Machado de Assis: a crônica no jornal / o jornal na crônica



Baixar 31.82 Kb.
Encontro17.01.2018
Tamanho31.82 Kb.

II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História das Mídia Impressa
Coordenação: Prof. Luís Guilherme Tavares (NEHIB)

Machado de Assis: a crônica no jornal / o jornal na crônica
Jeana Laura da Cunha Santos

Jornalista, Doutora em Teoria Literária e Professora do Curso de Comunicação Social da Faculdade Estácio de Sá ( São José – SC)
Resumo

O trabalho traz um instante pioneiro na história do jornalismo brasileiro através da perspectiva de Machado de Assis. Trata-se da transição entre a narrativa livresca e a produzida para jornal na virada do século XIX para o XX, cujo texto emblemático é a crônica. Nesta passagem do livro ao jornal por intermédio da crônica, Machado de Assis elucida algumas percepções novas sobre a atividade jornalística, subscritas na forma moderna, perecível e reprodutível do novo veículo que se consolidava cada vez mais no cenário nacional: o jornal. Tais percepções dão-se precisamente em algumas crônicas publicadas no jornal Gazeta de Notícias, nas quais Machado antecipa questões que, um século depois, permaneceriam atuais.

Palavras-chave: Jornalismo – História - Machado de Assis – Crônica - Literatura


Machado de Assis: a crônica no jornal / o jornal na crônica
Num tempo de transição entre a forma imortal do livro e a folha descartável do jornal, sabe-se que, no Brasil, os primeiros jornalistas eram escritores. O aumento do ingresso dos literatos no jornalismo é resultado das oscilações sociais e econômicas geradas no final do Império e inícios da República, o que acabava impedindo o desenvolvimento amplo do mercado editorial. Como já não havia mais uma aristocracia tão disposta a assegurar a sobrevivência dos intelectuais, esses se viram compulsoriamente arrastados para o jornalismo, o funcionalismo ou a política. Os livros de autores brasileiros eram poucos e baixas eram as tiragens. Assim, a reputação do autor passou a ser cada vez mais determinada pelos periódicos, cujos consumidores eram ainda as mulheres da elite, estudantes, literatos ou aspirantes a literatos com um gosto francófilo e que mudava de acordo com a moda.

A migração dos escritores para os jornais e a profissionalização da primeira atividade fora comentada por Bilac, em crônica publicada na Gazeta de Notícias do dia dois de agosto de 1903:


Hoje, não há jornal que não esteja aberto à atividade dos moços. O talento já não fica à porta, de chapéu na mão, triste e encolhido, farrapão e vexado, como o mendigo que nem sabe como há de pedir a esmola. A minha geração, se não teve outro mérito, teve este, que não foi pequeno: desbravou o caminho, fez da imprensa literária uma profissão remunerada, impôs o trabalho. Antes de nós, Alencar, Macedo e todos os que traziam a literatura para o jornalismo, eram apenas tolerados: só a política e o comércio tinham consideração e virtude. Hoje, oh! espanto! Já há jornais que pagam versos!1
Foi, então, pelo jornalismo que o meio cultural brasileiro se manteve em contato com os grandes centros estrangeiros e os escritores puderam alcançar um maior número de leitores. A atividade na imprensa dava a esses escritores reconhecimento público e prestígio intelectual e político.

