se não tivesse feito amor há muito tempo e estivesse tentando recuperar o tempo perdido. Um furacão insaciável. Depois eu quis levá-la em casa mas ela não aceitou. Tive que insistir muito para ela me dar seu telefone. Ficamos de nos encontrar de novo àquela noite, no mesmo bar. Quando ela não apareceu, liguei para o número que ela tinha me dado...

― E era o número do cemitério.

― Eu já contei esta história?

― Você não, mas muitos outros já.

― Juro que é verdade!

― Continue. Talvez a sua versão seja diferente.

― Atendeu um homem que disse que era do cemitério. Perguntei se alguém chamado Lívia trabalhava lá. O nome que ela me dera era esse, Lívia. O homem disse que não. Aí me deu o estalo. Perguntei se ele sabia de alguma Lívia enterrada no cemitério. Ele disse que havia uma Lívia, sim, num túmulo muito antigo...

― E disse "Não me diga que ela fugiu de novo, vou ter que botar uma laje mais pesada."

― Não. Sério. Disse que o túmulo era de uma moça, segundo ouvira contar, muito bonita, que morrera poucos dias antes da data do seu casamento.

― E aí você perguntou se ela por acaso não tinha celular.

― Já vi que vocês não acreditaram na história.

― Acreditamos, acreditamos. Todas as vezes.

Outra história foi a do acampamento. A Carol contou que uma vez fizera acampamento com um grupo de amigas e que depois de cantarem e trocarem histórias de horror em volta do fogo, pois tinham ouvido falar que a área em que estavam fora um dia um cemitério de índios, cada uma se metera no seu saco de dormir. Ela não conseguira dormir e travara o seguinte diálogo com a Avani, deitada ao seu lado, no escuro:

― Você acredita em fantasmas, Avani?

― Não.

― Eu também não. Mas...



― Mas o quê?

― Mas acho que eles existem.

― Se você não acredita neles, como é que acha que existem?

― Pois é, não sei. Só sei que estou com medo.

― Não seja boba. Vamos dormir.

― Acho que não vou conseguir.

― Vai sim.

Minutos depois:

― Avani...

― Ahn.


― Passou o medo.

― Que bom.

― Obrigado, viu?

― Por quê?

― Por segurar a minha mão. Me deu muito mais confiança.

Novo silêncio. Depois, a Avani:

― Carol, eu não estou segurando a sua mão.

O grito da Carol ainda ecoava na floresta e todo o grupo já estava dentro da Kombi, disparando do acampamento e deixando tudo para trás, inclusive os isopores e o violão.

Mas a história mais fantástica quem contou foi a Bea. Contou que uma tia dela, que ela nem conhecera, fazendeira rica, tinha uma empregada que tratava muito mal. Uma pobre coitada, cria da estância, chamada Bibica, que passara a vida trabalhando como escrava e ainda ouvindo os desaforos da patroa, uma matriarca rural do velho estilo. A Bibica morrera de desgosto e maus-tratos e sua alma voltara para se vingar da velha, assombrando a casa.

Todos os dias o quarto da velha aparecia misteriosamente arrumado, por mãos invisíveis. O fogão se acendia espontaneamente e os pratos de comida feitos por ninguém iam e voltavam da mesa flutuando no ar, a roupa era lavada e passada sem que ninguém a tocasse. Aterrorizados, todos os outros empregados fugiram da casa e nenhum parente visitava a velha, com medo da assombração.

Como visitar uma casa em que a porta da frente se abria sozinha para recebê-los e os pratos do café da manhã chegavam na mesa voando? Mas decidiram que aquilo não poderia continuar assim, a velha sozinha dentro de casa com um espírito vingativo, e pediram para um padre exorcizar o fantasma. O padre foi visitar a velha, sentou-se na sala de estar, começou a dizer que vinha oferecer o consolo de Deus e seus serviços como... quando foi interrompido por uma xícara de cafezinho que entrou na sala suspensa no ar, e ouviu a velha dizer "Anda mais depressa, ó traste!" para ninguém.

Depois contou que a velha recusara sua proposta de excomungar o fantasma porque, com a fuga dos outros empregados e com a Bibica, incorpórea, fazendo tudo noite e dia, pois fantasma não precisa dormir, estava economizando como nunca, e feliz.

― Ela só sente falta de alguém sólido para bater com o chinelo ― contou o padre, convencido, segundo a Bea, de que em certos lugares do mundo não há justiça nem nesta vida nem na outra.


Aviãozinho

A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo ― literalmente: todas ― usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.

Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena ― "Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho"?! ― isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?



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