Manual de formacion pessoal



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MANUAL DE FORMAÇÃO PESSOAL


PARA OS MEMBROS DO



MOVIMENTO HUMANISTA


INDICE

Introdução Geral

1. Temas de estudo

Introdução aos temas de estudo



Temas do Humanismo Universalista

1. - Que é hoje o Movimento Humanista


2. - O Documento do Movimento Humanista


3. - Antecedentes e pontos fundamentais do Humanismo Universalista


4. - A respeito do Humano


5. - A abertura social do ser humano


6. - A ação transformadora.



Temas sobre a superação do sofrimento

7. - Os temas do sofrimento


8. - Mudança e crise


9. - As virtudes


10. -A verdadeira solidariedade



Temas sobre a não-violência

11. - As diferentes formas de violência


12.- A violência, o estado e a concentração do poder


13.- A não-violência ativa



Temas da Psicologia Humanista

14. - Psicologia Humanista (Parte I: O Psiquismo)


15.- Psicologia Humanista (Parte II: Esquema e Aparatos do Psiquismo)


16.- Psicologia Humanista (Parte III: a Consciência e o eu)


17.- A realidade: paisagens e olhares


18.- Imagem e espaço de representação


19.- As experiências guiadas


20.- A atenção



Anexo I: Sobre o Ponto de Vista, Descrições, Resumos e Sínteses.
2. Práticas de trabalho pessoal


Introdução às práticas de trabalho pessoal

Seminários


1.- Seminário N.º1 sobre práticas atencionais

Anexo 1: Conclusão sobre a atenção


Anexo 2: A atenção


2.- Seminário N.º 2 sobre práticas atencionais


Anexo 1: Aporte sobre a atenção


3.- Seminário sobre as virtudes


4.- Seminário sobre práticas de relaxamento


5.- Seminário sobre os aforismos


6.- Seminário sobre A experiência


7.- Seminário sobre Violência e Não-violência



Retiros


9.- Retiro sobre práticas de Relaxamento

10.- Retiro sobre práticas Psicofísicas


11.- Retiro sobre as Experiências Guiadas


12.- Retiro sobre o Espaço de Representação


13.- Retiro sobre o Autoconhecimento


14.- Retiro sobre a Paisagem de Formação


15.- Retiro no 1 sobre Operativa: Catarse


Anexo 1: perguntas


Anexo 2: O psiquismo


Anexo 3: Apresentação do esquema do psiquismo


16.- Retiro no 2 sobre Operativa: Transferência


Anexo: Análise pessoal



INTRODUÇÃO GERAL
O Movimento Humanista trabalha pelo desenvolvimento pessoal em função da transformação social.

Luta pela humanização do mundo como força internacionalista, antidiscriminatória, solidária e não-violenta na sua metodologia de ação.


Os aspectos doutrinários de suas atividades e projetos se apóiam na visão do Humanismo Universalista e faz desta visão o ponto de apoio para seu desenvolvimento e para a formação pessoal de seus membros.


Este Manual inclui uma série de Temas de Estudo e Práticas recomendadas para todos os membros do Movimento que sentem a necessidade de avançar no crescimento e fortalecimento pessoal de forma simultânea ao desenvolvimento de seus projetos de transformação social.


Está organizado em duas grandes seções: 20 temas de estudo e 15 seminários e retiros de trabalho pessoal.


Os temas desenvolvidos em ambas as seções resumem os aspectos teóricos e práticos mais relevantes da doutrina Humanista.


Estes temas de estudo, retiros e seminários de trabalho pessoal estão pensados para serem feitos nos Centros de Trabalho dos Parques de Estudo e Reflexão; por enquanto estes lugares, com seus espaços abertos e a Sala, resultam inspiradores para a experiência interna e o intercâmbio enriquecedor. Quando não se dispõe de um de nossos Parques nas proximidades, se considerará como Centro de Trabalho a todo lugar alugado temporariamente para realizar estes trabalhos.