E a crônica foi a forma oportuna de passagem entre o livro e o jornal, subscrevendo um novo estilo, contaminado pelo enquadramento fragmentário da diagramação das folhas, pela pressão dos horários e pela velocidade da própria movimentação das rotativas. As novas técnicas de impressão e edição barateiam a imprensa e a linguagem mais simples da crônica facilita o seu consumo cotidiano pelas camadas alfabetizadas, em que pesem serem minoritárias no Brasil: “Cria-se assim uma ‘opinião pública’ urbana, sequiosa do juízo e da orientação dos homens de letras que preenchiam as redações”.2 Todas essas mudanças são resultado da velocidade com que a tecnologia avançava no tempo e foram sentidas de forma contundente  e concomitante com as transformações econômicas e sociais  na produção literária. Do lento livro passa-se à imprensa veloz.3 Do livro eterno passa-se à transitoriedade da folha que morre. Do livro de poucos leitores passa-se ao grande público. Muito embora, no caso brasileiro, a circulação do jornal, quando comparado à venda de mais de um milhão de edições das gazetas anglo-saxônicas, fosse medíocre, não chegando a 50 mil exemplares no final do século XIX. Mesmo assim, superava a vendagem dos livros e alguns escritores perceberam este potencial do jornal na veiculação de suas idéias.

Esse foi, sem dúvida, o caso de um dos nossos grandes literatos brasileiros. Publicando suas crônicas por quatro décadas no cenário nacional, especialmente no jornal carioca Gazeta de Notícias, Machado de Assis vivenciou o instante híbrido em que o jornal se configurava como nova forma, mas que ainda conservava vestígios do livro, muito embora se movesse cada vez mais ágil pelos trilhos do tempo, atendendo a demanda de um olhar que já se habituava, pouco a pouco, a uma nova velocidade, a uma nova pressão. Entre a narrativa livresca antiga e a notícia à la minute tardo-moderna, a época de Machado conheceria a escritura de passagem da crônica, situada entre o fato e a ficção, entre o olhar fotográfico e o da imaginação, entre a literatura e a anti-literatura, entre a permanência e a recorrência, entre a leitura individual e a coletiva, entre a casa da palavra e o “olho da rua”.

Ao entregar-se por inteiro à nova locomotiva dos tempos, permitindo que seu texto circulasse pelas mãos das massas e fosse descartado no dia seguinte tal qual papel velho ou letra morta, Machado deixou-se marcar por esta nova forma de ler. Apostou tanto no jornal que chegou a anunciar ingenuamente o fim do livro. Tal argumento deu-se no texto “O jornal e o livro”4 (Correio Mercantil, 1859), onde o autor justifica sua apologia assim:


Quem enxergasse na minha idéia uma idolatria pelo jornal teria concebido uma convicção parva. Se argumento assim, se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade.
E foi por meio da crônica que Machado, ironicamente o maior autor livresco de todos os tempos, abandonou a casa “falida” a “atrasada” do livro para se alojar na morada democrática e moderna do jornal. O escritor/jornalista percebeu o jornal não só quando se ajustou a ele por meio da linguagem da crônica. Foi nos próprios temas que abordou que percebemos a sintonia do escritor carioca com a nova atividade profissional que se delineava na virada do século XIX para o XX. Em pelo menos três delas, ele antecipa questões que, guardadas as devidas proporções de velocidade contemporânea, são atuais. Na primeira delas (publicada no dia quatro de dezembro de 1892, na Gazeta de Notícias), muito tempo antes de o lead chegar ao Brasil na década de 40 - século XX, ele já intuía o que essa técnica jornalística significava. Para chegar ao lead, é preciso antes compreender que o tom analítico, combativo, muitas vezes usado por Machado em suas crônicas, começaria a perder gradativamente o seu espaço nos jornais. Se em seu princípio “o jornalismo era um instrumento nas lutas sociais e políticas, identificado com os partidos, difusor de opinião, escrito em estilo literário que apenas reservava espaços para a informação”,5 na segunda metade do século XIX, a opinião começa a perder terreno e a ser separada das páginas de informação. “Os fatos são sagrados, a opinião é livre, dito por um editor, ficou como a base da doutrina da objetividade e marcou o fim de uma época na qual a notícia sempre se escrevia salpicada de comentários do autor”, explica Diaz Rangel. Nesse sentido, a opinião cede cada vez mais espaço para a estrutura conhecida como “pirâmide invertida”, onde os fatos mais importantes são concentrados no primeiro parágrafo, base de qualquer notícia.

