Mal deixara a Missão, Siebo desatou atrás de mulheres. Responsável por uma pancadaria de filhos, mudava de terra com frequência, furtando-se às iras de azagaias e catanas



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PARTE I
1959
1
Mal deixara a Missão, Siebo desatou atrás de mulheres. Responsável por uma pancadaria de filhos, mudava de terra com frequência, furtando-se às iras de azagaias e catanas.

Possuía dentes incisivos bem afiados à faca, ao poder de pancadinhas leves, e à lima /como já poucos Macondes pediam/; rosto escarificado com arte simétrica e as respectivas cicatrizes em relevo à custa do pó de carvão /como também poucos exigiam/. Desem-penado, todo tirado das canelas, bom piscador de olho, de língua fácil, as mulheres torciam-se e retorciam-se na sua frente, dengosas, molengonas.

Abusou da esposa do Kanhamala, na ausência deste. Ao perceber o inchaço da vítima, e ao escutar lamentações misturadas com ameaças, palpitou trapalhadas no regresso do marido traído. Imediatamente desejou alcançar o Tanganica (1) («lá, primeiro aproveito facilidades das plantações sisaleiras do Sul, depois aguento chegar a Dar-es--Salaam; e se desconfiar de Kanhamala atrás de mim, subo mesmo ao sisal de Tanga. Com tantos Macondes por ali, vou aguentar governar-me durante uns tempos sem precisar de trabalhar»).

E Siebo desapareceu com pés:algodão, decidido à travessia do Rio Rovuma, /fronteira entre Moçambique-Tanganica/, em local bastante batido por quantos arrancavam de circunscrições, postos e regulados do Cabo Delgado. Preferiu partir só, de noite para fugir ao calor, e desguarnecido de alimentação(«aguentarei encontrar parceiros pelo caminho antes de chegar à área do régulo Mitema, já pertinho do Rovuma mesmo; comerei do que levarem; sem problemas começarei a descer o planalto aí por volta de Muímbua»).

De perna cinegética, sempre para diante, a cada passada via-se livre de catanadas mandadas com alma pelo Kanhamala. Tinha sorte: feras de respeito /afastadas do planalto maconde—Norte de Moçambique — pelos teimosos perseguidores de caça grossa/ não as encontrou enquanto marchou isolado.

Quando o dia ensaiava a dança do alvorecer, grosso magote vinha da vereda, à esquerda, para o seu caminho. Haviam todos iniciado a marcha ao anoitecer, partindo de povoações diversas com destino ao sisal de Lindi, Dar-es-Salaam ou Tanga, conforme os engajadores que encontrassem após transposto o Rio Rovuma.

A maioria exibia dente carnívoro. Entre os mais idosos alguns tinham escarificações pelo corpo, quase nu!, apesar de não ser hora encalorada. O mais velho ostentava botoque(1) metido numa racha feita no lábio superior; estava de torna-viagem definitiva para plan­tação sisaleira próximo de Lindi; levava de vez a mulher. Também ela usava botoque, mas cravado na aleta esquerda do nariz; e nas orelhas exibia penduricalho de alumínio arrancado a prato roto.

Quase todos os rapazolas vintões levavam espingarda caçadeira muito enfeitada, modelo antiquíssimo, mais para satisfazer vaidades étnicas dos Macondes orgulhosos e sobranceiros do que para servir de bacamarte defensivo.

Siebo começou por escutar voz peituda;

— Correndo-me a vida no sisal de Tanganica, só voltarei a Moçambique buscar a família.

Siebo havia parado. Dentre o grupo, logo um disparou, ao vê-lo:

— Então?, amigo; estás bom?...

— Qualquer coisa!...

— Então puseste outra mulher em aflições e toca para lá do Rovuma!, ou foges como nós ao administrador patife, sempre a dizer aos régulos, cipaios(2) e cabos de terra(3) para fazerem tolices nas povoações onde há casas com melhores cabritos e galinhas?...

—Nada disso—(Siebo apertou lábios; enguliu riso miudinho)—. Alguns conheciam-no de facto, e outros só de vista. Um que o ignorava, preferiu encadear:

— Na minha povoação está tudo zangado mesmo com o chefe do posto; e bastantes mandões da nossa cor só têm aguentado chatear-nos.

Certo novato, de nome Manumogô, foi no encalço da conversa:

— Só tornarei cá para esmagar os brancos—(Ao contrário do que esperava, ninguém se manifestou. Mas continuou a respingar)—: Meu tio Kibiriti arranjou uma associação em Tanga, há dois anos. Agora já aguenta pensar mudar para Dar-es-Salaam com o seu movimento sempre a crescer muito mesmo! Há-de aguentar vir a Mueda falar feio ao administrador!—(Provocou espanto. Viu-se notado; bufou)—: Meu tio Kibiriti, grande presidente da tal asso­ciação, mandou mesmo recado a mim: «Quando meu sobrinho Manumogô chegar cá a Tanga, ficará gente muito importante mesmo na Associação dos Africanos de Moçambique».

O novato Manumogô esperava hossanas. Apenas aparou cochichos :mofa; e afundou num silêncio:revolução. O mais velhote do grupo, /o tal acompanhado da mulher com botoque no nariz/, resmoneou, avinagrado:

— Como se a falta de água não bastasse para afligir os Macondes, ainda aturamos as autoridades da nossa raça e os mandões brancos! —(Sacudiu levemente a cabeça; fez bochechas; expirou. E num remate)—: Nada sei disso revelado por esse novato aí, mas digo que nunca percebi atitudes de régulos malandruços nem certas ordens dos administrativos tocados pelo administrador de Mueda; o javali Luís Borges(«aguento confusão!, mesmo...»).

Vários daqueles rostos começaram a ficar escumosos. Ao Siebo tanto dava; para ele tudo estava bem!, contanto que não lhe faltasse mulherio...
2

— Depois que minha mulher fez malandrices com o hipopótamo Siebo, pronto!: pontapés no céu e no inferno da Missão(«Maconde bravo não perdoa brincadeiras porcas»)—(Remoía e remordia Kanhamala, todo rancor :achaque)—.

— Aguentarás mesmo sempre assim raivoso!, para matar a ele?, Kanhamala...

— Uia!, Sitama: nunca falta raivação para isso.

Sitama e Kanhamala amigalharam-se deveras, já pêlos vinte anos, quando ao serviço de plantação sisaleira bem abaixo de Mocímboa da Praia. Viviam contentes.

O pior foi o Kanhamala regressar à palhota, na povoação do régulo Mbavala, perto de Mueda, e encontrar a mulher engravidada pelo Siebo :salta-pocinhas. Furioso, desancou-a desalmadamente. A infeliz protegeu o ventre conforme pôde. Massacrou-a com pergun­tas. Enquanto ela imaginava o Siebo em povoações fronteiriças, Kanhamala, /conhecendo os hábitos dos malandros/, pressentiu-o no Tanganica(«aguento ir mesmo lá matá-lo!, em qualquer plantação de sisal até ao Lindi»). E seguindo palpite tocado por fúria rancorosa, dois dias volvidos meteu-se à viagem, acompanhado pelo amigo Sitama.

Iniciaram a jornada pouco depois da meia-noite. Caminhavam há doze horas; pararam para comer à sombra, quentíssima, de árvore meã, bastante copada. Sitama poisou o cesto de bambu, tirou e abriu a manta onde embrulhara galinha assada entre folhas de bananeira, farinha de milho cozida e temperada com amendoim pilado, farinha da mexoeira amassada com mel silvestre, mandioca assada, papaia, bananas, e até um frasco cheio de bebida!

Kanhamala mantinha nariz pingado, sentia lágrimas, desejava cuspir palavrões; mas manteve-se calado, mastigando obscenidades. Abriu a troixa. Desatou a capulana, remendada. Com preguiça:sono mirou a alimentação que transportava: uns tísicos paus de man­dioca. Só!

Sitama compreendeu tudo; ofereceu quanto tinha diante. Procurou distraí-lo; mas sem jeito. E cravou ainda mais ferros no cérebro do amigo.

Kanhamala sentiu os ressequidos paus de mandioca transfor­marem-se em cepos dentro da boca. Suspendeu o suplício da mastigação. Preferia alimentar-se com silvas, trovisco e vinagre. Sitama insistiu duro para que pegasse na galinha e respectivos acompanhamentos. Em resposta, ouviu:

— Aguentando apanhar hipopótamo Siebo!, ah!...

— Apanharás mesmo?, Kanhamala...—(Cortou Sitama, baloi­çando na dúvida)—. Se calhar ele aguenta estar em qualquer das povoações onde arranjou mais filhos..., assim às três pancadas!

— Mas hei-de aguentar apanhá-lo!, Sitama. Se não for amanhã, será daqui a semanas, ou meses... Depois não vou dar tiro ou espetar catana, e pronto: acabou vida dele; não!—(Levantou a cabeça. Seus olhos :faróis ficaram nos máximos. Cuspiu. Passou a língua nos beiços grossos, encordoados: gretado e mais terroso, no centro, o inferior)—. Quando tiver o hipopótamo Siebo nas unhas, verás mesmo!, Sitama, como acabo a vida dele—(Parecia antegozar o momento:maravilha. Retorcia as mãos. Enclavinhava os dedos. Rangia os queixais)—. Morrerá devagarinho, ficará em bocadinhos.

Sitama, para não desgostar, fingia acreditar naquelas bravezas. Atreveu-se a cortar:

— Deixa agora isso. Come daqui, vamos. Acabando, no teu lugar não enfiávamos já direitos ao Tanganica. Estou na minha; preferia dar primeiro um giro pelas povoações onde o Siebo tem filhos.

Kanhamala aparou a ideia como se atura forte bolada no estômago. Começou a pensar que talvez valesse a pena... Cuspiu a mandioca que ainda tinha na boca.



3

Mueda: capital dos Macondes; a 847 metros de altitude; cerca de 22000 quilómetros quadrados. Raças nativas: Macondes, Ajauas, Angónis, Macuas, Andondes, Matambas e Etotes. Alguns Indianos, Paquistaneses e Chineses; poucos brancos. Dialectos falados: maconde, macua, ajaua, andonde, angóni, e as línguas portuguesa e swahili. Produtos do solo: milho, mapira, amendoim, rícino, arroz, feijão, calumba, mandioca, algodão, tabaco, gergelim, caju.

Administrador da circunscrição: Luís Borges: montanha!: cento e nove quilos maciços sem injecções, pílulas, gotas, unguentos, pomadas; isento da visita de bisturis. Antigo campeão de pesos e halteres. Máximo de horas seguidas sem dormir: setenta e duas; sem comer: cento e uma; sem beber: oitenta e três. Para aquela região, só colunas desta enormidade! O que podia calhar ver quando se abeirava dos rios Rovuma, Lugenda e Messalo: leões, elefantes, leopardos, panteras, hipopótamos, jacarés, hienas, sualas, cudos, nhumbos, palavis, dandalas, javalis, etatas, nanzorros, etc., etc..
O grandalhão Luís Borges, mais devido à sua paz de espírito do que à corpulência e destemor, também aos bichos ferozes tratava por amigos! Como outros homenzarrões, quanto a temperamento era bondoso, paciente, moderado nos pensamentos, sóbrio nos gestos, de palavra branda mas firme nas ordens profissionais; propenso à caridade e à pacatez. Evitava proferir pachouchadas. Nunca pelos bem intencionados foi julgado pachola, pachorrento, pai-avô, nem parrana. Todavia...

...Todavia, os negros, além Mueda, detestavam-no!, coberto que fosse de mel... A maioria, se vivesse liberta do pavor de ser apanhada, era capaz de suplicar aos feiticeiros pulverulento feitiço contra o administrador.

Luís Borges encontrava maior danação no rosto dos negros afastados da sede da circunscrição!, do que no focinho da bicharada que perseguia para fornecer carne aos regulados mais necessitados em anos de crise. Sofria por matutar no mal que envenenava os negros contra ele; e ainda mais quando nas banjas os régulos lhe ladriscavam que sicrano, fulano e beltrano também tinham passado ao Tanganica(«mas porquê?, meu Deus!, tamanha debandada...»). E magicava no zunzum acerca duma associação de Moçambicanos, em Tanga e Dar-es-Salaam.

As respostas eram mentiras. Vendo-se afastado da pista que podia conduzi-lo à verdade, insistia; geralmente aparava: «Os fujões aguentavam dizer que pagamento do imposto chateia mesmo»; «E aguentavam falar que iam arranjar bom patrão mesmo no sisal do Tanganica para ganharem muito mais que cá»; «Também diziam que a falta de água chateia muito mesmo os Macondes, e lá a água não deixa sofrer como cá». Diversos ainda lembravam citar a rou­balheira feita pêlos comerciantes monhés; porém, por serem quase todos irmãos na religião islâmica, preferiam silenciar remetidos à esperança depositada na associação fundada por Macondes no Tanganica.

O administrador Luís Borges repetia-se em explicações, começan­do invariavelmente pela água: «Bem sabeis que já aqui andaram dois vedores». Esta palavra era sempre trocada em miúdos. «Também sabeis que o primeiro adoeceu imprevista e mortalmente; o segundo abalou quando viu a aparelhagem destruída por um leopardo maluco e desaustinado. Cá continuo a martelar para o Governo enviar ter­ceiro vedor, a ver se solucionamos este problema bicudo». Pela centésima vez e tantas!, explicava a razão de ser do imposto, acrescentando que pagamentos daqueles existiam em todo mundo civilizado ou com pretensões de sê-lo. Falava haver no Tanganica duas épocas de chuva, enquanto só acontecia uma em Moçambique, portanto lá, com maior produção, podiam pagar melhor nas plantações sisaleiras; e logo esclarecia que outro motivo de pagamento superior visava atrair gente de Moçambique, do Congo Belga através de Ruanda-Urundi(1), da Federação das Rodésias e Niassalândia(2) para preencherem as falhas da mão-de-obra dos trabalhadores do Tanganica que em elevado número igualmente vão para outros terri­tórios, em especial o principal grupo étnico do Sul.

O tempo ia passando; as preocupações do administrador foram aumentando até à chegada do terceiro vedor: agora integrado numa equipa de operários. E Luís Borges principiou a confiar em dias melhores para os Macondes; porém, a debandada prosseguia; pareceu até recrudescer!, quando já se viam as obras para captação da água... Num desalento, monologava com frequência :(«não percebo!, não entendo nada disto!...»). Resolveu-se a investigação mais aturada. Esforço inútil. Os interrogados continuavam arengando mentiras e refugiavam-se no impenitente «Não sei, não sei».

No ar, na selva, nos rios, nos montes, nas povoações, nas palhotas, percebia-se inquietação estranha. O administrador Luís Borges, deveras perturbado, começou a respirar gorda tramóia, denso mistério. Dirigiu-se às autoridades gentílicas:

— Precisamos descobrir por que foge tanto pessoal!

E os régulos, empenhados em esconder as principais causas do descontentamento colectivo, fingiam-se igualmente preocupados. Um, bastante próximo de Mueda, em assédio massacre finalmente preferiu esquecer os preceitos da religião islâmica e decidiu descarregar sobre os comerciantes, numa tentativa airosa para novamente ocultar a verdade:

— Os monhés continuam enganando a nós nas cantinas; e pagamos sempre direito mesmo sem chatear.

— Tem de acabar essa exploração! Podes divulgar pela tua gente que vou eu próprio falar aos comerciantes da circunscrição inteira—(No rosto do régulo viu algo de esquisito!, a cheirar a tranquibérnia..., mas era impossível descobrir por dedução o verda­deiro mistério que envolvia o planalto maconde. Para caçar novidades, e no intuito de aproximar o interlocutor, adiantou)—: É uma pena este mundão estar a ser explorado praticamente por comerciantes maometanos, só com dois ou três brancos e um ou dois Chineses à mistura(«tomara eu encontrar quem fosse capaz de esclarecer se a tal associação, no Tanganica, terá ou não influência no compor­tamento desta gente...»).
4
Direito à povoação do régulo Singalé caminhava outro grupo em demanda do Tanganica.

Três homens levavam-na fisgada!; aproveitariam as facilidades que os plantadores do Sul costumavam dispensar aos recém-chegados, e, na ocasião propícia, fugiriam à cata de outro trabalho em vilas ou cidades do interior e da beira-mar, como; Mtwara, Lindi, Kilwa Kivinje, Iringa, Morogoro, Kongwa. Conheciam o caminho a trilhar; várias vezes tinham transposto o Rovuma para irem vender aos Indianos, em Newala, boa parte dos produtos agrícolas, culti­vados na margem direita do rio. Estes comerciantes, sabendo que os vendedores vinham de longe, sujeitos a encontrar feras pelo caminho, e no Rovuma hipopótamos e crocodilos, arredavam ligeiramente a ganância, afastavam um tanto malabarismos ao pesar a mercadoria e pagavam-na com certo brilho para cativarem quem os ajudava a enriquecer.

Com frequência, vários vendedores comentavam valer a pena aquela canseira, pois se livravam de ser enganados pêlos comerciantes mais próximos das suas machambas, no planalto.

Do grupo faziam parte duas famílias completas. Uma movi­mentara pau e catana contra o estafeta Metikama, da administração de Mueda, aparecido quando diante da palhota pais e filhos gozavam o fresco da tarde à sombra de árvore frondosa no centro do terreiro. Tudo emudeceu. Ele começou logo a barafustar; mas o chefe da família irritou-se, ergueu-se, e cortou-lhe o palanfrório;

— Seu moleque ordinário!, gira a dizer ao administrador que venha prender a nós todos—(Ao escutar «moleque», Metikama encrespou, fitou ameaçador aquele pequeno mundo carrancudo, esfregou os pés nus no chão duro, viu-se representante da administra­ção!, e ia berrar, mas ficou num gesto confuso ao ver o chefe da família avançar colérico, bufador)—: Seu moleque quizumba! (1), nunca mais me chateies; nunca mais obedeço a ti nem a ninguém!

O chefe da família chegou ao desespero de cuspir semelhante desaforo por já ter avisado a família de que quando alguém da administração ou de qualquer posto voltasse com ordens indecentes, partiriam imediatamente para o Tanganica a juntarem-se ao filho mais velho Kibiriti, já muito importante à frente da sua associação, em Dar-es-Salaam.

Metikama desconhecia-lhe os planos e pensou atemorizar salientando o nome do administrador Luís Borges, para vingar a afronta de «moleque». Lesto, postou-se a centímetros do chefe da família. Este aproveitou sem perda de tempo: espetou-lhe furiosa cabeçada; e o estafeta virou de pantanas. Subitamente!, todos ali o cumprimentaram com pauladas e pontapés. Ao tentar erguer-se pela terceira vez, foi prostrado à catanada.

Quando da boca do estafeta principiou a sair baba, ninguém mais pronunciou palavra. Num vigoroso relancear de olhos, o chefe da família indicou o que havia a fazer.

Decorridos minutos, quando estavam prestes a sair do terreiro, surgiu o maioral da família vizinha. Estacou. Mirou o moribundo ainda arfante. Falou ao testa de ferro:

—Tche!... Cheguei há bocado; minha mulher disse que ouviu berrar, e vim cá. Tche! Lamento, irmão, hoje teres sido tu escolhido para vítima do branco-quizumba. Tche! Mas meu coração está contente mesmo por não terem vindo chatear a mim. Responderia como tu. Tche!—(Silêncio absoluto. Meneou a cabeça. Com o pé direito deitou terra num coágulo de sangue. O dia definhava. Prosseguiu)—: Abalais!; mais cedo vereis vosso filho Kibiriti. Também minha família tem que ir. Tche! Se ficamos acusam-nos desta miséria. O administrador sabe que eu carreguei neste estafeta safado; também, há tempos. Tche! Não posso ficar cá, não; esperai, irmão: volto já com a família. Tche! Não demoro a despedir-me da casa, do terreiro, das árvores, tche!, não.

Desandou, cabisbaixo, arrastando pés, de braços ao pendurão.

Enquanto esperava, o chefe da família percebeu ténue sopro de vida na vítima. Decidiu abreviar-lhe a morte. Com firmeza desatou o molho das azagaias, empunhou com arrogância a mais grossa e comprida; voltou-se, acelerou passos, alçou o braço e apontou na direcção do coração de Metikama, e pumba!: violento, cravou a azagaia. Calhou fitar o rosto do infeliz e ficou apavorado com os olhos que o varavam!, ainda. Reagiu: lançou mãos a cepo enorme que ali havia, ergueu-o a custo e, impetuoso, arremessou-o; numa penada esmigalhou a cabeça do ex-perseguidor. Depois sibilou, desnorteado:

—Tivesses tu feito assim a quem te ensinou malandrices!, e ainda hoje poderias aguentar tomar o fresco.

Escurecera quando chegou a família vizinha. Meteram-se aos carreiros mais propícios à fuga. No dia seguinte encontraram outros fugitivos. Ao grupo juntaram-se elementos de sangue maconde, porém nascidos no Tanganica. Como tantos nas mesmas condições, andavam cá e lá segundo conveniências familiares ou por simples caprichos do coração.

Caminhavam com saudades de peixe. No segundo dia da jor­nada, pelas quatro da madrugada, viraram à direita na povoação de Singalé. Às seis horas atravessaram, silenciosos, a já espevitada povoação do régulo Balale. Daí á pouco desciam e acampavam à beira da Lagoa Lidede.

Quando os primeiros alcançaram o compacto e altivo caniçado da lagoa, um destacou-se, lamentoso, para os que vinham chegando;

—Ainda alguém vingará esta fuga da nossa terra própria. Os régulos bem poderiam ser mais nossos amigos. Dentro em breve, já com água nas povoações, nem precisávamos fugir—(Cogitou naquilo que escutara pelo caminho ao assassino do estafeta Metikama: /fartinho de atroar importâncias do filho Kibiriti, há longos anos fora dá palhota/. E admirou-se que este passasse de cozinheiro a presidente da associação fundada em Tanga e já a crescer bastante em Dar-es-Salaam! Negou-se aos pensamentos, ensaiou ligeira cabriola, e rompeu num chinfrim desordenado, atacando, refilão, o administrador Luís Borges)—.

Alguns responderam-lhe com gritos apavorantes! A passarada, aflita, fugiu das árvores; nas águas levantaram-se, interrogativas, as cabeçorras de hipopótamos; e nas margens lamacentas moveram-se» rezingões, os crocodilos.


5

Aquele grupo a que se juntou o Siebo, antes de alcançar o Rovuma também descansou e dormiu ainda umas horas; ia já a coluna engrossada com toda a casta de gente, apontada de atalhos, veredas e carreiros onde forçosamente tinha de se marchar a passo espreitador, em fila formigueira para evitar fustigadelas de arbustos assomadiços ou de agressivos ramos espinhosos. Noutros locais, alguns precisavam de amochar, ficando cobertos por cúpulas de ramaria espessa e trepadeiras :sanguessuga. Atiravam ao alto pen­samento irmão: «Quantas cobras?, lá em cima...».

Era nos princípios de mês, principalmente de Fevereiro a Outubro quando o rio estava mais maneiro, que se formavam os grupos numerosos e heterogéneos.

Nem todos iam para ficar. Uns, nascidos lá, tão Macondes como os nados em Moçambique, regressavam da visita à família. Outros iam vender produtos agrícolas e fazer compras. Um ou outro tencionava voltar qualquer dia, ou mais depois, ou depois, talvez...; ou talvez..., talvez depois do depois!... Na travessia do Rovuma alguns sentiam suas vidas como cheias de piteiras e micaias!: geralmente fugiam por terem arranjado questão com as autoridades negras e brancas; para se esquivarem ao pagamento do imposto e furtarem-se à liquidação de multas em expiação das poucas-vergonhas praticadas em garotas ou mulheres alheias; para se esgueirarem à tropa.

Lá para o fim da jornada marchavam seco e arrastado. Os mais velhos ora pregavam olhos no chão, ora miravam a floresta numa rememoração de casos acontecidos, ora pensavam no suplício dos Macondes: falta de água. Sugestionados, logo experimentavam sede!, e sentiam a pele mais seca. Lembravam lágrimas de outros tempos, choradas em vão. /Incontáveis lágrimas vertidas séculos em fora por milhentas criaturas, seriam fanico sem préstimo!, pois quantas milhares de vezes ali chovera e quase para nada? Região de alta pluviosidade, o chão ia sendo regado e engulia todas as gotas; mas não as retinha: eram coadas por areia fina. Depois a água madraça, nómada, surgia longe-longe-longe: nas funduras dos barrancos, na base das sinuosas vertentes do planalto/.

O grupo de Siebo, depois de atravessar a área do régulo Mitema, chegou finalmente ao Rovuma. Por economia, os homens mais altos atravessaram a pé, embora a água tivesse nível ameaçador. As mulheres, as crianças e os indivíduos baixos entraram em longas ingalavas (1). Ficaram uns atrás dos outros, agachados, tocando com os joelhos no companheiro imediato, de braços abertos e mãos ferradas nos bordos da estreita embarcação. Os tarecos caseiros iam à frente juntamente com a tralha dos da travessia a vau, que em paga ajudavam, nalguns sítios, a empurrar a embarcação. Também a prudência aconselhava união por causa dos bicharocos.

Hipopótamos e crocodilos espiavam; curiosos estes, quase indiferentes aqueles.

Tremiam!, os que faziam a travessia pela primeira vez, e chorincavam os mais novitos.

De longe a longe os crocodilos atacavam. E transportavam as vítimas para os sítios mais sossegados das margens, onde iriam devorá-las quando apodrecidas.

Siebo não chegou a ter tempo nem disposição para endoidar o coração das garotas espigadas da caravana. Sem possibilidades de lhes apanhar dinheiro, teve de passar também a vau, transido de medo. Já na descida do planalto para o rio, sem o mínimo pudor havia despido a roupa. Ninguém se amofinou. Ali o Sol era fero, e a humidade pegajosa parecia alucinada a causar enervante indisposição a quem estava habituado à relativa amenidade do clima das terras altas. Realmente, nas últimas horas da jornada, calor sufocante e humidade pastosa deram pés de chumbo aos viandantes. Sem esta contrariedade, que forçou Siebo a amolecer, depois de haver metido conversa palavrosa, talvez abichasse uns escuditos de miúda feia, caminhando sempre em passo tardo atrás da mamana; iam até Newala a vender gergelim para comprarem panos garridos. E o Siebo, vergado pelas canseiras da jornada, remeteu-se a gozar pensando que a miúda feia continuava feia mas mais vistosa quando traçasse nas ancas bamboleantes uma capulana pintalgada de amarelo, vermelho, verde e azul.

Estava a travessia a terminar quando descomunal hipopótamo escancarou o boqueirão!: aumentou o pavor nos inexperientes. Tirante isto, o rio foi transposto em ordem. Do lado esquerdo distavam três quilómetros até Makangonda; a primeita povoação para quem atravessasse naquele sítio.

Antes de os caminhantes chegarem às primeiras lojas dos Asiáticos, pressurosos apareciam os recrutadores das grandes, médias e pequenas plantações, de perto e de longe. Atiravam-se aos recém-chegados como galinhas esfaimadas saltam a imprevista fartura de milho!; cantavam loas aos patrões; falavam açodadamente; atiravam palavra doce aos esquivos; gesticulavam para os distantes; assobiavam e acenavam a quantos seguiam com ideias aquém sisal.

À medida que avançavam, a barulheira e a confusão, o calor e a poeira, as moscas, os mosquitos, e os moscardos, /vindos das lojas tão atafulhadas de mercadoria desordenada como de porcaria!/, chocavam-se no ar e misturavam-se à incomodativa saraivada de pst !-pst !-pst!

Às vezes a atmosfera era chicoteada por violento vozeirão: «Quem tiver medo de ser apanhado pelos brancos(1) cá em baixo no Lindi, pode ir para as plantações de Dar-es-Salaam ou fugir lá para cima até Tanga; nunca mais é agarrado».

A barafunda demorava a terminar. Imperava o idioma swahilh /única língua falada em todo o território, entre diversas outras/. E muitos fulanos chegados tinham dificuldade em compreendê-la por soprada tão velozmente. Engajadores apossavam-se de sicranos que não queriam ficar separados de amigos já abarbatados. Rebentava pandemónio antes de encontrar-se solução que afinal costumava consistir na troca regateada de uns beltranos por outros.

Aos renitentes ofereciam cigarros e refrigerantes. Se ainda assim demoravam a decidir-se, adiantavam-lhe a esteira e as duas mantas da praxe. Sendo aceites, pronto, estava iniciado o contrato e recebiam mais uns quarenta ou cinquenta xelins para alimentação enquanto ali esperavam o camião da sisaleira que os transportaria ao destino.

Siebo fez o seu jogo: artista diante de mulheres!, igualmente sabia manobrar homens. Trabalhar não era com ele; todavia, ali, recebeu o máximo de tudo. A seguir pôs as mãos nas partes, fingindo estar à rasquinha, incapaz de aguentar, disse que ia ali e já vinha, mas pisgou-se até Newala atrás da miúda feia que imaginava vistosa quando traçasse nas ancas bamboleantes a capulana pintal­gada de amarelo, vermelho, verde e azul.

Siebo, senhor de viver vadio, não lembrava os filhos gerados ao acaso, nem pensava poder vir a ser perseguido e apanhado pelo Kanhamala bravio...




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