Por último, em cada um dos trabalhos se detalham as referências bibliográficas às quais cada pessoa pode dirigir-se com o fim de ampliar e aprofundar os temas tratados.

Equipe de Trabalho:

Víctor Piccininni; Karen Rohn; Gustavo Joaquín; Claudio Miconi; Edgardo Perez Aguirre; Hugo Novotny e Marcos Pampillón.

Centro de Estudos Punta de Vacas

15 de Março de 2009



TEMAS DE ESTUDO

INTRODUÇÃO AOS TEMAS DE ESTUDO
Os Temas de Estudo incluem 20 temas formativos que resumem os aspectos mais importantes do pensamento e doutrina do Humanismo Universalista.

Foram ordenados em 4 seções temáticas:


1. Temas do Humanismo Universalista


2. Temas sobre a superação do sofrimento


3. Temas sobre a não-violência


4. Temas da Psicologia Humanista

Foram elaborados a fim de servirem como rédeas para a realização de jornadas de estudo, reflexão e intercâmbio entre os membros do Movimento Humanista, e também como temas de apoio para os seminários e retiros que se realizam nos Centros de Estudo e Reflexão e que estão desenvolvidos na segunda seção deste manual (Práticas).

Os Temas de Estudo estão estruturados atendendo a facilitar o esclarecimento e a compreensão dos temas fundamentais do Humanismo Universalista.


O aprofundamento dos temas aqui desenvolvidos se pode realizar apoiando-se na bibliografia que se detalha ao pé de página de cada documento.


A ordem em que são expostos estes trabalhos, não implica uma ordem de importância, nem uma ordem a ser seguida. Cada grupo de estudo abordará os mesmos atendendo às necessidades dos membros e ao momento de processo de cada um deles.

Estes temas poderão ser estudados individualmente ou em equipe. Em todos os casos, recomenda-se o estudo deles seguindo as pautas do material titulado “Sobre o Ponto de Vista, Descrição, Resumo e Síntese” que se inclui no Anexo 1 deste manual.

TEMAS DO HUMANISMO UNIVERSALISTA



Tema de Estudo N º 1


QUE É HOJE O MOVIMENTO HUMANISTA?

Por acaso é um refúgio frente a esta crise geral do Sistema em que vivemos? Será, talvez, uma crítica sustentada a um mundo que se desumaniza dia após dia? Será que é uma nova linguagem e um novo paradigma, uma nova interpretação do mundo e uma nova paisagem? Representará uma corrente ideológica ou política, uma nova estética, uma nova escala de valores? Consistirá em uma nova espiritualidade, em uma ação destinada a resgatar o subjetivo e o diverso na ação concreta? Será que O Movimento é a expressão de uma luta a favor dos despossuídos, dos abandonados e os perseguidos? Será que é a manifestação dos que sentem a monstruosidade de que os seres humanos não tenham os mesmos direitos nem as mesmas oportunidades?

O Movimento é tudo isso e muito mais. É a expressão prática do ideal de Humanizar a Terra e é a aspiração de dirigir-se para uma Nação Humana Universal. É o germe de uma nova cultura nesta civilização que se faz planetária, e que terá que mudar seu rumo admitindo e valorizando as diversidades e dando a todo ser humano, pela dignidade que merece pelo simples fato de nascer, iguais direitos e idênticas oportunidades.

O Movimento Humanista é a manifestação externa das profundas mudanças que estão operando no interior do ser humano que são a mesma história: trágica, desconcertante, mas sempre em crescimento. É uma débil voz adiantada que anuncia os tempos que estão além do ser humano que conhecemos. É uma poesia e um arco de cores diversas. É um David frente a um insolente Golias. É a suavidade da água frente à dureza da rocha. É a força do débil: um paradoxo e um Destino.


