Mago e Vidro



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Mago e Vidro
Tradução de Mário Molina


1996, 1997 by Stephen King

Publicado mediante acordo com o autor através de Ralph M. Vicinanza, Ltd.

Título original

The Dark Tower IV: Wizard and Glass

Capa


Pós Imagem Design

Revisão


Fátima Fadei

Umberto Figueiredo Pinto

Taís Monteiro

Editoração Eletrônica Abreu’s System Ltda.

K52m

King, Stephen



Mago e vidro / Stephen King, tradução de Mário Molina. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2005

813 p. (A torre negra, v.4)

ISBN 85-7302-714-2

Tradução de: Wizard and glass

1. Literatura americana - Romance. I. Título

CDD 813


Este livro é dedicado a Julie Eugley e Marsha DeFilippo.

São elas quem cuidam da correspondência, e a maior parte da correspondência dos últimos dois anos tem sido sobre Roland de Gilead — o pistoleiro. Basicamente, Julie e Marsha me perturbaram o juízo até eu voltar a escrever.

Julie, você perturbou com mais eficiência, por isso seu nome vem na frente.

Visão mais feliz, de outro tempo, eu quis saborear

Para ficar mais apto a encarar minha missão.

Pensar antes, lutar depois, eis do soldado o bordão:

Um vislumbre do passado pode a tudo acertar.

— Robert Browning

Childe Roland à Torre Negra Chegou”


ROMEU

Senhora, juro por aquela lua abençoada,

Que a copa de todas essas árvores cobre de prata...
JULIETA

Oh, não jures pela lua, tão inconstante lua,

Que a cada mês se altera na curva de seu contorno,

Ou vai parecer que teu amor é também assim, instável.
ROMEU

Por que coisa, então, devo jurar?
JULIETA

Não jures de modo algum.

Ou, se insistires, jura por ti mesmo em tua generosidade,

Que és o próprio deus de minha idolatria,

E acreditarei em ti.
— William Shakespeare “Romeu e Julieta”


No quarto dia, para grande alegria [de Dorothy],

Oz a mandou chamar, e quando ela entrou na Sala do Trono,

cumprimentou-a galantemente.

Sente-se, minha querida. Acho que encontrei um meio de tirá-la deste país.

E me fazer voltar ao Kansas? ela perguntou ansiosa.

Bem, sobre o Kansas não tenho muita certeza disse Oz —, pois não faço a menor idéia pra que lado fica...


— L. Frank Baum “O Mágico de Oz”
Argumento

Mago e Vidro é o quarto volume de uma longa história inspirada por “Childe Roland à Torre Negra Chegou”, um poema narrativo de Robert Browning.

O primeiro volume, O Pistoleiro, conta como Roland de Gilead persegue e por fim consegue alcançar Walter, o homem de preto, que fingia ser amigo do pai de Roland mas que, na realidade, servia a Marten, um importante feiticeiro. Pegar o semi-humano Walter não é, porém, a meta de Roland mas só um meio para alcançar determinado fim: Roland quer chegar à Torre Negra, onde acredita que a acelerada destruição do Mundo Médio possa ser detida, talvez até revertida.

Roland é uma espécie de cavaleiro, o último de sua estirpe, e quando pela primeira vez nos deparamos com ele, a Torre é sua obsessão, sua única razão de viver. Ficamos a par de que foi obrigado a se submeter a um teste prematuro de maturidade por Marten, que seduzira sua mãe. Marten esperava que Roland fracassasse no teste, fosse “mandado para oeste” e despojado para sempre das armas do pai. Roland, contudo, reduz a nada os planos de Marten ao passar no teste... devido, principalmente, à sábia escolha de sua arma.

Descobrimos que o mundo do pistoleiro se relaciona ao nosso de um modo fundamental e terrível. O elo é revelado pela primeira vez quando Roland encontra Jake, um menino da Nova York de 1977, num abandonado posto de parada de diligências. Existem portas entre o mundo de Roland e o nosso; uma delas é a morte, e é por seu intermédio que Jake, depois de ser empurrado para o asfalto da rua 43 e atropelado por um carro, chega pela primeira vez ao Mundo Médio. Quem o empurrou foi um homem chamado Jack Mort... embora a coisa que se escondia dentro da cabeça de Mort e guiava suas mãos naquela ocasião fosse Walter, o velho inimigo de Roland.

