Manual de Leitura [o saque]



Baixar 406.26 Kb.
Página1/7
Encontro02.12.2017
Tamanho406.26 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7

Manual de Leitura [O Saque]

Logótipos [M|C] [TNSJ] [REN] [UTE]



O Saque

Loot (1964)

de Joe Orton

tradução Luísa Costa Gomes
encenação Ricardo Pais

cenografia Pedro Tudela

figurinos Bernardo Monteiro

sonoplastia Francisco Leal

desenho de luz Nuno Meira
elenco

Hugo Torres Dennis; Meadows

Jorge Mota McLeavy

José Eduardo Silva Truscott

Lígia Roque Fay

Paulo Freixinho Hal

Pedro Almendra Dennis; Meadows

e os figurantes Marta Pires, André Joly


preparação vocal e elocução João Henriques

assistência de encenação João Castro

assistência de figurinos Lícia Cunha
treino de movimento David Santos

treino de esgrima Miguel Andrade Gomes


chefia de produção Maria João Teixeira

direcção técnica Carlos Miguel Chaves, Rui Simão

direcção de montagem Teresa Grácio

direcção de cena Pedro Guimarães, Ricardo Silva

contra-regra André Joly

maquinaria de cena Filipe Silva (chefe), Joaquim Marques, Lídio Pontes, Adélio Pêra, Paulo Ferreira, Jorge Silva

operação de som António Bica, Joel Azevedo

operação de luz Filipe Pinheiro, João Nuno, Abílio Vinhas

adereços e guarda-roupa Elisabete Leão (coordenação); Guilherme Monteiro, Dora Pereira, Nuno Ferreira, Patrícia Mota (aderecistas); Celeste Marinho (mestra-costureira); Nazaré Fernandes, Fátima Roriz, Virgínia Pereira, Maria da Glória (costureiras); Isabel Pereira (aderecista de guarda-roupa)

cabelos e maquilhagem Sano de Perpessac

auxiliar de camarim Laura Esteves

fotografia João Tuna


produção TNSJ
A banda sonora do espectáculo inclui temas tratados a partir dos originais:

Fantasia em Fá Menor, K. 608 | de W.A. Mozart | interpretação John Scott

“Chaminou et le krompire” | de Tony Coe | interpretação Tony Coe, Frank Ricotti, Steve Beresford, John Barclay, Chris Pyne, Laurence Cottle

“Trainspotting” | de/interpretação Primal Scream

“Moon Mist” | de J. Mercer/D. Ellington | interpretação The Out-Islanders

“Alika” | de John Kalapana | interpretação Webley Edwards

A Cavalgada das Valquírias” (de Die Walküre) | de Richard Wagner | interpretação Harold Britton

The House of the Rising Sun” | de Alan Price | interpretação Santa Esmeralda
duração aproximada [1h40] sem intervalo

classificação etária Maiores de 12 anos


Teatro Nacional São João

[14 | 26 Novembro 2006]

terça-feira a sábado 21:30 domingo 16:00



Apoios (com logótipo)

Hotel Quality Inn

Vitalis

Caves Neto Costa



Jorge Lima – Cabeleireiros

Servilusa – Agências Funerárias

Metro do Porto
Apoios à divulgação (com logótipo)

RDP – Antena 1

RDP – Antena 2

Rádio Nova

Jornal de Notícias
Agradecimentos

Câmara Municipal do Porto

Polícia de Segurança Pública

Laboratório de Prótese Dentária Ceuta, Lda.

Manuel Correia – Antiquário

Retina Óptica

Hospital Geral de Santo António
Edição Centro de Edições do TNSJ

Coordenação João Luís Pereira

Documentação Paula Braga

Traduções Rui Pires Cabral

Design gráfico João Faria

Fotografia João Tuna, Douglas Jeffrey (retrato Joe Orton)

Impressão Rocha AG
Teatro Nacional São João

Praça da Batalha

4000-102 Porto

T 22 340 19 00 F 22 208 83 03


Teatro Carlos Alberto

Rua das Oliveiras, 43

4050-449 Porto

T 22 340 19 00 F 22 340 19 07


www.tnsj.pt

geral@tnsj.pt
Não é permitido filmar, gravar ou fotografar durante o espectáculo. O uso de telemóveis, pagers ou relógios com sinal sonoro é incómodo, tanto para os actores como para os espectadores.

