Magia em New Orleans a moment of Magic Christina Crockett



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Magia em New Orleans

A Moment of Magic



Christina Crockett

Lantejoulas, fitas, plumas espalhadas pelo chão, gritos, gargalhadas, correrias... A poucos dias do carnaval, ninguém mantinha a calma. Susie entrou apressada no grande salão e viu a tia contando as últimas “novidades” do momento. A mulher insinuava qualquer coisa sobre Simon e Michelle. Quanta tolice! Simon a amava e, se havia saído algumas vezes com a prima de Susie, isso não queria dizer que os dois tiveram um caso.

Foi até o quarto onde as fantasias recebiam os últimos acertos. Michelle estava lá, lutando para fechar o zíper do seu vestido de rainha. “Não adianta Susie”, Michelle desabafou. “Não vai fechar. Eu... eu estou grávida!”

Digitalização: Nell

Revisão: Cassia

Título original: “A Moment of Magic”


Copyright: © by Christina Crockett
Publicado originalmente em 1983 pela Harlequin Books, Canadá.
Tradução: Cristina Dinamarco
Copyright para a língua portuguesa: 1985
Abril S.A. Cultural — São Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda.
E impressa na Editora Parma Ltda.

Digitalização e Revisão:


CAPÍTULO I

Susie Costain arrumou a echarpe em volta do pescoço, numa tentativa de se abrigar do vento frio de outubro. Continuou caminhando a passos firmes pela Rua Decatur, beirando o rio Mississipi, até chegar à Praça Jackson, onde as árvores despejavam uma infinidade de folhas amareladas.

Sentou-se sozinha num dos bancos, procurando na bolsa o sanduíche de presunto que havia preparado de manhã. Imediatamente uma porção de pombas a rodeou, à espera das migalhas. Susie não hesitou em dividir seu almoço com elas. Jogou um bom pedaço de pão para o alto e sorriu ao ver as pombinhas se debaterem umas contra as outras.

— Calma; calma... Todas vocês receberão um pedacinho.

Agora ela esfarelava o pão entre as mãos geladas, atirando tudo no chão. Era divertido. A vida, por mais complicada e difícil que fosse, tinha momentos absolutamente deliciosos. Bastava ver que a felicidade se escondia nas coisas mais simples, mais singelas.

Desviou o olhar para o outro lado da praça. Atrás da imponente estátua do general Jackson montado em seu cavalo de bronze, havia um grupo de mulheres, todas elas jovens e alegres.

“Turistas”, Susie imaginou.

Porém, ao observá-las melhor, concluiu que eram modelos. Claro, a maquilagem era pesada demais para àquela hora do dia, as roupas, extremamente extravagantes, os cabelos, cuidadosamente arrumados. Subitamente, todas elas se voltaram para um homem alto que se aproximava carregando um tripé, uma bolsa de couro a tiracolo e uma câmara fotográfica.

— Simon! — acenou uma delas.

— Rápido! Estou quase congelando — gritou outra, esfregando os braços.

Susie apertou os olhos para ver melhor aquele homem chamado Simon. Sem dúvida, era o fotógrafo pelo qual as manequins esperavam. Era atraente, embora um pouco magro. A barba espessa dava um destaque incrível a um belo par de olhos azuis.

Simon... Simon... O mesmo nome, a mesma profissão. Mas era impossível que esse homem de feições tão endurecidas e enérgicas fosse Simon Avery, que há oito anos impressionava todas as garotas, não só por sua beleza marcante, como pelo imenso sucesso profissional junto à alta sociedade de New Orleans.

Simon Avery era loiro, e seus cabelos longos contrastavam com a pele sempre bronzeada pelos dias de verão ou pelos esportes de inverno que praticava frequentemente nas montanhas encobertas pela neve. Embora o conhecesse pouco, Susie era fascinada pelos retratos tecnicamente perfeitos que ele fazia, cheios de sensibilidade e arte. Além disso, como todas as adolescentes de sua época, sentia uma enorme atração por ele.

Não, não podia ser o mesmo. Se estivesse de volta à cidade, os jornais teriam publicado uma longa matéria á seu respeito, e as revistas não perderiam a grande oportunidade de vender mais com suas entrevistas. Além disso, por que retornaria, depois de tanto tempo? Sua partida fora definitiva, inexplicável, rápida. Até mesmo o estúdio que possuía no Bairro Francês tinha sido vendido. Na época, surgiram boatos sobre um casamento relâmpago, uma paixão alucinada. Mas na verdade ninguém sabia o que realmente tinha levado o grande fotógrafo à Europa.

