Manifesto regionalista de 1926: vinte e cinco anos depois



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MANIFESTO REGIONALISTA DE 1926: VINTE E CINCO ANOS DEPOIS

      Há vinte e cinco anos, realizava-se no Recife, o primeiro Congresso de Regionalismo que houve no Brasil e talvez na América; e, no seu gênero e estilo, não só o primeiro, como o único, já reunido em qualquer parte. Ainda que suspeito no assunto, por ter sido naqueles dias Regionalista quase militante, vejo na comemoração que hoje se faz de acontecimento tão significativo quanto esquecido, um ato de justiça, ou pelo menos de ternura, para com o passado.

      O Regionalismo, de que aquele Congresso foi a expressão mais viva, fecundou mais de uma zona de sensibilidade ou de cultura brasileira, abriu-lhe meios novos de expressão ainda hoje visíveis em revistas e movimentos de jovens, intitulados "Região", "Nordeste", "Província", "Clã", "Bando" e até há pouco tempo "Planalto". Preparou-a para museus chamados do Ouro e do Açúcar e não apenas comemorativos da guerra do Paraguai ou da Revolução de 1817.

      Exprimiu-se em alguns dos romances, poemas, contos mais notáveis e em algumas das obras de pintores, arquitetos, urbanistas, escultores, sociólogos, ensaístas, engenheiros, economistas, historiadores, compositores, biógrafos, mais caracteristicamente brasileiros, sem prejuiso do seu apêlo humano, aparecidas no Brasil, neste último quarto de século. Alcançou o próprio teatro.



      O Regionalismo – sinão criação pura no que assumiu de complexo em suas combinações novas de ideias porventuras velhas, sistematização brasileira, realizada por um grupo de homens do Recife, não só de novos critérios regionais de vida, de estudo e de arte como de vagas e dispersas tendências para-regionalistas já antigas no Brasil mas quase sempre absorvidos pelo caipirismo ou deformadas em aventuras de "pitoresco" ou "côr local", está, de modo geral, para a cultura brasileira, que libertou dos excessos de centralização, como o Federalismo está, em particular, para a vida política do país, descentralizada, embora sob alguns aspectos erradamente descentralizada, pelos triunfadores de 89. Perdeu-se quase de vista, no Brasil, a importância do federalismo, em si, sob a glorificação do Abolicionismo e do Republicanismo, vitorioso, quase ao mesmo tempo que a causa federalista, defendida brilhantemente por Joaquim Nabuco e não apenas por Tavares Bastos. Igual destino teve o Regionalismo do Recife, quase sumido ao lado do Modernismo do Rio e do de São Paulo, seus parentes ricos e aparecidos um pouco antes dêle. É que ao Regionalismo do Recife, a seu modo também modernista, mas modernista e tradicionalista ao mesmo tempo, faltou, na sua época heróica, propaganda ou divulgação na imprensa metropolitana, então indiferente, senão hóstil, ao que fôsse ou viesse de Província. Chegou a ser confundido por jornalistas desatentos do Rio, com separatismo, para alarme e inquietação do então Presidente da República, o ilustre brasileiro sr. Artur Bernardes. Faça-se justiça a um metropolitano excepcional na atenção que dêsde o início dedicou ao Regionalismo do Recife: o sábio João Ribeiro.

      Porque da gente intelectualmente grande daqueles dias poucos foram os que prestaram atenção a movimento tão remoto e, embora provinciano, pioneiro de muita renovação hoje triunfante no país inteiro e até com reflexo ou repercussão em meios estrangeiros. Além de João Ribeiro, sábio sempre atual nas suas curiosidades, velho sempre moço na sua inteligência e até o fim da vida atento aos novos e tolerante dos herejes, só me lembro do poeta Manuel Bandeira e do crítico Prudente de Morais, neto. Bandeira, já muito carioca de Botafogo – o "Antônio Nobre do Botafogo", dizia-se então dêle – tornou-se por algum tempo um Regionalista de corpo inteiro, tendo feito seu noviciado do modo mais prático, isto é, vindo ao Recife, metendo-se numa toca de Regionalistas ardentes e aqui experimentando quitutes da terra e quindins de mulatas rústicas. E Prudente de Morais, neto, ainda há pouco tornou a contar-me como, antes de conhecer-me no Rio em 1926, passara de curioso a simpatizante do movimento do Recife, ouvindo um "Modernista" ortodoxo – isto é, graça-aranhista – chegado do Norte, referir-se aos Regionalistas do Recife como a um grupo de lastimáveis retardados mentais. Um dêsses retardados, contara a Prudente de Morais, neto, o tal "modernista" ortodoxo, que chegara ao exagêro de pretender que se devia tolerar o mucambo de palha e até mais: que se devia abrir na cidade um restaurante com "comidas de negro", com uma preta da Costa á porta, assando milho ou fazendo tapioca. Restaurante servido não por "garçons" convencionais como os do "Leite", mas por mucamas de xale encarnado e chinelo sem meia e que oferecesse aos fregueses água de côco no próprio côco, garapa de tamarindo, refresco de maracujá pingado de cachaça, ao som não de "fox-trots", mas, de modinhas ao violão e cantigas de xangô. Era ou não coisa de doido ou de imbecil? Prudente de Morais, neto, que já era então, dentro de sua timidez de auto-crítico, a maior vocação de crítico ao mesmo tempo de idéias e de letras que apareceu no Brasil, sorriu. O "modernista" ortodoxo pensou que o modernista dissidente da revista "Estetica" estivesse sorrindo com êle dos imbecis, a seu ver, anti-modernos, do Recife. De modo que disse "Até logo" ao crítico sentindo-se feliz e superior. Mas Prudente de Morais, neto, não estava certo de que os esquisitões do Recife fôssem propriamente imbecis ou anti-modernos. E tomou-se de simpatia pelo movimento que o outro caricaturara. O sorriso de Prudente foi, na verdade, o comêço de uma simpatia fraternal que se exprimiria na figura de "Pedro Dantas": pseudônimo com que o carioca descendente de paulistas colaborou, algum tempo depois, na "A Província", jornal em que se prolongou o Regionalismo do Congresso e do Centro Regionalista da Rua do Paissandú e no qual colaboraram os melhores escritores e artistas da região. Entre outros, José Américo de Almeida, Jorge de Lima, Pontes de Miranda, Luiz Jardim, José Lins do Rêgo, Barbosa Lima Sobrinho, Cícero Dias, Olívio Montenegro, Sílvio Rabêlo, Rafael Xavier. "A Província" foi também jornal em que se estrearam jovens talentos da região, entre outros Nehemias Gueiros, José Antônio Gonçalves de Melo Neto e Mário Lins.

      O Congresso Regionalista este teve alguma repercussão no Rio. Já disse que deu para inquietar o Presidente da República. Chegou a atrair homens do Rio e de São Paulo: intelectuais, arquitetos, urbanistas, pintores, que vieram participar das suas reuniões.

      Reuniões nas quais tratou-se pela primeira vez no Brasil, sob critério ao mesmo tempo ecológico e técnico, do problema da urbanização como problema regional: a articulação das cidades com seus arredores rurais.

      Durante o Congresso é que escrevi e li as palavras que ficaram conhecidas como "Manifesto Regionalista", só em parte publicado no "Diario de Pernambuco". Pois o nosso propósito era publicar em volume não só êste manifesto, como as teses apresentadas nas comissões ou lidas em plenário. Projeto que fracassou porque faliu o velho Banco, em que estava depositado o dinheiro do Centro. Mas, como a papelada existe, ainda é possível que venha a ser publicada breve pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social.

      Porque o Instituto é de algum modo filho ou neto do Movimento Regionalista. Filho ou neto com deveres de gratidão para com o um tanto esquecido pioneiro, em dias remotos já voltado para a necessidade de estudos sistemáticamente regionais de antropologia, história, sociologia e economia brasileira; e desde 1925, desejoso de que pintores decorassem nossos edifícios e nossas praças com figuras de negros e mestiços trabalhadores de engenho, de trapiche de cozinha e não apenas com perfis, bustos e estátuas equestres de generais, bispos e doutores brancos; que essas ruas e praças fossem arborizadas com árvores das matas brasileiras e não exóticas; desejoso, também de que nos romances, nos contos, nos ensaios, na poesia, no teatro, os escritores, sem se tornarem sectariamente regionalistas, não se envergonhassem de ser regionais nos seus motivos e modos de expressão.

      "The alliance of the regional with the language born of a period has been fruitful in every age", escreveu há pouco Siegfried Giedion num dos seus grandes livros. É também o critério de Lewis Mumford. O de Mukerjee na Índia. Foi em dias já remotos o empenho dos Regionalistas ao mesmo tempo tradicionalistas e modernistas do Recife. Empenho que os levou a considerar de modo sistemático problemas como o de planejamento regional. A concitarem em arte o modernismo com o tradicionalismo.

      Vou agora lêr o chamado "Manifesto Regionalista de 1926", com alguns pequenos acréscimos á reconstituição do manuscrito há anos abandonado. Como é um tanto longo, lerei o documento à maneira do Centro Regionalista: em voz de conversa e parando no meio da leitura para não cansar demasiadamente o auditório. Leitura em duas partes. Entre uma e outra, a gentileza da família Odilon Nestor concordou em fazer servir aos ouvintes, como nos dias heróicos do Regionalismo, sequilhos e dôces regionais. Nossos agradecimentos á bôa gente, outrora do Paissandú, hoje do Caminho Novo, sempre fiel ás melhores tradições de arte e de espírito da Região. E nossos agradecimentos a Odilon Nestor, presidente efetivo, presidente honorário, presidente perpétuo do Centro Regionalista do Nordeste, que, igualmente concordou com o diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social em presidir esta comemoração regionalista. A só presença de Odilon Nestor honra e abrilhanta a reunião. Sua presidência dá à comemoração de hoje um significado especial, que não preciso pôr em destaque. Que nossas melhores palmas sejam para o homem que mais animou, desenvolveu e sustentou o Centro Regionalista do Nordeste, realizador do Primeiro Congresso de Regionalismo no Brasil. (1)

(1) – Palavras de que Gilberto Freyre precedeu a leitura do "Manifesto Regionalista", feita na comemoração do 25.º aniversário do Primeiro Congresso de Regionalistas do Nordeste, realizada no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social, na noite de 20 de Março de 1951.

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MANIFESTO REGIONALISTA

O Manifesto que se segue foi lido no Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo que se reuniu na cidade do Recife, durante o mês de Fevereiro de 1926 e que foi o primeiro do gênero, não só no Brasil como na América, só depois do Congresso do Recife tendo se reunido nos Estados Unidos a Conferência Regionalista de Charlottesville (Virginia), com o apôio de Franklin D. Roosevelt e de outros eminentes norte-americanos e do qual participou o autor do "Manifesto de 1926" do Recife, por iniciativa e convite do seu colega Ruediger Bilden. Divulgado em parte por jornais da época, êste "Manifesto" é hoje pela primeira vez publicado na íntegra.



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      Há dois ou três anos que se esboça nesta velha metropole regional que é o Recife um movimento de reabilitação de valores regionais e tradicionais desta parte do Brasil: movimento de que mestres autênticos como o humanista João Ribeiro e o poeta Manuel Bandeira vão tomando conhecimento e a que agora se juntam pela simpatia, quando não pela solidariedade ativa e até militante, não só norte-americanos como Francis Butler Simkins – que anuncia dever a um brasileiro do Recife seu critério regional de estudar a história do Sul dos Estados-Unidos – franceses como Regis de Beaulieu e alemães como Ruediger Bilden como alguns dos mais adiantados arquitetos, urbanistas e homens de letras do Rio. Concorrem êles ao Congresso de Regionalismo, do Recife com trabalhos e teses, acrescentando suas contribuições ás de homens do próprio Nordeste ou aqui radicados: homens públicos ou de ciência, preocupados com problemas urbanos e rurais da região como Amaury de Medeiros, Gouveia de Barros e Ulysses Pernambucano; homens de letras empenhados na defesa dos nossos valores históricos como Carlos Lyra Filho, Luiz Cedro, Samuel Campêlo, Aníbal Fernandes, Joaquim Cardoso, Mário Melo, Mário Sete, Manuel Caetano de Albuquerque e seu filho José Maria – tão pichoso na arte da fotografia quanto na da tipográfica; homens de saber interessados em dar sentido regional ao ensino, á organização universitária e á cultura intelectual entre nós, como Odilon Nestor e Morais Coutinho, Alfredo Freyre e Antônio Inácio; velhos lavradores ou homens de campo voltados inteligentemente para os problemas de defesa e valorização da paisagem ou da vida nos seus aspectos rurais ou folclóricos, como Júlio Bello, Samuel Hardman, Gaspar Peres, Pedro Paranhos e Leite Oiticica. Homens, tôdos êsses, com o sentido de regionalidade acima do de pernambucanidade – tão intenso ou absorvente num Mário Sette – do de paraibanidade – tão vivo em José Américo de Almeida – ou do de alagoanidade – tão intenso em Otávio Brandão – de cada um; e êsse sentido por assim dizer eterno em sua forma – o modo regional e não apenas provincial de ser alguém de sua terra – manifestado numa realidade ou expresso numa substância talvez mais histórica que geográfica e certamente mais social do que política. Realidade que a expressão "Nordeste" define sem que a pesquisa científica a tenha explorado até hoje, sob o critério regional da paisagem, a não ser em raras obras como a de um Von Luetzelburg, admirável economista alemão ainda mais identificado conosco do que Konrad Guenther, o sábio fitopatologista, que há pouco visitou esta parte do Brasil a convite de um de nós – Samuel Hardman – enquanto, a meu convite, qui já estiveram, tomando contato com tradições e problemas da região, meus antigos colegas na Universidade de Columbia, Ruediger Bilden e senhora e Francis Butler Simkins, o mesmo prometendo fazer ainda êste ano meu companheiro francês de aventuras intelectuais em Paris, Regis de Beaulieu: aquele que tendo me levado a conhecer seu mestre, Charles Maurras, não hesitou em mais de uma vez sentar-se comigo numa La Rotonde ainda quente da presença de Lenine.

      Toda terça-feira, um grupo apolítico de "Regionalistas" vêm se reunindo na casa do Professor Odilon Nestor, em volta da mesa de chá com sequilhos e dôces tradicionais da região – inclusive sorvete de Coração da Índia – preparados por mãos de sinhás. Discutem-se então, em voz mais de conversa que de discurso, problemas do Nordeste. Assim tem sido o Movimento Regionalista que hoje se afirma neste Congresso: inacadêmico mas constante. Animado por homens práticos como Samuel Hardman e não apenas por poetas como Odilon Nestor; por homens politicamente da "esquerda" como Alfredo Morais Coutinho e da extrema "direita" como Carlos Lyra Filho.

      Seu fim não é desenvolver a mística de que, no Brasil, só o Nordeste tenha valor, só os sequilhos feitos por mãos pernambucanas ou paraibanas de sinhás sejam gostosos, só as rendas e rêdes feitas por cearense ou alagoano tenham graça, só os problemas da região da cana ou da área das sêcas ou da do algodão apresentem importância. Os animadores desta nova espécie de regionalismo desejam vêr se desenvolvem no País outros regionalismos que se juntem ao do Nordeste, dando ao movimento o sentido organicamente brasileiro e até americano, quando não mais amplo, que êle deve ter.

      A maior injustiça que se poderia fazer a um regionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismo ou com bairrismo. Com anti-internacionalismo, anti-universalismo ou anti-nacionalismo. Êle é tão contrário a qualquer espécie de separatismo que, mais unionista que o atual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pela República – êste sim, separatista – para substituí-lo por novo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes que os Estados, se completem e se integrem ativa e creadoramente numa verdadeira organização nacional. Pois são modos de ser – os caracterisados no brasileiro por sua forma regional de expressão – que pedem estudos ou indagações dentro de um critério de interrelação que, ao mesmo tempo que amplie, no nosso caso, o que é pernambucano, paraibano, norte-rio-grandense, piauiense e até maranhense, ou alagoano ou cearense em nordestino, articule o que é nordestino em conjunto com o que é geral e difusamente brasileiro ou vagamente americano.

      Dizendo sistema não sei se imprego a expressão exata. Nosso movimento não pretende senão inspirar uma nova organização do Brasil. Uma nova organização em que as vestes em que anda metida a República – roupas feitas, roupagens exóticas, veludos para frios, peles para gêlos que não existem por aqui – sejam substituídas não por outras roupas feitas por modista estrangeira mas por vestido ou simplesmente túnica costurada pachorrentamente em casa: aos poucos e toda sob medida. Daí ser perigoso fala-se precipitadamente num novo "sistema" quando o caminho indicado pelo bom senso para a reorganização nacional parece ser o de dar-se, antes de tudo, atenção ao corpo do Brasil, vítima, desde que é nação, das estrangeirices que lhe têm sido impostas, sem nenhum respeito pelas peculiaridades e desigualdades da sua configuração física e social; e com uma outra pena de índio ou um ou outro papo de tucano a disfarçar o exotismo norte-europeu do trajo. Primeiro, sacrificaram-se as Províncias ao imperialismo da Côrte: um Côrte afrancesada ou anglicisada. Com a República – esta ianquisada – as Províncias foram substituídas por Estados que passaram a viver em luta entre si ou com a União, impotente, nuns pontos, e, noutros, anárquica: sem saber conter os desmandos para-imperiais dos Estados grandes e ricos, nem policiar as turbulências balcânicas de alguns dos pequenos em população e que deviam ser ainda Territórios e não, prematuramente, Estados.

      Essa desorganização constante parece resultar principalmente do fato de que as regiões vêm sendo esquecidas pelos estadistas e legisladores brasileiros, uns preocupados com os "direitos dos Estados", outros, com as "necessidades de união nacional", quando a preocupação máxima de todos deveria ser a de articulação interregional. Pois de regiões é que o Brasil, sociologicamente, é feito, desde os seus primeiros dias. Regiões naturais a que se sobrepuseram regiões sociais.

      De modo que sendo esta a sua configuração, o que se impõe aos estadistas e legisladores nacionais é pensarem e agirem interregionalmente. É lembrarem-se sempre de que governam regiões e de que legislam para regiões interdependentes, cuja realidade não deve ser esquecida nunca pelas ficções necessárias dentro dos seus limites: "União" e "Estado". O conjunto de regiões é que forma verdadeiramente o Brasil. Somos um conjunto de regiões antes de sermos uma coleção arbitrária de "Estados", uns grandes outros pequenos, a se guerrearem economicamente como outras tantas Bulgárias, Sérvias e Montenegros e a fazerem as vêzes de partidos políticos – São Paulo contra Minas, Minas contra Rio Grande do Sul – num jôgo perigosissimo para a unidade nacional.

      Regionalmente é que deve o Brasil ser administrado. É claro que administrado sob uma só bandeira e um só govêrno, pois regionalismo não quer dizer separatismo, ao contrário do que disseram ao Presidente Artur Bernardes. Regionalmente deve ser estudada, sem sacrifício do sentido de sua unidade, a cultura brasileira, do mesmo modo que a natureza; o homem da mesma forma que a paisagem. Regionalmente devem ser considerados os problemas de economia nacional e os de trabalho. Como me aventuro a dizer num arremedo de poema que acabo de entregar ao pintor Luís Jardim, para que êle o ilustre com seu traço admirável:

"O mapa do Brasil em vez das côres dos estados
terá as côres das produções e dos trabalhos."

      Procurando reabilitar valores e tradições do Nordeste repito que não julgamos estas terras, em grande parte áridas e heroicamente pobres, devastadas pelo cangaço, pela malária e até pela fôme, as Terras Santas ou a Cocagne do Brasil. Procuramos defender êsses valores e essas tradições, isto sim, do perigo de serem de todo abandonadas, tal o furor neofílo de dirigentes que, entre nós, passam por adiantados e "progressistas" pelo fato de imitarem cega e desbragadamente a novidade estrangeira. A novidade estrangeira de modo geral. De modo particular, nos Estados ou nas Províncias, o que o Rio ou São Paulo consagram como "elegante" e como "moderno": inclusíve êsse carnavalesco Papai Noel que, esmagando com suas botas de andar em trenó e pisar em neve, as velhas lapinhas brasileiras, verdes, cheirosas, de tempo de verão, está dando uma nota de ridículo aos nossos natais de família, também enfeitados agora com arvoresinhas estrangeiras mandadas vir da Europa ou dos Estados Unidos pelos burgueses mais cheios de rique-fifes e de dinheiro.

      A verdade é que não há região no Brasil que exceda o Nordeste em riquesa de tradições ilustres e em nitidez de caráter. Vários dos seus valores regionais tornaram-se nacionais depois de impostos aos outros brasileiros menos pela superioridade econômica que o açúcar deu ao Nordeste durante mais de um século do que pela sedução moral e pela fascinação estética dos mesmos valores. Alguns até ganharam renome internacional como o mascavo dos velhos engenhos, o Pau Brasil das velhas matas, a faca de ponta de Pasmado ou de Olinda, a rêde do Ceará, o vermelho conhecido entre pintores europeus antigos por "Pernambuco", a goiabada de Pesqueira, o fervor católico de Dom Vital, o algodão de Seridó, os cavalos de corrida de Paulista, os abacaxís de Goiana, o balão de Augusto Severo, as telas de Rosalvo Ribeiro, o talento diplomático do Barão de Penedo – doutor "honoris causa" de Oxford – e o literário de Joaquim Nabuco – doutor "honoris causa" de universidades anglo-americanas. Como se explicaria, então, que nós, filhos de região tão creadora, é que fôssemos agora abandonar as fontes ou as raízes de valores e tradições de que o Brasil inteiro se orgulha ou de que se vem beneficiando como de valores basicamente nacionais?

      Sem se julgar estultamente o sal do Brasil, mas apenas o seu maior e melhor produtor de açúcar nos tempos coloniais – açúcar que está á base de uma doçaria, rica como nenhuma do Império, e á base, também de uma doce aristocracia de maneiras, de gôstos, de modos de viver e de sentir, tornada possível pela produção e exportação de um mascavo tão internacionalmente famoso como, depois, o café de São Paulo – o Nordeste tem o direito de considerar-se uma região que já grandemente contribuiu para dar á cultura ou a civilização brasileira autenticidade e originalidade e não apenas doçura ou tempêro. Com Duarte Coêlho madrugaram na Nova Lusitânia valores europeus, asiáticos, africanos que só depois se estenderam a outras regiões da América Portuguesa. Durante a ocupação holandesa, outros valores aqui surgiram ou foram aqui recriados para benefício do Brasil inteiro. Apenas nos últimos decênios é que o Nordeste vem perdendo a tradição de criador ou recriador de valores para tornar-se uma população quase parasitária ou uma terra apenas de relíquias: o paraíso brasileiro de antiquários e de arqueólogos. Ou o refúgio daquêles patriotas meio necrófilos cujo patriotismo se contenta em poder evocar, nos dias de festas nacionais, glórias remotas e antecipações gloriosas, exagerando-as, nos discursos, dourando-as nos elogios históricos com brilhos falsos, revestindo-os nas composições genealógicas de azues também excessivamente heráldicos.

      Lembro-me – e recordei o fato num dos primeiros artigos que aqui publiquei ao regressar da Europa em 1923 – do interêsse com que, há três ou quatro anos, em Versailles, entre fidalgos franceses e aristocratas russos que me deram o gôsto ou a impressão de uma Europa já mais histórica do que atual, o velho Clement de Grandprey – ilustre tropicalista e talvez o único espírito moço naquele meio de condes arcaicos e viscondessas velhas – me interrogava: e os mucambos de Pernambuco? Não o maravilhara aqui, nos fins do século XIX, a Igreja da Penha ou o palácio da Estrada de Ferro Central: dois dos primeiros lamentáveis arremedos da civilização que Geddes chamaria paleotécnica com que foi mais ostensivamente perturbada, em sua autenticidade e em seu processo de adaptação ao meio, a arquitetura tradicionalmente portuguesa do Recife: honesta arquitetura cheia de boas reminiscências orientais e africanas, inclusive a da côr, a dos verdes, azues, rôxos, amarelos e vermelhos vivos dos sobrados altos, das casas de sítio, das próprias igrejas. A maior impressão de Clement de Grandprey, em Pernambuco, fôra a do simples mucambo, a da "casa de caboclo", a da casa de palha dos pescadores das praias.

      É que o mucambo se harmonisa com o clima, com as águas, com as côres, com a natureza, com os coqueiros e as mangueiras, com os verdes e os azues da região como nenhuma outra construção. Percebeu-o o orientalista francês em sua rápida passagem por Pernambuco do mesmo modo que o percaberia depois o cientista alemão, também pintor, Ph. Von Luetzelburg. Percebem-no os que, sendo da terra, têm olhos para vêr e admirar o que é característico da região e para saber separá-lo do simplesmente pitoresco ou curioso. Os que têm olhos para vêr a sua Província ou a sua Região como Lafcadio Hearn viu a Louisiana e as Índias Ocidentais Francesas.

      Com toda a sua primitividade, o mucambo é um valor regional e, por extensão, um valor brasileiro, e, mais do que isso, um valor dos trópicos: êstes caluniados trópicos que só agora o europeu e o norte-americano vêm redescobrindo e encontrando nêles valôres e não apenas curiosidades etnográficas ou motivos patológicos para alarmes. O mucambo é um dêsses valores. Valor pelo que representa de harmonização estética: a da construção humana harmonisada com a natureza. Valor pelo que representa de adaptação higiênica; a do abrigo humano adaptado á natureza tropical. Valor pelo que representa como solução econômica do problema da casa pobre: a máxima utilização, pelo homem, da natureza regional, representada pela madeira, pela palha, pelo cipó, pelo capim fácil e ao alcance dos pobres.

      O mal dos mucambos no Recife, como noutras cidades brasileiras, não está propriamente nos mucambos mas na sua situação em áreas despresíveis e hostís á saúde do homem: alagados, pântanos, mangues, lama pôdre. Bem situado, o mucambo – e a casa rural coberta de palha ou de vegetal sêco não nos esqueçamos que se encontra também na Irlanda e na própria Inglaterra – é habitação superior a êsses tristes sepulcros nem sempre bem caiados que são, entre nós, tantas das casas de pedra e cal, sem oitões livres e iluminadas apenas por tristonhas claraboias que apenas disfarçam a falta de luz e a pobreza de ar, dentro das quis vive vida breve ou morre aos poucos – quando não ás pressas arrastada pela tísica galopante – a maior parte da gente média da região, nas cidades e até nos povoados.

      Não foi contra os mucambos que se voltou a maior indignação de sanitarista de Saturnino de Brito quando estudou o problema da casa no Recife: foi contra aquelas casas verdadeiramente sepulcrais. Elas, sim, é que pecam contra a natureza regional: e não os mucambos. Não os caluniados mucambos. Não as casas que os "caboclos", os negros, os pardos, os pescadores, os pobres da região levantam êles próprios, ás vezes por meio do esfôrço comum do mutirão, revestindo-as e cobrindo-as de palhas, fôlhas e capins sêcos que franciscanamente defendem os moradores das chuvas e das ventanias fortes sem os privarem do sol, do ar e da luz tropicais.

      O mesmo poderia alguém dizer das velhas ruas estreitas do Nordeste. Bem situadas, são, entre nós, superiores não só em pitoresco como em higiene ás largas. As ruas largas são necessárias – ninguém diz que não, desde que exigidas pelo tráfego moderno; mas não devem excluir as estreitas.

      Ainda há pouco um estrangeiro viajadissimo era com que se encantava no Rio de Janeiro: com as velhas ruas estreitas. E não com as largas. Não com avenidas incaracterísticas. Não com as nossas imitações ás vezes ridículas de "boulevards" e de "broadways", por onde a gente anda a pé só falta derreter-se sob o sol forte com que o bom Deus ora nos favorece ora nos castiga. Entretanto, quando eu primeiro elogiei aqui as ruas estreitas e lamentei o desaparecimento dos velhos arcos que se harmonisavam com elas e das casas e sobrados pintados de vermelho, de verde, de azul ou revestidos de azulejos – azulejos que chegaram a ser condenados estupidamente, no Recife, por lei municipal – foi como se tivesse escrito heresia em porta de igreja ou obscenidade ou safadeza em muro de colégio de moça. O mesmo quando louvei na cidade do Recife o seu resto de recato mouro: outro absurdo para os modernistas da terra pois as cidades deviam ser tôdas abertas ao sol e aos olhos dos turistas e nunca fechadas dentro de paredes, muros e rótulas, aqui mais protetoras do homem do que o vidro nos paises de pouca luz e de sol parecido com lua.

      Reconheçamos a necessidade das ruas largas numa cidade moderna, seja qual fôr sua situação geográfica ou o sol que a ilumine; mas não nos esqueçamos de que a uma cidade do trópico, por mais comercial ou industrial que se torne, convém certo número de ruas acolhedoramente estreitas nas quais se conserve a sabedoria dos árabes, antigos donos dos trópicos: a sabedoria de ruas como a Estreita do Rosário ou de bêcos como o do Cirigado que defendam os homens dos excessos de luz, de sol e de calôr ou que os protejam com a doçura das suas sombras. A sabedoria das ruas com arcadas, de que o Recife devia estar cheio. A sabedoria das casas com rótulas ou janelas em xadrez, que ainda se surpreendem em ruas velhas daqui e de Olinda.

      Ao velho Recife o gênio dos mouros, mestres, em tanta cousa, dos portugueses – aos quais entretanto deram o máu exemplo, tão seguido pelos brasileiros, do horror á árvore – transmitiu a lição preciosa das ruas estreitas; e, sempre que possível, devemos conservá-las ao lado das avenidas americanamente largas – ou como afluentes dêsses "boulevards" amazônicos – em vez de nos deixarmos desorientar por certo anti-lusismo que vê em tudo que é herança portuguesa um mal a ser despresado; ou por certo modernismo ou ocidentalismo que vê em tudo o que é antigo ou oriental um arcaismo a ser abandonado.

      Modernismo responsável por outra inovação contra a qual se levanta nosso regionalismo: a horrível mania que hoje nos persegue de mudarmos os mais saborosamente regionais nomes de ruas e de lugares velhos – Rua do Sol, Bêco do Peixe Frito, Rua da Saudade, Chora Menino, Sete Pecados Mortais, Encanta Moça – para nomes novos: quase sempre nomes inexpressivos de poderosos do dia. Ou datas insignificantemente políticas.

      É outro ponto em que venho insistindo nos meus artigos desde que aqui cheguei; e, como no caso dos mucambos, tal atitude me tem valido não só o soberano desprêso dos engenheiros mais simplistas – místicos do cimento armado e mistagogos das avenidas largas, gente que há anos dominou esta como outras cidades do Brasil e, ao contrário dos engenheiros mais esclarecidos, só sabe derrubar igrejas, sobrados de azulejos, arcos como o da Conceição, palmeiras antigas, gameleiras velhas, jardins ou hortos coloniais, contanto que os velhos burgos de fundação portuguesa se assemelhem ás mais modernas cidades norte-americanas ou francesas – como a pecha de "blagueur". Ou de literato metido a superior que, farto de viagens pela América do Norte e pela Europa, desejasse, como um novo e barato Fradique de subúrbio, divertir-se á custa da ingenuidade da gente mais simples de sua Província: daí louvar-lhe os atrazos em vez de glorificar-lhe os progressos. Querer museus com panelas de barro, facas de ponta, cachimbos de matutos, sandalias de sertanejos, miniaturas de almanjarras, figuras de cerâmica, bonecas de pano, carros-de-boi e não apenas com relíquias de heróis de guerras e mártires de revoluções gloriosas. Exaltar bumbas-meu-boi, maracatús, mamulengos, pastorís e clubes populares de carnaval, em vez de trabalhar pelo desenvolvimento do "Rádio Clube" ou concorrer para o brilho dos bailes do "Clube Internacional". Levantar-se contra o loteamento de sítios velhos alegando que as cidades precisam de árvores, de hortas, de mato tanto quanto de casas e ruas. Querer os grandes edifícios públicos e as praças decoradas com figuras de homens de trabalho, mestiços, homens de côr em pleno movimento de trabalho, cambiteiros, negros de fornalha de engenho, cabras de trapiches e de almanjarras, pretos carregadores de açúcar, carros de boi cheios de cana, jangadeiros, vaqueiros, mulheres fazendo renda – e não com as imagens convencionais e côr-de-rosa de deusas européias da Fortuna e da Liberdade, de deuses romanos disto e daquilo, de figuras simbólicas das Quatro Estações. Desejar um museu regional cheio de recordações das produções e dos trabalhos da região e não apenas de antiguidades ociosamente burguesas como jóias de baronesas e bengalas de gamenhos do tempo do Império.

      Ainda há pouco fui acusado de estar levando satanicamente ao ridículo alguns dos homens mais respeitáveis da região, já envolvidos por mim – dizem os críticos – no que chamam o "carnaval regionalista". Isto porque consegui do velho Leite Oiticica, que, do seu engenho das Alagôas, escrevesse para o livro comemorativo do primeiro centenário do



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