Era para esquecer…
…que o dia 6 de Novembro de 2006 é o limite para entregar ao nosso Centro de Edições os textos para o “Manual”, se o queremos pronto a tempo desta maldição obsoleta a que chamamos estreia.

Redijo estas linhas na supracitada data. E nesse mesmo dia não sei ainda como encenar a cena final da peça a que V. Exas. vão assistir. Tal como o Inspector Truscott, pergunto-me se este acidente “não será uma metáfora”. E ele responde-me com o despropósito truculento dos pequenos monstros: “Ora viva o Porto, onde cada impasse é uma esperança e cada alegria um requiem”.


Ricardo Pais
Nota à tradução
Para além dos ajustes naturalmente negociados entre a tradução e o seu espectáculo, a encenação assume neste trabalho algumas liberdades extra. Não chegam no seu conjunto a configurar uma versão cénica; são apenas ajustes e agilizações, alguns deles em laboração até aos últimos ensaios. Estou em crer que não afectam o trabalho de Luísa Costa Gomes, de que tanto gostamos.

Devo agradecer a John Havelda a preciosa ajuda que, ao longo destes meses, nos deu na interpretação do inglês de Orton, do seu estilo e dos seus complexos jogos linguísticos.


Ricardo Pais

Um dos tais” a safar-se da sarjeta


John Havelda*
“Sou da sarjeta e não te esqueças disso, porque eu também não.”

Joe Orton
No período que se seguiu à II Guerra Mundial, a Inglaterra era certamente um lugar sombrio para se viver. Em 1948, a minha mãe emigrou do leste rural da Hungria para Leicester, a cidade natal de Orton, com sonhos de abundância e conforto, ténis e chá. Em vez disso, nas raras ocasiões em que conseguia escapar à escravidão da lida doméstica, sentava-se em Victoria Park e comia um pãozinho para enganar a fome. Por força do racionamento, que só terminaria em 1954, ela tinha direito semanalmente a apenas 30 gramas de fiambre, 40 gramas de queijo, 200 gramas de manteiga, um litro e meio de leite e um ovo, quando os havia.

Estou certo de que a minha mãe, ao abandonar a mais celebrada e bucólica região vitícola da Hungria, se deixou impressionar pela dimensão do desenvolvimento urbano das Midlands inglesas. No período do pós-guerra, a Grã-Bretanha era de longe o país mais urbanizado e industrializado da Europa. Apenas uma em cada vinte pessoas trabalhava na terra. Em França, o número correspondente era mais ou menos de uma em cada três. Parte do conservadorismo britânico é o resultado das enormes mudanças sociais que tiveram início com a Revolução Industrial. A nostalgia de um passado rural idílico está bem patente na paixão nacional pela jardinagem.

Em 1948, Orton tinha 15 anos e vivia muito perto da casa dos meus pais, no bairro de Eyres Monsell. Embora os meus pais trabalhassem dia e noite em fábricas de têxteis e de calçado, tentando juntar o dinheiro de sinal para a compra de uma pequena casa semi-independente numa rua desfigurada por fábricas – a minha mãe estava mais longe da terra do chá e do ténis do que quando vivia em Tokaj –, todos nós achávamos que a nossa situação era muito melhor do que a das pessoas que viviam em Monsell.

A biografia de Orton por John Lahr, Prick Up Your Ears, documenta o desejo desesperado do jovem actor de escapar ao tédio esmagador de um emprego rotineiro numa cidade cujo lema é “Semper Eadem” – “Sempre a Mesma” –, uma dessas esplêndidas coincidências, tendo em conta que o trabalho de Orton é, entre outras coisas, um ataque aberto às forças do conservadorismo britânico. Orton causaria certamente alguma estranheza num lugar onde o teatro e a escrita dificilmente entravam nas conversas de sexta-feira à noite nos pubs vizinhos. A última vez que estive em Leicester falei com o homem que reside actualmente no n.º 9 de Fayhurst Road e que conheceu bem a família Orton. Ele recorda-se de ter perguntado a Douglas, o irmão de Orton, o que é que o jovem John escrevinhava constantemente no caderno de notas que levava para todo o lado. “Meteu na cabeça que há-de escrever um livro quando crescer”, foi a resposta que obteve. De que outras formas se distinguiria John Orton? Ao contrário dos outros miúdos, John dizia “Mum” em vez de “Mam” ou “Mother”, o que era entendido como uma negação da sua classe social e levou um dos seus colegas de escola a comentar: “Ele fala como um dos tais” [one of them1].