Mais uma vez Susie voltou os olhos para o grupo de manequins. Eram bem jovens. Sem dúvida, suas roupas vinham das mais finas e caras lojas. Não... Não eram modelos, e sim debutantes. Seus nomes ocupariam lugar de destaque nas colunas sociais durante os próximos seis meses.

Simon Avery.

Lembrou-se da noite em que ele tirara diversas fotos de sua irmã mais velha, Claire, quando ela fora eleita á rainha do Mardi Gras.

Com sua câmara, havia feito á cobertura completa da festa. Depois, desaparecera.

Curiosa, Susie se aproximou do grupo. Ainda tinha vinte minutos antes de voltar ao serviço. Observou atentamente o trabalho daquele homem. Lidava com a máquina como se esta fosse uma simples extensão de seu corpo. Ele ajeitou as meninas, colocando algumas sentadas, outras em pé, mais atrás. Pediu uma posição natural, um sorriso espontâneo, mas elas não correspondiam. Então falou alguma coisa engraçada e imediatamente apertou o botão da câmara.

Sem perceber, Susie também estava rindo.

Porém, já era hora de tomar o caminho de volta ao escritório. Infelizmente, uma pilha de papéis e preocupações a esperavam. Por mais divertido que fosse ficar na praça, dando migalhas aos pombos ou observando aquele homem, era preciso trabalhar, pensar em dinheiro, retomar as responsabilidades e obrigações.

Guardou na bolsa o último pedaço de sanduíche. Talvez mais tarde tivesse fome. Ajeitou o casaco de tweed e puxou a echarpe, cobrindo a boca e o nariz.

Já estava indo embora quando sentiu alguém segurá-la pelo ombro e virou-se, surpresa.

— Você se importaria se eu tirasse uma foto sua?

Susie ficou sem resposta ao ver o fotógrafo a seu lado, encarando-a com um sorriso maravilhoso.

— Não precisa ficar assustada — continuou ele. — Não estou tentando paquerá-la, não é nada disso. Mas estive observando você, e tudo o que posso dizer é que seu rosto é magnífico, muito expressivo. Adoraria explorar isso com minha câmara.

Só podia ser brincadeira! Ela bem sabia que seu rosto não era dos mais bonitos. Os olhos, embora verde-escuros, eram pequenos demais. Para não falar nos lábios cheios demais. Não, sabia que não era bonita.

— Não gosto que tirem fotografias minhas — disse ela, tentando fugir.

— Espere um pouco...

Mas Susie nem ouviu. Pisava firme no chão, como se com isso pudesse espantar os traumas do passado. Um rosto magnífico... Ou aquele homem era cego ou estava zombando dela, o que era mais provável!

— Espere... Espere...

Santo Deus! Ele a estava seguindo! Por que não a deixava em paz?

— Pare! — Novamente, ela sentiu a mão quente lhe pesar sobre o ombro.

— Já disse que não gosto de fotografias. Sinto muito — disse ela com determinação, já se preparando para continuar a caminhada.

— Eu a magoei, dizendo que seu rosto tem uma expressão maravilhosa? Foi isso? Está bem, está bem, se não quer fotos, não falaremos mais nisso. Qual é seu nome? O meu é Avery. Simon Avery.

— Simon Avery?

— Por que o espanto?

— Bem... Já vi algumas de suas fotos. São fantásticas. Você fez algumas reportagens para meus pais, os Costain. Eles trabalham com moda.

— Costain... — Ele franziu a testa. — Bernard e Rosie Costain? Sim, lembro-me deles perfeitamente. — Ele a observou melhor — Certamente você não é a filha que fotografei na festa do Mardi Gras. É jovem demais. Ou... Não... Não pode ser aquela garotinha de olhos arregalados, magrela, com duas enormes tranças caindo nos ombros...

— Sou Susie Costain. Muito prazer. Sim, aos dezesseis anos, eu era magrela e usava uns óculos enormes...

— O tempo fez sensíveis mudanças em você. — Ele riu, enquanto seu olhar indiscreto percorria as curvas acentuadas do corpo dela. — Você seguiu a tradição da família? Também foi eleita rainha do Mardi Gras?

— Bem, acho que sou a ovelha negra da família. Nada de debuts, bailes de gala, nem ao menos faculdade. Fiz apenas um curso de artes, e atualmente trabalho com publicidade.

— Isso é ótimo. Revela personalidade forte, caráter. Isso mesmo, garota, gosto de gente que se aventura que procura novos horizontes, que corta o cordão umbilical. Acho que foi isso que vi em seu rosto. Uma enorme força interior, oculta por uma aparente serenidade. Você parece pertencer a New Orleans. Tem a vibração desta cidade.

— Você passou esse tempo todo na Europa, não é? — disse ela, tentando mudar de assunto. Não gostava de falar de si mesma.