Meus amigos, ainda que não alcancemos imediatamente os resultados que esperamos, esta semente já existe e espera a chegada dos tempos vindouros.


Para todos e de coração a coração, o desejo fervoroso da mudança social que se avizinha e a esperança da silenciosa mudança que além de toda compulsão, de toda impaciência, de toda aspiração violenta, além de toda culpa e de todo sentimento de fracasso, já aninha na íntima profundidade de muitos humanistas.



Bibliografia
Mensagem pronunciada por Silo (fundador do Movimento Humanista) na reunião internacional realizada no estádio esportivo Obras Sanitárias de Buenos Aires, no dia 4 de Janeiro de 1998.

Tema de Estudo N º 2


O DOCUMENTO DO MOVIMENTO HUMANISTA

Os humanistas são mulheres e homens deste século, desta época. Reconhecem os antecedentes do Humanismo histórico e inspiram-se nas contribuições das diferentes culturas, não só daquelas que neste momento ocupam um lugar central. São, além disso, homens e mulheres que deixam para trás este século e este milênio e se projetam para um novo mundo.


Os humanistas sentem que a sua história é muito longa e que o seu futuro é ainda mais extenso. Pensam no porvir, lutando por superar a crise geral do presente. São otimistas, crêem na liberdade e no progresso social.
Os humanistas são internacionalistas, aspiram a uma nação humana universal. Compreendem globalmente o mundo em que vivem e atuam no seu meio imediato. Não desejam um mundo uniforme, mas múltiplo: múltiplo nas etnias, línguas e costumes; múltiplo nas localidades, nas regiões e nas autonomias; múltiplo nas idéias e nas aspirações; múltiplo nas crenças, no ateísmo e na religiosidade; múltiplo no trabalho; múltiplo na criatividade.
Os humanistas não querem amos; não querem dirigentes nem chefes, nem se sentem representantes nem chefes de ninguém. Os humanistas não querem um Estado centralizado, nem um Para-Estado que o substitua. Os humanistas não querem exércitos policiais, nem bandos armados que os substituam.
Porém, entre as aspirações humanistas e as realidades do mundo de hoje, levantou-se um muro. Chegou, pois, o momento de derrubá-lo. Para isso, é necessária a união de todos os humanistas do mundo.

I. O CAPITAL MUNDIAL
Eis a grande verdade universal: o dinheiro é tudo. O dinheiro é governo, é lei, é poder. É, basicamente, subsistência. Mas, além disso, é a Arte, é a Filosofia e é a Religião. Nada se faz sem dinheiro; nada se pode sem dinheiro. Não há relações pessoais sem dinheiro. Não há intimidade sem dinheiro e até a solidão repousada depende do dinheiro.
Mas a relação com essa “verdade universal” é contraditória. As maiorias não querem este estado de coisas. Estamos, pois, perante a tirania do dinheiro. Uma tirania que não é abstrata porque tem nome, representantes, executores e procedimentos indubitáveis.
Hoje não se trata de economias feudais, nem de indústrias nacionais; nem sequer de interesses de grupos regionais. O que hoje se passa é que aqueles sobreviventes históricos acomodam a sua parcela aos ditames do capital financeiro internacional. Um capital especulador que vai se concentrando mundialmente. Desta maneira, até o Estado nacional requer crédito e empréstimo para sobreviver. Todos mendigam o investimento e dão garantias para que a banca se encarregue das decisões finais. Está chegando o tempo em que as próprias companhias, assim como os campos e as cidades, serão propriedade indiscutível da banca. Está chegando o tempo do Para-Estado, um tempo em que a antiga ordem deve ser aniquilada.
Paralelamente, a velha solidariedade evapora-se. Em suma, trata-se da desintegração do tecido social e do advento de milhões de seres humanos desconectados e indiferentes entre si, apesar das penúrias gerais. O grande capital domina não só a objetividade, graças ao controle dos meios de produção, como também a subjetividade, graças ao controle dos meios de comunicação e informação. Nestas condições, pode dispor a seu gosto dos recursos materiais e sociais tornando irrecuperável a natureza e descartando progressivamente o ser humano. Para isso conta com tecnologia suficiente. E assim como esvaziou as empresas e os estados, esvaziou a Ciência de sentido convertendo-a em tecnologia para a miséria, a destruição e o desemprego.
Os humanistas não necessitam abundar em argumentos quando enfatizam que hoje o mundo está em condições tecnológicas suficientes para solucionar, em curto espaço de tempo, o problema de vastas regiões no que respeita a pleno emprego, alimentação, saúde, habitação e instrução. Se esta possibilidade não se realiza é simplesmente porque a especulação monstruosa do grande capital o impede.
O grande capital já esgotou a etapa de economia de mercado e começa a disciplinar a sociedade para enfrentar o caos que ele mesmo produziu. Perante esta irracionalidade, não se levantam dialeticamente as vozes da razão, mas sim os mais obscuros racismos, fundamentalismos e fanatismos. E se este neo-irracionalismo vai liderar regiões e coletividades, então a margem de ação das forças progressistas fica dia-a-dia mais reduzida. Por outro lado, milhões de trabalhadores já tomaram consciência, tanto das irrealidades do centralismo estatal, como das falsidades da Democracia capitalista. E assim acontece que os operários se levantam contra as suas cúpulas corruptas dos grêmios, do mesmo modo que os povos questionam os partidos e os governos. Mas, é necessário dar uma orientação a estes fenômenos, pois de outro modo se estagnarão em um espontaneísmo sem progresso. É necessário discutir no seio do povo os temas fundamentais dos fatores de produção.
Para os humanistas existem como fatores de produção o trabalho e o capital, e estão a mais a especulação e a usura. Na atual situação, os humanistas lutam para que a absurda relação que tem existido entre esses dois fatores seja totalmente transformada. Até agora, impôs-se que o lucro seja para o capital e o salário para o trabalhador, justificando tal desequilíbrio pelo “risco” que assume o investimento... como se o trabalhador não arriscasse o seu presente e o seu futuro nos vai e véns do desemprego e da crise. Porém, além disso, está em jogo a gestão e a decisão na orientação da empresa. O lucro não destinado ao re-investimento na empresa, não dirigido à sua expansão ou diversificação, deriva para a especulação financeira. O lucro que não cria novas fontes de trabalho deriva para a especulação financeira. Por conseguinte, a luta dos trabalhadores tem de dirigir-se a obrigar o capital ao seu máximo rendimento produtivo. Mas isto não se poderá concretizar a menos que a gestão e a direção sejam partilhadas. De outro modo, como se poderiam evitar as demissões massivas, o fechamento e o esvaziamento empresarial? Porque o maior dano está no sub-investimento, na falência fraudulenta, no endividamento forçado e na fuga de capital; não nos lucros que se possam obter como conseqüência do aumento da produtividade. E caso se insistisse no confisco dos meios de produção por parte dos trabalhadores, seguindo os ensinamentos do século XIX, deveria ter-se também em conta o recente fracasso do Socialismo real.
Quanto à objeção de que enquadrar o capital, tal como está enquadrado o trabalho, produz a sua fuga para pontos e áreas mais proveitosas, deve esclarecer-se que isto não acontecerá durante muito mais tempo, já que a irracionalidade do esquema atual leva-o à sua saturação e à crise mundial. Essa objeção, além do reconhecimento de uma imoralidade radical, desconhece o processo histórico da transferência do capital para a banca, resultando disso que o próprio empresário vai se convertendo em empregado sem decisão dentro de uma cadeia em que aparenta autonomia. Por outro lado, à medida que se acentuar o processo recessivo, o próprio empresariado começará a considerar estes pontos.
Os humanistas sentem a necessidade de atuar não só no campo do trabalho como também no campo político para impedir que o Estado seja um instrumento do capital financeiro mundial, para conseguir que a relação entre os fatores de produção seja justa e para devolver à sociedade a sua autonomia arrebatada.


II. A DEMOCRACIA FORMAL E A DEMOCRACIA REAL
O edifício da Democracia vem ruindo gravemente ao racharem as suas bases principais: a independência entre poderes, a representatividade e o respeito pelas minorias.
A teórica independência entre poderes é um contra-senso. Basta pesquisar na prática a origem e composição de cada um deles para comprovar as íntimas relações que os ligam. Não poderia ser de outra maneira. Todos fazem parte de um mesmo sistema. De maneira que as freqüentes crises de atropelo de uns por outros, de sobreposição de funções, de corrupção e irregularidade, correspondem-se com a situação global, econômica e política, de um dado país.
Quanto à representatividade, desde a época da extensão do sufrágio universal, pensou-se que existia um só ato entre a eleição e a conclusão do mandato dos representantes do povo. Mas, com o passar do tempo, viu-se claramente que existe um primeiro ato mediante o qual muitos elegem poucos e um segundo ato em que estes poucos traem aqueles muitos, representando interesses estranhos ao mandato recebido. Esse mal já se incuba nos partidos políticos, reduzidos a cúpulas separadas das necessidades do povo. Aí, na máquina partidária, os grandes interesses já financiam candidatos e ditam as políticas que estes deverão seguir. Tudo isto evidencia uma profunda crise no conceito e na implementação da representatividade.
Os humanistas lutam para transformar a prática da representatividade, dando maior importância à consulta popular, ao plebiscito e à eleição direta dos candidatos. Porque ainda existem, em numerosos países, leis que subordinam candidatos independentes a partidos políticos, ou então, subterfúgios e limitações econômicas para se poder apresentar perante a vontade da sociedade. Toda a constituição ou lei que se oponha à capacidade plena do cidadão para eleger e ser eleito, burla pela raiz a Democracia real que está por cima de toda a regulação jurídica. E, em se tratando de igualdade de oportunidades, os meios de difusão devem pôr-se ao serviço da população no período eleitoral em que os candidatos expõem as suas propostas, atribuindo a todos exatamente as mesmas oportunidades. Por outra parte, devem impor-se leis de responsabilidade política mediante as quais todo aquele que não cumpra com o prometido a seus eleitores arrisque o desaforo, a destituição ou o julgamento político. Porque o outro expediente, aquele que atualmente é sustentado, mediante o qual os indivíduos ou os partidos que não cumpram, sofrerão o castigo das urnas nas eleições futuras, não interrompe de modo nenhum o segundo ato de traição aos representados. Quanto à consulta direta sobre os temas de urgência, cada dia existem mais possibilidades para a sua aplicação tecnológica. Não se trata de priorizar as sondagens e as pesquisas manipuladas, trata-se sim de facilitar a participação e o voto direto através de meios eletrônicos e computacionais avançados.
Numa democracia real, deve dar-se às minorias as garantias que merece a sua representatividade, mas, além disso, deve-se levar- ao extremo toda medida que favoreça na prática a sua inserção e desenvolvimento. Hoje, as minorias acossadas pela xenofobia e a discriminação, pedem angustiosamente o seu reconhecimento e, nesse sentido, elevar este tema ao nível das discussões mais importantes é responsabilidade dos humanistas, encabeçando a luta em cada lugar até vencer os neo-fascismos abertos ou encobertos. Em suma, lutar pelos direitos das minorias é lutar pelos direitos de todos os seres humanos.
Mas também acontece no conglomerado de um país, que estados inteiros, regiões ou autonomias padecem da mesma discriminação das minorias a mercê da compulsão do Estado centralizado, hoje instrumento insensível nas mãos do grande capital. Isto deverá cessar na medida em que se impulsione uma organização federativa na qual o poder político real volte às mãos das ditas entidades históricas e culturais.
Em suma, pôr à frente os temas do capital e do trabalho, os temas da Democracia real e os objetivos da descentralização do aparelho estatal é encaminhar a luta política rumo à criação de um novo tipo de sociedade. Uma sociedade flexível e em constante mudança, de acordo com as necessidades dinâmicas dos povos, hoje asfixiados pela dependência.