Antes de Jake e Roland alcançarem Walter, Jake torna a morrer... desta vez porque o pistoleiro, frente à angustiante necessidade de optar entre aquele filho simbólico e a Torre Negra, escolhe a Torre. As últimas palavras de Jake antes de mergulhar no abismo são “Então vá... há outros mundos além destes”.

O confronto final entre Roland e Walter ocorre perto do mar Ocidental. Durante uma longa noite de palestra, o homem de preto revela o futuro de Roland com um estranho baralho de tarô. Principalmente três cartas — o Prisioneiro, a Dama das Sombras e a Morte (“mas não para você, pistoleiro”) — vão chamar a atenção de Roland.

O segundo volume, A Escolha dos Três, começa à margem do mar Ocidental, não muito depois de Roland despertar do confronto com seu antigo nêmesis e descobrir que Walter está morto há bastante tempo, não passando agora de um punhado de ossos num local já cheio de ossos. O exausto pistoleiro é então atacado por uma horda de “lagostrosidades” carnívoras e, antes de conseguir escapar delas, é seriamente ferido, ficando sem os primeiros dois dedos da mão direita. Roland é também envenenado pelas mordidas e assim, ao retomar a jornada para o norte, ao longo do mar Ocidental, já está adoecendo... talvez morrendo.

A certa altura da caminhada, ele vê três portas se erguendo com nitidez na praia. Elas se abrem para nossa cidade de Nova York em três diferentes quandos. De 1987, Roland puxa Eddie Dean, um prisioneiro da heroína. De 1964, traz Odetta Susannah Holmes, uma mulher que perdeu a parte de baixo das pernas num acidente no metrô... que não foi um acidente. Na verdade ela é a Dama das Sombras, com uma segunda e sórdida personalidade oculta dentro da jovem negra politicamente atuante que os amigos conhecem. Essa mulher escondida, a violenta e astuciosa Detta Walker, se apega à determinação de matar tanto Roland quanto Eddie ao ser levada pelo pistoleiro para o Mundo Médio.

Entre a época desses dois, mais exatamente em 1977, Roland penetra na mente diabólica de Jack Mort, que tinha ferido Odetta/Detta não uma vez, mas duas. “Morte”, o homem de negro dissera a Roland, “mas não para você, pistoleiro.” Mas tampouco Mort é o terceiro profetizado por Walter; Roland impede Mort de assassinar Jake Chambers e pouco depois Mort vai morrer sob as rodas do mesmo trem que levara as pernas de Odetta em 1959. Roland, então, não leva o psicótico para o Mundo Médio... Quem, pensa ele, ia querer ficar com tal criatura?

Contudo há um preço a ser pago pela rebelião contra um futuro profetizado; não é o que sempre ocorre? Ka, gusano, diria talvez Cort, um velho professor de Roland. Ele é a grande roda, e sempre gira. Não fiquem na frente dela ou serão esmagados, perdendo de vez seus estúpidos cérebros e inúteis embalagens de tripas e água.

Roland acha que talvez com Eddie e Odetta a escolha dos três já tenha se dado, pois Odetta tem dupla personalidade. Quando, no entanto, Odetta e Detta emergem como uma só pessoa em Susannah (graças, em grande parte, ao amor e à coragem de Eddie Dean), o pistoleiro percebe que não é bem assim. Percebe ainda outra coisa: continuará sendo atormentado por lembranças de Jake, o garoto que, ao morrer, falara de outros mundos. Na realidade, metade da mente do pistoleiro acredita que jamais houve qualquer garoto. Ao impedir que Jack Mort empurrasse Jake para a frente do carro que devia matá-lo, Roland criara um paradoxo temporal que o estava dilacerando. E que, em nosso mundo, estava dilacerando também Jake Chambers.

As Terras Devastadas, o terceiro volume da série, começa com esse paradoxo. Após matar um urso gigantesco chamado Mir (pelo povo antigo que tinha medo dele) ou Shardik (pelos Grandes Anciãos que o construíram... pois o urso acaba se revelando um cyborg), Roland, Eddie e Susannah seguem o rastro do animal e descobrem o Caminho do Feixe de Luz. Há seis desses feixes correndo entre os 12 portais que marcam os limites do Mundo Médio. No ponto onde os feixes se cruzam — no centro do mundo de Roland, talvez no centro de todos os mundos — o pistoleiro acredita que ele e seus amigos encontrarão por fim a Torre Negra.

Agora Eddie e Susannah já não são prisioneiros no mundo de Roland. Apaixonados e a caminho de se tornarem eles próprios pistoleiros, participam plenamente na busca e seguem-no voluntariamente pelo Caminho do Feixe de Luz.

Num círculo falante não muito longe do Portal do Urso, o tempo é emendado, o paradoxo termina e o verdadeiro terceiro é finalmente puxado. Jake torna a entrar no Mundo Médio na conclusão de um perigoso rito onde todos os quatro — Jake, Eddie, Susannah e Roland — lembram os rostos de seus pais e procuram honradamente justificar seus atos. Não muito depois, o quarteto vira um quinteto, quando Jake fica amigo de um trapalhão. Os trapalhões, que parecem uma combinação de texugo, quati e cachorro, têm uma limitada capacidade de falar. Jake chama o novo amigo de Oi.

O caminho dos peregrinos os conduz para Lud, um deserto urbano onde os degenerados sobreviventes de duas antigas facções, Pubes e Grays, mantêm viva a sombra de um antigo conflito. Antes de atingir a cidade, passam por um lugarejo chamado River Crossing, onde alguns velhos residentes ainda permanecem. Eles reconhecem em Roland um remanescente dos velhos tempos, antes de o mundo seguir adiante, e prestam honras a ele e a seus companheiros. Depois, aquele povo antigo lhes fala de um trem de monotrilho que talvez ainda corra de Lud para as terras devastadas, ao longo do Caminho do Feixe de Luz e em direção à Torre Negra.

Jake fica impressionado com isso, mas não realmente surpreso; antes de ser puxado de Nova York, conseguira dois livros em uma livraria cujo dono tinha o provocante nome de Calvin Tower, torre. Um era um livro de adivinhações, mas com a página das respostas rasgada. O outro, Charlie Chuu-Chuu, era uma história infantil sobre um trem. Para a maioria talvez fosse apenas uma historinha divertida... mas, para Jake, havia algo em torno de Charlie que não era absolutamente divertido. Algo assustador. Roland percebia outra coisa: na Língua Superior de seu mundo, a palavra char significava morte.

Tia Talitha, a matriarca da gente de River Crossing, dá a Roland uma cruz de prata e os viajantes retomam sua jornada. Antes de alcançar Lud, deparam com um avião caído, um avião de nosso mundo, um caça alemão dos anos 1930. Imprensado na cabine está o cadáver mumificado de um homem gigantesco, quase certamente David Quick, um fora-da-lei meio mítico.

Ao cruzar a ponte deteriorada que se estendia pelo rio Send, Jake e Oi quase sofrem um acidente fatal. E enquanto Roland, Eddie e Susannah se ocupam em ajudá-lo, o grupo é emboscado por um bandido moribundo (e muito perigoso) chamado Gasher. Ele seqüestra Jake e o leva através de subterrâneos até o Homem do Tiquetaque, último líder dos Grays. O verdadeiro nome de Tiquetaque é Andrew Quick; é o bisneto do homem que morrera tentando fazer pousar um avião vindo de outro mundo.

Enquanto Roland (ajudado por Oi) vai atrás de Jake, Eddie e Susannah encontram o Berço de Lud, onde o Mono Blaine desperta. Blaine, a última peça visível do vasto sistema de computação que jaz sob a cidade de Lud, tem apenas um último interesse: adivinhações. Promete levar os viajantes à parada final do monotrilho se eles conseguirem resolver uma adivinhação que ele propõe. Caso contrário, diz Blaine, estarão simplesmente viajando para a clareira onde o caminho termina... isto é, para suas mortes. Nesse caso, terão bastante companhia, pois Blaine planeja liberar estoques de gases com efeito sob o sistema nervoso que matarão todos que sobraram em Lud: sejam Pubes, Grays ou pistoleiros.

Roland resgata Jake, deixando o Homem do Tiquetaque à morte... mas Andrew Quick não morre. Meio cego, o rosto horrendamente desfigurado, é salvo por um homem que diz se chamar Richard Fannin. Este Fannin, contudo, também se identifica como o Estranho sem Idade, um demônio sobre o qual Walter tinha advertido Roland.

Roland e Jake se reúnem a Eddie e a Susannah no Berço de Lud, e Susannah — com uma pequena ajuda “daquela cadela” Detta Walker — consegue resolver a adivinhação de Blaine. Forçados a ignorar as terríveis advertências do subego saudável, mas letalmente enfraquecido de Blaine (uma voz que Eddie chama de Pequeno Blaine), eles ganham acesso ao monotrem, onde logo descobrem que Blaine pretende cometer suicídio com todos a bordo. O fato de a verdadeira mente que controla o monotrem encontrar-se em computadores que vão ficando cada vez mais para trás, funcionando sob uma cidade que se transformou em matadouro, não fará diferença quando a bala cor-de-rosa descarrilar em algum ponto da linha numa velocidade superior a 1.200 quilômetros por hora.

Existe uma única chance de sobrevivência: o amor de Blaine pelas adivinhações. Roland de Gilead faz então uma proposta desesperada. É com esta proposta que As Terras Devastadas terminam; é com esta proposta que Mago e Vidro começa.

Prólogo
Blaine

— ME PASSEM UMA ADIVINHAÇÃO — Blaine convidou.

— Vá se foder — disse Roland. Ele não ergueu a voz.

— O QUE DISSE? — Em sua evidente perplexidade, a voz do Grande Blaine ficou muito parecida com a voz de seu insuspeitado gêmeo.

— Eu disse vá se foder — Roland repetiu calmamente —, mas se isso o confundiu, Blaine, posso deixar a coisa mais clara. Não. A resposta é não.

Durante um longo, longo tempo não houve reação de Blaine, e quando ele respondeu não foi com palavras. Em vez disso, as paredes, o chão e o teto começaram de novo a perder a cor e a solidez. Num espaço de dez segundos o Vagão do Baronato deixou mais uma vez de existir. Estavam agora disparando sobre a cadeia de montanhas que tinham visto no horizonte: picos num tom cinza metálico corriam para eles em velocidade suicida, depois se afastavam revelando vales estéreis por onde rastejavam besouros gigantescos como tartarugas de vida terrestre. Roland viu uma coisa que parecia uma enorme cobra desenrolar-se da boca de uma caverna. O animal pegou um dos besouros e arrastou-o para sua toca. Nunca em sua vida Roland vira tais animais nem uma região como aquela, e a imagem pareceu fazer sua pele rastejar para fora da carne. Talvez Blaine os tivesse transportado para algum outro mundo.

— TALVEZ EU DEVESSE NOS DESCARRILAR AQUI — disse Blaine. A voz era meditativa, mas sob ela o pistoleiro ouviu uma raiva profunda, pulsante.

— Talvez devesse — disse o pistoleiro num tom de indiferença.

A cara de Eddie parecia furiosa. Ele sussurrou as palavras: O que você está FAZENDO? Roland o ignorou; estava de todo ocupado com Blaine e sabia perfeitamente bem o que estava fazendo.

— VOCÊ É RUDE E ARROGANTE — disse Blaine. — ESTAS QUALIDADES PODEM SER INTERESSANTES PARA VOCÊ, MAS NÃO SÃO PARA MIM.

— Ah, posso ser muito mais rude do que tenho sido.

Roland de Gilead espalmou as mãos e foi ficando lentamente de pé. Ficou parado no que parecia ser nada, pernas afastadas, a mão direita na cintura e a esquerda no cabo de sândalo do revólver. Ficou como já ficara tantas vezes antes, nas ruas empoeiradas de uma centena de cidadezinhas esquecidas, em muitas zonas de matança em desfiladeiros rochosos, num sem-número de saloons escuros com seus cheiros de cerveja amarga e velhas frituras. Era apenas outra exibição em outra rua deserta. Era só isso, e já era o bastante. Era khef, ka e ka-tet. Que esse tipo de exibição sempre ocorresse era o fato central de sua vida, o eixo em torno do qual seu próprio ka revolvia. Que desta vez a batalha tivesse de ser travada com palavras e não com balas não fazia diferença; continuaria sendo uma batalha mortal. O fedor de morte no ar era tão nítido, tão inconfundível quanto o fedor de carniça se decompondo num pântano. Então o fervor da batalha se abrandou, como sempre acontecia... e ele realmente já não parecia tão absorvido por uma determinada idéia.

— Acho que você é uma máquina ridícula, maluca, de mente vazia. Acho que é uma criatura estúpida, insensata, cujo juízo não é mais sólido que o som de um vento de inverno numa árvore oca.

— PARE COM ISSO.

Roland continuou no mesmo tom sereno, ignorando completamente Blaine.

— Você é o que Eddie chama de “engenhoca”. Se fosse mais que isso, valeria a pena ser ainda mais rude.

— SOU MUITO MAIS QUE APENAS...

Tenho vontade de chamá-lo de boqueteiro de merda, por exemplo, mas você não tem boca. Poderia dizer que é mais vil que o mais vil patife que já rastejou pelas vielas mais baixas da criação, mas mesmo essa criatura seria melhor que você; você não tem joelhos para rastejar e não cairia com eles no chão se os tivesse porque não tem noção de certas fraquezas humanas, como a misericórdia. Acho que foderia sua própria mãe, se tivesse uma.

Roland parou para respirar. Coisa que seus três companheiros tinham parado de fazer. Por todo lado, sufocante, havia o silêncio atônito do Mono Blaine.

Posso dizer que é uma criatura sem fé, que deixou sua única companheira se matar, um covarde que tem se deliciado com a tortura dos tolos e a carnificina dos inocentes, uma tosca e barulhenta traquitana mecânica que...

ORDENO QUE PARE OU VOU MATAR TODOS VOCÊS AQUI MESMO!

Os olhos de Roland brilharam com um clarão azul tão selvagem que o próprio Eddie saiu encolhido de perto dele. Vagamente, Eddie ouviu a arfada de ar de Jake e Susannah.

Mate quem quiser, mas não me dê ordens! — roncou o pistoleiro. — Você esqueceu as faces daqueles que o criaram! Comece a nos matar agora ou fique calado e escute o que eu, Roland de Gilead, filho de Steven, pistoleiro e senhor de antigas terras, tenho a dizer! Não atravessei tantos quilômetros durante tantos anos para dar ouvidos à sua palestra infantil! Está entendendo? Agora é você quem vai ME ouvir!

Outro momento de silêncio chocado. Ninguém respirava. Roland olhava inflexível para a frente, cabeça erguida, a mão na coronha do revólver.

Susannah Dean levou a mão à boca. Sentiu o sorrisinho que havia lá como uma mulher sentiria uma nova e estranha peça de roupa — um chapéu, talvez — que lhe desse a sensação de ainda ser atraente. Tinha receio de estar no fim de sua vida, mas a sensação que dominou seu coração naquele momento não foi de medo, mas de orgulho. Deu uma olhada para a esquerda e viu Eddie contemplando Roland com um riso de espanto. A expressão de Jake era ainda mais simples: pura adoração.

— Diga a ele! — Jake cochichou. — Chute o rabo dele! Boa!

— É melhor prestar atenção, Blaine — Eddie fez eco. — Ele não se importa muito em se foder. Não é por acaso que o chamam de Cachorro Louco de Gilead.

Após uma longa, longa pausa, Blaine perguntou:

— É ASSIM QUE O CHAMAVAM, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— Talvez já tenham chamado — Roland respondeu, calmamente pousado no ar rarefeito sobre as colinas.

— QUE UTILIDADE VOCÊS TÊM PARA MIM SEM AS ADIVINHAÇÕES? — Blaine perguntou. Agora parecia uma criança resmungona, emburrada, que deixaram ficar acordada até muito depois da hora de dormir.

— Eu não disse que não temos adivinhações — respondeu Roland.

— NÃO? — Blaine parecia desorientado. — NÃO ESTOU ENTENDENDO, MAS O ANALISADOR VOCAL INDICA DISCURSO RACIONAL. POR FAVOR EXPLIQUE.

— Você disse que queria as adivinhações de imediato — respondeu o pistoleiro. — Era isso que eu estava recusando. Sua avidez o deixou malcriado.

— NÃO ESTOU ENTENDENDO.

— Ela fez você ficar rude. Entende isso?

Houve um silêncio longo e meditativo. Haviam se passado séculos desde a última vez que o computador lidara com reações humanas diferentes da ignorância, da negligência ou da subserviência supersticiosa. Tinham transcorrido eternidades desde a última vez em que deparara com um simples sinal de coragem humana. Finalmente:

— SE O QUE EU DISSE LHE PARECEU RUDE, PEÇO QUE ME PERDOE.

— Está perdoado, Blaine. Mas há um problema maior.

— EXPLIQUE.

— Feche novamente o vagão e explicarei. — Roland se sentou tranqüilo, como se novas discussões e a perspectiva de morte imediata fossem agora impensáveis.

Blaine fez o que ele pediu. As paredes se encheram de cor e a paisagem de pesadelo abaixo deles foi mais uma vez apagada. O ponto no mapa indicando a trajetória piscava agora ao lado do ponto denominado Candleton.

— Tudo bem — disse Roland. — A rudeza é perdoável, Blaine; foi o que me ensinaram quando eu era jovem. Mas também me ensinaram que a estupidez não é.

— POR QUE ACHA QUE FUI ESTÚPIDO, ROLAND DE GILEAD? — A voz de Blaine era suave e sinistra. Susannah imaginou um gato de tocaia na frente de um buraco de rato, a cauda se movendo de um lado para o outro, os olhos verdes brilhando com malevolência.

— Temos uma coisa que você quer — disse Roland —, mas a única recompensa que nos oferece se a dermos a você é a morte. Isso é muito estúpido.

Houve uma longa, longa pausa enquanto Blaine refletia sobre o assunto. Então:

— O QUE DIZ É VERDADE, ROLAND DE GILEAD, MAS A QUALIDADE DE SUAS ADIVINHAÇÕES AINDA NÃO FOI PROVADA. EU NÃO OS RECOMPENSAREI COM SUAS VIDAS POR MÁS ADIVINHAÇÕES.

— Compreendo, Blaine — disse Roland abanando a cabeça. — Agora escute e compreenda você o que eu digo. Já contei uma parte disso aos meus amigos. Quando eu era garoto, no Baronato de Gilead, havia sete Dias de Feira por ano... Inverno, Terra Ampla, Semeadura, Meados de Verão, Terra Plena, Colheita e Fim do Ano. As adivinhações eram uma parte importante de cada Dia de Feira, mas eram o acontecimento mais importante do Dia de Feira da Terra Ampla e do da Terra Plena, pois se supunha que as adivinhações propostas eram bons ou maus augúrios para o sucesso das safras.

— ISSO É SUPERSTIÇÃO SEM ABSOLUTAMENTE NENHUMA BASE NOS FATOS — disse Blaine. — ACHO ESSAS COISAS ABORRECIDAS E CONSTRANGEDORAS.

— Claro que é superstição — concordou Roland —, mas você não imagina como as adivinhações previam bem as safras. E aliás me responda, Blaine: qual é a diferença entre uma avó e um celeiro?

— ESSA JÁ É MUITO CONHECIDA E MEIO SEM GRAÇA — disse Blaine, mas parecendo feliz por ter alguma coisa para resolver. — UMA NASCE PARENTE, BORN KIN; A OUTRA É UM DEPÓSITO DE GRÃO, CORN-BIN. É UMA ADIVINHAÇÃO BASEADA EM COINCIDÊNCIA FONÉTICA. OUTRA DO MESMO TIPO, CONTADA NO NÍVEL DAS ADIVINHAÇÕES DO BARONATO DE NOVA YORK, ERA ASSIM: QUAL A DIFERENÇA ENTRE UM GATO E UMA FRASE COMPLEXA?

Jake respondeu:

— Eu sei. Um gato tem garras no final das patas e uma frase complexa tem pausa no final da oração.1

— É — concordou Blaine. — UMA ADIVINHAÇÃO ANTIGA E MUITO BOBA, QUE SÓ É INTERESSANTE PELA RIMA DAS PALAVRAS.

— Pelo menos nessa eu concordo com você, Blaine, amigo velho — disse Eddie.

— NÃO SOU SEU AMIGO, EDDIE DE NOVA YORK.

— Tranqüilo, bróder. Beije meu cú e vá para o céu.

— NÃO EXISTE CÉU.

Eddie não deu o rebote nesta.

— EU GOSTARIA DE OUVIR MAIS ADIVINHAÇÕES DOS DIAS DE FEIRA EM GILEAD, ROLAND, FILHO DE STEVEN.

— Ao meio-dia da Terra Ampla e da Terra Plena, o Salão dos Antepassados era aberto e lá se reuniam de 16 a trinta adivinhadores. Eram as únicas ocasiões do ano em que gente comum — tipo comerciantes, fazendeiros e sitiantes — tinha permissão para entrar no Salão dos Antepassados, e nesses dias todos se apinhavam ali.

O pistoleiro tinha os olhos distantes e sonhadores; era a expressão que Jake vira em seu rosto naquela nebulosa outra vida, quando Roland lhe contara como ele e dois amigos, Cuthbert e Jamie, tinham um dia se escondido na sacada do tal Salão para assistir a uma espécie de dança ritual. Jake e Roland subiam as montanhas no rastro de Walter quando Roland lhe contara essa história.



Marten estava sentado ao lado de minha mãe e meu pai, dissera Roland. Mesmo de tão alto vi tudo muito bem... De repente ela e Marten estavam dançando, girando devagar. Todos abriram espaço para eles e aplaudiram quando acabou. Mas os pistoleiros não aplaudiram...

Jake olhou curioso para Roland, de novo se perguntando de onde aquele homem estranho teria vindo... e por quê.

— Colocavam um grande barril no meio da pista — prosseguiu Roland —, onde cada adivinhador jogava a tira de um papel feito de casca de árvore com adivinhações escritas. Muitas eram adivinhações antigas, que tinham herdado dos mais velhos... ou até, em alguns casos, tirado de livros... mas muitas eram novas, feitas especialmente para a ocasião. Três juízes, um deles sempre pistoleiro, se pronunciavam sobre estas últimas, que eram lidas em voz alta; e só seriam aceitas se os juízes as julgassem adequadas.

— SIM, AS ADIVINHAÇÕES TÊM DE SER ADEQUADAS — concordou Blaine.

— Esse era o jogo — disse o pistoleiro. Um leve sorriso tocou sua boca com a lembrança daqueles dias, quando tinha a idade do menino ferido sentado na sua frente com o trapalhão no colo. — O jogo se prolongava por horas a fio. Uma fila se formava no meio do Salão dos Antepassados. A posição da pessoa na fila era decidida pela sorte, e como era muito melhor ficar no fim do que no começo, todo mundo queria tirar um número alto. Cada concorrente devia responder corretamente a pelo menos uma adivinhação.

— MUITO JUSTO.

— Cada homem ou mulher... pois alguns dos melhores adivinhadores de Gilead eram mulheres... se aproximava do barril e pegava a primeira adivinhação, que era lida em voz alta. Se a adivinhação ainda não tivesse sido respondida depois que a areia escorresse numa ampulheta de três minutos, o concorrente tinha de deixar a fila.

— E A MESMA ADIVINHAÇÃO ERA PROPOSTA AO SEGUINTE DA FILA?

— Sim.

— ENTÃO QUEM VINHA DEPOIS TINHA MAIS TEMPO PARA PENSAR.



— Sim.

— ENTENDO. PARECE MUITO LEGAL.

Roland franziu a testa.

— Legal?


— Ele quer dizer que parece divertido — disse Susannah em voz baixa.

Roland encolheu os ombros.

— Era divertido para quem assistia, eu acho, mas os concorrentes levavam a coisa muito a sério. Com muita freqüência havia discussões e brigas de soco depois que o prêmio era concedido e o concurso encerrado.

— QUAL ERA O PRÊMIO, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— O maior ganso do Baronato. E ano após ano meu professor, Cort, levava o ganso para casa.

— GOSTARIA QUE ELE ESTIVESSE AQUI — disse Blaine num tom de reverência. — DEVE TER SIDO UM GRANDE ADIVINHADOR.

— Sem dúvida foi — disse Roland. — E agora a minha proposta. Está pronto, Blaine?

— CLARO. VOU OUVI-LA COM GRANDE INTERESSE, ROLAND DE GILEAD.

— Que as próximas horas sejam nosso Dia de Feira. Você não inicia o jogo, pois quer ouvir novas adivinhações, não repetir algumas dos milhões que já conhece...

— CORRETO.

— Não conseguimos resolver a maioria das que conhecemos, pode crer — Roland continuou. — Tenho certeza de que você também conhece algumas que derrubariam até o Cort, se fossem retiradas do barril. — Não tinha nenhuma certeza disso, mas passara a hora de usar os punhos e chegara a de usar a pena.

— CLARO — Blaine concordou.

— Proponho que, em vez de um ganso, nossas vidas sejam o prêmio — disse Roland. — Vamos lhe propor adivinhações durante a viagem, Blaine. Se quando chegarmos a Topeka você tiver adivinhado todas, pode executar seu plano de nos matar. Será o seu ganso. Mas se nós derrubarmos você... se houver uma adivinhação no livro de Jake ou em uma de nossas cabeças que você não conheça e não consiga responder... terá de nos levar a Topeka e depois nos libertar para seguirmos em nossa missão. Este é o nosso ganso.

Silêncio.

— Está entendendo?

— SIM.


— Está de acordo?

Mais silêncio do Mono Blaine. Eddie ficara imóvel, o braço em torno de Susannah, olhando o teto do Vagão do Baronato. Susannah fizera a mão esquerda descer para a barriga, alisando o segredo que podia estar escondido ali. Jake afagava de leve o pêlo de Oi, procurando não encostar nas crostas de sangue onde o trapalhão fora esfaqueado. Esperavam, enquanto Blaine — o verdadeiro Blaine, agora muito lá atrás, vivendo uma semivida sob a cidade onde todos os habitantes tinham sido mortos por um ato seu — examinava a proposta de Roland.

— SIM — disse Blaine por fim. — CONCORDO. SE EU RESOLVER TODAS AS ADIVINHAÇÕES QUE VOCÊS ME PROPUSEREM, VOU LEVÁ-LOS ATÉ A HORA DA VERDADE, NO FINAL DO CAMINHO. MAS SE UM DE VOCÊS APRESENTAR UMA ADIVINHAÇÃO QUE EU NÃO RESOLVA, POUPO A VIDA DE TODOS E OS DEIXO EM TOPEKA, DE ONDE PODERÃO, SE QUISEREM, CONTINUAR A BUSCA DA TORRE NEGRA. ENTENDI CORRETAMENTE OS TERMOS E LIMITES DE SUA PROPOSTA, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— Sim.


— MUITO BEM, ROLAND DE GILEAD.

“MUITO BEM, EDDIE DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, SUSANNAH DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, JAKE DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, OI DO MUNDO MÉDIO.”

Oi ergueu um instante o olhar ao som do seu nome.

— VOCÊS SÃO KA-TET; UM FEITO DE MUITOS. EU TAMBÉM. AGORA VAMOS TER DE PROVAR QUAL KA-TET É O MAIS FORTE.

Fez-se um momento de silêncio, quebrado apenas pelo duro e constante pulsar das turbinas de levitação que os levavam pelas terras devastadas, que os levavam pelo Caminho do Feixe de Luz para Topeka, onde o Mundo Médio acabava e começava o Fim do Mundo.

— ENTÃO VAMOS — gritou a voz de Blaine. — JOGUEM AS REDES, VIAJANTES! PODEM ME FAZER AS PERGUNTAS, E QUE A DISPUTA COMECE.



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