— Morei na França, depois na Suíça. — Simon hesitou um pouco. — Mas agora voltei para ficar.

— Seja bem-vindo. — Novamente Susie consultou o relógio. Como estava atrasada! — Desculpe-me, mas tenho que trabalhar. Minha hora de almoço já terminou.

— Uma pena... De qualquer forma, fique com meu cartão. Se mudar de ideia quanto àquela foto, saiba que eu realmente gostaria de imprimir num filme essa sua energia.

— Não sou modelo...

— Não é tão difícil assim. Tudo o que precisa fazer é manter esse ar firme, enquanto eu bato as chapas. Depois das três primeiras, já estará acostumada.

— Sr. Avery... — Susie foi subitamente tomada por uma espécie de revolta, de raiva. — Sei muito bem que não sou bonita. Nunca pretendi fingir que fosse. Há milhões de mulheres nesta cidade que têm traços mais suaves e perfeitos que os meus. E também não estou interessada em posar para revistas tipo Vogue, como a maioria delas.

— Más eu só queria...

— Não sou uma mercadoria exposta num supermercado qualquer. Não estou à venda, Sr. Avery.

Sem dizer mais nada, Susie lhe deu as costas. Estava fora de controle, e suas pernas e mãos tremiam.

— Fique com meu cartão — insistiu ele, sem se deixar alterar pelas palavras duras dela. — Outra coisa... Pode chamar-me simplesmente de Sy. Não estou tão velho assim, não é?

Susie pegou o cartão, para evitar uma nova discussão. Queria se livrar daquele homem o mais rápido possível. O que ele pensava que ela era? Uma idiota, que nunca se havia olhado no espelho? Por um instante, sentiu-se como uma adolescente amedrontada. Tinha medo de si própria. Viu-se novamente insegura, como há anos atrás. Odiou seus cabelos escuros, lisos demais, os olhos espremidos, a boca muito grande.

Quando se deu conta, estava correndo pela Rua do Canal. De que fugia? Por que tinha lágrimas nos olhos? Por que o passado não a abandonava de uma vez por todas?

Entrou na loja Blaine’s, onde o trabalho a aguardava. Lá, tudo parecia calmo. Os perfumes estavam austeramente dispostos nas prateleiras de madeira escura e as atendentes serviam cuidadosamente os clientes. Entrou no elevador de empregados e apertou o botão do décimo andar. Tinha ainda alguns segundos para secar os olhos, antes de enfrentar a papelada.

Mas quanto tempo ainda lhe restava para se livrar dos complexos? Há anos que se esforçava, mas, de repente, tudo parecia voltar a ser como antes. Desta vez Sy Avery fora o responsável por isso. Sim, novamente ela se sentia frágil, assustada, querendo se esconder do mundo.

A família Costain era famosa por suas mulheres lindas e sofisticadas. Claire, a irmã mais velha, era a expressão máxima da beleza. Aonde quer que fosse todos se admiravam de seus cabelos castanhos, levemente ondulados, caindo pelas costas como uma cortina de seda. Tinha olhos grandes, delicadamente amendoados, e um sorriso exuberante. A prima Michelle, com apenas dezenove anos, já arrancava elogios de todos, com seu jeito elegante, angelical.

Para Susie tinha restado á força interior. Grande porcaria! Quem se interessava por isso? Mas, sem opção, ela aproveitou a imagem que tinham lhe dado. Estudou. Dedicou-se a uma carreira nova, contrapondo-se aos negócios da família. Não se maquilava jamais, como se não desse, importância à beleza física. Aprendeu a discutir, a não aceitar passivamente ideias impostas pelas tradições. Era diferente. Portanto, a ovelha negra.

Mas, no fundo, no íntimo do coração, queria ser igual a todo mundo. Sentir-se atraente, charmosa, desejada. Claro, não queria ser apenas um objeto de decoração. Era preciso ser inteligente, capaz, competente. Mas só isso não bastava. Ainda tinha sonhos secretos, dos quais ninguém desconfiava.

Talvez por isso tivesse ficado tão assustada com Sy Avery. Sem conhecê-la, ele havia penetrado em seus pensamentos mais escondidos. Serenidade aparente... Ele tinha dito isso, não? E era verdade.

Finalmente a porta do elevador se abriu no departamento de publicidade da Blaine’s.

— Hum... Parece que você aproveitou bastante sua hora de almoço — disse Ella Jenkins, a supervisora, em tom de reprovação, olhando fixamente para o relógio pregado no alto da parede.

— Estava ótimo, obrigada. — Susie fingiu não perceber a repreensão. Seus nervos não suportariam uma nova discussão. Além disso, já tinha ficado diversas vezes trabalhando fora do horário, sem receber um centavo a mais. Não era justo que num único dia de atraso lhe chamassem a atenção.

Sentou-se diante da prancheta, na pequena sala de frente para o Mercado Francês.

Procurou inspiração e coragem para reiniciar o trabalho, mas tudo o que encontrou foi á imagem de Sy Avery incrustada em sua mente. Bem, talvez ele não estivesse zombando de seu rosto agressivo. Quem sabe realmente tivesse encontrado algum encanto nela... Não, era impossível. Ninguém no mundo á acharia bonita. Para que se iludir?

Naquela noite, quando entrou na casa dos pais, encontrou todos os móveis fora de lugar. A mesa tinha sido arrastada para o centro da sala de estar e sobre ela havia centenas de rolos de tecidos, na maioria cetim.

— Oh, Souci! — Perdido entre os tecidos estava Bernard Costain, com seus cabelos esbranquiçados nas têmporas. Souci era a forma carinhosa como chamava a filha. — Há mais pano no quarto da frente. Não quer nos ajudar?

— Claro! — disse ela, depois de dar um beijo carinhoso na testa do velho.

Arregaçando as mangas, foi para o quarto da frente, que tinha sido de Claire. As paredes estavam cobertas por retratos que historiavam a vida da irmã. Lá estava ela, ainda pequena, com seus cachos castanhos descendo pelos ombros. Mais no alto, a magnífica fotografia como rainha do Mardi Gras. Ao lado, o vestido de renda branca, que havia lhe dado o título, tinha sido enquadrado e pendurado. Perto da cama, as fotos do casamento com John, e um pouco abaixo, Claire, o marido e o filhinho sorriam para mais um flash.

Sim, a irmã tinha dado momentos de grande alegria aos pais. Sua vida parecia suave, pontilhada de pequenas e agradáveis emoções.

— Ovelha negra... — resmungou ela, diante de toda aquela perfeição.

Sua vida fora bem diferente. Quando criança, não tinha cachos sedosos, e sim uma porção de machucados espalhados pelos joelhos e braços. Não tinha vestido de rainha do Mardi Gras nem do que quer que fosse. Muito menos um marido...

Mas preferia ficar solteira a se submeter a alguém como Richard Martin. Ele fora seu primeiro e único namorado. Conheceram-se numa festa, quando ela tinha vinte anos. Sem dúvida, Richard era capaz de encantar os olhos de uma garota. Alto, de porte atlético e desinibido, ele parecia corresponder ao ideal de qualquer mulher.

O namoro foi rápido, e logo vieram o noivado e os preparativos do casamento. Não havia por que esperar. Os negócios dele iam cada vez melhor, as famílias se conheciam e se davam bem e ele parecia realmente amar sua doce e pequena Susie.

Mas atrás de tanta gentileza, escondia-se um homem de princípios antigos, métodos superados, ideias velhas e obsoletas. Esperava que a esposa fosse simplesmente uma fábrica de filhos, uma mulher sempre disposta a cumprir funções sociais, a receber com elegância os amigos, a se distrair com os afazeres domésticos.

Tinha todos os planos traçados, nenhum detalhe ficara de fora. Dez filhos. Gostava de famílias grandes. Susie deixaria o trabalho, pois ele a sustentaria com facilidade. Era melhor morar num bom apartamento do que numa casa. Questão de segurança.

Foi quando ela percebeu que não seria uma esposa, uma companheira, alguém com quem ele dividisse as mágoas, aflições e alegrias. Para ela, o casamento representava muito mais que um acordo de vontades. Não admitia que um mandasse e o outro, sem hesitar ou raciocinar, obedecesse. Qualquer relação de amor tinha que ser compartilhada, construída a dois no dia-a-dia. A vida, o trabalho, as aspirações de cada um tinham que ser respeitados.

— Mas eu gosto das aulas de arte e também do meu trabalho — argumentou ela uma vez.

Como sempre, Richard não respondeu. Sua vontade era mais forte, uma ordem. Para que argumentos e discussões? A decisão já estava tomada. Susie abandonaria a carreira para se dedicar a ele e aos filhos.

Esse tipo de atitude a assustava. Como conviver com um homem que não ouvia ninguém? Mas, experiente e sedutor, ele sabia como acalmá-la. Bastavam uns beijos, umas carícias mais íntimas e, de um momento para outro, as dúvidas de Susie se perdiam nos carinhos. Ela o amava, afinal de contas.

Ou melhor, ela o amou até aquela maldita noite.

Fazia muito frio. As ruas estavam desertas e a chuva de outono, fina e mansa, molhava toda a cidade. Richard a convenceu a tomar um licor em seu apartamento.

— Ficaremos aquecidos perto da lareira — disse ele com a voz mais rouca, enquanto lhe beijava ardorosamente o pescoço.

Susie não imaginava que não era apenas um drinque que ele desejava. Mais que isso, queria possuí-la. Primeiro tentou coagi-la com palavras doces e envolventes.

Minha florzinha, você é tudo para mim. Se entregue, solte-se, deixe-me mostrar-lhe as maravilhas do sexo...

Mas Susie resistiu. Claro, amava Richard, mas aquele não era o momento nem a hora. Ainda não estava preparada para entregar-se a um homem. Antes, precisava ter certeza de que seria um ato de extremo carinho e ternura. Será que Richard lhe daria tudo isso ou estava preocupado apenas em obter alguns instantes de prazer? Enquanto a dúvida persistisse, ela resistiria.

Porém Richard não era um homem que aceitasse negativas. Não conseguindo o que queria com palavras, tentou a força bruta. Segurou-a com determinação, obrigando-a a deitar-se sobre o tapete de lã azul. Jogou o corpo pesado contra o dela, enquanto suas mãos enérgicas procuravam o fecho do vestido.

— Quero você esta noite — grunhiu ele, beijando-a brutalmente.

— Eu... Eu prefiro esperar. O que faremos se eu engravidar?

Mas ele nem escutou. Já não era o mesmo Richard, com suas gentilezas e amabilidades. Tinha se transformado num selvagem, ávido por satisfazer seus instintos e desejos. Não se importava com os sentimentos e medos dela ou com a violência que empregava. Estava cego, enlouquecido.

Pela primeira vez na vida Susie bateu em alguém. De punhos fechados, esmurrava as costas pesadas e musculosas dele. Chutava, debatia-se, num misto de revolta, ódio e decepção. Ficou apavorada. Por mais que lutasse contra aquela prisão de braços e pernas, não conseguia se libertar. Ele era forte demais. Gritou, mas Richard lhe abafou a boca com um beijo molhado, cheio de violência.

Seu vestido já estava rasgado, bem como as meias. Suas forças se esgotavam. Ah! Ela precisava fugir impedir aquele estúpido de traumatizá-la para o resto da vida. Tomada pelo horror, cravou as unhas no pescoço dele e sentiu o sangue lhe umedecer as mãos. Teve ainda mais medo, mais pavor. Sentia todos os músculos do corpo tremerem... Ele a mataria, a espancaria...

Mas Richard tombou para o lado, gemendo de dor. Imediatamente ela se levantou e correu para a porta. Tinha que ser rápida. Droga! Onde estava a chave? Procurou em cima da mesinha ao lado do sofá. Depois, sobre a estante e em cima da televisão... Richard estava se levantando... Santo Deus! Ele vinha em sua direção, com os olhos faiscando de raiva.

— Fique longe de mim! — gritou ela com o resto de forças que possuía. Olhou para o bar. Lá estava a chave. Bastava esticar o braço. Como não tinha visto antes? — Nunca mais ponha suas mãos em mim!

Num golpe certeiro, apanhou a chave, abriu a porta e saiu correndo pela rua. Não tinha direção certa. Precisava ir para qualquer lugar, para longe daquele animal...

Nunca mais viu Richard Martin. Também não contou a seus pais o que tinha acontecido. Simplesmente suspendeu o casamento. Rosie ficou chocada, pedindo uma explicação. Bernard não fez perguntas. Confiava no discernimento da filha.

Um ano depois, ficou sabendo que Richard tinha se casado. Pouco depois, o jovem casal anunciava a chegada de um filho. O primeiro de dez, diziam. Tudo como ele havia previsto.

Nos quatro anos que se passaram Susie acabou o curso de artes, conseguiu um emprego melhor na Blaine’s, como ilustradora de anúncios, e nas horas vagas, ajudava a Companhia Costain de Modas. Não tinha tempo para romances nem envolvimentos emocionais. Nem os queria. Os homens não eram dignos de confiança.

Depois de muito trabalho, Bernard, Rosie e Susie transferiram todos os rolos de cetim para o andar de cima, que através dos anos tinha sido transformado num verdadeiro ateliê de costura. Os corredores estavam praticamente tomados por prateleiras, nas quais centenas de peças de pano multicoloridas se empilhavam. O quarto maior era usado apenas por Rosie e algumas costureiras que punham em prática suas habilidades, criando os mais sofisticados vestidos e fantasias.

Em cima da garagem ficava a sala predileta do velho Bernard. Lá, havia uma grande mesa embaixo da janela, e nos fundos, uma estante enorme, onde ficavam os diversos vidros de contas, pedras e metais coloridos, que, com arte e bom gosto, se transformariam em bijuterias finas e adornos para cabeça.

Susie, que tinha o dom do desenho, projetava os modelos, combinando cores e linhas, babados e decotes. Era um trabalho fascinante, que mesclava técnica, habilidade e arte.

Agora que novembro se aproximava, as encomendas eram muito mais abundantes, e, consequentemente, o trabalho dobrava. Toda a cidade se preparava para a grande festa do Mardi Gras, o grande dia de carnaval de New Orleans, famoso em todo o mundo.

Havia por volta de sessenta grupos carnavalescos organizados, cada qual com seus próprios rituais. Os mais antigos eram compostos de pessoas selecionadas, que passavam por testes secretos para então serem admitidas no grupo. Os mais recentes preocupavam-se apenas com a diversão e eram formados, na maioria, por categorias profissionais determinadas; ou vizinhos que se enturmavam. Mas todos os grupos, sem exceção, desfilavam fantasias ricas e exuberantes. Era uma festa de cor e brilho, traduzindo a alegria inerente à população de New Orleans.

As primeiras festas começavam em dezembro, mas as encomendas dos Costain eram somente para o dia 18 de janeiro, quando seria o grande baile do grupo dos Aeolus, e para o dia seguinte, que era reservado aos Merlin. Havia também cinco outros grupos cujas fantasias seriam criadas e elaboradas pela família, até o dia 15 de fevereiro, data do Baile do Tritão, no qual Michelle reinaria.

Finalmente, na grande noite do Mardi Gras, Susie e a família ficariam em casa vendo pela televisão o sucesso de seu trabalho e o começo de uma merecida fase de descanso.

— Estou faminto — resmungou Bernie, atirando-se numa poltrona. — Rosie, o que temos para o jantar? Se eu não colocar logo alguma coisa no estômago, vou morrer de inanição. Comida, pelo amor de Deus!

— Calma; Bernie! — Rosie, que já conhecia os exageros do marido, deu risada. — Já estou preparando um bom cozido de frutos do mar. Susie, venha me ajudar. Seu pai está morrendo de fome.

Na cozinha, mãe e filha se alternavam em frente do fogão e da pia. Ao contrário de Susie, Rosie era uma excelente cozinheira; conseguia fazer pratos deliciosos de um minuto para outro.

— Sua prima Michelle esteve aqui hoje cedo. Não me pareceu muito entusiasmada com as cores do vestido de rainha. — Rosie fez o comentário sem esperar a resposta. E realmente não obteve nenhuma. Susie preferiu continuar calada. — Está pronto, Bernie! — chamou, vendo que o marido se distraía com o casal de papagaios, Mareei e Rosalind, empoleirados na gaiola nos fundos da cozinha. — Venha, Bernie! O jantar vai esfriar. Pensei que você estivesse desmaiando de fome...

Sentaram-se os três nos seus lugares habituais. Rosie e Susie a um dos lados da mesa retangular, e o pai do outro. Abriram uma garrafa de vinho branco. Afinal, mereciam isso, depois de tanto trabalho.

— Sabe, minha filha, você poderia vir morar conosco nos próximos meses. — Bernie tentou ser casual, mas sua voz revelava certa ansiedade. — Você tem que trabalhar o dia inteiro naquela loja, depois vem para cá nos ajudar... Além disso, precisa guiar não sei quantos quilômetros de volta, antes de descansar. Desse jeito, vai acabar ficando exausta.

— É uma boa ideia — disse Rosie antes que a filha se manifestasse. — Seu quarto está vago. Podemos colocar aquelas cabeças em qualquer outro lugar.

Sim, havia mais de uma dezena de cabeças de madeira e gesso sobre as quais eram criados os enfeites, adornos e chapéus. A própria Susie tinha esculpido e pintado seus rostos.

— Mamãe, papai, eu sei que é difícil para vocês compreenderem, mas eu me sinto muito feliz naquele pequeno apartamento.

Para Susie, os poucos metros quadrados no coração do Bairro Francês eram sua fortaleza, sua ilha de paz e tranquilidade. Há um ano, tinha abdicado do conforto da casa dos pais, situada num dos bairros mais elegantes da cidade, o Chalmette, para se instalar num apartamento de um quarto. Vagarosamente decorou cada cantinho, usando móveis antigos que ela mesma reformava, aproveitando tecidos da fábrica dos Costain. Nos porões e garagens dos parentes e amigos encontrou cadeiras velhas, uma mesa e até mesmo a cama, que, depois de pintada de vermelho vivo, ficou incrivelmente original e bonita.

— Não me importo de dirigir até aqui — continuou Susie, percebendo a decepção dos pais. — Meu apartamento é perto da loja, e assim vou a pé até lá e economizo gasolina. É muito mais fácil. Vocês entendem, não?

Houve um longo silêncio. Bernie dava uma garfada após outra, deixando claro que aquele assunto o aborrecia. Rosie baixou os olhos.

— Está bem — Susie abriu um sorriso. — Se eu ficar cansada demais, eu dormirei aqui nos fins de semana. Quem sabe uma noite ou outra durante a semana.

— Como você preferir, filha — disse Rosie. — Seu quarto estará sempre pronto para você.

— Sentimos sua falta. — Bernie não ergueu os olhos.

Sem dúvida, ela compreendia a situação dos pais. Sozinhos em casa tinham necessidade de companhia, da alegria dos jovens. Porém, mais que isso, preocupava-se por ela morar naquela parte da cidade, conhecida pela boêmia e agitação. Se ao menos fosse casada...

Já passava da meia-noite quando Susie parou o carro na vaga 2B do estacionamento em frente ao prédio de dois andares onde morava. Sem a luz do luar, a noite parecia mais escura que o habitual. O vento assobiava entre as árvores, e por um instante Susie sentiu medo, quase dando razão aos pais. Afinal, a poucos quarteirões dali, uma moça sozinha corria o risco de ser confundida com uma prostituta.

Aliviou-se ao olhar para o segundo andar, onde a luz de Renny Castelot, seu vizinho da frente, estava acesa. Tocou a buzina duas vezes e pouco depois ele surgia na janela.

— É você, Susie? — ele gritou lá de cima.

— Sim, ainda bem que está acordado. Já estou subindo.

Renny era um dos homens mais gentis e mais feios que ela conhecia. Seu corpo era desproporcional. Tinha ombros largos, cobertos de pelos escuros que lhe desciam pelo peito e costas, dando uma impressão selvagem. A barriga era proeminente e flácida, devido às horas seguidas que passava sentado diante de suas telas, pintando. Porém, por trás dessa figura grotesca havia um coração de ouro, alguém sempre disposto a ajudar nos momentos mais difíceis.

— Esteve pintando? — perguntou ela depois de subir correndo o lance de escada.

— O dia inteiro. Estou trabalhando num novo projeto.

— Não diga!

— Foi a maior sorte da minha vida, embora eu não seja a favor da comercialização do talento. O fato é que, como você sabe minha arte ainda não foi reconhecida, e enquanto não descobrem o gênio que há em mim, preciso me submeter aos interesses da classe dominante.

— Pelo amor de Deus, Renny, eu não estou entendendo nada! Olhe, mamãe me deu as sobras do jantar. Por que não vem ao meu apartamento? Assim poderá me explicar melhor que negócio é esse de comercialização de talento.

— Comida de Rosie Costain? Hum... É irrecusável!

Um minuto depois, ele estava sentado no tapete da sala de Susie. Renny era assim. Jamais se acomodava como as outras pessoas, em sofás ou poltronas. Preferia o chão. Depois de se habituar a ele, isso parecia normal.

— Comece a contar — disse ela. — Seu jantar está esquentando no forno.

— Vou pintar os cenários, os panos de fundo para as apresentações de alguns grupos carnavalescos.

— Isso é ótimo!

— Sim, por um lado. Eles vão me pagar seis meses de aluguel.

— Seis meses! Renny é fantástico! — Ela bateu palmas, em completa empolgação. Conhecia bem as dificuldades financeiras por que o amigo passava. Desde que os turistas se afastaram do Bairro Francês, vinha tendo problemas para vender suas obras. Eram normalmente painéis imensos, pintados em acrílico, misturando cores berrantes, em formas abstratas e ousadas.

— Bem... — ele agora tinha um tom aborrecido — por outro lado, não terei tempo de preparar os painéis para a grande exposição de fevereiro. É isso que chamo de comercialização do talento. Gosto de minhas obras, eu sei que têm valor artístico. No entanto, serei obrigado a pintar cenários comuns, pouco criativos, porque não tenho dinheiro para me sustentar. Isso enlouquece qualquer um. Será que as pessoas não percebem que a arte é fundamental em suas vidas? Por que não dão valor a um artista?

— É difícil responder a essas perguntas. Talvez você seja reconhecido quando morrer. Todo mundo gosta de um pintor que passou a vida na miséria e, depois que morre, é glorificado.

— Este planeta é maluco mesmo.

— Mas já que vivemos nele, é melhor seguirmos as regras. E a primeira delas é uma boa e saudável refeição. Vou buscar seu prato, que já deve estar quente.

Susie trouxe também uma lata de cerveja. Muitas vezes comprava uma porção delas somente para oferecer ao amigo. Ele raramente tinha dinheiro para esses pequenos luxos.

— Está delicioso — disse ele, depois da primeira garfada. — Sabe, acho que vou precisar da sua ajuda. Você e seus pais estão fazendo as fantasias de alguns grupos, não é? Os nomes Merlin, Hyacinth e Siren significam alguma coisa para você?

— Sim, vestiremos dois deles, Siren e Merlin. O outro não nos contratou. Por quê?

— Vou fazer os cenários para esses três. Não queria fugir demais dos padrões das roupas. Acho importante manter uma coerência entre vestimentas e cenários.

— Bem, e de que forma eu poderia ajudá-lo?

— Deixando-me dar uma olhada nos desenhos dos modelos. Sei que são mantidos em absoluto segredo, mas é muito importante para mim.

Naturalmente Susie não negaria ajuda a Renny, mas não respondeu logo. Estava pensando na reação dos pais ao encararem aquele tipo estranho, fruto da boêmia do Bairro Francês. Hoje, os cabelos dele, longos e crespos, estavam em seu castanho natural. Mas não era raro vê-los num tom brilhante de rosa ou verde-limão. Também costumava usar jeans absurdamente extravagantes, com tachas prateadas de cima a baixo. Era justamente nesses dias que vendia seus quadros com mais facilidade.

— E então? — insistiu ele, sem esconder a ansiedade.

— Está combinado. Vou pedir á mamãe que prepare um jantar especial para você. Só quero que me faça um favor em troca.

— O que é?

— Vá vestido como gente! Não tenho nada contra suas extravagâncias, sabe disso. Acontece que estou tentando provar a meus pais que posso tomar conta do meu nariz sozinha. Se eles o virem com os cabelos pintados de azul, e aquelas calças exóticas, ficarão chocados e me pressionarão a voltar para casa.

— Você diz uma moderação de estilo...

— Não moderação simplesmente, mas uma mudança total. Por favor, Renny... Eles ainda estão se acostumando ao meu novo ritmo de vida. Você sabe morar sozinha num apartamento pequeno como este, trabalhar o dia inteiro...

— Está bem. Vou parecer um bom menino. Prometo. — Renny já tinha limpado o prato. Esfregou a imensa barriga com prazer, depois de tomar o último gole de cerveja. — Ah! Quase ia esquecendo. Alguém deixou um recado para você.

— Quem?

— Um homem... — Ele enfiou a mão no bolso para tirar um cartão amarrotado. — A campainha do seu apartamento tocava insistentemente lá pelas seis da tarde. Então, resolvi pular pela janela do banheiro e vir atender, como se morasse aqui. Achei aquilo um tanto estranho.



Os apartamentos eram ligados pela área de serviço, e muitas vezes a janela do banheiro era de grande utilidade, principalmente quando um dos dois esquecia as chaves ou quando os peixes de Susie precisavam ser alimentados. Agora tinha servido também para atender o visitante misterioso.

— Você o atendeu? — Susie perguntou.

— Sim, e ele só perguntou se este era o seu apartamento. Falei a verdade e disse-lhe que, se quisesse deixar algum recado, eu o entregaria a você mais tarde. Era um homem bem bonito, com uma barba loira, nariz aquilino e olhos penetrantes. Parecia um gladiador romano.

Renny tinha acabado de descrever Simon Avery, e rapidamente Susie tomou o cartão, cheia de curiosidade.

— Está escrito que ele sente muito tê-la aborrecido e que espera que você o perdoe — Renny se adiantou.

— Você o leu!

— Bem, talvez fosse alguma coisa urgente. Depois, para falar a verdade, achei esquisito aquele jeito desesperado de apertar a campainha. Não quis deixar o homem ir embora antes de verificar de que se tratava.

Mesmo sabendo qual era a mensagem Susie leu o bilhete. A letra era irregular e forte.

Tinha assinado simplesmente “Sy”.

— Quem é ele? — Às vezes Renny se tornava íntimo demais.

— Meta-se com sua vida, está bem?

Ele baixou a cabeça, exagerando a mágoa. Era um bocado dramático quando queria.

— Por acaso você se lembrou de dar comida aos meus peixes, enquanto lia mensagens confidenciais? — brincou ela.

— Os bichinhos estão de estômago cheio — disse ele, já sorrindo.

— Qual é o sobrenome desse tal de Sy?

— Renny! — Ela se levantou e o empurrou para fora do apartamento. Embora fosse simpático e agradável Renny não sabia o momento de calar a boca.

Sozinha, releu o bilhete. Em sua memória a imagem daquele sedutor fotógrafo de barba espessa e olhos azuis continuava límpida, clara, perturbadora.

Simon Avery, um gladiador romano. Sim, Renny tinha acertado na comparação.




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