Os Estados Unidos foram os primeiros a adotar esse novo modelo. Isso se deu devido à revolução industrial, ao aumento da população urbana e à mecanização da imprensa, o que levou a um aumento na tiragem dos jornais. Surge uma demanda maior de leitores que querem informações, sobretudo sobre o comércio. O artigo de fundo dá lugar à notícia. Notícia sensacionalista, cujo teor eram os grandes feitos, as grandes aventuras humanas, como as guerras, por exemplo. As empresas jornalísticas inventam o repórter que passaria a fazer a cobertura in loco destas guerras. A técnica básica para compor a notícia passa a ser o lead, inspirado no como as pessoas contam as novidades umas as outras, ou seja, começando sempre pelo mais importante do fato. O lead  palavra cujo significado em português quer dizer conduzir, comandar, manejar  ficou sendo então o primeiro parágrafo da notícia em jornalismo impresso, onde é relatado o fato principal de todo o acontecimento. Em síntese: informa quem fez o que, a quem, quando, onde, como, por que e para quê.

Voltando à crônica machadiana em questão, verificamos que nela, muito antes, portanto, da década de 1940, já havia uma percepção do autor sobre o lead: “Podem arranjar as crônicas de maneira que os acontecimentos fiquem sempre em cima; a parte inferior das linhas cabe às considerações de menor monta, ou absolutamente estranhas. Moralmente, é assim que escrevo”.6 Machado antecipa, ou apenas capta do movimento dos tempos, essa nova mirada de um leitor que tem pressa e que, portanto, não tem tempo para chegar até o fim do texto. O mais importante então deve ficar no começo para que o leitor, caso queira interromper a leitura, não perca o melhor. O autor entende também que o leitor dos novos tempos não quer mais só ficção, quer informação. É preciso se estar “antenado” no mundo, mesmo que cada vez mais isolado. O contato com o outro (e com outras histórias humanas) deve se dar agora pela mediação de um veículo de transporte que faça as vezes desse diálogo que já não há. Um diálogo que deve se estabelecer de forma mais direta possível, com o máximo de informações no mínimo de espaço, para que não se perca o tempo. Nessas condições, o cronista retira cada vez mais do próprio jornal o “gancho” que irá compor o texto. Às vezes, escrevia a partir da leitura de uma notícia local; outras vezes, eram os telegramas estrangeiros que o inspiravam; e houve vezes em que a simples leitura de anúncios dava-lhe o insumo necessário para criar uma pérola.

E como as notícias proliferam pela cidade, nesta segunda crônica o problema passa a ser o da sua seleção:


Os acontecimentos parecem-se com os homens. São melindrosos, ambiciosos, impacientes, o mais pífio quer aparecer antes do mais idôneo, atropelam tudo, sem justiça nem modéstia... E quando todos são graves? Então é que é ver um miserável cronista, sem saber em qual pegue primeiro. Se vai ao que lhe parece mais grave de todos, ouve clamar outro que lhe não parece menos grave, e hesita, escolhe, torna a escolher, larga, pega, começa e recomeça, acaba e não acaba.7
Novamente, Machado torna-se intérprete de um amanhã cada vez mais veloz e complexo, antecipando aqui uma outra questão: o impasse pelo qual passa todo e qualquer jornalista na hora de selecionar o que é ou não notícia num universo recheado de acontecimentos cotidianos. Contemporaneamente, com a transformação do jornal numa empresa, a seleção e divulgação dos fatos passam por várias etapas que, embora mais complexas na divisão de funções que acarretam, têm o intuito de agilizar o processo informativo.

Nesta terceira crônica (do dia 26 de outubro de 1885, publicada na Gazeta de Notícias8), que versa sobre a questão da prática jornalística, é interessante observarmos que Machado também queria a notícia fresca. Detalhe: o tempo para uma notícia envelhecer era nada mais nada menos que “sete ou oito dias”: “Já lá vão sete ou oito dias; creio que é uma boa idade para qualquer negócio que se respeite recolher-se aos bastidores, e dar lugar a outros”. Se hoje, em tempos virtuais, a luta dos mega-portais na Internet pela notícia em primeira mão é disputada pelos segundos de vantagem que um antecipa a informação em relação ao outro, naquele tempo machadiano, a percepção do que era perecível dava-se em questão de dias.

Uma brevidade que só mesmo a crônica, comprometida com a efemeridade do tempo, pode registrar. Ela torna-se a forma mais adequada para que se registre as impressões cotidianas da cidade, por inúmeras razões: liga o passado (linhagens medievais) e o presente (registro do já); media a literatura canônica e a reportagem para as massas; transita entre o espaço doméstico, privado, e o movimento das ruas, público; fixa-se na fronteira limítrofe entre a mercadoria e a arte, entre o jornal e o livro. A crônica, pela sua inerente ambigüidade, documenta para sempre, à parte a transitoriedade que a habita, um tempo pioneiro em que a casa sagrada do livro esfarelou-se em partículas móveis, cujo campo de experiência não é mais o transcendente, mas a experiência viva e palpável da cidade. Ela se deixa preencher pelo próprio movimento do tempo e pelo veículo no qual viaja: o jornal.

Bibliografia
COUTINHO, Afrânio (org.). Machado de Assis  obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar,

1959. vol. 3.

DIAZ RANGEL, Eleazar. “A notícia na América Latina: mudanças de forma e conteúdo”.

In: Comunicação e Sociedade. Revista semestral de estudos da comunicação do Instituto Metodista de Ensino Superior. Ano III, nº 5, março de 1981. São Paulo: Cortez. pp 91-119.

DIMAS, Antônio (org.). Vossa insolência: crônicas / Olavo Bilac. São Paulo: Companhia

das Letras, 1996.

GLEDSON, John (org.). A semana: crônicas (1892-1893), Machado de Assis. São Paulo,

1996.


HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a

uma categoria da sociedade burguesa. Tradução de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

PAIVA DE LUCA, Heloisa Helena (org.). Balas de estalo de Machado de Assis. São

Paulo: Annablume, 1998.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na

Primeira República. 3a ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.



1 In: DIMAS, Antônio (org.). Vossa insolência: crônicas / Olavo Bilac. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 56.

2 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 3a ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. pp 94-95.

3 Segundo HABERMAS, a história dos grandes jornais na segunda metade do século XIX, sobretudo na Europa, demonstra que “a atividade redacional já tinha, sob a pressão da transmissão de notícias de um modo tecnicamente mais avançado, se especializado de uma atividade literária para uma atividade jornalística: a seleção do material se torna mais importante do que o artigo de fundo; a elaboração e a avaliação das notícias, a sua revisão e preparação se torna prioritária em relação à obediência efetiva, do ponto de vista literário, de uma ‘linha’” (HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Tradução de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. p. 218).

4 In: COUTINHO, Afrânio (org.). Machado de Assis  obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959. vol. 3.

5 DIAZ RANGEL, Eleazar. “A notícia na América Latina: mudanças de forma e conteúdo”. In: Comunicação e Sociedade. Revista semestral de estudos da comunicação do Instituto Metodista de Ensino Superior. Ano III, nº 5, março de 1981. São Paulo: Cortez. pp 91-119.

6 In: GLEDSON, John (org.). A semana: crônicas (1892-1893), Machado de Assis. São Paulo, 1996. pp 159-162.

7 Crônica do dia quatro de dezembro de 1892, publicada na Gazeta de Notícias, In: GLEDSON (org.), A semana, pp 159-162.

8 In: PAIVA DE LUCA, Heloisa Helena (org.). Balas de estalo de Machado de Assis. São Paulo: Annablume, 1998. pp 312-313.


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal