Lynn sholes e joe moore legado mortal



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LYNN SHOLES e JOE MOORE
LEGADO MORTAL
Tradução: HENRIQUE AMAT RÊGO MONTEIRO

Editora Pensamento



2010
AGRADECIMENTOS
Os autores desejam agradecer às seguintes pessoas, por ajudarem a dar um sentido de realismo a esta obra de ficção:
Brian W. J. Mahy, M.A., Ph.D., Sc.D., D.Sc.

Conselheiro Científico Sênior

Centro de Coordenação de Doenças Infecciosas

Centros para Controle de Doenças (EUA)


CDR James P. Cody, Marinha Americana

Oficial Comandante



USS Robert C. Bradley (FFG 49)
Dr. Nelson Erlick, DPM

Autor de The Xeno Solution e de GermLine

Agradecemos especialmente a Nancy Barba, Leon Clinch, Nancy Cohen, Carol Moore, Denise Pack, Tommy Sholes e Mark Terry; à nossa agente, Susan Ann Protter; e ainda à editora, Barbara Moore.


NOTAS HISTÓRICAS


  • Em 1941, foi constituída uma divisão do Exército imperial Japonês, cha­mada de Departamento de Prevenção Epidêmica e de Purificação da Água (DPEP). Sob esse título aparentemente inocente, ocultava-se o verdadei­ro propósito do grupo: promover a crença na superioridade racial japo­nesa.

O departamento conduziu experiências médicas hediondas, causando a morte de dezenas de milhares de civis e militares da China, Coréia, Mongólia e Rússia. Uma unidade ultrassecreta do departamento fez experiências de pesquisa com armas biológicas, resultando em um número de 200.000 mortes adicionais. Inúmeras outras atrocidades não computadas foram cometidas em nome da ciência por esse grupo, conhecido como Unidade 731.




  • Em 2006, pesquisadores da França recriaram um vírus de 5 milhões de idade, cujos remanescentes espalharam-se pelo genoma humano. Esse retrovírus ancestral inseriu cópias do seu material genético no nosso DNA. As sobras dessas cópias no nosso DNA — os retrovírus endógenos hu­manos, ou HERVs — constituem aproximadamente 8 por cento do nosso código genético. A maioria das cópias sofreu mutações ao longo dos mi­lênios, até o ponto em que se tornaram obsoletas. Entretanto, cientistas descobriram uma cópia que ainda poderia ser alterada em novas partícu­las do vírus, capazes de causar infecção. Os cientistas do Instituto Gustave Roussy, em Villejuif, França, ressuscitaram com sucesso um dos retrovírus, batizando-o de Phoenix, em referência ao pássaro mítico que renasce das próprias cinzas. Esse grupo de cientistas também encontrou indicações de que alguns dos outros HERVs no nosso genoma ainda poderiam ser infecciosos.

"A mais grave tentação é a que incita para o crime por amor à virtude." — William Shakespeare Medida por Medida, Segundo Ato, Cena II


Metrô
Calderon sabia que estava morrendo quando introduziu o bilhete na fenda e passou pela catraca e desceu cambaleante os degraus de acesso à plataforma do metrô. O ruído estrondeante do trem, ainda que abafado pelo san­gue que coagulara nos seus ouvidos, causou-lhe uma dor lancinante, deixando um rastro ardente ao passar da testa à nuca.

Calderon segurou a cabeça entre as mãos até o trem parar por com­pleto, as portas abrindo-se automaticamente com um sopro resfolegante. Não sabia por quanto tempo ainda as pernas o sustentariam. A febre devastadora de mais de quarenta graus parecia derreter os seus ossos, a medula fundida escorrendo por dentro dela. Quase sufocando, tragou uma golfada de ar, que entrou silvando pelas vias aéreas como o vento atravessando uma chaminé.



Entre no trem. Depressa. Entre no trem.

Num esforço supremo, Calderon embrenhou-se em meio à torrente de passageiros, deixando que os corpos o empurrassem para dentro.

Não avistou um único assento disponível, até encontrar um espaço junto a uma haste para apoiar a mão. Ao fechar os dedos ao redor da haste fria, um acesso de tosse subiu-lhe do peito. Agoniado, ergueu a mão livre e cobriu os lábios com um lenço, e o gosto amargo do catarro misturado com sangue espalhou-se pelo interior da boca. As manchas do catarro sanguinolento vazaram por entre os fios do tecido branco, florescendo como minús­culos gerânios escarlates.

O trem deu uma guinada e Calderon balançou para os lados, chocan­do-se contra um rapaz que tinha um fone de ouvido preso à orelha e um iPod no cinto.



  • Mas que... — Espantado ao ver as manchas no lenço, o rapaz sol­tou a haste e recuou um passo atrás. — O que há com você, cara?!

Com a uniformidade sucessiva de dominós caindo uns sobre os ou­tros, os passageiros voltaram-se todos na direção de Calderon. Imediata­mente, começaram a se afastar dele, aglomerando-se na extremidade oposta do vagão.

  • Ai, meu Deus! — exclamou uma mulher, cobrindo a boca e o nariz com as mãos.

Calderon esfregou a face, despregando crostas de sangue seco e sa­liva dos cantos da boca. Não culpava os passageiros por se assustarem ou sentirem nojo e terror. Todos tinham uma boa razão para isso.

Os olhos queimavam e a pele doía ao toque. Os cinco comprimidos de analgésico antigripal que ingerira uma hora antes pareciam não ter surtido efeito contra a dor ou a febre. Provavelmente, até ajudaram a agravar a he­morragia. Sentiu um escorrimento morno, espesso, pelo nariz e as exclama­ções de horror recomeçaram. Limpou o sangue com o dorso da mão, espalhando-o pela bochecha.

O trem chegou à estação seguinte e todos os passageiros, exceto Calderon, precipitaram-se para as portas abertas.

O primeiro passageiro a chegar parou, imobilizado na entrada antes de recuar com os braços abertos.



  • Parem! — gritou. — Ninguém entra no trem.

  • O que está acontecendo? — indagou um homem, forçando a pas­sagem. — Saia do meu caminho. — No entanto, assim que pousou os olhos no único ocupante do vagão, recuou imediatamente. — Minha nossa!

As portas se fecharam e Calderon observou os rostos encarando-o pe­las janelas. Em um instante o trem ingressava na escuridão do túnel e ele cerrou os olhos. Com a respiração superficial e ofegante, novamente foi dominado por um acesso de tosse que quase o sufocou. Tentou controlar a ânsia. Durante as últimas 24 horas, tinha percebido que, toda vez que tos­sia, irritava as vias aéreas ainda mais, provocando uma convulsão espasmódica incontrolável. Manteve a boca fechada, tossindo como se estivesse no cinema e não quisesse incomodar. Sentiu o rosto arder com a força do ar ex­pelido pelos pulmões, mas não conseguiu controlar mais e atosse irrompeu. Um jato de sangue e muco escapou-lhe dos lábios, espirrando na haste, e uma nuvem de vapor rósea flutuou no ar. Depois de vários minutos os pul­mões relaxaram. O tempo estava se esgotando.

A parada seguinte seria a última. Ele estava quase chegando. Dessa vez, quando as portas se abriram, Calderon praticamente se atirou sobre a plataforma. Percebeu as expressões das pessoas que o observavam com to­tal repulsa. Abaixou a cabeça e manteve os olhos voltados para o concreto do piso. Depois de subir metade dos degraus, agarrou-se à grade de prote­ção, sem saber se conseguiria. Deteve-se e apoiou-se de lado contra a pa­rede por um instante, antes de continuar em direção à calçada.

A febre lhe dava calafrios e tremores, e ele pensou no paradoxo de tudo aquilo. Seu corpo inteiro ardia, e o que sentia, com exceção dos olhos chamuscados, era um frio incomensurável.

Falta só meio quarteirão.

Aproximou-se da entrada principal do endereço de destino.

A multidão na calçada abria-se como o mar Vermelho quando Moisés o dividiu em nome de Deus para salvar os judeus dos egípcios. No entanto, ele sabia que aquilo ali não era uma obra divina, mas conseqüência do ter­ror que dominava os pedestres ante a visão de um ser humano transfigura­do — uma figura descarnada, cujas órbitas oculares cobriam-se de um preto fuliginoso, e de todos os orifícios do seu corpo brotavam sangue e fluidos corporais.

Calderon empurrou as portas rotatórias para dentro do saguão de en­trada da Satellite News Network. Então, o que restava das suas forças se es­vaiu e os seus joelhos cederam. Ele desmoronou de borco sobre o piso de mármore.

Um segurança da emissora aproximou-se imediatamente. Agachando-se, apertou o botão no microfone de ombro e informou:


  • Código vermelho. Ligar para Emergência. — Em seguida, lenta­mente, virou Calderon de lado. Então recuou ao ver aquilo. — Jesus Cristo!

Calderon abriu um olho. Sentia os fios de muco colados aos lábios esticarem-se pegajosos quando falou.

  • Cotten Stone... — arquejou. — Preciso... falar... com Cotten Stone.


Abrindo a Porta do Inferno
Pyongyang, Coréia do Norte
Sozinha na rua, embaixo do poste de iluminação pública, Chung Moon Jung tentava calcular quantas pessoas mataria. Quase todas as luzes da cidade estavam apagadas, fazendo os detalhes do seu contorno confundirem-se na escuridão. Apenas alguns pontos luminosos esparsos refletiam-se no leito imóvel do rio Taedong. Na superfície das águas, os prédios do gover­no e os conjuntos de apartamentos compunham uma silhueta tosca.

Moon fixou o olhar nas formas sombrias de duas embarcações atra­cadas junto à margem do rio: o USS Pueblo, o navio de guerra espião toma­do em 1968 das forças americanas de agressão imperialista, e o Pitcairn, um barco de pesquisas da Oceanautics, confiscado apenas um ano antes, ao ser encontrado à deriva em águas norte-coreanas. Esses eram dois bons exem­plos da capacidade da Coréia do Norte de impor-se ao Ocidente. O Pueblo dera à nação comunista um instrumento de barganha no panorama mundial, ao passo que o Pitcairn proporcionara um meio de dominar o cenário.

Moon tirou uma fotografia do bolso interno do casaco. Sob a ilumina­ção suave do poste, contemplou a imagem dos pais no retrato em branco e preto já amarelado. A dor que sentia sempre que recordava o destino que lhes coubera ainda a torturava por dentro, um sofrimento que não diminuía nunca.

Acariciando a fotografia, deteve o dedo por um instante sobre a face da mãe. Parecia ter passado uma eternidade. Tinha agora mais que o dobro da idade da própria mãe na fotografia. Assim mesmo, não se cansava de admirar a foto, como se não quisesse se esquecer jamais.



  • Doutora Chung?

Seu motorista segurava um telefone celular quando ela parou junto à reluzente limusine preta estacionada a uns dez metros dali.

Discretamente, Moon repôs a fotografia no bolso. Dando as costas para o rio e para os dois navios, ela respondeu:



  • Sim?

  • Ele está pronto para recebê-la.

Moon observou enquanto o secretário-geral saboreava o último gole de chá verde antes de pousar a xícara sobre a mesa de cerejeira. Ele se recostou na cadeira; um sinal de que a refeição terminara. Imediatamente, um criado adiantou-se, pressuroso para retirar os pratos. Um segundo criado trouxe uma chaleira de porcelana com mais chá fresco e tornou a encher a xícara do secretário-geral. O criado ofereceu mais chá a Moon, mas ela ergueu a mão, recusando. Depois de arrumada a mesa e os dois se encontrarem a sós na pequena sala de jantar particular, o secretário-geral comentou:



  • Sonhei com o seu pai ontem à noite.

  • Estimado Líder — exclamou Moon com uma leve inclinação de cabeça. — Ele ficaria muito honrado em saber disso. Pois só os que lhe dedi­cam o mais elevado amor e devoção são merecedores de um lugar nos seus sonhos. Também sonho muito com o meu pai. Ele era um grande homem.

Ela levou a xícara aos lábios enquanto admirava os vasos de 2.000 anos de idade enfileirados numa estante ao longo de uma parede.

  • Estes vasos são do reino de Baekje — informou o secretário-geral.

  • Maravilhosos, Estimado Líder. O nosso legado é de um valor inestimável. É inadmissível que os selvagens tenham dividido a nossa terra que­rida com aquela fronteira arbitrária.

  • Você está certa em referir-se a eles como selvagens.

  • E eles logo sentirão o peso da nossa ira — prometeu Moon. — Os americanos e todos os seus aliados receberão o troco por todas as mortes e toda a destruição que espalharam pelo planeta.

  • Você fez um progresso surpreendente neste último ano, doutora Chung, desde que o Pitcairn, o navio da morte, foi encontrado. Foi muita sorte para nós que ele caísse em nossas mãos antes que os Estados Unidos conseguissem recuperá-lo.

  • Considerei isso como um presságio, Estimado Líder. Um sinal de que conseguiremos realizar a nossa vingança. Que o que estamos prestes a executar é guiado pela mão do destino.

  • Os laboratórios médicos satélites estão todos a postos?

  • E em pleno funcionamento. Tomamos emprestado uma palavra do setor de informática e estamos chamando cada teste de campo de um ping.

O secretário-geral deu de ombros.

  • Não entendo esse termo.

  • Quando um técnico quer saber se o seu computador é capaz de se comunicar com outro computador, ele produz um ping para confirmar.

  • Ah! — exclamou o secretário-geral, surpreso. — Assim como a nossa frota de submarinos assinala a presença de outras embarcações com um ping no radar?

  • Exatamente. A cada ping, podemos observar os resultados do ví­rus e como ele reage aos genes das diversas raças. Já atingimos alguns gru­pos. Até o momento, todos se revelaram recipientes perfeitos.

  • E como esses pings estão sendo enviados?

  • Por aerossol, sprays de garganta. Por qualquer um que seja ade­quado, e achamos que vai funcionar junto ao alvo.

  • Ah! E enquanto põem as mãos em cima do que gostam de chamar de nosso programa de armas nucleares, os imperialistas não fazem a menor idéia de que realmente estamos planejando a sua extinção da maneira mais inesperada.

Moon sorriu com presunção enquanto afastava uma mecha de cabe­lo prateado da face.

  • As dívidas devem ser pagas, doutora Chung. Fomos traídos muitas vezes no passado. Agora não haverá mais traições, porque não haverá mais negociações. Chega de acordos. Chega de conversações. Os dias dos im­perialistas e dos comunistas corruptos estão contados. Ficaremos assistin­do, quando todos os nossos inimigos começarem a morrer. Logo, seus cidadãos estarão paralisados pelo medo. Terão medo de sair de casa, de ir trabalhar ou de mandar as crianças à escola, até mesmo de ter contato uns com os outros. Não existirá nenhum lugar seguro. E à medida que cada país entrar no caos e na anarquia, o domínio sobre o mundo virá até nós como um pardal ao sabor da brisa. Venceremos pelo simples processo da eliminação. Você está prestes a abrir as portas do inferno, doutora Chung, e fazer os nos­sos inimigos sentirem a ira das Agulhas Negras.


Últimas Palavras
— Quanto tempo você pretende ficar em Nova York? — quis saber Cotten Stone antes de sorver um gole de café. Sentada em uma das suas confeita­rias favoritas na Broadway, a alguns quarteirões ao sul da sede mundial e dos estúdios da Satellite News Network, ela olhava para John Tyler à sua frente, o seu amigo mais íntimo, confidente e o amor impossível da sua vida. Aos olhos do mundo, o cardeal John Tyler era o prelado da Comissão Pontifícia para a Arqueologia Sacra. Para um grupo seleto do mundo da espionagem e da segurança internacional, John era o diretor do Venatori, a agência de informações ultrassecreta do Vaticano. Para Cotten, ele era o homem que ela nunca poderia ter.

  • Só alguns dias — ele respondeu. — Assim que acabarem as mi­nhas reuniões aqui, devo fazer uma viagem rápida a Washington, para ver o presidente. Dali, devo voltar para Roma. Já lhe disse há quanto tempo o pre­sidente e eu nos conhecemos? Muito antes de entrar para a política, Steve Brennan na verdade chegou a pensar em se tornar padre. Éramos muito bons amigos quando tínhamos 20 e poucos anos.

  • Você mencionou que o conhecia, mas eu não imaginava que essa amizade lhe autorizasse a aparecer na Casa Branca sempre que quisesse.

  • É muito mais fácil agora, como diretor do Venatori.

Cotten observou um grupo de turistas conversando em francês que acabava de entrar e procurava uma mesa.

  • Então... enquanto você estiver por aqui, poderíamos achar um tempinho para nos encontrar e pôr as notícias em dia. Veja bem, não quero atrapalhar a sua programação ou seja lá o que for. Eu só pensei que...

  • Você jamais estaria atrapalhando, Cotten. Eu mesmo não via a ho­ra de fazer esta viagem justamente para que pudéssemos passar algum tem­po juntos. Você me faz bem, Cotten Stone.

Ela fechou os olhos e abanou a cabeça.

  • Como você sempre consegue isso... fazer eu me sentir como se fosse a coisa mais importante nos seus pensamentos?

Ela olhou para a xícara sobre a mesa.

  • Espere, não responda. Não quero uma explicação. Poderia desfa­zer a magia do momento.

  • Magia, hein? É disso que se trata?

  • Pois é. Mas ninguém mais na minha vida inteira fez com que me sentisse tão especial quanto você.

  • Bem, talvez eu a faça ser especial porque você é mesmo uma mu­lher especial.

  • Droga! — murmurou ela para si mesma, envolvendo a xícara com as mãos.

  • O que foi? — John não entendeu.

  • Você sabe exatamente do que se trata. Essa coisa de padre.

Ele estendeu o braço sobre a mesa e cobriu-lhe as mãos com a sua.

  • Mas aprendemos a lidar com isso.

Ele tinha razão. No entanto, ela não deixava de querê-lo por causa dis­so, pensou, inclinando a cabeça.

  • Quer saber mais?

  • Quero. O quê?

  • Aquele hábito vermelho dos cardeais não lhe cai tão bem. Eu gos­to muito mais de você assim, de camisa polo e calça jeans.

  • Hoje é a sexta-feira informal no Vaticano — comentou John com uma risada. Depois voltou a ficar sério. — Eu ainda tenho uma reunião esta tarde, mas pensei que poderíamos jantar...

O celular de Cotten tocou. Hora errada.

  • Só um minutinho, já vamos continuar esse assunto — disse ela, vasculhando a bolsa, de onde tirou o telefone e abriu-o para atender. — Sim? Cotten Stone.

Ela ouviu durante um instante, depois fechou de novo o celular. Então, correu os dedos pelo cabelo e comentou:

  • Ai, ai... é sempre assim. Parece que nunca dá certo para nós, não é? Estão me chamando na SNN. Um sujeito acabou de entrar no saguão da emissora e desfaiecer, dizendo que precisava falar comigo.

Ela pegou a bolsa e, enquanto se levantava para sair, desculpou-se:

  • John, eu sinto muitíssimo. Pedi que só me ligassem em uma emergência. Disseram que era bom eu chegar lá imediatamente, o sujeito pare­ce estar muito mal.

  • Não tem problema. Eu acerto aqui e lhe telefono depois. Então, o jantar está de pé?

  • Seria ótimo. — Cotten parou perto dele. — É tão bom estar com você, John Tyler. Mas este encontro não foi o bastante. Promete que me li­ga depois?

  • Sem falta — respondeu ele.

  • Agora vou descobrir por que um sujeito que está à beira da morte quer falar comigo.

Apressada, Cotten empurrou a porta giratória do saguão de entrada da Satellite News Network. Uma multidão de empregados da SNN aglomerava-se ao redor de um homem caído no chão.

O diretor de jornalismo, Ted Casselman — chefe, mentor e amigo de Cotten —, aproximou-se dela e conduziu-a ao centro do grupo.



  • Quem é ele? — ela quis saber, lançando um olhar rápido ao ho­mem.

  • Não faço a menor idéia — Ted encolheu os ombros. — O segu­rança disse que ele não traz nenhuma identidade.

  • Ele falou alguma coisa?

  • Nem uma palavra desde que pediu para vê-la. A ambulância deve estar chegando.

Cotten fixou o olhar no homem estirado no chão.

  • O que será que aconteceu com ele? Jesus, ele parece tão...

  • Stone. — A voz roufenha mal se fez ouvir em meio à comoção no saguão de entrada.

Cotten inclinou-se para se ajoelhar, mas Ted a segurou pelo braço.

  • Não se aproxime. Não sabemos o que ele tem.

Um operador de câmera da SNN apareceu de repente e se dirigiu a Ted.

  • Tudo bem se eu filmar?

Ted consentiu com um aceno de cabeça.

  • Vou gravar isto — o operador comentou com Cotten. Aproxi­mando-se mais, ele acionou o refletor montado na câmera e focalizou a ima­gem.

O homem murmurou algumas palavras, seguidas por um fluxo de san­gue espumoso que lhe brotou da boca.

  • Não consigo entendê-lo — falou Cotten, ignorando Ted e ajoelhando-se.

O som das sirenas aproximando-se rapidamente anunciava a chegada do pessoal de Resgate e Salvamento de Nova York.

O homem tentou falar sem sucesso. Cotten amparou-lhe a cabeça. Ele tossiu e bolhas vermelhas formaram-se e estouraram nas suas narinas. Um filete de muco vermelho vivo escorreu-lhe dos lábios.

As sirenas aumentaram de intensidade num crescendo, até silencia­rem de repente na rua em frente ao prédio.


  • O que disse? — ela indagou ao homem.

  • Afastem-se! Abram caminho! — gritavam os seguranças abrindo caminho desde as portas do saguão, seguidos pelos paramédicos que avan­çavam às pressas na direção dela.

Cotten inclinou-se mais para perto da face do homem. Os olhos vítreos finalmente encontraram o que procuravam e fixaram-se nos dela.

  • Fale comigo! — pediu Cotten.

  • Agulhas Negras — foi tudo o que o homem conseguiu murmurar antes de fechar os olhos.


Departamento de Estado
Passada a agitação no saguão da SNN, os funcionários que chegavam para o trabalho encaminharam-se para os elevadores, formando filas para deixar o saguão e retomar o expediente. Pelas portas de vidro, Cotten e Ted ob­servaram enquanto os paramédicos introduziam o paciente pela parte tra­seira da ambulância.

  • O que foi que ele lhe disse? — quis saber Ted.

Cotten correu os dedos pelo cabelo cor de chá, prendeu-os atrás da orelha e encolheu os ombros.

  • Acho que estava delirando. Murmurou alguma coisa sobre agulhas contaminadas, acho. Provavelmente era um viciado.

  • Precisamos reavaliar os procedimentos de segurança do nosso pré­dio — observou Ted, olhando por cima do ombro para o pessoal da manutenção que limpava o local onde o homem caíra.

Depois de atravessarem o piso de mármore em que se via a imagem gravada do logotipo da SNN, com uma antena de satélite dourada sobre o globo terrestre, Ted e Cotten entraram no elevador. Ted pressionou o botão do oitavo andar e voltou-se para ela.

  • E aí, como vai John?

  • Está ótimo. Veio à cidade para umas reuniões com um pessoal do FBI e do Departamento de Estado.

Enquanto falava, ela observava os botões sinalizadores dos andares acenderem-se e apagarem-se à medida que o elevador subia. O oitavo andar era onde ficava o departamento de jornalismo, com as suas salas de edi­ção de vídeo e os arquivos da emissora.

Cotten desviou o olhar para o reflexo de Ted no revestimento de bron­ze impecável do elevador, pensando em quanto o apreciava e respeitava. O acinzentado do cabelo grisalho nas têmporas do diretor ganhara intensidade e ela sabia muito bem da sua parcela de culpa por isso. Ted era um negro boni­to, com o rosto anguloso e olhos vivos e enérgicos, de onde brotavam faíscas que a inspiravam, assim como ao resto do pessoal. Ele era uma constante fon­te de apoio inquestionável — nos melhores e piores momentos da sua carrei­ra. E bem que tivera prova disso em todo tipo de encrenca. Mas quando precisava, Ted estava sempre ao seu lado, para lembrar-lhe de que era normal cometer erros; o importante era não repeti-los. O segundo ataque cardíaco re­centemente o forçara a reduzir o ritmo e a carga de trabalho, e Cotten preocu­pava-se com ele, contra a vontade dele, é claro. Mesmo nos assuntos de saúde, ele mantinha o seu perfil imponente, dominante, de diretor de jornalismo.



  • É difícil para você, não é? — Ted interrompeu-lhe o devaneio, dirigindo-se ao reflexo no bronze.

  • O quê?

  • John... entrando e saindo da sua vida.

Cotten desviou o olhar.

  • Isso fica tão evidente assim?

  • Quer o meu tradicional conselho paterna!?

  • E eu tenho escolha?

  • Aproveite o tempo que têm juntos. Depois das últimas vezes em que a morte passou perto, aprendi a viver cada momento, sem pensar no futuro. O resto é perda de tempo.

O elevador parou e as portas se abriram.

Ted passou o braço ao redor dos ombros de Cotten e fez-lhe um afa­go reconfortante.



  • Viva o momento — sentenciou, então deixou-a sair primeiro. — Bem, acho que tivemos bastante emoção para um dia, não, garota?

  • Tem razão... Mas aquele sujeito estava bem doente. Espero que sobreviva.

Ela olhou para a sala da redação, onde repórteres e editores corriam de um lado para outro agitados, como abelhas em uma colmeia.

  • Converso com você depois, Ted.

Ele inclinou a cabeça quando se separaram e Cotten encaminhou-se para a sua sala. No fundo, algo continuava incomodando, como uma comichão inacessível. Por que o sujeito no saguão chamara por ela?

No fim da tarde, uma jovem estagiária, recém-saída da faculdade de jorna­lismo, bateu à porta de Cotten.



  • Aqui está o primeiro esboço da matéria sobre o Sudário de Turim, senhorita Stone.

  • Obrigada. — Cotten fez um gesto para a jovem entrar. — Quero lhe pedir um favor.

  • Claro. Com o maior prazer.

  • Você ouviu falar do que aconteceu no saguão lá embaixo depois do almoço?

  • Ouvi os comentários... pobre coitado.

  • Então, veja se consegue descobrir para que hospital o levaram e qual o estado de saúde dele.

  • Sabe o nome dele?

Cotten abanou a cabeça.

  • Ele não tinha nenhum documento de identidade.

  • Tudo bem, vou ver o que consigo descobrir.

A garota girou nos calcanhares e saiu apressada.

Cotten olhou para o telefone pela enésima vez, só para o caso de a luz de recados estar piscando, o que indicaria que John ligara enquanto estava na linha. Virando a cadeira, admirou pela janela o cenário da zona oeste do Central Park. De todo o ano, essa era a época predileta dela; gostava de apre­ciar a queda das folhas e respirar o ar fresco durante a caminhada para o tra­balho todas as manhãs. Só depois, no fim da estação, quando atemperatura baixava muito, é que abria mão da caminhada e tomava um táxi.

Correu os olhos pelo roteiro da reportagem que a estagiária trouxera — uma discussão sobre um novo exame dos traços de pólen encontrados no Sudário de Turim. O pólen fora identificado como sendo de uma espécie de cardo chamada Cundelia tournefortii, que segundo se acreditava teria sido usada para compor a Coroa de Espinhos impingida a Jesus Cristo na Crucificação. A planta era encontrada principalmente em Israel, nas imediações de Jerusalém.

Depois de ler todo o roteiro, Cotten anotou, "possível segundo seg­mento" no alto da primeira página. No momento, ela apresentava um pro­grama semanal direcionado à relação entre ciência e religião, intitulado Relíquias, em que discutia fatos e mitos envolvendo artefatos antigos. Esse roteiro poderia dar um bom recheio, ela pensou. A reportagem principal do programa seguinte desmascarava uma teoria segundo a qual uma ossada encontrada teria pertencido a Joana d'Arc.

Ela editou algumas falas da história sobre o Sudário, depois fez mais um pouco de pesquisa na Internet. No entanto, não importava o que ten­tasse fazer para se distrair, dois temas não saíram da sua cabeça pelo resto da tarde — John Tyler e o homem no saguão.

Quem sabe a reunião de John tivesse se prolongado além do tempo, concluiu, e estava prestes a se aprontar para ir embora quando ouviu baterem à porta. A nova estagiária esperava parada na porta.



  • Pode entrar — convidou-a Cotten. — Venha cá. Sente-se.

A jovem adiantou-se com um sorriso largo. Cotten observou-a en­quanto ela se aproximava.

  • E então, o que há de novo?

A estagiária hesitou um pouco e então respondeu:

  • Não quero que pareça adulação, senhorita Stone, mas preciso di­zer que é uma honra para mim trabalhar com você.

  • Bem... obrigada — Cotten inclinou a cabeça. — Você acabou de fazer o meu dia valer a pena. E por favor, me chame de Cotten.

A jovem sorriu novamente e sentou-se em uma das poltronas à fren­te da mesa de Cotten.

  • Sabia que você foi um dos temas que estudamos no curso de tele­visão na faculdade? Havia até uma matéria facultativa sobre como os artefa­tos religiosos antigos influenciam a nossa vida. Tinha muito a ver com o impacto causado pelo seu trabalho jornalístico. Quando soube que tinha si­do aprovada no programa de estágio da SNN, mal pude esperar para conhecê-la, que dirá trabalhar com você.

  • Você está sendo muito gentil e agradeço pelas palavras amáveis. Aqui na SNN trabalhamos em equipe e só com todo o mundo dando o má­ximo de si é que conseguimos fazer coisas maravilhosas acontecerem.

  • Bem, estou orgulhosa de tomar parte nisso.

  • Então, o que descobriu sobre o nosso homem misterioso?

A estagiária olhou para a folha dobrada que tinha na mão.

  • Eu segui toda a história desde o começo, mas no fim cheguei a um beco sem saída. Não posso acreditar que seja a primeira tarefa que me deu e eu não fui capaz... — Ela olhou para Cotten. — Espero que não fique desapontada comigo.

  • Me passe o que conseguiu.

A garota desdobrou a folha de papel e entregou-a a Cotten.

  • Ele morreu a caminho do hospital. O nome do médico do pronto- socorro com quem conversei está aí.

  • Foi determinada a causa da morte?

  • O médico disse que levaram o homem para o hospital, mas que houve uma confusão. Alguém liberou o corpo para uma casa funerária antes que o pessoal da perícia pudesse levá-lo para a autópsia.

Cotten rolou os olhos para o teto.

  • Como acontece uma coisa dessas? É típico a mão direita não saber o que a esquerda faz e bla-bla-blá. Incompetência, no mínimo. Aposto que vão tentar tapar os buracos no fim. Então, para onde levaram o corpo? Vo­cê pode descobrir na casa funerária.

  • Aí é que está o problema. Ninguém conseguiu encontrar um do­cumento que identifique qual foi a casa funerária.



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