Luiz antonio de assis brasil



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Luiz Antonio de Assis Brasil
FORTUNA CRÍTICA


Resenhas e ensaios

Jornais e revistas nacionais e estrangeiras

Classificada por obras

Atualizada em agosto de 2009.
Autorizado o uso de ensaios avulsos,

desde que indicada a fonte da publicação original.

UM QUARTO DE LÉGUA EM QUADRO

Um quarto de légua em quadro

Sergio da Costa Franco


O romance histórico envolve, inevitavelmente, alguma ofensa à verdade do clima humano e dos fatos pretéritos. Em primeiro lugar, por ser muito difícil que se reúnam na mesma pessoa as virtudes de ficcionista e de historiador. Em segundo, porque as mutações da linguagem tornam impossível reproduzir, sem atentados, os modos de expressão, o diálogo e o próprio vocabulário das gerações que nos antecederam.

Quem seja mais afeiçoado à investigação histórica do que à criação literária, como é o meu caso. Sempre encara com muita reserva a tentativa de conciliar narrativa de ficção com exumação do passado. Descobrem-se incoerências cronológicas em O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, notam-se impropriedades no excelente A ferro e fogo, de Josué Guimarães. Essa atitude talvez tenha algo daquela postura de quem vai ao cinema de bangue-bangue e fica contando o número de disparos de revólver do mocinho, sem perdoar o diretor pela falta de remuniciamento. É claro que a criação literária e artística pode-se permitir certas liberdades, sob pena de cometer suicídio em holocausto à objetividade.

Mas, a este último postulado, que aceito, sempre resistem meus preconceitos cientificistas. Tanto assim que o que me levou a comprar o romance do estreante Luiz Antonio de Assis Brasil, Um quarto de légua em quadro, foi a recomendação de dois historiadores, e não a homenagem da crítica literária. Primeiro um e depois outro me disseram: “O drama da colonização açoriana do Rio Grande está todo ali”.

Fui conferir, não me decepcionei. Num tempo em que se publica tanto livrinho improvisado e tanta bobagem, um romance como Um quarto de légua em quadro deve ser saudado com efusão de alma. Não por simples estímulo a esse estreante que mal conheço, mas pelo que efetivamente representa como realização literária e como registro evocativo da ocupação do Rio Grande no século XVIII.

Com esse livro, Luiz Antonio de Assis Brasil passa de recruta a “pronto” na literatura rio-grandense, sem necessidade de outras provas e manobras. É claro que esse diário do médico açoriano Gaspar de Fróis terá seus pecados e equívocos. Mas o autor praticou a façanha de imprimir interesse e ritmo à narrativa, conservando ponderável fidelidade ao clima histórico do Setecentos.
Correio do Povo, Porto Alegre, 20.nov.1976, p. 4
Dois aspectos do Rio Grande

Antônio Hohlfeldt


São raros os bons romances baseados em fatos históricos entre nós, principalmente porque a pesquisa histórica no Brasil ainda é matéria incipiente embora ultimamente elas se multipliquem. Claro tudo depende do estado de desenvolvimento de uma cultura, e a nossa por certo luta ainda, de maneira desmedida para livrar-se da herança de dependência que pesa sobre ela, desde o descobrimento e a colonização predatória que aqui se implantou.

Venho desenvolvendo uma observação contínua da literatura brasileira contemporânea, e creio não errar ao dizer que ocorre no momento um fenômeno muito curioso entre nós. Antes, uma curta reflexão: todo o desenvolvimento cultural só pode acontecer em uma sociedade cujo nível econômico atingiu igualmente um grau bastante grande. A premissa, contudo, não é sempre correta. Nem todas as grandes nações, economicamente falando, deram desenvolvimento suficiente as artes. Basta lembrar-se os sistemas de força do Nazismo ou do Fascismo. Estabelecida solidamente uma base econômica, contudo, um processo cultural pode atingir pleno desenvolvimento. O exemplo dos Estados Unidos, no após-guerra é bastante significativo.

Ora o Brasil, por motivos vários, busca uma arrancada econômica a partir dos anos sessenta, que atinge seu clímax ao final da década, decaindo após. Neste período, a economia se descentraliza, e capitais como Salvador, Belo Horizonte, Recife ou Porto Alegre sofrem também um processo de remodelamento urbano e voltam sua atenção com maior força para o movimento cultural. Cada uma, porém, artificial ou naturalmente, acaba dando prioridades a certos aspectos culturais, Belo Horizonte cuidou de perto do Palácio de Cultura, Curitiba conseguiu inaugurar o Teatro Guaíra e criar a Fundação Cultura, Salvador e Recife desenvolveram amplos projetos de urbanização, da mesma forma Porto Alegre.