III. A POSIÇÃO HUMANISTA
A ação dos humanistas não se inspira em teorias fantasiosas sobre Deus, a Natureza, a Sociedade ou a História. Ela parte das necessidades da vida que consistem em afastar a dor e aproximar o prazer. Porém, a vida humana acrescenta às necessidades a sua previsão do futuro, baseando-se na experiência passada e na intenção de melhorar a situação atual. A sua experiência não é um simples produto de seleções ou acumulações naturais e fisiológicas, como sucede em todas as espécies, é sim experiência social e experiência pessoal dirigidas para superar a dor atual e para evitá-la no futuro. O seu trabalho, acumulado em produções sociais, passa e transforma-se, de geração em geração, em luta contínua pela melhoria das condições naturais, mesmo as do próprio corpo. Por isto, o ser humano deve ser definido como histórico e com um modo de ação social capaz de transformar o mundo e a sua própria natureza. Cada vez que um indivíduo ou um grupo humano se impõe violentamente a outros, consegue parar a História, converte suas vítimas em objetos "naturais". A natureza não tem intenções, portanto, ao negar-se a liberdade e as intenções de outros, estes são convertidos em objetos naturais, em objetos de uso.
O progresso da humanidade, em lenta ascensão, necessita transformar a natureza e a sociedade eliminando a violenta apropriação animal de uns seres humanos por outros. Quando isto acontecer, passar-se-á da Pré-História a uma plena História humana. Entretanto, não se pode partir de outro valor central que o do ser humano pleno nas suas realizações e na sua liberdade. Por isso, os humanistas proclamam: “Nada acima do ser humano e nenhum ser humano embaixo de outro”. Quando se põe como valor central Deus, o Estado, o Dinheiro ou qualquer outra entidade, subordina-se o ser humano criando condições para o seu ulterior controle ou sacrifício. Os humanistas têm este ponto claro. Os humanistas são ateus ou crentes, mas não partem do seu ateísmo ou da sua fé para fundamentar a sua visão do mundo e a sua ação; partem do ser humano e das suas necessidades imediatas. E se na sua luta por um mundo melhor, crêem descobrir uma intenção que mova a História em direção progressiva, põem essa fé ou essa descoberta ao serviço do ser humano.
Os humanistas colocam o problema de fundo: saber se se quer viver e decidir em que condições fazê-lo.
Todas as formas de violência seja física, econômica, racial, religiosa, sexual e ideológica, graças às quais se tem travado o progresso humano, repugnam aos humanistas. Toda forma de discriminação, manifesta ou velada, é um motivo de denúncia para os humanistas.
Os humanistas não são violentos, mas acima de tudo não são covardes nem temem enfrentar a violência porque a sua ação tem sentido. Os humanistas conectam a sua vida pessoal com a vida social. Não levantam falsas antinomias e nisso radica a sua coerência.
Assim está traçada a linha divisória entre o Humanismo e o Anti-humanismo. O Humanismo põe à frente a questão do trabalho face ao grande capital; a da Democracia real frente à Democracia formal; a da descentralização frente à centralização; a da anti-discriminação frente à discriminação; a da liberdade frente à opressão; a do sentido da vida frente à resignação, à da cumplicidade e ao absurdo.
Porque o Humanismo se baseia na liberdade de escolha é que possui a única ética válida do momento atual. De igual modo, porque acredita na intenção e na liberdade, distingue entre o erro e a má fé, entre o equivocado e o traidor.

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