Magia dos olhos negros midnight magic



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MAGIA DOS OLHOS NEGROS

MIDNIGHT MAGIC

Christine Hella Cott

De repente,a vida de Tânia Lownes, tão pacata e sem emoções, mergulhou num alucinante redemoinho! Primeiro, foi o rompimento de seu noivado com Denis, depois, o naufrágio de seu navio em cruzeiro pelo Atlântico... e por fim, seu salvamento por obra de Jorge Manuel Valente da Silva, um português atraente,misterioso e insinuante.

E Tânia se viu prisioneira numa ilha deserta, á mercê daquele homem atrevido, que, apesar de assustá-la, a atraia diabolicamente! Tânia podia confiar nos olhos negros de Jorge ou eles encerravam perigos sinistros?


Digitalizado e revisão : Marcia.Sil

Christine Hella Cott

Título original: "Midnight Magic"

Copyright: (g) by Christine Hella Cott

Publicado originalmente em 1982 pela

Harlequin Enterprises Ltd., Toronto, Canadá

Tradução: T. Moreira

Copyright para a língua portuguesa: 1983

Abril S.A. Cultural e Industrial. São Paulo

Composto e impresso em oficinas próprias

LIVROS ABRIL

Romances com Coração

Caixa Postal 2372 — São Paulo

CAPITULO I

Tânia sentou-se na cadeira junto à janela, olhando sua mãe, que, impaciente, mexia nas cortinas de renda, nas cobertas da cama e nas almofadas. Depois viu-a pegar um colar da penteadeira, derrubá-lo, e tornar a arrumar os frascos de perfume. Enquanto isso, Tânia se limitava a observar e a escutar os protestos da mãe. Seus longos cabelos negros caíam, brilhantes, sobre os ombros esbeltos, encobrindo-lhe as curvas sedutoras dos seios arredondados; suas mãos, longas e delicadas, se encontravam entrelaçadas no colo.

A sra. Lownes retocou o penteado com impaciência, mostrando à filha que estava prestes a fazer um grande rebuliço. Se possível, algo que devia ser evitado.Tânia olhou para seus próprios dedos e se deu conta de que não estava preocupada com o fato de se casar. Tudo aquilo sobre o dia do casamento ser o mais importante da vida não passava de tolice inventada por velhas histéricas. Entretanto, muitas pessoas ainda acreditavam nisso. Sua mãe era uma dessas pessoas.

Ela acreditava também em amor à primeira vista, enquanto Tânia sabia que isso acontecia apenas em contos de fadas. O verdadeiro amor era mais companheirismo que a coisa encantada, apaixonada e muito excitante que a maioria das pessoas esperava. Não era de admirar que houvesse tanta gente desapontada a esse respeito.

Tânia suspirou.

— Mamãe ainda faltam cinco semanas! Quanto tempo leva para falar com o padre, marcar um ensaio e escolher alguns vestidos?

— Escolher alguns vestidos! A mãe estava perplexa. Vai levar semanas para que madame Deperé faça o seu vestido de noiva! Você quer renda veneziana, não quer? Isso é importante! Naturalmente que é! Tânia procurou parecer o mais calma possível. Apenas sinto que hoje não é o dia certo. . .

— Como pode falar assim numa hora dessas? Você está apaixonada por Dênis, não está? A sra. Lownes mexia novamente no penteado perfeito, o rosto corado.Tânia colocou um braço no ombro da mãe, fugindo à pergunta com um sorriso.Mamãe, não se preocupe! Vou conversar com Yvonna hoje sobre o vestido de dama de honra. Ela deve estar em casa agora. . .

A sra. Lownes soltou um longo suspiro e em seguida sorriu debilmente. Estava tudo bem novamente. Tenho que ir à abertura da minha galeria de arte, às três horas disse ela. Quer uma carona até a casa de Yvonna?

As mãos da sra. Lownes repousavam agora nos bolsos do modelo Dior, cujas cores combinavam com os cabelos castanho acinzentados e os olhos azuis. Tânia, olhando-a, sentiu-se melancólica, inquieta, vazia coisas que sua mãe jamais sentia. Para a sra. Lownes, a vida era um caminho suave de alegria, interrompido apenas por pequenas explosões de preocupação provocadas pelo marido, pela filha ou pelo comitê da galeria de arte.

— Não se preocupe comigo, mamãe. Tenho que fazer algumas coisas ainda, e portanto irei no meu próprio carro.

A sra. Lownes balançou os ombros e saiu.

Tânia voltou a se acomodar na cadeira, os olhos escuros, sombrios, fitando a tarde cinzenta e cheia de neblina. Ela observava com melancólica satisfação a névoa que encobria os imensos carvalhos da rua, as casas elegantes alinhadas junto ao meio-fio.

Não queria ver Hampstead. Não queria ver as casas. E não queria ver principalmente uma determinada casa: Brackenhill. Mas, enquanto olhava pela janela, a neblina sumiu, deixando à vista o telhado verde, pontudo, e as duas chaminés de Brackenhill.

Brackenhill. . . Enquadrava-se perfeitamente entre as residências imponentes. Todo mundo a admirava. Sua mãe a chamava "uma casa de lua-de-mel".

Janette Moreston, a mãe de Dênis, dizia que era a casa mais doce do mundo. Para Dênis, era perfeita, lhe conferia o status que queria. E dentro de poucas semanas ela estaria vivendo lá. Com Dênis.

Subitamente trêmula, Tânia deu um murro na almofada de veludo vermelho onde estava encostada. Queria que a neblina encobrisse Brackenhill. Sra. Dênis Moreston. Tânia Moreston. Seu pensamento retrocedeu no tempo. . .

Dênis sempre fora seu vizinho. Se alguém houvesse dito a Tânia, há mais de dez anos, que um dia se casaria com Dênis Moreston, ela não teria acreditado. Muito pelo contrário: teria achado graça.

Tânia tinha mania de travar batalhas, de desafiar tudo e todos com vigor. Com o espírito algo aventureiro do pai e uma audácia que herdara da avó, ela sempre estava metida em alguma dificuldade. Uma vez, fingindo ser limpadora de chaminés, quase ficara presa no cano da chaminé. Fora preciso recorrer ao corpo de bombeiros de Hampstead para retirá-la, e, quando finalmente ela chegara, preta de carvão, aos braços da mãe, a vizinha dissera em voz alta:

— Mandem-na para um internato, lá saberão como domesticá-la! Graças a Deus, meu Dênis sabe se comportar!

Tânia poderia ter dito umas boas à sra. Moreston sobre o precioso Dênis. Mas orgulhava-se de não ser delatora e, assim, mantivera a boca fechada sobre a mais recente molecagem dele: no dia anterior Dênis a amarrara a um galho de árvore que ficava pendurado sobre um pequeno riacho, onde, ele dissera, soltara sessenta e três piranhas. Tânia acreditara, pois aquela travessura estava bem de acordo com o caráter dele. Ficara lá pendurada por um bom tempo, até que sua melhor amiga, Yvonna, a livrara da dificuldade.

Em represália, Tânia fizera chantagem e conseguira tirar a maior parte da mesada dele. Naturalmente, a sra. Moreston e a sra. Lownes, agora, eram unânimes em afirmar que ela e Dênis tinham sido crianças encantadoras, mas era tudo mentira. Tânia o havia detestado, e ainda não o apreciava muito quando, anos depois, ele partira para Oxford. Na época em que ele se formara na universidade, ela terminara o curso colegial numa elegante escola particular para moças. Mas, quando Dênis voltara para casa, Tânia já havia partido para uma longa viagem ao redor do mundo, com o pai. . .

Vieram então dois anos de felicidade. As cadeias de montanhas selvagens e solitárias ao sul de Portugal ainda estavam vivas em seu pensamento. Ainda podia ver as cores vibrantes do lugar, quase podia sentir o aroma penetrante das artemísias e dos zimbros. Aquilo a fazia sentir-se tão cheia de vida, tão revigorada. . .

Então, o que é que estava acontecendo agora? Por que todos os seus dias eram tão monótonos, um após o outro, infinitamente? Encolheu os ombros, desolada.O professor Matthew Lownes, seu adorado pai, precisava de informações para um conjunto de novelas que planejava escrever. Fora por isso que ele e Tânia haviam viajado juntos. Lilian Lownes não podia suportar a idéia de uma longa viagem e preferira ficar em casa com as reuniões do conselho, a galeria de arte e as obras de caridade.

Terminada a pesquisa, Tânia e o pai voltaram a Hampstead, a tempo de comemorar o vigésimo aniversário dela. Fora então que encontrara Dênis Moreston novamente.

O pai dele havia falecido alguns meses antes, e todos os negócios da família estavam em suas mãos. Embora Tânia nem imaginasse como Dênis conseguia conciliar qualquer trabalho à intensa vida social que levava, os negócios pareciam estar indo muito bem. A mãe dele não se cansava de falar sobre a capacidade e a perspicácia financeira do filho. E Tânia achara que ele havia mudado. Era encantador, sofisticado, realmente atraente. O amplo sorriso e os ombros atléticos atraíam todas as garotas. Dênis era considerado um excelente partido pelas mães da vizinhança. Inclusive pela de Tânia.

Ela e Dênis logo ficaram amigos. Afinal, freqüentavam os mesmos bailes, festas e reuniões de caridade.

"Uma coisa leva à outra", diz o ditado, e, três meses depois, Tânia se vira comprometida com Dênis.

Quase todos achavam que formavam um casal perfeito. Ele se decidira por um longo noivado, "uns dois anos", e Tânia nunca pensara em perguntar por quê. Na verdade, ficara satisfeita, embora nunca se preocupasse em saber o motivo. Assim, os dois últimos anos de sua vida, foram uma sucessão de festas uma vida social de alto nível. Tânia mordeu o lábio, num gesto de frustração.

Seus dois anos de espera estavam quase no fim. Dentro de uma semana completaria vinte e dois anos e receberia a herança deixada pela avó. Um mês depois se casaria. A noiva de junho. . . Um pânico totalmente inexplicável a invadiu. Seus olhos castanhos, amendoados, se encheram de sombras quando olharam para Brackenhill.

Há alguns meses, uma leve sensação de dúvida se insinuara sob seus modos enfastiados. Aquela sensação crescera dia a dia e agora era grande demais para poder ser explicada. Chegara a hora de avaliar a situação. Precisava esclarecer as coisas; precisava encarar sua in quietação íntima, ao invés de recuar diante dela.

Ela suspirou e deixou a cadeira. Começou a andar pelo quarto como uma fera enjaulada. Era tudo tão incrivelmente complicado! O que devia fazer? Adiar o casamento? Sua mãe teria um ataque de angústia e todos os seus amigos ririam dela. Dênis não era um bom partido, afinal de contas?

Seus olhos pousaram na capa de um livro que estava sobre a escrivaninha. Era um dos seus, que contava a história de Toodles, o urso do nariz imenso. Há um ano e meio ela começara a escrever para crianças. Gostava do que fazia, embora seus amigos erguessem as sobrancelhas quando ela lhes falava a respeito. Sua terceira tentativa o livro de Toodles,fora publicada e ela já estava recebendo os direitos autorais. Depois disso, mais dois outros haviam sido editados.

Seu sucesso como escritora fora a coisa mais excitante nos últimos dois anos, mas Dênis, como os outros, não parecia interessado. Ele nem mesmo se incomodara em ler o primeiro livro da noiva, embora pudesse ter feito isso em meia hora.

Tânia sacudiu a cabeça, desesperada e cheia de pânico. Tinha apenas cinco semanas pela frente. Por que essa dúvida cruel tinha que aparecer justamente agora, como uma ridícula caixa de surpresas? Ignorá-la não iria adiantar nada. Mas, mesmo quando encarava honestamente a situação, não conseguia fazê-la desaparecer! E Dênis seu coração se apertou ao lembrar viria para casa hoje.

Dênis veio jantar. A sra. Lownes estava tão contente por ele ter voltado de Edimburgo que se esqueceu de perguntar sobre o vestido de dama de honra de Yvonna. Tânia, silenciosamente agradecida, não fez qualquer menção à tarde penosa que passara. Sua ansiedade cresceu quando a conversa se voltou para a inauguração da galeria e seu pai lhe perguntou se comparecera a ela. Por um momento Tânia sentiu-se numa armadilha. Se dissesse não, o pai perguntaria o que estivera fazendo.

Teria que dizer a verdade, pois ele sempre sabia quando estava mentindo. Mas, se explicasse que não fizera nada durante toda a tarde, a não ser ficar sentada junto à janela, sua mãe teria um ataque de nervos ali mesmo, à mesa. Então Tânia teria que explicar por que não fora ver Yvonna. E como poderia fazer isso diante de todos, bem no meio do jantar?

Estava se sentindo incrivelmente culpada e sem saber o que falar quando seus olhos fitaram o mordomo, Arthur. Ele respondeu ao olhar suplicante com um sorriso quase imperceptível, e em seguida lembrou o professor Lownes de um recado de um dos diretores da universidade. Foi o suficiente para que mudassem totalmente o assunto da conversa. Tânia suspirou, aliviada, enquanto dirigia a Arthur um sorriso agradecido.

Durante o resto do jantar, Tânia observou Dênis discretamente, procurando respostas para as perguntas que lhe martelavam o cérebro. Seu noivo estava agradável e delicado como sempre.

Mas ela notou que o pai também estava observando Dênis, e que parecia atônito com o que via.

As dúvidas cresceram ainda mais. E persistiam, quando, mais tarde, ela e Dênis foram à boate predileta dele, La Valbonne, situada entre Piccadilly e Carnaby Street. Era um local famoso. Ela teria gostado de ir para algum lugar sossegado, onde seria mais fácil conversar, mas, quando sugerira isso, Dênis recusara. Que diriam seus amigos se eles não aparecessem?

Ele estava excepcionalmente bem disposto aquela noite. Enquanto Tânia o ouvia conversando com Yvonna, concluiu que a viagem de negócios a Edimburgo devia ter sido muito bem sucedida. Ele ficara lá por três semanas. E nunca os negócios o haviam deixado tão alegre.. . Mas havia alguma coisa mais. Será que ele estava nervoso? Mas Dênis nunca ficava nervoso! Era confiante, seguro de si. Até demais. Como quando decorava Brackenhill,

Dênis tomara todas as decisões sozinho. Quando Tânia protestara, havia respondido que sabia o que era certo para eles. Que conhecia o melhor decorador de interiores, que sabia que tipo de imagem desejava transmitir. Nunca lhe ocorrera consultar a futura esposa. Naturalmente que ela iria gostar dos resultados. . .

Na ocasião, Tânia julgara sua irritação como algo sem importância. Mas agora considerava a arbitrariedade dele como um ultraje.

Talvez devesse sugerir que o casamento fosse adiado para o mês seguinte. Precisava de mais tempo para pensar. Talvez fosse melhor que esquecessem tudo aquilo. Agora, que estava a apenas cinco semanas, o casamento não parecia mais maravilhoso. Ela não tinha certeza de coisa alguma. . .

Quando os amigos de Dênis se dirigiram à pista de dança, ele se voltou para ela. Raramente dançavam. Inclinou-se sobre a mesa e lhe disse:

— Em breve, Tânia, muito em breve, a sua família não será a mais rica do quarteirão!Diante da expressão atônita de Tânia, ele riu e completou: Assim que o governo conceder autorização, o meu último negócio estará completo! E colocar umas notas no bolso dum figurão deve apressar bem as coisas! Um negócio perfeito! Serei uma espécie de rei Midas!

Ele procurou tornar as palavras divertidas, mas sua expressão sombria contrariava o aparente bom humor. Ela se encolheu instintivamente. Os olhos brilhantes dele fazíam-na sentir mais dúvidas ainda. Determinada a não mostrar seu desgosto, ela perguntou:

— O que está querendo dizer sobre colocar umas notas no bolso de um figurão? Dênis, isto não é suborno? Não é ilegal?

— Oh, pelo amor de Deus! Ele encolheu os ombros negligentemente. Isso não tem nada demais! E é só o que vou lhe dizer. Não meta o nariz nisso!

E riu, parecendo satisfeito. Os olhos castanho claros brilharam enquanto percorriam o pescoço delgado até o firme contorno dos seios da noiva. Tânia tentou ignorar aquele olhar.

— Não quero que se envolva no meu trabalho ele continuou. Na verdade, meu bem, eu a proíbo de se intrometer. Que fique bem claro. Além disso, você não participará de nenhuma das minhas viagens de negócios; ficará em casa, que é o seu lugar. Mulheres e negócios não se misturam. E bateu o cigarro, fazendo com que as cinzas caíssem sobre a mesa.

Por alguns segundos Tânia ficou olhando para aquelas cinzas. Dênis era tão meticuloso. . . Por que, então, aquela atitude estranha, rude? Ele estava diferente por algum motivo. Havia algo errado. Ele nunca dissera essas coisas antes, embora aquele tom levemente arrogante certamente fosse familiar. Ele tinha que ser tão. . . tão pomposo? Tânia virou a cabeça para fitá-lo.

— Mas Dênis, você não pode estar falando sério.

— Nada de mas, meu bem. Uma esposa acata as vontades do marido.

E isso me faz lembrar aqueles seus livros. Não quero que toda Londres pense que você escreve por dinheiro. Considere a minha imagem, meu amor!

Tânia não podia acreditar no que ouvia. Esse não era definitivamente o homem com quem estava acostumada. Ou era?

— Mas Dênis! ela gritou, sem ter consciência dos olhares sobre eles, atraído por sua voz. Eu não escrevo por dinheiro! Adoro fazer isso, eu. . .

— Você só deve adorar a mim. O tom de voz dele era casual, como se não estivessem discutindo nada importante.Mas o que é que eu vou fazer? Se não posso viajar com você e não posso escrever, vou ter que passar todo o tempo cuidando das tarefas domésticas? Sua voz estava cheia de sarcasmo.

— Tarefas domésticas? Honestamente, o que iriam pensar os outros? Já contratei uma cozinheira e uma arrumadeira. São ótimas pessoas e. . .

— Então, quais são exatamente os seus planos para mim? Tânia interrompeu, num tom tranqüilo, porém furioso.

A observação dele sobre seus livros a magoara. Ela mordeu o lábio, tentando se controlar. Esse era o verdadeiro Dênis, o homem que nunca chegara a conhecer?

— Ora, Tânia, você terá muito o que fazer! Festas, bailes, reuniões de caridade. Terá que receber os meus amigos e clientes, e, francamente, quero que eles invejem tanto a minha casa como minha esposa. Isso ajuda.

Depois, naturalmente, você terá que preparar os meus martinis quando eu chegar em casa. . . E não se esqueça de que há uma cama de casal que você deverá manter aquecida! E sorriu maliciosamente.

Tânia se encolheu. A cama de casal para aquecer, como se fosse uma obrigação! Dessa nova faceta de seu noivo ela nem mesmo gostava.

Dênis notou que ela ficara pensativa, em silêncio, e se apressou a pedir mais drinques a uma garçonete, sorrindo-lhe provocantemente. Em seguida, dirigiu o sorriso para Tânia, pegou-lhe a mão e beijou todos os dedos, um por um.

Doçura, onde está o seu sorriso brilhante? Por que toda esta tristeza? Pensando na cama de casal? Ele tornou a sorrir maliciosamente. Você é tão inocente, meu bem, e isso é tão antiquado! Não se preocupe. Vou gostar de fazer com que você corresponda ao meu ardor. E será divertido derreter todo este gelo!Os olhos dele queimavam, mas para Tânia era como se uma pedra de gelo a tocasse enquanto ele lhe percorria o corpo com o olhar, demorando-se longamente no decote. A garçonete voltou.

Tânia sentia-se mortificada. Tomou uns goles de conhaque. Precisava de tempo para se acalmar. Amar significa compartilhar, não "fazer com que você corresponda". Até mesmo os carinhos de Dênis faziam parte da fachada, da "imagem" dele. Mas por que desejava casar se não se importava com ela?

Como fora tola em ficar noiva! E mais tola ainda por não ter percebido antes que uma união entre eles nunca daria certo. Preparar martinis e aquecer a cama. . . Isso não era base para um relacionamento bem sucedido. Todas as suas dúvidas eram reais. Ela e Dênis Moreston nada tinham em comum, principalmente depois do que ele dissera. Agora podia ver mais claramente o caráter dele.

No mundo de Dênis não havia lugar para dois. Havia apenas lugar para ele, para os desejos dele, o dinheiro dele, a "imagem" dele. Como se sentia mal ao ouvir aquelas palavras!

Por causa de sua cegueira, ia se casar com um homem que poderia vir a odiar. Estivera flutuando numa nuvem onde nada era sério ou importante, e ele fazia parte dessa nuvem.Tânia olhou, distraída, para as mãos dele. Eram muito parecidas com sua vida atual: mimadas e insípidas. Estava tão acostumada a ficar entediada que isso lhe parecia normal. Percebia agora, com grande clareza, que havia parado de pensar por si mesma e que se deixara levar pela correnteza, pelas sugestões de Dênis. Não era de admirar que a vida fosse monótona!

Se tivesse refletido apenas por um momento, teria compreendido como aquele noivado estava errado. Pensar que poderia ter ido em frente, que na verdade poderia até se casar com aquele homem! Gotas de suor brotaram de sua testa.Falta exatamente uma semana para o seu aniversário. Certo, Tânia? Dênis sorriu, observando os pares que dançavam ao redor.

Você será rica, então. Não é todo mundo que consegue ganhar uma fortuna no vigésimo segundo aniversário! Estou surpreso com o fato de a velha não ter deixado a fortuna para uma sociedade oculta!

E deu uma risada divertida. Por que você acha que ela escolheu o seu vigésimo segundo aniversário? Por que não o vigésimo primeiro? Ela.era um tipo esquisito, não era?

Tânia o encarou firmemente. Adorara a avó, e Dênis a estava insultando. Ele não tinha senso de nada!Ela abriu a boca, para responder, mas, após um segundo de reflexão, fechou-a novamente. Se a conversa fosse um pouco mais além, iria atirar o conhaque no rosto dele.

Pela primeira vez naquela noite Dênis notou que havia algo errado, ao fitar a face pálida de Tânia. Havia uma certa tensão pairando entre eles. Mas naquele momento seus amigos voltaram da pista de dança e Dênis rapidamente entrou na conversa bem humorada deles.

Tânia se recostou na cadeira e voltou aos próprios pensamentos. Eles nunca falavam sobre a herança.

haviam feito isso no noivado, e naquela ocasião também fora ele quem puxara o assunto. . . e fora ele quem decidira não casar até que a herança fosse de Tânia. Era por isso que ele a queria? Por dinheiro?

Não podia ser. A mãe dele estava sempre se vangloriando de como o filho se saía bem nos negócios. E ele também se vangloriava disso. No mais, nunca parecia estar sem dinheiro. Possuía o modelo mais novo de um Jaguar esporte, comprava apenas as roupas mais finas e caras. Pagava as contas quando saíam com um grupo, sem se preocupar com o número de pessoas que estivessem com eles. . .

Ela ergueu os olhos e notou que Dênis estava virando o anel de sinete cravejado de diamantes. Ele estava realmente nervoso, embora a fisionomia nada demonstrasse. A razão devia ter algo a ver com aquela transação de terras em Edimburgo. O dinheiro era a única coisa suficientemente importante para causar aquela ansiedade. A ponto de fazê-lo usar de suborno.

Seria por isso que ele estivera mostrando o outro lado do seu caráter? Naquele estado de ansiedade, será que se esquecera de ser encantador? Ela o observou brincando com Yvonna, o bom humor novamente intacto. Talvez fosse a única que vira o outro lado dele. O frio lado calculista que a reduzia a. . um simples objeto de posse, um objeto que preparava martinis, impressionava os amigos e aquecia a cama de casal!

E um objeto que vinha junto com uma fortuna! Talvez a herança não fosse o único motivo que o levava a querer se casar com ela, mas Tânia agora tinha certeza de que era um motivo importante. Devia ter percebido antes quanto o dinheiro significava para ele.A noite foi passando. Os amigos pareciam dispostos a ficar alegres.

Mas, para ela, as piadas intermináveis não tinham sentido, eram uma repetição da última festa. Será que ninguém pensava em algo diferente para falar?Um homem atraente, a algumas mesas de distância, percebeu seu olhar e sorriu. Era óbvio que ela não via a hora de ir embora. Por que então não era óbvio para Dênis também? Ela olhou para o relógio digital em seu pulso, que fora presente dele. Aliviada, finalmente ouviu Yvonna dizer que estava cansada e queria ir embora. Pelo canto dos olhos viu a garçonete se aproximando com a conta.



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