A capital mineira e a gaúcha, no entanto, conseguiram uma unidade maior, fruto, talvez da psique de seus habitantes mais recolhidos, mais dados à reflexão, e desenvolveram um movimento literário poucas vezes verificado como unidade de propósitos e de ação, nas regiões brasileiras. Minas Gerais voltou-se inteira à ficção, enquanto o Rio Grande do Sul dividiu-se entre a ficção e a poesia.

Contudo, é de se observar ainda que Minas Gerais passou a desenvolver uma ficção específica: aquela ligada ao aspecto urbano, isso é, à grande cidade. E daí surgiu o conto. A literatura rápida, o recorde dinâmico da realidade, a crítica objetiva e – dois pontos, sem desvios. Raros direta. Caminho reto que liga são os romancistas que – vivem lá, ainda, salvo, talvez, um Benito Barreto. Os demais optam pela novela ou pela história curta.

O Rio Grande do Sul fez opção dupla: continua se dedicando ao romance, mas também aderiu ao conto. Muitos prêmios nacionais foram conquistados nesta área, e ao lado, dos mineiros creio sermos um dos Estados de maior projeção na área literária do conto.

O que significam estas opções, no entanto? A mim me parece que o conto está, cada vez mais, tratando de falar do hoje e do agora, da grande metrópole, do esmagamento do indivíduo, massificado pelo cimento. E o romance, na luta paralela pela liberação cultural, na busca da independência artística, está se voltando para as raízes. Observe-se, a tetralogia de Benito Barreto se dedica toda ao passado, e ao interior. Josué Guimarães no Rio Grande do Sul, da mesma forma, Luiz Antonio de Assis Brasil, com seu Um quarto de légua em quadro. Enquanto o conto escolheu sua geografia na flor da terra, na cidade grande, no litoral (porque aí ainda se encontram as grandes cidades) o romance interioriza-se cada vez mais, tendência, aliás, antiga em nossa literatura, mas expressivamente forte sobretudo depois de Rosa e Palmério. Ora, o romance de Assis Brasil enfoca tema pouco comum, geografia rara e acontecimentos regionais enorme significado não só para a província de São Pedro do Rio Grande do Sul quanto para o país inteiro. Assim, pois, seu romance não é só regional mais é nacional, e nesta generalização discute raízes que pertencem a todo país, e talvez até mesmo ao continente. Mesmo não sendo obra totalmente consumada – e não cremos na obra-prima de estreantes – ela tráz sua contribuição muito séria, ao buscar desmitificar a tendência contínua que temos, neste falso nacionalismo dos historiadores, de heroicizar nossas personagens históricas. E é por isso mesmo através de um personagem marginalizado que ele constroia narrativa de implantação dos primeiros colonos açorianos na terra gaúcha, vencendo dificuldades e contradições do sistema colonial das sesmarias, que poucos atacam, porque raros são os bem informados a respeito de nossa colonização. Gosto deste romance, embora veja nele muita coisa a ser mudada, quem sabe, numa segunda edição. Mas o importante é a perspectiva assumida. Luís Assis Brasil, ao estrear, mostra que sabe para o que veio. E isso é o que interessa.

A estrutura escolhida pelo escritor não deixa de ser digna de atenção. Trata-se de uma narrativa dentro de outra narrativa, técnica, aliás, que já muito foi estudada ao longo de décadas de crítica literária, inclusive pelos formalistas russos. Neste caso, o autor se torna mais convincentemente personagem, desdobrando-se em dois, uma vez que se mantém enquanto tal, narrador, e ainda “editor”. Os “escriptos” aqui apresentados datam, segundo o editor atual, do editor de 1780 o processo, pois, em Luiz Antonio, se desdobra ainda mais: um editor contemporâneo republica originais dados à luz pela primeira vez em 1780, mas que, por sua vez, encerram-se em 20 de junho de 1753, iniciados pouco mais de um ano antes, a 2 de janeiro de 1752.

Dois problemas, assim, se colocam de imediato ao leitor: aceitar o fato de que o cirurgião escreve um diário, nele registrando toda a experiência vivida na travessia e estabelecimento da colônia açoriana em terras do Rio Grande e, segundo, aceitar sua loucura ou não. O cuidado em mencionar a “realidade” dos originais levaria o leitor a concluir pela verossimilhança, até veracidade histórica do documento: de outro lado, a loucura final do médico e a nota de conclusão do manuscrito, colocada pelos “editores” de 1780, sugerem que a loucura poderia ser anterior à narrativa, e, portanto, todo o escrito pode ser colocado em dúvida. Da mesma forma já a nota inicial argumenta com o mesmo elemento, ao lembrar que “conservamos a maneira estranha de escrever que usava o infortunado cirurgião, embora muitas vezes sem entendermos direito o que queria dizer”. O que se cria, na verdade, é um jogo de variantes que enriquecem o texto base, na verdade idealizado como uma linha plana: Maria das Graças se faz apaixonar pelo Doutor Gaspar de Fróes para depois abandoná-lo tomado pelo remorso e subjugado pela solidão nas inóspitas áreas da colônia iniciante do Porto dos Casais.

Ao contrário do tradicional “romance histórico”, assim, - o autor não faz da Historia pano de fundo para a narrativa do drama de amor privado da mulher e do médico. Pelo contrário, aparentemente centralizado nos dois, o enredo desenvolve amplamente o estudo de estabelecimento dos açorianos na capitania, e os realiza com criatividade: taxado de louco potencial, todos os lances dramáticos e quase inverossímeis narrados são passíveis de dúvidas, muito embora tenham efetivamente acontecido. Alcançamos, assim, uma narrativa complexa, em que os sentimentos individuais expressa, na verdade, o coletivo, sem que, para isso o autor tenha abandonado o cuidado no evoluir emocional das personagens, em especial do Doutor Gaspar. E isso se comprova pela maneira com que a narrativa se interrompe (não seria correto dizer “encerra”), numa espécie de delírio em que o médico, no interior da igreja imagina o Apocalipse que, depois, a História iria confirmar: as lutas que se seguiriam durante o século XVIII pela posse da Colônia do Sacramento e das Missões Jesuíticas. O “editor”, porém (ou o autor?) não quer ser pessimista, e por isso agrega a observação de que os açorianos, instalados em Porto Alegre, não mais, querem retornar ao Arquipélago. Conclui o romance, portanto, com o estabelecimento e a fixação do colonizador na nova terra, e simultaneamente com a visão crítica do que foi este estabelecimento, concretiza o autor, desta forma, a intenção que é clara em sua narrativa: apresentar aos leitor as duas faces dos acontecimentos narrados, permitindo-lhe, sempre, a opção entre uma ou outra versão.

Outro lançamento que alcançou enorme repercussão nesta XXII Feira do Livro é o trabalho de Ludovico Meneghello, “Eu sou Artur Arão” (2). Deve-se dizer desde logo que ao livro falta estilo. Que não é um texto literariamente bem escrito. Pode-se verificar que a sugestão de desenvolvimento entregue ao leitor nos três primeiros capítulos é logo depois abandonada. Em outras palavras, o que se espera seja uma narrativa picaresca (sugestão sobretudo dada pelo segundo capítulo), transmuta-se em um enredo plano, sério, dramático mesmo, em que o narrador-personagem (mais uma vez, um romance narrado em primeira pessoa) como que reivindica direitos e reconhecimento.

O enredo é quase corriqueiro: a transformação de um sujeito de bem, embora um pouco valentão e violento, em um marginal, pela sucessão de acontecimentos não dominados ou até mesmo provocados pela atuação dos representantes da Lei e da Justiça. O tema enfocado é popular, a época lembrada é famosa, e então surge grande mérito de Ludovico: há o que contar, e ele sabe como contar. Retornamos, aqui à estrutura básica do romance, aquela mesma estrutura que Érico Veríssimo reclamava como o direito seu: o romancista deve contar uma história. Meneghello não conta uma, mas grande sucessão de eventos, em que Artur Arão define sua personalidade. Não se pode esquecer que, naturalmente, construindo-se a narrativa do ponto da vista da própria personagem, em primeira pessoa do singular, a narração é feita sob o seu prisma, não cabendo interpretações outras aos fatos. Na medida, porém, em que o prefácio e notas de pé-de-página explicitam a veracidade dos acontecimentos, aproximamos-nos, pois, da narrativa verossímil, em que ficção e realidade se mesclam com excelentes efeitos. Como nas criações de um Simões Lopes Neto, a narrativa de Ludovico Meneghello faz com que Artur Arão alinhe, ao longo das quase trezentas páginas do livro, sucessão contínua de fatos, levando o leitor a acompanhá-los sem poder deixar o livro de lado. Pela vivacidade e mesmo mordacidade destas narrativas, a trama supera o eventual defeito do estilo, por vezes marcado por algum adjetivo menos importante, por alguma simploriedade ou artificialismo, que é de se esperar os demais volumes anunciados tratarão de evitar.

Vive a ação do romance já a época dos arames dividindo o pasto. Mas também a possibilidade de cortá-los sem maiores cuidados. Este tipo de personagem andarilho nasce, no Brasil, com a “Narrativa do Peregrino da América”, de Nuno Marques Pereira, antes do arcadismo, possivelmente segundo se acredita, por influência de Cervantes.”Eu sou Artur Arão”, sem dúvida alguma, deve filiação a esta estrutura, ainda que não necessariamente de forma consciente. Temas, claramente configurada aí, a mobilidade do personagem, nas andanças por todo o território gaúcho e depois fora dele, acompanhando o desbravamento destas regiões, e até mesmo num certo moralismo típico a este tipo de obras. Não se pode deixar de notar, ainda, que se de um lado o livro desmistifica a Léaldade que sempre teria marcado a atividade política no sul e desmistifica certos aspectos do governo Borges de Medeiros, não deixa de manter vivo e, até incentivar outro mito, igualmente perigoso: a valentia e a profundidade do sentimento de honra que marca o gaúcho. São várias as passagens em que tais valores são abordados, em contraposição às violências que os asseclas do governo de então realizavam, vingativamente. De qualquer forma, “Eu sou Artur Arão” caiu na simpatia popular, e embora não seja um romance definitivo, por certo devolve-nos a alegria de ler, coisa muito importante nos dias que correm.


  1. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de – Um quarto de légua em quadro, Editora Movimento-Instituto Estadual do Livro. Porto Alegre, 1976.

  2. MENEGHELLO, Ludovico – Eu sou Artur Arão, Porto Alegre: Editora Garatuja, 1976.



Correio do Povo, Porto Alegre, 20.nov.1976. Caderno de Sábado, p. 7
Três romances e uma promessa
Danilo Ucha
Passada a Feira do Livro quando, a pedido do editor, indiquei mais de 250 títulos que valia a pena comprar, da ficção nacional à estrangeira, passado pelas oras de não-ficção. Voltamos à rotina das sugestões do domingo. Na realidade, não começarei com novidades, porque estarei me detendo sobre dois romances lançados na Feira, de autores gaúchos, um de um pernambucano e a promessa que é Reflexos do Baile, de Antonio Carlos Callado. Os gaúchos são Brasil Dubal, que lançou Fronteira inclemente, e Luiz Antonio de Assis Brasil, autor de Um quarto de légua em quadro, ambos da editora Movimento. Dubal, que foi peão de estância, trata da vida deste tipo social, tão cantado em prosa e verso no Rio Grande do Sul, mas muito pouco conhecido em sua intimidade. De uma maneira geral, os autores que se debruçaram sobre ele o fizeram de uma maneira romântica, confundindo o peão de estância com o gaúcho místico, centauro dos pampas, sentinela da liberdade, cujos defeitos são honra, estereotipo sem alma, sem dor, sem sofrimento – acima das mesquinhas preocupações com o prosaico feijão com arroz de todos os dias...quando ainda havia.

Assis Brasil, professor de Filosofia do Direito na PUC-RS, buscou a metade do século XVIII, quando o Rio Grande do Sul estava começando a ser povoado pelo europeu, para ambientar seu romance.

Ambos os livros – não sou o primeiro a anotar isso – deixam um pouco a desejar em termos romanescos, como romance, mas isso não invalida o trabalho de dois autores nem deve ser fator de desestímulo. Absolutamente. Fronteira Inclemente, que tem como subtítulo Estâncias de São Borja, é, como acentuou Guilhermino César, “um documentário interessantíssimo: a vida gaúcha interiorana, a atividade pecuária, o agreste e obscuro homem do campo, com os costumes, hábitos e paixões que o singularizam, na Fronteira Oeste, tudo isso foi bem observado”. Foi o Mestre, também, o primeiro a chamar a atenção para o caráter secundário da “teia romanesca” no livro, mas ressalta que “Dubal acertou em cheio; seu livro reinventa um mundo, para muitos leitores, completamente esquecido. (...) Mostra simplesmente, com a espontaneidade, do espelho, aos homens do asfalto e da Cibernética, um pouco do muito que palpita, ignorado, nos campos mais remotos do Rio Grande”. Um quarto de légua em quadro, de L.A de Assis Brasil, reconstítui o ínicio da colonização do Rio Grande do Sul pelos casais de açorianos enviados pela Coroa de Portugal como bucha de canhão para deter a invasão espanhola. Este é o pano de fundo. Sobre ele, o drama de um médico, Gaspar de Fróes, que, ao lhe morrer a mulher, fica sem objetivo na vida e resolve embarcar, com os conterrâneos, para o fim do mundo. A reconstituição histórica de Assis Brasil é perfeita e ai o grande mérito do livro, pois mostra que a colonização açoriana não foi o mar de rosas que muitos de nossos historiadores, sem grande preocupação com a verdade histórica, as vezes, pintam. O drama do médico, para mim, não chega a ser um drama. Ou eu não entendi a profundidade de sua preocupação e porque sua renúncia ao mundo, ou o autor não conseguiu dramatizar suficientemente sua história. Mas, como alertou Antonio Hohfeldt, apresentador de Assis Brasil, não é muito comum a obra-prima de estreante: “O importante é a perspectiva assumida. Luiz Antonio de Assis Brasil, ao estrear mostra que sabe para o que veio. Eis o que interessa”.

Mudando o cenário do pampa e do litoral gaúcho para as costas nordestinas, temos Enseada, de Alves da Mota, romance que reúne as muitas histórias dos pescadores e barcaceiros de uma das tantas enseadas existentes em Pernambuco. E história de gente pobre, que se “ocupa da pesca e da atividade barcaceira, além dos trabalhos praieiros de currais de peixe e colheitas de coco, sem ter conhecido ainda o rádio, nem o cinema nem o automóvel nem o avião nem a TV; sentindo na pele a felicidade e desconhecer tudo isso”, como acentua o autor. Embora o cenário, a trama, o gênero e o estilo sejam diferentes, este romance tem um ponto de aproximação com os dois gaúchos citados: também é uma confissão sincera. O lançamento é da Artenova.

Finalmente, algumas informações sobre Reflexo de baile, ultimo romance de Antonio Callado, mas que se enquadram na linha de romance político que ele vem desenvolvendo com Quarup e Bar Don Juan. No primeiro, o autor nos fala nos anos 50, um momento ”de decepção, mas de muita esperança também;” no segundo, focaliza os primeiros anos 60, “personagens frágeis e muito boêmios e muito...”; neste, o painel está bem próximo, é a época dos sequestros no país, “mais um mosaico do que propriamente uma narrativa corrente”.

Callado trabalhou três anos em Reflexos do baile, livro que foi lançado, dia 12, pela Editora Paz e Terra. E todo dividido em pequenas partes, cartas ou diários, com os personagens manifestando-se por si mesmos: “Então o título é Reflexos do baile – explica Callado – porque eu procurei plantar vários espelhos, várias pessoas falando sobre um momento no Rio, que foi o do sequestro dos embaixadores. E para completar o quadro, figuras também do corpo diplomático estrangeiro se manifestam no livro”.


Zero Hora, Porto Alegre, 21.nov.1976, p. ?

Assis Brasil e a tragédia colonial
Tarso Genro
Já li há algum tempo o belo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um quarto de légua em quadro, e sobre ele não posso deixar de fazer uma pequena reflexão. Não resta dúvida que se trata de um dos lançamentos mais importantes do ano de 1976, sobre o qual eu me manifesto com relativo atraso, mas o faço porque pretendo ter uma abordagem diferente daquelas realizadas pelos críticos “não bissextos”, o que não quer dizer, evidentemente, que ela seja a melhor.

Em 1750 e nos anos posteriores são redizidos “os grandes tratados que limitariam definitivamente as possessões portuguesas e espanholas neste continente” (1). Este o pano de fundo do diário do Doutor Gaspar de Fróis, médico, em que o próprio romance de Assis Brasil tenta se constituir como ficção. Os componentes históricos da obra não a tornam mero “cronicão” do processo colonizatório.

O romance histórico é uma empreitada bastante difícil, pois deve assumir duas fidelidades: uma com a literatura e a arte, a outra com a historicidade dos fatos sobre os quais ele se ergue. Encontrar esta posição de equilíbrio é obra, em consequência, do talento literário e do conhecimento do real, e requer uma perfeita identificação dos limites da arte e da ciência histórica, para que a síntese permaneça sob controle do ficcionista.

Se a historia é uma ciência que estuda a sucessão dos modos de produção da sociedade humana e estuda os demais fatos que se erguem como superestrutura desta sucessão, o “relato” da sequência dos acontecimentos políticos e culturais é mera crônica histórica. São muitos historiadores que fundamentados em categorias como “caráter nacional”, “cultura nacional”, “historia incruenta” (2) pensavam estar fazendo ciência da historia e estavam fazendo apologética da ideologia dos agrupamentos sociais dominantes; pensavam estar desvendando as intrincadas teias do passado buscando não só o “como”, mas o “porque” mais profundo das coisas, e estavam oferecendo somente o senso comum das camadas dirigentes.

O livro de Assis Brasil é um romance histórico. Não deve ter e não tem o compromisso de desvendar as relações sociais e não tem obrigação de ser uma crônica da sequência de fatos na superestrutura da sociedade. O compromisso do romance e o compromisso da arte do romance é buscar, através de situações típicas de personagens típicos, a formação de uma historia particular, isso é, que contenha as grandes tendências sociais no momento (o universas) e, ao mesmo tempo, saiba localizar no indivíduo aquilo que o senso comum não consegue, à primeira vista apreender.(O singular).

O dr. Gaspar Fróis, o médico que acompanha as expedições coloniais, pode ser abordado de forma múltipla, porque na verdade ele sintetiza tendências múltiplas. É o intelectual pequeno-burguês que até hoje está à sombra do poder comprometido com seus desígnios e objetivamente cúmplice (até mesmo por omissão) dos desmandados da burocracia estatal? É o boêmio e amante, o classe média potencialmente revolucionário que se desagrega como o indivíduo no contato com a miséria do povo? É o escritor que na intimidade da pena arma as grandes denúncias das chacinas que ele mesmo ajudou a criar?

A denúncia geral da obra de Assis Brasil é importantíssima. Ele aponta, em nosso processo colonizatório e desde a metade do século 18, a falsidade daquilo que para fins didáticos poderíamos denominar de ”teoria cordata” da nossa historia. É a falsidade do conjunto de teses energúmenas que pretendem demonstrar que o Brasil é o único país do mundo em que todos os processos políticos foram resolvidos na conversa e que a escravidão foi produto de homens bondosos e que mesmo os mais miseráveis são felizes porque o clima é “bom”.

A colonização é uma violência histórica irremediável contra os povos nativos do país colonizado que às vezes tem civilizações superiores aos colonizadores (os Incas, no Peru) e contra as massas excluídas dos próprios países colonizadores. Tal processo é cumpridor dos desígnios do capitalismo mercantilista.

Particularmente em relação às massas de imigrantes dos países colonizadores, a obra de Assis Brasil é de uma eficácia a toda prova, pois consegue elevar ao nível da verdadeira arte o fato histórico concreto, que desmascara as teorias “cordatas” que descrevem o nosso mar de rosas desde o processo colonial. Eles querem fazer do português – do “bravo luso”, um divulgador do cristianismo, como se a colonização portuguesa não fosse áspera e cruel como todas; não porque o povo português fosse “mau”, fica evidente – pois o autor até aponta comandantes sinceramente preocupados com a situação das famílias deslocadas para o Brasil – ela foi áspera e cruel porque as leis do capitalismo mercantilista determinaram a opressão de milhares em favor de meia dúzia de famílias de comerciantes e de monarcas prestativos. Neste quadro é que se movia e se limitava a estreita vontade dos homens.

A obra se reveste, em face de tudo que foi exposto, de tripla importância: histórica porque reconstituí com maestria o “espírito de uma época”, para usar a expressão tão cara a Hegel; artística porque indica roteiros e aponta perspectivas para uma ficção que não seja aquela tradicional do “monsense” pequeno-burguês e de seu intimismo alienante; cultural porque sabe combinar numa só obra a inquietação e a seriedade do historiador e a técnica apurada de escritor, que agredindo a narrativo tradicional, não caí no formalismo desesperado da literatura burguesa decadênte.





  1. Um quarto de légua em quadro - autor referido no texto – Ed. Movimento, 1976.

  2. “História Econômica do Brasil” Caio Prado Júnior – 1956 – Ed.

Brasiliense, p.50;

  1. Ver a excelente obra “Ideologia da Cultura Brasileira”, Ática Carlos Guilherme Motta, o mais importante lançamento de Ciências Sociais, em 1977.


Correio do Povo, Porto Alegre, 10.dez.1977. Caderno de Sábado, p. 6

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