Orton acabaria por conseguir escapar à Leicester do pós-guerra em 1951, graças a uma bolsa de estudos para a Royal Academy of Dramatic Arts (RADA) de Londres, onde conheceria Kenneth Halliwell. Com um humor lacónico e eufemístico, Orton descreve no seu diário, nesse mesmo ano, aquela que terá sido provavelmente a sua primeira experiência homossexual significativa:
8 de Junho Conheci o Ken. Ele convidou-nos a viver com ele.

9 de Junho Fui ao cinema. Nota: Estou confuso.

10 de Junho Não fiz nada.

11 de Junho Temos de deixar este apartamento.

12 de Junho Ken volta a convidar-nos a partilhar o apartamento.

13 de Junho Digo-lhe que não.

14 de Junho Novo convite do Ken.

15 de Junho Aceitamos porque não temos outra hipótese.

16 de Junho Mudança para o apartamento do Ken.

17 de Junho Bem!

18 de Junho Bem!!

19 de Junho Bem!!!”
Depois dos estudos na RADA e de um breve período em que trabalhou como assistente de direcção de cena no Ipswich Repertory Theatre, Orton passou grande parte da década de 50 a escrever romances e peças em parceria com Halliwell e, infamemente, a danificar livros da biblioteca de Islington, uma actividade pela qual foram ambos detidos e sentenciados a seis meses de prisão em 1962. Cumprida a pena, Orton e Halliwell regressaram a Londres e aos Swinging Sixties. Durante alguns anos, a cidade tornou-se o centro mundial da moda, do design e da música pop. Assim, Orton escreveu as suas principais peças num período em que, de acordo com alguns historiadores, a Grã-Bretanha conheceu nada menos do que uma revolução cultural.

Foi de facto um período marcado por grandes mudanças na lei que tiveram importantíssimas repercussões na vida de muitas pessoas. O serviço militar foi abolido em 1960. (Orton conseguira evitar o recrutamento agravando a infecção da cicatriz de uma apendicectomia, fumando vários maços de Gauloises sem filtro por dia, apesar de não ser fumador, para tentar provocar um ataque de asma, e fingindo-se surdo de um ouvido.) Em 1737, o governo britânico mandou encerrar todos os teatros à excepção de dois, e as peças passaram a ser censuradas pelo Lord Chamberlain e pelos seus “Examinadores de Peças”. Esta lei limitou seriamente a produção artística até à sua abolição, em 1968. O aborto e a homossexualidade foram descriminalizados em 1967, e a idade de voto foi reduzida em 1969 para os 18 anos. Em 1965, o parlamento aprovou um decreto que abolia a pena capital por enforcamento durante um período experimental de cinco anos, findo o qual, em 1969, a abolição foi tornada permanente.

Na Grã-Bretanha, os anos 60 foram também uma época de rápida inovação tecnológica. Após o prolongado período de austeridade que se seguiu à II Guerra Mundial, o país começava a aproximar-se, em termos económicos, dos Estados Unidos. Entre 1950 e 1970, construíram-se seis milhões de novas casas. Entre 1955 e 1969, o rendimento semanal médio aumentou em 130%. Foi um período de optimismo e de confiança no futuro. O primeiro cartão de crédito – o “Barclaycard” – foi introduzido em 1966, e 40% dos gastos em automóveis, mobiliário e electrodomésticos eram feitos a crédito. Eu devia ter cerca de cinco anos quando deitámos fora o velho televisor a preto e branco, com o seu ecrã de 10 por 8 cm e as suas imagens distorcidas pelo enorme vidro de aumento colocado entre o ecrã e os meus olhos arregalados. Quando o aparelho a cores alugado chegou, passei toda a tarde de sábado a assistir às corridas de cavalos, deslumbrado com os relvados verdes que tinham subitamente aparecido no interior daquela caixa ao canto da sala de estar. Alguns anos antes, os televisores eram ainda uma raridade; em 1967, esses aparelhos marcavam presença em 90% dos lares britânicos.

As personagens dos programas televisivos tornaram-se os nossos heróis e heroínas; os anúncios publicitários imprimiram os seus slogans e cançonetas no espírito de todos nós – e também no de Orton, suponho, já que muitas das suas personagens foram contagiadas por uma estirpe do vírus da corriqueira linguagem televisiva. Orton ataca estilisticamente a Grã-Bretanha caseira e conservadora, mostrando que os chavões e os lugares-comuns, essa espécie de linguagem em férias, são absurdos, anacrónicos e cómicos.


McLeavy De que me acusam?

Truscott Não se preocupe com isso agora. Depois pensamos nos pormenores.

McLeavy Não me podem fazer isto. Sempre fui um cidadão cumpridor. A polícia serve para proteger as pessoas comuns.

McLeavy Não percebo onde é que o senhor vai buscar essas frases publicitárias. Deve lê-las nos cartazes.”
Nos cartazes e na TV. De acordo com o dramaturgo Terence Rattigan, “aquilo que Orton tinha a dizer sobre a Inglaterra e a sociedade ainda não fora dito. A primeira coisa que nos mostrava era uma sociedade diminuída pela tele-tecnologia. Toda a gente se exprimia como se tivesse crescido a ver televisão”. Orton pode parecer datado a alguns ouvidos ingleses, mas a sua hilariante denúncia do vírus da linguagem disseminado pelos televisores continua a ser, infelizmente, mais do que pertinente nestes nossos tempos da televisão por cabo.

Os anos 60 são sinónimo da Era Espacial e assistiram ao lançamento do primeiro satélite artificial, ao qual se seguiu o primeiro voo espacial com tripulação humana. Os designers adoptaram as formas geométricas a negro, branco e prateado. As roupas que imitavam as telas Op art de Bridget Riley eram o último grito da moda. Como afirma o historiador Dominic Sandbrook2, o look da Era Espacial era “progressista, confiante e democrático, enfatizando a liberdade, o lazer e a realização pessoal”.

Em 1965, Londres assistiu à inauguração do seu edifício mais alto – a Post Office Tower com os seus 300 metros de aço e vidro, símbolo e glorificação da tecnologia. Na década de 60, a ciência era sexy. Em 1963, o primeiro-ministro Harold Wilson referiu-se, celebremente, a uma Grã-Bretanha “forjada no calor branco desta revolução [científica]”.

Porém, esta versão de uns revolucionários Swinging Sixties é talvez exagerada e demasiado simplista. Apesar das diferenças muito palpáveis entre a Grã-Bretanha de 1948 e a de 1966, data em que O Saque iniciou a sua carreira no Jeanetta Cochrane Theatre de Londres, as mudanças na Grã-Bretanha eram a meta final de longas batalhas que remontavam, pelo menos, aos inícios do século XX. Não se tratou, portanto, de uma alteração repentina.

Além disso, seria um disparate sustentar que toda a Grã-Bretanha tinha entrado alegremente na onda dos Swinging Sixties. Para o meu irmão, que tinha 16 anos em 1966, tomar um café na estação de serviço mais próxima numa noite de sexta-feira constituía um acto de rebeldia que tinha de ser realizado às escondidas dos nossos pais. Certas zonas de Londres e de algumas das outras principais cidades do país podiam ser espantosamente diferentes de Eyres Monsell, mas um conservadorismo profundamente arraigado era claramente hegemónico. Quando Churchill morreu, em 1965, 25 milhões de pessoas assistiram ao funeral em directo pela televisão, e o primeiro-ministro trabalhista, Harold Wilson, afirmou no seu discurso:
“Esta noite, a nossa nação chora a perda do maior homem que qualquer um de nós jamais conheceu”.
Apenas dois anos mais tarde, Orton concluiu a sua última peça, What the Butler Saw. Na cena final, com as personagens bêbadas, drogadas, travestidas, ou várias destas coisas ao mesmo tempo, o sargento da polícia Match, envergando um vestido estilo pele de leopardo, brande um modelo em bronze do pénis de Churchill.

O Dr. Rance comenta:


(Com admiração.) Como teria sido muito mais inspirador, naqueles tempos sombrios, se tivéssemos visto o que agora vemos. Em vez disso, tivemos de nos contentar com um charuto – um símbolo muito inferior, como todos podemos ver, ao objecto em questão”.
Assim, não é de espantar que na noite da primeira apresentação da peça em Londres, no Queen’s Theatre, em 1969, alguns elementos do público tenham vociferado: “Lixo!”, “Imundície!” e “Acabem com isso!”. Como afirmou Stanley Baxter, um dos actores: “A fúria era mais do que evidente pela altura da chamada ao palco. O público do galinheiro estava com ganas de saltar para o palco e de nos matar a todos”.

Uma série de pesquisas realizadas durante a década sugere também que a Grã-Bretanha não era talvez tão tolerante, tão swinging, quanto alguns historiadores nos têm feito crer. Em 1963, a jardinagem era o hobby predilecto dos britânicos – em finais da década, havia 14 milhões de jardins no país. Obviamente, a domesticidade era, e continua a ser, muito importante na Grã-Bretanha. Quando não estavam a jardinar, os britânicos passavam grande parte dos seus tempos livres a ver televisão. Ao longo dos anos 60 produziram-se alguns notáveis e inovadores programas televisivos, entre os quais The Wednesday Play, que transmitia obras extremamente controversas de autores como Dennis Potter e Ken Loach. Contudo, o programa que cativava regularmente 18 milhões de espectadores era The Forsyte Saga, um drama de época sobre uma família aristocrática. Uma sondagem publicada pela New Society em 1969 revelava que 66% dos britânicos entre os 16 e os 24 anos consideravam que a pena capital por enforcamento devia ser reintroduzida, que 26% dos adultos discordavam de um abrandecimento das leis contra a homossexualidade, o divórcio e o aborto, e que existia mais hostilidade contra os imigrantes de cor entre os mais jovens do que entre os reformados. Talvez Hal esteja errado quando afirma, a propósito do pai: “Vai ficar chocadíssimo. Lá está, já se prepara. A geração dele adora indignar-se”. Talvez a susceptibilidade ao choque não fosse afinal um atributo exclusivo da geração mais velha. Ao invés de revolucionarem os valores britânicos, o aumento do consumismo e a inovação tecnológica parecem ter entrincheirado o conservadorismo em grande parte da Grã-Bretanha dos anos 60.

Durante essa década, a vida para a maioria das pessoas tornou-se muito mais confortável do que alguma vez tinha sido; porém, sob o verniz dos Swinging Sixties, havia ainda um considerável grau de pobreza. O Reverendo Bruce Kenrick, o fundador da Shelter, uma organização de apoio aos sem-abrigo, contabilizava em três milhões o número de famílias que viviam em bairros miseráveis ou em condições mais ou menos insalubres. Em meados dos anos 60, três milhões de lares urbanos não tinham casa de banho nem água quente corrente. Em Sunderland, no nordeste da Inglaterra, metade das casas não tinha sequer água fria corrente. O glamour dos anos 60 não se espalhara muito para lá da capital, e não chegara sequer a muitas zonas da mesma.

Talvez houvesse pobreza, mas que dizer então do desafio colocado pela música pop e a cultura juvenil? No fim de contas, foi esta a década que inventou os Beatles e os Rolling Stones, os Who e os Kinks. De facto, no início dos anos 60, as bandas britânicas não só dominavam o mercado interno, como também invadiram a América. Em 1964, os Beatles participaram como convidados no Ed Sullivan Show e 73 milhões de espectadores assistiram ao programa – a maior audiência televisiva americana de todos os tempos. Dois meses antes, os Beatles eram desconhecidos na América. Muitas bandas britânicas seguiram-lhes o exemplo, se bem que algumas delas, como os Dave Clark Five e os Herman’s Hermits, cultivassem com frequência um “inglesismo” estereotipado e nostálgico – os segundos gozaram de um considerável sucesso com uma canção intitulada “I’m Henry the Eighth I Am”. Seria ingénuo subestimar a enorme influência que a música pop e a cultura juvenil exerceram durante este período: o próprio Orton namoriscou temporariamente com esse mundo, antes de Brian Epstein ter rejeitado, em 1967, o guião de um filme que o dramaturgo escrevera para os Beatles, Up Against It. Contudo, duvido que o choque causado pelas peças de Orton tivesse sido de algum modo atenuado por Mick Jagger e o modo irado como proclamava a sua falta de satisfação3. Embora os adolescentes ricos gastassem mais dinheiro do que nunca em discos de música pop, muito desse dinheiro ia parar aos bolsos de músicos conservadores. Em 1967, o single “Penny Lane/Strawberry Fields Forever” dos Beatles ocupava a segunda posição nas tabelas de vendas, cabendo o primeiro lugar a “Release Me”, uma balada insípida de Englebert Humperdinck (outro nativo de Leicester, entristece-me dizer). De facto, a avaliar pelas tabelas de vendas, o maior sucesso da década não foram os Beatles, mas sim Cliff Richard. Talvez mais significativo ainda, a banda sonora do filme The Sound of Music permaneceu no “top 10” durante mais de cinco anos, vendendo um número superior a dois milhões de cópias. Aparentemente, nem todos os britânicos estavam interessados em ver guitarras Stratocaster a serem escavacadas contra amplificadores Marshall.

Orton escreveu no seu diário em Março de 1967:
“É a única forma de fazer em pedaços a maldita civilização. O sexo é a única maneira de os enfurecer. Muito mais sexo, e eles entram em histeria não tarda nada”.
E, contudo, como podia ele esperar que a franca sexualidade das suas peças perturbasse tão profundamente o establishment num período apresentado por muitos historiadores como sexualmente emancipado? O sexo libertara-se de todos os convencionalismos e estava em toda a parte: a Grã-Bretanha atravessava uma verdadeira revolução sexual. Ou, pelo menos, assim reza a história. Brian Masters, por exemplo, afirma que os adolescentes dos anos 60 foram “a primeira geração desde a guerra a decidir que os mistérios do sexo deviam ser explorados e descobertos por simples prazer. As pessoas copulavam ao mínimo pretexto minutos depois de se conhecerem. Os parceiros sexuais eram usados e abandonados sem cerimónias”.

Philip Larkin inicia o seu poema “Annus Mirabilis”, de 1967, com uma referência à revolução sexual: “Sexual intercourse began/ In nineteen sixty-three/ (Which was rather late for me)”. [“As relações sexuais começaram/ Em mil novecentos e sessenta e três/ (Já eu tinha perdido a vez)”.]

De acordo com uma tese habitualmente defendida, esta revolução foi tornada possível pela invenção da pílula contraceptiva, que os médicos começaram a prescrever em 1961. Contudo, algumas pesquisas apresentam um quadro bastante diferente. Em 1970, menos de uma em cada dez mulheres tinha usado a pílula. Michael Schofield publicou The Sexual Behaviour of Young People em 1965, descobrindo que a maioria dos seus 2 000 entrevistados eram ainda virgens aos 19 anos, e que, regra geral, as primeiras experiências sexuais ocorriam no contexto de uma relação afectiva regular. A pesquisa de Geoffrey Gorer, publicada em 1971 sob o título Sex and Marriage in England Today, revelava que a maioria dos britânicos solteiros, homens e mulheres, eram virgens, e que só uns poucos tinham relações sexuais mais do que uma vez por semana. O medo do sexo era até publicamente expresso por membros do governo trabalhista. Em meados dos anos 60, George Brown, o ministro dos Negócios Estrangeiros, declarou:
“Não julguem que os adolescentes são capazes de entender as vossas ideias liberais. Teremos uma sociedade totalmente desorganizada, indecente e desagradável. É preciso haver regras! No que toca ao sexo, as coisas já foram longe demais. Na minha opinião, nenhum tipo de sexo é agradável. É um acto bastante indigno, e sempre assim pensei”.
Se as atitudes gerais perante a heterossexualidade pareciam estar um tanto distantes da lenda dos Swinging Sixties, as atitudes para com a homossexualidade eram pura e simplesmente reaccionárias. Metade dos rapazes e um terço das raparigas entrevistados por Schofield consideravam que “todos os homossexuais deviam ser severamente punidos”. Em 1963, um homem acusado de sodomia e de atentado ao pudor podia enfrentar uma pena de três anos de prisão. A homossexualidade era desde há muito associada à subversão e à traição, se bem que, graças a pressões por parte de activistas e de alguns membros da Igreja Anglicana, o governo tivesse nomeado em 1954 uma comissão liderada por Sir John Wolfenden para examinar as leis aplicadas à prostituição e à homossexualidade. Em 1957, o Relatório Wolfenden recomendava que fossem aprovadas leis mais severas para lidar com as prostitutas, mas propunha também a descriminalização dos actos homossexuais consentidos entre homens adultos. De acordo com Wolfenden, estas recomendações visavam salvaguardar “a ordem e a decência públicas”. No entanto, só em 1967 a Lei das Ofensas Sexuais descriminalizou a homossexualidade na Inglaterra e no País de Gales4. A homossexualidade tornou-se legal “em privado”, mas os tribunais davam à lei uma interpretação muito restrita, de modo a excluir actos que tivessem lugar em hotéis, por exemplo, ou em casas particulares sempre que estivesse presente uma terceira pessoa – e mesmo que essa pessoa se encontrasse num outro compartimento.

Nos anos 60 verificou-se uma gradual mudança na atitude geral para com a homossexualidade, que começava a ser vista não como um crime ou um pecado, mas como uma doença5. De acordo com uma sondagem de opinião realizada em 1963, 93% dos britânicos acreditava que os homossexuais necessitavam de ajuda médica. Clínicas para o tratamento da homossexualidade foram estabelecidas em Londres, Birmingham, Manchester, Glasgow e Belfast. O tratamento mais comum era a terapia preventiva com choques eléctricos. Um médico recorda:


“Tivemos de nos tornar génios da electrocussão! A situação era esta: tínhamos um ecrã e a pessoa sentava-se à mesa ligada àquelas coisas [o equipamento eléctrico] e tinha de mover uma alavanca para evitar os choques. As primeiras imagens eram de homens bonitos, a que se seguiam homens feios, mulheres feias e finalmente mulheres bonitas”.
Utilizava-se também a psicoterapia e métodos comportamentais, como encorajar os “pacientes” a masturbarem-se, substituindo as fantasias homossexuais por fantasias heterossexuais no momento do orgasmo. Os tratamentos da homossexualidade alcançaram o seu ponto culminante em finais dos anos 60 e inícios da década seguinte, após a descriminalização.

É pois compreensível que a obra de Orton, marcada por uma homossexualidade não estereotipada e por temas como a promiscuidade e o incesto, com o seu travestismo anárquico e o seu alegre, prestissimo e cómico assalto a todos os valores fundamentais da Grã-Bretanha, à lei, à ordem e à ética de trabalho puritana, tenha abalado e seduzido as audiências dos talvez não tão liberais e tolerantes Swinging Sixties.


1 “One of them” é um eufemismo para homossexual.

2 Devo reconhecer a minha profunda dívida, na escrita deste artigo, para com os dois excelentes volumes de Dominic Sandbrook sobre os anos 60, Never Had It So Good e White Heat.

3 A música pop da década em mais perfeita sintonia com Orton não era a dos Beatles ou a dos Rolling Stones, mas sim a dos Kinks. A sua canção “Lola” é sobre um inocente que é seduzido por um travesti, e “See My Friend” sobre bissexualidade.

4 A idade de consentimento para a prática de actos homossexuais só seria reduzida para os 16 anos em 2001.

5 A homossexualidade foi excluída da ICD-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10.ª Revisão) apenas em 1992.

  1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal